Resumo: Este artigo analisa a dinâmica evolutiva do capitalismo no século XXI, destacando as transformações nas relações centroperiferia à luz das recentes mudanças econômicas, tecnológicas e políticas. A pesquisa parte da premissa de que não é possível compreender o capitalismo contemporâneo sem considerar a influência das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), o papel do Estado e as mudanças nas finanças globais. A questão central abordada é: “O que mudou na relação centro-periferia com as transformações recentes do capitalismo?”. A hipótese defendida é de que, nas últimas décadas, a periferia tem assumido um papel mais ativo na configuração sistêmica. A investigação identifica a emergência do “Efeito Bumerangue”, um fenômeno novo que caracteriza a clivagem centro-periferia, especialmente no início do século XXI.
Palavras-chave: Capitalismo, Centro-periferia, Efeito bumerangue, Evolução.
Abstract: This paper examines the evolving dynamics of capitalism in the 21st century, focusing on the changing center-periphery relationship in light of recent economic, technological, and political transformations. It argues that understanding contemporary capitalism requires considering the impact of Information and Communication Technologies (ICT), the role of the State, and shifts in global finance. The central research question is: “How has the center-periphery relationship changed with the recent transformations in capitalism?” The hypothesis suggests that, in recent decades, the periphery has taken a more active role in the systemic configuration. The study identifies the emergence of the “Boomerang Effect” as a new feature of the center-periphery relationship in the early 21st century.
Keywords: Capitalism, Center-periphery, Boomerang effect, Evolution.
Artigo original
Poder, finanças e tecnologia na reconfiguração sistêmica do capitalismo: a clivagem centro-periferia no alvorecer do século XXI*
Power, finance, and technology in the systemic reconfiguration of capitalism: the center-periphery cleavage at the dawn of the 21st century
Received: 17 June 2020
Accepted: 24 April 2024
O entendimento do capitalismo como um processo dinâmico e evolucionário faz com que a estrutura centro-periferia também seja vista em constante mudança. Não é possível compreender o capitalismo no século XXI sem considerarmos a tecnologia da TIC, o papel do Estado e as transformações nas finanças. Partindo-se dessa premissa, este trabalho busca responder à seguinte pergunta de pesquisa: “O que mudou na relação centro-periferia com as transformações recentes do capitalismo?”. A hipótese de trabalho é de que a periferia assumiu, nas últimas décadas, um papel mais ativo na configuração sistêmica. A pesquisa revelou a emergência do Efeito Bumerangue como a novidade da clivagem centro-periferia no alvorecer do século XXI.
Este trabalho se divide em duas partes. A primeira se dedica a explorar o capitalismo a partir de três perspectivas – ciclos sistêmicos de acumulação, internacionalização do capital, e ondas longas. O entrelaçamento analítico a partir das três dimensões cruciais – tecnologia, poder e finanças – busca compreender o capitalismo no século XXI e apontar as mudanças ocorridas na clivagem centro-periferia com a evolução do capitalismo. Na segunda parte – seções 2, 3, 4 e 5 – este trabalho busca evidenciar o papel da periferia na atual transformação sistêmica do capitalismo.
As três perspectivas selecionadas levantam percepções importantes para a compreensão da evolução do capitalismo e seu impacto sobre a clivagem centro-periferia. A abordagem dos ciclos sistêmicos ressalta que um Estado hegemônico, ao construir um regime de acumulação sistêmico, molda a estrutura institucional internacional e afeta – de modo diferente – as oportunidades de desenvolvimento dos outros Estados do sistema. A interpretação da internacionalização do capital aponta que o Estado tem papel protagonista na expansão do capital. E, a concepção das ondas longas enfatiza que uma tecnologia pervasiva tem efeitos para além da base produtiva, alterando as condições de acumulação do capital e a posição na divisão internacional do trabalho.
Embora sejam úteis para acessar as três dimensões analíticas, a interação entre as perspectivas não pode ocorrer de forma mecânica e apresenta algumas limitações e implicações metodológicas. Como demonstrado por Albritton et al. (2001), a periodização do capitalismo já é em si uma tarefa complexa, logo, integrar as fases capitalistas definidas nas três perspectivas teóricas dentro de um mesmo arcabouço analítico é tarefa complicada. O período histórico retratado nas ondas longas, por exemplo, abarca fases de expansões financeiras diferentemente caracterizadas das expansões financeiras presentes nos ciclos de acumulação sistêmica; o que impede uma complementação mecânica entre essas abordagens.
Além disso, mesmo a ideia de ciclos estando presente nas aproximações acima, não é apenas a explicação para a ascensão e o declínio que muda. O modo de periodizar o capitalismo depende muito dos horizontes temporais e espaciais observados e da estrutura teórica que sustenta essas observações. Cada abordagem ao enfatizar elementos qualitativos diferentes – revolução tecnológica, hegemonia e transformações imperiais/estatais – acaba definindo as fases do capitalismo de modo distinto. Enquanto as interpretações das ondas longas e da internacionalização do capital analisam o capitalismo a partir da Revolução Industrial e da busca pelo lucro, respectivamente; a abordagem dos ciclos sistêmicos de acumulação o analisa desde o século XV, pela circulação do capital.
Embora a compatibilização das fases capitalistas descritas em cada uma delas apresente limitações pontuais, a realização do entrelaçamento pelo uso complementar de conceitos-chave de cada perspectiva não se faz inexequível, pois, independentemente da aproximação teórica, todas consideram a multiplicação e evolução do capital na periodização do capitalismo. Ademais, nas três perspectivas, as investigações das tendências atuais ocorrem à luz de padrões de recorrências e evoluções presentes ao longo do curso de evolução do capital e/ou do capitalismo como sistema mundial1. Destarte, o entrelaçamento dos conceitos-chaves busca aumentar a capacidade explicativa da análise realizada, embora não almeje a construção de uma teoria geral do desenvolvimento do capitalismo.
As dimensões do poder e das finanças são guias do esquema analítico que busca olhar as transformações no capitalismo a partir da abordagem dos ciclos sistêmicos de acumulação e pensar a inserção da periferia nesse processo2 – Quadro 1. Nesta seção, são apresentados os quatro ciclos sistêmicos de acumulação (CSA) identificados por Arrighi (1996) articulados com a tipologia de império adotada por Ellen Wood (2003) na abordagem da internacionalização do capital e, em cada CSA, busca-se apontar elementos indicadores de transformações sistêmicas.

O ciclo sistêmico de acumulação (CSA) genovês tem origem na formação, dentro do sistema medieval de governo, de um subsistema regional de cidades-Estados capitalistas italianas, centrado em Veneza, Florença, Gênova e Milão. A acumulação de capital de Gênova se baseava no comércio de longa distância e nas altas finanças. O CSA genovês se dava no controle de fluxos de metais preciosos, letras de câmbio, contratos de comércio, etc. (Arrighi, 1996, p. 83). Um tipo de domínio, que Ellen Wood (2003) chamou de Império Comercial – cuja fonte de riqueza estava no controle do comércio internacional. Na Idade Média, os genoveses controlavam os fluxos de ouro e o câmbio internacional; enquanto os florins de Florença e os ducados de Veneza se tornaram as moedas internacionais (Vilar, 1980, p. 252). De fato, as cidades-Estados se tornaram um “elo crucial na cadeia de trocas comerciais que ligava a Europa Ocidental à Índia e à China” (Arrighi, 1996, p. 40). E, os capitalistas genoveses tiveram papel preponderante no financiamento de expedições portuguesas e espanholas para estabelecer ligações diretas com o Oriente. Sendo assim, Arrighi e Moore (2001) caracterizam o CSA genovês como extensivo, pois promoveu a expansão do sistema capitalista ao financiar a Era dos Descobrimentos. A integração de economias distantes à economia-mundo europeia propiciou a criação do mercado mundial.
Diferentemente dos outros CSA, o genovês não testemunhou a emergência de uma hegemonia. A ordem mundial3, neste período, foi mantida por um sistema de equilíbrios: equilíbrio de poder entre as cidades-Estados italianas; equilíbrio de poder entre o papa e o imperador (autoridades centrais do sistema medieval); e o equilíbrio de poder entre dinastias europeias emergentes (Arrighi, 1996, p. 37). Numa ordem mundial sustentada por equilíbrio de poder, as alianças emergem como coalizões temporárias e a ordem se baseia nas ações de balanceamento das unidades políticas (Ikenberry, 2001).
Neste período, a Espanha ganhou destaque na luta pelo poder na Europa e no além-mar. As pretensões territorialistas da Espanha levaram-na a tentar dominar a Europa e a disputa interestatal se acirrou. A fase de expansão financeira que se inicia por volta de 1580 sinaliza o início da turbulência sistêmica, que se intensifica em 1618 com o início da Guerra dos Trinta Anos, fazendo o sistema entrar em caos4. Em meio ao caos sistêmico, a demanda por uma nova ordem se tornou latente e os holandeses lideraram os Estados europeus e criaram uma nova ordem internacional baseada na soberania. Assim, a Paz de Vestfália de 1648 marca o início de uma nova ordem anárquica e o início do Sistema Interestatal Moderno.
