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                <journal-title>Economia e Sociedade</journal-title>
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                    Sociedade</abbrev-journal-title>
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					<subject>Artigo original</subject>
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				<article-title>Globalização financeira e integração periférica: um reexame<sup><xref
							ref-type="fn" rid="fn1">*</xref></sup></article-title>
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					<trans-title>Financial globalization and peripheral integration: a
						reassessment</trans-title>
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				<label>**</label>
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				<email>carneiro@unicamp.br</email>
				<institution content-type="original">Professor Titular do Instituto de Economia da
					Universidade Estadual de Campinas (IE/Unicamp), Campinas, SP,
					Brasil</institution>
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				<label>***</label>
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				<email>deconti@unicamp.br</email>
				<institution content-type="original">Professor Livre-Docente do Instituto de
					Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/Unicamp), Campinas, SP,
					Brasil</institution>
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			<author-notes>
				<fn fn-type="edited-by">
					<label>EDITOR RESPONSÁVEL PELA AVALIAÇÃO</label>
					<p><italic>Carolina Troncoso Baltar</italic></p>
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			</author-notes>
			<!--<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
                <day>31</day>
                <month>07</month>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este texto procura contribuir com a literatura que estuda a financeirização, com
					foco sobre dois importantes aspectos: a globalização financeira (como fenômeno
					geral) e a integração da periferia. O objetivo é analisar a constituição da
					globalização financeira e suas principais características, enfatizando a
					integração periférica e seus impactos diferenciados. As hipóteses centrais do
					texto são as de que países centrais e periféricos integram-se à globalização
					financeira de forma assimétrica; e de que a Crise Financeira Global (CFG)
					ensejou mudanças importantes na globalização financeira, que acentuaram essas
					assimetrias com destaque para os efeitos diferenciados dos ciclos internacionais
					de liquidez e para o papel ampliado das variáveis macroeconômicas nesses ciclos.
					À luz dessa transformação discute-se como a composição dos fluxos, a presença de
					novos agentes e os mercados locais condicionam a inserção da periferia.</p>
				<p><bold>JEL</bold>: F36, F60.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This text seeks to contribute to the literature that studies financialization,
					with a focus on two important aspects: financial globalization (as a general
					phenomenon) and the integration of the periphery. To this end, the objective of
					the article is to carry out an analysis of the process of constitution of
					financial globalization and its main characteristics, with emphasis on
					peripheral integration and the differentiated impacts on this periphery. The
					text’s central hypotheses are that central and peripheral countries integrate
					into financial globalization in an asymmetric way; and that the Global Financial
					Crisis (GFC) led to important changes in financial globalization, which
					accentuated these asymmetries, with emphasis on the differentiated effects of
					international liquidity cycles and the expanded role of macroeconomic variables
					in these cycles. In the light of this transformation, we discuss how the
					composition of flows, the presence of new agents and local markets condition the
					insertion of the periphery.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Globalização financeira</kwd>
				<kwd>Países periféricos</kwd>
				<kwd>Hierarquia monetária</kwd>
				<kwd>Fluxos de capitais</kwd>
				<kwd>Ciclos internacionais de liquidez</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Financial globalization</kwd>
				<kwd>Peripheral countries</kwd>
				<kwd>Currency hierarchy</kwd>
				<kwd>Capital flows</kwd>
				<kwd>International liquidity cycles</kwd>
			</kwd-group>
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				<equation-count count="0"/>
				<ref-count count="42"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>1 Introdução</title>
			<p>Este texto procura contribuir com a literatura que estuda a financeirização, com foco
				sobre dois importantes aspectos: a globalização financeira (como fenômeno geral) e a
				integração da periferia capitalista. Para tanto, o objetivo é realizar uma análise
				sobre o processo de constituição da globalização financeira e suas principais
				características, com ênfase na integração periférica e nos impactos diferenciados
				sobre essa periferia. As hipóteses centrais do texto são as de que países centrais e
				periféricos integram-se à globalização financeira de forma assimétrica; e de que a
				Crise Financeira Global (CFG) ensejou mudanças importantes na globalização
				financeira e nos fluxos de capitais, com destaque para o papel magnificado dos
				ciclos internacionais de liquidez e das variáveis macroeconômicas <italic>vis-à-vis
					os fatores</italic> estruturais, nas decisões de alocação de portfólio dos
				detentores de riqueza em âmbito global.</p>
			<p>Para examinar o tema, é necessário partir da distinção entre o Sistema Monetário
				Internacional (SMI) e o Sistema Monetário Financeiro Internacional (SMFI). De fato,
				o SMFI constitui um todo articulado, mas é possível, para fins analíticos,
				distinguir entre seu núcleo, formado pela moeda de reserva, as moedas centrais e as
				periféricas, que compõem o SMI - sendo crucial, para caracterizar esse sistema,
				considerar o regime cambial dominante. Já o SMFI agrega ao SMI a circulação de
				capitais entre países, com suas características, determinadas pelo seu grau de
				mobilidade, pela sua intensidade e, sobretudo, pela sua composição. Em ensaio
				anterior, <xref ref-type="bibr" rid="B14">Carneiro e De Conti (2022)</xref> trataram
				do primeiro grupo de questões e dos condicionantes impostos à periferia. Neste texto
				aborda-se em detalhe a questão da integração, em particular dos periféricos, e suas
				assimetrias nos planos monetário e financeiro.</p>
			<p>Para tanto, o texto é estruturado em seis seções. Depois desta Introdução, são
				analisados os determinantes econômicos e geopolíticos da globalização financeira
				(Seção 2). Na sequência, discute-se a natureza dos fluxos de capitais nesse contexto
				de globalização financeira (Seção 3). Segue-se uma periodização do processo de
				integração, com ênfase nas especificidades históricas do momento atual (Seção 4). Em
				seguida, trata-se da questão da assimetria ou das diferenças da integração entre
				países centrais e periféricos, com vistas a examinar a evolução e o impacto desta
				integração sobre os últimos (Seção 5). Por último, é abordada a mudança na inserção
				periférica denominada de <italic>original sin redux</italic> (Seção 6). Concluindo o
				texto, são apresentadas algumas considerações finais.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2 Determinantes gerais da globalização financeira</title>
			<p>A primeira questão relevante para a análise da globalização financeira refere-se a
				seus determinantes. Cabe desde logo ressaltar que esse processo só pode ser
				entendido à luz da financeirização das economias centrais, em particular a dos EUA,
				em simultâneo com derrocada do regime de Bretton Woods. Como alertado por <xref
					ref-type="bibr" rid="B24">Helleiner (1996)</xref>, Tavares e Belluzzo (<xref
					ref-type="bibr" rid="B6">2004</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B18"
					>Eichengreen (2008)</xref>, dentre outros, há uma combinação de fatores
				geopolíticos e econômicos - que se retroalimentam - como determinantes da
				globalização financeira.</p>
			<p>A redefinição do papel dos Estados na ordem internacional é essencial para
				compreender a globalização financeira. Como destacado por <xref ref-type="bibr"
					rid="B24">Helleiner (1996)</xref> e outros autores da Economia Política
				Internacional, esse processo representa uma reversão do acordo de Bretton Woods. Por
				ter sido marcado por uma ordem regulada, e no plano internacional centrada no
				controle estrito dos fluxos de capitais entre os países, este regime exigia uma
				participação decisiva do Estado. Assim, a trajetória da globalização financeira é,
				sobretudo, o afrouxamento progressivo dos controles instituídos no acordo de Bretton
				Woods, até o seu coroamento com o amplo e disseminado processo de liberalização a
				partir dos anos 1980. Ou seja, a globalização financeira não nasce de uma submissão
				dos Estados nacionais ante os mercados, mas de uma construção que contou com
				participação ativa dos Estados - sobretudo dos Estados Unidos, do Reino Unido e do
				Japão (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Helleiner, 1996</xref>), como será abordado a
				seguir.</p>
			<p>Assim, é crucial compreender a globalização financeira como um processo de reversão
				de uma etapa específica de uma maior regulação do capitalismo, desencadeado por uma
				particular correlação de forças e interesses nos planos doméstico (dos países
				centrais) e internacional. No plano internacional, a rivalidade Estados Unidos e
				União Soviética durante a guerra fria e seus sistemas polares e concorrentes criou
				prioridades e interesses para os EUA, o único grande país capitalista que não havia
				sido fortemente danificado pela Segunda Guerra. No pós-guerra, esse país adotou uma
				atitude benevolente com os controles econômicos e sobretudo financeiros adotados
				pelo Japão e países da Europa Ocidental, que visavam acelerar o crescimento e
				constituir o <italic>welfare state</italic>.</p>
			<p>De acordo com a visão então prevalecente, o keynesianismo, o comércio internacional
				era percebido como uma alavanca do crescimento - com interesse particular para os
				EUA e suas empresas - e incompatível com fluxos de capitais livres e taxas de câmbio
				flutuantes. No plano doméstico dos EUA, a regulação era amplamente apoiada pela
				coalização de forças advindas da era Roosevelt composta por industrialistas e
				sindicalistas apoiados numa burocracia keynesiana (Mazzucchelli, 2009). Seu
				principal objetivo era assegurar a autonomia da política econômica, incompatível com
				uma ordem econômica internacional espontânea ou sem regulação.</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B9">Bordo e Eichengreen (1993)</xref>, o principal
				sucesso do sistema de Bretton Woods foi o regime de taxas de câmbio fixas, mas
				ajustáveis, que promoveu estabilidade macroeconômica, expansão do comércio e
				crescimento nas economias ocidentais - resultados sem precedentes em comparação a
				outros períodos do capitalismo. As regras e a institucionalidade do acordo
				pretendiam evitar as falhas dos regimes anteriores, sobretudo o do Entreguerras,
				fundado em taxas de câmbio flutuantes, na especulação desestabilizadora, nas
				desvalorizações competitivas e na ruptura do sistema multilateral de comércio.</p>
			<p>A especulação desestabilizadora, conforme descrita por <xref ref-type="bibr"
					rid="B32">Nurkse (1944)</xref>, baseava-se na combinação de taxas de câmbio
				flutuantes com a livre mobilidade de capitais. Estes últimos tinham um papel
				disruptivo ao realizarem movimentos antecipatórios da provável trajetória da taxa de
				câmbio. Ou seja, expectativas de desvalorização cambiais num determinado país
				levavam a saída de capitais, exacerbando-as, e originando um ciclo especulativo.
