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                <journal-title>Economia e Sociedade</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Economia e
                    Sociedade</abbrev-journal-title>
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            <issn pub-type="ppub">0104-0618</issn>
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                <publisher-name>Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas;
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                <article-title>Poder, finanças e tecnologia na reconfiguração sistêmica do
                    capitalismo: a clivagem centro-periferia no alvorecer do século
                    XXI*</article-title>
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                    <trans-title>Power, finance, and technology in the systemic reconfiguration of
                        capitalism: the center-periphery cleavage at the dawn of the 21st
                        century</trans-title>
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                <contrib contrib-type="author">
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                        <surname>Marques</surname>
                        <given-names>Sylvia Ferreira</given-names>
                    </name>
                   <degrees>Doutora em Economia</degrees>
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                <label>**</label>
                <institution content-type="normalized">Universidade Federal de Minas Gerais
                    (UFMG)</institution>
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                <email>sylviafmarques@yahoo.com.br</email>
                <institution content-type="original">Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
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            <author-notes>
                <fn fn-type="edited-by">
                    <label>Editor Responsável pela Avaliação</label>
                    <p><italic>Carolina Troncoso Baltar</italic></p>
                </fn>
            </author-notes>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
                        reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
                        seja corretamente citado.</license-p>
                </license>
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            <abstract>
                <title>Resumo</title>
                <p>Este artigo analisa a dinâmica evolutiva do capitalismo no século XXI, destacando
                    as transformações nas relações centroperiferia à luz das recentes mudanças
                    econômicas, tecnológicas e políticas. A pesquisa parte da premissa de que não é
                    possível compreender o capitalismo contemporâneo sem considerar a influência das
                    Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), o papel do Estado e as mudanças
                    nas finanças globais. A questão central abordada é: “O que mudou na relação
                    centro-periferia com as transformações recentes do capitalismo?”. A hipótese
                    defendida é de que, nas últimas décadas, a periferia tem assumido um papel mais
                    ativo na configuração sistêmica. A investigação identifica a emergência do
                    “Efeito Bumerangue”, um fenômeno novo que caracteriza a clivagem
                    centro-periferia, especialmente no início do século XXI.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>Abstract</title>
                <p>This paper examines the evolving dynamics of capitalism in the 21st century,
                    focusing on the changing center-periphery relationship in light of recent
                    economic, technological, and political transformations. It argues that
                    understanding contemporary capitalism requires considering the impact of
                    Information and Communication Technologies (ICT), the role of the State, and
                    shifts in global finance. The central research question is: “How has the
                    center-periphery relationship changed with the recent transformations in
                    capitalism?” The hypothesis suggests that, in recent decades, the periphery has
                    taken a more active role in the systemic configuration. The study identifies the
                    emergence of the “Boomerang Effect” as a new feature of the center-periphery
                    relationship in the early 21st century.</p>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>Capitalismo</kwd>
                <kwd>Centro-periferia</kwd>
                <kwd>Efeito bumerangue</kwd>
                <kwd>Evolução</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>Capitalism</kwd>
                <kwd>Center-periphery</kwd>
                <kwd>Boomerang effect</kwd>
                <kwd>Evolution</kwd>
            </kwd-group>
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    <body>
        <p>O entendimento do capitalismo como um processo dinâmico e evolucionário faz com que a
            estrutura centro-periferia também seja vista em constante mudança. Não é possível
            compreender o capitalismo no século XXI sem considerarmos a tecnologia da TIC, o papel
            do Estado e as transformações nas finanças. Partindo-se dessa premissa, este trabalho
            busca responder à seguinte pergunta de pesquisa: “O que mudou na relação
            centro-periferia com as transformações recentes do capitalismo?”. A hipótese de trabalho
            é de que a periferia assumiu, nas últimas décadas, um papel mais ativo na configuração
            sistêmica. A pesquisa revelou a emergência do Efeito Bumerangue como a novidade da
            clivagem centro-periferia no alvorecer do século XXI.</p>
        <p>Este trabalho se divide em duas partes. A primeira se dedica a explorar o capitalismo a
            partir de três perspectivas – ciclos sistêmicos de acumulação, internacionalização do
            capital, e ondas longas. O entrelaçamento analítico a partir das três dimensões cruciais
            – tecnologia, poder e finanças – busca compreender o capitalismo no século XXI e apontar
            as mudanças ocorridas na clivagem centro-periferia com a evolução do capitalismo. Na
            segunda parte – seções 2, 3, 4 e 5 – este trabalho busca evidenciar o papel da periferia
            na atual transformação sistêmica do capitalismo.</p>
        <sec>
            <title>1 Poder, finanças e tecnologia na reconfiguração sistêmica do capitalismo</title>
            <p>As três perspectivas selecionadas levantam percepções importantes para a compreensão
                da evolução do capitalismo e seu impacto sobre a clivagem centro-periferia. A
                abordagem dos ciclos sistêmicos ressalta que um Estado hegemônico, ao construir um
                regime de acumulação sistêmico, molda a estrutura institucional internacional e
                afeta – de modo diferente – as oportunidades de desenvolvimento dos outros Estados
                do sistema. A interpretação da internacionalização do capital aponta que o Estado
                tem papel protagonista na expansão do capital. E, a concepção das ondas longas
                enfatiza que uma tecnologia pervasiva tem efeitos para além da base produtiva,
                alterando as condições de acumulação do capital e a posição na divisão internacional
                do trabalho.</p>
            <p>Embora sejam úteis para acessar as três dimensões analíticas, a interação entre as
                perspectivas não pode ocorrer de forma mecânica e apresenta algumas limitações e
                implicações metodológicas. Como demonstrado por <xref ref-type="bibr" rid="B1"
                    >Albritton et al. (2001)</xref>, a periodização do capitalismo já é em si uma
                tarefa complexa, logo, integrar as fases capitalistas definidas nas três
                perspectivas teóricas dentro de um mesmo arcabouço analítico é tarefa complicada. O
                período histórico retratado nas ondas longas, por exemplo, abarca fases de expansões
                financeiras diferentemente caracterizadas das expansões financeiras presentes nos
                ciclos de acumulação sistêmica; o que impede uma complementação mecânica entre essas
                abordagens.</p>
            <p>Além disso, mesmo a ideia de ciclos estando presente nas aproximações acima, não é
                apenas a explicação para a ascensão e o declínio que muda. O modo de periodizar o
                capitalismo depende muito dos horizontes temporais e espaciais observados e da
                estrutura teórica que sustenta essas observações. Cada abordagem ao enfatizar
                elementos qualitativos diferentes – revolução tecnológica, hegemonia e
                transformações imperiais/estatais – acaba definindo as fases do capitalismo de modo
                distinto. Enquanto as interpretações das ondas longas e da internacionalização do
                capital analisam o capitalismo a partir da Revolução Industrial e da busca pelo
                lucro, respectivamente; a abordagem dos ciclos sistêmicos de acumulação o analisa
                desde o século XV, pela circulação do capital.</p>
            <p>Embora a compatibilização das fases capitalistas descritas em cada uma delas
                apresente limitações pontuais, a realização do entrelaçamento pelo uso complementar
                de conceitos-chave de cada perspectiva não se faz inexequível, pois,
                independentemente da aproximação teórica, todas consideram a multiplicação e
                evolução do capital na periodização do capitalismo. Ademais, nas três perspectivas,
                as investigações das tendências atuais ocorrem à luz de padrões de recorrências e
                evoluções presentes ao longo do curso de evolução do capital e/ou do capitalismo
                como sistema mundial<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>. Destarte, o
                entrelaçamento dos conceitos-chaves busca aumentar a capacidade explicativa da
                análise realizada, embora não almeje a construção de uma teoria geral do
                desenvolvimento do capitalismo.</p>
            <sec>
                <title>1.1 Poder e finanças na reestruturação sistêmica do capitalismo</title>
                <p>As dimensões do poder e das finanças são guias do esquema analítico que busca
                    olhar as transformações no capitalismo a partir da abordagem dos ciclos
                    sistêmicos de acumulação e pensar a inserção da periferia nesse processo<xref
                        ref-type="fn" rid="fn2">2</xref> – <xref ref-type="table" rid="T1">Quadro
                        1</xref>. Nesta seção, são apresentados os quatro ciclos sistêmicos de
                    acumulação (CSA) identificados por <xref ref-type="bibr" rid="B3">Arrighi
                        (1996)</xref> articulados com a tipologia de império adotada por <xref
                        ref-type="bibr" rid="B43">Ellen Wood (2003)</xref> na abordagem da
                    internacionalização do capital e, em cada CSA, busca-se apontar elementos
                    indicadores de transformações sistêmicas.</p>
                <p><table-wrap id="T1">
                    <label>Quadro 1</label>
                    <caption>
                        <title>Reconfigurações Sistêmicas do Capitalismo – poder e finanças nos
                            ciclos sistêmicos de acumulação</title>
                    </caption>
                    <table frame="hsides" rules="groups">
                        <thead style="background-color:#B8CCE4">
                            <tr>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">CICLO SISTÊMICO DE
                                    ACUMULAÇÃO</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">TIPO DE IMPÉRIO</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">HEGEMONIA</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">TIPO DE CSA</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">SUSTENTAÇÃO DA ORDEM</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">ECONOMIA POLÍTICA
                                    INTERNACIONAL</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">TURBULÊNCIA SISTÊMICA</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">CAOS SISTÊMICO
                                    (marco)</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">ORDEM ANÁRQUICA
                                    (marco)</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">PADRÃO MONETÁRIO
                                    INTERNACIONAL</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">PAPEL DAS “UNIDADES
                                    PERIFÉRICAS”</th>
                            </tr>
                        </thead>
                        <tbody>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">GENOVÊS sec.
                                    XV - sec. XVII</td>
                                <td align="center" valign="middle">Imperio Comercial</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">***</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Extensivo</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">eq poder</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Sistema
                                    Internacional Medieval</td>
                                <td align="center" valign="middle">S = 1580</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Guerra dos 30
                                    Anos</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">1648 - Paz de
                                    Vestifália</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">ouro (florim e
                                    ducado italianos)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">criação do
                                    mercado mundial</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">(domínio de rotas
                                    comerciais internacionais)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">T = 1640</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">HOLANDÊS sec.
                                    XVI - sec. XVIII</td>
                                <td align="center" valign="middle">Imperio Comercial</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Províncias
                                    Unidas da Holanda</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Intensivo</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">eq poder</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Sistema
                                    Moderno de Estados</td>
                                <td align="center" valign="middle">S = 1750</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Guerras
                                    Napoleônicas</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">1815 -
                                    Congresso de Viena</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">ouro (florim
                                    holandês)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">pro cesso de
                                    acumulação primitiva europeu</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">(domínio de rotas
                                    comerciais internacionais)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">T = 1780</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">BRITÂNICO sec.
