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                <journal-title>Economia e Sociedade</journal-title>
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                    Sociedade</abbrev-journal-title>
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				<article-title>Criação e extração de valor das corporações nos Estados Unidos por
					Lazonick e Shin<sup>*</sup></article-title>
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						<surname>Cardoso</surname>
						<given-names>Daniel Monte</given-names>
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						<surname>Ruas</surname>
						<given-names>José Augusto Gaspar</given-names>
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				<email>joao.vmachado.economia@gmail.com</email>
				<institution content-type="original">Pesquisador doutor pelo Instituto de Economia
					da Universidade Estadual de Campinas (IE/Unicamp), Campinas, SP,
					Brasil</institution>
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				<label>***</label>
				<institution content-type="normalized">Departamento Intersindical de Estatísticas e
					Estudos Socioeconômicos</institution>
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				<institution content-type="original">Técnico do Escritório Regional do Departamento
					Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), Florianópolis,
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				<label>****</label>
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				<email>jose.ruas@facamp.com.br</email>
				<institution content-type="original">Professor Doutor das Faculdades de Campinas
					(Facamp), Campinas, SP, Brasil</institution>
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				<label>*****</label>
				<institution content-type="normalized">Instituto de Pesquisas e Estudos Econômicos e
					Sociais</institution>
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				<institution content-type="original">Presidente do Instituto de Pesquisas e Estudos
					Econômicos e Sociais (IPEES), São Paulo, SP, Brasil</institution>
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					<label>EDITOR RESPONSÁVEL PELA AVALIAÇÃO</label>
					<p><italic>Lilian Nogueira Rolim</italic></p>
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						<surname>Lazonick</surname>
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						<surname>Shin</surname>
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				<source><italic>Predatory value extraction:</italic> How the looting of the business
					enterprise became the US norm and how sustainable prosperity can be
					restored</source>
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				<publisher-name>Oxford University Press</publisher-name>
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				<comment>Recebida em 25 de janeiro de 2023 e aprovada em 11 de novembro de
					2024</comment>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
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		<p>William Lazonick, economista canadense, possui cinco décadas de trajetória acadêmica em
			instituições na Inglaterra (SOAS), França (Institut Mines-Télécom e INSEAD) e Estados
			Unidos (Universidade de Massachusetts, Harvard e Barnard College) com uma série de
			contribuições à literatura sobre transformações econômicas contemporâneas. Dentre elas,
			destacam-se estudos sobre transformações nas empresas, na dinâmica da inovação, do
			emprego, e do próprio desenvolvimento econômico. Especialmente desde meados dos anos
			1990, seus trabalhos vêm se desdobrando em um conjunto coerente de publicações que
			analisam, a partir das mudanças na lógica de gestão da grande empresa contemporânea,
			diversas consequências para as economias norte-americana e mundial.</p>
		<p>O livro “<italic>Predatory value extraction: how the looting of the business enterprise
				became the US norm and how sustainable prosperity can be restored</italic>”, escrito
			em coautoria com o economista coreano Jang-Sup Shin, que possui trabalhos sobre
			desenvolvimento econômico, foi publicado em 2020. Nesta obra, o esforço de síntese e
			articulação das principais ideias dos artigos publicados por Lazonick fica evidente
			desde a organização dos temas de cada capítulo. Além dessa contribuição, especialmente
			ao final do livro, os autores propõem a apresentar caminhos para reversão das tendências
