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                <journal-title>Economia e Sociedade</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Economia e
                    Sociedade</abbrev-journal-title>
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            <issn pub-type="epub">1982-3533</issn>
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                <publisher-name>Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas;
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1982-3533.2025v34n3.276348</article-id>
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					<subject>Artigo original</subject>
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				<article-title>O novo comerciário: mais vigiado, mais conectado, com menos contato
					humano e maior esforço<sup>*</sup></article-title>
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					<trans-title>The new shop assistant: more surveilled, more connected, with less
						human contact and greater effort</trans-title>
				</trans-title-group>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-2597-3066</contrib-id>
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						<surname>Calvete</surname>
						<given-names>Cassio da Silva</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff1">**</xref>
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				<label>**</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Federal do Rio Grande do
					Sul</institution>
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					<named-content content-type="city">Porto Alegre</named-content>
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				<country country="BR">Brasil</country>
				<email>cassiocalvete@uol.com.br</email>
				<institution content-type="original">Professor Associado I da Universidade Federal
					do Rio Grande do Sul (UFRS), Porto Alegre, RS, Brasil</institution>
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			<author-notes>
				<fn fn-type="edited-by">
					<label>EDITOR RESPONSÁVEL PELA AVALIAÇÃO</label>
					<p><italic>Carolina Troncoso Baltar</italic></p>
				</fn>
			</author-notes>
			<!--<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
                <day>31</day>
                <month>07</month>
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				<year>2025</year>
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			<volume>34</volume>
			<issue>3</issue>
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					<year>2024</year>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Os Centros de Distribuição (CDs) são um dos espaços de trabalho que mais crescem
					em função do desenvolvimento da logística como técnica de distribuição e do
					comércio <italic>on-line</italic>. Nesse estudo iremos analisar as técnicas
					organizacionais, as estratégias e os expedientes utilizados para que os
					trabalhadores em Centros de Distribuição trabalhem de forma mais intensa,
					extensa e flexível. Constatamos que a intensificação do tempo de trabalho é
					obtida com as estratégias de imposição de metas e assimetria de informações,
					controle algoritmo e gamificado, trabalho fragmentado e vigiado e, por fim, pela
					sintonia do trabalho em diversas áreas. A linguagem do empreendedorismo e a
					disponibilização de espaços de lazer seguem a cultura do Vale do Silício, região
					dos Estados Unidos reconhecida como centro tecnológico, que visa o aumento da
					extensão da jornada, mas dando aparência que é opção do trabalhador. A
					distribuição do tempo de trabalho é obtida de forma discricionária pela empresa,
					com a contratação de terceirizados, particularmente em períodos de pico; com
					rearranjos da jornada de trabalho, com concessão de folgas sem remuneração e com
					a prática da rotatividade.</p>
				<p><bold>JEL</bold>: J29.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>Warehouses are one of the fastest growing workspaces due to the development of
					logistics as a distribution technique and online commerce. In this study we will
					analyze the organizational techniques, strategies and expedients used to make
					workers in warehouses work more intensively, extensively and flexibly. We found
					that the intensification of working time is achieved through the strategies of
					imposing targets and asymmetry of information, algorithmic and gamified control,
					fragmented and monitored work and finally, via synchronization of work in
					several areas. The distribution of working time is achieved at the discretion of
					the company with the hiring of outsourced workers, particularly in peak periods;
					with the practice of turnover and rearranging working hours, reduction working
					hours and granting time off without pay. The language of entrepreneurship and
					the provision of leisure spaces follow the culture of Silicon Valley that aims
					to increase the extension of the working day, but giving the appearance that it
					is the worker’s option.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras chave:</title>
				<kwd>Comerciários</kwd>
				<kwd>Tempo de trabalho</kwd>
				<kwd>Intensidade do trabalho</kwd>
				<kwd>Centros de Distribuição</kwd>
				<kwd>Gestão algorítmica</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Key words:</title>
				<kwd>Shop assistant</kwd>
				<kwd>Working time</kwd>
				<kwd>Labor intensity</kwd>
				<kwd>Warehouses</kwd>
				<kwd>Algorithmic management</kwd>
			</kwd-group>
			<counts>
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				<ref-count count="46"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>1 Introdução</title>
			<p>O objetivo deste estudo é desvelar as técnicas organizacionais, as estratégias e os
				expedientes utilizados para que os trabalhadores em Centros de Distribuição (CDs)
				trabalhem de forma mais intensa, extensa e flexível. Como meio de alcançar esse
				objetivo, apontamos as diferenças e as semelhanças da atual forma de organização do
				processo de produção dos CDs com as utilizadas nas formas de organizações
				anteriores, seja a fordista, seja a toyotista, no que diz respeito aos impactos nos
				tempos de trabalho. O estudo foca as principais atividades exercidas internamente
				nos CDs, que segundo <xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti (2021a)</xref> são:
					<italic>receive</italic> (receber), <italic>stow</italic> (armazenar),
					<italic>pick</italic> (pegar) e p<italic>ack</italic> (empacotar).</p>
			<p>Os CDs são alguns dos espaços de trabalho que mais crescem em função do
				desenvolvimento da logística como técnica de distribuição e do comércio
					<italic>on-line</italic>, impulsionados pelas novas tecnologias e técnicas
				organizacionais da produção fabril que se confundem com a prestação de serviços e o
				comércio (<xref ref-type="bibr" rid="B40">Salerno, 2022</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Amorim; Cardoso; Bridi, 2022</xref>). Os CDs são
				partes relevantes das empresas Operadoras de Logística que atendem a vinte setores
				econômicos e estão espalhados por todo o país com mais de mil empresas. São
				responsáveis por 2 milhões de empregos diretos e indiretos e tiveram receita bruta
				de 166 bilhões no ano de 2021. O crescimento do <italic>e-commerce</italic> fez com
				que 42% das Operadoras de Logística passassem a atender a esse mercado em 2021
				contra 26% no ano anterior (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Abol, 2022</xref>).</p>
			<p>O método utilizado neste artigo é uma revisão da literatura com a utilização da
				técnica de análise de conteúdo (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Moraes,
				1999</xref>), a fim de extrair dos estudos e pesquisas o máximo possível acerca dos
				impactos das técnicas organizacionais sobre o tempo de trabalho. A revisão da
				literatura se baseia principalmente em análises internacionais, tendo em vista a
				escassez de estudos realizados no Brasil. No entanto, toda bibliografia nacional
				pertinente foi incluída na revisão bibliográfica.</p>
			<p>O artigo é composto por cinco partes. A primeira é esta introdução. A segunda, que
				discorre sobre o crescimento dos CDs e discute se suas atividades são exercidas por
				uma nova categoria profissional ou por categorias antigas que tiveram suas
				atividades alteradas. Na terceira parte, descrevemos a forma de organização do
				processo de produção dos CDs e, na quarta parte, detalhamos os mecanismos,
				expedientes e as técnicas organizacionais utilizados para intensificar, estender e
				flexibilizar o tempo de trabalho. Por fim, apresentamos as considerações finais.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2 Crescimento dos Centros de Distribuição e a transformação de uma categoria
				profissional</title>
			<p>O crescimento do comércio <italic>on-line,</italic> ocorrido em razão da comodidade
				que ele oferece ao consumidor, da maior familiaridade que as pessoas vêm adquirindo
				com as novas tecnologias, do avanço das tecnologias e sua segurança, adicionado ao
				impulso dado pelos anos de pandemia da Covid-19, resultou no aumento do número e do
				tamanho dos Centros de Distribuição (CDs). Esses espaços são imprescindíveis para
				que o produto comprado chegue cada vez mais rápido e em melhores condições aos
				consumidores.</p>
			<p>Para Dörflinger, Pulignano e Vallas (<xref ref-type="bibr" rid="B22">2021</xref>), o
				crescimento do capitalismo global depende cada vez mais do trabalho dos
				trabalhadores em logística. Por conta disso, os CDs se espalham pelo mundo,
				concentrando as mercadorias em grandes estoques e transformando as lojas físicas em
				meros “<italic>Show Rooms</italic>”. Assim, vemos o surgimento e o crescimento de
				novos postos de trabalho, com suas particularidades, ligados à modalidade de venda
					<italic>on-line</italic> e exercidos em função dos CDs. Postos de trabalho de
				transporte, logística, entregas, armazenamento, programadores, gestores de tráfego,
				especialistas em TI, especialistas em publicidade e <italic>marketing</italic>
				digital são alguns deles (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Sandi, 2022</xref>).</p>
			<p>Essas oito ocupações citadas não são novas; até mesmo algumas já se acham
				especificadas no Código Brasileiro de Ocupações. O que é novo é a forma como elas
				são exercidas e geridas nos CDs que adotam intensamente as novas tecnologias, têm
				novas relações no âmbito da Cadeia Produtiva e da Cadeia Global de Valor e se valem
				dessas mudanças e da falta de conhecimento amplo sobre essas inovações para
				estabelecer novas relações de trabalho. O desconhecimento dos trabalhadores, da
				sociedade, dos legisladores, dos magistrados e dos acadêmicos sobre as “novas”
				tarefas e os “novos” postos de trabalho proporciona um vácuo de conhecimento e
				possibilita que empregadores de todos os ramos de atividade se furtem a seguir leis
				e normas, aproveitando para aumentar a intensidade, a extensão e a flexibilidade da
				jornada de trabalho.</p>
			<p>Nos CDs não é diferente, eles aproveitam as novas possibilidades de organização e as
				especificidades das atividades disponibilizadas pelas inovações tecnológicas, e
				propõem a criação de vínculos e regras inovadores para aprofundar a exploração do
				trabalho e a apropriação da mais-valia<sup><xref ref-type="fn" rid="fn1"
					>1</xref></sup>. No caso dos trabalhadores vinculados aos CDs, a falta de
				vínculos formais não chega a ser um grande problema; o que se observa é o não
				enquadramento dos trabalhadores em categorias com representações sindicais
				tradicionais e bem-organizadas, que fornecem uma proteção melhor aos trabalhadores
				da sua base através de bons acordos, com pisos da categoria e cláusulas que protegem
				contra a intensidade e a flexibilidade do tempo de trabalho<sup><xref ref-type="fn"
						rid="fn2">2</xref></sup>.</p>
			<p>No plano mais amplo das transformações da forma de organização do processo de
				produção, muitos autores tratam do surgimento de uma nova categoria de trabalhadores
				que surge com a Indústria 4.0. Entre os trabalhos mais influentes na literatura
				internacional, estão o de <xref ref-type="bibr" rid="B25">Huws (2003)</xref>, que
				cita uma nova subdivisão da classe trabalhadora, por ela denominada de Cibertariado,
				que são aqueles trabalhadores de colarinho branco que, em função da tecnologia da
				informação e comunicação, passam a ter suas tarefas rotinizadas. A autora opina que
				as novas tecnologias não visam eliminar o trabalho humano, mas sim torná-lo mais
				barato e disciplinado.</p>
			<p>Outro autor que tem destaque nessa discussão é <xref ref-type="bibr" rid="B43"