                                    XVIII - sec. XX</td>
                                <td align="center" valign="middle">Império capitalista (fase I:
                                    colônias de povoamento)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2"
                                    >Inglaterra</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Extensivo</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">hierarquia
                                    hegemonica</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Imperialismo
                                    clássico</td>
                                <td align="center" valign="middle">S = 1870</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">II Guerra
                                    Mundial</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">1945 - Bretton
                                    Woods</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">libra-ouro
                                    (libra esterlina)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">c on st i
                                    tuição do sistema centro-periferia</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">Império Capitalista (fase
                                    II: colonialismo territorial)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">T = 1920-30</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2"
                                    >NORTE-AMERICANO sec. XX - hoje</td>
                                <td align="center" valign="middle">Império Capitalista (fase I:
                                    pós-Guerra)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Estados Unidos
                                    da América</td>
                                <td align="center" valign="middle">Intensivo</td>
                                <td align="center" valign="middle">instituições internacionais</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">Império do
                                    Capital</td>
                                <td align="center" valign="middle">S= 1970</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">?</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">?</td>
                                <td align="center" valign="middle">dólar-ouro (dólar
                                    norte-americano)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">mercado
                                    global</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">Império Capitalista (fase
                                    II: globalização)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">Extensivo</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">sistema global de
                                    multiplos Estados</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">T = 2008?</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">dólar-flexível (múltiplas
                                    moedas)</td>
                            </tr>
                        </tbody>
                    </table>
                    <table-wrap-foot>
                        <fn id="TFN1">
                            <p>Nota: S = Crise de Sinalização; T = Crise Terminal</p>
                        </fn>
                        <fn id="TFN2">
                            <p>Elaboração própria a partir do esquema apresentado por <xref
                                    ref-type="bibr" rid="B5">Arrighi e Moore (2001, p.64-75)</xref>
                                e <xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood (2003)</xref></p>
                        </fn>
                    </table-wrap-foot>
                </table-wrap></p>
                <p>O ciclo sistêmico de acumulação (CSA) genovês tem origem na formação, dentro do
                    sistema medieval de governo, de um subsistema regional de cidades-Estados
                    capitalistas italianas, centrado em Veneza, Florença, Gênova e Milão. A
                    acumulação de capital de Gênova se baseava no comércio de longa distância e nas
                    altas finanças. O CSA genovês se dava no controle de fluxos de metais preciosos,
                    letras de câmbio, contratos de comércio, etc. (<xref ref-type="bibr" rid="B4"
                        >Arrighi, 1996, p. 83</xref>). Um tipo de domínio, que <xref ref-type="bibr"
                        rid="B43">Ellen Wood (2003)</xref> chamou de Império Comercial – cuja fonte
                    de riqueza estava no controle do comércio internacional. Na Idade Média, os
                    genoveses controlavam os fluxos de ouro e o câmbio internacional; enquanto os
                    florins de Florença e os ducados de Veneza se tornaram as moedas internacionais
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Vilar, 1980, p. 252</xref>). De fato, as
                    cidades-Estados se tornaram um “elo crucial na cadeia de trocas comerciais que
                    ligava a Europa Ocidental à Índia e à China” (<xref ref-type="bibr" rid="B4"
                        >Arrighi, 1996, p. 40</xref>). E, os capitalistas genoveses tiveram papel
                    preponderante no financiamento de expedições portuguesas e espanholas para
                    estabelecer ligações diretas com o Oriente. Sendo assim, <xref ref-type="bibr"
                        rid="B5">Arrighi e Moore (2001)</xref> caracterizam o CSA genovês como
                    extensivo, pois promoveu a expansão do sistema capitalista ao financiar a Era
                    dos Descobrimentos. A integração de economias distantes à economia-mundo
                    europeia propiciou a criação do mercado mundial.</p>
                <p>Diferentemente dos outros CSA, o genovês não testemunhou a emergência de uma
                    hegemonia. A ordem mundial<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>, neste período,
                    foi mantida por um sistema de equilíbrios: equilíbrio de poder entre as
                    cidades-Estados italianas; equilíbrio de poder entre o papa e o imperador
                    (autoridades centrais do sistema medieval); e o equilíbrio de poder entre
                    dinastias europeias emergentes (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Arrighi, 1996, p.
                        37</xref>). Numa ordem mundial sustentada por equilíbrio de poder, as
                    alianças emergem como coalizões temporárias e a ordem se baseia nas ações de
                    balanceamento das unidades políticas (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Ikenberry,
                        2001</xref>).</p>
                <p>Neste período, a Espanha ganhou destaque na luta pelo poder na Europa e no
                    além-mar. As pretensões territorialistas da Espanha levaram-na a tentar dominar
                    a Europa e a disputa interestatal se acirrou. A fase de expansão financeira que
                    se inicia por volta de 1580 sinaliza o início da turbulência sistêmica, que se
                    intensifica em 1618 com o início da Guerra dos Trinta Anos, fazendo o sistema
                    entrar em caos<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>. Em meio ao caos sistêmico,
                    a demanda por uma nova ordem se tornou latente e os holandeses lideraram os
                    Estados europeus e criaram uma nova ordem internacional baseada na soberania.
                    Assim, a Paz de Vestfália de 1648 marca o início de uma nova ordem anárquica e o
                    início do Sistema Interestatal Moderno.</p>
                <p>A Holanda se tornou hegemônica ao tornar universal (busca pela paz e autonomia
                    política) um interesse particular (impedir que suas bases comerciais e
                    financeiras fossem seriamente comprometidas pela escalada dos conflitos na
                    Europa). Assim, o ciclo sistêmico de acumulação (CSA) holandês também teve como
                    fonte de riqueza o controle das redes financeiras e comerciais e instituiu o tal
                    Império Comercial de <xref ref-type="bibr" rid="B43">Ellen Wood (2003)</xref>.
                    Segundo a classificação de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Arrighi e Moore
                        (2001)</xref>, o CSA holandês foi do tipo intensivo, ou seja, de
                    consolidação e intensificação do sistema capitalista mundial.</p>
                <p>A supremacia produtiva e comercial holandesa, associada à importância de seus
                    papéis nos seguros e nos transportes, fez a Holanda acumular metais precisos em
                    todas as formas – em lingotes, em barras, em moedas – e passou a cunhar a maior
                    parte em moedas internacionalmente negociáveis (<xref ref-type="bibr" rid="B42"
                        >Vilar, 1980, p. 252</xref>). Com isso, a Holanda chegou a dispor de 14
                    casas da moeda no século XVII e a moeda holandesa “se converteu no dólar de seu
                    tempo” (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Vilar, 1980, p.252</xref>). De fato, o
                    ouro e a prata extraídos das colônias espanholas e portuguesas, especialmente
                    nas Américas, se tornaram fonte da riqueza holandesa e financiaram a Revolução
                    Industrial na Inglaterra (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Vilar, 1980, p.
                        278</xref>). Ou seja, os metais preciosos das colônias ibéricas, com
                    destaque ao ouro brasileiro, se tornaram parte do processo de acumulação
                    primitiva europeu.</p>
                <p>Em termos de poder, quem mais se beneficiou da ordem criada pelos holandeses
                    foram França e Inglaterra, pois a hegemonia exercida pela Holanda durou apenas
                    meio século. A ascensão de França e Inglaterra dominou as atenções na Europa
                    neste período e a ordem foi mantida pelo sistema de equilíbrio de poder. A
                    disputa por poder entre França e Inglaterra se desenrolou na disputa pelo
                    domínio da origem da riqueza holandesa e voltou-se para o Atlântico (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B4">Arrighi, 1996</xref>). As expansões além-mar da
                    França e Inglaterra reconstruíram a geopolítica do comércio mundial com a
                    combinação de colonialismo, escravidão e nacionalismo econômico (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B4">Arrighi, 1996, p. 49</xref>). A Guerra dos Sete
                    Anos entre França e Inglaterra (1756-1763) é consequência direta desta disputa
                    interestatal. Logo em seguida, por volta de 1760, inicia-se a expansão
                    financeira do CSA holandês, cuja crise terminal é marcada pelos movimentos de
                    independência das 13 colônias britânicas na América do Norte (1776) e pela
                    Revolução Francesa (1789). Com o início das Guerras Napoleônicas na Europa
                    (1803), o sistema internacional entrou em caos. Ao liderarem os Estados europeus
                    na consolidação do sistema criado pelos holandeses – sistema de Estados
                    soberanos -, na vitória contra Napoleão; o Reino Unido deu início a sua
                    hegemonia mundial e instaurou uma nova ordem mundial a partir de 1815, com o
                    Congresso de Viena.</p>
                <p>O Congresso de Viena restaurou o equilíbrio de poder entre Inglaterra, França,
                    Prússia, Rússia e Áustria e o Reino Unido exerceu sua hegemonia pelo chamado
                    imperialismo do livre mercado. O CSA britânico baseou-se na criação de redes
                    mundiais de comércio que dependiam da ampliação da riqueza e do poder do Reino
                    Unido (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Arrighi, 1996, p. 55</xref>), definindo a
                    divisão internacional do trabalho em sua fase de expansão material; e nas altas
                    finanças, que sofisticou as exportações de capitais (IED) na fase de expansão
                    financeira.</p>
                <p>O novo sistema governado pelo Reino Unido, que reúne controle mundial pelo livre
                    mercado e pelas altas finanças, propiciou um fenômeno sem precedentes que <xref
                        ref-type="bibr" rid="B32">Polanyi (1980)</xref><xref ref-type="fn" rid="fn5"
                        >5</xref> chamou de “cem anos de paz” , no qual as grandes potências
                    europeias conviveram sem guerras prolongadas ou devastadoras. Das quatro
                    instituições base da civilização do século XIX, segundo Polanyi, – a saber:
                    equilíbrio de poder, padrão-ouro, mercado autorregulável, estado liberal -, o
                    padrão-ouro se mostrou crucial, no entanto, “a fonte e a matriz do sistema foi o
                    mercado autorregulável” (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Polanyi, 1980, p.
                        17</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>. “Ao apresentar sua
                    supremacia mundial como a encarnação dessa entidade metafísica [mercado
                    autorregulável], o Reino Unido logrou ampliar seu poder no sistema interestatal
                    muito além do que era justificado pela extensão e eficiência de seu aparelho
                    coercitivo” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Arrighi, 1996, p. 55</xref>). A
                    ordem mundial foi sustentada, portanto, por hegemonia; mas, segundo <xref
                        ref-type="bibr" rid="B23">John Ikenberry (2001, p. 26)</xref>, uma ordem
                    hegemônica se organiza pelo princípio da hierarquia, na qual a distribuição de
                    poder entre os Estados funciona por uma lógica em que o poder e a autoridade
                    política são centralizados, embora haja alta interdependência e diferenciação
                    funcional entre os Estados. Havia uma clara integração vertical, na qual a
                    Inglaterra estava no topo e liderava o equilíbrio de poder (fiel da
                    balança).</p>
                <p>Segundo Ellen Wood, o período de hegemonia britânica instituiu um Império
                    genuinamente Capitalista e pode ser separado em duas fases: a primeira
                    corresponde ao período de colonização de povoamento na Irlanda e nos Estados
                    Unidos, e o segundo diz respeito ao período de colonização territorial clássico.
                    Esse último período é denominado de Imperialismo Clássico por <xref
                        ref-type="bibr" rid="B10">Alex Callinicos (2009)</xref>. Assim, parte
                    inicial do Império Britânico, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood
                        (2003)</xref>, se inicia no ciclo sistêmico de acumulação holandês na
                    classificação de <xref ref-type="bibr" rid="B4">Arrighi (1996)</xref>. De acordo
                    com <xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood (2003, p.74)</xref>, o Império
                    Britânico se classifica como genuinamente capitalista porque foi com a
                    Inglaterra que a competição competitiva, baseada no aumento da produtividade,
                    passou a guiar a associação do estado com o capital em seu processo de
                    reprodução global.</p>
               <p> <disp-quote>
                    <p>Somente a civilização do século XIX foi econômica [capitalista] em um sentido
                        diferente e distinto, pois ela escolheu basear-se num motivo muito raramente
                        reconhecido como válido na história das sociedades humanas e, certamente,
                        nunca antes elevado ao nível de justificativa de ação e comportamento na
                        vida cotidiana, a saber, o lucro. O sistema de mercado autorregulável
                        derivou unicamente deste princípio (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Polanyi,
                            1980 [1944], p. 47</xref>).</p>
                </disp-quote></p>
                <p>Diferentemente de Impérios anteriores, nos quais a terra era vista como fonte de
                    trabalho e força militar (Impérios de Propriedade), no Império Capitalista
                    britânico em sua primeira fase, a terra era investimento para obter lucro (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B43">Wood, 2003, p. 74</xref>). Essa nova lógica de
                    apropriação capitalista pela produção competitiva estabeleceu as bases para que
                    os imperativos de mercado se tornassem uma alternativa ao domínio colonial
                    direto, embora a ocorrência desse fenômeno tenha se dado, de fato, somente no
                    CSA norte-americano (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood, 2003, p. 87</xref>).
                    Em sua segunda fase, o Império Capitalista britânico reuniu elementos
                    territorialistas e capitalistas (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Arrighi, 1996,
                        p. 58</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood, 2003, p. 118</xref>) e
                    “levou os imperativos de mercado para os cantos mais longes do globo” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B43">Wood, 2003, p. 118</xref>). Assim, a Era da
                    Colonização, nesse período, faz com que o CSA britânico se encaixe na
                    classificação de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Arrighi e Moore (2001, p. 69,
                        73)</xref>, como do tipo extensivo; ou seja, que promove a expansão do
                    sistema capitalista. E, a expansão da civilização industrial pelo mundo
                    instituiu o sistema centro-periferia para a reprodução do capital.</p>
                <p>A ordem liberal do mercado autorregulável foi sustentada pelo padrão-ouro, que
                    fez da libra a moeda internacional. A abertura de seu mercado interno para o
                    mundo fez com que o Balanço de Pagamentos inglês apresentasse, sob o
                    padrão-ouro, déficit na balança comercial (embora fosse positivo nas relações
                    com a Índia), mas superávit na balança de serviços. Até 1914, a conta corrente
                    era superavitária, enquanto a conta de capital era deficitária, apresentando um
                    saldo global negativo. De fato, os déficits no Balanço de Pagamentos inglês,
                    causados principalmente pela saída de capital de longo prazo – IED e empréstimos
                    ao exterior – eram compensados pelo pagamento de juros e aplicações de curto
                    prazo do resto do mundo (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Medeiros; Serrano,
                        1999, p. 121</xref>). Assim, o controle sobre a moeda mundial “permitiu que
                    o governo britânico dirigisse com grande eficiência um espaço político-econômico
                    muito maior do que qualquer império mundial anterior jamais geriu ou poderia ter
                    gerido” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Arrighi, 1996, p. 58</xref>).</p>
                <p>A expansão financeira do CSA britânico ganha força por volta de 1870, o que
                    indica o início da turbulência sistêmica. A partir de então, a Inglaterra viu
                    sua capacidade de governar o sistema enfraquecer com a industrialização e o
                    desenvolvimento de outros Estados, em especial, dos Estados Unidos e da
                    Alemanha. A sofisticação nas exportações de capital deu ao capitalismo uma nova
                    face, caracterizada pela formação de monopólios, cartéis e trustes. Os
                    investimentos britânicos além-mar saltaram de £700 milhões de libras em 1870
                    para £2 bilhões de libras em 1900 e para algo em torno de £3,5 a £4 bilhões de
                    libras em 1913 (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Callinicos, 2009, p.153</xref>).