A Holanda se tornou hegemônica ao tornar universal (busca pela paz e autonomia política) um interesse particular (impedir que suas bases comerciais e financeiras fossem seriamente comprometidas pela escalada dos conflitos na Europa). Assim, o ciclo sistêmico de acumulação (CSA) holandês também teve como fonte de riqueza o controle das redes financeiras e comerciais e instituiu o tal Império Comercial de Ellen Wood (2003). Segundo a classificação de Arrighi e Moore (2001), o CSA holandês foi do tipo intensivo, ou seja, de consolidação e intensificação do sistema capitalista mundial.
A supremacia produtiva e comercial holandesa, associada à importância de seus papéis nos seguros e nos transportes, fez a Holanda acumular metais precisos em todas as formas – em lingotes, em barras, em moedas – e passou a cunhar a maior parte em moedas internacionalmente negociáveis (Vilar, 1980, p. 252). Com isso, a Holanda chegou a dispor de 14 casas da moeda no século XVII e a moeda holandesa “se converteu no dólar de seu tempo” (Vilar, 1980, p.252). De fato, o ouro e a prata extraídos das colônias espanholas e portuguesas, especialmente nas Américas, se tornaram fonte da riqueza holandesa e financiaram a Revolução Industrial na Inglaterra (Vilar, 1980, p. 278). Ou seja, os metais preciosos das colônias ibéricas, com destaque ao ouro brasileiro, se tornaram parte do processo de acumulação primitiva europeu.
Em termos de poder, quem mais se beneficiou da ordem criada pelos holandeses foram França e Inglaterra, pois a hegemonia exercida pela Holanda durou apenas meio século. A ascensão de França e Inglaterra dominou as atenções na Europa neste período e a ordem foi mantida pelo sistema de equilíbrio de poder. A disputa por poder entre França e Inglaterra se desenrolou na disputa pelo domínio da origem da riqueza holandesa e voltou-se para o Atlântico (Arrighi, 1996). As expansões além-mar da França e Inglaterra reconstruíram a geopolítica do comércio mundial com a combinação de colonialismo, escravidão e nacionalismo econômico (Arrighi, 1996, p. 49). A Guerra dos Sete Anos entre França e Inglaterra (1756-1763) é consequência direta desta disputa interestatal. Logo em seguida, por volta de 1760, inicia-se a expansão financeira do CSA holandês, cuja crise terminal é marcada pelos movimentos de independência das 13 colônias britânicas na América do Norte (1776) e pela Revolução Francesa (1789). Com o início das Guerras Napoleônicas na Europa (1803), o sistema internacional entrou em caos. Ao liderarem os Estados europeus na consolidação do sistema criado pelos holandeses – sistema de Estados soberanos -, na vitória contra Napoleão; o Reino Unido deu início a sua hegemonia mundial e instaurou uma nova ordem mundial a partir de 1815, com o Congresso de Viena.
O Congresso de Viena restaurou o equilíbrio de poder entre Inglaterra, França, Prússia, Rússia e Áustria e o Reino Unido exerceu sua hegemonia pelo chamado imperialismo do livre mercado. O CSA britânico baseou-se na criação de redes mundiais de comércio que dependiam da ampliação da riqueza e do poder do Reino Unido (Arrighi, 1996, p. 55), definindo a divisão internacional do trabalho em sua fase de expansão material; e nas altas finanças, que sofisticou as exportações de capitais (IED) na fase de expansão financeira.
O novo sistema governado pelo Reino Unido, que reúne controle mundial pelo livre mercado e pelas altas finanças, propiciou um fenômeno sem precedentes que Polanyi (1980)5 chamou de “cem anos de paz” , no qual as grandes potências europeias conviveram sem guerras prolongadas ou devastadoras. Das quatro instituições base da civilização do século XIX, segundo Polanyi, – a saber: equilíbrio de poder, padrão-ouro, mercado autorregulável, estado liberal -, o padrão-ouro se mostrou crucial, no entanto, “a fonte e a matriz do sistema foi o mercado autorregulável” (Polanyi, 1980, p. 17)6. “Ao apresentar sua supremacia mundial como a encarnação dessa entidade metafísica [mercado autorregulável], o Reino Unido logrou ampliar seu poder no sistema interestatal muito além do que era justificado pela extensão e eficiência de seu aparelho coercitivo” (Arrighi, 1996, p. 55). A ordem mundial foi sustentada, portanto, por hegemonia; mas, segundo John Ikenberry (2001, p. 26), uma ordem hegemônica se organiza pelo princípio da hierarquia, na qual a distribuição de poder entre os Estados funciona por uma lógica em que o poder e a autoridade política são centralizados, embora haja alta interdependência e diferenciação funcional entre os Estados. Havia uma clara integração vertical, na qual a Inglaterra estava no topo e liderava o equilíbrio de poder (fiel da balança).
Segundo Ellen Wood, o período de hegemonia britânica instituiu um Império genuinamente Capitalista e pode ser separado em duas fases: a primeira corresponde ao período de colonização de povoamento na Irlanda e nos Estados Unidos, e o segundo diz respeito ao período de colonização territorial clássico. Esse último período é denominado de Imperialismo Clássico por Alex Callinicos (2009). Assim, parte inicial do Império Britânico, segundo Wood (2003), se inicia no ciclo sistêmico de acumulação holandês na classificação de Arrighi (1996). De acordo com Wood (2003, p.74), o Império Britânico se classifica como genuinamente capitalista porque foi com a Inglaterra que a competição competitiva, baseada no aumento da produtividade, passou a guiar a associação do estado com o capital em seu processo de reprodução global.
Somente a civilização do século XIX foi econômica [capitalista] em um sentido diferente e distinto, pois ela escolheu basear-se num motivo muito raramente reconhecido como válido na história das sociedades humanas e, certamente, nunca antes elevado ao nível de justificativa de ação e comportamento na vida cotidiana, a saber, o lucro. O sistema de mercado autorregulável derivou unicamente deste princípio (Polanyi, 1980 [1944], p. 47).
Diferentemente de Impérios anteriores, nos quais a terra era vista como fonte de trabalho e força militar (Impérios de Propriedade), no Império Capitalista britânico em sua primeira fase, a terra era investimento para obter lucro (Wood, 2003, p. 74). Essa nova lógica de apropriação capitalista pela produção competitiva estabeleceu as bases para que os imperativos de mercado se tornassem uma alternativa ao domínio colonial direto, embora a ocorrência desse fenômeno tenha se dado, de fato, somente no CSA norte-americano (Wood, 2003, p. 87). Em sua segunda fase, o Império Capitalista britânico reuniu elementos territorialistas e capitalistas (Arrighi, 1996, p. 58; Wood, 2003, p. 118) e “levou os imperativos de mercado para os cantos mais longes do globo” (Wood, 2003, p. 118). Assim, a Era da Colonização, nesse período, faz com que o CSA britânico se encaixe na classificação de Arrighi e Moore (2001, p. 69, 73), como do tipo extensivo; ou seja, que promove a expansão do sistema capitalista. E, a expansão da civilização industrial pelo mundo instituiu o sistema centro-periferia para a reprodução do capital.
A ordem liberal do mercado autorregulável foi sustentada pelo padrão-ouro, que fez da libra a moeda internacional. A abertura de seu mercado interno para o mundo fez com que o Balanço de Pagamentos inglês apresentasse, sob o padrão-ouro, déficit na balança comercial (embora fosse positivo nas relações com a Índia), mas superávit na balança de serviços. Até 1914, a conta corrente era superavitária, enquanto a conta de capital era deficitária, apresentando um saldo global negativo. De fato, os déficits no Balanço de Pagamentos inglês, causados principalmente pela saída de capital de longo prazo – IED e empréstimos ao exterior – eram compensados pelo pagamento de juros e aplicações de curto prazo do resto do mundo (Medeiros; Serrano, 1999, p. 121). Assim, o controle sobre a moeda mundial “permitiu que o governo britânico dirigisse com grande eficiência um espaço político-econômico muito maior do que qualquer império mundial anterior jamais geriu ou poderia ter gerido” (Arrighi, 1996, p. 58).
A expansão financeira do CSA britânico ganha força por volta de 1870, o que indica o início da turbulência sistêmica. A partir de então, a Inglaterra viu sua capacidade de governar o sistema enfraquecer com a industrialização e o desenvolvimento de outros Estados, em especial, dos Estados Unidos e da Alemanha. A sofisticação nas exportações de capital deu ao capitalismo uma nova face, caracterizada pela formação de monopólios, cartéis e trustes. Os investimentos britânicos além-mar saltaram de £700 milhões de libras em 1870 para £2 bilhões de libras em 1900 e para algo em torno de £3,5 a £4 bilhões de libras em 1913 (Callinicos, 2009, p.153). O acirramento da competição capitalista interestatal promovida pela exportação do capital levou à eclosão da I Guerra Mundial em 1914 e da Revolução Russa em 1917. O colapso da sociedade liberal e a ascensão do totalitarismo na Europa, nas décadas de 1920-30, marcam a crise terminal da hegemonia britânica e o sistema entra em caos com a Segunda Guerra Mundial. O ano de 1945 marca o fim do CSA britânico e a emergência da hegemonia norte-americana com o estabelecimento de uma nova ordem mundial na conferência de Bretton Woods.