				Atividades especulativas também ocorriam no comércio, uma vez que as expectativas de
				desvalorização estimulavam a antecipação de importações e o adiamento de
				exportações; e expectativas de valorização desencadeavam movimentos simétricos.</p>
			<p>O diagnóstico da especulação desestabilizadora foi contestado por <xref
					ref-type="bibr" rid="B22">Friedman (1953)</xref> e, parcialmente, por <xref
					ref-type="bibr" rid="B21">Eichengreen e Sachs (1985)</xref>, para os quais não
				havia falhas inerentes ao sistema de taxas de câmbio flexíveis combinados com livre
				mobilidade de capitais. Segundo esses últimos, os problemas do Entreguerras teriam
				decorrido da postura e das respostas de política econômica dos vários países. Para
				além do caráter discutível desse diagnóstico, o fato histórico decisivo é que a
				visão de <xref ref-type="bibr" rid="B32">Nurkse (1944)</xref>, subscrita pelos
				participantes das negociações de Bretton Woods, ensejou os termos do acordo e os
				seus logros como ordem internacional.</p>
			<p>Nos primórdios da globalização financeira, de uma perspectiva econômica, deve-se
				considerar a perda da incontestável supremacia produtivo-tecnológica dos Estados
				Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial - patente nos crescentes déficits comerciais e
				de transações correntes - e, portanto, a necessidade de fundar essa supremacia em
				outras bases, em especial a monetário-financeira. Em simultâneo, se consolida a
				financeirização das economias dominantes no plano doméstico, associada a um
				crescente impulso a um regime de acumulação fundado em grande medida na valorização
				fictícia ou patrimonial.</p>
			<p>De modo concomitante, há de se destacar o processo de desregulação pós 1980 a partir
				dos interesses econômicos subjacentes aos países centrais. <xref ref-type="bibr"
					rid="B24">Helleiner (1996)</xref> define como crucial o papel dos EUA - na
				condição de principal economia capitalista -, mas destaca também o peso da
				Inglaterra (potência decadente) e do Japão (potência ascendente). Como assinalado, a
				razão para os EUA favorecerem a livre mobilidade de capitais esteve relacionada à
				perda de preeminência produtivo-tecnológica e ao surgimento dos déficits recorrentes
				em transações correntes. A livre mobilidade de capitais possibilitaria o
				financiamento desses déficits sem comprometer a autonomia da política econômica
				doméstica. A hegemonia americana prévia e o papel de sua moeda na denominação das
				transações econômicas mundiais, dominadas pelo comércio e pelo Investimento Direto
				Estrangeiro (IDE), bem como a importância de seus mercados e suas instituições
				financeiras foram ingredientes relevantes desse processo.</p>
			<p>Autores como <xref ref-type="bibr" rid="B26">Hudson (2003)</xref> mostram como nos
				anos 1970, a substituição do dinheiro conversível pelo fiduciário e as flutuações
				das taxas de câmbio constituíram o primeiro momento do processo de globalização
				financeira. Afinal, depois de alguns anos de incerteza, os parceiros americanos
				passaram a aceitar a conversão em títulos públicos americanos dos seus superávits
				com os EUA, dissipando a ameaça de demanda por ouro. O fato de o dólar já ser a
				moeda reserva e denominar tanto os fluxos comerciais quanto bancários foi um
				requisito importante da mudança. O financiamento das transações era realizado por
				crédito bancário e, como os Estados Unidos eram deficitários o resultado era o
				acúmulo de haveres de curto prazo de não residentes, em dólares. Quando existia a
				conversibilidade, isto gerava uma demanda potencial para sua conversão em ouro. Sem
				conversibilidade, o saldo passou a ser convertido em títulos financeiros - em
				particular, títulos públicos. A rigor, como assinalado em <xref ref-type="bibr"
					rid="B14">Carneiro e De Conti (2022)</xref>, o dólar enquanto moeda reserva
				abandona a conversibilidade (o lastro do ouro), mas a substitui pelos títulos
				públicos.</p>
			<p>Na passagem da ordem regulada de Bretton Woods para essa fase de globalização
				financeira, <xref ref-type="bibr" rid="B24">Helleiner (1996)</xref> destaca também o
				papel relevante dos interesses da Inglaterra e do Japão. Os interesses ingleses
				refletiam a postura de uma potência hegemônica em declínio e buscavam preservar e
				expandir o papel de Londres como centro financeiro global, aproveitando a relevância
				da atividade bancária no Euromercado e estendendo-a ao mercado de capitais. No caso
				do Japão, mesclavam-se interesses locais, como o crescimento das firmas financeiras,
				a partir da liberalização dos mercados, associada a uma posição crescente do
				superávit em transações correntes e das reservas. A pressão exercida pelos EUA foi,
				nesse contexto, um fator adicional relevante. A partir desses três casos seminais,
				estabelece-se o que <xref ref-type="bibr" rid="B24">Helleiner (1996)</xref> denomina
				de <italic>desregulação competitiva</italic>, processo que ao longo dos anos 1980
				abarca, rapidamente, o conjunto dos países capitalistas centrais.</p>
			<p>Como fator econômico, a financeirização das economias centrais desempenha um papel
				crucial na globalização financeira e na redefinição do Sistema Monetário e
				Financeiro Internacional (SMFI). Afinal, como assinalado por <xref ref-type="bibr"
					rid="B12">Carneiro (2020)</xref>, o regime de valorização fictícia ou
				patrimonial funda-se na busca permanente por novos ativos, ou seja, num processo de
				diversificação de portfólios que promove o movimento dos capitais para além das
				fronteiras domésticas. Esse ponto é importante, pois põe em relevo um determinante
				geral que condiciona os fluxos de capitais de várias naturezas.</p>
			<p>Desse ponto de vista, a globalização financeira se distingue de outros momentos nos
				quais a integração financeira internacional também avançou de maneira significativa,
				como por exemplo durante o padrão-ouro - durante o qual, de acordo com <xref
					ref-type="bibr" rid="B41">Turner (1991)</xref>, Obtsfeld e Taylor (<xref
					ref-type="bibr" rid="B33">1997</xref>), dentre outros, o IDE e os empréstimos
				bancários, sobretudo entre os países mais desenvolvidos e secundariamente, destes
				para os menos desenvolvidos, comandava o processo.</p>
			<p>A liberalização dos fluxos de capitais no âmbito internacional alcança seu auge com o
				crescimento dos paraísos fiscais - ou, como são eufemisticamente denominados, dos
				“centros financeiros”. No trabalho seminal de Zucmann (<xref ref-type="bibr"
					rid="B42">2015</xref>), a motivação central para a ampliação desses centros é a
				evasão fiscal, mas de fato pode-se compreendê-la também como parte de uma evasão
				mais ampla, a regulatória. De acordo com Lane e Milesi-Ferreti (<xref
					ref-type="bibr" rid="B30">2018</xref>), após a eclosão da GFC, em 2008, o papel
				desses centros financeiros na intermediação dos fluxos de capitais globais
				ampliou-se significativamente.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3 A natureza dos fluxos de capitais na globalização</title>
			<p>Antes de analisar os movimentos de capitais em detalhe, é necessário explicitar a
				natureza dos diferentes tipos de fluxos no contexto da financeirização. Um aspecto
				conceitual muito relevante se refere ao tipo de fluxos de capitais que caracteriza a
				globalização financeira. Como destacado por Borio e Disyatat (2015), os fluxos
				brutos são muito mais relevantes do que os líquidos: Os fluxos líquidos referem-se
				ao financiamento tradicional (<italic>savings</italic>), ou seja, à transferência de
				recursos reais com base nas contas de transações correntes, enquanto os fluxos
				brutos estão associados ao investimento (<italic>financing</italic>) originando a
				diversificação de portfólios e registrado na conta financeira. Em outros termos, os
				fluxos líquidos estão na sua origem imediata, associados a transações mercantis e ao
				seu financiamento. Os fluxos brutos, por sua vez, correspondem às transações
				financeiras, sem associação direta com transações mercantis.</p>
			<p>Conceitualmente:</p>
			<list list-type="bullet">
				<list-item>
					<p>Fluxos Líquidos =</p>
					<list list-type="bullet">
						<list-item>
							<p>(+ -) Renda de capitais</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>(+ -) Saldo de bens e serviços</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>= (+ -) saldo de transações correntes<sup><xref ref-type="fn"
										rid="fn2">1</xref></sup></p>
						</list-item>
					</list>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Fluxos Brutos = conjunto de transações entre não residentes e residentes</p>
				</list-item>
			</list>
			<p>O conceito relativo à entrada e saída de fluxos de capitais brutos, destaca a
				constituição de posições tanto de residentes quanto de não residentes, sob a ótica
				de um país qualquer. Ademais, a sua contabilização associa-se a um importante
				indicador da integração dos países à globalização financeira, denominado Posição
				Internacional de Investimento (PII). A entrada de capitais de não residentes
				constitui, do ponto de vista de um país de destino, a formação de um passivo externo
				e, como contrapartida, a formação de um ativo externo do país de origem. Já a saída
				de capitais de residentes constitui um ativo externo do país de origem e um passivo
				do país de destino. Essas operações podem ser parciais ou totalmente canceladas e os
				resultados são as posições líquidas.</p>
			<p>Outra característica muito importante dos fluxos de capitais na globalização
				financeira se refere ao que <xref ref-type="bibr" rid="B4">Avdjiev et al.
					(2016)</xref> denominam superação da tripla coincidência. Esta implicava
				considerar os fluxos de capitais - na sua origem/destino - a partir da coincidência
				de uma área econômica definida pela fronteira do PIB, que também define a moeda, e
				de uma agente referencial único, o país. Na verdade, esse modelo seria apropriado
				para analisar e contabilizar os fluxos de capitais que espelham as transações
				correntes ou os fluxos líquidos (<italic>savings</italic>).</p>
			<p>Segundo esses autores, essa análise dos fluxos de capitais ignora uma característica
				essencial da globalização financeira: as transações brutas originadas em mercados
					<italic>offshore</italic>. Ou seja, a originação de empréstimos bancários e
				emissão de <italic>securities</italic> numa moeda internacional, com destaque para o
				dólar, não se adequam ao princípio da tripla coincidência. A despeito de serem
				denominadas em dólar, elas podem constituir fluxos de capitais - de investimento ou
				especulativos - de e para terceiros países, sem nenhuma relação com os EUA. Essas
				transações podem envolver apenas agentes privados no exterior, sem impacto nos
				países de residência dos envolvidos.</p>
			<p>O gigantesco crescimento dos fluxos de portfólio, que constitui a marca definidora da
				globalização financeira contemporânea, resulta do intenso desenvolvimento dos
				mercados de títulos (<italic>debt e equity</italic>), e expressa de maneira decisiva
				o supramencionado processo de diversificação de portfólios e busca de ganhos
				patrimoniais - que ocorre sobretudo entre países centrais, onde o mercado de
				capitais é mais amplo e profundo. Assim, à luz da financeirização dessas economias,
				a globalização financeira, expressão da ampla mobilidade de capitais, como alertado
				por <xref ref-type="bibr" rid="B28">Koepke (2019)</xref>, tem seu movimento
				principal explicado pela diversificação da riqueza ou dos portfólios. Mais
				especificamente, trata-se sobretudo de diversificar os riscos e ampliar a
				rentabilidade dos ativos financeiros de carteira. Ou seja, a diversificação de
				riscos define o impulso principal do movimento de globalização via ampliação dos
				volumes dos fluxos internacionais de capitais. Já a rentabilidade - ou o seu
				diferencial - tem implicações sobre a direção e volatilidade dos movimentos.</p>
			<p>Conforme discutido em <xref ref-type="bibr" rid="B14">Carneiro e De Conti
					(2022)</xref>, a globalização entendida como movimento de diversificação de
				portfólios, possui uma dimensão assimétrica que modifica a sua intensidade e que diz
				respeito à existência de uma hierarquia monetária, ou seja, uma divisão entre moedas
				centrais e periféricas. Nesse segundo grupo, os riscos representados pelas moedas
				são significativamente maiores, o que confere maior peso ao diferencial de
				retorno.</p>
			<p>De uma forma mais concreta as proposições de <xref ref-type="bibr" rid="B28">Koepke
					(2019)</xref>, deduzindo a globalização a partir da financeirização e da
				crescente abertura das contas financeiras devem ser mediadas pela hierarquia
				monetária. Assim, o movimento da globalização seria comandado pela flutuação da
				aversão ao risco nos países centrais - medida, por exemplo, pelo VIX - e pela
				política monetária desses países (<italic>push factors</italic>), expressa nas taxas
				de juros. Secundariamente, as classificações de riscos dos países periféricos e sua
				política macroeconômica definiriam a forma e intensidade de sua incorporação ao
				movimento de absorção desses fluxos de capitais (<italic>pull factors</italic>).</p>
			<p>O texto de <xref ref-type="bibr" rid="B10">Brennan, Kobor e Rustaman (2011)</xref>
				discute de maneira ainda mais específica os fatores que determinam a diversificação
				de portfólios na linha do risco e retorno, tomando como referência os países
				centrais. Os autores entendem que a redução dos riscos tem como pressuposto a
				diversificação, ao buscar a redução da volatilidade dos retornos - ou, mais
				precisamente, a busca de sua não correlação -, ao mesmo tempo em que apontam a busca
				de rendimentos mais elevados como a outra face do processo.</p>
			<p>No início da globalização financeira, a assincronia dos ciclos econômicos entre
				países centrais e o relativo fechamento das contas financeiras contribuíram para a
				dissociação dos riscos e para a ampliação dos retornos. O processo de integração e
				eliminação da segmentação dos mercados financeiros ampliou a correlação e reduziu o
				diferencial de retorno, mas não ao ponto de eliminar as vantagens da diversificação.
