ARTIGOS
Por uma cartografia sentimental: do imaginário ficcional de Cidadilha à cidade-ilha de Vitória (ES)
For a heartfelt cartography: from the fictional imaginary “Cidadilha” to the island city of Vitória (ES)
Por uma cartografia sentimental: do imaginário ficcional de Cidadilha à cidade-ilha de Vitória (ES)
Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, núm. 71, 2018
Instituto de Estudos Brasileiros
Recepção: 10 Julho 2017
Aprovação: 18 Outubro 2018
RESUMO: A partir da geografia imaginária de Cidadilha, a cidade-ilha colonial de Vitória (ES), do escritor e historiador capixaba Luiz Guilherme Santos Neves, a meta é construir uma cartografia sentimental. Para tanto, criou-se a figura de um viajante-cartógrafo, que desembarcará na ilha para vivenciá-la antropofagicamente e reapresentar a ficção do ponto de vista do visitante. Ele abrirá pistas para interlocuções entre o corpus teórico (Rolnik, Certeau, Tuan etc.) e as experiências cartográficas realizadas na concretude do objeto empírico (a cidade de Vitória). O artigo estrutura-se como roteiro de viagem, pressupondo também que Cidadilha seja uma viagem no espaço-tempo verossímil ao traçado original do (e até hoje verificável no) núcleo fundacional de Vitória.
PALAVRAS-CHAVE: Urbanização e literatura, Cidadilha e Vitória, cartografia sentimental e antropofagia, topografia e toponímia.
ABSTRACT: From the imaginary geography of “Cidadilha”, the writer and historian Luiz Guilherme Santos Neves’ colonial island city of Vitória (ES), the goal is to build a heartfelt cartography. For that, the figure of a traveler-cartographer was created, who will disembark on the island to experience it anthropophagically and re-introduce the fiction from the visitor’s point of view. He will open clues for interlocutions between the theoretical corpus and the cartographic experiences accomplished in the empirical object’s concreteness (the city of Vitória). The article is structured as a travel itinerary, also assuming that “Cidadilha” is a voyage in space-time credible to the original layout of (and still verifiable in) Vitoria’s founding nucleus.
KEYWORDS: Urbanization and literature, “Cidadilha” and Vitória, heartfelt cartography and anthropophagy, topography and toponymy..
O desejo é a criação do mundo.
(ROLNIK, 2016).
A cidade não conta o seu passado, ela
o contém como as linhas da mão.
A partir da geografia imaginária de Cidadilha (SANTOS NEVES, 2008)1, obra ficcional inspirada na cidade-ilha de Vitória, capital do Espírito Santo, do escritor e historiador capixaba Luiz Guilherme Santos Neves, o desafio é exercitar, na prática, a cartografia sentimental (ROLNIK, 2016), simulada e escrita (em uma parte do artigo) por um viajante-cartógrafo, figura que criamos para dar conta de tal empreitada. Justificamos que a obra ficcional pressupõe uma viagem no espaço-tempo, de forma verossímil, à Vitória colonial do século XIX. Por isso, a estrutura do artigo também remete à ideia de viagem, detalhada adiante.
A criação do viajante-cartógrafo tem um triplo objetivo: 1) ele reapresentará Cidadilha por outro ponto de vista, o do visitante (vulnerável por ser malvisto e rejeitado pelos cidadilhos), que desembarcará na cidade-ilha para percorrê-la, vivenciá-la e saboreá-la. A meta, aqui, é descrever suas descobertas territoriais como viajante ávido por experiências sinestésicas sempre mais eficazes no primeiro contato com lugares desconhecidos, por não estarem sujeitas à cegueira da cotidianidade; 2) em sua escrita, o cartógrafo vai entrelaçar as referências de Cidadilha às suas sensações, sabores e dissabores. A meta é elaborar a cartografia do viajante para detectar as relações entre os cidadilhos e entre esses moradores e a alteridade, incluindo o cartógrafo; 3) temperar os percursos do cartógrafo em uma viagem no espaço-tempo, por meio das impressões, vivências e experiências antropofagicamente capturadas e degustadas por ele e reexperimentadas no aqui-agora da cidade-ilha. A meta é vivenciar na própria pele as descobertas do cartógrafo, ressignificando-as em processos de subjetivação derivados dos modos de ser e estar cidadilho.
