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                    Sociedade</abbrev-journal-title>
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                <publisher-name>Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas;
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					<subject>Artigo original</subject>
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				<article-title>O conceito de pobreza na abordagem das necessidades
					humanas</article-title>
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					<trans-title>The concept of poverty in the Human Needs Approach</trans-title>
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						<surname>Silva</surname>
						<given-names>Ana Márcia Rodrigues da</given-names>
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					Aplicadas</institution>
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				<email>anamarciarodrigues@gmail.com</email>
				<institution content-type="original">Professora Adjunta do Instituto de Ciências
					Sociais Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL) - Campus
					Avançado de Varginha, Varginha, MG, Brasil</institution>
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				<institution content-type="normalized">Universidade Federal de Uberlândia</institution>
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				<email>hdneder@gmail.com</email>
				<institution content-type="original">Professor da Universidade Federal de Uberlândia
					(UFU), Uberlândia, MG, Brasil</institution>
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			<author-notes>
				<fn fn-type="edited-by">
					<label>EDITOR RESPONSÁVEL PELA AVALIAÇÃO</label>
					<p><italic>Carolina Troncoso Baltar</italic></p>
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			</author-notes>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>A pobreza é frequentemente estudada com base em uma única dimensão,
					predominantemente representada pela renda. Mas existem outras dimensões
					relevantes nas discussões sobre o tema, como estar bem nutrido, estar bem
					abrigado, ter boa saúde e participação na sociedade, entre outras. Uma abordagem
					que pode auxiliar a sustentar esta concepção multidimensional para a pobreza é a
					abordagem das necessidades humanas. Assim sendo, neste trabalho, objetiva-se
					apresentar o quadro evolutivo dessa abordagem a fim de estabelecer um conceito
					multidimensional para a pobreza. Por meio de uma análise teórica, ao longo deste
					estudo, demonstrou-se que a abordagem das necessidades humanas é marcada por uma
					variedade de interpretações. A abordagem evoluiu para incorporar aspectos que,
					se não forem satisfeitos, limitam e impedem as pessoas de usufruírem de uma vida
					digna. Portanto, em oposição à ideia fundamentada estritamente na renda, a
					pobreza passa a ser entendida como não satisfação das necessidades.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>Poverty is often studied on the basis of a single dimension, predominantly
					represented by income. But there are other relevant dimensions in the
					discussions about the theme, such as, to be well nourished, to be
					well-sheltered, and to have good health, participation in society, among others.
					An approach which can help to sustain this multidimensional conception of
					poverty is the approach to human needs. Thus, this paper aims to present the
					evolutionary framework of this approach in order in order to establish a
					multidimensional concept for poverty. Through a theoretical analysis, throughout
					this study, it has been shown that approach to human needs is marked by a
					variety of interpretations. The approach has evolved to incorporate aspects
					that, if they are not satisfied, limit and prevent people from enjoying a decent
					life. Therefore, in opposition to the idea strictly based on income, the poverty
					is understood as non-satisfaction of needs.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Renda</kwd>
				<kwd>Dimensões</kwd>
				<kwd>Necessidades humanas</kwd>
				<kwd>Pobreza multidimensional</kwd>
				<kwd>Não satisfação das necessidades</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Income</kwd>
				<kwd>Dimensions</kwd>
				<kwd>Human needs</kwd>
				<kwd>Multidimensional Poverty</kwd>
				<kwd>Non-satisfaction of needs</kwd>
			</kwd-group>
			<counts>
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		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>1 Introdução</title>
			<p>O pensamento predominante sobre a pobreza a classifica como insuficiência de
				rendimentos abaixo de um nível mínimo aceitável. Nesta visão, a renda é a
				variável-chave utilizada na sua mensuração. Todavia, esse enfoque tem sido
				questionado por uma literatura mais recente. A renda é importante, porém, existem
				outras dimensões não menos relevantes que têm sido negligenciadas nas análises sobre
				pobreza.</p>
			<p>A renda é uma variável crucial na análise da pobreza, pois possibilita adquirir
				cestas de consumo e, com isso, permite que, secundariamente, outras dimensões da
				pobreza sejam atendidas, por exemplo, a posse de bens básicos. No entanto, certas
				dimensões correm o risco de nunca serem completamente satisfeitas, como possuir uma
				boa oferta de água potável, rede de esgoto e coleta de lixo.</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B2">Alkire et al. (2015)</xref>, essas ideias
				ganharam repercussão na década de 1970, com a abordagem das necessidades básicas. A
				partir deste período, autores como <xref ref-type="bibr" rid="B24">Streeten
					(1981)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B27">Stewart (1995)</xref> se
				dedicaram ao estudo das necessidades, não somente na dimensão biológica ou de
				sobrevivência dos seres humanos, mas relacionadas à remoção das privações que
				impedem o acesso à educação, aos serviços de saúde, à água potável, entre outras. A
				partir daí, a literatura sobre o tema evoluiu e passou a incorporar necessidades
				materiais e não materiais, tais como autonomia e participação política (<xref
					ref-type="bibr" rid="B28">Stewart, 2006</xref>).</p>
			<p>O debate sobre o tema extrapolou o meio acadêmico, uma vez que a abordagem das
				necessidades humanas básicas como estratégia de desenvolvimento e redução da pobreza
				passou a ser recomendada por organizações internacionais, dentre elas, a Organização
				Internacional do Trabalho (OIT). No quadro teórico e empírico, de acordo com <xref
					ref-type="bibr" rid="B28">Stewart (2006)</xref>, a abordagem<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup>, influenciou a visão sobre o
				desenvolvimento humano, mediante os sucessivos relatórios de desenvolvimento humano,
				elaborados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A
				ferramenta metodológica mais conhecida oriunda desta abordagem<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></sup> é o Índice de Desenvolvimento Humano
				(IDH).</p>
			<p>Como situação oposta ao desenvolvimento humano, está a condição de pobreza humana.
				Assim, recorrentemente, essa abordagem tem sido citada pela literatura sobre
				pobreza. Em geral, interpretações específicas da abordagem são utilizadas sem
				considerar sua evolução teórica. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B2">Alkire et
					al. (2015)</xref>, alguns estudos unidimensionais aproveitam a abordagem para
				focar a quantidade mínima de recursos para satisfazer necessidades. Todavia, outros
				estudos fundamentam-se em estágios específicos para a constituição de um conceito
				multidimensional, como citado em <xref ref-type="bibr" rid="B16">Salama e Destremau
					(1999)</xref>. Poucos trabalhos sobre pobreza exploram a abordagem considerando
				seu quadro evolutivo, conforme fazem <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bagolin e Ávila
					(2006)</xref>. Desta maneira, neste artigo, segue-se a mesma linha de pensamento
				desses últimos autores, procurando aprofundar e acrescentar discussões ao
				debate.</p>
			<p>Diante dessas constatações, a primeira hipótese deste trabalho é que a pobreza pode
				ser compreendida, além da renda, observando-se aspectos multidimensionais. Isto
				porque a visão baseada em uma única dimensão, isto é, a unidimensional, pode gerar
				resultados que representam apenas parte dos requerimentos dos indivíduos, o que pode
				comprometer a formulação de políticas públicas de combate à pobreza.</p>
			<p>A segunda hipótese deste trabalho é que a abordagem das necessidades humanas básicas
				constitui-se em um corpo teórico consistente com este pensamento. A pertinência
				dessa abordagem para a conceituação da pobreza multidimensional foi questionada por
					<xref ref-type="bibr" rid="B17">Sen (1990)</xref>. A abordagem foi acusada de
				recair no fetichismo das <italic>commodities</italic>. Neste sentido, este trabalho
				visa apresentar a diversidade desta abordagem em distintos estágios, bem como as
				defesas às críticas recorrentes.</p>
			<p>Assim sendo, por meio deste trabalho pretende-se expor o pensamento multidimensional
				sobre pobreza com base em discussões teóricas sobre o tema. Logo, objetiva-se
				apresentar o quadro evolutivo da abordagem das necessidades humanas, com o intuito
				de estabelecer um conceito multidimensional para a pobreza. Para tanto, será
				discutida esta vertente teórica, que pode sustentar o estabelecimento deste
				conceito.</p>
			<p>O trabalho está estruturado em quatro seções, além desta introdução e das
				considerações finais. Na segunda seção, apresentam-se as limitações da visão
				unidimensional. Na terceira seção, enfatiza-se o primeiro estágio da abordagem das
				necessidades humanas, suas limitações e contribuições. Além disso, apresenta-se a
				evolução da abordagem no seu segundo estágio até chegar ao terceiro estágio, em que
				as necessidades são concebidas de forma mais ampla. Por fim, na quarta seção,
				discute-se a importância da abordagem para a construção de um conceito
				multidimensional de pobreza.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2 As limitações da abordagem unidimensional da pobreza</title>
			<p>A pobreza é frequentemente estudada com base em uma única dimensão relacionada à
				insuficiência de renda (ou recursos monetários). Esta visão é chamada de
				unidimensional e, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B12">Laderchi, Saith e
					Stewart (2003)</xref>, foi introduzida no final do século XIX e início do século
				XX, sustentada pelo pensamento microeconômico das preferências do consumidor e pelo
				critério de maximização de utilidades<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3"
					>3</xref></sup>. Nela, o enfrentamento da pobreza pode estar fortemente
				vinculado ao desempenho da economia; logo, pode estar mais a cargo do mercado que do
				Estado.</p>
			<p>Admite-se que a dimensão monetária seja um importante componente da pobreza; no
				entanto, entende-se que ela fornece apenas uma imagem parcial. Privações de boa
				saúde, longevidade, educação e participação no processo de tomada de decisões na
				comunidade, por exemplo, não podem ser captadas somente pelo nível de renda. A
				pobreza humana abrange a carência de oportunidades e possui um caráter
				multidimensional relacionado a um conjunto de critérios (<xref ref-type="bibr"
					rid="B18">Sen, 1997</xref>).</p>
			<p>Um exemplo ressaltado por <xref ref-type="bibr" rid="B19">Sen e Klksberg
					(2010)</xref> envolve as crianças sujeitas à morte prematura. Esta situação não
				reflete apenas a insuficiência de renda, mas também saúde pública, condição
				nutricional inadequada, deficiência de seguridade social, carência de
				responsabilidade social e de cuidados de governança. Na prática, os indicadores
				monetários refletem apenas recursos privados, o que pode acarretar um favorecimento
				a políticas voltadas para a geração de renda privada em detrimento de serviços
				públicos.</p>
			<p>O suprimento efetivo de grande parte das necessidades dos seres humanos depende do
				fornecimento de serviços públicos. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B24">Streeten
					(1981)</xref>, os seres humanos tratados simplesmente como consumidores, sejam
				ricos ou pobres, não são tão efetivos no suprimento das necessidades nutricionais e
				da saúde. A maneira como a renda adicional é obtida pode gerar variados efeitos
				nutricionais.</p>
			<p>Nesse sentido, a orientação monetária torna-se incompleta. Isso ocorre porque as
				pessoas podem utilizar a renda adicional para consumir produtos com baixo valor
				nutricional, por exemplo. Além disso, a maneira como a renda é auferida pode afetar
				negativamente a nutrição<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref></sup> (<xref
					ref-type="bibr" rid="B23">Streeten, 1979</xref>).</p>
			<p>O objetivo de suprimento das necessidades requeridas pelas pessoas pode não ser
				plenamente alcançado por redistribuição de renda ou pelas respostas proporcionadas
				pelo mercado. Assim, acredita-se que uma maneira mais adequada de estudar a pobreza
				é por meio da agregação de um conjunto de dimensões além da monetária. Esta forma de
				pensamento visa fornecer subsídios para o seu diagnóstico e para que o seu
				enfrentamento seja realizado.</p>
			<p>Dessa maneira, a pobreza pode ser classificada como multidimensional, dado que é
				permeada por um conjunto de dimensões monetárias e não monetárias que a compõem.