                    O acirramento da competição capitalista interestatal promovida pela exportação
                    do capital levou à eclosão da I Guerra Mundial em 1914 e da Revolução Russa em
                    1917. O colapso da sociedade liberal e a ascensão do totalitarismo na Europa,
                    nas décadas de 1920-30, marcam a crise terminal da hegemonia britânica e o
                    sistema entra em caos com a Segunda Guerra Mundial. O ano de 1945 marca o fim do
                    CSA britânico e a emergência da hegemonia norte-americana com o estabelecimento
                    de uma nova ordem mundial na conferência de <italic>Bretton Woods.</italic></p>
                <p>Os Estados Unidos tornaram-se hegemônicos ao restaurar os princípios e as normas
                    que nortearam a criação do sistema interestatal desde Vestfália e passaram a
                    governar e a reformular o sistema interestatal. A soberania permaneceu como
                    princípio norteador das relações internacionais, mas o exercício da soberania
                    foi circunscrito a padrões “universais” (ocidentais) de conduta. Pois, as
                    instituições internacionais criadas sob a liderança dos Estados Unidos no
                    pós-guerra limitaram as ações de as nações soberanas em suas relações com outros
                    Estados e com seus próprios cidadãos. “Os governos nacionais tem estado menos
                    livres do que nunca para perseguir seus objetivos por meio da guerra, da
                    expansão territorial e, em menor grau, mas ainda mais significativo, das
                    violações dos direitos civis e humanos de seus cidadãos” (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B4">Arrighi, 1996, p.67</xref>). A ordem mundial que emerge após a II
                    Guerra Mundial foi sustentada por instituições internacionais que difundiam e
                    aprofundavam a hegemonia norte-americana pelo globo. O sistema monetário
                    internacional, acordado em <italic>Bretton Woods</italic> e mantido sob a
                    gerência do FMI, fez do dólar a moeda internacional. <xref ref-type="bibr"
                        rid="B23">John Ikenberry (2001, p. 27)</xref> a classifica como uma ordem
                    constitucional, na qual direitos e limites ao exercício do poder são acordados
                    em instituições políticas e legais.</p>
                <p>A expansão material do CSA norte-americano fundamentou-se em dois pilares:
                    estímulo ativo ao movimento de autodeterminação dos povos e centralidade dos
                    investimentos estrangeiros diretos na reconstrução da economia capitalista
                    mundial. O “imperialismo sem colônia” já tinha sido experimentado no CSA
                    britânico, mas enquanto a força da hegemonia britânica estava nas redes
                    descentralizadas e transnacionais; o domínio dos Estados Unidos se baseou nas
                    indústrias de produção em massa organizadas por corporações multinacionais e no
                    suprimento de seu mercado continental (<xref ref-type="bibr" rid="B10"
                        >Callinicos, 2009, p.166</xref>).</p>
                <p>O movimento de descolonização no pós-guerra colocou os países da periferia, em
                    especial os povos não ocidentais, em igualdade política formal com os países do
                    centro pelo princípio da soberania. A periferia deixa de ser, em sua maioria,
                    composta por povos não civilizadas; e passa a ser um conjunto de nações
                    soberanas. E, a colonização direta cede lugar ao domínio econômico, exercido
                    pelo capital. Assim, a autodeterminação dos povos foi amplamente incentivada
                    pelos Estados Unidos, que encorajavam a adoção de sistemas capitalistas em suas
                    economias.</p>
                <p>Ou seja, a política de “abrir portas” (<italic>open door</italic>) passa a ditar
                    a conduta norte-americana de acumulação sistêmica de capital (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B10">Callinicos, 2009, p. 165</xref>).
                    Consequentemente, as multinacionais norte-americanas se instalaram por todo o
                    globo, ocupando mercados centrais e periféricos em Estados capitalistas. A
                    associação entre o Estado e o capital neste período assumiu contornos
                    expressivos, e mesmo sob uma ordem calcada em valores liberais, governos
                    ditatoriais foram ativamente apoiados na periferia pelos Estados Unidos, desde
                    que garantissem a reprodução do capital em escala global (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B10">Callinicos, 2009, p. 9-10</xref>). O CSA norte-americano
                    intensificou e consolidou o sistema capitalista mundial no pós-Guerra, assumindo
                    uma configuração que <xref ref-type="bibr" rid="B5">Arrighi e Moore
                        (2001)</xref> chamam de intensiva. E foi pela internacionalização dos
                    imperativos de mercado que os Estados Unidos fundaram o Império do Capital,
                    segundo <xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood (2003)</xref>, ou o Imperialismo de
                    Super Potência (<italic>Open Door Imperialism</italic>), conforme <xref
                        ref-type="bibr" rid="B10">Callinicos (2009)</xref>.</p>
                <p>No entanto, a fase de expansão financeira do CSA norte-americano marca o início
                    da turbulência sistêmica e apresenta uma nova configuração da associação do
                    Estado com o capital, em prol de sua reprodução e acumulação em escala global. O
                    relacionamento estreito do Estado com o capital na expansão financeira
                    norte-americana modifica o <italic>modus operandi</italic> do capitalismo, o que
                    nos permite identificar mudanças significativas na caracterização do CSA
                    norte-americano. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B43">Ellen Wood
                        (2003)</xref>, o Império Capitalista norte-americano pode ser dividido em 2
                    fases: logo após a II Guerra Mundial com a internacionalização dos imperativos
                    de mercado; e na virada do século XXI com a intensificação da
                    internacionalização dos imperativos de mercado e a promoção da guerra sem fim –
                    sem um inimigo claramente definido. <xref ref-type="bibr" rid="B10">Callinicos
                        (2009)</xref>, por sua vez, subdivide o período hegemônico norte-americano
                    em: imperialismo de super potência ou das portas abertas (1945-1991); e
                    imperialismo após a Guerra Fria (após 1991). Este trabalho reúne a
                    intensificação da internacionalização dos imperativos que ocorre com o fim da
                    Guerra Fria e denomina o período após 1991 de “fase da globalização” do
                    imperialismo norte-americano.</p>
                <p>A reconstrução de mercados arrasados por guerras passou a ser um importante meio
                    de reprodução global do capital norte-americano, desde 1945 e, especialmente,
                    depois de 1991. Na verdade, a relação do Estado com a guerra na acumulação nada
                    tem de novo (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Tilly, 1996</xref>). No pós-Guerra,
                    o Plano Marshall foi o instrumento usado para corrigir os “desequilíbrios
                    estruturais massivos da economia mundial” , pois, com a reconstrução das
                    economias europeias e japonesa, os laços com as áreas de produção primária da
                    África, Ásia e América Latina foram restaurados. (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B10">Callinicos, 2009, p. 171</xref>). Após 1991, a hegemonia
                    norte-americana, que, desde o pós-Guerra, apresentou-se como a defensora dos
                    direitos “universais” (valores liberais ocidentais), passou a fazer guerras para
                    garantilos, passando por cima do princípio de soberania de terceiros quando isso
                    lhe convinha. As chamadas “guerras humanitárias” passaram a legitimar a violação
                    de soberania nos casos da Bósnia (1995), do Afeganistão (2001), do Iraque (2003)
                    e da Líbia (2011), por exemplo.</p>
                <p>Ademais, nesta segunda fase, os Estados Unidos reformularam as normas
                    institucionais, de modo a favorecer a reprodução global do capital. De fato,
                    fizeram uso das instituições internacionais do sistema de <italic>Bretton
                        Woods</italic> para a difusão de seus interesses hegemônicos. Em especial,
                    FMI e Banco Mundial foram usados na promoção do movimento mundial de
                    desregulamentação e liberalização econômico-financeira. Ainda criaram a OMC, que
                    passou a regular não apenas o comércio internacional de bens, mas também
                    “questões relacionadas ao comércio internacional” que atuam diretamente na
                    reprodução do capital, como os direitos de propriedade intelectual e os
                    investimentos governamentais. Um sistema de múltiplos Estados soberanos,
                    operando como instrumentos na transmissão dos imperativos de mercado, se torna
                    essencial para a sustentação dessa ordem mundial (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B43">Wood, 2003</xref>).</p>
                <p>Além disso, com o engajamento na chamada guerra ao terror ou guerra sem fim no
                    início dos anos 2000, os Estados Unidos mostraram que, com sua incontestável
                    supremacia militar, as amarras institucionais criadas por eles mesmos no
                    pós-Guerra, como o sistema ONU, não foram capazes coibir a busca do interesse
                    nacional pelo uso do poder na política internacional. Assim, a ordem
                    constitucional apontada por <xref ref-type="bibr" rid="B23">Ikenberry (2001, p.
                        27)</xref> para descrever o pós-guerra já não faz mais sentido nessa segunda
                    fase do imperialismo norte-americano. A ordem passou a ser sustentada por um
                    tipo ideal mais próximo ao que caracterizou o CSA britânico: hegemonia
                    hierarquizada, em que um sistema múltiplo de Estados soberanos apoia a ordem que
                    favorece a acumulação do Estado hegemônico.</p>
                <p>O CSA intensivo que caracterizou a primeira fase do Império do Capital
                    norte-americano também já não descreve essa fase de globalização. A
                    intensificação da internacionalização dos imperativos de mercado, através da
                    desregulamentação e liberalização econômico-financeira, contribuiu para que o
                    sistema capitalista alcançasse mercados antes fora dos circuitos globais.
