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                <journal-title>Economia e Sociedade</journal-title>
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                    Sociedade</abbrev-journal-title>
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					<subject>Artigo original</subject>
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				<article-title>Rentismo e especulação no capitalismo determinado pelas finanças: uma
					abordagem pós-keynesiana<sup>*</sup></article-title>
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					<trans-title>Rentierism and speculation in a finance-led capitalism: a
						post-Keynesian approach</trans-title>
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						<surname>Alves</surname>
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				<label>**</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Federal do Rio de
					Janeiro</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Instituto de Economia</institution>
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				<email>luiz.fpaula@ie.ufrj.br</email>
				<institution content-type="original">Professor do Instituto de Economia da
					Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), Rio de Janeiro, RJ,
					Brasil</institution>
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				<label>***</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Federal Rural do Rio do
					Janeiro</institution>
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				<email>antoniojbr@yahoo.com.br</email>
				<institution content-type="original">Professor Titular de Economia da Universidade
					Federal Rural do Rio do Janeiro (UFFRJ), Rio de Janeiro, RJ,
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			<author-notes>
				<fn fn-type="edited-by">
					<label>EDITOR RESPONSÁVEL PELA AVALIAÇÃO</label>
					<p><italic>Carolina Troncoso Baltar</italic></p>
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			</author-notes>
			<!--<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
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                <month>07</month>
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				<year>2025</year>
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			<volume>34</volume>
			<issue>3</issue>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo tem como objetivo discutir o que se entende por rentismo e
					especulação financeira e sua relação com o nível de produção e a estabilidade
					financeiraa a partir de uma abordagem pós-keynesiana. Essa discussão é realizada
					também no contexto de uma economia globalizada e financeirizada, enfocando, em
					particular, a governança corporativa das empresas capitalistas (“maximização do
					valor ao acionista”), mostrando que, ao contrário do que foi preconizado por
					Keynes na sua <italic>Teoria geral</italic>, que via o rentismo como uma fase
					transitória, desde os anos 1980 observa-se o desenvolvimento de um capitalismo
					rentista (“<italic>rentier capitalism</italic>”) ou de um capitalismo
					determinando pelas finanças (“<italic>finance-led capitalism</italic>”). Neste
					contexto, não se pode falar na eutanásia do rentista, mas sim na vitória do
					rentistana atual fase do capitalismo contemporâneo.</p>
				<p><bold>JEL</bold>: E12, E44, F32.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This paper aims to discuss what is meant by rentierism and financial speculation
					and their relation with the level of production and financial stability, from a
					Post-Keynesiana approach. This discussion is also developed in the context of a
					globalized and financialized economy, focusing particularly on the corporate
					governance of capitalist companies (“maximization of shareholder value”). We
					show that, contrary to what was advocated by Keynes in his General Theory, who
					saw rentierism as a transitory phase, since the 1980s the development of rentier
					capitalism or of finance-led capitalism has been observed. In this context, one
					cannot speak of the euthanasia of rentier, but rather of the victory of rentier
					in the current phase of contemporary capitalism.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Rentismo</kwd>
				<kwd>Especulação</kwd>
				<kwd>Keynes</kwd>
				<kwd>Pós-keynesianos</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Key-words:</title>
				<kwd>Rentism</kwd>
				<kwd>Speculation</kwd>
				<kwd>Keynes</kwd>
				<kwd>Post-Keynesians</kwd>
			</kwd-group>
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				<ref-count count="34"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>1 Introdução</title>
			<p>Keynes, em seu livro <italic>Teoria geral</italic> (TG), defende a “eutanásia do
				rentista”, uma vez que o rentismo é entendido como uma prática comportamental
				negativa que inibe a economia de atingir uma situação de pleno emprego. Nesse mesmo
				livro, Keynes também fez uma análise crítica do papel do especulador no
				funcionamento do mercado financeiro, propondo restrições à sua ação, sendo conhecida
				sua afirmação de que “<italic>speculators may do no harm as bubbles on a steady
					stream of enterprise. But the position is serious when entreprise becomes the
					bubble on a whirl-pool of speculation</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B23"
					>Keynes, 2007</xref>, p. 158).</p>
			<p>Este artigo tem como objetivo discutir o que se entende por rentismo e especulação
				financeira e sua relação com o nível de produção e a estabilidade econômica, tomando
				como ponto de partida principalmente os trabalhos de Keynes (em especial em sua TG)
				e de autores pós-keynesianos. Essa discussão será atualizada para o contexto de uma
				economia globalizada e financeirizada, enfocando a governança corporativa das
				empresas capitalistas (“maximização do valor ao acionista”), mostrando que ao
				contrário do que foi preconizado por Keynes na TG, que via o rentismo como uma fase
				transitória, desde os anos 1980 observa-se o desenvolvimento de um capitalismo
				rentista (“<italic>rentier capitalism</italic>”) ou de um capitalismo determinando
				pelas finanças (“<italic>finance-led capitalism</italic>”).</p>
			<p>Neste artigo, trabalharemos com duas concepções de rentista: (i) uma restrita, no
				termos de <xref ref-type="bibr" rid="B32">Seccareccia e Lavoie (2016</xref>, p.