					>Standing (2011)</xref>, que trata em sua obra seminal do surgimento de uma nova
				classe social, por ele chamada de precariado. Sua análise vai para além do mundo do
				trabalho, mas tem suas raízes profundas no entendimento das novas ocupações,
				condições de trabalho e forma de inserção no mercado de trabalho, ou não, dos
				trabalhadores no processo produtivo e, por consequência, na sociedade.</p>
			<p>Ainda no plano internacional, é importante citar <xref ref-type="bibr" rid="B14"
					>Caruso (2017)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B23">Edwards e Ramirez
					(2016)</xref>. Estes apontam que os efeitos que estão ocorrendo no mundo do
				trabalho atualmente, e que se não houver uma regulamentação irão se aprofundar, são
				os mesmos experimentados no chamado toyotismo: um mercado de trabalho ainda mais
				segmentado, com diminuição dos postos de trabalho qualificados, bem remunerados,
				criativos e com autonomia, e um crescente número de trabalhadores precarizados e
				superexplorados, em postos rotinizados e desprovidos de autonomia e conteúdo.</p>
			<p>Entre os autores brasileiros que tratam do tema, <xref ref-type="bibr" rid="B1"
					>Abílio (2020)</xref>, utiliza a denominação “trabalhadores
					<italic>just-in-time</italic>” ao se referir aos trabalhadores em plataformas
				digitais que devem permanecer disponíveis por longas jornadas, sendo remunerados
				apenas pelo trabalho efetivamente demandado. Para a autora, o capital teria
				solucionado a histórica luta pela diminuição dos tempos mortos ao longo da jornada
				de trabalho com a estratégia de ter a força de trabalho constantemente à disposição,
				no entanto, só a usa quando necessário. <xref ref-type="bibr" rid="B11">Antunes
					(2020)</xref> ressalta o surgimento dos infoproletários, que são os
				trabalhadores que exercem atividades em alguma modalidade de trabalho digital. Ele
				classifica como uma nova natureza de assalariamento no setor de serviços, ou ainda,
				como um novo segmento do proletariado da indústria de serviços.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3 Forma de organização do processo de produção dentro dos CDs</title>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B38">Ribeiro (2022</xref>, p. 2), a forma de
				organização do trabalho dentro dos CDs da Amazon “...retomam uma estrutura
				semelhante à imagem clássica de um chão de fábrica, com atividades parcializadas,
				repetitivas e basicamente manuais...” e onde as principais atividades dos
				trabalhadores são: armazenar as mercadorias e pegar os produtos das prateleiras.
					<xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti (2021a)</xref>, ao analisar os CDs da
				Amazon, observa que o expediente taylorista de apropriação do conhecimento do
				trabalho pelos gerentes é agora realizado pela automação, permitindo o controle da
				intensidade e do fluxo do processo de trabalho. Dörflinger, Pulignano e Vallas
					(<xref ref-type="bibr" rid="B22">2021</xref>), ao se referirem à organização da
				cadeia de produção da logística onde se inserem os CDs, classificam as formas de
				organização do trabalho como sendo neotayloristas.</p>
			<p>São visões condizentes com a exposta por <xref ref-type="bibr" rid="B10">Amorim,
					Cardoso e Bridi (2022)</xref>, quando analisam o capitalismo de plataforma e os
				mecanismos de externalização da produção. Os autores afirmam que as plataformas
				digitais são a parte mais visível, mas também a prova do desenvolvimento da lógica
				industrial da produção de mercadorias, sejam elas produto ou serviço, material ou
				imaterial, tangível ou intangível. Nessa direção, eles avançam e redefinem o
				conceito que está no já clássico trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B42">Snerzic
					(2016)</xref> de Capitalismo de Plataforma e renomeiam de Capitalismo Industrial
				de Plataforma, indicando que essa seria a denominação mais correta, porque há uma
				radicalização da lógica produtiva industrial.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti (2021a)</xref>, ao estudar o maior CD da
				Amazon na Itália nos anos de 2017-2019, classificou em quatro os tipos de atividades
				exercidas internamente nos CDs: <italic>receive</italic> (receber),
					<italic>stow</italic> (armazenar), <italic>pick</italic> (pegar) e
					<italic>pack</italic> (empacotar).</p>
			<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti (2021a)</xref>, na primeira
				etapa, os trabalhadores descarregam, recebem e conferem as mercadorias, incluindo
				sua documentação. Eles identificam os produtos por meio de leitura de código de
				barras, verificando informações como quantidade, validade e peso. Nesse momento a
				mercadoria é registrada no <italic>Warehouse Management System (WMS)</italic>, que
				permitirá o acompanhamento da movimentação da mercadoria desde esse primeiro momento
				da sua chegada até o despacho para o cliente. Já nesse princípio, o WMS define para
				onde será direcionada a mercadoria, tendo em vista os espaços disponíveis e a
				adequação destes às características da mercadoria.</p>
			<p>Logo em seguida, na segunda etapa, encaminham para o próximo processo: o
				armazenamento. O trabalhador responsável pelo armazenamento fará a leitura do local
				em que o produto deverá ser depositado e a movimentação interna da entrada do CD até
				o local onde a mercadoria será armazenada em suas respectivas doca e prateleira. Por
				fim, depositará a mercadoria na sua posição (<xref ref-type="bibr" rid="B45">Totvs,
					2023</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti, 2021a</xref>; Vallas;
				Johnston; Mommadova, 2022).</p>
			<p>A terceira etapa é a separação, quando o trabalhador lê a localização da mercadoria,
				a encontra na prateleira, retira-a da prateleira, movimenta-a internamente e a
				entrega ao empacotador. A forma caótica, mas eficiente e funcional, que as
				mercadorias são armazenadas impede o trabalhador de conhecer a sua localização,
				obrigando-o sempre a recorrer ao s<italic>oftware</italic> para saber onde está a
				mercadoria. Essa situação faz com que o trabalho seja mecânico, físico e repetitivo,
				e torna o trabalhador absolutamente dependente do <italic>software</italic> e
				facilmente substituível. (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti, 2021a</xref>).
				Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti (2021a)</xref>, essa é a etapa em
				que a maioria dos trabalhadores ingressa na Amazon. O <italic>software</italic>
				determina quais objetos devem ser retirados, em qual sequência eles devem ser pegos
				e o tempo em que cada tarefa deve ser executada.</p>
			<p>A quarta e última etapa exercida no CD é realizada pelo empacotador, que recebe a
				mercadoria, checa a documentação e empacota-a para envio ao cliente. (<xref
					ref-type="bibr" rid="B45">Totvs, 2023</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17"
					>Delfanti, 2021a</xref>; Vallas; Johnston; Mommadova, 2022).</p>
			<p>Vallas, Johnston e Mommadova (2022) descrevem os CDs da Amazon com outra perspectiva,
				que junto com a descrição de <xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti
				(2021a)</xref>, ajuda a entender melhor o funcionamento deles. Eles apontam para a
				existência de trabalhadores em três níveis diferentes no interior do Centro de
				Distribuição. No nível 1 estão os trabalhadores que trabalham diretamente na
				operação dos Centros. Entre eles, há os permanentes e os temporários, e entre os
				permanentes eles subdividem entre aqueles em funções diretas e indiretas. Os
				trabalhadores temporários recebem menos benefícios ou mesmo nenhum, quando
				comparados aos permanentes. Entre os trabalhadores permanentes, os das funções
				diretas, que são a grande maioria, são submetidos a uma maior intensidade de
				trabalho por estarem sob vigilância direta do “<italic>software</italic>”. Eles são,
				segundo Defanti (2021a), os que trabalham com recebimento, estocagem, separação e
				empacotamento. Os trabalhadores classificados como indiretos têm seus tempos menos
				vigiados em comparação com os trabalhadores diretos, pelo fato de suas tarefas não
				serem tão facilmente “cronometradas”. Eles estão alocados em funções de treinamento,
				controle de qualidade e <italic>non-con</italic> (trabalhadores que lidam com
				mercadorias muito grandes ou de formato atípico) (Vallas; Johnston; Mommadova,
				2022).</p>
			<p>Acima do nível 1 estão os Assistentes de Processo, responsáveis pela supervisão
				imediata. Estes, por sua vez, são coordenados pelos Assistentes de Gerentes, que
				supervisionam os departamentos, sob o comando final dos Gerentes de Área. Estes
				supervisionam todo o prédio. Segundo Vallas, Johnston e Mommadova (2022), os CDs da
				Amazon podem empregar até 5 mil trabalhadores em diferentes funções.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>4 Os mecanismos utilizados para intensificar, estender e flexibilizar o tempo de
				trabalho</title>
			<p>Esta seção tratará das estratégias utilizadas por diferentes CDs para aumentar de
				forma significativa a apropriação da mais-valia. Embora esta seção não utilize
				exclusivamente exemplos dos CDs da Amazon, a maioria dos casos aqui relatados
				refere-se a essa empresa.</p>
			<p>Isso se deve à estratégia extremamente agressiva adotada por ela, que é uma das
				maiores empresas da atualidade, e que acarretou diversos problemas para seus
				trabalhadores, que vieram a público, motivando a mídia e a academia a se debruçarem
				sobre a atuação dessa empresa produzindo uma diversidade importante de material.
				Isso também é fruto da pouca quantidade de matérias produzidas sobre essa atividade
				econômica e seu gerenciamento e impacto nos trabalhadores do setor.</p>
			<sec>
				<title>4.1 Estratégias voltadas diretamente para o aumento da intensidade do
					trabalho</title>
				<p>A gestão algorítmica e a gamificação utilizam vários expedientes para interferir
					no tempo de trabalho dos trabalhadores. Cada estratégia impacta mais diretamente
					em uma das dimensões, no entanto, invariavelmente ela também impacta nas outras.