				Há na colocação dos autores um elemento importante para pensar a incorporação da
				periferia na globalização financeira: à medida em que avança o grau de integração
				entre os países centrais, os ganhos com a diversificação a eles restrita também
				diminuem. Assim, incorporar novos ativos, com riscos menos correlacionados e maiores
				retornos esperados, passa a fazer parte da dinâmica da diversificação.</p>
			<p>É importante enfatizar que as razões apontadas até aqui para os fluxos de capitais se
				referem sobretudo aos fluxos de portfólio (<italic>debt e equity</italic>), mas há
				que se distinguir com mais detalhe os fluxos bancários e o IDE, ambos com
				determinantes distintos - ao menos na fase pré-CFG da globalização.</p>
			<p>Os fluxos de capitais têm nos financiamentos bancários um dos componentes essenciais
				para explicar as flutuações cíclicas ao longo do tempo e base para a construção de
				importantes fragilidades financeiras. Além do comércio exterior e do financiamento
				de instituições não bancárias, a demanda por crédito externo pelos bancos locais
				desempenhava papel crucial na trajetória desses fluxos. No entanto, é importante
				notar que os bancos financiam crescentemente fluxos especulativos. Assim, para além
				de seu papel tradicional de financiamento do comércio ou dos financiamentos
					<italic>crossborder</italic> diretos (a instituições não financeiras) ou
				indiretos (a instituições financeiras), os bancos ampliam uma modalidade de
				importância crucial: o <italic>carry trade</italic>.</p>
			<p>De fato, todas essas formas de financiamento bancário <italic>crossborder</italic>
				intensificam-se na globalização devido às atividades propriamente internacionais dos
				bancos. Ou seja, são crescentes as operações com a moeda reserva internacional - o
				dólar - em países ou jurisdições fora dos EUA. Desse ponto de vista, os bancos
				internacionais constituem uma importante alavanca da globalização financeira e de
				apoio à constituição de posições por parte de agentes econômicos operando em países
				de moeda central ou conversível, para os quais o descasamento de moedas e de prazos
				não representa maior risco.</p>
			<p>Os bancos são peças essenciais na globalização financeira pelo seu papel na
				propagação do ciclo de liquidez a partir das economias centrais, em particular a dos
				EUA (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Bruno; Shin, 2015</xref>). A política monetária
				do país emissor da moeda reserva do SMI é crucial no <italic>spillover</italic> do
				ciclo global de liquidez. Também é crucial a resultante trajetória da taxa de câmbio
				do dólar em relação às demais moedas, centrais e periféricas. A apreciação do dólar
				decorrente do aumento dos juros nos EUA é fator de contração do ciclo bancário
				global, ao reduzir a alavancagem do sistema. Afinal, a valorização do dólar - e sua
				contraparte, a desvalorização das demais moedas -, amplia os riscos
					(<italic>currency mismatch</italic>) e desvaloriza os colaterais denominados nas
				moedas locais. O movimento oposto, de desvalorização do dólar e apreciação das
				demais moedas, configura o movimento contrário, de redução do risco e ampliação da
				alavancagem.</p>
			<p>Nessa fase histórica do capitalismo, o IDE passa a ser largamente determinado pelo
				novo padrão de concorrência e governança das empresas, pautado pela maximização do
				valor acionário. Embora as formas tradicionais persistam, ganham preeminência
				aquelas ligadas à formação das Cadeias Globais de Valor (CGVs) e a uma gestão
				financeirizada das empresas (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Plihon, 2005</xref>) -
				voltada a ganhos patrimoniais e concentração de mercados. A tradicional estratégia
				competitiva das grandes empresas, incluindo o controle de mercados via F&amp;As, e o
				diferencial de crescimento entre economias desempenharam um papel importante como
				seus determinantes, mas foram eclipsadas pela dinâmica dada pelas CGVs. Ademais,
				como será discutido a seguir, a distinção entre fatores “reais” e “financeiros” na
				determinação dos fluxos de IDE perde em parte o seu significado ao longo da
				globalização financeira</p>
			<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B31">Milberg (2008)</xref>, o IDE na
				globalização financeira deve ser discutido à luz da financeirização das economias
				centrais e da formação dessas CGVs. Isto, porque a formação das cadeias define uma
				modalidade de IDE que corresponde à principal forma de investimento direto na
				globalização financeira, sendo funcional à financeirização - já que permite a
				manutenção dos <italic>mark-ups</italic> num contexto de crescimento econômico
				menor, comparativamente àquele do regime de Bretton Woods. Além de reduzir os custos
				primários e manter as margens de lucro, a formação das cadeias reduz o investimento
				fixo nos países centrais, permitindo usos alternativos dos lucros - sendo, portanto,
				funcional às estratégias de valorização patrimonial, ampliação dos dividendos e dos
					<italic>buybacks</italic> de ações.</p>
			<p>Com estas determinações, o <italic>offshoring</italic> das empresas assenta-se,
				sobretudo, na busca por baixos custos salariais, secundados por benefícios
				tributários e disponibilidade de infraestrutura para a exportação. Ou seja, a
				conexão é sobretudo com a dinâmica das economias centrais e não com o crescimento
				dos mercados da periferia. Desta forma, contribui para o aumento do lucro
				operacional das empresas num contexto de crescente concorrência em preços, o que só
				é possível pela redução dos custos primários.</p>
			<p>A ligação estrita do IDE com as empresas e as economias centrais se dá por meio do
				controle das cadeias de produção, seja o tecnológico, seja dos canais de
				comercialização sintetizados na chamada ‘curva do sorriso’ (<italic>smile
					curve</italic>). Um aspecto desse novo perfil de articulação do investimento na
				periferia via CGVs é a desejabilidade de relativa estabilidade da taxa de câmbio,
				para evitar flutuações significativas de preços de fornecimento de partes e
				componentes, sobretudo se o valor agregado domesticamente é relevante.</p>
			<p>Ao discutir a integração financeira dos periféricos, Hoggart et al. (<xref
					ref-type="bibr" rid="B25">2016</xref>) alertam, para além dos eventuais efeitos
				benéficos - tais como volume e diversidade de financiamento -, para as flutuações
				ou, mais particularmente, para a volatilidade dos fluxos de capitais e seu efeito
				exacerbado nos países periféricos por conta do tipo de fluxos de capitais que
				recebem e de seus mercados mais estreitos. Ao analisar a volatilidade dos fluxos de
				capitais, os autores constatam que para o agregado desses fluxos, a volatilidade
				para os países centrais e periféricos é semelhante. No entanto, isto se deve
				exclusivamente ao peso do IDE nesses últimos. Nos demais fluxos de capitais -
				portfólio e bancário -, a volatilidade é bem maior nos periféricos.</p>
			<p>Em relação a esse último aspecto, o texto destaca o aumento do peso e da volatilidade
				dos fluxos de portfólio baseados em dívida, decorrente da crescente participação na
				administração desses recursos originários dos Investidores Institucionais -
				sobretudo os gestores de ativos (<italic>asset-managers)</italic> - sob a forma de
				fundos mútuos <italic>open-ended</italic>, ou seja, sem destinação específica e
				prazo de aplicação. O caráter disseminado desses fundos em distintos países/moedas e
				a postura curto-prazista dos investidores lhes atribui uma elevada propensão para
				comportamento de manada e efeito-contágio. Como em vários outros mercados - e.g. de
				ações e <italic>commodities</italic> -, desenvolve-se para os investimentos nos
				mercados periféricos os fundos de índices, ou seja, fundos cujas carteiras
				representam uma determinada composição de títulos de diversos países ditos
				emergentes. Isso amplia a arbitragem direta com as taxas de juros, reduzindo o peso
				das considerações de risco na decisão de investimento.</p>
			<p>Há outras assimetrias da integração dos países periféricos à globalização financeira,
				além da maior volatilidade dos fluxos de capitais associada à sua composição. Como
				veremos na seção 5, elas se referem tanto a uma rentabilidade e a custos
				diferenciados dos ativos e passivos, quanto a um efeito riqueza mais pronunciado nas
				distintas etapas dos ciclos de liquidez.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>4 A periodização da globalização financeira</title>
			<p>É possível distinguir alguns períodos na globalização financeira, tanto pela
				intensidade dos fluxos de capitais, quanto pela sua composição. Grosso modo, pode-se
				destacar uma primeira etapa nos anos 1980, em seguida o período que vai desde os
				anos 1990 até a Crise Financeira Global CFG e a fase pós-CFG<sup><xref ref-type="fn"
						rid="fn3">2</xref></sup>. Na primeira fase, que engloba os anos 1980,
				sobretudo na sua primeira metade, dominam os fluxos que têm como destino a compra de
				dívida pública nos EUA - momento importante pois é exatamente nesta década que este
				país consolida sua posição como emissor da moeda reserva fiduciária e âncora da
				riqueza financeira global, após as incertezas geradas pelo fim da conversibilidade
				do dólar em ouro, ocorrido em 1971.</p>
			<p>Portanto, ressalta-se o papel da dívida pública americana como âncora da fase inicial
				da globalização financeira. No contexto da era Reagan, a combinação de taxas de
				juros elevadas e aumento dos déficits públicos - como resultado do aumento dos
				gastos militares e redução de impostos -, a dívida pública americana ampliada
				tornou-se o abrigo dos fluxos de capitais oriundos dos demais países centrais.</p>
			<p>Dados compilados por <xref ref-type="bibr" rid="B41">Turner (1991)</xref> mostram que
				os EUA tinham uma participação no destino dos fluxos de portfólio de 7% no período
				1975-79 e passam a 24% nos anos 1980-84. Este crescimento atinge o pico nos anos
				1985-86, quando alcançam o patamar de cerca de 50% do total, declinando
				moderadamente a partir de então. Os números mostram como foi importante o mercado de
				capitais americano para consolidar a passagem da moeda reserva conversível para a
				fiduciária, e para ancorar esta passagem nos títulos públicos. O autor também
				salienta como os fluxos brutos, crescentes, vão perdendo a conexão com os fluxos
				líquidos, ou seja, com o financiamento das transações correntes.</p>
			<p>Nesse contexto, como alerta o autor, o aumento da volatilidade dos fluxos de capitais
				comparativamente aos anos 1970 é notável, e ocorre tanto no agregado, considerando a
				origem-destino de países, quanto nos fluxos individualizados - ou seja, além do
				aumento médio, cai o diferencial de volatilidade entre os fluxos de portfólio,
				bancário e IDE, a despeito de esse último ainda se manter na posição inferior do
					<italic>ranking</italic>. Nesta década, a periferia capitalista, vivenciando a
				crise da dívida externa, é praticamente excluída do processo - à exceção de alguns
				países asiáticos</p>
			<p>O segundo período relevante abarca os anos 1990, chegando até a eclosão da CFG. Além
				da maior intensidade dos fluxos, assiste-se a uma diversificação na origem e no
				destino, reincorporando inclusive, a periferia do sistema, que havia sido excluída
				na década anterior, por conta da crise da dívida. De acordo com <xref
					ref-type="bibr" rid="B29">Lane e Milesi-Ferretti (2007)</xref>, durante esse
				período a integração dos países centrais distingue-se daquela dos periféricos por
				sua maior intensidade. A explicação residiria em dois aspectos: na maior amplitude e
				profundidade dos mercados financeiros dos países centrais, como substrato da
				integração, e nos elevados riscos cambiais previamente mencionados, resultantes da
				formação de ativos na periferia.</p>
			<p>O terceiro período relevante da globalização financeira é o do pós-CFG, no qual
				verifica-se uma desaceleração dos fluxos globais e uma mudança nos seus
				determinantes, com um maior peso das variáveis macroeconômicas de curto prazo -
				taxas de câmbio e de juros -, que definem o retorno dos ativos,
					<italic>vis-à-vis</italic> os fatores de risco associados à diversificação dos
				portfólios. A despeito da participação ainda inferior quando medida pela relação
				PII/PIB, os periféricos, durante esse período, ampliam a sua participação nos fluxos
				globais de capitais. Essa fase é também caracterizada por quatro mudanças salientes
				nesses movimentos: a perda de relevância dos fluxos bancários, no contexto de uma
				expressiva desalavancagem dessas instituições; o crescimento do mercado de portfólio
					<italic>debt</italic>, em parte como substituição dos fluxos bancários; um
				crescimento expressivo dos mercados locais em países periféricos; a ampliação do
				peso do IDE, embora crescentemente originado nos centros financeiros ou paraísos
				fiscais.</p>
			<p>No que tange às mudanças no IDE, o texto de <xref ref-type="bibr" rid="B8">Blanchard
					e Julien (2016)</xref> é muito esclarecedor. Sua tese central é a de que o IDE
				tornou-se progressivamente, uma modalidade de fluxo de capital muito distinta do seu
				padrão histórico. Os seus determinantes descolaram-se das razões produtivas e
				tecnológicas e passaram a ser condicionados pela arbitragem fiscal e de variáveis
				macroeconômicas, em particular as taxas de juros, tornando-se um fluxo eminentemente
				financeiro. Mais precisamente, a alta correlação entre <italic>inflows</italic> e
					<italic>outflows</italic> caracterizaria a relevância da arbitragem fiscal - e,
				em menor escala, da evasão aos controles de capital -, enquanto a sensibilidade às
				variações da taxa de juros americana evidencia seu caráter financeiro.</p>
			<p>A correlação negativa entre as variações nos juros e os fluxos do IDE são de tal
				magnitude que superam inclusive aquelas observadas para os investimentos de
				portfólio, indicando que as empresas constituem <italic>loci</italic> relevantes de
				arbitragem com variáveis macroeconômicas, em particular, as taxas de juros. De fato,
				constituem um canal importante de canalização de fluxos financeiros de curto prazo.