				207), no qual seriam principalmente “<italic>those who own financial capital and
					whose incomes are derived primarly form the ownership of those low risk
					financial assets</italic>”, ou segundo <xref ref-type="bibr" rid="B23">Keynes
					(2007</xref>, p. 376), uma classe de investidores cujos rendimentos resultam dos
				ganhos de juros sobre a escassez de capital; (ii) uma mais ampla, nos termos de
					<xref ref-type="bibr" rid="B34">Watkins (2010</xref>, p. 472), que inclui
				rentistas corporativos e não-corporativos, que “<italic>receive income in the form
					of dividends, interests, and fees stemming form holding and originating debet,
					in addition to short-term speculators</italic>”. O comportamento rentista, desta
				forma definido, resulta frequentemente em uma economia capitalista operando abaixo
				do pleno emprego e ao mesmo tempo financeiramente instável. Este comportamento é nos
				dias de hoje potencializado num contexto de globalização financeira e de
				financeirização das economias<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup>.</p>
			<p>O artigo, além desta introdução, está dividido em três seções. A seção 2 analisa a
				atividade rentista e especulativa em Keynes, em especial na sua TG. A seção 3 por
				sua vez examina o processo de especulação na perspectiva pós-keynesiana. A seção 4
				discute o rentismo e a especulação em uma economia financeiramente globalizada. Por
				fim, a seção 5 conclui o artigo.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2 Rentismo e especulação em Keynes</title>
			<sec>
				<title>2.1 Rentismo e a eutanásia do rentista</title>
				<p>Enquanto que, no seu <italic>Tract on monetary reform,</italic> Keynes (2023)
					define os rentistas como uma classe de investidores (“<italic>investing
						class</italic>”), na TG eles são uma classe desfuncional
						(“<italic>functionless class</italic>”): “<italic>interest to-day rewards no
						genuine sacrifice, any more than does the rent of land. The owner of capital
						can obtain interest because capital is scarce, just as the owner of land can
						obtain rent because the land is scarce</italic>” (<xref ref-type="bibr"
						rid="B23">Keynes, 2007</xref>, p. 376).</p>
				<p>Para Keynes o rentista é aquele que ganha juros sobre a escassez do capital, tal
					como o dono da terra obtém renda da escassez das terras. No entanto,
						“<italic>whilst there may be intrinsic reasons for the scarcity of land,
						there no intrinsic reasons for the scarcity of capital</italic>” (Keynes, p.
					376), que depende da política monetária executada pelo banco central. O rentista
					se aproveita da escassez do valor do capital, obtendo recompensa de juros
					diários sem nenhum sacrifício genuíno, sendo melhor descrito pela imagem
					aproximada de um parasita. Assim, o termo rentista tem claramente para o autor
					uma conotação negativa, sendo visto como um investidor disfuncional, cuja
					atividade é prejudicial a sociedade, enquanto que os investidores e detentores
					de títulos são termos mais neutros (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Naito,
						2013</xref>, p. 3).</p>
				<p>Keynes via o rentismo como uma fase transitória que iria desaparecer na medida em
					que a política econômica se voltasse para restringir ao máximo a ação dos
					rentistas, mas promovendo a atividade empresarial: “<italic>though the rentier
						would disappear, there would still be room, nevertheless, for enterprise and
						skill in the estimation of prospective yields about which opinions could
						diffe</italic>r” (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Keynes, 2007</xref>, p.
					221).</p>
				<p>Neste sentido, ele advogava a eutanásia do rentista, “fazendo o trabalho
					bem-feito”, conjugando uma política de juros baixos e estáveis com a cobrança de
					um imposto direto sobre as rendas dos rentistas, de modo a torná-los funcionais
					para o desenvolvimento da economia, além de colocar em prática uma forma ampla
					uma política de “socialização de investimentos”:</p>
				<p><disp-quote>
					<p><italic>The State will have to exercise a guiding influence on the propensity
							to consume partly through its scheme of taxation, partly by fixing the
							rate of interest, and partly, perhaps, in other ways. Furthermore, it
							seems unlikely that the influence of banking policy on the rate of
							interest will be sufficient by itself to determine an optimum rate of
							investment. I conceive, therefore, that a somewhat comprehensive
							socialization of investment will prove the only means of securing an
							approximation to full employment (…) But beyond this no obvious case is
							made out for a system of State Socialism which would embrace most of the
							economic life of the community</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B23"
							>Keynes, 2007</xref>, p. 378).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Na nova maré, segundo Keynes, em que os rentistas iriam desaparecer lenta e
					progressivamente, não apenas a economia se aproximaria do pleno emprego, como
					seria preservado o espaço para o individualismo.</p>
				<p>Um dos meios para alcançar o pleno emprego seria aumentar o investimento,
					reduzindo a taxa de juros, mesmo diante da oposição dos rentistas a tal
					política: “<italic>it is to our best advantage to reduce the rate of interest to
						that point relatively to the schedule of the marginal efficiency of capital
						at which there is full employment</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B23"
						>Keynes, 2007</xref>. p. 375).</p>
				<p>Evidentemente, em uma economia aberta, um limite para a redução da taxa de juros
					seria o seu impacto sobre o balanço de pagamentos, especialmente no caso de
					países cujas moedas se encontram em níveis mais baixos da hierarquia de moedas,
					pois não encontram boa aceitação internacional. Neste sentido, <xref
						ref-type="bibr" rid="B27">Naito (2013</xref>, p. 13) destaca que Keynes, em
					um discurso no “House of Lords”, em 1943, defendia adoção de controle sobre o
					movimento de capitais, sem o qual a política monetária perderia graus de
					liberdade na determinação da taxa de juros para objetivos domésticos.</p>
				<p>O economista britânico percebia que manter a taxa de juros suficientemente baixa
					não apenas era consistente com uma elevada demanda efetiva agregada, como
					asseguraria uma redistribuição da renda dos rentistas para o restante da
							sociedade<sup><xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></sup>. Essa seria
					uma condição essencial para o crescimento sustentado de longo prazo,