Nessa viagem espaçotemporal, por hipótese, o viajante atuará como cartógrafo antropofágico, entendida a antropofagia em sentido figurado: de obra que consome a força da referência para revigorá-la, reanimá-la e perpetuá-la2. Por isso, a ideia do entrelaçamento textual do cartógrafo e de Luiz Guilherme. Partimos do princípio de que isso ocorreu: 1) na criação de Cidadilha, pois o escritor baseou-se em outro livro (ELTON, 1986); 2) nos encaminhamentos e resultados do exercício-laboratório que gera este artigo, realizado em pesquisa pós-doutoral (em curso) no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGAU/UFES). Assim, ao desembarcar em Cidadilha, o cartógrafo percorrerá 11 dos 30 referenciais urbanos3 contemplados na ficção, com o necessário feeling para observar as premissas da cartografia sentimental (detalhadas adiante).
Check-in : viagem no tempo e no espaço ficcional
Cidadilha é mais do que uma viagem no tempo à Vitória colonial do século XIX. É uma travessia no espaço urbano da capital verídica, encravada entre o mar e o Maciço Central, cujo núcleo fundacional se restringia a apenas 26,5 km². Desde sua fundação, em 1551, até o final do século XIX, Vitória teve forte influência portuguesa tanto na linguagem do conjunto arquitetônico quanto no traçado urbano disposto sobre a topografia irregular do terreno. “Nesta paisagem, o casario baixo, discreto e contínuo formou os primeiros caminhos de interligação aos principais espaços públicos da vila: os largos” (ELTON, 1986). No geral, tais largos sediavam igrejas, como uma espécie de átrio ou foyer para os fiéis, visitantes ou observadores desses templos.
Na ficção, a topografia, a toponímia e o mapeamento da cidade erguida sobre a colina e expandida para a parte baixa correspondem, de modo fidedigno, ao traçado urbano irregular, trazendo à tona o que resta do núcleo fundacional de Vitória, por meio de suas ruas, largos, morros, cais etc.
Das páginas de Cidadilha, emergem cenas humanizadas ficcionalmente pelo narrador onisciente, que relata (no pretérito) o cotidiano, entendido aqui como as “relações elementares com as coisas [...]; a apropriação do corpo, do espaço e do tempo, do desejo. A moradia, a casa” (LEFEBVRE, 1991, p. 42), isto é, como o conjunto de relações rotineiras e reprodutíveis que moradia, casa e moradores mantêm com seus contextos. Cotidiano também como “maneiras de fazer”4, ações praticadas por indivíduos ordinários que subvertem a ordem imposta, criando “táticas [...] [para] jogar com os acontecimentos [...] [e transformá-los] em ‘ocasiões’” (CERTEAU, 1994, p. 47). Táticas praticadas nas miudezas cotidianas “(falar, ler, circular, fazer compras ou preparar as refeições etc.), [...] [como] vitórias do ‘fraco’ sobre o mais ‘forte’ [...], pequenos sucessos, artes de dar golpes, astúcias de ‘caçadores’ [...], simulações polimorfas, achados que provocam euforia” (CERTEAU, 1994, p. 47). São exemplos que se aplicam aos cidadilhos por subverterem a imposição do poder constituído, o Cabido dos Notáveis Macróbios, de desenvolver o turismo local. Os moradores criam táticas para expulsar os turistas. Assim, das páginas de Cidadilha, emergem contraposições entre sentimentos topofílicos5 e/ou terrafílicos6 expressos também na memória afetiva e nostálgica impregnada por relações afetivas entre Luiz Guilherme e sua cidade natal7 - e emoções topofóbicas - destiladas na linguagem satírica, mordaz ou debochada utilizada pelo autor para narrar situações assombrosas.
Há ainda um jogo de logro em que o escritor inverte tanto a imagem urbana de Vitória (na capa do livro representada por uma gravura invertida) quanto a imagem simbólica da cidade (ao longo do livro, reinventada e ressignificada por metáforas, sinédoques e assíndetos, transformando os percursos em relatos). Se, de um lado, esse jogo permite a criação de situações inverossímeis, de outro, exalta tradições religiosas e folclóricas capixabas, funcionando como enunciação de uma realidade concreta da cidade que continua vigente até hoje.