				Some-se a isto a arbitragem tributária e a evasão dos controles de capitais
				conduzidas por <italic>Special Purposes Vehicles</italic> em paraísos fiscais e se
				chega à constatação de que boa parte do que é considerado como IDE é, na verdade,
				outro tipo de fluxo, especulativo, disfarçado.</p>
			<p>No IDE, ademais, além do crescente papel dos centros financeiros, devido a razões
				tributárias, financeiras e regulatórias, cresce o papel das F&amp;As, dos
				empréstimos intercompanhias e da gestão financeira de curto prazo em detrimento do
				investimento <italic>greenfield</italic>. Nas operações de portfólio, a grande
				novidade é o crescimento expressivo das operações em moeda local em países tidos
				como “emergentes” e, nos créditos bancários, o ampliado papel do dólar e do iene
				como <italic>funding</italic> em operações especulativas de <italic>carry
					trade</italic>.</p>
			<p>O texto de Avdejiev et al. (2016) também constata uma importante modificação nos
				fluxos de capitais após a CFG, no contexto do aumento da relevância dos
				determinantes de curto prazo, apontados acima. Sua análise vai na direção de
				demonstrar que a mudança na composição dos fluxos, com perda de relevância dos
				créditos bancários e ampliação dos bônus (<italic>portfolio debt</italic>), implica
				a maior importância da política monetária dos países centrais, em particular dos
				EUA. A proposição acima destaca a maior sensibilidade dos fluxos às condições de
				liquidez em relação às de risco. Na verdade, isso sugere que dos dois fatores
				econômicos determinantes da globalização financeira, aqueles associados à
				diversificação de portfólios perdem relevância ante aqueles associados ao retorno de
				curto prazo dos ativos. As mudanças apontadas acima impactaram os países
				periféricos, cuja participação nos fluxos de capitais se ampliou, mas, num contexto
				de aumento no peso de variáveis de curto prazo, conforme documentado por <xref
					ref-type="bibr" rid="B1">Ahmed e Zlate, (2014)</xref>. Isso indica que os fluxos
				para a periferia, embora ampliados, tornaram-se mais voláteis.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>5 Efeitos da globalização financeira: países centrais vs. periféricos</title>
			<p>Uma das discussões centrais no que tange aos fluxos de capitais para os países
				periféricos se refere às assimetrias nos planos monetário, macroeconômico e
				financeiro (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Prates, 2005</xref>). No que tange a
				este último aspecto, os países periféricos têm uma participação secundária - embora
				crescente - nos fluxos de capitais globais, e ainda com uma composição distinta. As
				características dos fluxos de capitais refletem-se naturalmente em diferenças
				importantes na composição dos estoques de ativos e passivos formados ao longo do
				tempo - a Posição Internacional de Investimento -, que têm também implicações
				relevantes para as economias periféricas.</p>
			<p>O trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B2">Akyüz (2021)</xref> analisa o conjunto
				de transformações na inserção dos países periféricos após a CFG adverte que o
				aumento da integração financeira desses países produziu um aumento da dependência
				dos ciclos de liquidez global. Essa transmissão aumentada decorreu não só da própria
				volatilidade dos fluxos, mas do efeito riqueza ampliado, relativo aos estoques. Ao
				mesmo tempo, criou outros custos para essas economias, como um aumento da
				transferência líquida de recursos financeiros ao exterior, relacionada à composição
				de ativos e passivos externos.</p>
			<p>Do ponto de vista dos estoques, é crucial examinar a Posição Internacional de
				Investimentos que resulta de três processos distintos. O primeiro é o saldo de
				transações correntes, ou seja, o financiamento da conta corrente do balanço de
				pagamentos, que corresponde à transferência de recursos reais ou poupança
					(<italic>savings</italic>) de países superavitários para deficitários. Como
				visto na seção 3, essas transações correspondem aos fluxos de capitais líquidos.</p>
			<p>A outra dimensão é a dos fluxos de capitais brutos, que estão desvinculados do saldo
				de transações correntes e do seu financiamento. Como visto, essa dimensão reflete
				com mais precisão a dinâmica que se estabelece na globalização financeira e os
				determinantes dos fluxos de capitais, oriundos da busca por diversificação da
				riqueza em termos de moedas e ativos. Esses fluxos brutos abrangem tanto a compra de
				ativos domésticos por parte de não-residentes, quanto a compra de ativos no exterior
				por parte de residentes. Os primeiros têm como contrapartida a emissão de passivos
				externos por residentes e os segundos a emissão de passivos externos por não
				residentes. A soma de cada grupo de transações, i.e. de residentes e não residentes
				constitui a posição líquida internacional de cada país. Por fim, as PIIs também são
				determinadas por variações patrimoniais, ou seja, aquelas que expressam a variação
				autônoma de valor dos estoques de ativos e passivos e que refletem as flutuações de
				preços macroeconômicos como taxa de câmbio e de juros.</p>
			<p>O <xref ref-type="table" rid="t1">Quadro 1</xref> representa a composição
				predominante do balanço de países centrais e periféricos, sob a ótica das suas
				maturidades, como assinalado por <xref ref-type="bibr" rid="B2">Akyüz (2021)</xref>
				e Lane e Milesi-Ferreti (<xref ref-type="bibr" rid="B30">2018</xref>), apresentando
				algumas alterações secundárias na última década. Assim, os países centrais mantêm
				predominantemente ativos de longo prazo e passivos de curto prazo. Isso se deve à
				sua posição na hierarquia monetária e ao desenvolvimento financeiro, que lhes
				permite descasar prazos e moedas sem riscos excessivos, pois emitem passivos
				majoritariamente nas suas moedas e conseguem facilmente refinanciá-los. Os países
				periféricos, ao contrário, possuem predominantemente ativos curtos e passivos
				longos, também como reflexo de sua posição na hierarquia e ao menor desenvolvimento
				financeiro, que elevam substancialmente o risco de descasamento de prazos e moedas,
				sobretudo pelo fato de emitirem a maior parcela de seus passivos em moedas
				centrais.</p>
			<p><table-wrap id="t1">
				<label>Quadro 1</label>
				<caption>
					<title>Composição esquematizada da PII de países centrais e periféricos, segundo
						prazos</title>
				</caption>
				<table frame="hsides" rules="groups">
					<thead>
						<tr>
							<th align="left" style="background-color:black;;" valign="top"
								>Países/discriminação</th>
							<th align="center" style="background-color:black;" valign="top"
								>Ativos</th>
							<th align="center" style="background-color:black;" valign="top"
								>Passivos</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#e7e7e7;" valign="top"
								>Centrais</td>
							<td align="center" style="background-color:#e7e7e7;" valign="top"
								>Longos</td>
							<td align="center" style="background-color:#e7e7e7;" valign="top"
								>Curtos</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left" style="background-color:#cbcbcb;" valign="top"
								>Periféricos</td>
							<td align="center" style="background-color:#cbcbcb;" valign="top"
								>Curtos</td>
							<td align="center" style="background-color:#cbcbcb;" valign="top"
								>Longos</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: Elaboração dos autores, baseada em <xref ref-type="bibr" rid="B2"
							>Akyüz (2021)</xref> e Lane e Milesi-Ferreti (<xref ref-type="bibr"
							rid="B30">2018</xref>).</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap></p>
			<p>Os ativos longos dos países centrais compõem-se principalmente de
					<italic>equities</italic> (IDE + Ações) e, secundariamente, de títulos da
				dívida, concentrados nos próprios países centrais. Os seus passivos curtos são
				constituídos de títulos e créditos bancários de curto prazo. Como sugerido por <xref
					ref-type="bibr" rid="B23">Gourinchas, Rey e Sauzet (2019)</xref>, o
				funcionamento do SMFI, da perspectiva dos países centrais, é similar ao de um banco,
				vale dizer, emitem passivos curtos, adquiridos por eles próprios ou por periféricos,
				e adquirem ativos mais longos, entre eles ou na periferia. Ademais, esse diferencial
				de prazos tem implícito um diferencial de rentabilidade em favor dos ativos,
				reforçando o diferencial de juros, uma característica intrínseca da hierarquia
				monetária e do privilégio exorbitante.</p>
			<p>Os países periféricos, por sua vez, possuem um descasamento de prazos reverso, ou
				seja, ativos curtos e passivos longos, também como reflexo de sua posição na
				hierarquia monetária e ao baixo desenvolvimento financeiro. Seus ativos compreendem,
				em grande medida, os ativos de reserva constituídos por títulos (bônus) de grande
				liquidez, em geral títulos públicos de baixa rentabilidade e risco dos países
				centrais, em particular dos EUA. No período mais recente, ampliou-se o peso de
				títulos privados e, para alguns poucos, o IDE transfronteiriço. Os passivos desses
				países costumavam ser IDE e títulos de dívida longos, emitidos pelo setor público e
				grandes empresas, nos mercados dos países centrais. Após a CFG, a despeito do peso
				menor, o desenvolvimento dos mercados locais ampliou, para alguns países, a
				relevância dos passivos em moeda local.</p>
			<p>Como visto, a composição de ativos e passivos dos países periféricos e centrais é
				assimétrica, o que implica diferencial de rentabilidade. Para o período 2000/2016,
					<xref ref-type="bibr" rid="B2">Akyüz (2021)</xref> estima um diferencial de
				rentabilidade de 3.4 p.p. para os países centrais, resultante da rentabilidade
				líquida negativa de 2.6% dos periféricos, contra uma rentabilidade positiva de 0,8%
				para os países centrais. Esse diferencial não resulta de decisões de alocação de
				portfólios desses grupos de países, mas decorre da posição na hierarquia monetária e
				financeira que ocupam. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B14">Carneiro e De
					Conti (2022)</xref> - dentre outros -, ativos de países periféricos, mesmo os de
				mesma maturidade, dados os riscos envolvidos na sua aquisição - de moeda e de
				mercado -, têm, por definição, que pagar juros maiores do que aqueles dos países
				centrais. O descasamento de prazo apenas acentua essa determinação.</p>
			<p>Outro aspecto de grande importância no que tange à integração dos países periféricos
				à globalização financeira se refere aos efeitos dos ciclos de liquidez global nas
				suas economias. Isto obviamente depende da intensidade e composição desse ciclo de
				liquidez, e dos efeitos que a flutuação de variáveis-chave como juros e câmbio
				produzem sobre os estoques de ativos e passivos. A questão central nesse caso é a
				variação patrimonial - ou o efeito riqueza - decorrente do impacto da flutuação dos
				juros nos preços dos ativos nos mercados nos quais são emitidos; e da taxa de câmbio