Os Estados Unidos tornaram-se hegemônicos ao restaurar os princípios e as normas que nortearam a criação do sistema interestatal desde Vestfália e passaram a governar e a reformular o sistema interestatal. A soberania permaneceu como princípio norteador das relações internacionais, mas o exercício da soberania foi circunscrito a padrões “universais” (ocidentais) de conduta. Pois, as instituições internacionais criadas sob a liderança dos Estados Unidos no pós-guerra limitaram as ações de as nações soberanas em suas relações com outros Estados e com seus próprios cidadãos. “Os governos nacionais tem estado menos livres do que nunca para perseguir seus objetivos por meio da guerra, da expansão territorial e, em menor grau, mas ainda mais significativo, das violações dos direitos civis e humanos de seus cidadãos” (Arrighi, 1996, p.67). A ordem mundial que emerge após a II Guerra Mundial foi sustentada por instituições internacionais que difundiam e aprofundavam a hegemonia norte-americana pelo globo. O sistema monetário internacional, acordado em Bretton Woods e mantido sob a gerência do FMI, fez do dólar a moeda internacional. John Ikenberry (2001, p. 27) a classifica como uma ordem constitucional, na qual direitos e limites ao exercício do poder são acordados em instituições políticas e legais.
A expansão material do CSA norte-americano fundamentou-se em dois pilares: estímulo ativo ao movimento de autodeterminação dos povos e centralidade dos investimentos estrangeiros diretos na reconstrução da economia capitalista mundial. O “imperialismo sem colônia” já tinha sido experimentado no CSA britânico, mas enquanto a força da hegemonia britânica estava nas redes descentralizadas e transnacionais; o domínio dos Estados Unidos se baseou nas indústrias de produção em massa organizadas por corporações multinacionais e no suprimento de seu mercado continental (Callinicos, 2009, p.166).
O movimento de descolonização no pós-guerra colocou os países da periferia, em especial os povos não ocidentais, em igualdade política formal com os países do centro pelo princípio da soberania. A periferia deixa de ser, em sua maioria, composta por povos não civilizadas; e passa a ser um conjunto de nações soberanas. E, a colonização direta cede lugar ao domínio econômico, exercido pelo capital. Assim, a autodeterminação dos povos foi amplamente incentivada pelos Estados Unidos, que encorajavam a adoção de sistemas capitalistas em suas economias.
Ou seja, a política de “abrir portas” (open door) passa a ditar a conduta norte-americana de acumulação sistêmica de capital (Callinicos, 2009, p. 165). Consequentemente, as multinacionais norte-americanas se instalaram por todo o globo, ocupando mercados centrais e periféricos em Estados capitalistas. A associação entre o Estado e o capital neste período assumiu contornos expressivos, e mesmo sob uma ordem calcada em valores liberais, governos ditatoriais foram ativamente apoiados na periferia pelos Estados Unidos, desde que garantissem a reprodução do capital em escala global (Callinicos, 2009, p. 9-10). O CSA norte-americano intensificou e consolidou o sistema capitalista mundial no pós-Guerra, assumindo uma configuração que Arrighi e Moore (2001) chamam de intensiva. E foi pela internacionalização dos imperativos de mercado que os Estados Unidos fundaram o Império do Capital, segundo Wood (2003), ou o Imperialismo de Super Potência (Open Door Imperialism), conforme Callinicos (2009).
No entanto, a fase de expansão financeira do CSA norte-americano marca o início da turbulência sistêmica e apresenta uma nova configuração da associação do Estado com o capital, em prol de sua reprodução e acumulação em escala global. O relacionamento estreito do Estado com o capital na expansão financeira norte-americana modifica o modus operandi do capitalismo, o que nos permite identificar mudanças significativas na caracterização do CSA norte-americano. Segundo Ellen Wood (2003), o Império Capitalista norte-americano pode ser dividido em 2 fases: logo após a II Guerra Mundial com a internacionalização dos imperativos de mercado; e na virada do século XXI com a intensificação da internacionalização dos imperativos de mercado e a promoção da guerra sem fim – sem um inimigo claramente definido. Callinicos (2009), por sua vez, subdivide o período hegemônico norte-americano em: imperialismo de super potência ou das portas abertas (1945-1991); e imperialismo após a Guerra Fria (após 1991). Este trabalho reúne a intensificação da internacionalização dos imperativos que ocorre com o fim da Guerra Fria e denomina o período após 1991 de “fase da globalização” do imperialismo norte-americano.
A reconstrução de mercados arrasados por guerras passou a ser um importante meio de reprodução global do capital norte-americano, desde 1945 e, especialmente, depois de 1991. Na verdade, a relação do Estado com a guerra na acumulação nada tem de novo (Tilly, 1996). No pós-Guerra, o Plano Marshall foi o instrumento usado para corrigir os “desequilíbrios estruturais massivos da economia mundial” , pois, com a reconstrução das economias europeias e japonesa, os laços com as áreas de produção primária da África, Ásia e América Latina foram restaurados. (Callinicos, 2009, p. 171). Após 1991, a hegemonia norte-americana, que, desde o pós-Guerra, apresentou-se como a defensora dos direitos “universais” (valores liberais ocidentais), passou a fazer guerras para garantilos, passando por cima do princípio de soberania de terceiros quando isso lhe convinha. As chamadas “guerras humanitárias” passaram a legitimar a violação de soberania nos casos da Bósnia (1995), do Afeganistão (2001), do Iraque (2003) e da Líbia (2011), por exemplo.
Ademais, nesta segunda fase, os Estados Unidos reformularam as normas institucionais, de modo a favorecer a reprodução global do capital. De fato, fizeram uso das instituições internacionais do sistema de Bretton Woods para a difusão de seus interesses hegemônicos. Em especial, FMI e Banco Mundial foram usados na promoção do movimento mundial de desregulamentação e liberalização econômico-financeira. Ainda criaram a OMC, que passou a regular não apenas o comércio internacional de bens, mas também “questões relacionadas ao comércio internacional” que atuam diretamente na reprodução do capital, como os direitos de propriedade intelectual e os investimentos governamentais. Um sistema de múltiplos Estados soberanos, operando como instrumentos na transmissão dos imperativos de mercado, se torna essencial para a sustentação dessa ordem mundial (Wood, 2003).
Além disso, com o engajamento na chamada guerra ao terror ou guerra sem fim no início dos anos 2000, os Estados Unidos mostraram que, com sua incontestável supremacia militar, as amarras institucionais criadas por eles mesmos no pós-Guerra, como o sistema ONU, não foram capazes coibir a busca do interesse nacional pelo uso do poder na política internacional. Assim, a ordem constitucional apontada por Ikenberry (2001, p. 27) para descrever o pós-guerra já não faz mais sentido nessa segunda fase do imperialismo norte-americano. A ordem passou a ser sustentada por um tipo ideal mais próximo ao que caracterizou o CSA britânico: hegemonia hierarquizada, em que um sistema múltiplo de Estados soberanos apoia a ordem que favorece a acumulação do Estado hegemônico.
O CSA intensivo que caracterizou a primeira fase do Império do Capital norte-americano também já não descreve essa fase de globalização. A intensificação da internacionalização dos imperativos de mercado, através da desregulamentação e liberalização econômico-financeira, contribuiu para que o sistema capitalista alcançasse mercados antes fora dos circuitos globais. Cumprindo o caminho para sua reprodução, como apontou Rosa Luxemburgo, o capitalismo está integrando o conjunto da economia mundial e se tornando um sistema global, como nunca visto antes. Logo, nesta fase de globalização do Império do Capital, o CSA norte-americano deve ser classificado dentro dos padrões de Arrighi e Moore (2001) como extensivo e não intensivo. Ou seja, aquele que promove a expansão do sistema capitalista pelo globo.
O dólar também já não reina absoluto nas transações internacionais (Eichengreen, 2011; Conti et al., 2013). Embora o dólar continue a ser a principal moeda usada como meio de pagamento e nas transações financeiras internacionais, diferentes moedas disputam cada vez mais espaços com o dólar. Ao avaliarem as mudanças no sistema monetário internacional e no seu caráter hierarquizado, Conti et al. (2013) concluem que o dólar ainda é a principal moeda usada em âmbito internacional em praticamente todas as funções da moeda. A saber, meio de pagamento, unidade de conta, e reserva de valor (Conti et al., 2013, p. 50). Mas enquanto o dólar continua sendo a principal moeda para o uso público nas funções de unidade de conta e de reserva de valor; o euro aparece com destaque no desempenho dessas funções no uso privado (Conti et al., 2013, p. 49). Nos mercados bancários, de títulos e de derivativos é o euro quem mais exerce hoje a função de reserva privada de valor (Conti et al., 2013, p. 49). O iene, a libra esterlina, e o franco suíço exercem também funções de moeda internacional, mas de forma menos expressiva (Conti et al., 2013, p. 77). O esforço do governo chinês para a internacionalização do renminbi também vem ganhando destaque no sistema monetário internacional (Cintra; Martins, 2013, p. 211).