				Baseando-se neste aspecto, é importante discutir a abordagem das necessidades
				humanas na formação de um conceito multidimensional para a pobreza. Segundo <xref
					ref-type="bibr" rid="B22">Silva et al. (2017)</xref>, a abordagem apresenta
				conceitos distintos nas mais diversas áreas. Desse modo, nas próximas seções, serão
				apresentadas algumas das formas de interpretação desta abordagem.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3 A abordagem das necessidades humanas e suas distintas interpretações</title>
			<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B24">Streeten (1981)</xref>, a abordagem das
				necessidades humanas é marcada por uma variedade de interpretações. Uma primeira
				interpretação associa a ideia de necessidades a uma quantidade mínima específica de
				alimentos, roupas, abrigo, água e saneamento que é necessária para prevenir
				problemas de saúde e subnutrição.</p>
			<p>A abordagem também é frequentemente interpretada de maneira subjetiva como a
				satisfação dos consumidores. Essa interpretação é comum entre os economistas
				neoclássicos, que entendem seu atendimento como o suprimento de renda necessário
				para a compra de bens e serviços básicos (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Streeten,
					1981</xref>).</p>
			<p>A grande limitação da compreensão de necessidades vistas como preferências se dá em
				virtude das diversas formas de culturas, assim como das heterogeneidades pessoais.
				Como os seres humanos são diferentes entre si, essas necessidades precisam ser
				atualizadas e especificadas de maneira distinta, coerentes com as diferentes
				situações e de acordo com necessidades particulares. Entretanto, segundo <xref
					ref-type="bibr" rid="B8">Gasper (1996)</xref>, ainda que esta corrente possua
				suas limitações, ela se constitui em um avanço e fornece um contrapeso à ideologia
				do homem econômico, baseada no livre mercado.</p>
			<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B8">Gasper (1996)</xref>, na análise
				normativa das necessidades, é preciso ter em mente que preferências e necessidades
				são conceitos distintos. O discurso em torno das necessidades normativas surge da
				rejeição do mercado como agente principal para priorizar itens, como saúde,
				alfabetização e habitação para todos, explorando seu aspecto universal estendido a
				todos os indivíduos, independente da renda auferida.</p>
			<p>Ao rejeitar o pressuposto de racionalidade ilimitada dos consumidores, é possível
				obter uma interpretação mais intervencionista, denominada paternalista. Neste caso,
				as autoridades públicas devem não apenas tomar decisões em torno da oferta de
				serviços públicos como oferta de água, saneamento e educação, mas “também orientar o
				consumo privado, à luz de considerações públicas” (tradução nossa)<sup><xref
						ref-type="fn" rid="fn5">5</xref></sup> (<xref ref-type="bibr" rid="B24"
					>Streeten, 1981</xref>, p. 26).</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B8">Gasper (1996)</xref> aponta para uma discussão
				instrumental. Assim sendo, geralmente identificam-se os pré-requisitos para vários
				tipos e níveis de capacidades, como, por exemplo, os pré-requisitos para a saúde
				mental e física. Nesse sentido, as necessidades são vistas como requisitos para se
				atingir determinados fins. Com isso, é possível assinalar os determinantes do
				bem-estar, o que é útil para os interesses práticos ao especificar requisitos
				prioritários justificados.</p>
			<p>As necessidades podem ser compreendidas com base em aspectos normativos e éticos, e
				os seus pré-requisitos devem estar associados à prioridade. Baseando-se neles, são
				estabelecidas alegações que a comunidade política deve assegurar aos indivíduos para
				o atendimento de suas necessidades. Isso é importante, uma vez que permite variações
				consideráveis na definição de necessidades prioritárias, de acordo com diferentes
				contextos materiais e culturais; porém, dentro de um quadro comum e sistemático.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B24">Streeten (1981)</xref> acrescenta uma interpretação
				próxima a essa, vinculada à definição sociopolítica que associa a satisfação das
				necessidades aos direitos humanos. Para tanto, enfatiza os aspectos não materiais
				envolvidos no processo, como autonomia e liberdade. Nesta interpretação, as
				necessidades não materiais são entendidas como fins. Tais necessidades são distintas
				dos meios materiais para a sua satisfação, ou seja, das necessidades materiais.</p>
			<p>São evidentes as diversas formas de interpretação da abordagem. Na mesma linha de
				raciocínio, <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bagolin e Ávila (2006)</xref> a
				classificam sinteticamente em três estágios distintos, em que se destacam: no
				primeiro, as necessidades vitais ou de sobrevivência; no segundo, a abordagem das
				necessidades básicas; e, no terceiro, a nova teoria das necessidades humanas. Estes
				estágios serão apresentados nas próximas seções.</p>
			<sec>
				<title>3.1 Primeiro estágio: necessidades vitais ou de sobrevivência</title>
				<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bagolin e Ávila (2006)</xref>, no
					primeiro estágio, as necessidades são classificadas como requisitos espontâneos
					e naturais. As necessidades são vistas como requerimentos para a sobrevivência,
					e sua satisfação concede potencialidades aos seres humanos.</p>
				<p>Dentro deste estágio, pode-se destacar a visão de David Wiggins<sup><xref
							ref-type="fn" rid="fn6">6</xref></sup>. Conforme <xref ref-type="bibr"
						rid="B29">Wiggins (1998)</xref>, existem semelhanças entre os conceitos de
					necessidades e desejos. Entretanto, eles são conceitos diferentes. É possível
					desejar algo sem necessitar, assim como é possível necessitar de alguma coisa
					sem desejar. As necessidades de uma pessoa não dependem somente do funcionamento
					da sua mente, mas dos aspectos concretos que a afetam.</p>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B1">Alkire (2006)</xref>, Wiggins argumenta
					que as necessidades vitais devem ser priorizadas em relação a outros desejos e
					necessidades não vitais. Por isso, primeiramente, o autor define as necessidades
					que ele qualifica como absolutas. As necessidades absolutas são aquelas que, se
					não forem atendidas prioritariamente, podem causar graves danos, comprometendo a
					própria sobrevivência do indivíduo.</p>
				<p>Quando o autor prioriza as necessidades vitais, na verdade, ele está propondo uma
					hierarquização das necessidades. O pensamento que daí resulta é o de observar o
					grau de importância das necessidades, para que aquelas mais urgentes possam ser
					atendidas.</p>
				<p>Para o entendimento do conceito de necessidades absolutas, <xref ref-type="bibr"
						rid="B30">Wiggins e Dermen (1987)</xref> supõem uma necessidade
						<italic>x,</italic> que pode ser entendida como saneamento, habitação ou
					vestuário, por exemplo. Com base no conceito de necessidade absoluta, uma pessoa
					necessita absolutamente de <italic>x,</italic> se e somente se ela necessitar
							instrumentalmente<sup><xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref></sup> de
						<italic>x</italic> para evitar danos à sua sobrevivência (<xref
						ref-type="bibr" rid="B29">Wiggins, 1998</xref>).</p>
				<p>Assim sendo, uma pessoa necessita absolutamente de <italic>x,</italic> se e
					somente se ela ficar prejudicada se ficar sem <italic>x.</italic> As
					necessidades absolutas são pré-requisitos para que as pessoas vivam uma vida
					ilesa.</p>
				<p>O discernimento sobre o quanto a satisfação da necessidade é importante pode ser
					feito pela avaliação do dano ou sofrimento causado, caso a pessoa fique sem
					aquilo que necessita. Por meio desta caracterização, é possível classificar as
					necessidades em absolutas<sup><xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref></sup> ou
					não.</p>
				<p>As necessidades básicas também assumem a forma relativa em relação a alguma conta
					do bem-estar, à cultura e à compreensão individual, e às possibilidades viáveis
					no momento<sup><xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref></sup>. Segundo <xref
						ref-type="bibr" rid="B1">Alkire (2006)</xref>, esse relativismo implica que
					a abordagem das necessidades básicas de Wiggins só possa ser especificada muito
					localmente e em relação a algum tempo particular. Por isso, elas não são
					factíveis de serem vinculadas a um conjunto de metas globais.</p>
				<p>Dessa maneira, ainda que reconheça que a insatisfação das necessidades causa
					danos, o autor define necessidades relativamente aos objetos de necessidade. As
					necessidades são descritas como um estado de dependência em relação a ser ou não
					ser prejudicado. Para <xref ref-type="bibr" rid="B1">Alkire (2006)</xref>, essa
					especificação é pouco satisfatória.</p>
				<p>Ao tratar de necessidades vitais ou de sobrevivência, segundo <xref
						ref-type="bibr" rid="B14">Pereira (2006)</xref>, isto ignora a importância
					das necessidades. Assim sendo, outras necessidades que são relevantes para o
					bem-estar humano são desconsideradas, por não se enquadrarem na categoria de
					provocar graves danos caso não sejam atendidas. A ideia de provocar sérios
					prejuízos ou graves danos deixa margem para a ênfase no conceito de necessidades
					fisiológicas. Vistas como necessidades naturais, é possível traçar um paralelo
					estreito entre a ideia de necessidades e a dimensão biológica por trás dela.</p>
				<p>A visão de necessidades naturais ou de sobrevivência reduz a exigência sobre as
					necessidades básicas, pois, desse modo, as necessidades não se diferem muito das
					necessidades animais, e sua satisfação pode ser realizada com o mínimo possível.
