Carátula del artículo
Estresse térmico ambiental e termorregulação em jogadores de futebol: uma
revisão sistemática
Environmental thermal stress and thermoregulation in soccer players: a
systematic review
Estrés térmico ambiental y termorregulación en jugadores de fútbol: una
revisión sistemática
Leonardo Mateus Teixeira de Rezende
Universidade Federal de Viçosa, Brasil
Miguel Araújo Carneiro-Júnior
Universidade Federal de Viçosa, Brasil
Antônio José Natali
Universidade Federal de Viçosa, Brasil
Thales Nicolau Prímola-Gomes
Universidade Federal de Viçosa, Brasil
Revista Brasileira de Ciências do Esporte, vol. 41, núm. 1, 2019
Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Recepção: 17 Agosto 2016
Aprovação: 19 Junho 2018
Publicado: 27 Agosto 2018
Introdução
O estudo dos efeitos do estresse térmico ambiental sobre o desempenho humano nas
diferentes tarefas, dentre elas as práticas esportivas e de atividades físicas em geral,
tem ganhado cada vez mais relevância (Nybo et al.,
2017). Tal atenção se dá, por exemplo, devido às mudanças climáticas que têm
ocasionado constantes ondas de calor ao redor do mundo que podem causar danos à saúde
humana (Nybo et al., 2017; Argaud et al., 2007; Ebi et al.,
2004). No caso do futebol, a Copa do Mundo de 2014 no Brasil chamou a atenção
devido à grande diversidade climática/ambiental do país (Nassis et al., 2015). A Confederação Brasileira de Futebol também tem dado
atenção aos efeitos do estresse térmico ambiental sobre o desempenho de jogadores,
principalmente devido ao fato de que recentemente alguns jogos do Campeonato Brasileiro
da Série A passaram a serem realizados às 11h. Nesses casos, algumas perguntas podem ser
feitas. Por exemplo, existem diferenças no desempenho se uma partida for disputada a 15
°C, 25 °C ou 35 °C? Quais estratégias poderiam ser adotadas pelos profissionais das
comissões técnicas para aprimorar o desempenho nessas situações? Em face disso, o
conhecimento da termorregulação em jogadores de futebol, bem como de suas respostas ao
estresse térmico ambiental, é um fator importante a ser considerado no desenvolvimento
de estratégias e na melhoria das condições da prática do esporte.
O futebol é um esporte caracterizado por uma série de atividades intermitentes, seguidas
de curtos espaços de recuperação, o que torna complexo o entendimento de suas
necessidades fisiológicas (Drust et al., 2000).
Além disso, é um esporte praticado em ambiente aberto e sofre interferência direta das
condições ambientais locais. Por exemplo, o calor/umidade e o frio/altitude são
condições ambientais que, entre outras, poderão interferir no desempenho dos jogadores
(No e Kwak, 2016).
Diversos fatores precisam ser entendidos na busca da manutenção da homeostase corporal
do atleta. Dentre esses, o entendimento do controle da temperatura corporal durante o
jogo em diferentes condições de estresse térmico ambiental deve ser levado em
consideração, uma vez que o estresse térmico ambiental comprovadamente interferirá nessa
variável e, consequentemente, no desempenho esportivo (Carling et al., 2011; Ozgunen et al.,
2010; Mohr et al., 2012). A temperatura
corporal durante a prática esportiva será uma resultante entre o ganho e a perda de
calor, sua regulação se dará por meio de mecanismos autonômicos e comportamentais (Adams et al., 1975; Cheung, 1998). Ambos os mecanismos serão ajustados e regulados de acordo com
as condições ambientais (ex. calor, frio, umidade relativa do ar – URA etc.) e da
duração/intensidade do esporte em questão (ex. número de sprints,
duração fixa ou variável, percepção do esforço, etc.) (Gonzalez-Alonso, 1999; Schladern et al.,
2011).
