Editorial
Contribuições da Psicologia no contexto da Pandemia da COVID-19: seção temática
Contributions of Psychology in the context of the COVID-19 Pandemic: Thematic section
A humanidade tem enfrentado ao longo dos séculos diversas epidemias e pandemias, sendo muito lembrada a Peste Negra na Europa do século XIV, e mais recentemente, a Severe Acute Respiratory Syndrome (SARS, Síndrome Respiratória Aguda Grave) e a Middle East Respiratory syndrome coronavirus (MERS, Síndrome Respiratória do Oriente Médio), surgidas na China e no Oriente Médio, respectivamente. Frente à terceira pandemia do século XXI, agora causada pelo Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2, Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2), procuramos aprender com a experiência de povos acometidos por doenças que dizimaram suas populações (Peeri et al., 2020). Esses eventos podem ser também oportunidades de revisões de práticas culturais e geração de conhecimentos científicos, assim como ocorrem com situações de guerra, a exemplo do desenvolvimento de áreas como a Medicina, a Fisioterapia, a Terapia Ocupacional, a Psicometria, a Psicologia da Saúde, especialmente após a II Guerra Mundial (Souza & Faro, 2011). Campos de conhecimentos ligados à Comunicação de Massa, o uso das Artes e da Propaganda, como forma de promover ações políticas no combate a doenças são vistos nesses tempos difíceis em diversos países (Yan, Tang, Gabriele, & Wu, 2016).
O que nos diferencia diante da nova pandemia da Coronavirus Disease 2019 (COVID-19), identificada em 30 de dezembro de 2019, na província de Wuhan na China, que está acometendo praticamente todos os povos do planeta?
Podemos afirmar que, pela primeira vez, temos uma ciência mais avançada no conhecimento sobre Epidemiologia, Genética, Infectologia, Ciências de Dados e Psicopatologia baseada em evidências, assim como meios de comunicação nunca imaginados, como a Internet. Temos um organismo de âmbito mundial, a Organização Mundial da Saúde, que procura concentrar e orientar os países sobre como proceder de forma mais segura e efetiva (World Health Organization, 2020).
Não precisamos somente contar os mortos, como se fosse um flagelo divino, permitindo-nos arriscar perguntas relevantes voltadas para os cuidados com os sobreviventes, acometidos ou não pela COVID-19. Perguntas, análises e proposições têm sido dirigidas para as práticas culturais e os cuidados com a saúde, sobre o ensinar e aprender nessa nova realidade, para as mudanças no trabalho e na economia, e particularmente sobre as vulnerabilidades e capacidade de resiliência de povos e pessoas. Assim, especialistas, cientistas, chefes de nações foram chamados em suas responsabilidades para ajudar a entender e lidar com esse cenário que deixa órfãos milhares de pessoas todos os dias desde janeiro de 2020.
Apesar dos avanços, até de certo modo rápido, na compreensão do funcionamento do próprio coronavírus, contando inclusive com a participação de cientistas brasileiros (Jesus et al., 2020), assim como para o tratamento dos casos mais graves (Beigel et al., 2020), a quarentena e o isolamento social são as recomendações mais eficientes que temos até o momento, em que uma vacina não está disponível (Liang, 2020).
Essas grandes alterações abruptas no modo de viver o cotidiano associadas aos efeitos sistêmicos da pandemia no corpo, em particular no cérebro e na cognição (Holmes et al., 2020), levam a questão da saúde mental ao topo das preocupações. Da mesma forma, demandam ações integradas entre as diversas áreas de conhecimento (Holmes et al., 2020).
Como bem identificamos no artigo desta seção temática, “... o corpo de conhecimentos sobre os aspectos psicológicos das pessoas, no contexto da pandemia, precisa ser construído” (Linhares & Enumo, 2020, p.2). Precisamos obter dados de qualidade sobre os efeitos diretos e indiretos na saúde mental da população e, em especial, em grupos vulneráveis, como idosos, crianças, portadores de deficiências, pessoas com doenças crônicas, profissionais de saúde.