					A subdivisão em seções distintas para cada uma das três dimensões do tempo de
					trabalho (intensidade, extensão e distribuição) tem o caráter didático de
					enfatizar o principal impacto ou, pelo menos, o mais visível.</p>
				<sec>
					<title>4.1.1 Trabalho em sincronia das diversas áreas</title>
					<p>Os CDs se organizam de forma a que internamente, em cada setor, e
						externamente, entre setores, as tarefas sejam sincronizadas, fazendo com que
						cada setor e cada trabalhador dependam, para executar suas tarefas, que o
						outro setor ou trabalhador tenha realizado a sua. Essa organização se
						assemelha ao que já era praticado no <italic>just-in-time</italic>, no
						entanto, com uma sincronia mais afinada, pois executada sob a coordenação de
							<italic>softwares</italic>. Segundo Tech Vision (<xref ref-type="bibr"
							rid="B44">2020</xref>), um CEO da Amazon, descreveu o funcionamento dos
						CDs como “Uma sinfonia de humanos e máquinas trabalhando juntos”. Embora a
						descrição feita pelo CEO da Amazon sobre o funcionamento dos CDs passe a
						ideia de harmonia no trabalho, na prática, o ritmo das operações é ditado
						pelas máquinas, e não pelos trabalhadores, resultando em um ritmo
						frequentemente acelerado. Para <xref ref-type="bibr" rid="B18">Delfanti
							(2021b</xref>, p. 54), “Há um determinado ritmo que você precisa atingir
						e manter a partir da velocidade ditada pelo algoritmo que dá suporte ao
							<italic>software</italic> do inventário”.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>4.1.2 O trabalho fragmentado e vigiado</title>
					<p>Na medida em que toda circulação da mercadoria é rastreada pelo
							<italic>software</italic>, a circulação dos trabalhadores que
						transportam essas mercadorias também o é na mesma medida (<xref
							ref-type="bibr" rid="B29">Lecher, 2019</xref>). Com a utilização de
						equipamentos de sensor, robôs, algoritmos e inteligência artificial, cada
						etapa do fornecimento da cadeia de valor pode ser vigiada e medida; assim,
						os trabalhadores também têm todos os seus movimentos vigiados e medidos. A
						vigilância, aliada ao esvaziamento de conteúdo do trabalho e ao “domínio do
						conteúdo” pelo software, permite a intensificação do trabalho e a
						flexibilização da força de trabalho em prol do capital. <xref
							ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti (2021a)</xref> e <xref
							ref-type="bibr" rid="B28">Kelly (2021)</xref> descrevem como intenso o
						ritmo imposto pelo “maquinário” via vigilância por câmeras, controles
						algorítmicos e pelo sistema de rastreamento automatizado.</p>
					<p>São dois os tipos de medidas realizadas pelo sistema de vigilância: uma mede
						a velocidade com que o trabalhador exerce cada tarefa (<xref ref-type="bibr"
							rid="B39">Sainato, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17"
							>Delfanti, 2021a</xref>; Vallas; Johnston; Mommadova, 2022) e a outra
						mede o tempo que o trabalhador não está exercendo atividades produtivas.
						Nessa segunda é permitida, ou concedida, cinco minutos de inatividade
						(Vallas; Johnston; Mommadova, 2022). Dörflinger; Pulignano; Vallas (<xref
							ref-type="bibr" rid="B22">2021</xref>) apontam que nos dois CDs
						estudados na Alemanha, as medidas de produtividade calculadas são as
						coletivas, pois os sindicatos dos trabalhadores podem impedir a medição
						individual, enquanto os CDs da Bélgica e Holanda têm as medições coletivas e
						individuais. <xref ref-type="bibr" rid="B29">Lecher (2019)</xref> menciona o
						número excessivamente alto de trabalhadores demitidos no CD da Amazon nos
						EUA por não terem atingido as metas de produtividade estabelecidas.</p>
					<p>Segundo Vallas, Johnston, Mommadova (2022), a Amazon não confia apenas nos
						mecanismos coercitivos para controle do trabalhador, ela também adota outras
						formas de controle que, associados à coerção, buscam também a cooptação dos
						trabalhadores: o controle normativo, o controle relacional e o controle
						governamental. Os mecanismos coercitivos têm sua eficácia potencializada
						pela prática da empresa em exercer também a persuasão.</p>
					<p>O controle normativo ocorre mediante a concessão de prêmios e recompensas aos
						trabalhadores que constroem sua imagem de trabalhadores aplicados.