Em relação aos mecanismos autonômicos termorregulatórios durante a prática esportiva, a
temperatura central1 aumentará, principalmente
devido à maior produção metabólica de calor (Edwards e
Clark, 2006). Assim, a evaporação do suor a partir da pele será o principal
mecanismo de dissipação, principalmente durante as práticas esportivas em ambientes
quentes (ex. 35 °C) (Edwards e Clark, 2006). Além
disso, se a prática for feita em um local onde exista a combinação de elevação da
temperatura ambiente e da URA (ex. 35 °C e 80% URA), haverá uma limitação da capacidade
de perda por meio da evaporação de suor, o que dificulta ainda mais a manutenção da
temperatura central em limites adequados (Ozgunen et
al., 2010). Como exemplo, podem ser citados os jogos em Manaus durante a Copa
do Mundo do Brasil. Além disso, aliado ao acúmulo de calor, a desidratação2 devido à perda hídrica via sudorese representará uma
preocupação para o jogo em ambiente quente, pode promover, entre outros, a perda de
massa corporal e, consequentemente, de desempenho (Shirreffs et al., 2005). Vale destacar que o nível da desidratação está
diretamente associado ao aumento da temperatura central durante o exercício físico
(Maughan et al., 2005). Por outro lado, no
exercício físico feito em ambiente frio (ex. -5 °C), a capacidade de produzir contrações
rápidas e a eficiência mecânica estarão diminuídas durante a prática esportiva (Carling et al., 2011). Poderá ocorrer a redução da
perfusão tecidual de O2 devido à vasoconstrição generalizada (Werner e Reents, 1980; Hanna et al., 1975), que atuará principalmente de forma a diminuir o
fluxo sanguíneo cutâneo (periférico) para conservar calor e manter a temperatura central
(Hanna et al., 1975; Veicsteinas et al., 1982).
Em relação aos mecanismos comportamentais termorregulatórios durante a prática
esportiva, sabe-se que a intensidade e a taxa de trabalho serão autoajustadas e estarão
diretamente relacionadas à percepção subjetiva do esforço necessário para completar a
tarefa em questão (Schladern et al., 2011), por
exemplo os 90 minutos do jogo de futebol. Assim, o acúmulo de calor diminuirá a
capacidade de fazer sprints e de percorrer maiores distâncias em
corridas de altas intensidades, principalmente em ambientes quentes (Nassis et al., 2015).
Dessa forma, pode-se perceber que a termorregulação é uma variável diretamente
relacionada ao desempenho esportivo. Como o futebol é o esporte mais popular e mais
praticado no mundo, o entendimento das respostas termorregulatórias autonômicas e
comportamentais dos jogadores ao estresse térmico ambiental emerge como um fator
fundamental. Tal conhecimento poderá contribuir para o desenvolvimento do esporte, seja
no nível recreativo ou no profissional, auxiliar nas escolhas dos horários adequados
para os jogos e treinamentos, de diferentes estratégias de
aclimatização/aclimatação3, hidratação,
resfriamento, aquecimento, entre outras.
Portanto, o objetivo do presente trabalho foi realizar uma revisão sistemática acerca
dos efeitos do estresse térmico ambiental sobre a termorregulação em jogadores de
futebol.
Métodos
O processo de elaboração da revisão de literatura seguiu os critérios estabelecidos pelo
sistema Prisma (Preferred reporting items for systematic reviews and
meta-analyses), elaborado para guiar estudos de revisão sistemática e
revisão por metanálise (Moher et al., 2009; Liberati et al., 2009).
Foram analisados artigos no idioma inglês publicados de 1993 a 2018. Os trabalhos foram
pesquisados em bases de dados eletrônicas indexadas ao portal Periódicos Capes, além da
busca nas referências dos próprios artigos selecionados. As bases online selecionadas
foram PubMed, SciELO, Medline, Science Direct, SPORTDiscuss e Web of Science. Os
seguintes descritores foram definidos com o auxílio do Medical Subject
Headings (MeSH), usados isoladamente ou combinados: football,
soccer, heat, tropical climate, hot temperature, cold, cold temperature, body
temperature, core temperature, thermoregulation, temperature regulation, body
temperature regulation, temperature control.