					especialmente se complementado com uma forte política de investimento público de
					longo prazo, o que pode ser entendido como política de “socialização de
					investimentos” nos termos acima<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3"
					>3</xref></sup>. Alternativamente, uma política pró-rentista, de altas taxas de
					juros, abortaria uma recuperação e impediria um crescimento de longo prazo
					sustentável, além de redistribuir a renda em favor dos rentistas, o que também
					contribuiria para a redução do consumo e da demanda efetiva (<xref
						ref-type="bibr" rid="B32">Seccareccia e Lavoie, 2016</xref>, p.209). Nas
					palavras de Keynes:</p>
				<p><disp-quote>
					<p><italic>What will be the effect of this redistribution on the propensity to
							consume for the community as a whole? The transfer from wage-earners to
							other factors is likely to diminish the propensity to consume. The
							effect of the transfer from entrepreneurs to rentiers is more open to
							doubt. But, if rentiers represent on the whole the richer section of the
							community and those standard of life is least flexible, then the effect
							of this also will be unfavourable</italic> (2007, p. 62).</p>
				</disp-quote></p>
			</sec>
			<sec>
				<title>2.2 Atividade especulativa sob incerteza radical</title>
				<p>A especulação, em Keynes, existe como função de um ambiente em que agentes tomam
					decisões em condições de incerteza não probabilística<sup><xref ref-type="fn"
							rid="fn4">4</xref></sup>. É por causa da incerteza que as avaliações
					futuras de mercado não são previsíveis nem calculáveis por probabilidade, pois a
					base informacional das decisões econômicas mais importantes é incompleta. Além
					do mais, os compromissos de longo prazo são irreversíveis, pois tais decisões
					que uma vez tomadas alteram irrevogavelmente as condições iniciais nas quais as
					mesmas foram tomadas. É neste contexto que as expectativas formuladas nos
					mercados financeiros não têm como se apoiar nos fundamentos do mercado, devido a
					falta de uma base objetiva de julgamento a respeito desses fundamentos, sob
					condições de incerteza intratável.</p>
				<p>A especulação é sustentada, em última análise, pelo fato de que nenhum dos
					participantes do mercado, sejam eles especuladores e investidores, tem como
					conhecer o futuro. Nesse sentido, a formação de expectativas que orientam a
					aquisição ou venda de ativos financeiros não repousa completamente em
					conhecimento objetivo. Ela pode ser estimulada pela expectativa de que os preços
					dos ativos podem aumentar (ou diminuir) em função tanto de razões mais
					fundamentais (uma súbita escassez de colheitas, acidentes com instalações
					industriais, guerras, aumento da demanda de componentes) como também em função
					dos elementos subjetivos que influenciam as expectativas sobre os preços dos
					títulos. Num ambiente de incerteza, o especulador não é aquele que tem melhores
					informações sobre o comportamento dos fundamentos econômicos, mas aquele que
					busca obter ganhos de curto prazo contra a maré dominante, ou seja, a partir de
					suas avaliações acerca do comportamento dos demais investidores. Assim, ela/ele
					não mira as estimativas de retorno de longo prazo de um investimento ao longo de
					sua vida útil, mas as mudanças na base convencional de
						<italic>valuation</italic> no curto prazo do público em geral.</p>
				<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B23">Keynes (2007)</xref>, o conhecimento dos
					agentes acerca dos fatos que governarão o retorno futuro de um investimento é
					tanto mais precário quanto maior o período a ser considerado. O cenário futuro,
					sob o qual se tem que tomar decisões, é inferido a partir de uma convenção, cuja
					essência é admitir que</p>
				<p><disp-quote>
					<p><italic>the existing state of affairs will continue indefinitelly ...
							[However] we know from the extensive experience that this is most
							unlikely. The actual results of an investment over a long term of years
							very seldom agree with the initial expectation</italic> (<xref
							ref-type="bibr" rid="B23">Keynes, 2007</xref>, p. 152).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Sendo assim, o valor de mercado dos ativos de longo prazo se alterará em função
					das mudanças nesse conhecimento, levando-se em conta que</p>
				<p><disp-quote>
					<p><italic>philosophically speaking, it cannot be uniquely correct, since our
							existing knowledge does not provide sufficient basis for a calculated
							mathematical expectation. In point of fact, all sorts of consideration
							enter into the market valuation which are no way relevant to the
							prospective yield</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Keynes,
							2007</xref>, p. 152).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>É por isso que, além das informações e prognósticos sobre o futuro incerto,
					importa, na atividade de acumulação de ativos, o estado de confiança, que
					exprime o grau de crença e o compromisso que se tem nos cálculos realizados.
					Portanto, os mercados financeiros não podem ser considerados tendencialmente
					eficientes, no sentido de que, “filosoficamente falando”, não há futuro a ser
					descoberto. Como o futuro é incerto e o estado de confiança dos agentes é
					subjetivo, existe espaço para a diversidade de opiniões sobre o futuro e
					oscilações bruscas nos prognósticos. E se existe diversidade de opiniões e
					mercados organizados para fornecer liquidez aos ativos, abre-se, então, a
					possibilidade para emergir as atividades especulativas.</p>
				<p>Keynes explorou no Capítulo 12 de sua TG a concepção de que as expectativas dos
					investidores não são governadas pelos fundamentos reais no longo prazo
					relacionados ao rendimento prospectivo de um ativo ao longo de vários anos, uma
					vez que tais informações necessárias à formação das expectativas simplesmente
					não existem. Em suas próprias palavras,</p>
				<p><disp-quote>
					<p><italic>for most of these persons are, in fact, largely concerned, not with
							making superior long-term forecast of the probable yield of an
							investment over its whole life, but with foreseeing changes in the
							conventional basis of valuation a short time ahead of the general
							public. They are concerned, not with what an investment is worth to a
							man who buys it ‘for keeps’, but with what the market will value it all,
							under the influence of mass psychology, three months or a year
							hence</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Keynes, 2007</xref>, p.