						Recompensas muitas das vezes associadas apenas ao reconhecimento, como
						divulgação do trabalhador com melhor <italic>performance</italic>. O
						controle relacional é construído a partir da contratação de trabalhadores
						com um histórico de trabalhos precários e aparentemente com pouco potencial
						para se colocarem no mercado de trabalho e que percebem na sua contratação
						um presente dado pela empresa; em troca, oferecem sua lealdade. O controle
						governamental consiste na aplicação de normas e regras que levam os
						trabalhadores a perceberem suas condições de trabalho como escolhas
						individuais, ao invés de imposições externas</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>4.1.3 Controle algorítmico e gamificação</title>
					<p>O aumento da intensidade de trabalho também é causado pela gamificação das
						atividades exercidas pelos trabalhadores, como acontece nas Empresas
						Plataformas como Uber, Ifood e Amazon Mechanical Turkei (<xref
							ref-type="bibr" rid="B44">Tech Vision, 2020</xref>). A alta intensidade
						do ritmo de trabalho tem como consequência o elevado número de trabalhadores
						que reportam lesões crônicas decorrentes de suas atividades laborais, como
						nas costas, joelhos, ombros, cotovelos e pés (Vallas; Johnston; Mommadova,
						2022; <xref ref-type="bibr" rid="B39">Sainato, 2020</xref>; <xref
							ref-type="bibr" rid="B44">Tech Vision, 2020</xref>).</p>
					<p>Para compreender como ocorre a gestão algorítmica do tempo de trabalho com o
						intuito de intensificá-lo, é necessário entender a gamificação. No jogo
							(<italic>Game)</italic> da vida real, as regras são definidas única e
						exclusivamente pelos algoritmos, e são frequentemente alteradas de forma
						discricionária pelas empresas, para o seu máximo favorecimento. A
						subjetividade do trabalhador é capturada pelo sistema algorítmico que,
						simulando um jogo, tal qual um <italic>videogame</italic>, utiliza metas e
						prêmios para induzir os trabalhadores a intensificarem seu ritmo de
						trabalho. Chegando ao paradoxo da programação algorítmica exercer um poder
						elevado de controle sobre o trabalhador sem que ele perceba que está sendo
						controlado (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Leme, 2020</xref>).</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>4.1.4 Imposição de metas e assimetria de informações</title>
					<p>A estratégia de utilização de Programas de Lucros e Resultados (PLR) cresceu
						sobremaneira a partir dos 1970 na forma de organização do processo de
						produção conhecido como toyotista, e com ele também o “exagero” das metas
						impostas aos trabalhadores. Portanto, esse não é um expediente novo
						utilizado para a intensificação do tempo de trabalho; o que o diferencia nos
						processos produtivos atuais, que utilizam Inteligência Artificial,
						algoritmos e <italic>softwares,</italic> é o acesso à informação, pois os
						tempos e números de tarefas de cada um e do coletivo são de domínio do
							<italic>software</italic> e, portanto, da empresa. Também em muitos
						casos a meta é estabelecida pela média, ou até mesmo pelo extremo obtido
						pelo trabalhador mais “eficiente”. Vamos analisar o caso da exigência de que
						cada trabalhador atinja a média do coletivo. Cada vez que a empresa exige
						que o(s) trabalhador(es), que está abaixo da média da equipe, eleve sua
							<italic>performance,</italic> ela faz com que a média se eleve e joga
						outro(s) trabalhador(es) para baixo da média; estes terão de se esforçar
						para atingir a nova média.</p>
					<p>Para além da intensidade imposta pelo próprio expediente das metas, que
						invariavelmente são extremas, e da frequente prática de metas sobre metas, a
						assimetria de informação é utilizada para levar cada trabalhador até o seu
						limite do esforço físico (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti,
							2021a</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B28">Kelly, 2021</xref>; <xref
							ref-type="bibr" rid="B8">Amba; Sarah, 2023</xref>). As programações dos
						algoritmos e <italic>softwares</italic> de gestão dos CDs são feitas pelas
						empresas ou contratadas por elas. Logo, a forma como são elaboradas, a
						definição de critérios de avaliação e as métricas a serem utilizadas são de
						conhecimento da empresa empregadora, mas não de conhecimento do
						trabalhador.</p>
					<p>
						<xref ref-type="bibr" rid="B27">Katsabian (2023)</xref> afirma que com a
						gestão algorítmica, a balança do poder pende ainda mais para o empregador;
						este tem acesso às informações sobre todos os trabalhadores de forma
						individual e coletiva, e com tempo e profissionais especializados para
						estudá-las (calcular média, desvio padrão, variância, moda etc.) e tirar o
						melhor proveito da sua utilização. Em contrapartida, os trabalhadores não
						sabem exatamente quais informações geradas por eles são recolhidas e, muito
						menos, como são utilizadas. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B7"
							>Adams-Prassl et al. (2023)</xref>, a gestão algorítmica utiliza as
						informações recolhidas dos trabalhadores para dar suporte ou mesmo
						determinar vários aspectos das relações de trabalho, como contratação,
						remuneração, promoções e a extensão e a intensidade do tempo de
						trabalho.</p>
					<p>Associado a essas estratégias, e como agravante das exigências impostas aos
						trabalhadores, está o elevado percentual de rotatividade do setor (que será
						vista na próxima subseção). A cada entrada de novos trabalhadores, com mais
						energia e disposição de iniciante, a média da produtividade se eleva,
						tornando o trabalho mais intenso.</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec>
				<title>4.2 Estratégia voltada diretamente para o aumento da extensão da jornada de
					trabalho</title>
				<p>O ritmo de trabalho extremamente intenso imposto pelas diversas estratégias
					vistas anteriormente impedem, ou pelo menos inibem, o aumento da extensão da
					jornada de trabalho de forma significativa. O desgaste físico dentro da jornada
					normal de trabalho é tanto, que impor jornadas mais extensas se tornaria
					contraproducente e por demais desgastante.</p>
				<p>A essas observações podemos acrescentar o exposto por <xref ref-type="bibr"
						rid="B17">Delfanti (2021a)</xref>, para termos um cenário mais completo e
					complexo do ambiente nos CDs da Amazon. Esse autor destaca a linguagem do
					empreendedorismo utilizada para cooptação e motivação dos trabalhadores. Nos
					locais de trabalho há paredes pintadas com frases motivacionais como
						“<italic>Work hard. Have fun. Change the world</italic>” (<xref
						ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti, 2021a</xref>).</p>
				<p>Associada à linguagem empresarial e aos controles citados por Vallas, Johnston e
					Mommadova (2022), tem-se também a cultura do Vale do Silício, ou melhor, a
					cultura que surgiu e que é imposta no Vale do Silício, amplamente difundida por
					empresas como Google e Facebook. São disponibilizados nos CDs da Amazon, para
					seus trabalhadores utilizarem quando da entrada e saída dos turnos, ambientes
					coloridos, espaços de relaxamento, <italic>junk food free</italic>, mesas de
					pingue-pongue e outros jogos, como forma de tornar, ou aparentar, o espaço de
					trabalho um ambiente de prazer, sugerindo que os trabalhadores são os únicos
					responsáveis por administrarem seu tempo de trabalho e de lazer.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>4.3 Estratégias voltadas diretamente para o aumento da flexibilidade da
					jornada trabalho</title>
				<p>A dimensão da distribuição da jornada de trabalho também é muito explorada pelos
					CDs, assim como a dimensão da intensidade. Chama atenção a enorme flexibilidade
					do setor (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti, 2021a</xref>; <xref
						ref-type="bibr" rid="B36">Politi; Ghiglione, 2017</xref>; <xref
						ref-type="bibr" rid="B15">Cillo; Pradella, 2017</xref>), que se efetiva de
					distintas formas, seja pela rotatividade, seja pela significativa contratação de
					terceirizados ou pelo rearranjo da jornada de trabalho.</p>
				<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B18">Delfanti (2021b</xref>, p. 54): “Há uma
					rotatividade muito alta de trabalhadores: eles tendem a durar de quatro meses a
					poucos anos na função, o que é estimulado pela própria Amazon, por causa dos
					limites físicos e psicológicos desse ritmo de trabalho”. A alta rotatividade é
					viabilizada pela padronização das tarefas que devem ser executadas. O
					conhecimento do trabalhador é repassado ao <italic>software</italic>, que passa
					a controlar tudo e a ter registro de todas as posições dos bens armazenados.