Foi nesse caldo de ingredientes que embasamos o exercício-laboratório, que deriva nesta viagem pelo espaço-tempo e que fundamenta nossa própria cartografia (no presente), afastando-se do padrão acadêmico tradicional por três fatores: 1) por tratar-se de um conjunto de experimentações com nossos próprios corpos vibráteis, nos espaços e lugares urbanos onde se desenvolvem as ações da referência ficcional e a nossa própria cotidianidade; 2) por tratar-se da leitura e interpretação de objetos temáticos (a cidade, o urbano e as experimentações nesses espaços) que se manifestam como fenômenos polifônicos e plurissígnicos; 3) pela reinterpretação de tais fenômenos de modo intertextual: pela historiografia e pela topofilia do criador de Cidadilha e de suas criaturas. A estrutura está construída em seis passagens: Check-in; Embarque; Desembarque; Vai e vem urbanos - ou as cinco pistas registradas pelo cartógrafo; Percursos: das pistas do cartógrafo a outras pegadas; e Check-out.
O Check-in introduz a obra literária e demonstra por que ela serviu de ponto de partida. O Embarque contém conceituações sobre a cartografia sentimental e a construção do perfil do viajante. O Desembarque destina-se à chegada desse viajante, cuja atuação como cartógrafo se processará de modo intertextual conjugado no presente do indicativo e na primeira pessoa do singular8. Os Percursos identificam e associam pistas, linhas e ideias soltas do cartógrafo, cabendo a nós amarrá-las via Cidadilha e referências historiográficas e teóricas que sustentarão o artigo9. Por fim, em Check-out, as considerações finais.
Embarque: das pistas teóricas à criação do cartógrafo imaginário
Se no princípio foi o verbo, o verbo se faz cartografia. Cartografia que é diferente do mapa: enquanto este representa “um todo estático”, a cartografia “é um desenho que acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem” (ROLNIK, 1987, p. 23)10. Assim, o papel do cartógrafo “é dar língua para afetos que pedem passagem [...]. O cartógrafo é, antes de tudo, um antropófago” (ROLNIK, 1987, p. 23), que captura, devora e dá sentido aos movimentos de intensidades/sensações dos desejos, aos modos de vivências e afetos que surgem e deslizam em seu plano afetivo e em seu entorno, alimentando-se de diferentes linguagens. É antropófago11 também por reaproveitar as referências teóricas do seu repertório, transformando-as em devir, sem desprezar outras “matérias de qualquer procedência [...] [sem] racismo de frequência, linguagem e estilo” (ROLNIK, 1987, p. 24). Portanto, há flexibilidade no devorar, experimentar, improvisar, construir e criar a cartografia, baseando-se “nas urgências indicadas pelas sensações, ou seja, os sinais da presença do outro [no] corpo vibrátil” (ROLNIK, 2016, p. 20). Corpo vibrátil é a capacidade que nossos órgãos de sentidos têm de atuarem em conjunto e que nos permite
[...] apreender a alteridade em sua condição de campo de forças vivas que nos afetam e se fazem presentes em nosso corpo sob a forma de sensações. O exercício desta capacidade está desvinculado da história do sujeito e da linguagem. Com ela, o outro é uma presença que se integra à nossa textura sensível, tornando-se assim, parte de nós mesmos. (ROLNIK, 2016, p. 12).
Essas reflexões são basilares aos nossos procedimentos narrativos e cartográficos: é preciso que “o outro deixe de ser um objeto de projeção de imagens preestabelecidas [...] e possa se tornar uma presença viva, com a qual construímos nossos territórios de existência” (ROLNIK, 2016, p. 12). Para se concretizar, aciona-se “uma potência específica do sensível” (ROLNIK, 2016, p. 12) já comprovada pela neurociência: cada órgão de sentido possui dupla capacidade - uma cortical e outra subcortical. A primeira conecta-se à percepção como a conhecemos, seguindo dois movimentos: primeiro, a percepção que nos leva a apreender o mundo em suas formas; o segundo faz com que projetemos nossas representações nas formas capturadas, atribuindo-lhes sentido. Já a capacidade subcortical, a menos utilizada e a mais desconhecida, faz parte do corpo vibrátil e possibilita que as figuras de sujeito e objeto se dissolvam, integrando o corpo ao mundo.