				em relação à moeda reserva. Para os países periféricos, esses efeitos patrimoniais
				se transmitem imediatamente às economias domésticas, afetando fortemente o ciclo
				interno, como analisado por <xref ref-type="bibr" rid="B39">Rosa (2020)</xref>. Com
				as mudanças na composição de ativos e passivos externos e a criação de mercados
				locais em moedas periféricas, o efeito riqueza ganha relevância, como será
				analisado.</p>
			<p>A discussão do efeito riqueza - ou, mais propriamente, dos efeitos das flutuações dos
				preços macroeconômicos (taxas de juros e de câmbio) sobre o valor de ativos e
				passivos - tem várias dimensões a serem consideradas e, do ponto de vista prático,
				deve ser realizada à luz das fases do ciclo financeiro global. Uma primeira
				distinção relativa a países centrais e periféricos diz respeito ao comportamento de
				taxas e juros e câmbio. A suposição de um padrão similar de flutuação e interação
				dessas variáveis, tal qual definido na hipótese da trindade impossível, é amplamente
				contestada na literatura contemporânea, mesmo no <italic>mainstream,</italic> como
				por exemplo em <xref ref-type="bibr" rid="B38">Rey
				(2015</xref><italic>).</italic></p>
			<p>Assim, cabe observar que nos países de moeda central, variações de taxas de juros se
				acompanham de flutuações nas taxas de câmbio de intensidade moderada, enquanto nos
				periféricos é comum observar movimentos bem mais intensos de
					<italic>overshooting</italic> em ambas as taxas, como mostram <xref
					ref-type="bibr" rid="B16">De Conti (2011)</xref> e <xref ref-type="bibr"
					rid="B37">Ramos (2016)</xref>. Outro aspecto estrutural que convém considerar na
				avaliação do efeito riqueza diz respeito ao tamanho e à resiliência dos mercados
				financeiros nesses grupos de países, características que definem um padrão de
				variação de preços de ativos mais intenso nos periféricos do que nos centrais nas
				várias etapas dos ciclos de liquidez.</p>
			<p>Partindo da ideia anterior, pode-se postular que variações das taxas de juros
				provocam variações mais intensas nos preços de ativos nos países periféricos, pela
				combinação de fatores macroeconômicos e estruturais. Assim, como discutido em <xref
					ref-type="bibr" rid="B14">Carneiro e De Conti (2022)</xref>, nas moedas
				periféricas a variação dos juros é sempre um múltiplo daquela dos países centrais e,
				portanto, o efeito sobre os preços dos ativos é em geral mais pronunciado - fato
				exacerbado pela maior estreiteza dos seus mercados financeiros. Ademais, os prazos
				distintos de ativos e passivos também produzem um efeito riqueza diferenciado. O
				mesmo ocorre com a taxa de câmbio, cuja característica central é um padrão de
				extrema volatilidade e grande ocorrência de <italic>overshootings</italic> nos
				países periféricos<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4">3</xref></sup>.</p>
			<p>Para além dos efeitos cíclicos mais pronunciados de flutuações das taxas de juros e
				câmbio nos mercados financeiros dos países periféricos, cabe avaliar como estas
				impactam diretamente os ativos e passivos externos dos dois grupos de países. O
				critério usado pela metodologia concernente para contabilizá-los tem como fundamento
				a jurisdição de origem e destino dos fluxos de capitais distinguindo-se, portanto,
				entre residentes e não-residentes. A contabilização desses estoques nas estatísticas
				do FMI é realizada na moeda reserva, ou seja, o dólar. Ambos são convertidos para
				essa moeda, embora tanto os ativos quanto os passivos possam estar sendo
				transacionados em outros mercados e, portanto, em outras moedas. Isto implica que o
				registro já incorpora as variações de taxas de câmbio e as marcações a mercado. A
				despeito disso, é possível simular, em linhas gerais, os efeitos dessas flutuações
				sobre os estoques externos.</p>
			<p>Para examinar as implicações patrimoniais da flutuação de variáveis macroeconômicas
				nesses estoques, nos vários países, algumas simplificações serão adotadas. Em
				primeiro lugar, serão isoladas e tratadas separadamente as flutuações de juros e de
				câmbio. Ao mesmo tempo, serão consideradas apenas duas categorias de moeda: a moeda
				reserva (US$), representando as moedas centrais, e a moeda periférica ($). Por fim,
				nos ativos e passivos, serão destacados os títulos enquanto expressão de riqueza e
				dívidas, em razão da sua liquidez e marcação a mercado.</p>
			<p>O primeiro exercício diz respeito ao eventual impacto das flutuações das taxas de
				juros nas posições externas dos países. Para conjecturar sobre esses eventuais
				impactos, apresentados no <xref ref-type="table" rid="t2">quadro 2</xref>, algumas
				suposições são realizadas. Para além das maturidades distintas de ativos e passivos,
				supõe-se, num primeiro momento, que sua moeda de denominação seja o dólar, e que os
				títulos sejam exclusivamente negociados nos mercados internacionais, em particular o
				dos EUA. Isto permite destacar os efeitos das flutuações dos juros no valor dos
				títulos.</p>
			<p><table-wrap id="t2">
				<label>Quadro 2</label>
				<caption>
					<title>PII e alterações nas taxas de juros</title>
				</caption>
				<table frame="hsides" rules="groups">
					<thead>
						<tr>
							<th align="left">Características</th>
							<th align="center" colspan="2">País Central</th>
							<th align="center" colspan="2">País Periférico</th>
							<th align="center">Observação</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">Moeda de denominação (US$)</td>
							<td align="center">ATIVOS</td>
							<td align="center">PASSIVOS</td>
							<td align="center">ATIVOS</td>
							<td align="center">PASSIVOS</td>
							<td align="center">Mercados e denominações em moeda reserva</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Maturidade</td>
							<td align="center">Longos</td>
							<td align="center">Curtos</td>
							<td align="center">Curtos</td>
							<td align="center">Longos</td>
							<td align="center">Assimetria na composição faz com que o efeito riqueza
								seja também assimétrico</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left"><italic>Boom</italic> (queda dos juros)</td>
							<td align="center">+</td>
							<td align="center">+</td>
							<td align="center">+</td>
							<td align="center">&lt;+</td>
							<td align="center">Preços de títulos longos aumentam mais do que os
								curtos. Efeito riqueza positivo para central e negativo para
								periférico</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left"><italic>Burst</italic> (aumento dos juros)</td>
							<td align="center">-</td>
							<td align="center">&gt;-</td>
							<td align="center">-</td>
							<td align="center">&lt;-</td>
							<td align="center">Preços dos títulos longos caem mais do que os curtos.
								Efeito riqueza negativo para central e positivo para periférico.
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">PII</td>
							<td align="center" colspan="2">ATIVOS &gt; PASSIVOS</td>
							<td align="center" colspan="2">ATIVOS &lt; PASSIVOS</td>
							<td align="center"/>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left"/>
							<td align="center" colspan="2">No <italic>boom</italic>, o efeito
								riqueza positivo é acentuado para país central.<break/>No
									<italic>burst</italic>, o efeito riqueza negativo é
								atenuado.</td>
							<td align="center" colspan="2">No <italic>boom</italic>, efeito riqueza
								negativo é acentuado para periférico.<break/>No
									<italic>burst</italic>, o efeito riqueza positivo é
								atenuado.</td>
							<td align="center">Considerando a posição da PII o efeito riqueza é mais
								favorável ao central do que ao periférico</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: Elaboração dos autores.</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap></p>
			<p>Os ativos e passivos do país emissor da moeda reserva são quase integralmente
				denominados na própria moeda e negociados nos mercados centrais, com alguma
				diversificação para outras moedas conversíveis. Dados do Fundo Monetário
				Internacional FMI relativos à PII, para a média dos anos de 2020/2022, mostram que
				do total dos ativos externos dos EUA, 80,2% eram denominados em dólar. Do restante,
				8,2% em euro e 3% em iene, perfazendo 91% do total. No caso dos passivos, as
				percentagens eram ainda maiores: 93% em dólar e 5% em euro.</p>
			<p>No caso dos países periféricos, esses indicadores são menores, à exceção de um grupo
				de países nos quais os passivos em moeda local atingem uma média mais alta, mas
				ainda significativamente menos relevante do que os passivos denominados em moeda
				reserva, enquanto os ativos são quase exclusivamente denominados nessas moedas. O
				trabalho de Eichengreen, Gupta e Sharma (2023) ressalta que essa ampliação dos
				mercados em moedas locais foi relevante para um grupo de países emergentes com
				maiores economias, mas com duas exceções de peso: China e Índia. Nos primeiros, os
				autores indicam como ativo exclusivo, nos mercados locais, os títulos soberanos, com
				uma fase de maior busca pelos investidores internacionais no imediato pós CFG,
				período no qual as taxas de juros dos países centrais estavam muito baixas.</p>
			<p>Com esses dados, a suposição de ampla dominância da denominação monetária em moeda
				reserva, para ativos e passivos, para examinar os efeitos de variações nas taxas de
				juros e, em seguida, de câmbio, segue sendo, do ponto de vista macroeconômico, uma
				hipótese robusta, já que diz respeito aos componentes mais importantes dos estoques
				externos. Nessa mesma direção, a hipótese inicial de que ativos e passivos sejam
				transacionados nos mercados internacionais - e não locais - é consistente. Afinal,
				os mercados locais aparecem como relevantes apenas para um grupo de países
				periféricos. A diversificação de ativos do emissor da moeda central em moedas
				periféricas é fenômeno bem menos importante. Mas esse último caso será retomado
				adiante.</p>
			<p>A partir do <xref ref-type="table" rid="t2">Quadro 2</xref>, exploram-se as
				diferenças de maturidade entre ativos e passivos de países centrais e periféricos, e
				os impactos da variação das taxas de juros. O objetivo da análise é avaliar
				exclusivamente o efeito riqueza - ou seja, como essas variações afetam o valor de
				ativos e passivos e qual seu efeito líquido. Assim, no <italic>boom</italic>, com a
				queda das taxas de juros, os títulos longos se valorizam mais do que os curtos; logo
				o efeito riqueza no país central é positivo. Nos demais países centrais - exceção
				feita aos EUA -, esse impacto é acentuado em decorrência da PII positiva (ou seja,
				ativos externos maiores do que passivos externos). Na maioria dos periféricos, ante
				uma queda dos juros, os ativos curtos se valorizam menos do que os passivos,
				implicando um efeito riqueza negativo.</p>
			<p>Na fase do <italic>burst</italic>, quando aumentam os juros, os títulos longos perdem
				mais valor do que os curtos, o que torna o efeito riqueza negativo no país central.