					Essa apropriação do conteúdo do trabalho, por parte do sistema, esvazia o
					conteúdo do trabalho do trabalhador, tornando as tarefas mais simples e
					repetitivas, afetando assim o poder de barganha do trabalhador e diminuindo o
					seu salário. Essa combinação de trabalhador fragilizado e trabalho simplificado
					permite à empresa utilizar a rotatividade como um instrumento de pressão e ao
					mesmo tempo de renovação da mão de obra (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Kelly,
						2021</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">Delfanti, 2021a</xref>).</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B14">Caruso (2017)</xref>, <xref ref-type="bibr"
						rid="B16">Contino (2017)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B23">Edwards e
						Ramirez (2016)</xref>, ao analisarem as habilidades empregadas pelas
					empresas que já introduziram as inovações da Quarta Revolução Industrial,
					afirmam que as competências necessárias, chamadas <italic>soft skills</italic>
					(uma sólida formação na língua materna, bom conhecimento de matemática,
					criatividade, proatividade, linguagem digital e domínio de mais de um idioma),
					são necessárias apenas para uma parcela pequena da classe trabalhadora,
					aprofundando um movimento que já se verificava desde os anos 1970. Seja na linha
					adotada da Terceira Revolução Industrial, que ampliou os trabalhadores que atuam
					na franja das grandes empresas (fora do núcleo duro), como terceirizados,
					autônomos, estagiários, temporários, entre outros, seja numa nova versão, a de
					trabalhadores de plataformas. A simplificação do trabalho faz parte de um
					movimento que apresenta avanços e recuos ao longo da história da organização do
					processo de produção (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Calvete, 2022</xref>). A
					organização fordista seguiu a tendência de simplificar o conteúdo do trabalho,
					que já ocorria deste antes da Primeira Revolução Industrial, sendo tão só
					aprofundado. No toyotismo, houve um duplo movimento: por um lado, diminuiu o
					número de trabalhadores qualificados e ampliou a qualificação desses
					trabalhadores que compunham o núcleo duro das empresas, e por outro, ampliou a
					utilização de trabalhadores precarizados e com pouca qualificação. Na Quarta
					Revolução Industrial esse movimento do toyotismo se aprofunda e, na divisão do
					trabalho, os CDs vão contratar majoritariamente a mão de obra com baixa
					qualificação que são mais facilmente substituídas.</p>
				<p>Outro expediente muito utilizado pelos CDs para o aumento da flexibilidade da mão
					de obra é a contratação de terceirizados. A contratação de terceirizados é
					utilizada corriqueiramente, mas ela se intensifica nos períodos de pico (natal,
					dia das mães, <italic>black Friday</italic>, etc.). Nesses períodos são
					contratados relativamente mais terceirizados, que imprimem forte ritmo, tentando
					mostrar serviço para serem contratados diretamente e por tempo
					indeterminado.</p>
				<p>Vallas, Johnston e Mommadova (2022) descrevem duas formas de rearranjo da jornada
					de trabalho que são novidades implantadas pelo setor. A primeira delas é que a
					cada três meses, são concedidas vinte horas não pagas para o trabalhador alocar
					onde ele quiser (chegar atrasado, sair mais cedo, não ir em um dia específico
					etc.). A segunda, conhecida como <italic>voluntary time off,</italic> quando a
					empresa permite que um certo número de trabalhadores saia mais cedo. Mesmo esse
					tempo não sendo remunerado, ele é muito desejado pelos trabalhadores, que
					esporadicamente podem sair mais cedo do trabalho. Normalmente, são elegíveis
					para esses benefícios aqueles trabalhadores que mantêm um bom
						<italic>status</italic> na visão da empresa.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B18">Delfanti (2021b</xref>, p. 54) também aponta
					“(...) a incrível flexibilidade de horários exigida dos trabalhadores para que
					os turnos possam ser designados em uma lógica praticamente diária, dependendo da
					demanda prevista pela Amazon para cada dia (...)”. Essa imprevisibilidade da
					jornada de trabalho, segundo o autor, é um dos motivos citados como responsável
					pela decisão do trabalhador de se afastar da empresa.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>5 Considerações finais</title>
			<p>É importante destacar a grande similaridade das estratégias utilizadas pelos CDs para
				aumentar a extração de mais-valia com as estratégias utilizadas pelas empresas de
				plataformas, um setor mais estudado, com uma discussão mais avançada na sociedade e
				com alguns avanços na sua regulamentação e na melhoria das condições de trabalho ao
				redor do mundo. Essa similaridade ocorre em parte pelo intenso uso das novas