O intercâmbio dessas duas capacidades dos órgãos do sentido humano permite dois tipos de olhar: 1) por meio da percepção, o mais frequentado pelas pesquisas acadêmicas; e 2) por meio do olho vibrátil, raramente utilizado nesses estudos. Para Rolnik, “é na dinâmica desses dois olhares que nos é dado entrever o traçado de cartografias nos movimentos de criação da realidade de um determinado contexto histórico. Este constitui a dimensão propriamente micropolítica do texto, sua natureza cartográfica” (ROLNIK, 2016, p. 13). Abrimos, assim, novas pistas para o perfil do nosso cartógrafo imaginário: dando-lhe sentido à vida e aos desejos, bem como ao “finito ilimitado” (ROLNIK, 2016, p. 55).
Nosso viajante é sagaz, curioso por novas descobertas e aberto ao conhecimento de outros mundos e aos intercâmbios de alteridades; está atento às sensações pulsantes, sem medo de devorar as máscaras da alteridade, absorvendo-as de tal forma que integrarão a trama de sua tessitura e que reconstruirão suas ações e seu modus operandi. Devido à capacidade de absorver máscaras da alteridade, o cartógrafo não terá nome próprio, justamente para não reduzi-lo à esfera da individualidade, permitindo-lhe compartilhar do coletivo cidadilho e desfrutar da polifonia inerente à vida em Cidadilha.
Desembarque: em cena, o cartógrafo e o jogo de logro na língua traiçoeira
Quase chegando, mas a cidade continua encoberta. Navego pela “baía de Cidadilha e” surgem “sete pedras de boa conformação [...]: a primeira é uma pedra morena12 [...], à esquerda de quem entra na baía; a segunda é penha13 que tem no topo um convento que parece uma fortaleza, que parece um castelo, que parece um bolo de noiva ou um gato angorá; a terceira se parece com olhos cavos e cegos” [...]; perco uma pequenina; surge outra “dobrada, uma em cima da outra, com o formato de ovos”; agora outra, “de meter medo, em forma de pão de açúcar14, que sobre o mar desce a pique; finalmente a derradeira pedra é a que a baía vigia e assinala Cidadilha”.
Ancoramos? O “navio” parece baixar “o ferro em plena baía... Uma ponte elástica se estende do cais até nós como língua de deboche. Sobre ela, uma inscrição: ‘Passe, passante, em passos que não sejam compassados para que em passos compassados não se dê seu passamento para a morte’”. Acelero a leitura-passo até o Cais das Colunetas. Olho para trás. Os mais lerdos, despencam quando “a língua de deboche” se recolhe de volta ao cais. Quantos morrem tragados pelo mar? Assustado, ouço um alegre coro, parece festa: “Lá vem a sinhá marreca/ com seu samburá na mão. /Ela diz que vem trazendo/ empadinhas de camarão”. Subo a Escadaria das Pobres Figuras15, adornadas por estranhas estátuas, dizem que “são tipos populares de Cidadilha, andrajosos, decadentes” e sujos. Triste homenagem às Pobres Figuras. A escadaria é sustentada por colunas que “nascem de dentro das águas ignóbeis da baía e transpassam o passadio de madeira, recobertas de ostras como milhos numa espiga”. Sobre as colunas, “12 caveiras de burro” se agitam “ao vento” (SANTOS NEVES, 2008, p. 19), seis de cada lado. Chego a duvidar dos meus olhos e sinto arrepios pelo corpo. No topo, encontro uma multidão em festa. Recepção para nós?
Pista 1: “Boa viagem faz quem em sua casa fica em paz” (Santos Neves, 2008, p. 17)
Algo chama a atenção no morro defronte ao Cais: “um placar com um número em algarismos arábicos antes da palavra VISITANTES. É uma estatística na casa do milhar controlada por um arlequim sem nariz e sem um olho” (SANTOS NEVES, 2008, p. 15): Misterioso. Quando o número aumenta, “os guizos da sua carapuça soam alto e sinto mau som” [...]. Mas todos festejam. Me dão uma senha: “sobreviver para ver é vitória” (SANTOS NEVES, 2008, p. 16). Converso aqui e ali e descubro: quando “o tilintar dos guizos” dança “pelos ares sua dança”, sua dança celebra a morte; o festim destina-se aos que caem da língua debochada, jeito de “toda Cidadilha saber que menos pessoas” (SANTOS NEVES, 2008, p. 16) chegam para importunar. E eu cheguei... e não sou bem-vindo. Por quê?