			históricas que consideram perniciosas para empresas e para a própria dinâmica econômica
			e social. De forma sintética, porém mantendo a coesão e profundidade do tema, o leitor é
			convidado a entender o processo histórico de transformações na morfologia moderna da
			corporação norte-americana, buscando evidenciar como a maximização do valor para o
			acionista (MVA) como ideologia passou a dominar as estratégias corporativas, minando as
			condições para a prosperidade econômica. A caracterização das ideias, dos agentes
			envolvidos e das instituições que dão suporte a esse movimento histórico, materializam o
			que os autores denominaram por “desequilíbrio entre criação e extração de valor”, raiz
			do declínio socioeconômico contemporâneo.</p>
		<p>O livro inicia explicando a mudança na gestão corporativa do padrão “reter e reinvestir”
			para “reduzir e distribuir”, conceitos introduzidos pioneiramente por Lazonick e Mary
			O’Sullivan (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Lazonick; O’Sullivan, 2000</xref>). Trata-se
			de uma leitura sobre a mudança na forma de alocação de recursos pelas empresas. No
			primeiro caso a alocação estaria pautada em reter lucros e recursos para expansão da
			capacidade produtiva. No segundo, quando se pavimenta a MVA, se verificaria a
			priorização da distribuição de valor aos acionistas na forma de dividendos e recompra de
			ações, com consequente redução da força de trabalho, venda de ativos, terceirização,
				<italic>offshoring</italic> e, no limite, a própria fragilização destas
			corporações.</p>
		<p>Uma das questões centrais é mostrar como o processo de MVA, ao distribuir caixa na forma
			de dividendos e recompra de ações, desequilibrou a relação entre criação e extração de
			valor. Essa caracterização, para além de uma descrição dos mecanismos de gestão
			contemporâneos, posiciona o trabalho de Lazonick em uma série de debates econômicos. O
			primeiro deles, uma oposição à Teoria da Agência e seus desdobramentos para metodologias
			de administração (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Eisenhardt, 1989</xref>). A tradição da
			Teoria da Agência, cuja agenda de pesquisa avança a partir de <xref ref-type="bibr"
				rid="B6">Jensen e Meckling (1976)</xref>, apresenta os problemas de informação
			assimétrica e objetivos distintos de acionistas e gestores (principal e agente) como
			determinantes para compreender os desafios de governança corporativa em diferentes
			estruturas de propriedade. De forma geral, quanto maior a convergência de interesses
			entre acionistas e gestores, mais eficientes seriam as decisões de gestão e alocação de
			recursos (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Eisenhardt, 1989</xref>). <xref ref-type="bibr"
				rid="B4">Fama e Jensen (1983)</xref> destacam, adicionalmente, a importância do
			controle dos gestores por meio de conselhos administrativos. Esse controle, embora
			eficiente, pode ameaçar a estabilidade da gestão e da própria estrutura de propriedade.
			De outra perspectiva, afirmam o valor de mercado das empresas como referência
			fundamental para gestão.</p>
		<p>Com base nas limitações da Teoria da Agência e em suas implicações institucionais,
			Lazonick participa também dos debates sobre emprego, dinâmica de concorrência setorial e
			variedades de capitalismo. Sob as métricas do mercado financeiro, os resultados de curto
			prazo condicionam as decisões de investimento, encurtando horizontes de gasto e
			reduzindo o potencial de inovação e de difusão de benefícios pela sociedade.</p>
		<p>No primeiro capítulo, Lazonick e Shin apresentam os principais agentes responsáveis pelas
			transformações na dinâmica empresarial: executivos corporativos
				(<italic>insiders</italic>), investidores institucionais (<italic>enablers</italic>)
			e <italic>hedge funds</italic> (<italic>outsiders</italic>). O comportamento
			contemporâneo de tais agentes, explorados em capítulos específicos, leva a cabo mudanças
			conduzidas por uma ideologia de MVA que levaria à extração predatória de valor da
			corporação contemporânea, minando a própria estrutura de prosperidade do pós-guerra.</p>
		<p>No segundo capítulo, o livro apresenta a Teoria da Empresa Inovadora como elemento
			central para compreender a dinâmica positiva do desenvolvimento no século XX.
			Teoricamente, essa caracterização se opõe à firma baseada no paradigma neoclássico.