					Obviamente, não somente as necessidades de sobrevivência são importantes.</p>
				<p>Neste estágio, a interpretação de pobreza ficou restrita à insatisfação das
					necessidades naturais e de sobrevivência. Logo, não se abre espaço para o
					acréscimo de dimensões mais abrangentes da vida humana. <xref ref-type="bibr"
						rid="B24">Streeten (1981)</xref> reconhece que essa interpretação é
					limitada. Apesar disso, segundo o autor, abre-se espaço para importantes
					questões, como a forma de prover recursos para que essas necessidades sejam
					satisfeitas.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.2 Segundo estágio: abordagem das necessidades básicas</title>
				<p>A abordagem das necessidades básicas marca o segundo estágio da abordagem das
					necessidades humanas, nos termos utilizados por <xref ref-type="bibr" rid="B3"
						>Bagolin e Ávila (2006)</xref>. Neste estágio, cabe ressaltar as
					contribuições de Paul Streeten e Frances Stewart<sup><xref ref-type="fn"
							rid="fn10">10</xref></sup>. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B3"
						>Bagolin e Ávila (2006)</xref>, o segundo estágio representou uma
					operacionalização amplificada do primeiro estágio.</p>
				<p>Conforme <xref ref-type="bibr" rid="B24">Streeten (1981)</xref>, a discussão
					sobre necessidades básicas iniciou-se na década de 1950. Neste período, o
					crescimento econômico era enfatizado como forma de erradicar a pobreza, cujo
					pensamento estava embasado na curva de <xref ref-type="bibr" rid="B11">Kuznets
						(1955)</xref>. De acordo com essa ideia, na fase inicial do desenvolvimento,
					as rendas <italic>per capita</italic> seriam incrementadas, a desigualdade
					cresceria sob a penalidade do aumento da pobreza de alguns indivíduos. Para
					atender à curva em forma de U invertido, logo depois, o crescimento da renda
					seria acompanhado de aumento da igualdade, com uma consequente redução da
					pobreza. No entanto, não foi isso que se verificou.</p>
				<p>Nas décadas de 1950 e 1960, os países em desenvolvimento adotaram estratégias de
					crescimento e industrialização. Embora em alguns termos isso tenha sido
					bem-sucedido (como o crescimento da industrialização e a melhora de alguns
					indicadores sociais), gerou setores privilegiados e economicamente modernos
					convivendo com o restante da economia em situação de baixa renda e baixo
					investimento. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B28">Stewart (2006)</xref>, em
					geral, a incidência da pobreza absoluta permaneceu elevada<sup><xref
							ref-type="fn" rid="fn11">11</xref></sup>.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B25">Streeten e Burki (1978)</xref> destacam que as
					altas taxas de crescimento não surtiram o efeito esperado na redução da pobreza
					nos países em desenvolvimento. De acordo com os autores, o crescimento econômico
					contribuiu muito pouco para a diminuição da pobreza que atingia as massas
					populacionais.</p>
				<p>Em relação a esta afirmação, é necessário destacar que, segundo Deaton (2017), o
					argumento de que o crescimento econômico beneficia somente os ricos é um
					argumento equivocado. Quanto a isso, o autor lembra que o declínio do
					crescimento econômico está associado ao aumento da desigualdade, haja vista que
					provoca a expansão da renda das pessoas que ocupam “o topo da pirâmide
					distributiva”.</p>
				<p>Por sua vez, a visão dos teóricos das necessidades básicas é que o crescimento
					econômico, por si só, não conduz à automática diminuição da pobreza<sup><xref
							ref-type="fn" rid="fn12">12</xref></sup> das massas populacionais. Este
					pensamento é que motivou o surgimento da abordagem das necessidades básicas.
					Assim, o crescimento econômico é uma condição necessária, mas não é suficiente
					para a solução dos problemas relacionados à pobreza.</p>
				<p>A partir da preocupação central com a remoção das privações que afligiam as
					massas populacionais, estratégias de desenvolvimento e redução da pobreza
					passaram a ser recomendadas por organismos internacionais como a OIT e o Banco
					Mundial (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Silva et al., 2011</xref>).</p>
				<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B26">Stewart (1989)</xref>, a falha do sistema
					econômico e social em proporcionar condições de vida mínimas para as pessoas
					levou o reconhecimento de que era preciso priorizar o acesso a bens e serviços
					básicos. Dessa forma, na década de 1970, iniciou-se o debate da abordagem das
					necessidades básicas, voltado para o desenvolvimento. Essa ideia foi
					compartilhada por economistas, filósofos e defensores dos direitos
							humanos<sup><xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref></sup>.</p>
				<p>Com base nesta abordagem, o objetivo do desenvolvimento é expandir de maneira
					sustentável o nível de vida da população pobre. Isso deve ser feito de maneira
					eficaz para que os seres humanos possam desenvolver plenamente o seu potencial.