				tecnologias no gerenciamento (inteligência artificial, softwares, algoritmos,
				vigilância etc.) e, em parte, pela hegemonia de uma visão gerencial originária do
				Vale do Silício</p>
			<p>As empresas de logística, e particularmente os Centros de Distribuição, que são o
				objeto deste estudo, utilizam as novas tecnologias e esse novo tempo de hegemonia do
				discurso empresarial para aumentar a apropriação de mais-valia via intensificação,
				flexibilização e extensão do tempo de trabalho, focando principalmente nas duas
				primeiras dimensões do tempo de trabalho.</p>
			<p>A intensificação do tempo de trabalho é obtida com as estratégias de imposição de
				metas e assimetria de informações, controle algorítmico e gamificado, trabalho
				fragmentado e vigiado e, por fim, pela sintonia do trabalho em diversas áreas. A
				flexibilização do tempo de trabalho é obtida de forma discricionária pela empresa
				com a contratação de terceirizados, particularmente em períodos de pico; com a
				prática da rotatividade e com rearranjos da jornada de trabalho com concessão de
				folgas sem remuneração. A linguagem do empreendedorismo e a criação de espaços de
				lazer seguem a cultura do Vale do Silício e têm como objetivo aumentar a extensão da
				jornada, mas com a aparência de que essa é uma escolha do trabalhador.</p>
			<p>É necessário realizar mais estudos para acompanhar o desenvolvimento desse novo setor
				no Brasil. Os Centros de Distribuição tornaram-se parte importante das Cadeias
				Globais de Valor e são estratégicos para aumento dos ganhos de competitividade das
				empresas. O setor de logística é fundamental para que os produtos cheguem de forma
				mais rápida e eficiente aos consumidores e, sem regulação sindical e estatal, é
				evidente que essa necessidade de aceleração do tempo de entrega das mercadorias se
				reflita na aceleração do ritmo de trabalho, causando consequências nefastas aos
				trabalhadores e à sociedade.</p>
			<p>Vale lembrar o desastre que foram os tempos de trabalho impostos nos frigoríficos,
				particularmente de frango, na década de 2000, resultando num exército de mutilados
				que, para além do drama pessoal e familiar, foi um enorme custo para a sociedade.
				Esta viu milhares de trabalhadores, ainda em idade ativa, passarem à proteção da
				previdência social (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Carne e Osso, 2011</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B37">Rambaldi, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B31"
					>Marra; Souza; Cardoso, 2013</xref>).</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>A mais-valia nos CDs se insere na discussão da apropriação da mais-valia do setor
					do comércio tratada por <xref ref-type="bibr" rid="B32">Marx (1983</xref>, p.
					221): “A relação do capital comercial com a mais-valia é diferente da relação do
					capital industrial com a mais-valia. Este último produz a mais-valia mediante
					apropriação direta de trabalho alheio não-pago. O primeiro se apropria de parte
					dessa mais-valia ao fazer com que essa parte seja transferida pelo capital
					industrial a ele”. Portanto, não se está falando de acréscimo total da extração
					de mais-valia, mas apenas de aumento da apropriação da mais-valia por parte do
					comércio. Entendemos que as atividades laborais exercidas nos CDs se enquadram
					na categoria de atividades do comércio e, portanto, o estudo se utiliza da ideia
					de apropriação da mais-valia pelo comércio conforme descrita anteriormente. Por
					essa mesma razão, não tratamos da discussão teórica realizada pela “Economia do
					Conhecimento” da centralidade do trabalho imaterial e da forma como ocorre a
					mais-valia no trabalho imaterial. Para se aprofundar nessa discussão, ver: <xref
						ref-type="bibr" rid="B35">Oliveira e Filgueiras (2020)</xref>; <xref
						ref-type="bibr" rid="B9">Amorim (2014)</xref> e <xref ref-type="bibr"
						rid="B19">Dal Rosso (2008)</xref>. </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>No atual artigo não iremos tratar do papel do estado e dos sindicatos na
					regulação do tempo trabalho por meio de alterações na legislação trabalhista e
					em contratos coletivos para melhor se adequar às novas formas de organização do
					processo de produção. Para quem tiver interesse na discussão desse tema,
					consultar: <xref ref-type="bibr" rid="B20">Dal Rosso (2017)</xref>; <xref
						ref-type="bibr" rid="B21">Dal Rosso, Cardoso, Calvete e Krein (2022)</xref>;
						<xref ref-type="bibr" rid="B5">Academia Brasileira de Ciências
					(2023)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">Abraha (2022)</xref>; <xref
						ref-type="bibr" rid="B4">Abraha (2023)</xref>; Adams-Prassl, Abraha,
					Kelly-Lyth, Silberman e Rakshita (2023).</p>
			</fn>
		</fn-group>
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