                    Cumprindo o caminho para sua reprodução, como apontou Rosa Luxemburgo, o
                    capitalismo está integrando o conjunto da economia mundial e se tornando um
                    sistema global, como nunca visto antes. Logo, nesta fase de globalização do
                    Império do Capital, o CSA norte-americano deve ser classificado dentro dos
                    padrões de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Arrighi e Moore (2001)</xref> como
                    extensivo e não intensivo. Ou seja, aquele que promove a expansão do sistema
                    capitalista pelo globo.</p>
                <p>O dólar também já não reina absoluto nas transações internacionais (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B14">Eichengreen, 2011</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B12">Conti et al., 2013</xref>). Embora o dólar continue a ser a
                    principal moeda usada como meio de pagamento e nas transações financeiras
                    internacionais, diferentes moedas disputam cada vez mais espaços com o dólar. Ao
                    avaliarem as mudanças no sistema monetário internacional e no seu caráter
                    hierarquizado, <xref ref-type="bibr" rid="B12">Conti et al. (2013)</xref>
                    concluem que o dólar ainda é a principal moeda usada em âmbito internacional em
                    praticamente todas as funções da moeda. A saber, meio de pagamento, unidade de
                    conta, e reserva de valor (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Conti et al., 2013,
                        p. 50</xref>). Mas enquanto o dólar continua sendo a principal moeda para o
                    uso público nas funções de unidade de conta e de reserva de valor; o euro
                    aparece com destaque no desempenho dessas funções no uso privado (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B12">Conti et al., 2013, p. 49</xref>). Nos mercados
                    bancários, de títulos e de derivativos é o euro quem mais exerce hoje a função
                    de reserva privada de valor (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Conti et al., 2013,
                        p. 49</xref>). O iene, a libra esterlina, e o franco suíço exercem também
                    funções de moeda internacional, mas de forma menos expressiva (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B12">Conti et al., 2013, p. 77</xref>). O esforço do
                    governo chinês para a internacionalização do renminbi também vem ganhando
                    destaque no sistema monetário internacional (<xref ref-type="bibr" rid="B11"
                        >Cintra; Martins, 2013, p. 211</xref>).</p>
                <p>Em suma, o momento atual do CSA norte-americano é de turbulência sistêmica. A
                    crise de sinalização da hegemonia dos Estados Unidos é marcada pela década de
                    1980, quando se inicia a expansão financeira norte-americana após as mudanças no
                    sistema monetário internacional a partir da década de 1970. Mas o marco da crise
                    terminal ainda não é consensual. Enquanto Arrighi (2007) aponta a guerra ao
                    terror como um marco da queda da hegemonia dos Estados Unidos; a literatura da
                    internacionalização do capital identifica esse marco como uma intensificação na
                    reprodução do capital; e a das ondas longas apresenta a crise de 2007-2008 como
                    um ponto de virada crucial. Pode ser até mesmo que a hegemonia ainda não tenha
                    entrado em sua crise terminal e que ainda demore algum tempo até que a
                    turbulência se intensifique ao ponto do sistema entrar em caos. Mas o fato é que
                    a distribuição de poder no sistema, que na primeira fase estava acomodada entre
                    os aliados está sendo alterada e a periferia vem ganhando espaço. De fato, Barry
                    Buzan, aponta que a estrutura global de poder no início do século XXI deve ser
                    vista em quatro eixos: Estados Unidos, Europa, Japão, Rússia e China (Buzan,
                    2004 apud <xref ref-type="bibr" rid="B10">Callinicos, 2009, p. 214</xref>).</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>1.2 Poder e finanças na internacionalização do capital</title>
                <p>A abordagem da internacionalização do capital fornece elementos que nos permitem
                    apontar a articulação do Estado com o capital e do capital produtivo com o
                    capital financeiro. Assim, poder e finanças também são as dimensões analíticas
                    enfatizadas no <xref ref-type="table" rid="T2">Quadro 2</xref>, que mostra as
                    transformações no capitalismo a partir da abordagem da internacionalização do
                    capital. Nesta seção, são apresentadas as quatro fases do imperialismo
                    capitalista identificadas por <xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood (2003)</xref>
                    e o papel da periferia na reprodução e acumulação do capital em escala
                    global.</p>
                <p><table-wrap id="T2">
                    <label>Quadro 2</label>
                    <caption>
                        <title>Reconfigurações Sistêmicas do Capitalismo – internacionalização do
                            capital</title>
                    </caption>
                    <table frame="hsides" rules="groups">
                        <thead style="background-color:#B8CCE4">
                            <tr>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">IMPERIALISMO
                                    CAPITALISTA</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">INTERNACIONALIZAÇÃO DO
                                    CAPITAL</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">DIVISÃO INTERNACIONAL DO
                                    TRABALHO</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">PAPEL DA PERIFERIA NA
                                    PRODUÇÃO MUNDIAL</th>
                                <th align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">PAPEL DA PERIFERIA NA
                                    INTERNACIONALIZAÇÃO DO CAPITAL</th>
                            </tr>
                        </thead>
                        <tbody>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">BRITÂNICO (fase I:
                                    colônias de povoamento)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">produção competitiva da
                                    terra</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">***</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">mão de obra, terra</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">tráfico de escravos</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">BRITÂNICO (fase II:
                                    colonialismo clássico)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">ampliação da inserção
                                    periférica na DIT</td>
                                <td align="left" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">Centro: exportação de
                                    manufaturas e de capitais; surgimento de grandes empresas.
                                    Periferia: exportação de matérias-primas.</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">matérias-primas e recursos
                                    naturais</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">intensificação dos fluxos
                                    de capitais: investimentos estrangeiros direto</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">NORTE-AMERICANO (fase I:
                                    pós-Guerra)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">modernização da
                                    periferia</td>
                                <td align="left" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">Centro: exportação de
                                    manufaturas e sofisticação na exportações de capitais;
                                    Multinacionais em busca de recursos naturais e/ou de mercados na
                                    periferia. Periferia: exportação de matérias-primas.</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">matérias-primas, recursos
                                    naturais e mercado</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">abertura de novos
                                    mercados</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2"
                                    >NORTE-AMERICANO (fase II: globalização)</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2">integração da
                                    periferia na globalização</td>
                                <td align="left" valign="middle">Centro: exportação de manufaturas e
                                    sofisticação na exportações de capitais; Multinacionais em busca
                                    de recursos naturais e/ou de mercados na periferia, e em busca
                                    de eficiência e/ou de ativos estratégicos ou capacidades no
                                    centro</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black" rowspan="2"
                                    >matérias-primas, recursos naturais, mercados, racionalidade
                                    produtiva e manufaturas</td>
                                <td align="center" valign="middle">Cadeias Globais de Valor</td>
                            </tr>
                            <tr>
                                <td align="left" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">Periferia: exportação de
                                    matérias-primas e de manufaturas pela periferia. Multinacionais
                                    com sede na periferia.</td>
                                <td align="center" valign="middle"
                                    style="border-bottom:1pt solid black">intensificação dos fluxos
                                    de capitais: investimentos em portfólio</td>
                            </tr>
                        </tbody>
                    </table>
                    <table-wrap-foot>
                        <fn id="TFN3">
                            <p>Elaboração própria a partir da argumentação apresentada por <xref
                                    ref-type="bibr" rid="B43">Ellen Wood (2003)</xref> e <xref
                                    ref-type="bibr" rid="B13">Dunning e Lundan (2008)</xref>.</p>
                        </fn>
                    </table-wrap-foot>
                </table-wrap></p>
                <p>A internacionalização dos imperativos de mercado, segundo <xref ref-type="bibr"
                        rid="B43">Wood (2003)</xref>, iniciou-se com a produção competitiva da terra
                    como justificativa britânica para o domínio sobre a Irlanda e os Estados Unidos,
                    no estabelecimento de colônias de povoamento. Quando as colônias na América do
                    Norte se tornaram mais capitalistas, a demanda por mão de obra se intensificou,
                    e o Reino Unido entrou no comércio da mão de obra escrava. “Na medida em que sua
                    economia doméstica crescia, e que o capitalismo agrário abria caminho para a
                    industrialização, o Reino Unido se tornou, de longe, a força predominante no
                    tráfico negreiro do Atlântico, mesmo depois da Revolução Americana” (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B43">Wood, 2003, p. 105</xref>). Embora exista um
                    debate sobre o papel do tráfico escravo para a ascensão do imperialismo
                    britânico – ou seja, se o lucro com o tráfico escravo foi crucial ou não para o
                    desenvolvimento do capitalismo industrial britânico -; a importância da
                    escravidão no processo produtivo das colônias nas Américas para a produção de
                    commodities, tabaco e açúcar e o papel das colônias no lucrativo comércio
                    externo britânico são amplamente reconhecidos. Assim, o papel que a periferia
                    desempenhava na internacionalização da produção no século XVIII estava
                    relacionado à provisão de mão de obra escrava e de terra para ser cultivada
                    segundo os critérios capitalistas de produtividade. E o tráfico negreiro
                    acelerava a internacionalização do capital na primeira fase do imperialismo
                    britânico. Neste período, também ocorre a Revolução Industrial. A partir daí a
                    civilização industrial foi se difundindo pelo mundo e o sistema centro-periferia
                    se constituiu. Já no século XIX, a expansão do imperialismo britânico aumentou a
                    participação periférica na divisão internacional do trabalho e o domínio
                    territorial direto voltou a ser incorporado como fonte de riqueza no
                    imperialismo colonial clássico. Com a expansão do capitalismo, a clivagem
                    centro-periferia se consolidou. Neste período o papel da periferia na
                    internacionalização da produção, além da oferta de mão de obra barata e de
                    terra, também incluiu a provisão de matérias-primas e recursos naturais. Com a
                    expansão financeira do CSA britânico, a exportação de capitais foi intensificada
                    e investimentos estrangeiros diretos foram direcionados à periferia. Embora esse
                    fluxo de IED tenha se dado numa magnitude muito inferior ao que normalmente é
                    alegada pelos textos marxistas clássicos (<xref ref-type="bibr" rid="B10"
                        >Callinicos, 2009, p. 153</xref>), a periferia entrou no circuito global de
                    internacionalização do capital.</p>
                <p>Na primeira fase do imperialismo norte-americano, para expandir seus próprios
                    mercados os Estados Unidos incentivaram o processo de industrialização da
                    periferia (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood, 2003, p. 132</xref>). As
                    empresas multinacionais do centro passaram a procurar mercados periféricos em
                    busca de matérias-primas, recursos naturais com qualidade maior ou custos
                    menores do que teriam acesso em casa e em busca de mercado para ofertar bens e
                    serviços (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Dunning; Lundan, 2008, p.
                    67-68</xref>). Consequentemente, a industrialização deixou de ser exclusividade
                    do centro. Ainda, um novo canal de escoamento para a reprodução do capital foi
                    criado com a descolonização da África e da Ásia e a abertura de novos mercados.
                    A autodeterminação dos povos que guiou o movimento de descolonização estabeleceu
                    a soberania como base da relação centro-periferia.</p>
                <p>Na fase de globalização do imperialismo norte-americano, por sua vez, a periferia
                    ganha papel de destaque no processo de internacionalização do capital.
                    Primeiramente, como mostra <xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood (2003)</xref>,
                    um sistema de múltiplos Estados se torna imprescindível para a
                    internacionalização do capital e a estruturação desse sistema se deu exatamente
                    pela a integração da periferia no processo de globalização, na medida em que os
                    governos de Estados nacionais adotaram políticas de desregulamentação e
                    liberalização econômico-financeiras e passaram atuar como instrumentos de
                    difusão dos imperativos de mercado (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Wood, 2003,
                        p. 133</xref>).</p>
                <p>Segundo, o fluxo de IED para a periferia passou a abarcar a busca por eficiência,
                    ou seja, as multinacionais são motivadas a estabelecer filiais em mercados
                    estrangeiros para racionalizar a produção que passa a ter atividades dispersas
                    geograficamente. Com os rápidos avanços na tecnologia de informação e
                    comunicação, <italic>outsourcing</italic><xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>
                    e <italic>offshoring</italic><xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref> na periferia
                    se tornaram opções estratégicas para as firmas. Assim, Cadeias globais de valor
                    emergem como um novo canal para a internacionalização da produção e os mercados
                    periféricos passam a se destacar nesse processo. Terceiro, as economias
                    periféricas deixam de ser apenas exportadoras de matérias-primas e passam a se
                    destacar como exportadoras de manufaturas. A internacionalização da produção
                    encontra nas firmas multinacionais com sede na periferia um novo ator na
                    reestruturação mundial da divisão do trabalho. Quarto, a periferia ganha papel
                    de destaque no comércio mundial de bens e muda a composição de forças na
                    geopolítica mundial. Por fim, o recebimento dos fluxos de investimentos em
                    portfólio pela periferia se torna um importante instrumento para a
                    intensificação da internacionalização do capital financeiro.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>1.3 A tecnologia na reconfiguração sistêmica do capitalismo</title>
                <p>A dimensão tecnológica, por sua vez, é destacada no <xref ref-type="table"
                        rid="T3">Quadro 3</xref>, que busca olhar as transformações no capitalismo a
                    partir das revoluções tecnológicas. Em cada onda longa definida por <xref
                        ref-type="bibr" rid="B18">Freeman e Perez (1988)</xref>, são apresentadas
                    mudanças no centro e na periferia que sugerem mudanças profundas no
                    capitalismo.</p>
                <p><table-wrap id="T3">
                    <label>Quadro 3</label>
                    <caption>
                        <title>Reconfigurações Sistêmicas do Capitalismo – tecnologia e finanças nas
                            ondas longas</title>
                    </caption>
                   <graphic xlink:href="t3.jpg"/>
                </table-wrap></p>
                  <p><table-wrap id="T4">
                   <graphic xlink:href="t3b.jpg"/>
                    <table-wrap-foot>
                        <fn id="TFN4">
                            <p>Nota: a – Human Developmant Report, 1999.</p>
                        </fn>
                        <fn id="TFN5">
                            <p>Fonte: Elaboração própria a partir do quadro apresentado por <xref
                                    ref-type="bibr" rid="B18">Freeman &amp; Perez (1988,
                                    p.50-57)</xref></p>
                        </fn>
                    </table-wrap-foot>
                </table-wrap></p>
                <p>Em termos breve temos que, a primeira onda longa que emerge com a revolução
                    industrial (1770-80/1830-40) inicia a fase do capitalismo industrial e a
                    clivagem centro-periferia passa a ser constituída a partir da difusão da
                    civilização industrial pelo sistema econômico mundial. Assim, impulsionada pela
                    emergência da hegemonia britânica, a civilização industrial passou a se difundir
                    pelo sistema econômico mundial a partir da Inglaterra (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B19">Furtado, 1986</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B20"
                    >1992</xref>). Com o desenvolvimento do capitalismo, centro do sistema foi se
                    alargando com a incorporação dos países que se inseriram diretamente na
                    civilização industrial. Além do Reino Unido, os países da Europa Ocidental, os
                    Estados Unidos e a Austrália, por exemplo, passaram a compor o
                        <italic>hall</italic> dos países centrais. O colonialismo, que já era
                    praticado, ganhou novos rumos sob a tutela da hegemonia britânica e a
                    civilização industrial chegou à periferia. Ou seja, aquelas economias que se
                    inseriram na civilização industrial pela via comercial – como os países
                    latino-americanos e as colônias de economias europeias – se tornaram dependentes
                    da dinâmica econômica das economias centrais.</p>
                <p>Assim, com a emergência da segunda onda longa (1830-40/1880-90), a clivagem
                    centro-periferia assumiu sua configuração clássica: os países centrais
                    exportando manufaturas e os países periféricos exportando matérias-primas. Essa
                    configuração, assentada no liberalismo econômico do
                        <italic>laissez-faire</italic> e na estabilidade promovida pelo padrão-ouro,
                    foi base da Pax Britânica no século XIX. Os relatos de economia política
                    escritos por <xref ref-type="bibr" rid="B34">Adam Smith (1776)</xref> e <xref
                        ref-type="bibr" rid="B25">Friedrich List (1841)</xref> retratam o período da
                    constituição do centro a partir da Inglaterra e as implicações da difusão do
                    capitalismo industrial para a periferia. E a difusão da civilização industrial
                    na Pax Britânica sob o <italic>laissez-faire</italic> provocou sobre a periferia
                    a uma relação de dependência que não se desfez nem mesmo com a independência
                    política conquistada na América Latina. Muito embora a relação entre economias
                    centrais e periféricas não tenha sofrido mudanças significativas, a clivagem
                    centro-periferia se modificou. A inserção da periferia na divisão internacional
                    do trabalho foi induzida pela dinâmica dos países centrais e o impacto dessas
                    políticas alterou a composição da periferia, que deixa de ser constituída apenas
                    por colônias de exploração e passa a abarcar também nações independentes.