Em suma, o momento atual do CSA norte-americano é de turbulência sistêmica. A crise de sinalização da hegemonia dos Estados Unidos é marcada pela década de 1980, quando se inicia a expansão financeira norte-americana após as mudanças no sistema monetário internacional a partir da década de 1970. Mas o marco da crise terminal ainda não é consensual. Enquanto Arrighi (2007) aponta a guerra ao terror como um marco da queda da hegemonia dos Estados Unidos; a literatura da internacionalização do capital identifica esse marco como uma intensificação na reprodução do capital; e a das ondas longas apresenta a crise de 2007-2008 como um ponto de virada crucial. Pode ser até mesmo que a hegemonia ainda não tenha entrado em sua crise terminal e que ainda demore algum tempo até que a turbulência se intensifique ao ponto do sistema entrar em caos. Mas o fato é que a distribuição de poder no sistema, que na primeira fase estava acomodada entre os aliados está sendo alterada e a periferia vem ganhando espaço. De fato, Barry Buzan, aponta que a estrutura global de poder no início do século XXI deve ser vista em quatro eixos: Estados Unidos, Europa, Japão, Rússia e China (Buzan, 2004 apud Callinicos, 2009, p. 214).
A abordagem da internacionalização do capital fornece elementos que nos permitem apontar a articulação do Estado com o capital e do capital produtivo com o capital financeiro. Assim, poder e finanças também são as dimensões analíticas enfatizadas no Quadro 2, que mostra as transformações no capitalismo a partir da abordagem da internacionalização do capital. Nesta seção, são apresentadas as quatro fases do imperialismo capitalista identificadas por Wood (2003) e o papel da periferia na reprodução e acumulação do capital em escala global.

A internacionalização dos imperativos de mercado, segundo Wood (2003), iniciou-se com a produção competitiva da terra como justificativa britânica para o domínio sobre a Irlanda e os Estados Unidos, no estabelecimento de colônias de povoamento. Quando as colônias na América do Norte se tornaram mais capitalistas, a demanda por mão de obra se intensificou, e o Reino Unido entrou no comércio da mão de obra escrava. “Na medida em que sua economia doméstica crescia, e que o capitalismo agrário abria caminho para a industrialização, o Reino Unido se tornou, de longe, a força predominante no tráfico negreiro do Atlântico, mesmo depois da Revolução Americana” (Wood, 2003, p. 105). Embora exista um debate sobre o papel do tráfico escravo para a ascensão do imperialismo britânico – ou seja, se o lucro com o tráfico escravo foi crucial ou não para o desenvolvimento do capitalismo industrial britânico -; a importância da escravidão no processo produtivo das colônias nas Américas para a produção de commodities, tabaco e açúcar e o papel das colônias no lucrativo comércio externo britânico são amplamente reconhecidos. Assim, o papel que a periferia desempenhava na internacionalização da produção no século XVIII estava relacionado à provisão de mão de obra escrava e de terra para ser cultivada segundo os critérios capitalistas de produtividade. E o tráfico negreiro acelerava a internacionalização do capital na primeira fase do imperialismo britânico. Neste período, também ocorre a Revolução Industrial. A partir daí a civilização industrial foi se difundindo pelo mundo e o sistema centro-periferia se constituiu. Já no século XIX, a expansão do imperialismo britânico aumentou a participação periférica na divisão internacional do trabalho e o domínio territorial direto voltou a ser incorporado como fonte de riqueza no imperialismo colonial clássico. Com a expansão do capitalismo, a clivagem centro-periferia se consolidou. Neste período o papel da periferia na internacionalização da produção, além da oferta de mão de obra barata e de terra, também incluiu a provisão de matérias-primas e recursos naturais. Com a expansão financeira do CSA britânico, a exportação de capitais foi intensificada e investimentos estrangeiros diretos foram direcionados à periferia. Embora esse fluxo de IED tenha se dado numa magnitude muito inferior ao que normalmente é alegada pelos textos marxistas clássicos (Callinicos, 2009, p. 153), a periferia entrou no circuito global de internacionalização do capital.
Na primeira fase do imperialismo norte-americano, para expandir seus próprios mercados os Estados Unidos incentivaram o processo de industrialização da periferia (Wood, 2003, p. 132). As empresas multinacionais do centro passaram a procurar mercados periféricos em busca de matérias-primas, recursos naturais com qualidade maior ou custos menores do que teriam acesso em casa e em busca de mercado para ofertar bens e serviços (Dunning; Lundan, 2008, p. 67-68). Consequentemente, a industrialização deixou de ser exclusividade do centro. Ainda, um novo canal de escoamento para a reprodução do capital foi criado com a descolonização da África e da Ásia e a abertura de novos mercados. A autodeterminação dos povos que guiou o movimento de descolonização estabeleceu a soberania como base da relação centro-periferia.
Na fase de globalização do imperialismo norte-americano, por sua vez, a periferia ganha papel de destaque no processo de internacionalização do capital. Primeiramente, como mostra Wood (2003), um sistema de múltiplos Estados se torna imprescindível para a internacionalização do capital e a estruturação desse sistema se deu exatamente pela a integração da periferia no processo de globalização, na medida em que os governos de Estados nacionais adotaram políticas de desregulamentação e liberalização econômico-financeiras e passaram atuar como instrumentos de difusão dos imperativos de mercado (Wood, 2003, p. 133).
Segundo, o fluxo de IED para a periferia passou a abarcar a busca por eficiência, ou seja, as multinacionais são motivadas a estabelecer filiais em mercados estrangeiros para racionalizar a produção que passa a ter atividades dispersas geograficamente. Com os rápidos avanços na tecnologia de informação e comunicação, outsourcing7 e offshoring8 na periferia se tornaram opções estratégicas para as firmas. Assim, Cadeias globais de valor emergem como um novo canal para a internacionalização da produção e os mercados periféricos passam a se destacar nesse processo. Terceiro, as economias periféricas deixam de ser apenas exportadoras de matérias-primas e passam a se destacar como exportadoras de manufaturas. A internacionalização da produção encontra nas firmas multinacionais com sede na periferia um novo ator na reestruturação mundial da divisão do trabalho. Quarto, a periferia ganha papel de destaque no comércio mundial de bens e muda a composição de forças na geopolítica mundial. Por fim, o recebimento dos fluxos de investimentos em portfólio pela periferia se torna um importante instrumento para a intensificação da internacionalização do capital financeiro.
A dimensão tecnológica, por sua vez, é destacada no Quadro 3, que busca olhar as transformações no capitalismo a partir das revoluções tecnológicas. Em cada onda longa definida por Freeman e Perez (1988), são apresentadas mudanças no centro e na periferia que sugerem mudanças profundas no capitalismo.


Em termos breve temos que, a primeira onda longa que emerge com a revolução industrial (1770-80/1830-40) inicia a fase do capitalismo industrial e a clivagem centro-periferia passa a ser constituída a partir da difusão da civilização industrial pelo sistema econômico mundial. Assim, impulsionada pela emergência da hegemonia britânica, a civilização industrial passou a se difundir pelo sistema econômico mundial a partir da Inglaterra (Furtado, 1986; 1992). Com o desenvolvimento do capitalismo, centro do sistema foi se alargando com a incorporação dos países que se inseriram diretamente na civilização industrial. Além do Reino Unido, os países da Europa Ocidental, os Estados Unidos e a Austrália, por exemplo, passaram a compor o hall dos países centrais. O colonialismo, que já era praticado, ganhou novos rumos sob a tutela da hegemonia britânica e a civilização industrial chegou à periferia. Ou seja, aquelas economias que se inseriram na civilização industrial pela via comercial – como os países latino-americanos e as colônias de economias europeias – se tornaram dependentes da dinâmica econômica das economias centrais.
Assim, com a emergência da segunda onda longa (1830-40/1880-90), a clivagem centro-periferia assumiu sua configuração clássica: os países centrais exportando manufaturas e os países periféricos exportando matérias-primas. Essa configuração, assentada no liberalismo econômico do laissez-faire e na estabilidade promovida pelo padrão-ouro, foi base da Pax Britânica no século XIX. Os relatos de economia política escritos por Adam Smith (1776) e Friedrich List (1841) retratam o período da constituição do centro a partir da Inglaterra e as implicações da difusão do capitalismo industrial para a periferia. E a difusão da civilização industrial na Pax Britânica sob o laissez-faire provocou sobre a periferia a uma relação de dependência que não se desfez nem mesmo com a independência política conquistada na América Latina. Muito embora a relação entre economias centrais e periféricas não tenha sofrido mudanças significativas, a clivagem centro-periferia se modificou. A inserção da periferia na divisão internacional do trabalho foi induzida pela dinâmica dos países centrais e o impacto dessas políticas alterou a composição da periferia, que deixa de ser constituída apenas por colônias de exploração e passa a abarcar também nações independentes. Enquanto essa relação de dependência entre o centro e a periferia sob a égide do laissez-faire pode ser identificada no discurso nacionalista de Friedrich List (1841), a economia política do capitalismo no período de hegemonia britânica está descrita em O Capital (1867), de Karl Marx.