						154-155).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Assim, a especulação - para Keynes - é essencialmente uma atividade de antecipar
					a psicologia do mundo, já que a chave do sucesso da aplicação em ativos
					financeiros não é descobrir os fundamentos futuros dos ativos, mas, sobretudo,
					antecipar o movimento dos outros investidores.</p>
				<p>Em sua discussão sobre a função da organização dos mercados financeiros, medida
					pela facilidade com que se pode negociar ativos em volumes consideráveis de
					forma contínua no tempo, Keynes vai apontar para uma contradição envolvendo a
					ação dos especuladores. Por um lado, mercados financeiros organizados, podem
					estímular o desenvolvimento da atividade produtiva, ao tornarem os ativos mais
					líquidos, liberando o investidor em atividades empresariais da irreversibilidade
					do investimento em capital fixo. De outro, é o estabelecimento de um ambiente de
					reavaliação permamente das atividades empresariais e de maior facilidade na
					negociação dos títulos representativos dos investimentos produtivos que aumenta
					as oportunidades para o ganho especulativo, ampliando as possibilidades de
					obtenção de lucros sobre a variação do valor da riqueza.</p>
				<p>Assim, uma vez que a atividade especulativa tem um impacto ambíguo sobre os
					mercados financeiros, porque, embora a liquidez dos mercados financeiros
					frequentemente facilite o curso de novos investimentos, eventualmente os
					impedem, precisamente pela instabilidade das cotações dos títulos de dívida e
					das ações em momentos de maior incerteza, que podem eventualmente se transformar
					em pânico. Essa é uma das razões pelas quais Keynes e pós-keynesianos sustentam
					que há fortes conexões entre os setores financeiro e real da economia. Uma das
					conexões é o impacto da atividade especulativa sobre a atividade produtiva,
					especialmente sobre o investimento. É bem conhecida a passagem da TG em que
					Keynes (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Keynes, 2007</xref>, p. 159) diz que
						“<italic>the position is serious when enterprise becomes the bubble on a
						whirlpool of speculation. When the capital development of a country becomes
						a by-product of the activities of a casino, the job is likely to be
						ill-done</italic>”.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>3 Mercado financeiro e especulação numa abordagem pós-keynesiana</title>
			<p>A visão convencional tem como <italic>benchmark</italic> de sua análise sobre o
				funcionamento dos mercados a hipótese dos mercados eficientes, que de acordo com
					<xref ref-type="bibr" rid="B16">Fama (1980)</xref> significa que os preços
				refletem toda a informação disponível para os agentes econômicos. Ao adicionar-se à
				esta teoria a hipótese de expectativas racionais, está se pressupondo que os agentes
				econômicos fazem o melhor uso das informações disponíveis em suas previsões dos
				preços futuros dos ativos. Deste modo, os sinais de mercado provêm informações
				suficientes para a previsão dos eventos futuros, permitindo, assim, que os agentes
				formem suas expectativas racionais como base para as decisões maximizadoras das
				funções utilidades. Portanto, os agentes baseiam suas posições de mercado no
				processamento eficiente de toda informação disponível que incide na presente
				rentabilidade do ativo.</p>
			<p>Em tal contexto, o tomador de decisões acredita que uma distribuição de probabilidade
				objetiva governa os resultados presentes e futuros de mercado. Logo, toda informação
				relevante sobre os “fundamentos econômicos” existe e está disponível aos
				participantes do mercado, sendo tais fundamentos o guia primário quando estes formam
				suas expectativas. Esta informação, por sua vez, é incorporada na base histórica de
				dados e nos sinais de preços do mercado presente. O preço formado no mercado agrega
				instantaneamente todas as informações disponíveis existentes, assim como as
				expectativas dos operadores.</p>
			<p>Assim sendo, os agentes, bem informados e agindo em seu próprio interesse, sempre
				perceberão o futuro sem incorrer em erros persistentes. Segundo esta concepção
				teórica, a rigor, apenas choques aleatórios imprevisíveis e não-correlacionados
				serialmente podem impedir a previsão perfeita dos eventos. Portanto, os fundamentos
				do mercado são imutáveis, no sentido de que não podem ser alterados por ações
				humanas, e determinam as probabilidades condicionais dos resultados futuros do
				mercado (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Alves Jr. et al., 1999/2000</xref>).</p>
			<p>Em oposição a esta visão, pós-keynesianos rejeitam a hipótese dos mercados eficientes
				e de expectativas racionais para explicar o comportamento dos mercados financeiros
					(<xref ref-type="bibr" rid="B12">Davidson, 1999</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B13">Dimsky, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">Glickman,
					1994</xref>). Em um mundo incerto, em que fundamentos não fornecem um guia
				confiável sobre o futuro, uma vez que a base informacional sobre a qual as decisões
				humanas sobre acumulação de riqueza se apoiam é incompleta, as avaliações futuras do
				mercado são sempre sujeitas a desapontamentos. Como a informação acerca do futuro é
				limitada, e a relação entre eventos e respostas dos especuladores depende das suas
				interpretações sob incerteza, cada um agindo de acordo com suas crenças a respeito
				do significado que a generalidade dos participantes do mercado atribui ao evento em
				questão, os agentes avaliam os dados disponíveis de forma heterogênea e formulam
				hipóteses divergentes. Neste sentido, se suas expectativas são baseadas em
				conhecimentos frágeis, os preços nos mercados financeiros podem flutuar fortemente
				ou temporariamente repousar em qualquer valor. Isto porque o grau de confiança com
				que os agentes veem o futuro podem variar a longo do tempo, em resposta às mudanças
				nas expectativas formuladas por eles (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Alves Jr. et
					al., 2000</xref>).</p>
			<p>Se os especuladores dominam os mercados financeiros, as práticas de curto prazo
				determinam a evolução dos preços dos ativos. A avaliação do mercado de um ativo em
				qualquer ponto do tempo é definida simplesmente pelo balanço momentâneo altista ou
				baixista do investidor, sendo possível que o grau de confiança com que os agentes
				veem o futuro flutue no tempo. Em outras palavras, as avaliações no mercado
				financeiro não têm relação com o valor intrínseco do ativo. Na visão pós-keynesiana
				tal valor intrínseco não existe ou não é, de qualquer forma, passível de
				conhecimento. Quando os investidores operam sob incerteza, nenhuma linha simples
				divisória entre comportamento racional ou irracional pode ser estabelecida (<xref
					ref-type="bibr" rid="B17">Glickman, 1994</xref>).</p>
			<p>O especulador atualmente compra e vende títulos, aumentando a liquidez nos mercados
				financeiros. <xref ref-type="bibr" rid="B23">Keynes (2007)</xref> chama a atenção
				para esse papel relevante que desempenham os especuladores, que pode ser benéfico ao
				investimento produtivo. Se o peso da iliquidez dos ativos de capital for mitigado
				pela liquidez dos mercados, é possível que mais projetos de investimento sejam
				realizados. Não obstante, como a opinião dos especuladores depende de conhecimento
				limitado e de sua subjetividade sobre o comportamento do mercado, eventualmente as
				ordens de compra e venda de títulos podem ser contaminados pelo pânico, o que leva a
				derrocada dos valores dos títulos e consequente evaporação da liquidez. Portanto, o
				resultado da ação dos especuladores é ambíguo, porque ao mesmo tempo em que pode ter
				efeitos reais devastadores sobre a economia, ao criar redemoinhos especulativos,
				provê liquidez aos ativos financeiros, que é um papel essencial para o funcionamento
				dos mercados financeiros, ao permitir o desenvolvimento dos mercados primários de
				títulos de dívida.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>4 Rentismo e a especulação em uma economia financeiramente globalizada</title>
			<sec>
				<title>4.1 Especulação em contexto de globalização financeira na abordagem
					pós-keynesiana</title>
				<p>Como resultado da maior instabilidade macroeconômica que resultou do fim do
					sistema de Bretton Woods a partir do início dos anos 1970, da liberalização dos
					mercados financeiros, e das inovações tecnológicas na área de informática e
					telecomunicações, observou-se ao longo das décadas de 1970 e 1980 um aumento no
					volume e na velocidade de recursos no mercado financeiro internacional, e uma
					maior integração entre os mercados financeiros a nível global, no contexto do
					que ficou conhecido como processo de <italic>globalização financeira.</italic>
					Uma das consequências desse processo tem sido uma certa tendência à criação de
					um único mercado mundial de dinheiro e de crédito.</p>
				<p>Keynes, em sua TG, fazendo referência a um dos maiores mercados financeiros do
					mundo, New York, disse que “<italic>as the organisation of investment markets
						improves, the risk of predominance of speculation does, however,
						increase</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Keynes, 2007</xref>, p.