				A situação é simétrica no periférico, com uma perda de valor menor dos ativos ante
				os passivos, efeito que é mitigado pela posição líquida da PII. Em síntese, ao se
				considerar a distinta maturidade de ativos e passivos, o país central mostra do
				ponto de vista patrimonial um efeito padrão nos seus balanços externos de ganho no
				boom e perda no burst, acentuados pela PII positiva. Já o país periférico demonstra
				uma evolução oposta: perda no boom e ganho no burst, mas a PII negativa acentua o
				efeito riqueza negativo no boom e atenua o efeito riqueza positivo no burst. Cabe
				notar, por fim, uma assimetria dos dois casos polares. No país central, no boom, o
				efeito riqueza positivo é acentuado e, no burst, o efeito negativo é atenuado. No
				periférico, quando ocorre o efeito riqueza positivo - no burst - ele é atenuado e,
				quando ocorre o efeito riqueza negativo, no boom, ele é acentuado.</p>
			<p>Um aspecto a ressaltar é o do efeito riqueza no país emissor da moeda reserva, os
				EUA, decorrente de a maturidade de ativos e passivos ser semelhante ao caso geral do
				país central, mas distinta dele em razão da PII negativa. Assim, no boom há um
				efeito riqueza positivo que é mitigado pela PII negativa. Por sua vez, no burst, o
				efeito riqueza negativo também é atenuado pela PII negativa. Ou seja, a combinação
				entre maturidade de país central e posição líquida de periférico confere ao país
				emissor da moeda reserva um efeito riqueza menos acentuado ao longo do ciclo.</p>
			<p>Feito o raciocínio com as taxas de juros, é necessário agora refletir sobre os
				efeitos das variações cambiais. O <xref ref-type="table" rid="t3">Quadro 3</xref>,
				abaixo, simula o efeito riqueza que decorrerá de uma variação da taxa de câmbio da
				moeda reserva com as moedas periféricas nas distintas fases do ciclo. O
					<italic>boom</italic>, além de caracterizado por uma queda generalizada das
				taxas de juros a partir de sua redução na moeda reserva, também resulta, em geral,
				em uma depreciação dessa moeda ante o conjunto das moedas periféricas do SMI.</p>
			<p><table-wrap id="t3">
				<label>Quadro 3.1</label>
				<caption>
					<title>Denominação monetária de ativos e passivos internacionais</title>
				</caption>
				<table frame="hsides" rules="groups">
					<thead>
						<tr>
							<th align="left">Discriminação</th>
							<th align="center" colspan="2">Países Centrais</th>
							<th align="center" colspan="2">Países periféricos</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">Moeda reserva (US$)</td>
							<td align="center">Ativos</td>
							<td align="center">Passivos</td>
							<td align="center">Ativos</td>
							<td align="center">Passivos</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Boom</td>
							<td align="center">n.r</td>
							<td align="center">n.r</td>
							<td align="center">+ </td>
							<td align="center">-</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Burst</td>
							<td align="center">n.r</td>
							<td align="center">n.r</td>
							<td align="center">-</td>
							<td align="center">+</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">PII</td>
							<td align="center" colspan="2">Positiva</td>
							<td align="center" colspan="2">Negativa</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Impacto</td>
							<td align="center" colspan="2">Negligível</td>
							<td align="center" colspan="2">Efeito riqueza positivo no boom e
								negativo no burst</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: Elaboração dos autores.</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap></p>
			<p>O primeiro <xref ref-type="table" rid="t3">quadro (3.1)</xref> pressupõe que ativos e
				passivos, tanto do país central quanto dos periféricos, sejam integralmente
				denominados na moeda reserva. Assim, tanto para o país central quanto para os
				periféricos, não há efeito riqueza decorrente da flutuação cambial nesta moeda ante
				as demais. Todavia, para os países periféricos, em decorrência do <italic>currency
					mismatch</italic>, mesmo que ativos e passivos sejam denominados na moeda
				reserva, há variações significativas no valor patrimonial dos mesmos, quando medidos
				em moeda doméstica.</p>
			<p>No boom, a desvalorização da moeda reserva produz um resultado assimétrico. Os ativos
				dos países periféricos que têm valor fixo em dólar reduzem o seu valor em moeda
				doméstica, o mesmo ocorrendo com os passivos denominados nessa moeda. Logo, no boom,
				o efeito da desvalorização da moeda reserva/valorização da moeda periférica implica
				que ativos e passivos reduzem seu valor nessa última. A PII negativa faz com que o
				efeito riqueza positivo seja ampliado. Por dedução, o efeito é simétrico na fase do
				burst e de valorização da moeda reserva/desvalorização da moeda periférica. Ou seja,
				ativos e passivos aumentam em moeda local e nesse caso a PII negativa amplia o
				efeito riqueza também negativo.</p>
			<p>Esse fenômeno expressa a posição das moedas na hierarquia monetária e,
				historicamente, reflete a incapacidade dos países periféricos de se endividarem em
				suas próprias moedas nos mercados internacionais. <xref ref-type="bibr" rid="B19"
					>Eichengreen et al. (2005)</xref> denominaram esse problema como
					<italic>original sin.</italic> De uma perspectiva mais recente e considerando os
				ativos, expressa, o movimento de acumulação de reservas em divisas pelos países
				periféricos. Como discutiremos a seguir, variados autores advogam a tese de que o
				desenvolvimento dos mercados em moedas locais resultou em uma eliminação ou
				mitigação significativa desse problema. Antes, porém, vejamos como a hipótese
				extrema da dominância dos mercados locais afeta a conclusão anterior.</p>
			<p>No <xref ref-type="table" rid="t4">quadro 3.2</xref>. abaixo simula-se o possível
				impacto das flutuações cambiais da moeda reserva ante as periféricas considerando a
				existência de mercados locais. Isto significa, por hipótese, que os ativos do país
				central são denominados em moeda local, o mesmo ocorrendo para os passivos dos
				países periféricos - embora, como já observado à luz dos dados da composição
				monetária das PIIs divulgados pelo FMI e os dados da bibliografia examinada, esta
				parcela seja minoritária. Por simplificação analítica, o efeito descrito no <xref
					ref-type="table" rid="t4">quadro 3.2</xref> refere-se a uma situação
				conjectural, considerada de forma isolada. Ou seja, procura-se responder qual o
				efeito das flutuações cambiais decorrentes dos ciclos, no valor dos passivos de
				países periféricos e ativos de países centrais, que são emitidos em moeda
				periférica, mas convertidos para a moeda reserva que é o critério de última
				instância para avaliar o efeito riqueza.</p>
			<p><table-wrap id="t4">
				<label>Quadro 3.2</label>
				<caption>
					<title>Denominação monetária de ativos e passivos internacionais</title>
				</caption>
				<table frame="hsides" rules="groups">
					<thead>
						<tr>
							<th align="left">Discriminação</th>
							<th align="center" colspan="2">Países Centrais</th>
							<th align="center" colspan="2">Países periféricos</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">Moeda</td>
							<td align="center">Ativos<break/>(US$)</td>
							<td align="center">Passivos<break/>($)</td>
							<td align="center">Ativos<break/>($)</td>
							<td align="center">Passivos<break/>(US$)</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Boom</td>
							<td align="center">+</td>
							<td align="center">n.r</td>
							<td align="center">n.r</td>
							<td align="center">+</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">Burst</td>
							<td align="center">-</td>
							<td align="center">n.r</td>
							<td align="center">n.r</td>
							<td align="center">-</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">PII</td>
							<td align="center" colspan="2">Positiva</td>
							<td align="center" colspan="2">Negativa</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
				<table-wrap-foot>
					<attrib>Fonte: Elaboração dos autores.</attrib>
					<attrib>Nota: Moeda reserva = US$; moeda periférica = $.</attrib>
				</table-wrap-foot>
			</table-wrap></p>
			<p>Na fase do <italic>boom</italic> e de desvalorização da moeda reserva, tanto os
				ativos e passivos que estão denominados em moeda periférica sofrem uma valorização
				(se medidos em moeda reserva). O efeito riqueza positivo é acentuado para os países
				centrais que possuem PII positiva e mitigado nos que a possuem negativa, como os
				EUA, e nos periféricos. No burst o efeito é simétrico, ou seja, tanto para os ativos
				dos centrais quanto para os passivos dos periféricos, que são emitidos em moeda
				periférica, ocorre uma desvalorização medida na moeda reserva. A PII positiva
				acentua o efeito riqueza e a negativa o mitiga. Por fim, cabe observar que no caso
				dos países periféricos um efeito relevante é aquele com os passivos quando expressos
				em moeda local: embora percam valor no boom quando expressos em moeda reserva, a
				valorização dessa última no burst aumenta seu contravalor em moeda local.</p>
			<p>Em conclusão, em situações extremas, a diversificação dos ativos do emissor da moeda
				reserva - que corresponde à ampliação de mercados em moedas locais na periferia do
				sistema -, impõe novos efeitos sobre sua situação patrimonial, introduzindo um bônus
				na fase do <italic>boom</italic> e um ônus na fase de <italic>burst</italic>.
				Todavia, na prática, esse novo efeito é necessariamente moderado, pois está
				circunscrito à parcela dos ativos denominados em terceiras moedas - pelos dados
				citados acima, aproximadamente 10% em outras moedas centrais e 10% em moedas
				periféricas. O efeito patrimonial para os países periféricos refere-se aos seus
				passivos e decorrem do <italic>original sin</italic>, tendo sido mitigado pelo
				aumento da parcela emitida em moeda local. Nesse caso, a magnitude do efeito depende
				do peso dos mercados locais em cada país.</p>
			<p>Por fim, cabe assinalar que a combinação das posições dos países periféricos no que
				tange à maturidade, resiliência dos mercados e moeda de denominação de ativos e
				passivos, combinado com PIIs negativas, implica efeitos riqueza mais acentuados vis
				a vis os países centrais nas fases do ciclo. Conforme documentado no trabalho de
				Akyuz (2021), a configuração das PIIs de países centrais e periféricos, tal qual
				explicitadas acima, implicam efeitos riqueza em geral positivos para os primeiros e
				negativos para os segundos. Entre 2000 e 2016, os países periféricos tiveram uma
				perda de capital de - 2,7% do valor das suas posições, enquanto os países centrais
				ganharam 0,8%.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>6 Exorbitant duty e original sin redux: uma avaliação</title>
			<p>As mudanças na globalização financeira olhadas pela ótica de um de seus indicadores
				mais importantes, as PIIs (e a sua composição), têm sido objeto de reflexão a partir
				de duas perspectivas distintas: a primeira privilegia os países centrais e,
				particularmente, o emissor da moeda reserva, sugerindo o chamado <italic>exorbitant
					duty</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Gourinchas et al., 2019</xref>).