Foram selecionados para a revisão artigos originais publicados dentro do período
estabelecido cujo assunto principal fosse o estudo da termorregulação no futebol nos
ambientes frio e quente, além de intervenções voltadas para redução do estresse térmico
advindo de tais condições ambientais. Foram excluídos: (a) artigos de revisão, (b)
artigos nos quais o protocolo não continha sessão de exercício físico associado ao
futebol, (c) árbitros, (d) falta de relação com a variável principal
(termorregulação).
Após a aplicação das estratégias de buscas nas bases de dados relatadas, foram
encontrados 100 artigos potencialmente relevantes e quatro artigos adicionais foram
selecionados a partir das referências dos 100 trabalhos. Após a retirada das duplicatas,
restaram 76 trabalhos que tiveram seus títulos e resumos analisados. Após esse
procedimento, sobraram 53 artigos que foram lidos na íntegra, quando foram aplicados os
critérios de inclusão/exclusão. Restaram então 18 artigos, que foram incluídos para a
construção da revisão sistemática (fig. 1). Todos
os procedimentos foram feitos por dois avaliadores independentes.
Figura 1
Fluxograma do processo de seleção dos artigos.
As informações dos estudos foram sumarizadas em uma tabela no formato Picos, como
orientado pelo sistema Prisma (Moher et al.,
2009; Liberati et al., 2009). Baseado
nisso, foram apresentadas informações a respeito dos participantes (P), da intervenção
(I), da comparação entre grupos ou grupo controle (C), dos
resultados/outcomes (O) e do desenho do estudo/study
design (S). Em sequência, foram incluídos os seguintes dados: 1) Estudo; 2)
Participantes; 3) Desenho Experimental; 4) Protocolo/Medida/Tamb e URA; 5) Exercício; 6)
Principais Resultados.
A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada por meio de uma ferramenta para
avaliar estudos transversais, proposta por Downs e Black e adaptada por Hinckson e
Curtis (Hinckson e Curtis, 2013). O método usado
consiste em um questionário composto por 10 itens, que são classificados em quatro
categorias (informações descritivas, validade externa, validade interna e efeitos
clínicos), os trabalhos recebem um descritor final: 0–20%, Ruim; 21–40%, Pobre; 41–60%,
Moderado; 61–80%, Bom; 81–100%, Excelente.
Resultados
A tabela 1 sumariza os 18 artigos selecionados.
Após a leitura dos artigos e de acordo com os objetivos da presente revisão, os
trabalhos foram agrupados na tabela em cinco eixos temáticos. Todos os artigos
encontrados foram de caráter transversal.
Tabela 1
Estudos com efeito de diferentes temperaturas sobre o comportamento
termorregulatório e desempenho em jogadores de futebol
Tabela 1
Estudos com efeito de diferentes temperaturas sobre o comportamento
termorregulatório e desempenho em jogadores de futebol
Tabela 1
Estudos com efeito de diferentes temperaturas sobre o comportamento
termorregulatório e desempenho em jogadores de futebol
Tabela 1
Estudos com efeito de diferentes temperaturas sobre o comportamento
termorregulatório e desempenho em jogadores de futebol
Tabela 1
Estudos com efeito de diferentes temperaturas sobre o comportamento
termorregulatório e desempenho em jogadores de futebol
Tabela 1
Estudos com efeito de diferentes temperaturas sobre o comportamento
termorregulatório e desempenho em jogadores de futebol
Tabela 1
Estudos com efeito de diferentes temperaturas sobre o comportamento
termorregulatório e desempenho em jogadores de futebol
- 1.