					158). Este parece ser o caso do aumento, nos dias de hoje, da globalização
					financeira, pois sob a ação dos <italic>global players</italic> (grandes
					gerenciadores de fundos), em um mercado mais liberalizado e integrado, a forma
					de operação dos mercados financeiros converte-se numa espécie de grande cassino
					global. A alta mobilidade dos capitais na economia globalizada tem aumentado as
					transações especulativas em moeda estrangeira por parte de investidores globais.
					Como assinala Davidson,</p>
				<p><disp-quote>
					<p><italic>even in the absence of reliable information, rapid evaluations of the
							potentials effects of any event on exchange rates and hence on portfolio
							value are essential as rival market participants can move funds from one
							country to another in nanoseconds with a few clicks on the computer
							keyboard or a quick telephone call to some international market at any
							time of day or night</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11"
							>1997</xref>, p. 671).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Desta maneira, em contraste com os fluxos de capitais restritos do passado, os
					fluxos do presente podem ter uma ação disruptiva sobre países e setores
					econômicos e, ainda, comprometer a autonomia das políticas macroeconômicas
					domésticas. Como observam <xref ref-type="bibr" rid="B14">Eichengreen et al.
						(1995</xref>, p. 164), “<italic>volatility in exchange rates and interest
						rates induced by speculation and capital flows could have real economic
						consequences devastating for particular sectors and whole
					economies</italic>”. Aqui emerge o “dilema da globalização”, qual seja: enquanto
					a globalização dos mercados financeiros aumenta as oportunidades de
					financiamento do investimento, com a diversificação dos instrumentos
					financeiros, ao mesmo tempo esta tendência pode ocasionar efeitos econômicos
					negativos, na medida em que estimula as atividades especulativas e,
					eventualmente, gera instabilidade financeira, que pode levar a um colapso nas
					decisões de investimento.</p>
				<p>Em tal mundo, ataques especulativos alimentados por profecias auto-realizáveis
					podem derrotar as tentativas de governos em sustentar suas taxas de câmbio,
					arremessando seus países em quadros de crises cambiais. Nas palavras de
					Davidson,</p>
				<p><disp-quote>
					<p><italic>In today’s global economy any news event that fund managers even
							suspect that others will interpret as a whiff of currency weakness can
							quickly become a conflagration spread along the information highway.
							This results in lemming-like behavior that can be self-reinforcing and
							self-justifying</italic> (1997, p. 671-672).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Em um mundo cada vez mais globalizado, a crise pode ainda vir pelo contágio
					(i.e., quando a queda nos preços dos ativos em determinado mercado provoca a
					venda de ativos em outro). Isso ocorre tanto pela contaminação de expectativas
					ou como fruto da manobra de gestores globais de compensar as perdas no portfólio
					com a venda de ativos valorizados, o que pode acabar causando sucessivos ciclos
					de venda de ativos em vários países.</p>
				<p>A taxa de câmbio de cada país passa a ser cada vez mais determinada pelas
					decisões de curto prazo dos investidores internacionais sobre seus portfólios.
					Assim, fluxos de capitais passam a ter uma forte influência sobre os mercados
					cambiais, tornando as taxas de câmbio bem mais voláteis do que seriam se seus
					movimentos fossem explicados pelo comportamento dos fluxos de comércio e
					serviços produtivos. As decisões de portfólio, predominantemente especulativas,
					são dependentes das expectativas sobre as mudanças nos sentimentos de mercado.