				A segunda, focando nos países periféricos, discute - direta ou indiretamente - o
					<italic>original sin redux,</italic> como em <xref ref-type="bibr" rid="B34"
					>Onen, Shin e Von Peter (2023)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B20"
					>Eichengreen, Hausmann e Panizza (2023)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17"
					>De Paula, Fritz e Prates (2020)</xref>; Biancarelli (2018); <xref
					ref-type="bibr" rid="B27">Kaltenbrunner e Paiceira (2015)</xref>.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B14">Carneiro e De Conti (2022)</xref>, aborda a questão
				do <italic>exorbitant duty.</italic> Segundo os formuladores da expressão, <xref
					ref-type="bibr" rid="B23">Gourinchas et al. (2019)</xref>, a posição particular
				dos EUA no SMI faria com que desempenhasse o papel de banco global, não só emitindo
				passivos curtos - na sua moeda - para adquirir ativos longos, mas também incorrendo
				em um <italic>currency mismatch</italic>, ou seja, descasando a moeda de emissão de
				passivos, o dólar, das moedas variadas, em particular as periféricas, de denominação
				dos ativos.</p>
			<p>Assim, durante as fases de reversão do ciclo financeiro (<italic>burst</italic>), a
				subida da taxa de juros nos EUA e a valorização do dólar imporia uma perda
				patrimonial ao país, resultante da desvalorização - medida em dólar - dos ativos
				denominados em outras moedas. As objeções a esse raciocínio parcial e viesado são
				evidentes: primeiro, a não consideração das fases do ciclo, durante as quais, como
				visto na seção 5, há o ônus no <italic>burst</italic> e o bônus no
					<italic>boom</italic>, ou seja, os efeitos riqueza são simétricos nas duas
				fases. Além disso, há a desconsideração da pequena parcela dos ativos dos EUA
				denominados em outras moedas, conforme mostrado anteriormente. É possível que o
				fenômeno da <italic>exorbitant duty</italic> exista em alguma escala nas relações da
				moeda reserva com as demais moedas centrais, mas os dados supramencionados mostram
				que o montante de ativos dos EUA denominados nessas moedas gira em torno de 10% do
				total. Por fim, o fato de a PII dos EUA ser negativa torna o efeito riqueza eventual
				ainda mais reduzido na fase do burst.</p>
			<p>A questão do <italic>original sin redux,</italic> associada à emissão de passivos
				internacionais em moeda local, é mais complexa, pois envolve não só a escala na qual
				esta emissão ocorreu, como também as suas implicações. Embora a ampliação não possa
				ser tratada como uma tendência generalizada dentre os países periféricos, ela é
				relevante - mas não predominante - apenas para alguns deles. A baixa diversificação
				dos ativos externos americanos em terceiras moedas é também um fator global
				limitante da intensidade desse fenômeno, mas aqui cabe retomar as assimetrias do
				sistema internacional no que se refere ao tamanho dos mercados. Uma diversificação
				de 10% do estoque de ativos internacionais dos EUA pode representar uma parcela
				significativa dos passivos de países periféricos emitidos em moedas locais. Tendo em
				vista que o processo envolve também outras moedas centrais, torna-se relevante
				analisar melhor o seu significado e impacto, pois a própria denominação do fenômeno
				com o termo <italic>redux</italic> traz explícita a ideia de uma renovação do
					<italic>original sin</italic> em outras bases e não a sua mitigação.</p>
			<p>De início, algumas considerações mais gerais sobre o significado do <italic>original
					sin redux</italic>. <xref ref-type="bibr" rid="B19">Eichengreen et al.
					(2005)</xref> definiram o conceito de <italic>original sin</italic> como a
				incapacidade da maioria dos países de emitir dívidas em suas próprias moedas no
				âmbito internacional. Esses autores atribuíam essa incapacidade não às deficiências
				domésticas, como histórico de <italic>default</italic>, inconsistências na política
				econômica ou atraso institucional, mas a características como o tamanho das
				economias e, em menor escala, aos mercados financeiros denominados nas respectivas
				moedas. Especificamente, a partir de certo tamanho as economias de escala e de
				escopo privilegiariam o uso de certas moedas no âmbito internacional.</p>
			<p>Para avançar na discussão, cabe retomar aqui alguns trabalhos como por exemplo <xref
					ref-type="bibr" rid="B5">Belluzzo e Carneiro (2004)</xref>; Carneiro (2008);
					<xref ref-type="bibr" rid="B16">De Conti (2011)</xref> e <xref ref-type="bibr"
					rid="B14">Carneiro e De Conti (2022)</xref> e suas reflexões sobre a
				inconversibilidade monetária. Este conceito pode ser ilustrado por meio de três
				tipos de moeda e seus emissores, que participam do SMI. O país emissor da moeda
				reserva emite dívidas nos mercados internacionais em sua própria moeda. Uma
				característica particular é que a moeda reserva também denomina dívidas de terceiros
				países. Além disso, os mercados internacionais frequentemente se confundem com os
				mercados locais, onde há expressiva presença de não residentes. Há um conjunto de
				moedas, denominadas de conversíveis, com características similares à da moeda
				reserva, porém, menos intensas.</p>
			<p>O caso oposto ao da moeda reserva é o da moeda inconversível ou periférica. Seu país
				emissor não emite dívidas nela denominada nos mercados internacionais - apenas,
				quando é o caso, nos mercados locais - utilizando-se para suas emissões, no âmbito
				internacional, da moeda reserva ou em menor intensidade, das moedas conversíveis.
				Como consequência não são observados casos nos quais as moedas inconversíveis são
				utilizadas para denominar dívidas de terceiros países.</p>
			<p>As definições acima recolocam a discussão do <italic>original sin,</italic> da sua
				preservação <italic>(redux)</italic> ou mitigação. Vale dizer, no âmbito da
				discussão da hierarquia monetária, a questão central é se, no plano internacional,
				as moedas são de fato moedas ou ativos. Para se credenciar como moeda, teriam
				necessariamente que desempenhar nesse plano o papel de equivalente geral da riqueza.
				Mais que isso, <italic>et pour cause,</italic> ganhariam o <italic>status</italic>
				próprio de moedas internacionais ou seja, com o atributo de denominar a riqueza e as
				dívidas de terceiros países. Por essa razão, como indicado por <xref ref-type="bibr"
					rid="B16">De Conti (2011)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B14">Carneiro e De
					Conti (2022)</xref>, também adquiririam no plano internacional o atributo da
				liquidez própria das moedas. Isso as diferenciaria das moedas-ativos, uma distinção
				essencial para entender o impacto da ampliação das emissões em moeda local na
				disjuntiva entre a reiteração e a mitigação do <italic>original sin</italic>.</p>
			<p>A discussão acima reestabelece a diferença essencial entre a moeda central e a
				periférica. Ademais, põe em destaque também as questões dos mercados internacionais
				e domésticos. Numa moeda central e, em particular, na moeda reserva, a distinção
				entre essas jurisdições é praticamente irrelevante, vale dizer os seus mercados
				domésticos são ao mesmo tempo internacionais. O crescimento dos mercados locais pode
				ter significado alguma redução do <italic>currency mismatch</italic> para algumas
				moedas periféricas, mas passou longe de implicar a eliminação da inconversibilidade.
				No período pós-CFG, a diversificação de ativos dos países centrais para títulos em
				moedas periféricas negociados nessas jurisdições pode ter mitigado parcialmente o
					<italic>currency mismatch</italic> e o <italic>original sin</italic>. Mas, como
				se discutirá a seguir, esse movimento esteve restrito ao atributo dessas moedas como
				ativo e não como moeda - e a grande diferença é que a demanda por ativos financeiros
				tende a ser mais volátil do que aquela por moedas.</p>
			<p>A análise da mitigação do <italic>original sin</italic> ou da sua superação, como
				querem alguns (e.g. <xref ref-type="bibr" rid="B34">Onen; Shin; Von Peter,
					2023</xref>) deve partir, portanto, da distinção entre este conceito e o da
				inconversibilidade monetária, o qual diz respeito à posição de uma moeda qualquer no
				espectro inferior da hierarquia monetária internacional. Assim, a reiteração ou
				superação do <italic>original sin</italic> é uma discussão que diz respeito aos
				mercados sob a jurisdição doméstica e à denominação dos títulos nas respectivas
				moedas. Exclui, portanto, a emissão de dívidas denominadas numa moeda qualquer em
				terceiros mercados, como por exemplo a emissão de títulos em reais, pesos, rands,
				rublos, etc, no mercado americano, inglês ou japonês.</p>
			<p>Por sua vez, é relevante destacar que a presença de investidores não-residentes nos
				mercados locais supõe um certo grau de desenvolvimento desses últimos, sobretudo no
				que tange à importância dos títulos de dívida pública ou soberanos nele
				transacionados. Deve-se também ressaltar que a existência desses mercados não tem
				ligação direta com a presença de investidores externos nem com o <italic>original
					sin</italic>. A presença desses investidores supõe um grau de abertura
				financeira expressivo e um mercado de capitais minimamente desenvolvido, mas não há
				causalidade entre ambos. Os dois casos paradigmáticos desse ponto de vista são os
				dos dois mais importantes países emissores de moeda inconversível, a China e a
				Índia, com importantes mercados de capitais, mas acesso restrito a investidores
				estrangeiros.</p>
			<p>Postas as questões mais gerais, cabe caracterizar com mais detalhe a trajetória dos
				mercados locais e a presença dos investidores não-residentes e discutir o seu
				significado na redução do <italic>original sin</italic>. Os trabalhos do
					<italic>Bank of International Settlements</italic> (BIS), como o já citado <xref
					ref-type="bibr" rid="B34">Onen, Shin e Von Peter (2023)</xref>, são os mais
				vocais em propugnar pela superação do <italic>original sin</italic>, a despeito de
				aceitarem, em algum grau, a tese da sua reiteração (<italic>original sin
					redux</italic>). A conclusão desses trabalhos se refere a um ativo particular:
				os títulos soberanos, deixando de lado os títulos privados, as ações e os
				empréstimos bancários. Por sua vez, dizem respeito a um subconjunto dos países
				considerados como emergentes: aqueles maiores tanto em tamanho como nos seus
				mercados financeiros, exceto a China e a Índia. Feitas essas ressalvas, o trabalho
				mostra que após a CFG, para quinze dos vinte e três países emergentes houve um
				deslocamento do financiamento, via títulos soberanos, dos mercados internacionais
				para os locais. Para esse conjunto de emergentes, no qual esses mercados foram
				importantes, no pico, ao final dos anos 2010, não residentes detinham, em média, 25%
				da dívida soberana nos mercados locais, enquanto 75% permanecia nos mercados
				internacionais.</p>
			<p>A despeito da menor importância desses mercados locais vis a vis os internacionais,
				mesmo nos países emergentes maiores, usa-se como argumento para reforçar a tese da
				superação do <italic>original sin</italic> a constatação de que após a CFG, para
				esses países, o crescimento dos mercados locais excedeu o crescimento do mercado
				denominado em moeda reserva ou central. Mas, conforme reconhece o próprio texto - e
				está também referido em <xref ref-type="bibr" rid="B20">Eichengreen <italic>et
						al.</italic> (2023)</xref> -, essa trajetória diz respeito ao contexto
				imediato da CFG, de taxas de juros muito reduzidas nos países centrais. O início da
				normalização da política monetária nos países centrais após 2013, embora a ritmo
				lento, desacelerou a ampliação desses mercados após essa data e, a partir de 2017,
				implicou declínio para vários deles.</p>
			<p>Há, portanto, evidências de que houve uma mitigação do <italic>currency
					mismatch</italic> exclusiva para um conjunto de países emergentes e para um
				instrumento de dívida, os títulos soberanos. Assim pelos dados apresentados, ele
				continua sendo uma característica dominante, mesmo nos países maiores. De toda
				maneira, cabe questionar mais a fundo as implicações dessa mitigação. De acordo com
					<xref ref-type="bibr" rid="B34">Onen, Shin e Von Peter (2023)</xref>, os
				investidores estrangeiros realizaram uma importante modificação nos seus portfólios
				dedicados a países emergentes, ampliando a participação dos títulos denominados em
				moeda local - para aproximadamente 50% do total, em comparação aos denominados em
				moeda reserva ou central. Isto significa que a decisão desses investidores foi, no
				caso dos países emergentes, a de ampliar o risco de moeda nos seus portfólios como
				forma de aumentar a rentabilidade. Em que medida isto mudou o comportamento desses
				investidores? Quais os impactos nas suas posturas ante o ciclo de liquidez global?