Anoitece. Observo a Escadaria das Pobres Figuras ainda mais sinistra: “as caveiras servem de luminárias a base de óleo de mamona” (SANTOS NEVES, 2008, p. 19). Os cidadilhos “preferem a luz úmida das mamonas à eletricidade em suas casas e nos logradouros públicos para preservarem as características coloniais do lugar. Dizem que graças a essa tradição Cidadilha parece um presépio16, à luz baça dos lampiões noturnos” (SANTOS NEVES, 2008, p. 19) “[...] sem tetos chegam em tribos, parecendo irmanados pelos laços de uma miserabilidade indestrutível. Acomodam-se nos escaninhos da escadaria sobre esteiras de palha ou cobertores esfarrapados, acendem fogareiros a carvão para o aquecimento da noite e se põem a cantar para atenuar a miséria em que vegetam: Tingolê, tingolá,/ Toca a viola pra nós dançar”... (SANTOS NEVES, 2008, p. 21-22). Nem perceberam minha presença. Exausto e confuso, vou dormir.
Pista 2: topofobia e estranhas tradições
Acordo cedo. Já estou no Largo da Misericórdia, coração da cidade, em frente à sua igreja em meio a uma multidão de moradores. Outra festa? Aqui, o Cabido dos Notáveis Macróbios realiza julgamentos e punições aos condenados, exercendo seu poder. “O povo [...] comparece em massa para assistir ao que considera um espetáculo inigualável”. Chega “o carrasco com seu capuz que lhe desce até o gogó, deixando expostos apenas seus olhos carrascais. É de fato mera tradição, porque toda Cidadilha”, inclusive eu, “sabe que o verdugo é o amolador de facas e tesouras da cidade” (SANTOS NEVES, 2008, p. 31).
O nome Misericórdia vem dos pedidos de clemência dos espectadores. Começa o rito das execuções em série: escondem os acusados e o carrasco precisa encontrá-los. Quando está distante, os moradores “gritam: está frio”; ao se aproximar, “está quente”. Agora, o carrasco descobre um e todos gritam: “queimou”. Parece um jogo de gato e rato e os cidadilhos adoram. A vítima é “arrastada para aplicação da pena”. Procuro uma linha de fuga, porque soube que mutilam “dedos, mãos, orelhas e pés”. As partes decepadas são tratadas, trituradas e preparadas como doce de chouriço, iguaria típica. “É manjar dos deuses, garantem os entendidos” (SANTOS NEVES, 2008, p. 34). Com o estômago embrulhado, não vi nem degustei.
Vai e vem urbanos - pista 3: o traçado das ruas obedece à topografia
Do Largo da Misericórdia sigo pelo Beco da Ressurreição, subo “uma escadaria de trinta e três degraus escavados na terra” (SANTOS NEVES, 2008, p. 39-40-43) que leva à Igreja São Gonçalo ou Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte ou da Ressurreição. Há duas portas ao lado da entrada principal. Pergunto o porquê a um passante. Resposta: houve disputa, a congregação se dividiu e “uma bula episcopal” determinou a separação do acesso. Uma porta destina-se aos “adeptos da Boa Morte” e outra “aos da Ressurreição” (SANTOS NEVES, 2008, p. 39). Hoje não é dia da procissão que encena a ressureição da santa. Dizem que oferecem “aos turistas óculos de papelão, com lentes” que permitem “visão tridimensional”. Resultado: “pesadelos horríveis, povoados de fantasmas” (SANTOS NEVES, 2008, p. 43).
Desço a ladeira e chego ao Porto dos Padres17, que até pouco antes da expulsão dos jesuítas do Brasil, em 1756, “era o único porto de Cidadilha” que não passava de um cais. Dizem que “terminava numa prancha de madeira batida pelas águas do mar; [...] gorgolejava o arroto das águas quando as marolas explodiam sob o seu passadio; sem tirar nem pôr, porto não é, pois que de porto não tinha o porte - e nem sequer o porte de cais do porto. Só era porto por ser privativo dos padres de Jesus e porque os padres de Jesus mereciam do povo de Cidadilha [...] a maior consideração possível” (SANTOS NEVES, 2008, p. 52). Porém, os padres “permitiam” que outras pessoas o “usassem”, desde que repetissem sete vezes sem errar: “o peito do padre é preto, o que mostra que os religiosos de Jesus tinham certa dose de humor”. Mas “houve um tempo em que os de Jesus foram expulsos de Cidadilha e de sua história. Foi então que o porto passou a abrigar prostíbulos onde mulheres desairosas jogavam o jogo-das-pernas-para-o-ar a qualquer hora do dia ou da noite” (SANTOS NEVES, 2008, p. 53).