					Para que isso ocorra, é necessária a satisfação das necessidades básicas das
					pessoas mais pobres.</p>
				<p>Embora o debate acadêmico em torno da abordagem tenha persistido, a ideia de
					necessidades básicas dominou as estratégias políticas de desenvolvimento dos
					países por um breve período de tempo. As mudanças políticas, especialmente pela
					motivação neoliberal centrada nas preferências (que se baseiam em recursos
					monetários) levaram ao rápido abandono das estratégias, já no início dos anos
					1980 (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Stewart, 2006</xref>).</p>
				<p>No meio acadêmico, o debate prosseguiu. Na visão de <xref ref-type="bibr"
						rid="B26">Stewart (1989)</xref>, o pressuposto inicial da abordagem implica
					que todos os membros da sociedade tenham suas necessidades satisfeitas em um
					nível mínimo. Nesse sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B23">Streeten
						(1979)</xref> acrescenta que o objetivo desta linha de pensamento é
					proporcionar oportunidades para o pleno desenvolvimento dos indivíduos.</p>
				<p>Uma estratégia baseada na abordagem das necessidades básicas visa aumentar e
					redistribuir a produção de maneira a erradicar as privações oriundas da falta de
					bens e serviços básicos. Um problema notável que daí surge refere-se à definição
					das necessidades básicas, pois os padrões e os objetivos sociais variam muito. O
						<italic>ranking</italic> de bens e serviços básicos é muito diverso e não há
					critérios objetivos para a sua definição. As necessidades podem variar consoante
					o clima, a região geográfica e o período analisado.</p>
				<p>Por isso, <xref ref-type="bibr" rid="B27">Stewart (1995)</xref> determina que as
					necessidades básicas devam se referir aos bens e serviços básicos úteis para o
					alcance de uma vida decente. De maneira geral, a abordagem defende um nível de
					vida minimamente decente em termos de saúde, nutrição e alfabetização, entre
					outros fatores. Bens e serviços como alimentos e serviços de saúde são vistos
					como meios para a constituição de uma vida minimamente decente. Sob este
					raciocínio, os indivíduos que não possuem esses requerimentos garantidos podem
					ser classificados como pobres em função de não terem o atendimento de suas
					necessidades básicas e prioritárias.</p>
				<p>Deste modo, as necessidades básicas são definidas com base em um padrão de vida
					mínimo necessário para que, prioritariamente, as pessoas pobres, possam se
					desenvolver na sociedade. Isto inclui requerimentos mínimos de consumo de
					alimentos, habitação e vestuário, e acesso a serviços essenciais como oferta de
					água potável, saneamento, saúde, educação e transporte. Ao priorizar o
					atendimento às necessidades básicas das pessoas, foca-se na distribuição
					apropriada de bens e serviços entre os seres humanos para que possam usufruir de
					um nível de vida decente (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Stewart,
					2006</xref>).</p>
				<p>Esta abordagem também engloba necessidades não materiais. As necessidades não
					materiais são relevantes porque se relacionam com o atendimento dos direitos
					humanos. Além disso, elas são úteis para a satisfação das necessidades
					materiais. As necessidades não materiais incluem a autodeterminação, a
					autoconfiança, a participação dos trabalhadores e cidadãos na tomada de decisões
					que afetam sua identidade nacional e cultural. De acordo com <xref
						ref-type="bibr" rid="B26">Stewart (1989)</xref>, entre os aspectos não
					materiais está a liberdade.</p>
				<p>Com base nesta visão, argumenta-se que o pobre não necessita apenas de renda, mas
					de bens e serviços básicos. A renda monetária não é suficiente para assegurar o
					acesso a todos os bens e serviços essenciais. Elementos importantes como
					serviços de saúde, educação e boa oferta de água não dependem somente de renda
					privada, ainda que a renda seja vista como um meio para adquirir necessidades
					básicas.</p>
				<p>A utilização da renda ou do Produto Interno Bruto (PIB) <italic>per
						capita</italic> é controversa na medida em que ignora que um subconjunto de
					bens e serviços pode ser classificado como mais básico que outro. Segundo <xref
						ref-type="bibr" rid="B27">Stewart (1995)</xref>, a visão das necessidades
					básicas parte do pressuposto que alguns bens são mais importantes que outros.
					Tais bens são substanciais para os seres humanos. Ainda que os bens e serviços
					necessários para uma vida decente variem entre indivíduos e sociedades, sua
					hierarquia permanece.</p>
				<p>Então, as necessidades podem ser classificadas de forma hierárquica. No nível
					mais baixo, estão as necessidades que devem ser supridas sob pena de colocar em
					risco a sobrevivência humana. O nível seguinte circunda as necessidades de
					sobrevivência, que se baseiam em um mínimo de água potável, comida, habitação e
					proteção contra doenças fatais. No próximo nível, as necessidades básicas se
					relacionam com a sobrevivência produtiva continuada, que inclui a proteção
					contra doenças debilitantes, mais alimentos e educação. No último nível, as
					necessidades não materiais são acrescentadas, como a participação no processo de
					tomada de decisões (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Streeten; Burki,
					1978</xref>).</p>
				<p>Com base nesta hierarquia, as sociedades podem definir sua própria cesta de bens
					e serviços básicos. Claramente, as listas variarão de sociedade para sociedade.
					Os países em desenvolvimento, por exemplo, preferirão concentrar-se nos bens e
					serviços que afetam a sobrevivência. Outros podem acrescentar aquelas
					necessidades que afetam a sobrevivência produtiva. Diante disso, é possível se
					concentrar em vários núcleos de necessidades básicas para fins de
					planejamento.</p>
				<p>A abordagem define três características básicas comuns de serem enfatizadas como
					saúde, nutrição e educação. Isso ocorre, primeiramente, porque se pretende
					atingir um consenso universal de necessidades humanas; porque são vistas como
					características prioritárias e precondições para uma vida plena; porque são
					relativamente mais fáceis de serem mensuradas. O indicador de saúde mais
					utilizado é a expectativa de vida. A educação é mensurada com base na taxa de
					alfabetização. Por último, é incluída a má nutrição infantil, como uma medida
					inversa do grau de nutrição (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Stewart,
						1995</xref>).</p>
				<p>Em um quadro evolutivo da abordagem das necessidades básicas, ela visa priorizar
					o atendimento às necessidades das pessoas mais pobres e não apenas com o intuito
					de aumentar a produtividade, mas com o objetivo de melhorar as condições de
					vida. A abordagem volta-se para a correção da privação absoluta, que é mais
					grave nos países onde a pobreza absoluta é maior.</p>
				<p>Mais que isso, a abordagem defende não somente o fornecimento de bens e serviços
					pelo mercado, mas, substancialmente, o fornecimento de serviços públicos como
					saneamento, abastecimento de água, educação e saúde. As necessidades podem ser
					definidas em termos das características dos bens ou serviços (como valor
					calórico) em vez de serem determinadas em detrimento das
						<italic>commodities</italic> e seu preço. Necessidades básicas também podem
					ser concebidas em termos gerais e, neste ponto, podem ser compostas por
					necessidades materiais e não materiais.</p>
				<p>Como os conceitos são abrangentes, <xref ref-type="bibr" rid="B25">Streeten e
						Burki (1978)</xref> destacam que o problema que circunda as estratégias
					sobre necessidades básicas não é conceitual, e sim operacional. O principal
					problema diz respeito ao quadro político em que as estratégias são
					implementadas. Por conta das questões operacionais, na interpretação prática da
					abordagem, o enfoque primário se dá nos bens e serviços materiais.</p>
				<p>Alguns propositores da abordagem concordam que a lista das necessidades não pode
					ser formulada de maneira arbitrária. Por isso, <xref ref-type="bibr" rid="B28"
						>Stewart (2006)</xref> cita algumas maneiras de distinguir as necessidades
					essenciais. Isto pode ocorrer de maneira participativa, em que as pessoas elegem
					suas necessidades; de forma consultiva, em que os governos é que elegem as
					necessidades básicas; e de acordo com a definição de qualidade de vida,
					determinando os bens e serviços necessários para isto.</p>
				<p>Esta última forma de se pensar, fundamenta os requerimentos necessários para uma
					vida plena (<italic>full life</italic>), propostos por Fei, Ranis e Stewart
					(1985 apud <xref ref-type="bibr" rid="B28">Stewart, 2006</xref>). Uma vez que as
					necessidades básicas são requisitos para uma vida plena, pode-se compor um vetor
					de características de vida plena, incluindo saúde, educação, participação,
					emprego, direitos políticos e todos os bens e serviços necessários para a
					realização de um nível minimamente aceitável das características de vida plena.
					Vale ressaltar que a definição destas características comporta uma variedade de
					abordagens, que vão desde a maneira participativa até outras maneiras
					normativas.</p>
				<p>De acordo com este raciocínio, pode-se concluir que, se o indivíduo não satisfaz
					um nível minimamente aceitável para o alcance de uma vida plena, pode ser
					considerado pobre. Apesar disso, ainda que haja uma conotação mais ampla de
					necessidades neste estágio que no primeiro, as necessidades humanas ficaram
					restritas ao exercício prático. Por esse motivo, a implementação de políticas
					públicas em decorrência dessa ideia esteve mais vinculada à posse de
						<italic>commodities.</italic></p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.2.1 Algumas críticas à abordagem das necessidades básicas</title>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bagolin e Ávila (2006)</xref>, este
					estágio da abordagem das necessidades humanas é criticado, visto que seu
					conceito foi reduzido às questões operacionais. Isso causa um problema no que se
					refere à formulação de políticas públicas, uma vez que elas ficam atreladas às
					melhorias em termos de posse de <italic>commodities.</italic> As críticas mais
					usuais são: as necessidades são definidas somente em termos de
						<italic>commodities;</italic> as <italic>commodities</italic> são avaliadas
					como se representassem o mesmo valor para todos os indivíduos; o conceito de
					necessidades básicas parte de requerimentos mínimos; a concentração no espaço
					das mercadorias desconsidera as desigualdades; as necessidades de
						<italic>commodities</italic> são interpretadas independentemente de
					características individuais, assim como das circunstâncias externas que as
					envolvem.</p>
				<p>A abordagem das necessidades básicas é acusada de voltar-se para o fetichismo das
						<italic>commodities.</italic> Isso ocorre porque enfoca alguns bens e
					serviços, pormenorizando outros requisitos importantes para a qualidade de vida.