Estresse térmico ambiental (n = 6). Em relação aos
participantes, foi observado nos estudos o uso de jogadores semiprofissionais,
profissionais e universitários. É importante ressaltar que não foram observados
estudos com mulheres. Em relação aos protocolos/medidas, os trabalhos
encontrados apresentaram protocolos de estresse térmico em ambientes abertos
(sem controle), as temperaturas variaram de 5 °C até 43 °C. Foi observada nesse
quesito a medida da temperatura central por meio de termossensores
intramusculares e cápsulas ingeríveis. Em relação ao exercício, foram
observados uma sessão de treinamento, jogos amistosos e jogos competitivos. Os
principais resultados observados, quando analisados em conjunto, mostram que ao
longo dos jogos e da sessão de treinamento houve diminuição da massa corporal.
Um resultado importante foi que o ambiente quente levou a maiores valores de
temperatura central e volume de suor. Além disso, o número de
sprints, corridas de alta intensidade e distância total
percorrida diminuiu. Um dado interessante é a observação de que a taxa de
sucesso nos passes foi maior nos ambientes quentes, embora o número de passes
tenha sido semelhante. Por fim, foi observado que jogadores profissionais,
consequentemente mais condicionados, apresentaram menores valores de
temperatura central (intervalo e pós-jogo) durante os jogos, quando comparados
com jogadores universitários.
- 2.
Estratégias de resfriamento (n = 5). Em relação aos
participantes, foi observado nos estudos o uso de jogadores profissionais e
universitários. Foi encontrado um trabalho com mulheres. Em relação aos
protocolos/medidas, os trabalhos encontrados usaram estratégias relacionadas ao
uso de banho gelado, colete de resfriamento, toalha resfriada em água gelada e
tenda climatizada. A maior parte das estratégias foi aplicada no momento
pré-exercício. Não foram encontrados trabalhos que usaram o resfriamento
pós-jogo. Em relação ao exercício, a maior parte dos trabalhos encontrados usou
protocolos de exercícios intermitentes específicos do futebol, somente um
avaliou o jogo completo. Os principais resultados observados, quando analisados
em conjunto, mostram que o resfriamento, independentemente do tipo e apesar de
ser uma estratégia interessante para a diminuição do estresse térmico,
principalmente no calor, precisa ser mais bem estudado. Em relação às
temperaturas centrais e da pele, os dados são inconclusivos, devido aos
diferentes momentos de medidas e protocolos. Foram observadas melhorias na
sensação térmica. Foi encontrado também que o resfriamento melhorou o
desempenho cognitivo dos jogadores. No entanto, os resultados observados não
mostram diferenças significativas de desempenho físico dos atletas.
- 3.
Estratégias de hidratação (n = 6). Em relação aos
participantes, foram encontrados trabalhos com amadores, profissionais e
jogadores de categorias de base. Em relação aos protocolos/medidas, foram
encontrados trabalhos que usaram ingestão controlada de água, hiper-hidratação,
bebida com carboidratos e eletrólitos. Foi encontrado um trabalho com mulheres.
Em relação aos protocolos/medidas, os trabalhos encontrados usaram protocolos
de exercícios intermitentes específicos do futebol, exercício em
cicloergômetro, jogo oficial e jogo adaptado. Os principais resultados
observados, quando analisados em conjunto, mostram que a ingestão de água pode
auxiliar na melhoria do desempenho e evitar principalmente a desidratação e a
perda de massa corporal. Tais resultados foram associados à melhoria do
conforto térmico e da percepção do esforço, com menores valores de temperatura
central. O único trabalho que usou a ingestão de carboidratos e eletrólitos
mostrou uma melhoria nos sprints no primeiro tempo de
jogo.
- 4.
Estratégias de aclimatação (n = 1). Em relação aos
participantes, foram usados jogadores profissionais. Em relação aos
protocolos/medidas, o trabalho encontrado fez a aclimatação ao ambiente quente
(38,7 °C) durante cinco sessões de treinamento intervalado de alta intensidade
(HIIT). Os principais resultados observados, quando analisados em conjunto,
mostram que a aclimatação melhorou a termorregulação dos jogadores durante um
exercício de HIIT e a percepção do esforço e o conforto térmico.
- 5.