                    Enquanto essa relação de dependência entre o centro e a periferia sob a égide do
                        <italic>laissez-faire</italic> pode ser identificada no discurso
                    nacionalista de <xref ref-type="bibr" rid="B25">Friedrich List (1841)</xref>, a
                    economia política do capitalismo no período de hegemonia britânica está descrita
                    em O Capital (1867), de Karl Marx.</p>
                <p>As mudanças ocorridas com o capitalismo na terceira onda longa (1880-90/1930-40),
                    como a emergência dos cartéis e trustes internacionais na exportação do capital,
                    são descritas por <xref ref-type="bibr" rid="B22">Rudolf Hilferding
                        (1910)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B26">Rosa Luxemburgo
                        (1913)</xref>. Neste período, a hegemonia britânica entra em turbulência
                    sistêmica, com o fim do padrão-ouro e do <italic>laissez-faire,</italic> com a
                    revolução russa e a I Guerra Mundial. Na busca por novas áreas para a manutenção
                    da taxa de lucro, a concorrência capitalista, expressa na competição
                    interestatal, põe em marcha a corrida imperialista na África e na Ásia. A
                    incorporação de novos mercados na África e na Ásia faz com que a área periférica
                    se amplie de modo significativo, e a clivagem centro-periferia passa a
                    apresentar uma periferia muito mais numerosa. Na medida em que novas áreas
                    periféricas são sugadas para a divisão internacional de trabalho, a distribuição
                    dos ganhos de comércio dos países centrais no mercado mundial se modifica. Neste
                    processo, os Estados Unidos e a Alemanha emergem como hegemonias potenciais, mas
                    são os primeiros quem conseguem estabelecer uma hegemonia mundial ao final da II
                    Guerra Mundial, na emergência da quarta onda longa (1930-40/1980-90).</p>
                <p>A mudança na economia política internacional no pós-guerra, caracterizada
                    simultaneamente pela Pax Americana e pela bipolaridade no sistema de poder,
                    também trouxe implicações na clivagem centro-periferia. A disputa dos Estados
                    Unidos e União Soviética por controle de áreas de segurança impulsionou a
                    emergência de revoluções comunistas e de movimentos nacionalistas, que
                    provocaram o movimento de descolonização da África e na Ásia. Para acomodar as
                    relações centro-periferia e o surgimento dessas novas nações periféricas, foram
                    criadas zonas de influência. Para impedir que nações estratégicas dentro da zona
                    de influência norte-americana fossem cooptadas pela Rússia, os Estados Unidos
                    permitiram a adoção de políticas desenvolvimentistas por economias centrais e
                    periféricas, especialmente no Sudeste Asiático. Dessa forma, uma dinâmica de
                    crescente diferenciação entre os países periféricos foi constituída. A periferia
                    iniciou um processo de industrialização por substituição de importações e se
                    tornou um grupo de países cada vez menos homogêneo.</p>
                <p>O desenvolvimento do Japão e sua inserção no centro, assim como a bipolaridade
                    exercida pela Rússia, representam também uma novidade: pela primeira vez, países
                    que não se inseriram na civilização pela via direta foram incorporados ao centro
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Furtado, 2008</xref>). A permissividade
                    para com as políticas desenvolvimentistas no centro e na periferia se explica
                    pelo papel exercido pelas multinacionais, primeiramente norte-americanas e
                    depois europeias e japonesas também. A atuação das multinacionais de economias
                    centrais atuando nas economias periféricas em seus processos de industrialização
                    resultou numa maior heterogeneidade na periferia, que passou a produzir, em
                    algumas economias, bens de capital. A atuação das firmas multinacionais pode ser
                    encontrada nos trabalhos de <xref ref-type="bibr" rid="B13">Dunning e Lundan
                        (2008)</xref>. Esses autores também são úteis na categorização das
                    motivações do Investimento Estrangeiro Direto (IED) realizadas pelas firmas
                    multinacionais. Segundo a classificação de <xref ref-type="bibr" rid="B13"
                        >Dunning e Lundan (2008, p. 67-68)</xref>, pode-se afirmar que os IED das
                    multinacionais com sede no centro buscavam novos mercados e mais e/ou melhores
                    recursos naturais nas economias periféricas. Os processos de industrialização na
                    periferia, via seus financiamentos, impulsionaram também uma sofisticação na
                    exportação de capitais por parte das economias centrais. A relação de
                    dependência se renova na faceta tecnológica e financeira.</p>
                <p>A emergência da quinta onda longa (1980-90/ ?) abriu uma janela de oportunidade
                    para as economias periféricas que realizaram a industrialização e construíram
                    capacidades e habilidades para aproveitarem a ocasião. Pela primeira vez, países
                    até então dependentes conseguiram superar a armadilha do subdesenvolvimento e
                    deixar a periferia. Taiwan e Coréia do Sul se integram ao centro nestas
                    circunstâncias (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Furtado, 1992</xref>). E outras
                    economias periféricas conseguiram realizar com sucesso o processo de
                    industrialização e começaram a produzir bens de capital. A exportação de
                    manufaturas deixa de ser exclusividade das economias centrais, assim como surgem
                    empresas multinacionais originárias de economias periféricas. As multinacionais,
                    em geral, passam a buscar mais do que novos mercados ou matérias-primas e
                    diversificam seu portfólio de IED pela busca por eficiência e/ou novos ativos,
                    como fusões e aquisições. E muitas multinacionais com origem no centro se
                    transformam em grandes corporações, atuando simultaneamente em diferentes ramos
                    de atividade, inclusive no financeiro.</p>
                <p>O fato é que a configuração sistêmica desenhada pelos países centrais a partir do
                    final dos anos 1970s tornou as economias periféricas mais ativas no arranjo
                    internacional de divisão do trabalho no alvorecer do século XXI. As economias
                    periféricas ganharam peso significativo no comércio mundial; o chamado comércio
                    Sul-Sul modificou as rotas dos investimentos em IED, com as multinacionais
                    periféricas atuando, em especial, nos processos de desenvolvimento de outras
                    economias periféricas e rearranjando a Divisão Internacional do Trabalho. Neste
                    processo ganha destaque o papel exercido por economias periféricas, como Brasil,
                    China e Índia, em diferentes regiões da África. Assim, o período que se inicia
                    com a supremacia dos Estados Unidos encontra-se hoje em turbulência sistêmica,
                    no qual o reequilíbrio de forças pode pender para as economias periféricas.
                    Dentre elas, a China é o maior destaque. Essa nova configuração de forças em
                    formação pode ser encontrada nos trabalhos de <xref ref-type="bibr" rid="B13"
                        >Dunning e Lundan (2008)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B14">Eichengreen
                        (2011)</xref>, dentre outros.</p>
                <p>Portanto, as mudanças no capitalismo ao longo do tempo captadas pelas três
                    dimensões investigadas – poder, finanças e tecnologia – apontam uma
                    transformação sistêmica em curso e mostram as alterações ocorridas nas relações
                    centro-periferia com a evolução do capitalismo ao longo do tempo. Sendo assim, a
                    próxima parte deste trabalho busca evidenciar o papel da periferia nas
                    transformações sistêmicas em curso no capitalismo no alvorecer do século
                    XXI.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec>
            <title>2 A periferia na atual transformação sistêmica: o efeito bumerangue</title>
            <p>Na reconfiguração sistêmica do capitalismo global em curso, há uma novidade: o efeito
                bumerangue. Por ser o capitalismo um sistema dinâmico e evolucionário, a clivagem
                centro-periferia que o articula em âmbito global também se encontra em constante
                mudança. Apesar da transformação contínua das unidades centrais e periféricas, o
                sistema capitalista global se mantém ao longo do tempo estruturado pela clivagem
                centro-periferia. Por uma perspectiva durkheimiana, o sistema (capitalismo global) é
                composto por uma estrutura (clivagem centro-periferia) e pela interação das unidades
                (países centrais e periféricos) – ver <xref ref-type="fig" rid="F1">Figura 1</xref>
                -, no qual o somatório das partes é diferente do todo. Os sistemas se ascendem e se
                formam em um processo, pela interação das partes, que se auto-organizam com certo
                grau de autonomia, guiados por processos de aprendizagem, evolução, competição e
                cooperação, o que os torna flexíveis e dinâmicos. Assim, existem elementos
                sistêmicos que só podem ser observados por uma visão holística. As relações
                centro-periferia são determinadas pelo resultado sistêmico do “vendaval contínuo de
                destruição criativa, ou não tão criativa, na luta pelos benefícios da divisão
                mundial do trabalho” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Arrighi, 1990, p.