						<xref ref-type="bibr" rid="B17">Sen (1990)</xref> retrata que a abordagem
					das necessidades básicas enfrenta incertezas na própria definição de
					necessidades básicas. As definições originais normalmente as retratam em termos
					de necessidades mínimas de <italic>commodities</italic> essenciais como
					alimento, vestuário e habitação. Essa é a definição mais habitualmente utilizada
					pela literatura.</p>
				<p>Dessa forma, <xref ref-type="bibr" rid="B17">Sen (1990)</xref> conclui que a
					abordagem recai no fetichismo das <italic>commodities</italic>. Por conseguinte,
					o resultado em termos de necessidades básicas está comprometido pela
					variabilidade da conversão destas <italic>commodities</italic> em
					potencialidades. Por exemplo, as necessidades em termos de alimentos e
					nutrientes para proporcionar ao indivíduo a potencialidade de estar bem nutrido
					podem variar de pessoa para pessoa. Então, algumas pessoas podem requerer mais
					nutrientes que outras para atingirem o estado de nutrição, haja vista que isso
					depende de características particulares como metabolismo, gênero, idade, entre
					outras.</p>
				<p>Em defesa da abordagem das necessidades básicas, <xref ref-type="bibr" rid="B28"
						>Stewart (2006)</xref> reconhece que a abordagem tem sido acusada de ser
					materialista e paternalista - por enfatizar as necessidades materiais de consumo
					dos pobres. No entanto, segundo a autora, a abordagem é complexa e engloba
					necessidades materiais e não materiais, ainda que, na prática, ela se atenha a
					uma lista de requerimentos específicos. De uma maneira ou de outra, conforme
						<xref ref-type="bibr" rid="B27">Stewart (1995)</xref>, a crítica em torno
					das necessidades básicas é incorreta, pois o objetivo de se atingir uma vida
					plena envolve importantes meios para a qualidade de vida.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B24">Streeten (1981)</xref> chama a atenção para o
					fato de existirem diversas formas de interpretação da abordagem das necessidades
					humanas em seus respectivos estágios. Por isso, é preciso situá-la antes de
					prosseguir com as críticas.</p>
				<p>A grande questão que envolve a literatura sobre as necessidades básicas é o
					aspecto empírico. As necessidades não materiais são mais difíceis de serem
					mensuradas. Além disso, as bases de dados existentes, na maioria dos países,
					limitam essa operacionalização. Outra questão refere-se à própria hierarquização
					no interior da abordagem. É natural que, se as necessidades fisiológicas não
					estejam atendidas, elas sejam priorizadas em relação às demais. Além disso,
					diante de recursos limitados, é comum que as necessidades dos mais pobres sejam
					posicionadas à frente dos outros indivíduos. O problema é que isso, de uma
					maneira ou de outra, diminui a importância das demais necessidades, incluindo as
					necessidades não materiais.</p>
				<p>Não se pode homogeneizar a população estudada, daí a relevância de empregar
					níveis hierárquicos das necessidades, ainda que sejam escolhidos de forma
					intuitiva, nos termos utilizados pela abordagem. Por outro lado, há que se
					reconhecer que, diante de uma limitação de dados, é muito melhor que a análise
					esteja centrada em necessidades mínimas que simplesmente na renda. Mais
					precisamente, diante de uma limitação de recursos, é mais plausível que as
					políticas se voltem para aquelas pessoas em maior situação de vulnerabilidade do
					que para ninguém.</p>
				<p>Além disso, ao mesmo tempo em que Amartya Sen critica a abordagem, ele demonstra
					alguma afinidade com ela. Segundo Cocker (<xref ref-type="bibr" rid="B5"
						>1992</xref>), essa abordagem é atrativa para Amartya Sen, em primeiro
					lugar, pela rejeição do crescimento econômico como condição suficiente para o
					desenvolvimento, uma vez que, na visão das necessidades básicas, o
					desenvolvimento é uma questão de bem-estar humano. O crescimento econômico é um
					meio indispensável, porém não se constitui um fim em si mesmo. Quando a
					abordagem é centrada apenas no crescimento econômico, é inevitável que a
					prosperidade seja reduzida aos seus aspectos estritamente materiais.</p>
				<p>Por conta das limitações enfrentadas, ainda que algumas defesas sejam plausíveis,
					duas novas abordagens emergiram. A primeira constitui-se no terceiro estágio da
					abordagem das necessidades humanas, que será apresentado na sequência. A segunda
					trata-se da abordagem das capacitações de Amartya Sen, que se constitui em um
					aparato teórico particular que foge do escopo da abordagem das necessidades
					humanas e, por isso, não será discutido neste trabalho.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.3 Terceiro estágio: nova teoria das necessidades humanas</title>
				<p>Por tudo que foi discutido, vale recordar que o intuito deste artigo é demonstrar
					que a pobreza pode e deve ser estudada com base em múltiplas dimensões e que
					existe uma literatura da qual é possível extrair este conceito. Neste caso, a
					abordagem das necessidades humanas permite avançar em relação ao estudo da
					pobreza e do bem-estar com base em uma única dimensão monetária, à medida que
					ela denota que as necessidades dos seres humanos se situam além da renda.</p>
				<p>Com relação ao terceiro estágio da abordagem das necessidades humanas, ele é
					conduzido por autores como Len Doyal e Ian Gough<sup><xref ref-type="fn"
							rid="fn14">14</xref></sup>. Estes autores têm influência
							marxista<sup><xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref></sup> e partem do
					contraste entre as necessidades humanas e as necessidades do capital<sup><xref
							ref-type="fn" rid="fn16">16</xref></sup>.</p>
				<p>Para o estudo das necessidades humanas, o terceiro estágio também parte da
					rejeição do utilitarismo na análise do bem-estar. Normalmente, as necessidades
					são tratadas como sinônimas de preferências. Sob essa ótica, argumenta-se que
					elas podem ser satisfeitas apenas por meio de reflexos de consumo.</p>
				<p>Diante disso, Doyal e Gough promovem uma distinção entre necessidades e
					preferências. Por esse motivo, a teoria desenvolvida por esses autores pode ser
					classificada como uma abrangente teoria normativa na análise da pobreza
					multidimensional. As preferências dos indivíduos, por si só, são vistas como
					insuficientes e inconsistentes com os requerimentos de bem-estar social. Com
					isso, a visão baseada em necessidades sociais ratifica que é necessária a
					formulação de políticas públicas para a satisfação de necessidades que podem não
					ser atendidas somente por meio da aquisição de cestas de consumo.</p>
				<p>Nesta corrente, as necessidades se referem a uma categoria particular de
					objetivos universalizantes. A diferenciação entre necessidades básicas e
					preferências ou desejos pode ser traçada com base na proposição de sérios
					prejuízos à vida material e à atuação dos seres humanos enquanto indivíduos bem
					informados e críticos.</p>
				<p>Estes prejuízos são aspectos negativos que, de alguma forma, afetam o
					desenvolvimento físico e social das pessoas na sua capacidade de participação
					ativa e crítica. Consequentemente, as necessidades humanas se relacionam ao fato
					de evitarem prejuízos sérios e prolongados, e sua satisfação constitui-se em
					requisito para isso (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Doyal; Gough, 1991</xref>;
						<xref ref-type="bibr" rid="B9">Gough, 2001a</xref>).</p>
				<p>Está clara a evolução da abordagem das necessidades humanas. Todavia, neste
					ponto, o terceiro estágio, nos termos empregados por <xref ref-type="bibr"
						rid="B3">Bagolin e Ávila (2006)</xref>, se aproxima do primeiro ao
					diferenciar necessidades e preferências, baseando-se na noção de sérios
					prejuízos ou de graves danos. Em contrapartida, neste estágio a ideia de
					necessidades é mais ampla e contempla claramente necessidades não materiais ao
					se referir à participação ativa e crítica dos indivíduos.</p>
				<p>Então, a nova teoria das necessidades humanas de <xref ref-type="bibr" rid="B6"
						>Doyal e Gough (1991)</xref> baseia-se na ideia ampla de necessidades que
					são concebidas de modo objetivo e universal. O aspecto objetivo diz respeito ao
					fato de serem independentes de preferências ou desejos. O aspecto universal
					implica que as pessoas, independentemente de posição geográfica e cultural, são
					dotadas de necessidades básicas comuns. Dessa maneira, a insatisfação das
					necessidades básicas causa os mesmos prejuízos aos indivíduos de distintas
					culturas ou localidades.</p>
				<p>As necessidades universais, na visão de <xref ref-type="bibr" rid="B6">Doyal e
						Gough (1991)</xref>, não variam, ainda que sua satisfação possa assumir
					variadas formas. Os autores associam o desenvolvimento de uma vida digna ao
					atendimento das necessidades humanas, comuns a todos os indivíduos em toda
					parte.</p>
				<p>Por tudo isso, este estágio pode ser classificado congênere à definição
					apresentada por <xref ref-type="bibr" rid="B8">Gasper (1996)</xref> na Seção 2,
					inserido na interpretação de necessidades voltadas para os aspectos normativos e
					éticos, entre os quais os pré-requisitos para as necessidades devem estar
					associados ao <italic>status</italic> de prioridade. Baseando-se neles, são
					estabelecidas alegações que a comunidade política deve assegurar aos indivíduos,
					para o atendimento de suas necessidades básicas. Assim, as necessidades
					prioritárias são definidas de acordo com diferentes contextos materiais e
					culturais, mas em meio a um quadro comum.</p>
				<p>Os autores identificam as necessidades humanas básicas universais classificadas
					como saúde física (<italic>physical health</italic>) e autonomia
						(<italic>autonomy</italic>). A saúde física é essencial para a capacidade de
					agir e participar. A autonomia refere-se à capacidade de fazer escolhas e à
					forma como se deve proceder para fazê-las. Estas necessidades básicas são
					compartilhadas por todas as pessoas.</p>
				<p>Conforme <xref ref-type="bibr" rid="B9">Gough (2001a)</xref>, as necessidades
					básicas são precondições universais para a participação nas diversas formas de
					vida. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B14">Pereira (2006)</xref>, estas
					necessidades básicas são requisitos para a obtenção da participação social.