Estratégias de aquecimento (n = 1). Em relação aos
participantes, foram usados jogadores de categorias de base. Em relação aos
protocolos/medidas, os jogadores permaneceram em repouso ou fizeram três tipos
de aquecimento prévio, passivo em piscina, ativo não específico do futebol e
ativo específico do futebol. A temperatura ambiental usada foi de
aproximadamente 19 °C. Foi aplicado um protocolo de exercícios intermitentes
específicos do futebol. Os principais resultados observados, quando analisados
em conjunto, mostram que os grupos que fizeram aquecimento ativo apresentaram
maiores frequências cardíacas no intervalo de jogo. O grupo que fez aquecimento
ativo específico do futebol percorreu uma maior distância no segundo tempo.
A tabela 2 apresenta os resultados da análise de
qualidade metodológica dos trabalhos, classificados como: a) Moderado (n = 2); b) Bom (n
= 7); c) Excelente (n = 9).
Tabela 2
Score de qualidade metodológica para estudos transversais
Discussão
O presente trabalho teve como objetivo fazer uma revisão sistemática acerca dos efeitos
do estresse térmico ambiental sobre a termorregulação em jogadores de futebol. A partir
da seleção (figura 1) e da leitura dos artigos,
esses foram agrupados em cinco eixos temáticos (tabela
2).
- 1.
Estresse térmico ambiental. É bem conhecido na literatura
esportiva que o estresse térmico ambiental é um fator que irá interferir
diretamente no desempenho, principalmente nos ambientes quentes (Gonzalez-Alonso, 1999; Tatterson et al., 2000). No presente trabalho foi observado
que esse padrão de perda de desempenho, até o momento, foi medido somente no
ambiente quente em jogadores de futebol (Ozgunen
et al., 2010; Mohr et al., 2012;
Mohr et al., 2010). No entanto, os
trabalhos apresentam características muito diferentes entre si, em relação aos
ambientes usados, índices de medida da temperatura central, amostra e variáveis
medidas. Tais fatores fazem com que a comparação e interpretação dos resultados
encontrados deva ser feita com cautela.
Em um estudo classificado como excelente (tabela
2), foram encontradas uma maior temperatura central (39,6 ± 0,1
vs. 38,7 ± 0,1 °C), uma redução de 7% da distância
total percorrida e uma menor distância total percorrida em corridas de alta
intensidade (43 °C: 883 ± 45 m vs. 21 °C: 978 ± 97
m) em jogadores de elite durante o jogo em ambiente quente (43 °C), quando
comparado com o ambiente temperado (21 °C) (Mohr
et al., 2012). Um trabalho classificado como moderado (tabela 2) usou uma sessão de treinamento no
frio (5,1 °C) para avaliar o balanço de fluídos e eletrólitos em jogadores de
elite (Maughan et al., 2005). Embora esse
trabalho tenha encontrado um resultado interessante de que a perda de suor pode
ser substancial no frio, algumas considerações metodológicas levam à cautela na
interpretação desses resultados. Destaca-se o fato de que não houve padronização
das vestimentas durante o treinamento. Sabe-se que a área de superfície exposta
estará diretamente associada à perda úmida de calor durante o exercício (Nakamura et al., 2008), isso pode ter gerado
diferentes níveis de perda de massa corporal durante o treinamento.
Em relação aos mecanismos autonômicos, os trabalhos mostraram que as maiores
temperaturas centrais observadas foram relacionadas a maiores valores de volume de
suor (maiores desidratação e perda de massa corporal) e lactato plasmático,
observadas já no fim do primeiro tempo de jogo (Mohr et al., 2012; Mohr et al.,
2010; Girard et al., 2015).
Associado a isso, foram notadas importantes alterações em índices comportamentais,
principalmente a perda de desempenho no segundo tempo de jogo (Mohr et al., 2010). Um dado interessante e
ainda pouco explorado na literatura é o fato de que, apesar da perda de desempenho
físico observada, o desempenho técnico (sucesso em passes) foi maior no calor
(Mohr et al., 2012). Provavelmente, no
jogo em ambiente quente os atletas tenham se deslocado menos e tenham surgido mais
espaços. Essas características foram exacerbadas nos 15 min finais de jogo (Ozgunen et al., 2010; Mohr et al., 2012; Mohr et
al., 2010).