As mudanças ocorridas com o capitalismo na terceira onda longa (1880-90/1930-40), como a emergência dos cartéis e trustes internacionais na exportação do capital, são descritas por Rudolf Hilferding (1910) e Rosa Luxemburgo (1913). Neste período, a hegemonia britânica entra em turbulência sistêmica, com o fim do padrão-ouro e do laissez-faire, com a revolução russa e a I Guerra Mundial. Na busca por novas áreas para a manutenção da taxa de lucro, a concorrência capitalista, expressa na competição interestatal, põe em marcha a corrida imperialista na África e na Ásia. A incorporação de novos mercados na África e na Ásia faz com que a área periférica se amplie de modo significativo, e a clivagem centro-periferia passa a apresentar uma periferia muito mais numerosa. Na medida em que novas áreas periféricas são sugadas para a divisão internacional de trabalho, a distribuição dos ganhos de comércio dos países centrais no mercado mundial se modifica. Neste processo, os Estados Unidos e a Alemanha emergem como hegemonias potenciais, mas são os primeiros quem conseguem estabelecer uma hegemonia mundial ao final da II Guerra Mundial, na emergência da quarta onda longa (1930-40/1980-90).
A mudança na economia política internacional no pós-guerra, caracterizada simultaneamente pela Pax Americana e pela bipolaridade no sistema de poder, também trouxe implicações na clivagem centro-periferia. A disputa dos Estados Unidos e União Soviética por controle de áreas de segurança impulsionou a emergência de revoluções comunistas e de movimentos nacionalistas, que provocaram o movimento de descolonização da África e na Ásia. Para acomodar as relações centro-periferia e o surgimento dessas novas nações periféricas, foram criadas zonas de influência. Para impedir que nações estratégicas dentro da zona de influência norte-americana fossem cooptadas pela Rússia, os Estados Unidos permitiram a adoção de políticas desenvolvimentistas por economias centrais e periféricas, especialmente no Sudeste Asiático. Dessa forma, uma dinâmica de crescente diferenciação entre os países periféricos foi constituída. A periferia iniciou um processo de industrialização por substituição de importações e se tornou um grupo de países cada vez menos homogêneo.
O desenvolvimento do Japão e sua inserção no centro, assim como a bipolaridade exercida pela Rússia, representam também uma novidade: pela primeira vez, países que não se inseriram na civilização pela via direta foram incorporados ao centro (Furtado, 2008). A permissividade para com as políticas desenvolvimentistas no centro e na periferia se explica pelo papel exercido pelas multinacionais, primeiramente norte-americanas e depois europeias e japonesas também. A atuação das multinacionais de economias centrais atuando nas economias periféricas em seus processos de industrialização resultou numa maior heterogeneidade na periferia, que passou a produzir, em algumas economias, bens de capital. A atuação das firmas multinacionais pode ser encontrada nos trabalhos de Dunning e Lundan (2008). Esses autores também são úteis na categorização das motivações do Investimento Estrangeiro Direto (IED) realizadas pelas firmas multinacionais. Segundo a classificação de Dunning e Lundan (2008, p. 67-68), pode-se afirmar que os IED das multinacionais com sede no centro buscavam novos mercados e mais e/ou melhores recursos naturais nas economias periféricas. Os processos de industrialização na periferia, via seus financiamentos, impulsionaram também uma sofisticação na exportação de capitais por parte das economias centrais. A relação de dependência se renova na faceta tecnológica e financeira.
A emergência da quinta onda longa (1980-90/ ?) abriu uma janela de oportunidade para as economias periféricas que realizaram a industrialização e construíram capacidades e habilidades para aproveitarem a ocasião. Pela primeira vez, países até então dependentes conseguiram superar a armadilha do subdesenvolvimento e deixar a periferia. Taiwan e Coréia do Sul se integram ao centro nestas circunstâncias (Furtado, 1992). E outras economias periféricas conseguiram realizar com sucesso o processo de industrialização e começaram a produzir bens de capital. A exportação de manufaturas deixa de ser exclusividade das economias centrais, assim como surgem empresas multinacionais originárias de economias periféricas. As multinacionais, em geral, passam a buscar mais do que novos mercados ou matérias-primas e diversificam seu portfólio de IED pela busca por eficiência e/ou novos ativos, como fusões e aquisições. E muitas multinacionais com origem no centro se transformam em grandes corporações, atuando simultaneamente em diferentes ramos de atividade, inclusive no financeiro.
O fato é que a configuração sistêmica desenhada pelos países centrais a partir do final dos anos 1970s tornou as economias periféricas mais ativas no arranjo internacional de divisão do trabalho no alvorecer do século XXI. As economias periféricas ganharam peso significativo no comércio mundial; o chamado comércio Sul-Sul modificou as rotas dos investimentos em IED, com as multinacionais periféricas atuando, em especial, nos processos de desenvolvimento de outras economias periféricas e rearranjando a Divisão Internacional do Trabalho. Neste processo ganha destaque o papel exercido por economias periféricas, como Brasil, China e Índia, em diferentes regiões da África. Assim, o período que se inicia com a supremacia dos Estados Unidos encontra-se hoje em turbulência sistêmica, no qual o reequilíbrio de forças pode pender para as economias periféricas. Dentre elas, a China é o maior destaque. Essa nova configuração de forças em formação pode ser encontrada nos trabalhos de Dunning e Lundan (2008), Eichengreen (2011), dentre outros.
Portanto, as mudanças no capitalismo ao longo do tempo captadas pelas três dimensões investigadas – poder, finanças e tecnologia – apontam uma transformação sistêmica em curso e mostram as alterações ocorridas nas relações centro-periferia com a evolução do capitalismo ao longo do tempo. Sendo assim, a próxima parte deste trabalho busca evidenciar o papel da periferia nas transformações sistêmicas em curso no capitalismo no alvorecer do século XXI.
Na reconfiguração sistêmica do capitalismo global em curso, há uma novidade: o efeito bumerangue. Por ser o capitalismo um sistema dinâmico e evolucionário, a clivagem centro-periferia que o articula em âmbito global também se encontra em constante mudança. Apesar da transformação contínua das unidades centrais e periféricas, o sistema capitalista global se mantém ao longo do tempo estruturado pela clivagem centro-periferia. Por uma perspectiva durkheimiana, o sistema (capitalismo global) é composto por uma estrutura (clivagem centro-periferia) e pela interação das unidades (países centrais e periféricos) – ver Figura 1 -, no qual o somatório das partes é diferente do todo. Os sistemas se ascendem e se formam em um processo, pela interação das partes, que se auto-organizam com certo grau de autonomia, guiados por processos de aprendizagem, evolução, competição e cooperação, o que os torna flexíveis e dinâmicos. Assim, existem elementos sistêmicos que só podem ser observados por uma visão holística. As relações centro-periferia são determinadas pelo resultado sistêmico do “vendaval contínuo de destruição criativa, ou não tão criativa, na luta pelos benefícios da divisão mundial do trabalho” (Arrighi, 1990, p. 15).

A estrutura é definida por três eixos interligados: pela ordenação das unidades; pela especificação das funções; e pela distribuição de capacidades entre as unidades. A capacidade de as unidades absorverem e gerarem inovações (tecnológicas, institucionais etc.), que melhoram seus processos de acumulação e desenvolvimento, determina os tipos de funções que essas unidades podem desempenhar na divisão internacional do trabalho. Por sua vez, a colocação na divisão internacional do trabalho posiciona os países em melhores ou piores condições de incorporação dos benefícios da especialização. Com isso, os países se auto-organizam em posições centrais ou periféricas na dinâmica capitalista global.
Vale destacar que essa perspectiva durkheimiana não entra em conflito com a perspectiva estruturalista da clivagem centro-periferia, na qual a estrutura sistêmica de centro-periferia se define pelo papel do progresso tecnológico na disseminação internacional de tecnologia e na distribuição dos frutos do progresso técnico no mundo. Isso porque o segundo e o terceiro eixo definidor da estrutura (funções desempenhadas e distribuição das capacidades de absorver e gerar inovações, respectivamente) determina a distribuição mundial dos frutos do progresso técnico e estabelece núcleos centrais e periféricos (ordenação hierárquica do sistema).