                15</xref>).</p>
            <p><fig id="F1">
                    <label>Figura 1</label>
                    <caption>
                        <title>O capitalismo global como sistema</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1657-4206-ecos-34-01-e239667-gf01.png"/>
                    <attrib>Fonte: Elaborada pela autora.</attrib>
                </fig></p>
            <p>A estrutura é definida por três eixos interligados: pela ordenação das unidades; pela
                especificação das funções; e pela distribuição de capacidades entre as unidades. A
                capacidade de as unidades absorverem e gerarem inovações (tecnológicas,
                institucionais etc.), que melhoram seus processos de acumulação e desenvolvimento,
                determina os tipos de funções que essas unidades podem desempenhar na divisão
                internacional do trabalho. Por sua vez, a colocação na divisão internacional do
                trabalho posiciona os países em melhores ou piores condições de incorporação dos
                benefícios da especialização. Com isso, os países se auto-organizam em posições
                centrais ou periféricas na dinâmica capitalista global.</p>
            <p>Vale destacar que essa perspectiva durkheimiana não entra em conflito com a
                perspectiva estruturalista da clivagem centro-periferia, na qual a estrutura
                sistêmica de centro-periferia se define pelo papel do progresso tecnológico na
                disseminação internacional de tecnologia e na distribuição dos frutos do progresso
                técnico no mundo. Isso porque o segundo e o terceiro eixo definidor da estrutura
                (funções desempenhadas e distribuição das capacidades de absorver e gerar inovações,
                respectivamente) determina a distribuição mundial dos frutos do progresso técnico e
                estabelece núcleos centrais e periféricos (ordenação hierárquica do sistema).</p>
            <p>A interação das unidades, por sua vez, se dá pelos fluxos internacionais, de
                exportação e importação de bens, serviços e capitais<xref ref-type="fn" rid="fn9"
                    >9</xref>. A interação é influenciada pela estrutura, ao mesmo tempo que a
                modela. A mudança estrutural é resultado dos processos que ocorrem no nível das
                unidades. Assim, novas interações são fontes potenciais de mudança estrutural. Ou
                seja, os novos fluxos e as novas interações entre as unidades (no centro, na
                periferia e/ou entre centro e periferia), resultantes das transformações ocorridas
                no capitalismo desde 1970, nas dimensões das finanças, poder e tecnologia, podem ser
                determinantes de mudança estrutural.</p>
            <p>Ademais, a introdução e a difusão de inovações tecnológicas, políticas, econômicas e
                sociais alteram continuamente os tipos de insumos, produtos, técnicas de produção e
                de distribuição, alocação na rede de trocas e de recursos que dotam os Estados com
                diferentes capacidades para se apropriar dos benefícios da divisão mundial do
                trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Arrighi, 1990, p. 15</xref>). Assim, o
                conjunto de atividades desempenhado pelos países do centro e da periferia se altera
                continuamente ao longo do tempo. Com isso, determinado país, em determinado período
                de tempo, pode conseguir, com determinado conjunto de atividades (exportação de
                manufaturas, importação de bens intensivos em trabalho, exportação de capitais
                etc.), se apropriar de grande parcela dos benefícios advindos das trocas de fluxos
                internacionais, enquanto outros países não conseguem fazer o mesmo, no mesmo
                período; ou o mesmo país pode não conseguir fazê-lo em outro período de tempo (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B3">Arrighi, 1990, p. 15</xref>).</p>
            <p>Como todo sistema, o capitalismo global apresenta uma estabilidade dinâmica, na qual
                a estrutura se mantém, apesar de mudanças e transformações contínuas de seus
                componentes. Estabilidade dinâmica é diferente de equilíbrio. Flutuações,
                oscilações, crises e conflitos na interação das partes são necessários e constituem
                a base da estabilidade do todo. Interações no nível das unidades afetando a
                estrutura de modo contínuo é o que garante a estabilidade dinâmica do capitalismo
                global. Ou seja, ocorrem mudanças no sistema, mas não de sistema. Essa só ocorre se
                as mudanças na interação das unidades alcançarem uma magnitude tal que rompam a
                estrutura que o articula. A evolução do sistema ocorre por meio de uma interação
                entre adaptação e criação em um processo permanente de busca pela estabilidade
                dinâmica.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>3 O papel da periferia na elevação da densidade dinâmica</title>
            <p>A densidade dinâmica do sistema se revela pela quantidade, velocidade e diversidade
                de interações (fluxos) entre as unidades. As interações realizadas por periferias
                    complexas<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref> desde 1970 afetaram cada um
                desses elementos e produziram o efeito bumerangue (resultado sistêmico), que
                modifica as bases de interação na relação centro-periferia (novas relações de poder,
                novas formas de dependência etc.) e impacta na densidade dinâmica. Essa mudança na
                densidade dinâmica (pela mudança quantitativa e qualitativa dos fluxos acrescida do
                efeito bumerangue) afeta a estrutura do sistema (ordenação, diversificação das
                funções, distribuição de capacidades) e molda a reconfiguração do capitalismo no
                século XXI.</p>
            <p>De fato, a densidade dinâmica do sistema aumentou em diferentes momentos da história
                e provocou a reconfiguração do capitalismo. A força motriz desse movimento de
                aumento da densidade dinâmica sempre emanou das economias centrais, mas a novidade é
                que, no início do século XXI, passou a emanar também da periferia. Claro que as
                economias da periferia sempre foram partes integrantes desses fluxos; afinal, elas
                são unidades do sistema. Contudo, elas participavam de forma passiva ou como
                receptáculos de fluxos nesses processos interativos. No limiar do século XXI elas
                apresentam um papel mais ativo e também são fontes de irradiação desses fluxos.</p>
            <p>Durante a maior parte do século XX (1930/1940-1980/1990), os países da periferia
                exportavam apenas matérias-primas e <italic>commodities.</italic> Na segunda metade
                do século XX, muitos países da periferia iniciaram seus processos de
                industrialização por substituição de importações e deram início a um processo de
                diversificação da periferia. Aquelas que conseguiram relativo sucesso nesses
                processos se tornaram, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B19">Furtado
                (1986)</xref>, economias periféricas complexas ou de alto nível. E são essas
                economias que ditam, em conjunto, parte do ritmo e da variedade da densidade
                dinâmica do sistema no início do século XXI. A partir dos anos de 1990, os fluxos
                internacionais de bens, serviços e capitais se modificaram bastante. Pela dimensão
                analítica da tecnologia, temos que a emergência das tecnologias da informação e
                comunicação (TIC) propiciou um encurtamento das distâncias e diminuição dos custos
                das transações internacionais, bem como permitiu o aparecimento de novos produtos
                comerciais e financeiros, de novos serviços, de novas formas de organizar e
                gerenciar a produção e as finanças mundiais, entre outras coisas. Pela dimensão do
                poder, temos que as normas, as regras, as práticas e os costumes que compõem a ordem
                mundial são ditados pelos países centrais e que o Estado tem papel crucial na
                internacionalização do capital; logo, as instituições internacionais que guiam as
                interações entre as unidades e as políticas de liberalização e desregulamentação
                adotadas por governos e diferentes partes do mundo foram instituídos com o intuito
                de favorecer as economias centrais e a acumulação e reprodução do capital. Pela
                dimensão das finanças, temos que a esfera produtiva se articula com a esfera
                financeira na evolução do capitalismo. Assim, inovações produtivas, institucionais,
                tecnológicas e financeiras aparecem, muitas vezes, intrinsecamente relacionadas.</p>
            <p>Portanto, a partir dessas três dimensões analíticas, podemos apontar mudanças atuais
                nos elementos que compõem a densidade dinâmica do capitalismo global (velocidade,
                quantidade e diversidade). Por exemplo, com a emergência das TIC, os fluxos de
                interação entre as unidades adquiriram velocidade sem precedentes; o regime mundial
                de comércio, gerenciado pela Organização Mundial do Comércio (OMC), derrubou as
                barreiras comerciais de modo significativo desde sua implementação; a adoção de
                políticas liberalizantes e de desregulamentação econômico-financeiras também
                contribuiu para o aumento quantitativo e qualitativo (diversidade) dos fluxos de
                bens, serviços e capitais ao retirar ou reduzir os controles transfronteiriços
                nessas transações; as inovações tecnológicas, produtivas, institucionais e
                financeiras também contribuíram para o aumento da diversidade dos fluxos
                internacionais que caracterizam as interações entre as unidades. Mesmo com a queda
                no volume de fluxos internacionais que caracterizam a globalização dos circuitos
                econômicos e financeiros e com o aumento de medidas protecionistas nas transações
                internacionais depois da crise de 2007 (<xref ref-type="bibr" rid="B35"><italic>The
                        Economist,</italic> 2013</xref>), a densidade dinâmica do sistema se manteve
                elevada até a pandemia de 2019. Embora represente uma medida simplista da densidade
                dinâmica, o fluxo de comércio mundial permite uma visualização do nível elevado de
                trocas realizado no sistema. O <xref ref-type="fig" rid="F2">Gráfico 1</xref> mostra
                o aumento desse fluxo quando comparado aos anos 1980, enquanto o <xref
                    ref-type="fig" rid="F3">Gráfico 2</xref> expõe a manutenção de um nível elevado
                de trocas pela variação percentual do volume de comércio mundial, em termos
                anuais.</p>
            <p><fig id="F2">
                    <label>Gráfico 1</label>
                    <caption>
                        <title>Comércio mundial de bens e serviços – em bilhões de dólares</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1657-4206-ecos-34-01-e239667-gf02.png"/>
                    <attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B15">FMI (2013)</xref>.</attrib>
                </fig></p>
            <p><fig id="F3">
                    <label>Gráfico 2</label>
                    <caption>
                        <title>Volume de Comércio mundial de bens e serviços – %</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1657-4206-ecos-34-01-e239667-gf03.png"/>
                    <attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B16">FMI (2020)</xref>.</attrib>
                </fig></p>
            <p>Essa elevação na densidade dinâmica do sistema se deve, em parte, às transações
                internacionais realizadas pelas economias periféricas. O produto interno bruto
                combinado de três importantes economias da periferia – Brasil, China e Índia – foi,
                em 2012, aproximadamente igual ao produto interno bruto combinado de seis
                tradicionais líderes econômicos do centro – Canadá, França, Alemanha, Itália, Reino
                Unido e Estados Unidos (<xref ref-type="bibr" rid="B41">UNDP, 2013, p. 13</xref>).
                Essa é uma mudança importante no cenário global. Para comparação, em 1950, Brasil,
                China e Índia respondiam juntos por apenas 10% da economia mundial, enquanto essas
                seis economias do centro eram responsáveis por mais de 50% (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B41">UNDP, 2013, p. 13</xref>). No início da segunda década do século XXI
                são os países da periferia que produzem cerca de metade da riqueza mundial (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B41">UNDP, 2013, p. 13</xref>). Conforme o <xref
                    ref-type="fig" rid="F4">Gráfico 3</xref>, as projeções anteriores à pandemia de
                2019 indicavam que até 2050, o Brasil, a China e a Índia, em conjunto, seriam
                responsáveis por 40% do produto mundial, contra 10% em 1950 (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B41">UNDP, 2013, p. 13</xref>).</p>
            <p><fig id="F4">
                    <label>Gráfico 3</label>
                    <caption>
                        <title>Participação no produto global</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1657-4206-ecos-34-01-e239667-gf04.png"/>
                    <attrib>Nota: Produto medido em paridade de poder de compra em dólares de
                        1990.</attrib>
                    <attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B41">UNDP (2013, p.
                        13)</xref>.</attrib>
                </fig></p>
            <p>As economias periféricas complexas exportam, no século XXI, não apenas
                matérias-primas, mas também manufaturas, serviços e capitais, e são responsáveis por
                parcela significativa da riqueza mundial. Cerca de 50% do fluxo mundial de
                mercadorias em 2010 teve a periferia como origem; em 1985, era apenas 25% (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B41">UNDP, 2013, p. 2</xref>). O comércio envolvendo apenas
                economias periféricas também aumentou de modo significativo no século XXI, saltando
                de 8,1% em 1980 para 26,11% do comércio mundial em 2011 (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B41">UNDP, 2013, p. 45</xref>). Os fluxos de pesquisa e desenvolvimento
                também estão mais intensos na periferia, seja pela instalação de laboratórios de
                multinacionais do centro em economias periféricas, seja pelo aumento dos gastos em
                pesquisa e desenvolvimento pelos governos e firmas da periferia.</p>
            <p>Ademais os fluxos internacionais de capitais privados para a periferia aumentaram
                bastante desde 1990. De fato, o fluxo líquido de capitais privados para os países da
                periferia registrou 1,03 trilhões de dólares em 2007, mesmo com a crise de 2007
                tendo deteriorado os resultados no segundo semestre do ano, enquanto em 1999 esse
                fluxo foi de 209,7 bilhões de dólares (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Banco Mundial,
                    2008, p. 33</xref>). O fluxo privado de títulos para a periferia, por sua vez,
                era de 69,4 bilhões em 2000 e em 2007 somavam 142,2 bilhões de dólares (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B6">Banco Mundial, 2008, p. 41</xref>). A participação da
                periferia no investimento externo direto mundial passou de 20% em 1980 para 50% em
                2010 (<xref ref-type="bibr" rid="B41">UNDP, 2013, p. 47</xref>). O aumento fluxo de
                IED, especificamente, para as economias periféricas pode ser observado no <xref
                    ref-type="fig" rid="F5">Gráfico 4</xref>.</p>
            <p><fig id="F5">
                    <label>Gráfico 4</label>
                    <caption>
                        <title>Fluxo de Investimento Externo Direto (IED) para a periferia</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1657-4206-ecos-34-01-e239667-gf05.png"/>
                    <attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B38">Unctad (2023)</xref>.</attrib>
                </fig></p>
            <p>Em crescimento expressivo desde os anos 1990, mas, após a queda em 2020, os
                investimentos estrangeiros diretos (IED) voltaram a crescer na periferia. Segundo a
                    <xref ref-type="bibr" rid="B39">Unctad (2022)</xref>, nos países da periferia, o
                investimento estrangeiro direto teve alta de 30% em 2021, quando comparado a 2020,
                chegando a 916 milhões de dólares em 2022 (<xref ref-type="bibr" rid="B40">Unctad,
                    2023</xref>). A maior aceleração observada foi no leste da Ásia e dobrou na
                África, em função do desempenho da África do Sul. Além disso, os acordos de projetos
                financeiros internacionais subiram 53% em número e 91% em valor em 2021, com os
                principais aumentos nas periferias complexas da Ásia e da América Latina. No ranking
                dos maiores receptores de IDE do mundo, em 2022, a China é o segundo país em entrada
                de IED e o Brasil, o 5° colocado. Os investimentos no exterior pelas multinacionais
                periféricas também se destacam. No <italic>ranking</italic> de 2022, dos 20 países
                com maior saída de IDE do mundo, a China ocupa a terceira posição e o Brasil a 14ª
                posição (<xref ref-type="bibr" rid="B40">Unctad, 2023</xref>). De fato, na segunda
                década do século XXI, uma em cada quatro empresas multinacionais tem sede na
                periferia (<xref ref-type="bibr" rid="B41">UNDP, 2013, p. 47</xref>), e elas
                realizam um terço do investimento externo direto mundial (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B38">Unctad, 2013</xref>).</p>
            <p>Portanto, a combinação desses fatores leva a um aumento na densidade dinâmica do
                sistema por parte das economias da periferia, devido, essencialmente, à
                    <italic>performance</italic> das periferias complexas na economia mundial. Não é
                apenas o volume de fluxos internacionais, mas também a diversidade de interações que
                elas estão realizando. Além do aumento na densidade dinâmica, essas novas interações
                entre as unidades estão provocando a emergência do efeito bumerangue nas relações
                centro-periferia.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>4 O efeito bumerangue em ação</title>
            <p>A relação centro-periferia apresenta uma novidade no início do século XXI: a
                periferia provocando impactos no centro. Na verdade, a relação comercial entre
                centro e periferia sempre gerou certa interdependência, na qual uma crise econômica
                em um país provocava reflexos em seus parceiros comerciais. Contudo, como mostra o
                    <xref ref-type="fig" rid="F6">Gráfico 5</xref>, as relações comerciais dos
                países centrais sempre foram dominadas por parceiros comerciais do centro. A matriz
                normativa institucional montada pelos países centrais a partir da década de 1990,
                que recompensa políticas de liberalização e desregulamentação econômico-financeira,
                acelerou e aprofundou a inserção das economias periféricas na economia mundial. O
                impacto disso na periferia foi a maior participação no comércio exterior e nos
                fluxos de capitais. Mas o peso relativo ganho pela periferia na economia mundial fez
                com que o desempenho econômico das economias do centro fosse afetado pelo desempenho
                da periferia, em especial das economias periféricas complexas, no comércio
                mundial.</p>
            <p><fig id="F6">
                    <label>Gráfico 5</label>
                    <caption>
                        <title>Comércio mundial por direção do fluxo</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1657-4206-ecos-34-01-e239667-gf06.png"/>
                    <attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B41">UNDP (2013, p.