					Tais expectativas são “modeladas” usando uma combinação de instrumentos
					convencionais pós-keynesianos - como a convenção de que os agentes consideram a
					opinião média quando formam suas expectativas frente a um futuro incerto - e de
					outros fatores de natureza psicológica. De acordo com Harvey,</p>
				<p><disp-quote>
					<p><italic>the picture that emerges is not of one of a market characterized by
							stability, efficiency and optimality (all benevolently guided by the
							invisible hand of the fundamentals), but of an institution where agents’
							imperfectly considered actions create currency prices. Those actions may
							be marked by stability for long periods of time (…) as agents rely on
							convention to anchor [their expectations] to stable levels or rates of
							change; but because they are subject to availability and bandwagon
							effects they are apt to rapid revision in the face of salient
							events</italic> (1997, p. 671-672).</p>
				</disp-quote></p>
				<p>Assim, o comportamento dos especuladores pode ser associado a algum tipo de
					“comportamento de manada”, já que sob incerteza um investidor tem incentivo a
					imitar o comportamento médio dos demais agentes, uma vez que esses podem ter
					informações que ele não tem e, na pior das hipóteses, é melhor perder
					conjuntamente do que perder sozinho. Em outras palavras, o comportamento de
					“seguir a maioria” pode ser uma convenção adequada para superar a incerteza
					sobre o futuro, sobretudo em condições quando a incerteza aumenta o
					desconhecimento das ações de outros agentes. Este tipo de comportamento pode
					gerar “profecias autorrealizadas”, o que faz com que as expectativas determinem
					as trajetórias de preços nos mercados financeiros e cambiais.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>4.2 Financeirização no contexto do capitalismo determinado pelas finanças ou
					de capitalismo rentista</title>
				<p>A globalização financeira - definida como a interpenetração dos mercados
					financeiros nacionais, bem como sua integração no mercado financeiro
					internacional - é vista como um dos principais impulsionadores do capitalismo
					determinado pelas finanças e do processo da financeirização. <xref
						ref-type="bibr" rid="B29">Palley (2013)</xref> destaca que a financeirização
					tem sua origem nas mudanças ocorridas no processo de acumulação de capital desde
					o fim do acordo de Bretton Woods e com a adoção de políticas neoliberais nos
					anos 1980, quando se observa que os investimentos passaram a ser crescentemente
					transferidos para o capital especulativo em detrimento do produtivo<sup><xref
							ref-type="fn" rid="fn5">5</xref></sup>.</p>
				<p>A financeirização é entendida como um processo histórico que consiste em um
					possível crescimento da influência do setor financeiro na dinâmica produtiva, ou
					seja, no qual a tomada de decisões dos agentes econômicos orbita em torno da
					lógica financeira. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B32">Seccareccia e
						Lavoie (2016</xref>, p. 216), “<italic>since the 1980s, we have seen how
						rentier capitalism, especially its most virulent ‘financialized’ form, has
						been devastating advanced industrial societies and has brought some of these
						economies, especially in the Eurozone, to the verge of social
						collapse</italic>”.</p>
				<p>Capitalismo determinado pelas finanças, em contraste com o regime de acumulação
					fordista que vigorou até os anos 1970, é um conceito desenvolvido inicialmente
					pelos economistas regulacionistas<sup><xref ref-type="fn" rid="fn6"
						>6</xref></sup>, mas que tem sido amplamente entendido com um regime de
					acumulação que tem como uma das suas características centrais o processo de
					financeirização da economia. Em particular, este novo regime de acumulação -
					também denominado de regime de acumulação dominado pelas finanças
						(“<italic>finance-dominated accumulation regime</italic>”) - tem se
					disseminado no mundo em função da adoção de políticas neoliberais a partir dos
					anos 1980 nas economias avançadas e a partir dos anos 1990 nas economias em
					desenvolvimento, respondendo a um conjunto de fatores que incluem: desregulação
					dos setores financeiros domésticos; proliferação de novos instrumentos
					financeiros (como securitização); liberalização dos fluxos de capitais
					internacionais; proliferação de investidores institucionais globais; e, ainda, o
					gerenciamento corporativo das firmas num comportamento conhecido como
					maximização do valor ao acionista (“<italic>maximization of shareholder
						value</italic>”) (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Stockhammer,
					2008</xref>).</p>
				<p>A financeirização pode ser definida de forma ampla como na conhecida definição de
						<xref ref-type="bibr" rid="B15">Epstein (2005</xref>, p. 3) como,
						“<italic>the increasing role of financial motives, financial markets,
						financial actors and financial institutions in the operation of the domestic
						and international economies</italic>”, e de <xref ref-type="bibr" rid="B25"
						>Krippner (2005</xref>, p. 174): “<italic>a pattern of accumulation in which
						profits accrue primarily through financial channels rather than through
						trade and commodity production</italic>”.</p>
				<p>Outras definições da financeirização colocam esse processo dentro de uma
					perspectiva histórica no qual como resultado da liberalização e globalização
					financeira, mais intensa a partir dos anos 1980, há uma crescente subordinação
					da lógica produtiva à lógica financeira no contexto de uma nova fase do
							capitalismo<sup><xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref></sup>.</p>
				<p>Para Lavapitsas (<xref ref-type="bibr" rid="B26">2011</xref>), a financeirização
					representa uma transformação sistêmica das economias capitalistas maduras com
					três características inter-relacionadas: as grandes corporações dependem menos
					dos bancos e adquiriram capacidades financeiras próprias; os bancos mudaram suas
					atividades para a intermediação em mercados financeiros abertos e transações com
					as famílias; por fim, as famílias se envolveram cada vez mais nas operações
					financeiras.</p>
				<p>Já para Gutman (<xref ref-type="bibr" rid="B18">2008</xref>) a financeirização é
					vista como integrante do regime de acumulação dominado pelas finanças, que tem
					como características principais o aumento da importância do setor financeiro em
					relação ao setor real (produtivo), gerando um descolamento entre o capital
					financeiro e o capital industrial; a transformação nas finanças, com
					diversificação das atividades bancárias, crescimento de investidores
					institucionais e existência de novos instrumentos financeiros; uma tendência de
					piora dos níveis de concentração de renda (funcional e pessoal), com declínio na
					parcela de lucros retidos para reinvestimento e aumento na parcela de lucros
					pagos aos acionistas, o que obriga os industriais a gerarem lucros às custas da
					compressão salarial; e, ainda, um aumento dos episódios de crises financeiras,
					pela criação de “bolhas” especulativas, impelidas por inovações financeiras e
					aumento de alavancagem dos investidores com financiamento bancário e
					derivativos.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B30">Powell (2013)</xref> ressalta que a teoria
					pós-keynesiana interpreta a financeirização ao nível da firma não-financeira
					como um fenômeno em que a busca por lucros financeiros se sobrepõe ao
					investimento em ativos físicos. Ademais, neste processo ocorrem mudanças na
					estrutura de governança corporativa das empresas (maximização do valor ao
					acionista), em que os lucros deixam de ser primordialmente reinvestidos na
					produção para serem distribuídos aos acionistas através de pagamentos de
					dividendos e participações. Para satisfazer os investidores das firmas e
					analistas de negócios, gerentes são impelidos a buscar maximizar o valor para o
					acionista, paralisando segmentos de retorno imediato baixo, realizando fusões e
					aquisições e compras hostis assim como terceirizando atividades produtivas. A
					financeirização tem beneficiado em particular gerentes das grandes corporações,
					cujas remunerações estão relacionadas ao desempenho a curto prazo da firma na
					forma de opções de compra de ações. Nos EUA, em particular, o enriquecimento de
					acionistas e executivos das firmas tem sido realizado em detrimento dos salários
					dos trabalhadores.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B28">Orhangazi (2008)</xref>, ao analisar o impacto
					da financeirização sobre a acumulação de capital real nos EUA com base em dados
					das firmas não-financeiras no período de 1973-2003, encontra uma relação
					negativa entre o investimento real e a financeirização. Assim, uma das razões
					pela qual se diz que as corporações não financeiras são financeirizadas é que
					elas estão cada vez mais envolvidas na acumulação financeira, da qual obtêm uma
					proporção crescente de renda financeira<sup><xref ref-type="fn" rid="fn8"
							>8</xref></sup>. Segundo o autor, esta relação pode ser explicada por
					dois canais: primeiro, o aumento do investimento financeiro e das oportunidades
					de lucro financeiro podem ter afastado o investimento real, alterando os
					incentivos dos gerentes das empresas e direcionando os fundos para longe do
					investimento real; segundo, o aumento dos pagamentos aos mercados financeiros
					pode ter impedido o investimento real ao diminuir os fundos internos
					disponíveis, encurtando os horizontes de planejamento da administração da
					empresa e aumentando a incerteza.</p>
				<p>Portanto, fica claro um comportamento rentista das empresas, no contexto de
					financeirização da economia, na busca de retornos imediatos de curto prazo para
					serem distribuídos aos acionistas, feito às expensas do investimento produtivo.
					Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B10">Crotty (2003)</xref> a financeirização
					no sentido da maximização do valor ao acionista gera um “paradoxo neoliberal”:
					as empresas não-financeiras se deparam com uma concorrência crescente nos
					mercados de produtos e ao mesmo tempo forte pressão dos acionistas por maiores
					retornos imediatos, de forma que os gestores ficam submetidos a pressões
					internas e externas por resultados de curto prazo.</p>
				<p>A financeirização aumenta o poder de firmas e instituições que derivam suas
					rendas de transações financeiras, representando assim a vitória dos “rentistas”.
					Os assalariados e as famílias, que em contrapartida testemunham a estagnação dos
					seus salários reais, têm aumentado seu grau de endividamento para sustentar seu
					poder de consumo. Nas palavras de Guttman (<xref ref-type="bibr" rid="B18"
						>2008</xref>),</p>
				<p><disp-quote>
					<p><italic>creditors get their interest payments, and financial intermediaries
							their fees and commissions. Add in capital gains, and you can begin to
							see that financial income has risen steadily as a share of the total,
							forcing industrialists to push for higher profits at the expense of
							stagnant, often even falling wage shares. This redistribution of
							functional income shares from wages via industrial profit to financial
							income is tied to a parallel shift in personal income distribution in
							favor of the richest among whom most of the financial assets are
							concentrated, as well as even more unequal distribution of wealth - a
							general trend among most industrial nations.</italic></p>
				</disp-quote></p>
				<p>Por fim, <xref ref-type="bibr" rid="B9">Coutinho e Belluzzo (2004)</xref>
					destacam que não só o investimento, mas também o consumo das famílias,
					detentoras de ativos financeiros, estão subordinados à lógica financeira em
					economias com sistemas financeiros desenvolvidos. Dada a peculiaridade das
					economias contemporâneas - onde a finança direta e securitizada é dominante - de
					alta sensibilidade das decisões de gasto das famílias e empresas a flutuações
					nos preços dos ativos financeiros, observa-se uma intensa e continuada
					valorização da riqueza financeira privada, que resulta tanto num aumento das
					decisões de consumo e de investimento dos agentes com graus crescentes de
					alavancagem no boom cíclico quanto em bolhas de ativos que podem no limite
					provocar graves colapsos financeiros e crises de difícil digestão.</p>
				<p>Portanto, em momentos de euforia, em que o preço dos ativos cresce, as empresas
					podem utilizar seu maior valor de mercado para tomar crédito e investir mais, ao
					mesmo tempo em que as famílias - detentoras de títulos e com acesso ampliado ao
					crédito - podem, a partir do efeito-riqueza, obter mais empréstimos e financiar
					o seu consumo, estimulando a demanda efetiva da economia. Contudo, quando o
					preço dos ativos financeiros cai, esses efeitos se tornam negativos, o que leva
					à redução do investimento e do consumo e consequente desaceleração
					econômica.</p>
				<p>Neste contexto, surge uma classe rentista expressiva em riqueza e poder político
					que representa uma camada da sociedade cujos interesses e rendimentos estão
					concentrados na acumulação financeira. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B8"
						>Bresser-Pereira (2018</xref>, p. 27), desde o final dos anos 1980 vem sendo
					criado um novo tipo de organização social que denomina de “capitalismo
					financeiro-rentista”, “uma sociedade em que os capitalistas são
					predominantemente rentistas, enquanto os altos tecnoburocratas são ou os mais
					altos executivos das companhias, ou os financistas”. Em tal organização social,
					os rentistas, em sua maioria herdeiros, substituíram os empresários na
					propriedade das grandes firmas, deixaram a administração das grandes empresas a
					cargo dos altos executivos profissionais ou tecnoburocratas, e contrataram outra
					categoria de profissionais, a dos financistas, originados da alta classe média e
					formados nos principais mestrados em administração de empresas, para gerir sua
					riqueza.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>5 Conclusão</title>
			<p>Este artigo analisou o rentismo e especulação financeira em Keynes e autores
				pós-keynesianos, buscando também analisar a temática tratada no contexto de uma
				economia globalizada e financeirizada. Em particular, o desejo do Keynes de uma
				gradual extinção do rentismo e um controle da atividade especulativa no mercado
				financeiro - tida como necessária para dar liquidez ao mercado secundário de
				títulos, mas que deveria ser limitada/regulada para evitar que movimentos excessivos
				de especulação produzissem crises - como condição necessária para que um crescimento
				sustentado que lograsse pleno emprego e financeiramente estável, acabou não
				acontecendo.</p>
			<p>De fato, o que se observa no contexto de um “<italic>rentier capitalism</italic>” ou
					“<italic>finance-led capitalism</italic>” é exacerbação de comportamentos
				rentistas e especulativos num mercado financeiro cada vez mais global, que acaba
				gerando frequentemente instabilidade econômica, potencializando a possibilidade de
				ocorrência de crises financeiras no contexto de uma cassino financeiro globalizado.