A interação das unidades, por sua vez, se dá pelos fluxos internacionais, de exportação e importação de bens, serviços e capitais9. A interação é influenciada pela estrutura, ao mesmo tempo que a modela. A mudança estrutural é resultado dos processos que ocorrem no nível das unidades. Assim, novas interações são fontes potenciais de mudança estrutural. Ou seja, os novos fluxos e as novas interações entre as unidades (no centro, na periferia e/ou entre centro e periferia), resultantes das transformações ocorridas no capitalismo desde 1970, nas dimensões das finanças, poder e tecnologia, podem ser determinantes de mudança estrutural.
Ademais, a introdução e a difusão de inovações tecnológicas, políticas, econômicas e sociais alteram continuamente os tipos de insumos, produtos, técnicas de produção e de distribuição, alocação na rede de trocas e de recursos que dotam os Estados com diferentes capacidades para se apropriar dos benefícios da divisão mundial do trabalho (Arrighi, 1990, p. 15). Assim, o conjunto de atividades desempenhado pelos países do centro e da periferia se altera continuamente ao longo do tempo. Com isso, determinado país, em determinado período de tempo, pode conseguir, com determinado conjunto de atividades (exportação de manufaturas, importação de bens intensivos em trabalho, exportação de capitais etc.), se apropriar de grande parcela dos benefícios advindos das trocas de fluxos internacionais, enquanto outros países não conseguem fazer o mesmo, no mesmo período; ou o mesmo país pode não conseguir fazê-lo em outro período de tempo (Arrighi, 1990, p. 15).
Como todo sistema, o capitalismo global apresenta uma estabilidade dinâmica, na qual a estrutura se mantém, apesar de mudanças e transformações contínuas de seus componentes. Estabilidade dinâmica é diferente de equilíbrio. Flutuações, oscilações, crises e conflitos na interação das partes são necessários e constituem a base da estabilidade do todo. Interações no nível das unidades afetando a estrutura de modo contínuo é o que garante a estabilidade dinâmica do capitalismo global. Ou seja, ocorrem mudanças no sistema, mas não de sistema. Essa só ocorre se as mudanças na interação das unidades alcançarem uma magnitude tal que rompam a estrutura que o articula. A evolução do sistema ocorre por meio de uma interação entre adaptação e criação em um processo permanente de busca pela estabilidade dinâmica.
A densidade dinâmica do sistema se revela pela quantidade, velocidade e diversidade de interações (fluxos) entre as unidades. As interações realizadas por periferias complexas10 desde 1970 afetaram cada um desses elementos e produziram o efeito bumerangue (resultado sistêmico), que modifica as bases de interação na relação centro-periferia (novas relações de poder, novas formas de dependência etc.) e impacta na densidade dinâmica. Essa mudança na densidade dinâmica (pela mudança quantitativa e qualitativa dos fluxos acrescida do efeito bumerangue) afeta a estrutura do sistema (ordenação, diversificação das funções, distribuição de capacidades) e molda a reconfiguração do capitalismo no século XXI.
De fato, a densidade dinâmica do sistema aumentou em diferentes momentos da história e provocou a reconfiguração do capitalismo. A força motriz desse movimento de aumento da densidade dinâmica sempre emanou das economias centrais, mas a novidade é que, no início do século XXI, passou a emanar também da periferia. Claro que as economias da periferia sempre foram partes integrantes desses fluxos; afinal, elas são unidades do sistema. Contudo, elas participavam de forma passiva ou como receptáculos de fluxos nesses processos interativos. No limiar do século XXI elas apresentam um papel mais ativo e também são fontes de irradiação desses fluxos.
Durante a maior parte do século XX (1930/1940-1980/1990), os países da periferia exportavam apenas matérias-primas e commodities. Na segunda metade do século XX, muitos países da periferia iniciaram seus processos de industrialização por substituição de importações e deram início a um processo de diversificação da periferia. Aquelas que conseguiram relativo sucesso nesses processos se tornaram, segundo Furtado (1986), economias periféricas complexas ou de alto nível. E são essas economias que ditam, em conjunto, parte do ritmo e da variedade da densidade dinâmica do sistema no início do século XXI. A partir dos anos de 1990, os fluxos internacionais de bens, serviços e capitais se modificaram bastante. Pela dimensão analítica da tecnologia, temos que a emergência das tecnologias da informação e comunicação (TIC) propiciou um encurtamento das distâncias e diminuição dos custos das transações internacionais, bem como permitiu o aparecimento de novos produtos comerciais e financeiros, de novos serviços, de novas formas de organizar e gerenciar a produção e as finanças mundiais, entre outras coisas. Pela dimensão do poder, temos que as normas, as regras, as práticas e os costumes que compõem a ordem mundial são ditados pelos países centrais e que o Estado tem papel crucial na internacionalização do capital; logo, as instituições internacionais que guiam as interações entre as unidades e as políticas de liberalização e desregulamentação adotadas por governos e diferentes partes do mundo foram instituídos com o intuito de favorecer as economias centrais e a acumulação e reprodução do capital. Pela dimensão das finanças, temos que a esfera produtiva se articula com a esfera financeira na evolução do capitalismo. Assim, inovações produtivas, institucionais, tecnológicas e financeiras aparecem, muitas vezes, intrinsecamente relacionadas.
Portanto, a partir dessas três dimensões analíticas, podemos apontar mudanças atuais nos elementos que compõem a densidade dinâmica do capitalismo global (velocidade, quantidade e diversidade). Por exemplo, com a emergência das TIC, os fluxos de interação entre as unidades adquiriram velocidade sem precedentes; o regime mundial de comércio, gerenciado pela Organização Mundial do Comércio (OMC), derrubou as barreiras comerciais de modo significativo desde sua implementação; a adoção de políticas liberalizantes e de desregulamentação econômico-financeiras também contribuiu para o aumento quantitativo e qualitativo (diversidade) dos fluxos de bens, serviços e capitais ao retirar ou reduzir os controles transfronteiriços nessas transações; as inovações tecnológicas, produtivas, institucionais e financeiras também contribuíram para o aumento da diversidade dos fluxos internacionais que caracterizam as interações entre as unidades. Mesmo com a queda no volume de fluxos internacionais que caracterizam a globalização dos circuitos econômicos e financeiros e com o aumento de medidas protecionistas nas transações internacionais depois da crise de 2007 (The Economist, 2013), a densidade dinâmica do sistema se manteve elevada até a pandemia de 2019. Embora represente uma medida simplista da densidade dinâmica, o fluxo de comércio mundial permite uma visualização do nível elevado de trocas realizado no sistema. O Gráfico 1 mostra o aumento desse fluxo quando comparado aos anos 1980, enquanto o Gráfico 2 expõe a manutenção de um nível elevado de trocas pela variação percentual do volume de comércio mundial, em termos anuais.
Essa elevação na densidade dinâmica do sistema se deve, em parte, às transações internacionais realizadas pelas economias periféricas. O produto interno bruto combinado de três importantes economias da periferia – Brasil, China e Índia – foi, em 2012, aproximadamente igual ao produto interno bruto combinado de seis tradicionais líderes econômicos do centro – Canadá, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Estados Unidos (UNDP, 2013, p. 13). Essa é uma mudança importante no cenário global. Para comparação, em 1950, Brasil, China e Índia respondiam juntos por apenas 10% da economia mundial, enquanto essas seis economias do centro eram responsáveis por mais de 50% (UNDP, 2013, p. 13). No início da segunda década do século XXI são os países da periferia que produzem cerca de metade da riqueza mundial (UNDP, 2013, p. 13). Conforme o Gráfico 3, as projeções anteriores à pandemia de 2019 indicavam que até 2050, o Brasil, a China e a Índia, em conjunto, seriam responsáveis por 40% do produto mundial, contra 10% em 1950 (UNDP, 2013, p. 13).

As economias periféricas complexas exportam, no século XXI, não apenas matérias-primas, mas também manufaturas, serviços e capitais, e são responsáveis por parcela significativa da riqueza mundial. Cerca de 50% do fluxo mundial de mercadorias em 2010 teve a periferia como origem; em 1985, era apenas 25% (UNDP, 2013, p. 2). O comércio envolvendo apenas economias periféricas também aumentou de modo significativo no século XXI, saltando de 8,1% em 1980 para 26,11% do comércio mundial em 2011 (UNDP, 2013, p. 45). Os fluxos de pesquisa e desenvolvimento também estão mais intensos na periferia, seja pela instalação de laboratórios de multinacionais do centro em economias periféricas, seja pelo aumento dos gastos em pesquisa e desenvolvimento pelos governos e firmas da periferia.
Ademais os fluxos internacionais de capitais privados para a periferia aumentaram bastante desde 1990. De fato, o fluxo líquido de capitais privados para os países da periferia registrou 1,03 trilhões de dólares em 2007, mesmo com a crise de 2007 tendo deteriorado os resultados no segundo semestre do ano, enquanto em 1999 esse fluxo foi de 209,7 bilhões de dólares (Banco Mundial, 2008, p. 33). O fluxo privado de títulos para a periferia, por sua vez, era de 69,4 bilhões em 2000 e em 2007 somavam 142,2 bilhões de dólares (Banco Mundial, 2008, p. 41). A participação da periferia no investimento externo direto mundial passou de 20% em 1980 para 50% em 2010 (UNDP, 2013, p. 47). O aumento fluxo de IED, especificamente, para as economias periféricas pode ser observado no Gráfico 4.