                        46)</xref>.</attrib>
                </fig></p>
            <p>O aumento das exportações das economias periféricas complexas também rendeu um
                acúmulo sem precedentes de reservas internacionais nessas economias. A maior parte
                dessas reservas é em dólares, que são reinvestidos nos Estados Unidos na forma de
                títulos do Tesouro ou outros ativos denominados em dólares (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B8">Barboza, 2011</xref>). Uma consequência não intencional provocada pelas
                normas de instituições internacionais importantes na condução da ordem
                internacional, como OMC, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial, foi
                tornar economias periféricas complexas, como China, Rússia e Brasil, importantes
                credores internacionais (<xref ref-type="bibr" rid="B36"><italic>The
                        Guardian,</italic> 2011</xref>). Os Estados Unidos, por sua vez, passaram de
                credores a devedores internacionais, em termos líquidos. Os crescentes déficits
                fiscais e de conta corrente dos Estados Unidos, que antes eram financiados por
                fluxos de capitais privados, passaram a ser financiados por Bancos Centrais (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B33">Roubini; Setser, 2004</xref>). Em 2022, em termos de
                reservas internacionais, três economias periféricas figuram dentre as cinco maiores
                – China, Japão, Suíça, Índia e Rússia. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Banco
                    Mundial, 2024</xref>).</p>
            <p>Apesar da nova forma de dependência financeira, na qual a periferia alterou seu
                perfil de endividamento externo, as economias periféricas complexas conseguem
                afetar, em alguma medida, as economias centrais ao se tornarem credoras
                internacionais e por representarem, agora, um canal de contágio para uma crise
                financeira. Isso porque a integração mais profunda dos mercados financeiros, a
                partir dos anos de 1990, abriu espaço para que o contágio passasse a operar nos dois
                sentidos: do centro para a periferia e da periferia para o centro. Até então, o
                sentido de difusão da crise era sempre do centro para a periferia. As crises na
                periferia não tinham capacidade de causar impactos muito profundos nas economias do
                centro como um todo e/ou fazer emergir uma crise sistêmica. Elas conseguiriam, no
                máximo, afetar uma ou outra economia central e em circunstâncias particulares. A
                crise mexicana de 1994 marca o início dessa mudança. O “efeito tequila” do
                comportamento de pânico dos investidores assustou mercados financeiros da periferia
                e do centro, como os de Tóquio, de Londres e de Nova York (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B31">Panitch; Gindin, 2012, p. 251</xref>). Em resposta aos possíveis
                estragos que a crise no México poderia trazer ao sistema financeiro global montado
                pelos países do centro, sob a liderança norte-americana, o Tesouro dos Estados
                Unidos injetou 40 bilhões de dólares para resgatar a economia mexicana do abismo, um
                montante seis vezes superior ao mobilizado em 1982 na crise da dívida do México
                    (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Panitch; Gindin, 2012, p. 252</xref>). A crise
                mexicana de 1994 não foi um caso isolado; para não abalar as estruturas do sistema
                financeiro criado pela Nova Arquitetura Financeira a partir da década de 1990, o
                Tesouro norte-americano e o FMI atuaram como emprestadores em última instância para
                conter a difusão das crises com origem na Tailândia em 1997, na Rússia em 1998 e no
                Brasil em 1999, por exemplo (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Panitch; Gindin, 2012,
                    p. 250-271</xref>).</p>
            <p>No século XXI, as economias periféricas complexas não são apenas fontes potenciais de
                instabilidade, mas também são necessárias no gerenciamento de crises sistêmicas e na
                condução da ordem mundial. Antes, os países da periferia participavam da condução da
                ordem mundial somente quando era do interesse dos países centrais em termos de
                estratégia geopolítica. Mas, agora, a participação da periferia na governança global
                é requisito para a estabilidade do sistema. Tendo em vista que o conjunto de
                economias periféricas complexas se tornou mais espesso, aumentando a heterogeneidade
                na periferia; a clivagem centro-periferia se torna mais fragmentada, no sentido de
                que há mais “subsistemas” de unidades periféricas. Consequentemente, existe maior
                necessidade de se coordenar as unidades centrais e periféricas para a manutenção da
                estabilidade sistêmica. As periferias complexas se fazem necessárias para as
                resoluções de problemas globais em áreas que vão além da geopolítica e incluem o
                domínio econômico – área, até então, de acesso restrito aos países centrais. Não
                obstante o aumento participativo de representantes das economias periféricas
                complexas em instituições internacionais cruciais para a governança financeira
                global, por exemplo, o poder de decisão, as normas e as regras de conduta
                internacionais não sofreram alterações significativas. Logo, há um descompasso
                institucional entre o peso relativo das economias periféricas complexas e a
                capacidade decisória de que desfrutam. De fato, a condução da ordem mundial tende a
                ser controlada pelos países centrais sob a liderança do Estado hegemônico; no
                entanto, a participação de economias periféricas complexas na formação do consenso
                que sustenta a ordem tende a ser aumentada e alargada para diferentes domínios de
                ação, especialmente o econômico.</p>
            <p>Outro impacto da periferia no centro com efeitos sobre a clivagem pode ser
                identificado no movimento de <italic>offshoring</italic> e
                    <italic>outsourcing</italic> que sustentam as cadeias globais de valor. O
                processo global de produção descentralizada acabou criando um mercado de trabalho
                mundial. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B17">Richard Freeman
                (2007)</xref>, a inserção da China, Índia e Rússia no sistema capitalista, o
                crescimento acelerado da educação superior nos países da periferia e a transferência
                de tecnologia moderna para alguns países da periferia impulsionaram a formação de um
                mercado de trabalho global e produzindo impactos sobre os mercados de trabalhos
                domésticos das economias centrais. Se, por um lado, os países do centro tiram
                proveito da “duplicação” do número de pessoas no mercado de trabalho mundial com as
                atividades de <italic>offshoring</italic> e <italic>outsourcing,</italic> por outro,
                as vantagens comparativas que eles desfrutam em bens intensivos em alta tecnologia
                estão sendo reduzidas pelo crescente número de trabalhadores qualificados na
                periferia e pelas transferências de tecnologia que ocorrem nessas atividades (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B17">Freeman, 2007</xref>). Ademais, conforme <xref
                    ref-type="bibr" rid="B17">Freeman (2007)</xref>, o deslocamento da produção para
                mercados estrangeiros populosos, com baixos salários e com trabalhadores com ensino
                superior, afeta o mercado de trabalho norte-americano tanto para trabalhadores
                qualificados com educação superior quanto para trabalhadores sem qualificação. De
                modo geral, as atividades de <italic>offshoring</italic> tendem a deixar os
                trabalhadores das economias centrais em posições mais precárias (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B17">Freeman, 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27"
                    >Mann, 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B30">Milberg et al., 2007</xref>;
                    <xref ref-type="bibr" rid="B9">Burke; Epstein, 2007</xref>). Em termos
                políticos, <xref ref-type="bibr" rid="B28">Martin (2007)</xref> ressalta que o
                impacto do <italic>offshore outsourcing</italic> no mercado de trabalho europeu
                atinge um alicerce crucial dos Estados de bem-estar social, o que pode tornar
                difícil a legitimação democrática do projeto da União Europeia com um todo.</p>
            <p>Além dos impactos nos mercados de trabalho do centro, as atividades de
                    <italic>offshoring</italic> e <italic>outsourcing</italic> afetam os fluxos
                internacionais de tecnologia. Ao mesmo tempo que o <italic>offshoring</italic>
                provoca <italic>spillovers</italic> que induzem à inovação em firmas da periferia,
                os países do centro se veem obrigados a atualizar e diversificar suas atividades de
                pesquisa e desenvolvimento para manter sob controle o processo de inovação (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B24">Jefferson, 2007</xref>). Assim, a intensificação das
                atividades de pesquisa e desenvolvimento na China, por exemplo, e a pulverização dos
                laboratórios de pesquisa e desenvolvimento das multinacionais do centro pelas
                economias periféricas complexas podem ser entendidas como dois lados de uma mesma
                moeda (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Jefferson, 2007, p. 213</xref>). Como
                resultado do estabelecimento de cadeias globais de valor, os fluxos de pesquisa e
                desenvolvimento estão mais intensos na periferia, pelos quais, associados a maiores
                fluxos de ciência e tecnologia, como produção científica e formação de engenheiros e
                cientistas, as periferias complexas estão se destacando na geração de inovações e
                registro de patentes. A concorrência enfrentada pelas multinacionais do centro
                encontra novos desafios e a busca pela sobrevivência leva a mais descentralização
                dos processos de pesquisa e desenvolvimento, reforçando a dinâmica inicial. Com
                isso, ocorre um deslocamento geográfico nos investimentos mundiais em pesquisa e
                desenvolvimento e na produção de ciência e tecnologia para o Sudeste Asiático.</p>
            <p>Mas, se, por um lado, essas novas configurações que tomam forma na periferia no
                século XXI desenham novas relações de poder, por outro, novas formas de dependência
                são estabelecidas com a intensificação da integração promovida pelo aprofundamento
                da globalização. No século XXI, as relações de dependência da periferia com o centro
                assumem novos contornos, embora se mantenham em essência. Em termos breves, as
                dependências financeira, tecnológica e cultural se tornam mais intensas e profundas
                no século XXI: o novo perfil de financiamento externo da periferia, com forte
                participação de investimentos em portfólio, apresenta graves entraves ao
                desenvolvimento; o efeito demonstração é potencializado pelo rápido acesso à
                informação, que desperta quase que em tempo real o desejo por imitação em sociedades
                periféricas cujas economias apresentam inadequação tecnológica para reproduzir tais
                padrões de vida; e a ausência de um núcleo tecnológico endógeno faz com que os
                esforços inovativos da periferia se traduzam na aquisição, dominação e melhoria da
                tecnologia já existente e não na mudança da fronteira do conhecimento, mantendo o
                hiato tecnológico existente entre o centro e a periferia.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>5 A mudança na estrutura</title>
            <p>O aumento da densidade dinâmica do sistema e a ação do efeito bumerangue alteraram a
                estrutura do sistema capitalista global. Os novos fluxos de interação entre as
                unidades possibilitaram novos arranjos e configurações nas relações de poder e de
                dependência entre o centro e a periferia. Além disso, os investimentos em atividades
                de pesquisa e desenvolvimento e ciência e tecnologia, bem como uma melhor
                articulação no sistema nacional de inovação em algumas economias periféricas
                permitiram uma melhora na capacidade de absorver e gerar inovações desses países.