			Inspirada amplamente em autores como Schumpeter, Penrose e Chandler, Lazonick e Shin
			descrevem uma empresa que cresce ao transformar sua estrutura produtiva, gerando
			produtos de qualidade superior e com custos de produção menores que os anteriormente
			disponíveis. Para isso, a firma investe no aprendizado coletivo acumulado ao longo do
			tempo, produzindo bens e serviços que superam os de seus concorrentes.</p>
		<p>Os autores defendem que a inovação é incerta, coletiva e cumulativa. A transformação
			produtiva baseada na inovação, portanto, depende da combinação de três atividades:
			alocação estratégica de recursos, integração organizacional e compromisso financeiro.
			Para desenvolvimento de habilidades inovadoras, os recursos precisam ser alocados de
			forma estratégica, integrando toda a organização, e os gestores precisam assumir o
			compromisso financeiro de manter os investimentos necessários para dar continuidade à
			dinâmica inovativa, dado que os retornos nem sempre são obtidos no curto prazo.</p>
		<p>Lazonick e Shin desenvolvem a ideia de que a Teoria da Empresa Inovadora pode ser
			analisada a partir de um modelo que combine setores industriais, empresas de negócios e
			outras instituições econômicas. Na teoria da firma otimizadora, a tecnologia é exógena e
			definida pelo mercado. Na teoria da firma inovadora, a empresa procura transformar a
			tecnologia e o acesso aos mercados. Neste sentido, a firma inovadora se depara com a
			incerteza do processo inovador, ou seja, se a inovação conseguirá gerar condições para
			desenvolver um produto de alta qualidade que consiga acessar novos mercados, partindo do
			pressuposto de que os altos custos fixos sejam diluídos dentre os custos variáveis no
			processo produtivo. A Teoria da Agência, conforme apresentado, entende que as métricas
			do mercado acionário são mais adequadas para definir a alocação dos recursos. Com os
			prazos de decisão encurtados, a inovação, cujo resultado é incerto e cujo
			desenvolvimento é endógeno à corporação, perde espaço na alocação de recursos. Esse
			raciocínio se alinha a outros trabalhos de Lazonick, como o artigo publicado com Mariana
			Mazzucato (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Lazonick; Mazzucato, 2013</xref>).</p>
		<p>A análise da empresa inovadora também desempenha um papel importante no posicionamento de
			Lazonick em debates que ultrapassam a microeconomia e o desenvolvimento da firma. Em
			trabalhos anteriores (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Lazonick, 2010</xref>; <xref
				ref-type="bibr" rid="B8">Lazonick, 2015</xref>), a empresa inovadora é apresentada
			como uma categoria analítica para entender as variedades de capitalismo, destacando a
			importância dos arranjos institucionais virtuosos entre Estado e empresa na promoção da
			inovação e do desenvolvimento, mesmo em economias consideradas “liberais de mercado”,
			como a dos Estados Unidos. Assim, o capítulo dois estabelece as bases conceituais para
			associar o avanço da MVA com o que ele entende por corrosão das condições de
			prosperidade sustentável.</p>
		<p>A literatura tradicional sobre finanças postula que a função primária do mercado
			acionário é ofertar recursos para o financiamento da capacidade produtiva das
			corporações. No capítulo três, Lazonick e Shin, ao avançarem em uma terceira frente de
			oposição às implicações da Teoria da Agência, problematizam esse princípio, afirmando
			que, na verdade, são as corporações que financiam o mercado acionário. Para fundamentar
			essa hipótese, os autores descrevem, historicamente, a separação entre propriedade e
			controle. A questão principal nesse sentido foi demostrar como essa separação permitiu