					Desta forma, a saúde física é destacada como necessidade básica por ser um
					requisito para a vida humana. Na mesma linha, a autonomia pode ser concebida
					como necessidade básica, uma vez que permite livrar os seres humanos das
					diversas formas de opressão.</p>
				<p>A saúde física é importante, pois, quanto maior o seu nível, maior a esperança e
					a qualidade de vida. Além disso, a satisfação desta necessidade básica é útil
					para propiciar às pessoas a participação social. A participação é um item
					fundamental para libertá-las da opressão e da pobreza. Para o desenvolvimento do
					potencial dos indivíduos, é preciso que sejam livres para participar e
					influenciar as formas de vida, sem que haja limitações de suas escolhas (<xref
						ref-type="bibr" rid="B6">Doyal; Gough, 1991</xref>).</p>
				<p>Embora a saúde física seja citada como condição para o desenvolvimento dos
					indivíduos, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B14">Pereira (2006)</xref>,
					a saúde física se situa como uma necessidade natural que abrange todos os seres
					vivos, ou seja, não é específica dos seres humanos. Classificada como uma
					necessidade natural ou biológica, a saúde não diferencia os seres humanos dos
					animais. Este diferencial só ocorre na maneira de satisfazê-la, o que requer
					provisões dotadas de conteúdo humano e social.</p>
				<p>Por isso, é justificável a introdução do outro componente das necessidades
					humanas, isto é, a autonomia. Caso contrário, este estágio das necessidades
					humanas recairia nos mesmos princípios que nortearam o primeiro estágio da
					abordagem.</p>
				<p>A autonomia também se relaciona com a liberdade dos indivíduos e centra-se na
					capacidade de escolha e ação. É a autonomia que concede aos seres humanos a
					capacidade de escolher seus objetivos e crenças, situá-los e usufruí-los.</p>
				<p>A satisfação das necessidades básicas é uma condição para a participação nos
					grupos sociais. Além de propiciar a participação, a satisfação das necessidades
					básicas promove a participação crítica. Esta forma de participação envolve a
					capacidade dos seres humanos de situarem sua forma de vida, criticá-la e atuar
					para mudá-la. Este nível de participação é mais dinâmico e requer maior
					autonomia crítica (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Doyal; Gough, 1991</xref>;
						<xref ref-type="bibr" rid="B9">Gough, 2001a</xref>).</p>
				<p>A autonomia crítica origina-se de níveis elevados de autonomia. Por conseguinte,
					implica não somente na capacidade de criticar, como também na habilidade de
					alterar as regras culturais dentro das quais o indivíduo se integra. Nesse
					sentido, a autonomia é indicada como uma necessidade específica dos seres
					humanos que os diferencia substancialmente dos demais seres vivos. A autonomia
					crítica fornece às pessoas a autonomia de agência (<xref ref-type="bibr"
						rid="B6">Doyal; Gough, 1991</xref>).</p>
				<p>Quando as necessidades básicas não são atendidas, causam sérios prejuízos aos
					indivíduos. Estes prejuízos afetam sua condição de agente. A capacidade de
					agência permite ao indivíduo o reconhecimento sobre si mesmo e sobre os demais
					indivíduos. Assim, confere às pessoas sua atuação como atores sociais. Isto se
					refere à sua capacidade de escolha e decisão enquanto seres críticos, além de
					propiciar a participação social.</p>
				<p>Deste conceito, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Doyal e Gough (1991)</xref>
					ressaltam o que intitulam de ótimo de participação. Relacionado à criticidade,
					está o que os autores chamam de ótimo crítico, que permite que os indivíduos
					questionem e busquem ativamente por alternativas que resultem na melhoria de
					vida e cultura.</p>
				<p>Sobre a capacidade de agência, <xref ref-type="bibr" rid="B9">Gough
					(2001a</xref>, p. 6) ressalta que, “isto é prejudicado, vamos dizer, por doença
					mental grave, habilidades cognitivas pobres e oportunidades bloqueadas para se
					envolver na participação social” (tradução nossa)<sup><xref ref-type="fn"
							rid="fn17">17</xref></sup>. Assim, uma situação de deficiência na saúde
					mental implica no comprometimento da racionalidade de ação do indivíduo.</p>
				<p>A capacidade de agência do indivíduo também é afetada por sua capacidade
					cognitiva, que se traduz na destreza para o entendimento e interpretação das
					regras impostas pela sociedade. Por fim, quando as oportunidades de participação
					estão bloqueadas, isto limita que os indivíduos ocupem papéis ativos, bem como o
					acesso aos meios e objetivos para sua realização.</p>
				<sec>
					<title>3.3.1 A satisfação das necessidades humanas</title>
					<p>O terceiro estágio da abordagem das necessidades humanas enfatiza
						necessidades básicas comuns a todos os indivíduos, em todos os tempos e em
						toda parte. Apesar disso, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B9">Gough
							(2001a)</xref>, a satisfação destas necessidades não é uniforme, porque
						existem diversas formas pelas quais as necessidades podem ser atendidas.</p>
					<p>Isso é exemplificado por <xref ref-type="bibr" rid="B6">Doyal e Gough
							(1991)</xref> quando os autores lembram que todas as pessoas possuem
						necessidades de alimentação e moradia. No entanto, essas necessidades não
						são satisfeitas da mesma forma. Existem inúmeras formas de cozinhar, vários
						tipos de abrigos e todos eles podem ser capazes de atender, de alguma forma,
						certos requerimentos específicos.</p>
					<p>Ao reconhecer este fato, os autores estão assumindo que a satisfação das
						necessidades básicas pode ser relativa e varia proporcionalmente à cultura,
						à localização geográfica e à sociedade em que se vive. Assim sendo, é
						possível encontrar um componente absoluto nesta abordagem no que se refere à
						saúde física e à autonomia, e um componente relativo, no que diz respeito à
						forma de satisfação destas necessidades.</p>
					<p>Os autores evidenciam muitos satisfadores<sup><xref ref-type="fn" rid="fn18"
								>18</xref></sup> (<italic>satisfiers</italic>), isto é, atividades,
						bens e serviços, medidas políticas que são utilizadas para atender às
						necessidades básicas. Estes satisfadores são encontrados em toda parte e são
						relevantes para a melhoria da saúde física e da autonomia. Por isso, os
						autores listam o que denominam de satisfadores universais.</p>
					<p>Já que esses satisfadores contribuem para a saúde física e a autonomia,
						também podem ser chamados de necessidades intermediárias. Nesse sentido, as
						necessidades intermediárias “[...] são essenciais à proteção da saúde física
						e da autonomia e à capacitação dos seres humanos para participar o máximo
						possível das suas formas de vida e culturas” (<xref ref-type="bibr"
							rid="B14">Pereira, 2006</xref>, p. 75).</p>
					<p>Por conta do componente relativo que está presente na satisfação das
						necessidades, há o reconhecimento que os satisfadores universais podem ser
						insuficientes para representar todos os contextos. Algumas comunidades podem
						requerer satisfadores específicos para melhorar adversidades nas condições
						de vida das pessoas que as compõem. Ainda assim, os autores listam onze
						satisfadores de caráter universal: alimentação nutritiva; água potável;
						habitação adequada; ambiente de trabalho desprovido de riscos; ambiente
						físico saudável; cuidados de saúde apropriados; proteção à infância;
						relações primárias significativas; segurança econômica; educação apropriada;
						e segurança no planejamento familiar, na gestação e no parto.</p>
					<p>Alguns destes satisfadores universais podem assumir a forma relativa no seu
						atendimento, em razão de estarem sujeitos às características individuais,
						circunstâncias climáticas, econômicas e sociais. Contudo, <xref
							ref-type="bibr" rid="B6">Doyal e Gough (1991)</xref> chamam atenção para
						satisfadores que, se não forem atendidos, resultarão em prejuízos físicos e
						mentais às pessoas independentemente do contexto em que vivem. Estes
						satisfadores incluem garantia de abrigo e proteção contra riscos de
						intempéries e epidemias, saneamento adequado e ausência de superlotação na
						moradia.</p>
					<p>Além disso, cabe destacar que dois satisfadores são específicos para o
						atendimento das necessidades de mulheres e crianças, reconhecendo que estas
						duas categorias estão em situação de maior vulnerabilidade. Estes
						satisfadores são apenas em parte universais, já que não afetam diretamente