				E, mais importante, como isso impactou a transmissão do ciclo financeiro global para
				os países periféricos?</p>
			<p>Além dos trabalhos dos economistas do BIS como o de <xref ref-type="bibr" rid="B34"
					>Onen, Shin e Von Peter (2023)</xref>, um conjunto expressivo de autores, como
				por exemplo <xref ref-type="bibr" rid="B20">Eichengreen, Hausmann e Panizza
					(2023)</xref>; Paula, Fritz e Prates (2020); <xref ref-type="bibr" rid="B27"
					>Kaltenbrunner e Paiceira (2015)</xref>, a despeito de reconhecerem que a
				ampliação dos mercados locais nos países emergentes mais relevantes resultou na
				mitigação do <italic>currency mismatch,</italic> propugnam que para além do caráter
				seletivo e localizado dessa mitigação, os países nos quais isso ocorreu tornaram-se
				sujeitos a novas formas de vulnerabilidade externa decorrentes das mudanças dessa
				inserção.</p>
			<p>O aspecto central, como já referido, é o deslocamento parcial do risco de moeda na
				formação dos passivos dos residentes para os ativos dos não residentes, embora estes
				últimos continuem, em sua maioria, denominados nas moedas dos países centrais. De
				acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B20">Eichengreen, Hausmann e Panizza
					(2023)</xref>, os investidores não-residentes que adquirem os títulos nos
				mercados locais fazem o <italic>hedge</italic> de suas posições no mercado de
				derivativos, o que significa transferir o risco de moeda - ou de flutuação da taxa
				de câmbio - de um conjunto de agentes domésticos para outros, incluindo os bancos
				centrais dos países periféricos.</p>
			<p>No trabalho <xref ref-type="bibr" rid="B17">de Paula, Fritz e Prates (2020)</xref>,
				se explora com mais detalhe o aumento da volatilidade e os novos canais de
				transmissão pelos quais se expressariam a maior vulnerabilidade externa. Para os
				autores, as flutuações dos fluxos de capitais decorrentes dos ciclos de liquidez
				intensificariam a interação da desvalorização da taxa de câmbio
					(<italic>overshooting</italic>) e aumento da taxa de juros, uma característica
				essencial das moedas periféricas, quando comparada às centrais - e isto decorreria
				exatamente da presença dos investidores não residentes nos mercados locais. Como
				mostrado acima (<xref ref-type="table" rid="t4">quadro 3.2</xref>), nos momentos de
					<italic>burst</italic> a depreciação da moeda periférica e a elevação dos juros
				e desvalorização dos títulos nos mercados locais impõe perdas adicionais aos
				investidores não residentes. Isto, de acordo com os autores supracitados,
				exacerbaria o <italic>sell-off</italic> dos títulos e a fuga para a qualidade,
				traduzindo-se numa ampliação das flutuações de juros e câmbio, no primeiro caso se
				transmitindo para a <italic>yield curve</italic>.</p>
			<p>Por sua vez, os trabalhos de Biancarelli (2018) e <xref ref-type="bibr" rid="B40"
					>Rosa e Biancarelli (2024)</xref> questionam a prevalência dessas relações. Para
				esses autores, o fato de os investidores não residentes bancarem não só o risco
				cambial como também o de mercados mais estreitos fazem com que o
					<italic>sell-off</italic> e a fuga para a qualidade sejam mitigados em relação à
				situação inicial do <italic>original sin</italic>. Isto porque a perda de capital
					(<italic>valuation effects</italic>) decorrente da saída pode ser elevada,
				desencadeando uma postura de <italic>stop loss</italic> por parte dos investidores
				não-residentes. Em resumo, não haveria evidência empírica para concluir pela maior
				volatilidade dos passivos externos denominados em moeda local e, portanto, pelo
					<italic>original sin redux.</italic></p>
			<p>A rigor, a verificação de qual o mecanismo predomina - se o <italic>sell-off</italic>
				fundado na fuga para a qualidade ou o <italic>stop loss baseado no valuation
					effects</italic> - repousa numa avaliação sobre a superação da
				inconversibilidade monetária das moedas periféricas. Vale dizer, se o
				desenvolvimento dos mercados locais for a expressão de um processo mais estrutural e
				permanente de diversificação dos portfólios em direção às moedas e ativos da
				periferia, o mecanismo do <italic>stop-loss</italic> é o mais relevante, porque
				esses ativos foram incorporados de forma permanente aos portfólios dos investidores
				estrangeiros. No caso oposto, ou seja, de permanência do caráter especulativo desses
				mercados e ativos, predominaria o mecanismo de <italic>sell-off.</italic></p>
			<p>Mesmo que não seja isento de controvérsias concluir numa ou noutra direção, pois o
				que estaria em discussão nesse caso seria a superação da inconversibilidade
				monetária das moedas periféricas, o fato é que o os mercados locais e a redução do
					<italic>currency mismatch</italic> - e com isto estão de acordo todos os atores
				citados - introduziram modificações na vulnerabilidade externa e nos seus mecanismos
				de transmissão. A nova etapa da globalização financeira pós CFG, com a exacerbação
				das variáveis de curto prazo como determinantes dos fluxos de capital, os novos
				agentes da globalização e a ampliação dos mercados locais, tornaram os países
				periféricos muito mais sensíveis e, porque não dizer, prisioneiros das flutuações de
				curto prazo das economias centrais. Ou seja, a autonomia de política econômica foi
				ainda mais reduzida nesses países.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>7 Considerações finais</title>
			<p>Este artigo discutiu a conformação da globalização financeira, com foco nas
				assimetrias subjacentes e na decorrente inserção dos países periféricos. Em primeiro
				lugar, foram apresentados os principais determinantes da globalização financeira,
				tanto de ordem econômica, quanto geopolítica. Destacadamente, atribuiu-se a
				constituição da globalização financeira às determinações - econômicas e geopolíticas
				- do país hegemônico, os EUA, a partir da perda de sua dominância produtiva e
				tecnológica e tendo como pano de fundo as transformações do Sistema Monetário e
				Financeiro Internacional associadas ao envelhecimento do Acordo de Bretton Woods
				enquanto ordem internacional regulada.</p>
			<p>Em seguida, discutiu-se a natureza dos fluxos de capitais que caracterizam a
				globalização financeira, que tiveram como impulso inicial um processo de
				diversificação dos portfólios entre os próprios países centrais e, posteriormente,
				de busca por rentabilidade extraordinária nas periferias do sistema. Nessa dinâmica,
				defendeu-se a pertinência de distinguir os fluxos de portfólio daqueles de IDE ou
				bancários e, sobretudo, os fluxos líquidos dos brutos - entendendo-se estes como
				muito mais relevantes para a compreensão da globalização financeira do que aqueles.
				Constatou-se, ademais, que as diferenças de determinantes entre os vários fluxos se
				esmaecem após a CFG, sobressaindo-se os fatores associados a variáveis
				macroeconômicas de curto prazo.</p>
			<p>À luz dessa evolução no processo de constituição da globalização financeira,
				propôs-se uma periodização em três grandes fases. Na primeira, nos anos 1980, o
				processo de integração se deu essencialmente entre os países centrais e, depois das
				incertezas geradas pelo fim da conversibilidade do dólar em ouro, marcou a
				consolidação dos mercados estadunidenses como os principais do globo e dos seus
				títulos públicos como a nova âncora da riqueza financeira mundial. A segunda fase,
				que vai dos anos 1990 até a eclosão da CFG, caracterizou-se sobretudo pela
				reinserção dos países periféricos, que no geral haviam sido excluídos do processo
				durante a década anterior, em função da crise da dívida externa; entretanto, o grau
				de integração dos países centrais continuou incomparavelmente maior. No terceiro
				período, que vai da eclosão da CFG aos dias atuais, ocorreu uma desaceleração na
				taxa de crescimento dos fluxos de capitais globais, em particular entre os centrais,
				com aumento na participação dos países periféricos na absorção desses fluxos -
				apesar da manutenção ou mesmo ampliação da volatilidade desses fluxos. Além disso,
				ocorre uma mudança na composição dos fluxos e nos seus determinantes, com aumento do
				peso das variações dos preços macroeconômicos.</p>
			<p>Por fim, o artigo rediscute os impactos da globalização financeira em sua fase
				contemporânea sobre os países centrais e periféricos, trazendo luz sobre aspectos
				normalmente negligenciados na literatura. Para além dos efeitos dos fluxos de
				capitais, destaca-se a importância dos efeitos patrimoniais (ou efeito-riqueza),
				oriundos sobretudo dos impactos das variações nas taxas de juros e câmbio sobre os
				estoques de passivos e ativos externos dos países centrais e periféricos. A análise
				exige nuances - sobretudo para capturar os efeitos nas distintas fases dos ciclos de
				liquidez -, mas em essência os países periféricos são mais suscetíveis aos ciclos e,
				compilando-se os efeitos do <italic>boom</italic> e do <italic>burst</italic>,
				apresentam perdas líquidas, absorvidas como ganhos pelos países centrais.</p>
			<p>Quanto à mitigação do pecado original, o <italic>original sin redux,</italic>
				decorrente da ampliação da presença de investidores não residentes nos mercados
				locais, é possível estabelecer que de forma seletiva, restrita aos maiores países
				periféricos e com grau de abertura financeira elevada, ele implicou a redefinição da
				vulnerabilidade externa, ampliando a dependência desses países aos ciclos de
				liquidez globais e reduzindo ainda mais a autonomia da política econômica.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>*</label>
				<p>Este texto busca reexaminar a integração periférica na globalização financeira a
					partir de algumas ideias desenvolvidas originalmente em <xref ref-type="bibr"
						rid="B13">Carneiro (2007)</xref>, atualizando-as à luz dos fatos históricos
					recentes.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>1</label>
				<p>Além das rendas de capitais (rendas primárias) e do saldo de bens e serviços, o
					saldo de transações correntes é composto também pelas transferências unilaterais
					(ou rendas secundárias), mas para os países centrais essa rubrica é pouco
					relevante.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>2</label>
				<p>Chesnais (2006) sugere que a constituição da “mundialização financeira”, como ele
					denomina, passou por três etapas importantes: i) etapa da internacionalização
					financeira indireta, marcada sobretudo pelo crescimento das finanças de mercado
					nos EUA (1960-79); ii) etapa da desregulamentação e liberalização financeira,
					com o aumento da integração entre os mercados, resultante da abertura financeira
					(1980-85); e iii) etapa da generalização da arbitragem e incorporação dos
					mercados “emergentes” (1986-1999). Neste artigo, apresenta-se uma periodização
					ligeiramente distinta, mas não incompatível.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>3</label>
				<p>Um aspecto crucial a ser observado e que afeta indiretamente, e de forma
					assimétrica, países periféricos e países centrais, sobretudo o emissor da moeda
					reserva, se refere aos efeitos diferenciados da flutuação cambial sobre os
					preços. A denominação de grande parte dos preços internacionais - seja de
					commodities tradicionais, seja de bens industriais - em dólar implica, na fase
					de <italic>burst</italic> do ciclo, quando a moeda reserva se valoriza, um
					acréscimo generalizado nos preços de bens e serviços <italic>tradeables</italic>
					nas moedas periféricas. Isto constitui uma pressão adicional para a elevação das
					taxas de juros nos países periféricos, exacerbando o efeito riqueza negativo nos
					mercados locais. Na fase de <italic>boom</italic> o efeito é o contrário, mas
					com uma queda nas taxas de juros que em geral é muito mais gradual do que a
					elevação.</p>
			</fn>
		</fn-group>
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