Por fim, destaca-se o fato de que nesse tópico não foram encontrados trabalhos com
o futebol feminino ou que tenham associado o estresse térmico ambiental a
variáveis táticas, além das respostas de sensação térmica e percepção do esforço,
apontadas na literatura como índices importantes de estresse térmico e de
intensidade do esforço relacionados diretamente à perda de desempenho (Lago et al., 2010).
- 2.
Estratégias de resfriamento. Embora o resfriamento corporal seja
uma técnica com alta aplicabilidade e bastante difundida na prática profissional
esportiva, na presente revisão foram encontrados somente cinco trabalhos acerca do
tema no futebol (Drust et al., 2000; Price et al., 2009; Clarke et al., 2011; Duffield
et al., 2013; Bandelow et al.,
2010). Entre as técnicas usadas foram encontradas a imersão em água
gelada (Drust et al., 2000), o resfriamento
pelo uso de vestimenta (colete) (Price et al.,
2009; Clarke et al., 2011; Duffield et al., 2013) e o uso de tenda
climatizada (Bandelow et al., 2010). Cabe
ressaltar que os resultados dos trabalhos encontrados devem ser analisados com
cautela, principalmente em função das diferenças metodológicas observadas em
relação aos protocolos de resfriamento, temperaturas ambientes, amostras e
protocolos de exercícios. Em relação ao exercício, somente um trabalho mediu os
efeitos do resfriamento durante o jogo completo em ambiente quente (Bandelow et al., 2010), esse também não usou
um ambiente temperado ou frio como controle. Os resultados observados, no que
tange às respostas autonômicas termorregulatórias, são inconclusivos, uma vez que
foram encontradas respostas variadas para a taxa de sudorese e a frequência
cardíaca, bem como para as temperaturas interna e da pele. Um dado interessante e
que precisa ser mais bem explorado é o fato de que o resfriamento melhorou a
função cognitiva (Clarke et al., 2011),
embora um trabalho não tenha encontrado diferenças na percepção subjetiva do
esforço (Duffield et al., 2013).
Por fim, esse tópico, embora seja importante e de grande aplicabilidade, precisa
ser mais bem avaliado do ponto de vista científico para alcançar conclusões acerca
das estratégias de resfriamento adequadas ao futebol.
- 3.
Estratégias de hidratação. Os efeitos e as estratégias de
hidratação durante a prática esportiva são fatores amplamente discutidos na
literatura científica (Casa et al., 2000;
Bandelow et al., 2010; Millard-Stafford et al., 2007; Ali et al., 2011). Em relação ao futebol, esse
tópico tem muito que avançar, uma vez que foram encontrados somente cinco
trabalhos na presente revisão (Ali et al.,
2011; Edwards et al., 2007; Rico-Sanz et al., 1996; Kurdak et al., 2010; Guerra et
al., 2004), e somente um avaliou um jogo completo (Rico-Sanz et al., 1996), o que representa uma importante
limitação metodológica dos protocolos usados. Um trabalho avaliou as respostas em
um protocolo de intensidade fixa (Edwards et al.,
2007) e outros três estudos através de jogos adaptados (Ali et al., 2011; Kurdak et al., 2010; Guerra et
al., 2004). Sabe-se que no jogo de futebol o jogador irá ajustar a
intensidade e, portanto, a cadência de exercício, de acordo com alguns fatores,
entre eles a percepção subjetiva do esforço (Nassis et al., 2015; Coutts et al.,
2009). Dessa forma, trabalhos futuros deverão desenvolver protocolos de
exercício autorregulado que simulem de maneira mais próxima a situação de jogo. Um
resultado comum entre trabalhos encontrados foi a perda de peso significativa
durante nos diferentes ambientes (Shirreffs et
al., 2005; Guerra et al.,
2004).