			que o capital das grandes corporações fluísse para os mercados financeiros, pavimentando
			a liquidez e o crescimento do mercado de ações nos Estados Unidos.</p>
		<p>Este capítulo é importante para entender como os autores caracterizam a influência
			contemporânea do mercado financeiro sobre governança corporativa das empresas
			norte-americanas. Os autores constroem uma leitura sobre o papel do mercado financeiro
			através de cinco funções básicas: i) controle: como o mercado acionário afeta a alocação
			de recursos da empresa; ii) caixa e iii) criação: estão ligadas ao financiamento através
			de IPO e <italic>follow-ons</italic> que podem originar capacidades produtivas; iv)
			combinação, e v) compensação: funções ligadas à liquidez oferecida pelo mercado de
			ações, que pode, por um lado, viabilizar fusões e aquisições e, por outro, remunerar os
			agentes e empregados da empresa. Através destas funções é elucidada a capacidade de
			criação ou extração de valor do mercado acionário quanto instituição.</p>
		<p>A conclusão básica sobre a influência do mercado financeiro é de que as suas funções
			quanto instituição que preza pelo valor ao acionista são responsáveis pela extração de
			valor das corporações. Essa constatação surge do fato de que os recursos que fluem do
			mercado acionário são inferiores ao pagamento de dividendos e à recompra de ações, ambos
			sustentados pelas corporações. No caso dos dividendos, pagamentos excessivos restringem
			o investimento em capacidades produtivas. Entretanto, a ênfase dos autores está na
			recompra de ações, que compromete parte do fluxo de caixa com o intuito exclusivo de
			impulsionar o valor acionário. Sendo assim, dividendos e recompra de ações são, segundo
			os autores, formas de extrair valor das corporações, instrumentalizadas pela pressão
			exercida pelo mercado financeiro no sentido de maximizar o valor ao acionista. Ainda em
			relação ao capítulo 3, os autores qualificam um elemento importante da contribuição dos
			estudos de Lazonick: mais do que uma técnica, a MVA é caracterizada como uma ideologia.
			Conforme mencionado, o pressuposto da Teoria da Agência de que o mercado acionário,
			através do valor de mercado das corporações, é capaz de avaliar a qualidade da gestão
			corporativa e sua alocação de recursos torna-se uma das referências importantes para
			pensar o neoliberalismo. Como fragilidade, pouco ou nada se discute sobre as
			transformações contemporâneas no sistema monetário internacional e suas implicações para
			a lógica financeira. A ausência de uma análise capaz de integrar essas estruturas e as
			condições políticas em que se efetuam as mudanças de poder e interesses dos agentes
			ligados à finança dificulta a compreensão de suas particularidades históricas e
			tendências futuras.</p>
		<p>Construídos os nexos teóricos que articulam a MVA como fonte de desequilíbrio no processo
			de criação e extração de valor, as distorções no relacionamento entre finança e gestão,
			bem como o papel desestabilizador sobre o arranjo institucional da empresa inovadora,
			Lazonick e Shin partem para uma caracterização dos agentes que estariam promovendo a
			extração de valor sob uma perspectiva histórica: os <italic>insiders,</italic> os
				<italic>enablers</italic> e os <italic>outsiders.</italic></p>
		<p>No capítulo quatro, o foco é a extração de valor pelos <italic>insiders</italic> e a
			reorientação dos executivos corporativos. Para os autores, esses agentes perderam o
			ímpeto industrial atrelado à criação de valor e passaram a direcionar esforços para
			resultados estritamente financeiros que levam à extração de valor. Como um processo de
			alinhamento dos interesses entre agente (gestores) e principal (acionistas), sob a