						todos os seres humanos. Para as crianças, a proteção à infância significa
						conceder uma infância segura no desenvolvimento da sua autonomia e da
						personalidade. Para as mulheres, a segurança no planejamento familiar, na
						gravidez e no parto relaciona-se ao fato de conceder a elas autonomia para
						dominarem sua vida reprodutiva, além de capacitá-las sobre si mesmas e seu
						entorno. Isto lhes proporciona formas de participação social.</p>
					<p>Em resumo, os autores reconhecem que alguns grupos demandam requerimentos
						particulares para atingir o atendimento da saúde física e da autonomia que
						são absolutas e universais, e propiciam a participação nas esferas da vida,
						bem como a libertação das diversas formas de opressão, entre elas, a
						pobreza. Os satisfadores universais ou necessidades intermediárias, então,
						têm a função de possibilitar o atendimento das necessidades universais e
						podem ser classificados de maneira universal. Portanto, eles assumem a forma
						absoluta ou de maneira específica, assumem a forma relativa de acordo com as
						particularidades dos indivíduos em questão. De uma forma ou de outra, as
						necessidades intermediárias também requerem satisfadores específicos para
						seu atendimento.</p>
					<p>Para que ocorra a otimização das necessidades básicas, a sociedade deve
						produzir recursos suficientes para que as pessoas obtenham níveis básicos de
						saúde física e autonomia. Além disso, é necessário assegurar a reprodução
						biológica e socialização das crianças. Outro requisito importante para a
						otimização é a transmissão cultural de conhecimentos e valores que são
						cruciais para a reprodução social. Ademais, é preciso que haja algum sistema
						de autoridade democrático (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Pereira,
							2006</xref>).</p>
					<p>Nesse sentido, as necessidades básicas listadas por <xref ref-type="bibr"
							rid="B6">Doyal e Gough (1991)</xref> devem ser atendidas mediante a
						coletividade através do envolvimento de poderes públicos, adicionando-se a
						participação da sociedade, fato que já foi abordado por autores do segundo
						estágio. Assim, saúde física e autonomia, enquanto necessidades básicas
						universais, devem se consolidar como direitos de todos indistintamente.</p>
					<p>Esta visão das necessidades básicas fornece uma conotação complexa para o
						conceito de pobreza, relacionado não somente à insuficiência de renda, mas a
						um conjunto de fatores que limitam a vida dos indivíduos. É notório que a
						dimensão econômica está presente na abordagem como uma necessidade
						intermediária, sob a denominação de segurança econômica. Por isso, nesta
						abordagem, a renda é vista como um meio para se atingir outros fins. Neste
						caso, para o alcance de necessidades básicas que propiciarão a participação
						social e a libertação dos indivíduos.</p>
					<p>A segurança econômica é substancial para garantir o desenvolvimento da
						autonomia individual, sob a pena colocar em risco a capacidade de
						participação dos indivíduos. Apesar da sua importância, a renda não é
						apontada sozinha como requisito necessário e suficiente para o bem-estar,
						como faz a abordagem tradicional sobre pobreza. A segurança econômica é
						somente uma necessidade intermediária associada a várias outras que também
						são fundamentais.</p>
					<p>Ao contrário do que acontece no segundo estágio, no terceiro estágio, a ideia
						de necessidades não visa privilegiar em primeiro lugar, as pessoas pobres. A
						larga conotação de saúde física e autonomia é estendida, em primeira
						instância, a todos os indivíduos independentemente da condição social.</p>
					<p>Os autores, de certa forma, mantêm a hierarquia das necessidades básicas
						quando apresentam a saúde física como condição mais básica para que possa
						existir participação. Entretanto, eles contornam o peso da hierarquização
						quando agregam a autonomia que difere os homens dos animais e quando assumem
						que estes dois conjuntos de necessidades são universais e devem ser
						atendidos para proporcionar aos seres humanos o desenvolvimento de uma vida
						digna.</p>
					<p>
						<xref ref-type="bibr" rid="B6">Doyal e Gough (1991)</xref> listam
						necessidades básicas e intermediárias universais, mas eles deixam espaço
						para as devidas adaptações em virtude das divergências pessoais, regionais,
						culturais e temporais, quando assumem a existência de satisfadores
						específicos que variam entre as pessoas.</p>
					<p>Assim sendo, esta visão se difere do enfoque tradicional, no qual a pobreza
						se restringe a um problema pessoal que reflete a fraqueza do indivíduo
							(<xref ref-type="bibr" rid="B14">Pereira, 2006</xref>). Abre-se espaço
						para o papel do Estado e da sociedade neste meio.</p>
					<p>As necessidades intermediárias, por exemplo, podem ser fornecidas dentro da
						família ou da coletividade, o que exige um Estado apoiado por poderes
						coercitivos e por legitimidade territorial. Isso porque nem todas as
						necessidades intermediárias se restringem à aquisição de cestas de consumo,
						e nem todos os indivíduos conseguem realizá-las facilmente. Então, o Estado
						é necessário para o fornecimento e seleção de políticas viáveis para o
						atendimento das necessidades<sup><xref ref-type="fn" rid="fn19"
							>19</xref></sup>, especialmente daquelas que não podem ser supridas
						imediatamente no mercado (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Gough,
						2001a</xref>). Pode-se concluir que é preciso que haja o atendimento das
						necessidades humanas e a concretização de direitos para o consequente
						abandono da condição de pobreza.</p>
				</sec>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>4 A abordagem das necessidades humanas e o estudo da pobreza
				multidimensional</title>
			<p>A maior parte das análises sobre pobreza fundamenta-se na renda como variável chave e
				eleita melhor <italic>proxy</italic> para o bem-estar. De fato, este é um importante
				indicador que reflete os padrões de consumo dos indivíduos, entre outros aspectos.
				Além disso, a análise unidimensional torna mais fácil o exercício empírico de
				mensuração da pobreza. Contudo, dimensões da pobreza, como saneamento, condições de
				trabalho, saúde e participação na comunidade, podem não ser capturadas pela renda
				monetária. Portanto, as análises teóricas e empíricas precisam se atentar para esse
				conjunto de dimensões.</p>
			<p>Nesse sentido, a abordagem das necessidades humanas agrega ao estudo da pobreza, ao
				fornecer uma evolução teórica coerente com o estudo da pobreza na sua
				multidimensionalidade. Qualquer que seja o estágio estudado, a abordagem das
				necessidades humanas é relevante para a constituição do conceito da pobreza.</p>
			<p>No entanto, o primeiro estágio pode não representar com confiabilidade as dimensões
				da pobreza, uma vez que estas dimensões também não podem ficar restritas aos
				requisitos naturais. As necessidades dos seres humanos são muito mais amplas que as
				necessidades dos animais. Logo, o estudo da pobreza deve levar em consideração esta
				questão. A situação de pobreza não pode ficar limitada apenas àquelas necessidades
				que colocam em risco a sobrevivência.</p>
			<p>O segundo estágio, ainda que hierarquize as necessidades, é mais plausível que o
				primeiro. Tendo em vista que empiricamente é muito difícil mensurar as necessidades
				não materiais, o segundo estágio, pela razoabilidade das defesas apresentadas pelos
				autores à crítica de fetichista, já pode ser considerado um progresso na teorização
				e mensuração da pobreza. O objetivo de se atingir uma vida plena é importante para a
				qualidade de vida. Ademais, o reconhecimento que o crescimento econômico é
				importante, mas não é condição suficiente para o bem-estar é útil para evidenciar as
				outras dimensões da pobreza, além da econômica; e para a promoção do processo de
				desenvolvimento.</p>
			<p>Não se pode negar, que a ideia mais ampla de necessidades foi apresentada no terceiro
				estágio. A teoria é mais complexa e mais abrangente ao considerar a existência de
				necessidades humanas comuns a todos os indivíduos em toda parte. Este critério é
				útil para a análise empírica, especialmente quando o objetivo é a comparação
				internacional.</p>
			<p>Traduzida como o não atendimento às necessidades humanas, a pobreza multidimensional
				pode ser entendida como empecilho ao desenvolvimento e bem-estar dos indivíduos.