				Firmas são administradas para gerar lucros imediatos para seus acionistas e
				executivos, abrindo caminho para uma classe emergente de rentistas e financista. A
				financeirização aumenta poder de firmas e famílias que derivam suas rendas de
				transações financeiras, representando a ascensão do rentismo às custas dos
				trabalhadores assalariados, que enfrentam a estagnação dos salários reais com o
				aumento de dívida para atenuar a queda no consumo. Neste contexto, não se pode falar
				na eutanásia do rentista, mas sim na vitória do rentista na atual fase do
				capitalismo contemporâneo.</p>
			<p>Há evidência de que a financeirização reduz, significativamente, a autonomia dos
				Estados nacionais, seja para formular as políticas econômicas autônomas
				independentemente das condições internacionais, seja no que concerne a implementação
				de uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo consistente com as condições de
				produção e os interesses dos setores não-financeiros (<xref ref-type="bibr" rid="B3"
					>Becker et al., 2010</xref>). Em sua dimensão internacional, os constrangimentos
				a uma política econômica mais autônoma se relacionam à prerrogativa de investidores
				e rentistas - residentes e não-residentes - para movimentar livremente seus
				investimentos por todo um mundo financeiramente desregulamentado, que pune ou
				recompensa governos em função da adesão dos mesmos à agenda comumente conhecida como
				“neoliberal”. Nesse sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B29">Palley (2013</xref>, p.
				1) considera que</p>
			<p><disp-quote>
				<p><italic>simple alternative definition is that financialization corresponds to
						financial neoliberalism which is characterized by domination of the macro
						economy and economic policy by financial sector interests. According to this
						definition, financialization is a particular form of
					neoliberalism.</italic></p>
			</disp-quote></p>
			<p>Uma forma contemporânea de lidar com a exacerbação do rentismo no contexto do
				capitalismo determinado pelas finanças seria a adoção de políticas voltadas para a
				desfinancerização da economia. Neste sentido, Sawyer (2016) sugere tornar o sistema
				financeiro mais funcional ao desenvolvimento econômico e social através de uma
				política articulada entre bancos de desenvolvimento, bancos regionais, cooperativas
				financeiras locais, instituições de microcrédito, entre outras. Karwowski (2019),
				por sua vez, sugere que é necessário realizar mais pesquisas sobre a teoria e a
				prática da desfinanceirização se quisermos uma desfinanceirização mais profunda e
				generalizada, sendo de particular importância entender por que as instituições
				estatais seguem políticas predominantemente financeirizadas. Por enquanto, contudo,
				a certeza é que os desafios hoje enfrentados para domar o rentismo e os excessos das
				atividades especulativas parecem ainda maiores do que Keynes podia supor. De certo,
				“o trabalho não foi bem feito”.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>É importante destacar que globalização financeira e financeirização são processos
					relacionados porém distintos, pois, enquanto a financeirização é um fenômeno
					estrutural e mais amplo, a globalização financeira pode ser vista como a
					dimensão internacional (e impulsionadora) da financeirização, uma vez que a
					busca de obtenção de ganhos financeiros em praças financeiras desreguladas e
					livres acaba levando a um intenso movimento instável de capitais. Vistas de
					outra forma, globalizalização e liberalização financeira podem ser compreendidas
					como fatores que estimulam o processo de financeirização.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>A queda dos juros contribuiria para o aumento dos investimentos produtivos, ao
					permitir que projetos com menor eficiência marginal do capital sejam
					viabilizados. Além disso, a redistribuição de renda dos rentistas para o
					restante da sociedade contribuiria para o aumento da propensão média a consumir,
					elevando o efeito multiplicador de renda.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B24">Kregel (1986)</xref>, a partir de manuscritos de
					Keynes com proposições para o período pós-2ª Guerra Mundial para o Reino Unido,
					sustenta que ele sugeria que dois-terços ou três-quartos do total de
					investimentos dever ser sustentado ou influenciado por órgãos públicos ou
					semipúblicos, para dar sustentação a um programa de investimentos de longo
					prazo, capaz de reduzir as flutuações da economia.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Em diferentes trabalhos, Keynes distinguiu incerteza de eventos prováveis,
					especialmente em relação a decisões envolvendo a acumulação de riqueza e
					preferência pela liquidez. Por incerteza, ele entendia que “<italic>human
						decisions affecting the future, whether personal or political or economic,
						cannot depend on the strict mathematical expectation, since the basis for
						making such calculations does not exist</italic>” (<xref ref-type="bibr"
						rid="B23">Keynes, 2007</xref> p. 162-163), o que significa que
						“<italic>there is no scientific basis in which to form any calculable
						probability whatever. We simply do not know</italic>” (<xref ref-type="bibr"
						rid="B22">Keynes, 1973</xref>, p. 114).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>No caso das economias emergentes, busca-se entender a forma de inserção desses
					países no sistema financeiro internacional no contexto da globalização
					financeira e seus efeitos sobre essas economias e/ou analisar os efeitos
					provocados pela ampla liberalização da conta de capitais sobre a autonomia de
					política econômica das economias emergentes. Essa discussão, entretanto,
					extrapola os objetivos deste artigo. Ver, a respeito, numa perspectiva
					pós-keynesiana, <xref ref-type="bibr" rid="B4">Bonizzi (2017)</xref> e <xref
						ref-type="bibr" rid="B5">Bortz e Kaltenbrunner (2018)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Ver <xref ref-type="bibr" rid="B6">Boyer (2010)</xref> e <xref ref-type="bibr"
						rid="B19">Gutmann (2016)</xref>, entre outros. </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Cabe destacar o caráter pioneiro no estudo do processo de financeirização por
					parte de economistas brasileiras. Ver, entre outros, <xref ref-type="bibr"
						rid="B7">Braga (1997)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Entretanto, <xref ref-type="bibr" rid="B31">Rabinovich (2019)</xref> mostra
					evidências contrárias ao que ele denomina de hipótese da virada financeira da
					acumulação (“<italic>financial turn of accumulation hypothesis</italic>”),
					segundo o qual a razão pela qual as empresas não financeiras (NFCs) são
					financeirizadas é o fato de estarem cada vez mais envolvidas na acumulação
					financeira, da qual obtêm uma proporção crescente de renda financeira.
					Contrariando essa hipótese, o autor encontra que as receitas financeiras das
					empresas norte-americanas representam, em média, apenas 2,5% da receita total
					das NFCs desde 1980, oscilando desde o início da década de 1990 até 2005 e
					declinando a partir de então.</p>
			</fn>
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