			tutela da Teoria da Agência, o fortalecimento da remuneração dos executivos a partir de
				<italic>stock options</italic> e <italic>stock awards</italic> ampliaria a
			eficiência na alocação de recursos. Entretanto, como resultado, ao priorizar a
			valorização acionária da empresa sob um horizonte curto prazista, a remuneração dos
			executivos fica atrelada a fatores conjunturais.</p>
		<p>Essa dinâmica, em conjunto com flexibilizações regulatórias, como U.S. Securities and
			Exchange Commission (SEC) Rule 10b-18, ajuda a explicar o aumento significativo das
			recompras de ações, pois, enquanto as <italic>stock options</italic> remuneram
			executivos, a recompra potencializa essa remuneração. Portanto, no capítulo, os autores
			enfatizam a mudança no escopo de atuação dos executivos, que passaram a ser direcionados
			pelo preço das ações, o que tende a incentivar movimentos especulativos, viabilizando a
			extração de valor para ganhos do corpo diretivo.</p>
		<p>Após descrever o papel dos <italic>insiders</italic> na extração de valor das corporações
			norte-americanas, os autores avaliam a conduta dos <italic>enablers</italic> no capítulo
			cinco, agentes que empoderam os investidores institucionais para influenciar a gestão
			das corporações. Destaca-se que, em vez de auxiliar na criação de valor, os investidores
			institucionais, como fundos de pensão e fundos mútuos, orientados pela MVA e motivados
			principalmente pela valorização do portfólio, estão exercendo poder de voto em
			assembleias sem um entendimento adequado das atividades da empresa. Assim, a força de
			investidores institucionais, ao conduzirem mudanças no poder de influência (regras de
			voto em conselhos, permissões para cartelização de interesses e abertura de espaço para
			fundos <italic>hedge</italic>), ampliam o peso do curto prazismo nas decisões, na
			distribuição de dividendos e na recompra de ações. Nesse sentido, a ideologia da MVA, ou
			do controle externo proposto pela Teoria da Agência, fragiliza as estruturas da empresa
			inovadora e amplia o desequilíbrio nas condições de geração e extração de valor.</p>
		<p>O capítulo faz uma recuperação histórica da mudança regulatória que incidia sobre os
			investidores institucionais. De início, esses agentes eram desencorajados a participar
			ativamente da gestão das empresas. Essa tendência se fortaleceu com a <italic>Employee
				Retirement Income Security Act</italic> (ERISA). Introduzida em 1974, esta regulação
			impedia o comportamento de autonegociação, desencorajava fundos de pensão a assumir
			riscos elevados e incentivava à diversificação de portfólios. Dessa forma, os fundos de
			pensão eram pressionados a se afastar das decisões operacionais das empresas que
			compunham o portfólio.</p>
		<p>No entanto, grupos organizados, representando interesses econômicos e políticos de
			investidores institucionais, passaram a pressionar pela mudança das regras e recomendar
			um ativismo dos acionistas durante a década de 1980. Os principais proponentes do
			ativismo dos investidores institucionais eram: fundos de pensão, como o
				<italic>California Public Employees’ Retirement System (CalPERS)</italic> e
				<italic>Council of Institutional Investors (CII</italic>), uma voz dos acionistas na
			governança corporativa, <italic>United Shareholders Association (USA)</italic>, que
			representava o interesse de pequenos acionistas, e o <italic>Institutional Shareholder
				Services</italic> (ISS).</p>
		<p>Segundo os autores, a pressão teria surtido efeitos sobre a regulamentação imposta pela
			SEC. O primeiro passo foi viabilizar a votação por procuração dos acionistas.
			Posteriormente, estabeleceram-se canais de comunicação entre acionistas e a empresa.