Em crescimento expressivo desde os anos 1990, mas, após a queda em 2020, os investimentos estrangeiros diretos (IED) voltaram a crescer na periferia. Segundo a Unctad (2022), nos países da periferia, o investimento estrangeiro direto teve alta de 30% em 2021, quando comparado a 2020, chegando a 916 milhões de dólares em 2022 (Unctad, 2023). A maior aceleração observada foi no leste da Ásia e dobrou na África, em função do desempenho da África do Sul. Além disso, os acordos de projetos financeiros internacionais subiram 53% em número e 91% em valor em 2021, com os principais aumentos nas periferias complexas da Ásia e da América Latina. No ranking dos maiores receptores de IDE do mundo, em 2022, a China é o segundo país em entrada de IED e o Brasil, o 5° colocado. Os investimentos no exterior pelas multinacionais periféricas também se destacam. No ranking de 2022, dos 20 países com maior saída de IDE do mundo, a China ocupa a terceira posição e o Brasil a 14ª posição (Unctad, 2023). De fato, na segunda década do século XXI, uma em cada quatro empresas multinacionais tem sede na periferia (UNDP, 2013, p. 47), e elas realizam um terço do investimento externo direto mundial (Unctad, 2013).
Portanto, a combinação desses fatores leva a um aumento na densidade dinâmica do sistema por parte das economias da periferia, devido, essencialmente, à performance das periferias complexas na economia mundial. Não é apenas o volume de fluxos internacionais, mas também a diversidade de interações que elas estão realizando. Além do aumento na densidade dinâmica, essas novas interações entre as unidades estão provocando a emergência do efeito bumerangue nas relações centro-periferia.
A relação centro-periferia apresenta uma novidade no início do século XXI: a periferia provocando impactos no centro. Na verdade, a relação comercial entre centro e periferia sempre gerou certa interdependência, na qual uma crise econômica em um país provocava reflexos em seus parceiros comerciais. Contudo, como mostra o Gráfico 5, as relações comerciais dos países centrais sempre foram dominadas por parceiros comerciais do centro. A matriz normativa institucional montada pelos países centrais a partir da década de 1990, que recompensa políticas de liberalização e desregulamentação econômico-financeira, acelerou e aprofundou a inserção das economias periféricas na economia mundial. O impacto disso na periferia foi a maior participação no comércio exterior e nos fluxos de capitais. Mas o peso relativo ganho pela periferia na economia mundial fez com que o desempenho econômico das economias do centro fosse afetado pelo desempenho da periferia, em especial das economias periféricas complexas, no comércio mundial.
O aumento das exportações das economias periféricas complexas também rendeu um acúmulo sem precedentes de reservas internacionais nessas economias. A maior parte dessas reservas é em dólares, que são reinvestidos nos Estados Unidos na forma de títulos do Tesouro ou outros ativos denominados em dólares (Barboza, 2011). Uma consequência não intencional provocada pelas normas de instituições internacionais importantes na condução da ordem internacional, como OMC, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial, foi tornar economias periféricas complexas, como China, Rússia e Brasil, importantes credores internacionais (The Guardian, 2011). Os Estados Unidos, por sua vez, passaram de credores a devedores internacionais, em termos líquidos. Os crescentes déficits fiscais e de conta corrente dos Estados Unidos, que antes eram financiados por fluxos de capitais privados, passaram a ser financiados por Bancos Centrais (Roubini; Setser, 2004). Em 2022, em termos de reservas internacionais, três economias periféricas figuram dentre as cinco maiores – China, Japão, Suíça, Índia e Rússia. (Banco Mundial, 2024).
Apesar da nova forma de dependência financeira, na qual a periferia alterou seu perfil de endividamento externo, as economias periféricas complexas conseguem afetar, em alguma medida, as economias centrais ao se tornarem credoras internacionais e por representarem, agora, um canal de contágio para uma crise financeira. Isso porque a integração mais profunda dos mercados financeiros, a partir dos anos de 1990, abriu espaço para que o contágio passasse a operar nos dois sentidos: do centro para a periferia e da periferia para o centro. Até então, o sentido de difusão da crise era sempre do centro para a periferia. As crises na periferia não tinham capacidade de causar impactos muito profundos nas economias do centro como um todo e/ou fazer emergir uma crise sistêmica. Elas conseguiriam, no máximo, afetar uma ou outra economia central e em circunstâncias particulares. A crise mexicana de 1994 marca o início dessa mudança. O “efeito tequila” do comportamento de pânico dos investidores assustou mercados financeiros da periferia e do centro, como os de Tóquio, de Londres e de Nova York (Panitch; Gindin, 2012, p. 251). Em resposta aos possíveis estragos que a crise no México poderia trazer ao sistema financeiro global montado pelos países do centro, sob a liderança norte-americana, o Tesouro dos Estados Unidos injetou 40 bilhões de dólares para resgatar a economia mexicana do abismo, um montante seis vezes superior ao mobilizado em 1982 na crise da dívida do México (Panitch; Gindin, 2012, p. 252). A crise mexicana de 1994 não foi um caso isolado; para não abalar as estruturas do sistema financeiro criado pela Nova Arquitetura Financeira a partir da década de 1990, o Tesouro norte-americano e o FMI atuaram como emprestadores em última instância para conter a difusão das crises com origem na Tailândia em 1997, na Rússia em 1998 e no Brasil em 1999, por exemplo (Panitch; Gindin, 2012, p. 250-271).
No século XXI, as economias periféricas complexas não são apenas fontes potenciais de instabilidade, mas também são necessárias no gerenciamento de crises sistêmicas e na condução da ordem mundial. Antes, os países da periferia participavam da condução da ordem mundial somente quando era do interesse dos países centrais em termos de estratégia geopolítica. Mas, agora, a participação da periferia na governança global é requisito para a estabilidade do sistema. Tendo em vista que o conjunto de economias periféricas complexas se tornou mais espesso, aumentando a heterogeneidade na periferia; a clivagem centro-periferia se torna mais fragmentada, no sentido de que há mais “subsistemas” de unidades periféricas. Consequentemente, existe maior necessidade de se coordenar as unidades centrais e periféricas para a manutenção da estabilidade sistêmica. As periferias complexas se fazem necessárias para as resoluções de problemas globais em áreas que vão além da geopolítica e incluem o domínio econômico – área, até então, de acesso restrito aos países centrais. Não obstante o aumento participativo de representantes das economias periféricas complexas em instituições internacionais cruciais para a governança financeira global, por exemplo, o poder de decisão, as normas e as regras de conduta internacionais não sofreram alterações significativas. Logo, há um descompasso institucional entre o peso relativo das economias periféricas complexas e a capacidade decisória de que desfrutam. De fato, a condução da ordem mundial tende a ser controlada pelos países centrais sob a liderança do Estado hegemônico; no entanto, a participação de economias periféricas complexas na formação do consenso que sustenta a ordem tende a ser aumentada e alargada para diferentes domínios de ação, especialmente o econômico.
Outro impacto da periferia no centro com efeitos sobre a clivagem pode ser identificado no movimento de offshoring e outsourcing que sustentam as cadeias globais de valor. O processo global de produção descentralizada acabou criando um mercado de trabalho mundial. De acordo com Richard Freeman (2007), a inserção da China, Índia e Rússia no sistema capitalista, o crescimento acelerado da educação superior nos países da periferia e a transferência de tecnologia moderna para alguns países da periferia impulsionaram a formação de um mercado de trabalho global e produzindo impactos sobre os mercados de trabalhos domésticos das economias centrais. Se, por um lado, os países do centro tiram proveito da “duplicação” do número de pessoas no mercado de trabalho mundial com as atividades de offshoring e outsourcing, por outro, as vantagens comparativas que eles desfrutam em bens intensivos em alta tecnologia estão sendo reduzidas pelo crescente número de trabalhadores qualificados na periferia e pelas transferências de tecnologia que ocorrem nessas atividades (Freeman, 2007). Ademais, conforme Freeman (2007), o deslocamento da produção para mercados estrangeiros populosos, com baixos salários e com trabalhadores com ensino superior, afeta o mercado de trabalho norte-americano tanto para trabalhadores qualificados com educação superior quanto para trabalhadores sem qualificação. De modo geral, as atividades de offshoring tendem a deixar os trabalhadores das economias centrais em posições mais precárias (Freeman, 2007; Mann, 2007; Milberg et al., 2007; Burke; Epstein, 2007). Em termos políticos, Martin (2007) ressalta que o impacto do offshore outsourcing no mercado de trabalho europeu atinge um alicerce crucial dos Estados de bem-estar social, o que pode tornar difícil a legitimação democrática do projeto da União Europeia com um todo.