Um trabalho avaliou os efeitos da hidratação e das respostas de sudorese em dois
jogos em ambiente quente (∼34 °C) (Kurdak et al.,
2010). Foi usada uma estratégia de ingestão de água em um jogo e de
bebida esportiva hidroeletrolítica comercial. Não houve diferenças nas respostas
da temperatura gastrointestinal ao longo dos jogos. Um estudo encontrado avaliou
os efeitos de diferentes estados prévios de hidratação sobre o desempenho de
jogadores de futebol profissionais jovens durante um jogo oficial (23,0 °C) (Rico-Sanz et al., 1996). Os autores aplicaram
um protocolo de hiper-hidratação (H: ingestão de 65
mL.Kg-1.dia-1 de água durante uma semana), enquanto o
grupo controle (CON) teve livre consumo de líquidos durante o período. Foi
observada uma menor perda de massa corporal (H: 1,77 ± 0,24 kg
vs. CON: 1,89 ± 0,27 kg; p < 0,05) e menores
aumentos da temperatura central (ΔH: 1,71 ± 0,17
vs. ΔCON: 2,04 ± 0,31 °C) no grupo H durante o
jogo. Ali et al. (2011) estudaram a
influência da ingestão de fluídos sobre as respostas termorregulatórias de
jogadoras de futebol em uma partida simulada (90 min). Os autores encontraram que
a reposição de fluídos preveniu a desidratação, bem como atenuou o aumento da
temperatura central e o estresse cardiovascular. Um dado importante desse trabalho
foi a maior percepção do esforço observada no grupo que não ingeriu água. Além
disso, a reposição de fluídos não foi capaz de contrapor a redução do desempenho
na realização de sprints e nenhuma diferença foi observada no
teste de habilidade na prática de passes.
- 4.
Estratégias de aclimatação. A aclimatação é um dos mecanismos
mais potentes de adaptação do ser humano aos diversos ambientes térmicos, sejam
eles quentes ou frios (Fox et al., 1963).
No entanto, somente um trabalho foi encontrado acerca do tema no futebol (Kelly et al., 2016). Cabe destacar que não
foram encontrados trabalhos que avaliassem os efeitos naturais da
aclimatização.
O estudo encontrado avaliou se cinco sessões de HIIT (27 min p/ sessão; ambiente
quente: 38,7 °C) poderiam induzir aclimatação em jogadores profissionais
australianos. Os autores encontraram adaptações limitadas a partir do protocolo
aplicado. O HIIT no calor foi capaz de provocar diminuições significativas na
percepção do esforço e no conforto térmico dos atletas, apesar de não terem sido
observadas diferenças na temperatura central. No entanto, os resultados desse
trabalho devem ser analisados com cautela, uma vez que as respostas não foram
avaliadas no jogo ou num protocolo similar ao jogo.
- 5.
Estratégias de aquecimento. Assim como no tópico anterior,
somente um trabalho foi encontrado na presente revisão acerca desse tópico (Lovell et al., 2007). Os autores concluíram
que o aquecimento passivo no intervalo de jogo reduziu a temperatura central e o
desempenho de endurance específico do futebol no segundo tempo.
Além disso, concluíram também que tais efeitos deletérios foram revertidos pelo
aquecimento ativo. Essa é uma conclusão com aplicação prática importante e esse
trabalho chama a atenção por isso. No entanto, os resultados encontrados não dão
suporte para a conclusão dos autores e fazem com que o principal resultado deva
ser interpretado com cautela. Foram usadas quatro estratégias de intervenção no
intervalo de jogo: 1) CON – repouso; 2) PH – aquecimento passivo com imersão em
água a 40 °C; NSAH – aquecimento ativo não específico do futebol – cicloergômetro;
4) SSAH – aquecimento ativo com movimentos específicos do futebol. Um dado
importante é que não foram observadas diferenças significativas na temperatura
central. Isso faz com que haja um primeiro questionamento: os protocolos de
aquecimentos passivo ou ativo geraram efeitos? Houve estresse termorregulatório?