			Dessa forma, investidores poderiam se comunicar se tivessem pelo menos 5% das ações, o
			que facilitava a atuação em cartéis dos investidores e permitia o envolvimento dos
			acionistas na gestão das empresas.Em 2003, o voto passou a ser compulsório, o que
			pressionou para que os investidores tomassem posições sobre a gestão das empresas, mesmo
			com um entendimento limitado sobre a natureza e evolução da corporação.</p>
		<p>No capítulo seis, os autores discutem como o ativismo dos fundos de
				<italic>hedge</italic> impactou o processo de criação e extração de valor. Além
			disso, procuram investigar como um de seus próceres, Carl Icahn, torna-se um proeminente
			ativista de fundos <italic>hedge</italic> e como suas práticas “ativistas” ajudam a
			compreender mais a fundo as características e evolução dos métodos desta classe de
			“extratores de valor”.</p>
		<p>Lazonick e Shin apontam que a <italic>National Securities Markets Improvement
				Act</italic> (NSMIA) de 1996 foi a mola propulsora do crescimento dos fundos
				<italic>hedge</italic>. A nova lei isentou os fundos de restrições ligadas ao número
			de cotistas e aporte mínimo. Na prática, levou a uma nova caracterização de
			“investidores qualificados”, viabilizando a entrada de inúmeros investidores
			individuais. Após o novo quadro regulatório houve um crescimento expressivo da
			“indústria de fundos de hedge”. Além desses aspectos institucionais, os autores destacam
			a introdução do “voto obrigatório” por investidores institucionais; e a introdução da
			“1992 <italic>proxy-rule</italic>” que propiciou a formação do cartel de investidores,
			alterando as condições de poder nos <italic>boards</italic> em favor deste grupo de
			investidores minoritários. Por fim, destacam os efeitos negativos desta nova
			regulamentação, tendo em vista as inúmeras “ofensivas” à gestão corporativa empreendida
			por estes ativistas.</p>
		<p>Segundo os autores, o crescimento da extensão e do poder do ativismo dos fundos
				<italic>hedge</italic> chegou a tal ponto que nenhuma empresa nos Estados Unidos
			estaria imune aos ataques empreendidos por esses agentes. Os autores defendem a ideia de
			que o profundo conhecimento dos métodos de “extração de valor” e sua prática agressiva
			impactam no desequilíbrio entre criação e extração de valor em todos os segmentos
			corporativos da economia norte-americana. Assim, os ativistas dos fundos
				<italic>hedge</italic> agem para influenciar a política de distribuição da empresa
			em favor dos acionistas, estando totalmente alheios às estratégias corporativas de longo
			prazo que viabilizem a criação de valor no futuro.</p>
		<p>O foco do capítulo sete é uma crítica à Teoria da Agência focada no ativismo de
				<italic>hedge-funds</italic> ao mesmo tempo em que propõe uma teoria da inovação
			como égide da gestão corporativa. A tônica do capítulo reside no questionamento
			sucessivo de trabalhos ligados à Teoria da Agência, especialmente do campo empírico da
			relação agente-principal, seja refutando metodologicamente seus trabalhos, seja
			apresentando elementos não considerados em suas análises. No início do capítulo os
			autores fazem uma crítica direta à Bebchuk e Fried (2004), principalmente em relação à
			remuneração baseada em ações como forma de gerar valor. Em seguida avaliam <xref
				ref-type="bibr" rid="B1">Bebchuk; Brav e Jiang (2015)</xref>. Ambos os trabalhos se
			posicionam em favor de um maior poder dos acionistas, em um debate que também se
			desdobra nas avaliações de “entrincheiramento” de gestores, empoderados, mas não como
			gestores inovadores. Lazonick e Shin questionam os resultados da pesquisa ao avaliarem a
			amostra de empresas utilizada. Os autores advogam que a melhora observada na performance
			de algumas corporações pode estar relacionada a outros fatores, como o custo de produção
			e o estágio em que a empresa se encontra. Ademais, os autores citam evidências
			contrárias à afirmação de que <italic>hedge-funds</italic> intervêm em empresas para
			promover investimentos em produtos inovadores.</p>
		<p>Em seguida, conduzem uma revisão de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Fried e Wang
				(2017)</xref>. Esse artigo apresenta contrafactuais para a hipótese de que a
			distribuição de dividendos e a recompra de ações têm afetado a capacidade de
			investimento em inovação das empresas e a provisão de salários competitivos. Essa
			posição se fundamenta na possibilidade de que as empresas podem financiar essa alocação