Além dos impactos nos mercados de trabalho do centro, as atividades de offshoring e outsourcing afetam os fluxos internacionais de tecnologia. Ao mesmo tempo que o offshoring provoca spillovers que induzem à inovação em firmas da periferia, os países do centro se veem obrigados a atualizar e diversificar suas atividades de pesquisa e desenvolvimento para manter sob controle o processo de inovação (Jefferson, 2007). Assim, a intensificação das atividades de pesquisa e desenvolvimento na China, por exemplo, e a pulverização dos laboratórios de pesquisa e desenvolvimento das multinacionais do centro pelas economias periféricas complexas podem ser entendidas como dois lados de uma mesma moeda (Jefferson, 2007, p. 213). Como resultado do estabelecimento de cadeias globais de valor, os fluxos de pesquisa e desenvolvimento estão mais intensos na periferia, pelos quais, associados a maiores fluxos de ciência e tecnologia, como produção científica e formação de engenheiros e cientistas, as periferias complexas estão se destacando na geração de inovações e registro de patentes. A concorrência enfrentada pelas multinacionais do centro encontra novos desafios e a busca pela sobrevivência leva a mais descentralização dos processos de pesquisa e desenvolvimento, reforçando a dinâmica inicial. Com isso, ocorre um deslocamento geográfico nos investimentos mundiais em pesquisa e desenvolvimento e na produção de ciência e tecnologia para o Sudeste Asiático.
Mas, se, por um lado, essas novas configurações que tomam forma na periferia no século XXI desenham novas relações de poder, por outro, novas formas de dependência são estabelecidas com a intensificação da integração promovida pelo aprofundamento da globalização. No século XXI, as relações de dependência da periferia com o centro assumem novos contornos, embora se mantenham em essência. Em termos breves, as dependências financeira, tecnológica e cultural se tornam mais intensas e profundas no século XXI: o novo perfil de financiamento externo da periferia, com forte participação de investimentos em portfólio, apresenta graves entraves ao desenvolvimento; o efeito demonstração é potencializado pelo rápido acesso à informação, que desperta quase que em tempo real o desejo por imitação em sociedades periféricas cujas economias apresentam inadequação tecnológica para reproduzir tais padrões de vida; e a ausência de um núcleo tecnológico endógeno faz com que os esforços inovativos da periferia se traduzam na aquisição, dominação e melhoria da tecnologia já existente e não na mudança da fronteira do conhecimento, mantendo o hiato tecnológico existente entre o centro e a periferia.
O aumento da densidade dinâmica do sistema e a ação do efeito bumerangue alteraram a estrutura do sistema capitalista global. Os novos fluxos de interação entre as unidades possibilitaram novos arranjos e configurações nas relações de poder e de dependência entre o centro e a periferia. Além disso, os investimentos em atividades de pesquisa e desenvolvimento e ciência e tecnologia, bem como uma melhor articulação no sistema nacional de inovação em algumas economias periféricas permitiram uma melhora na capacidade de absorver e gerar inovações desses países. Com isso, a difusão do progresso técnico pelo sistema assumiu novas configurações, penetrando de modo diferente em diferentes economias periféricas. Embora algumas economias periféricas tenham conseguido complexar suas estruturas produtivas, elas ainda continuam sendo periferias. As relações de dependência cultural, tecnológica e financeira ainda se aplicam, mesmo que em outros termos e formatos. Os sistemas nacionais de inovação dessas economias periféricas complexas tentam construir um núcleo tecnológico endógeno que seja capaz de criar uma homogeneização tecnológica e social. Caso consigam, o país periférico se deslocará para o centro do sistema; mas, por enquanto, a mudança está na distribuição das capacidades de absorver e gerar inovação pelas unidades do sistema.
Dotadas de maior capacidade para a aprendizagem tecnológica, as economias periféricas complexas conseguiram mudar suas estruturas produtivas e pautas de exportação. O novo peso relativo da periferia na economia mundial e a emergência de empresas multinacionais da periferia são reflexos desse novo arranjo na difusão do progresso técnico pela alteração na distribuição das capacidades de absorção e geração de inovação. Elas estão presentes nos mais diferentes setores da economia e competem diretamente com as empresas multinacionais do centro por fatias de mercado. A realização de investimento externo direto pelas multinacionais da periferia e a inserção de muitas economias periféricas nos mercados financeiros globais, inclusive pelo financiamento externo via emissão de títulos públicos, também introduziram a periferia nas exportações mundiais de capitais. Apesar de apresentar um viés regional grande em atividades de exportação de serviços e capitais, a periferia conseguiu mudar sua função na divisão internacional do trabalho. A periferia sempre ocupou a posição de exportadora de matérias-primas e commodities, de fonte de recursos naturais e mão de obra. Mas no século XXI, ela também exporta manufaturas, serviços e capitais.
Essa mudança na função desempenhada pela periferia na divisão internacional do trabalho alterou a hierarquia internacional presente na clivagem centro-periferia. A periferia, que já era heterogênica, se diversificou ainda mais. O número de periferias complexas aumentou consideravelmente, e a China se elevou ao posto de mais importante economia periférica no século XXI. Duas economias originalmente periféricas e dependentes, Coreia do Sul e Taiwan, conseguiram realizar o catching-up e se integraram ao centro. Os Estados Unidos ainda ocupam o topo da hierarquia internacional, mas seu poderio econômico-financeiro já não é o mesmo e sua liderança nas atividades de inovação está sob pressão. Assim, essas mudanças nos elementos estruturais da clivagem centro-periferia e na densidade dinâmica regida pelas interações das unidades moldam a reconfiguração sistêmica do capitalismo no século XXI. A Figura 2 ilustra como a periferia está impactando a reconfiguração sistêmica do capitalismo no século XXI.

Em linhas gerais, a transformação sistêmica em curso no capitalismo no século XXI apresenta um fato novo com elementos recorrentes. Como nos mostra a primeira parte deste trabalho: a internacionalização do capital sempre se deu pela incorporação de áreas menos capitalistas11 ao domínio do capital; a propagação do progresso técnico pelo sistema econômico global sempre provocou efeitos sobre a divisão internacional do trabalho; e a concorrência intercapitalista sempre esteve atrelada à luta interestatal de poder. Mas no alvorecer do século XXI parte da periferia conseguiu atuar de forma mais ativa na configuração sistêmica do capitalismo, pelo impacto que provoca nas relações centro-periferia via aumento da densidade dinâmica e via efeito bumerangue.
Este artigo defende que as transformações sistêmicas do capitalismo a partir de 1970 afetaram a clivagem centro-periferia no século XXI. A ênfase na interação entre finanças, tecnologia e poder permitiu identificar, na primeira parte, as mudanças sofridas pelo capitalismo ao longo do tempo. A configuração do capitalismo no alvorecer do século XXI é resultante da combinação entre a revolução tecnológica que a TIC provocou na economia e na sociedade e o papel do Estado na reprodução do capital. A articulação entre finanças, tecnologia e poder evidenciou as transformações nas finanças internacionais e na divisão internacional do trabalho.
Não há novidade no fato de que a evolução do capitalismo a partir de 1970 provocou mudanças importantes na periferia. Não é um fato novo a incorporação da periferia ao domínio do capital visando sua internacionalização e acumulação; não é novo o efeito da difusão tecnológica sobre a divisão internacional do trabalho; assim como não é novidade que a concorrência intercapitalista se atrela à luta interestatal de poder, gerando consequências sobre a periferia. No entanto, é a primeira vez que uma mudança na periferia tem impactos na estruturação do sistema. A articulação das partes assumiu uma nova configuração que está afetando o todo de modo peculiar.
A mudança na densidade dinâmica do capitalismo no século XXI tem como fonte importante as economias periféricas complexas e produz um efeito bumerangue como resultado sistêmico das interações entre as unidades. As ações das unidades centrais definem a estrutura de interação entre centro e periferia, mas a interação entre as unidades periféricas e das unidades periféricas com as unidades centrais afetam o funcionamento do sistema como um todo. Assim, ocorre um efeito bumerangue: os impactos na periferia modificam a dinâmica dentro da periferia e isso rebate na relação centro-periferia12.
Mas esse efeito bumerangue é passageiro, permanente ou recorrente? Na medida em que adentramos na segunda década do século XXI, verificamos uma queda de dinamismo no desempenho econômico de importantes periferias complexas. O mundo, após a pandemia do COVID-19, pode revelar elementos importantes na dinâmica centro-periferia e na manutenção ou não desse efeito bumerangue. As cadeias globais de valor que por ora representavam elemento importante na densidade dinâmica tendem a ser repensadas; a economia chinesa tende a enfrentar um período crescimento relativamente baixo em comparação aos últimos 30 anos, assim como as outras economias periféricas complexas. Sendo assim, nada podemos inferir hoje sobre a manutenção do efeito bumerangue em longo prazo. Apenas estudos futuros podem apontar sua permanência, recorrência ou seu caráter passageiro.