Considerando a rapidez do curso natural dessa doença, o que temos como forma de gerar conhecimento para ajudar nesse esforço conjunto para ajudar as pessoas e as políticas públicas são os estudos de revisões da literatura. Em questão de um a dois meses, periódicos científicos começaram a disponibilizar estudos mostrando a possibilidade de ocorrência de sintomas de estresse pós-traumático, confusão mental e raiva (Brooks et al., 2020). Colaboramos com essas iniciativas apresentando estudos de revisões, abordando as alterações psicológicas associadas à COVID-19, com recomendações para a população em geral e para profissionais de saúde (Faro et al., 2020; Oliveira, Oliveira-Cardoso, Silva, & Santos, 2020; Schmidt, Crepaldi, Bolze, Neiva-Silva, & Demenech, 2020; Zanon, Dellazzana-Zanon, Wechsler, Fabretti, & Rocha, 2020), com destaque para uma condição extrema, que é o lidar com o luto (Crepaldi, Schmidt, Noal, Bolze, & Gabarra, 2020).
No momento atual, já temos dados mostrando quadros de ansiedade, medo, depressão e pânico, além de preocupações relativas à sua disseminação e implicações psicossociais e afetivas (Do Bú, Alexandre, Bezerra, Sá-Serafin, & Coutinho, 2020; Holmes et al., 2020; Maia & Dias, 2020). Faltam, porém, mais estudos sobre os impactos no desenvolvimento psicológico de crianças (Linhares & Enumo, 2020; Moratori & Ciacchini, 2020). Procurando preencher essa lacuna, apresentamos nesta seção temática um ensaio com reflexões sobre fundamentação teórica-conceitual e evidências científicas que podem ser aplicadas e generalizadas, para compreensão e intervenções na infância (Linhares & Enumo, 2020).
A necessidade de gerar produtos aplicáveis para a população geral levou pesquisadores a transformarem o conhecimento científico da Psicologia, particularmente na área do estresse e seu enfrentamento (Skinner & Zimmer-Gembeck, 2016). A popularização da ciência passou a ser prioritária, por meio de cartilhas e guias (Alvarenga, Silva, Coutinho, Freitas, & Soares, 2020; Enumo, Weide, Vicentini, Araujo, & Machado, 2020; Zamora et al., 2020), com ênfase nas proposições da Psicologia Positiva (Zanon et al., 2020) e práticas associadas às Ciências Contemplativas, como a meditação e o mindfulness (Dorjee, 2016).
O contexto da pandemia tem exigido mudanças nas práticas profissionais da Psicologia, em termos de avaliação e intervenções. Mudam assim, os locais de atuação e de pesquisa do psicólogo, com predomínio de atividades online (Marasca, Yates, Schneider, Feijó, & Bandeira, 2020; McCord, Bernhard, Walsh, Rosner, & Console, 2020).
Esses temas são abordados na revista Estudos de Psicologia (Psychological Studies) Campinas, no volume 37, 2020, que apresenta 10 artigos que compõem a Sessão temática: “Contribuições da Psicologia no contexto da Pandemia da COVID-19”, com colaboração de autores nacionais e internacionais. Até este momento, esta seção temática é a primeira publicação nacional em língua portuguesa sobre aspectos psicológicos importantes para a compreensão e intervenção na área. Esperamos contribuir com o conhecimento científico da Psicologia para enfrentar a pandemia e suas repercussões.
Enumo, S. R. F., & Linhares, M. B. M. (2020). Contribuições da Psicologia no contexto da Pandemia da COVID-19: seção temática. Estudos de Psicologia (Campinas), 37, e200110. https://doi.org/10.1590/1982-0275202037200110e
Correspondência para/Correspondence to: S.R.F. ENUMO. E-mail: sonia.enumo@puc-campinas.edu.br