			de recursos através de dívida e emissão de ações. A hipótese de que a distribuição de
			recursos aos acionistas leva à restrição de caixa e a menos investimentos inovativos foi
			discutida em diversos trabalhos de <xref ref-type="bibr" rid="B9">Lazonick (2008</xref>,
				<xref ref-type="bibr" rid="B10">2014</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B11"
				>2017</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B15">Tulum e Lazonick (2018)</xref> e
				<xref ref-type="bibr" rid="B12">Lazonick e Mazzucato (2013)</xref>. No livro, o
			argumento é de que não é possível inferir diretamente que as novas formas de
			financiamento tendem a ser canalizadas para os vetores que levam à criação de valor. Por
			fim, os autores retomam a tônica principal do livro, que baseia a gestão corporativa na
			criação de valor, e para isso, seria preciso substituir a Teoria da Agência e a
			maximização do valor para o acionista por uma teoria da inovação que impulsione as
			capacidades produtivas das empresas. Como a tônica do capítulo está centrada na
			desconstrução de argumentos de outros autores, em muitos casos não se articula para
			formação de uma defesa empírica coesa de um ponto de vista. Contudo, apresenta elementos
			cruciais, em diversos pontos, para pensar a criação e extração de valor para além da
			estrutura de propriedade, quando indica, em diversas situações, a importância do Estado,
			seja como indutor e financiador da geração de valor, apropriada por <italic>insiders,
				enablers</italic> e <italic>outsiders</italic>, seja como fonte de resgate em
			períodos de crise. Apesar desta riqueza analítica, as proposições de substituição da
			Teoria da Agência por uma teoria da inovação, que considere
				<italic>stakeholders</italic> e algo como uma função social da empresa, parece
			desconsiderar os movimentos econômicos subjacentes às forças políticas cujo
			comportamento analisa com precisão.</p>
		<p>No capítulo final, os autores procuram elencar uma agenda que combata o modelo de
			extração de valor predatório e que restabeleça a prosperidade econômica sustentável.
			Sendo assim, elencam algumas medidas básicas, tais como: i) mudança regulatória para
			inibir a recompra de ações; ii) mudanças na remuneração dos executivos para incentivar e
			recompensar a criação de valor; iii) reconstituição dos conselhos de administração
			corporativos, de modo a incluir representantes das famílias como contribuintes; iv)
			instituição de uma reforma do sistema tributário corporativo para melhorar a
			distribuição dos lucros àqueles que contribuem com impostos e, por fim, v) retenção e
			redistribuição dos lucros para apoiar as carreiras dos colaboradores que geram valor,
			possibilitando a mobilidade e ascensão das camadas profissionais menos prestigiadas
			neste segmento.</p>
		<p>A combinação dos capítulos permite um entendimento imersivo sobre as transformações que
			incidiram sobre a gestão das empresas norte-americanas. Os autores articulam tais
			transformações com as mudanças no poder da lógica financeira, estabelecendo nexos com o
			debate sobre neoliberalismo e seus aspectos filosóficos, mas também com a degradação das
			condições de desenvolvimento e irradiação das condições de prosperidade sustentável
			vigentes no século XX com a empresa inovadora. Apesar de muito rica em sua
			caracterização e potência na crítica à Teoria da Agência, a obra carece de uma
			articulação mais robusta com as transformações na dinâmica estrutural da
			financeirização. Assim, a principal crítica que pode ser direcionada ao livro é que a
			combinação das medidas propostas para combater a extração de valor e a concepção de
			empresa vogam por um padrão corporativo em franco declínio e uma estrutura do mercado
			financeiro que não existe mais nas economias ocidentais. Nesse sentido, a compreensão
			sobre dividendos não leva em consideração as condições em que se avaliam, em termos
			concretos, os custos de oportunidade e a responsabilidade de remunerar o capital dos
			investidores. Independentemente das possibilidades concretas de reversão das tendências
			históricas descritas pelos autores a partir de suas propostas de ação, o livro apresenta
			uma caracterização única das transformações institucionais recentes, especialmente nos
			EUA, bem como uma síntese das principais contribuições da obra de Lazonick ao longo das
			últimas décadas.</p>
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