Além disso, a temperatura ambiente usada foi de 20 °C. Esse é um ponto crucial,
pois a generalização para outros ambientes pode não ser adequada.
Limitações
Não foram encontrados estudos voltados para o ambiente frio durante o jogo. A maioria
dos trabalhos avaliou o futebol masculino, a extrapolação para o futebol feminino deve
ser feita com cautela. Também não foram encontrados dados relacionados à associação
entre os treinamentos e suas variações com os diferentes ambientes térmicos. Uma
limitação importante na interpretação e comparação dos resultados encontrados diz
respeito à grande variabilidade dos protocolos aplicados para avaliar as respostas
termorregulatórias dos jogadores, como diferentes modalidades de exercícios, ambientes,
amostras e medidas.
Conclusão
O presente trabalho fez uma revisão sistemática acerca dos efeitos do estresse térmico
ambiental sobre a termorregulação em jogadores de futebol. Foi observado que os
ambientes quentes representam um estresse térmico significativo, determinante para a
queda do desempenho físico dos jogadores. Em relação às estratégias encontradas, ou
seja, resfriamento, hidratação, aclimatação, aquecimento, o pequeno número de trabalhos
encontrado e os resultados observados fazem com que mais pesquisas sejam necessárias
acerca desses temas. Por fim, a maior parte dos trabalhos encontrados foi relacionada a
variáveis físicas de desempenho e à termorregulação autonômica. Trabalhos futuros
deverão avaliar o jogo nos diversos ambientes e a termorregulação comportamental, bem
como fazer associações com os aspectos táticos.
Referências
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Notas
Notas
1 No presente trabalho foram adotadas definições de acordo com o glossário de termos
para fisiologia térmica, da União Internacional de Ciências Fisiológicas (IUSP).
Temperatura corporal: estimada através das médias de valores
representativos das temperaturas central e da pele.
Temperatura
central: de maneira ideal é a média das temperaturas do núcleo térmico.
De acordo com as metodologias de medidas dos trabalhos originais, os seguintes
índices de temperatura central foram usados: gastrointestinal, retal e muscular.
Núcleo térmico (
Thermal core): Tecidos internos
do corpo, dos quais as suas temperaturas não são modificadas nas suas inter-relações
por ajustes circulatórios e modificações na dissipação de calor para o ambiente e que
afetam o invólucro térmico corporal
(Thermal shell). Invólucro térmico
(Thermal shell): refere-se principalmente à pele e às superfícies mucosas
envolvidas diretamente nas trocas de calor com o ambiente. Obs: Os termos foram
usados durante o texto de acordo com a referência original pesquisada ou com o melhor
sentido para a ideia a ser exposta (
Commission,
2003).
2 Índices de variações percentuais no peso corporal para classificar o estado de
hidratação: 1) Bem hidratado (+1 a -1%); 2) Minimamente desidratado (-1 a -3%); 3)
Significativamente desidratado (-3 a -5%); 4) Seriamente desidratado (>5%) (
Casa et al., 2000).
3 Aqui cabe uma observação quanto ao uso dos termos aclimatização e aclimatação. Embora
etimologicamente os dois termos sejam indistinguíveis, foram adotados no presente
trabalho as definições e os usos mais comuns no campo da fisiologia térmica.
Aclimatização: mudanças fisiológicas ou comportamentais que
ocorrem na vida de um organismo reduzindo o estresse causado por mudanças do clima
natural (ex. sazonais ou geográficas).
Aclimatação: mudanças
fisiológicas ou comportamentais que ocorrem em um organismo, reduzem o estresse ou
melhoram a resistência ao estresse causado por variações induzidas experimentalmente
em fatores climáticos específicos (ex. uso de câmara ambiental) (
Commission, 2003).
Financiamento
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de Minas Gerais (Fapemig).
Declaração de interesses
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
Autor notes
* Autor para correspondência. E-mail:
thales.gomes@ufv.br (T.N. Prímola-Gomes).