				Partindo do pressuposto de que as condições de vida dos indivíduos pobres podem e
				devem ser melhoradas, o atendimento otimizado às necessidades básicas torna-se uma
				proposição essencial. Este aspecto se assemelha à ideia de desenvolvimento humano,
				onde a pobreza, segundo, <xref ref-type="bibr" rid="B7">Fahel et al. (2016)</xref>
				representa uma negação de oportunidades básicas.</p>
			<p>Deste modo, pode-se concluir que o pensamento em torno das necessidades humanas
				constitui-se em um avanço na análise da pobreza por se desvincular da visão que
				deixa a critério do mercado a resolução do problema da pobreza. Por conseguinte, de
				acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B4">Ávila e Bagolin (2014)</xref>, uma maneira
				de estudar a pobreza multidimensional é a partir da não satisfação de necessidades
				básicas. Quando as necessidades são compreendidas de forma abrangente, reconhece-se
				que os seres humanos possuem necessidades comuns, embora algumas requeiram soluções
				específicas. Essas necessidades não se restringem à dimensão econômica e, à medida
				que avançam para a complexidade, precisam do Estado para o seu atendimento.</p>
			<p>No exercício empírico, é preciso reconhecer que as necessidades intermediárias
				apresentadas no terceiro estágio, são mais fáceis de serem mensuradas. Uma vez que
				elas permitem a satisfação das necessidades básicas, tornam um bom critério de ser
				empregado para mensurar a pobreza multidimensional em termos de necessidades humanas
				insatisfeitas. É relevante acrescentar ainda que, por mais que os autores citem
				satisfadores ou necessidades intermediárias de escopo universal, eles abrem espaço
				para que o pesquisador, durante a operacionalização, adicione satisfadores
				específicos para adequação à realidade pesquisada.</p>
			<p>Há que se acrescentar que os autores também não listam níveis de cortes para
				diferenciar situações de privação daquelas de não privação em todas as necessidades
				intermediárias. Os autores do terceiro estágio discutem alguns níveis de corte, mas
				não os retratam fielmente para todas as necessidades. Uma necessidade intermediária
				para a qual há sugestão de um nível de corte é a alimentação nutritiva. Neste caso,
				o nível de corte pode ser baseado nos valores energéticos apontados pela Organização
				das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) que é de três mil
				calorias ao dia para os homens e duas mil para mulheres. De certo modo, isto deixa
				outra margem para que sejam aplicados os níveis de cortes que o pesquisador julgar
				adequado.</p>
			<p>Em síntese, os estágios que constituem a abordagem das necessidades humanas denotam a
				evolução teórica e podem ser aproveitados para a análise da pobreza
				multidimensional. Na verdade, esses estágios ajudam a constituir o aparato teórico
				para a conceituação da pobreza multidimensional. O segundo e, mais precisamente, o
				terceiro estágio podem ser empregados para este fim.</p>
			<p>Todavia, apesar do pragmatismo da abordagem, é importante notar que sua
				operacionalização é alvo de controvérsias. Em geral, nos trabalhos empíricos, estão
				presentes indicadores que refletem apenas necessidades materiais. Entretanto, isso
				não significa que as necessidades não materiais sejam irrelevantes. Este fato
				reflete que tais necessidades são difíceis de serem mensuradas.</p>
			<p>Ainda que não incluam dimensões não materiais de pobreza, estudos como os de <xref
					ref-type="bibr" rid="B13">Neder, Lacerda e Rodrigues (2010)</xref> e <xref
					ref-type="bibr" rid="B20">Silva e Neder (2010)</xref>, mostram que o
					<italic>ranking</italic> dos indicadores de baseados na renda é muito distinto
				dos indicadores multidimensionais. Isto aponta para o fato que a identificação das
				pessoas pobres é diferente, conforme a abordagem empregada, e tem importantes
				implicações para a formulação de políticas públicas.</p>
			<p>Assim, é inegável que a abordagem baseada na renda seja vantajosa por ser sintética,
				de fácil comparação e por refletir padrões de consumo. Por outro lado, o conceito de
				pobreza multidimensional extraído da abordagem das necessidades humanas fornece uma
				discussão ampla para a pobreza. Ao mudar o enfoque da análise unidimensional para a
				multidimensional, muda-se também quem são os pobres. Além disso, a ênfase nas
				necessidades humanas fornece informações sobre quais são as dimensões que concentram
				maiores privações, o que é útil para a formulação de políticas públicas.</p>
			<p>Ademais, a análise da pobreza multidimensional incorpora a própria renda monetária
				como importante dimensão da pobreza, somando-se a outras dimensões não menos
				relevantes para caracterização das condições de vida. Por esse motivo, argumenta-se
				que o conceito de pobreza multidimensional oriundo da abordagem das necessidades
				humanas é mais abrangente, ainda que sua operacionalização seja complexa e que,
				frequentemente, recaia em reducionismo.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>5 Considerações finais</title>
			<p>Com base na discussão realizada, notou-se que a abordagem das necessidades humanas é
				marcada por uma diversidade de interpretações. Nos diferentes estágios, estas
				interpretações evoluíram de modo que se pode traçar um quadro evolutivo da abordagem
				das necessidades humanas.</p>
			<p>A hierarquização das necessidades é um ponto comum em todos os estágios apresentados.
				No primeiro estágio, enfatiza-se a priorização da satisfação das necessidades que
				podem causar graves danos. No segundo estágio, prioriza-se, no quadro empírico, a
				satisfação das necessidades materiais das pessoas mais pobres. Por sua vez, no
				terceiro estágio, apresenta-se a saúde física como condição mais básica para a
				promoção da participação. Apesar disto, o segundo e o terceiro estágios contornam a
				atenção dada à hierarquização ao incorporarem em suas análises, respectivamente, as
				necessidades não materiais e a autonomia, comuns a todos os indivíduos como
				pré-requisitos para uma vida plena.</p>
			<p>No exercício empírico, uma vez que as necessidades não materiais e a autonomia são de
				difícil mensuração, elas costumam ficar de fora das análises. Assim, é preciso um
				maior esforço empírico ao operacionalizar a abordagem, pois o quadro teórico é
				coerente com o desenvolvimento de uma vida digna aos seres humanos em todos os
				aspectos e em qualquer parte. Apesar disto, diante da limitação de dados e de
				recursos, é mais plausível que a análise esteja centrada em necessidades, ainda que
				essencialmente materiais.</p>
			<p>Conforme foi visto, o segundo, e especificamente o terceiro estágio são mais
				adequados para o estabelecimento de um conceito multidimensional para a pobreza,
				baseado em outras dimensões além da renda que afetam o bem-estar das pessoas.
				Portanto, em sentido amplo, a pobreza pode ser conceituada como a não satisfação de
				necessidades humanas.</p>
			<p>Por meio desta constatação, destaca-se o papel do Estado no combate à pobreza, uma
				vez que, se mesmo a renda pode não ser plenamente adquirida por meio dos
				instrumentos de mercado, as demais dimensões da pobreza correm o risco de nunca
				serem resolvidas com este mecanismo. Portanto, fazem-se necessárias políticas
				públicas efetivas como instrumentos de satisfação das necessidades humanas.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>(1)</label>
				<p>Juntamente com os trabalhos do economista Amartya Sen.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>(2)</label>
				<p>E também a abordagem de Amartya Sen (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Stewart,
						2006</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>(3)</label>
				<p>Ver <xref ref-type="bibr" rid="B12">Laderchi, Saith e Stewart (2003)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>(4)</label>
				<p>Ver <xref ref-type="bibr" rid="B23">Streeten (1979)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>(5)</label>
				<p><italic>“Also guide private consumption in the light of public considerations
						(for example through counterpressures to advertisers or food
						subsidies)</italic>”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>(6)</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B3">Bagolin e Ávila (2006)</xref> destacam ainda
					autores como Marcuse (1938), Maslow (1943; 1954), Taylor (1943; 1959), Fromm
					(1932), Fitzgerald (1977) e Springborg (1981).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>(7)</label>
				<p><italic>“It is necessary, things being what they actually are, that if I am to
						avoid harm then I have x”</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Wiggins,
						1998</xref>, p. 10).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>(8)</label>
				<p>Outro termo utilizado pelo autor para qualificar as necessidades absolutas é
					necessidades <italic>entrencheds</italic>, como os alimentos. Envolve as leis da
					natureza e os fatos ambientais invariáveis.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>(9)</label>
				<p>Ver <xref ref-type="bibr" rid="B29">Wiggins (1998)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>(10)</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B3">Bagolin e Ávila (2006)</xref> ressaltam também
					Mouly e Kuznin (1978) e Ul Haq (1980). </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>(11)</label>
				<p>Como exemplo, pode-se citar o caso do Brasil. A pobreza absoluta medida pela
					renda e a desigualdade social permaneceu elevada nesse período.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>(12)</label>
				<p>O crescimento pode ser considerado pró-pobre, por exemplo, se as pessoas pobres
					forem beneficiadas em termos absolutos. Este fato pode ser refletido por uma
					medida apropriada de pobreza (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Ravallion; Chen,
						2003</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>(13)</label>
				<p>Ver <xref ref-type="bibr" rid="B26">Stewart (1989)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>(14)</label>
				<p><xref ref-type="bibr" rid="B3">Bagolin e Ávila (2006)</xref> destacam ainda a
					contribuição de outros autores como Max-NeeF (1989; 1991; 1992), <xref
						ref-type="bibr" rid="B8">Gasper (1996</xref>; 2004) e Hamilton (2003). Isto
					pode ser conferido em <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bagolin e Ávila
						(2006)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>(15)</label>
				<p>“Para eles, ‘é inquestionável que Marx acreditava na existência de necessidades
					humanas objetivas’, principalmente quando se referia a um conjunto de injunções
					sofridas, coletivamente, pela classe trabalhadora [...]” (Lukes, 1991, p. 12
					apud <xref ref-type="bibr" rid="B14">Pereira, 2006</xref>, p. 34).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>(16)</label>
				<p>Mesmo que o capital não seja uma entidade como as pessoas, ele pode ser associado
					à qualidade realista.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>(17)</label>
				<p>“<italic>This is impaired, we go on to say, by severe mental illness, poor
						cognitive skills, and by blocked opportunities to engage in social
						participation</italic>”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>(18)</label>
				<p>Tradução baseada em <xref ref-type="bibr" rid="B14">Pereira (2006)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>(19)</label>
				<p>Para diminuir a primazia do capital sobre as necessidades, os sistemas de
					bem-estar (<italic>welfare</italic>) são importantes. Com eles, é possível
					favorecer as necessidades humanas, as necessidades do capital ou fornecer
					combinações entre ambas. <xref ref-type="bibr" rid="B10">Gough (2001b)</xref>
					sugere que é certo que o Estado capitalista é mais propício à satisfação das
					necessidades humanas que o capitalismo desregulamentado, ainda que o resultado
					disto seja indeterminado quando não há maiores informações sobre as políticas de
					Estado.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other">
				<p><bold>JEL:</bold> I30, I32, I39.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>Referências bibliográficas</title>
			<ref id="B1">
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					<article-title>Basic needs strategies, human rights, and the right to
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					<source>Human Rights Quarterly</source>
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					<article-title>Basic needs, capabilities and human development</article-title>
					<source>Greek Economic Review</source>
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