                Com isso, a difusão do progresso técnico pelo sistema assumiu novas configurações,
                penetrando de modo diferente em diferentes economias periféricas. Embora algumas
                economias periféricas tenham conseguido complexar suas estruturas produtivas, elas
                ainda continuam sendo periferias. As relações de dependência cultural, tecnológica e
                financeira ainda se aplicam, mesmo que em outros termos e formatos. Os sistemas
                nacionais de inovação dessas economias periféricas complexas tentam construir um
                núcleo tecnológico endógeno que seja capaz de criar uma homogeneização tecnológica e
                social. Caso consigam, o país periférico se deslocará para o centro do sistema; mas,
                por enquanto, a mudança está na distribuição das capacidades de absorver e gerar
                inovação pelas unidades do sistema.</p>
            <p>Dotadas de maior capacidade para a aprendizagem tecnológica, as economias periféricas
                complexas conseguiram mudar suas estruturas produtivas e pautas de exportação. O
                novo peso relativo da periferia na economia mundial e a emergência de empresas
                multinacionais da periferia são reflexos desse novo arranjo na difusão do progresso
                técnico pela alteração na distribuição das capacidades de absorção e geração de
                inovação. Elas estão presentes nos mais diferentes setores da economia e competem
                diretamente com as empresas multinacionais do centro por fatias de mercado. A
                realização de investimento externo direto pelas multinacionais da periferia e a
                inserção de muitas economias periféricas nos mercados financeiros globais, inclusive
                pelo financiamento externo via emissão de títulos públicos, também introduziram a
                periferia nas exportações mundiais de capitais. Apesar de apresentar um viés
                regional grande em atividades de exportação de serviços e capitais, a periferia
                conseguiu mudar sua função na divisão internacional do trabalho. A periferia sempre
                ocupou a posição de exportadora de matérias-primas e <italic>commodities,</italic>
                de fonte de recursos naturais e mão de obra. Mas no século XXI, ela também exporta
                manufaturas, serviços e capitais.</p>
            <p>Essa mudança na função desempenhada pela periferia na divisão internacional do
                trabalho alterou a hierarquia internacional presente na clivagem centro-periferia. A
                periferia, que já era heterogênica, se diversificou ainda mais. O número de
                periferias complexas aumentou consideravelmente, e a China se elevou ao posto de
                mais importante economia periférica no século XXI. Duas economias originalmente
                periféricas e dependentes, Coreia do Sul e Taiwan, conseguiram realizar o
                    <italic>catching-up</italic> e se integraram ao centro. Os Estados Unidos ainda
                ocupam o topo da hierarquia internacional, mas seu poderio econômico-financeiro já
                não é o mesmo e sua liderança nas atividades de inovação está sob pressão. Assim,
                essas mudanças nos elementos estruturais da clivagem centro-periferia e na densidade
                dinâmica regida pelas interações das unidades moldam a reconfiguração sistêmica do
                capitalismo no século XXI. A <xref ref-type="fig" rid="F7">Figura 2</xref> ilustra
                como a periferia está impactando a reconfiguração sistêmica do capitalismo no século
                XXI.</p>
            <p><fig id="F7">
                    <label>Figura 2</label>
                    <caption>
                        <title>O impacto da periferia na atual reconfiguração sistêmica do
                            capitalismo</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="1657-4206-ecos-34-01-e239667-gf07.png"/>
                    <attrib>Fonte: Elaborada pela autora.</attrib>
                </fig></p>
            <p>Em linhas gerais, a transformação sistêmica em curso no capitalismo no século XXI
                apresenta um fato novo com elementos recorrentes. Como nos mostra a primeira parte
                deste trabalho: a internacionalização do capital sempre se deu pela incorporação de
                áreas menos capitalistas<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref> ao domínio do
                capital; a propagação do progresso técnico pelo sistema econômico global sempre
                provocou efeitos sobre a divisão internacional do trabalho; e a concorrência
                intercapitalista sempre esteve atrelada à luta interestatal de poder. Mas no
                alvorecer do século XXI parte da periferia conseguiu atuar de forma mais ativa na
                configuração sistêmica do capitalismo, pelo impacto que provoca nas relações
                centro-periferia via aumento da densidade dinâmica e via efeito bumerangue.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>Considerações finais</title>
            <p>Este artigo defende que as transformações sistêmicas do capitalismo a partir de 1970
                afetaram a clivagem centro-periferia no século XXI. A ênfase na interação entre
                finanças, tecnologia e poder permitiu identificar, na primeira parte, as mudanças
                sofridas pelo capitalismo ao longo do tempo. A configuração do capitalismo no
                alvorecer do século XXI é resultante da combinação entre a revolução tecnológica que
                a TIC provocou na economia e na sociedade e o papel do Estado na reprodução do
                capital. A articulação entre finanças, tecnologia e poder evidenciou as
                transformações nas finanças internacionais e na divisão internacional do
                trabalho.</p>
            <p>Não há novidade no fato de que a evolução do capitalismo a partir de 1970 provocou
                mudanças importantes na periferia. Não é um fato novo a incorporação da periferia ao
                domínio do capital visando sua internacionalização e acumulação; não é novo o efeito
                da difusão tecnológica sobre a divisão internacional do trabalho; assim como não é
                novidade que a concorrência intercapitalista se atrela à luta interestatal de poder,
                gerando consequências sobre a periferia. No entanto, é a primeira vez que uma
                mudança na periferia tem impactos na estruturação do sistema. A articulação das
                partes assumiu uma nova configuração que está afetando o todo de modo peculiar.</p>
            <p>A mudança na densidade dinâmica do capitalismo no século XXI tem como fonte
                importante as economias periféricas complexas e produz um efeito bumerangue como
                resultado sistêmico das interações entre as unidades. As ações das unidades centrais
                definem a estrutura de interação entre centro e periferia, mas a interação entre as
                unidades periféricas e das unidades periféricas com as unidades centrais afetam o
                funcionamento do sistema como um todo. Assim, ocorre um <italic>efeito
                    bumerangue:</italic> os impactos na periferia modificam a dinâmica dentro da
                periferia e isso rebate na relação centro-periferia<xref ref-type="fn" rid="fn12"
                    >12</xref>.</p>
            <p>Mas esse efeito bumerangue é passageiro, permanente ou recorrente? Na medida em que
                adentramos na segunda década do século XXI, verificamos uma queda de dinamismo no
                desempenho econômico de importantes periferias complexas. O mundo, após a pandemia
                do COVID-19, pode revelar elementos importantes na dinâmica centro-periferia e na
                manutenção ou não desse efeito bumerangue. As cadeias globais de valor que por ora
                representavam elemento importante na densidade dinâmica tendem a ser repensadas; a
                economia chinesa tende a enfrentar um período crescimento relativamente baixo em
                comparação aos últimos 30 anos, assim como as outras economias periféricas
                complexas. Sendo assim, nada podemos inferir hoje sobre a manutenção do efeito
                bumerangue em longo prazo. Apenas estudos futuros podem apontar sua permanência,
                recorrência ou seu caráter passageiro.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other">
                <p>Agradecemos ao Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o
                    Desenvolvimento pelo apoio recebido para a realização da pesquisa.</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other" id="fn1">
                <label>1</label>
                <p>Continuidade e mudança, por exemplo, estão presentes nas três perspectivas
                    teóricas apresentadas. A revolução tecnológica representada na onda longa é
                    vista como um fenômeno variável e impreciso, desigual em seus efeitos e na sua
                    duração. Apesar das especificidades – tecnológicas e históricas – de cada onda
                    longa, a fonte geradora da flutuação se encontra na difusão de inovações. Assim,
                    a metáfora de onda longa abarca os conceitos interdependentes e inseparáveis de
                    ruptura e continuidade. Logo, a explicação do desenvolvimento do capitalismo é
                    dada por intermédio de desenvolvimentos históricos, tratando complexidade e
                    mudança estrutural como processos co-evolucionários. Assim como as ondas longas
                    neoschumpeterianas, a abordagem dos ciclos sistêmicos de acumulação também foca
                    o binômio continuidade-ruptura; destacando a alternância de fases de mudanças
                    contínuas e fases de mudanças descontínuas. De fato, ambos enfatizam a sequência
                    de ciclos superpostos, nos quais a fase final do ciclo anterior coexiste com a
                    fase inicial do próximo ciclo. Além disso, a sobreposição de ciclos retrata a
                    coexistência de fases distintas do capitalismo em um mesmo tempo histórico.
                    Sendo assim, é possível pensar numa superposição ocorrendo nas economias
                    centrais, bem como entre economias centrais e periféricas, e ainda, dentro da
                    periferia. Logo, o uso da ideia de ciclos superpostos se revela útil para a
                    análise do capitalismo dentro da clivagem centro-periferia. A perspectiva da
                    internacionalização do capital, por sua vez, também abarca a ideia de
                    continuidade e mudança. A atuação do Estado no processo de acumulação e
                    internacionalização do capital é recorrente desde o início do imperialismo
                    capitalista e o domínio de territórios estrangeiros para a expansão do capital –
                    pelas mais diferentes formas (comércio, domínio, extorsão, etc.) – é
                    identificado desde a Idade Média. Mas ao longo do tempo, a forma do capital se
                    internacionalizar se modificou. A julgar pelas exportações de capital, que se
                    sofisticaram bastante nos últimos tempos.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn2">
                <label>2</label>
                <p>Para fins de entrelaçamento das abordagens teóricas apresentadas e articulação da
                    análise com a aproximação estruturalista, que considera a clivagem
                    centro-periferia um produto da Revolução Industrial, este trabalho incorpora uma
                    visão braudeliana de economiamundo para descrever o sistema econômico mundial
                    antes do século XVIII. Este trabalho entende, assim, que o sistema econômico
                    mundial, chamado por Braudel e Arrighi de capitalismo, se articulava a partir de
                    uma economia-mundo e o que podemos chamar de “unidades periféricas ou
                    satélites”. De modo que, o funcionamento da economia-mundo e a integração do
                    sistema dependiam, de alguma maneira, da participação dessas unidades
                    periféricas ou satélites.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn3">
                <label>3</label>
                <p>Neste caso, o mundo refere-se à Europa, onde estava centrada a
                    economia-mundo.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn4">
                <label>4</label>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B4">Arrighi (1996)</xref> não faz distinção entre
                    turbulência e caos sistêmico. Mas neste esquema, o período de caos representa o
                    momento em que a turbulência sistêmica se aprofunda em escala e intensidade ao
                    ponto em que a demanda por uma ordem se torne generalizada. Este momento
                    impulsiona a emergência de uma hegemonia mundial. <xref ref-type="bibr" rid="B4"
                        >Arrighi (1996, p. 44)</xref>, explica que a ordem medieval só foi
                    substituída pelo sistema moderno sob a liderança holandesa porque no século XV a
                    escala e intensidade da turbulência não atingiu um grau elevado como ocorreu no
                    século XVII.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn5">
                <label>5</label>
                <p>Original de 1944.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn6">
                <label>6</label>
                <p>Original de 1944.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn7">
                <label>7</label>
                <p>Decisão operacional (escolha entre produzir ou comprar) - busca de fornecedores
                    em mercados externos.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn8">
                <label>8</label>
                <p>Decisão locacional – busca pelo local mais eficiente na realização de uma
                    atividade produtiva.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn9">
                <label>9</label>
                <p>O fluxo internacional de pessoas também caracteriza a interação das unidades, mas
                    sua análise foge ao escopo deste artigo.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn10">
                <label>10</label>
                <p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B19">Furtado (1986, p. 163)</xref>, o grau de
                    subdesenvolvimento é definido pela importância relativa do departamento atrasado
                    e pela taxa de incremento da participação do departamento desenvolvido no
                    produto social. Assim, existem economias subdesenvolvidas de grau inferior e
                    economias subdesenvolvidas mais complexas.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn11">
                <label>11</label>
                <p>Áreas onde a dinâmica de reprodução do capital é menos intensa, ausente ou
                    limitada. A designação dessas áreas se dá pelo conceito estruturalista de
                    periferia, ou de áreas “não capitalistas” , de Rosa Luxemburgo, ou
                    “pré-capitalistas” , de Furtado, por exemplo.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn12">
                <label>12</label>
                <p>Vale ressaltar que o efeito bumerangue, identificado no limiar do século XXI, foi
                    provocado pelo movimento de expansão das economias periféricas complexas, ou,
                    como diria <xref ref-type="bibr" rid="B2">Amsden (2004)</xref>, pela “ascensão
                    do resto” . O efeito de economias periféricas complexas moldando a estrutura
                    sistêmica, em conjunto, é diferente do efeito da ação de um ou mais Estados
                    fazendo <italic>catching-up.</italic> O movimento de
                        <italic>catching-up</italic> é consciente, enquanto o impacto das periferias
                    complexas na estrutura pode ou não ser consciente e intencional. Além disso, a
                    somatória do impacto de cada economia periférica complexa (em termos
                    individuais) na estrutura é diferente do impacto sistêmico da ampliação da
                    periferia complexa. Em suma, tem-se que o efeito bumerangue é desencadeado pela
                    ação conjunta, intencional ou não, de economias periféricas complexas em suas
                    interações no sistema.</p>
            </fn>
        </fn-group>
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