Vou até a Rua do Fogo, dizem “que é a única ladeira com nome de rua”. Escorrego nas “pedras escorregadias”, aiii... Caio, me emporco de lama... O moço me socorre e avisa: o lugar é conhecido “como Ladeira do Quebra-Bunda. Assim, ora a rua é rua, ora é ladeira, conforme o nome com que é tratada” (SANTOS NEVES, 2008, p. 50). É do Fogo porque aqui “os acendedores de lampiões morrem queimados pelas chamas do óleo de mamona das luminárias que acendem”. Converso com um deles. Explica que a profissão passa “de avô para neto, dentro de uma única família de miseráveis. Por se tratar de função honorífica, os membros da estirpe ficam cada vez mais pobres, de uma geração a outra. Pudera. O custo de vida tem aumentado historicamente em Cidadilha com a sufocante cobrança de impostos, o que provoca o empobrecimento da população e, naturalmente, o da apagada grei dos acendedores de lampiões. Dita a tradição: que morram queimados pelas chamas do óleo do ofício [...]. Morrem condignamente cremados no nobre mister de iluminar os logradouros da cidade, para que esta brilhe sempre com a graça e elegância de um presépio” (SANTOS NEVES, 2008, p. 51). Triste herança familiar e cruel tradição de ofício-morte.
Subo outra ladeira e chego à Capela de Santa Luzia18, “branca e periquitinha, empoleirada no alto de uma rocha” (SANTOS NEVES, 2008, p. 26). Leio uma “inscrição gravada na pedra da porta da capela: ‘Não olhe para trás’”. Um “zarolho” esbarra em mim e entra correndo na capela. Vou atrás dele. Ele roga à santa que o cure, que olhou para trás porque pensou que fosse brincadeira e não profecia, que o perdoe... E nada. Repete a ladainha outras vezes até que um bando de marimbondos sai do teto e um deles fisga o olho do zarolho. Matei duas charadas: que “o aviso” é para “quem passa na rua e não para quem entra na capela” (SANTOS NEVES, 2008, p. 26) e que o milagre não é da santa, mas do ferrão de um marimbondo. Outra pegadinha “maldosa” da língua cidadilha. Mas essa não colou!!!
Pista 4: a cidade e suas toponímias
Prossigo a caminhada, subindo e descendo. Dou numa rua de miseráveis, “todos sujos, esmolambados” [...] e suas “casas baixas e pobres” (SANTOS NEVES, 2008, p. 65). Uma “velha maluca se aproxima”, me cutuca “com o dedo” e pergunta: “O que é, o que é, que anda com os pés na cabeça?” (SANTOS NEVES, 2008, p. 66). Não sei, o que é? “É piolho, é piolho! - produzindo, com a boca desdentada, um ronco impossível de se definir como gargalhada ou rugido de raiva” (SANTOS NEVES, 2008, p. 67). Ai de mim, estou na Rua do Piolho e já sinto coceira na cabeça. Dizem que os cidadilhos não frequentam o local, que discriminam os miseráveis daqui e que, se esta rua “se chamasse Rua do Bicho-de-Pé, o nome também viria a calhar devido à fartura de pulex penetrans que a infesta e que se instala nos pés dos que por ela andam” (SANTOS NEVES, 2008, p. 66). Acelero o passo para cair fora, antes que seja tarde... Só quero um banho e descansar. Pausa.
Volto para a rua. Desço ladeiras em direção à parte baixa da cidade. Encontro a rua do Reguinho, “cortada longitudinalmente pelo reguinho que lhe dá nome e a divide em duas partes: uma, de terra batida; outra, de terra solada. Na primeira, ficam as casas dos pescadores pobres, que só têm redes, anzóis e puçás para pescar; na segunda, as casas dos pescadores menos pobres, donos de canoas de pesca. Todos vivem lado a lado como se não existisse entre eles o reguinho da pobreza que os separa” (SANTOS NEVES, 2008, p. 60). Encontro pescadores que contam que “a rua ficou célebre” graças aos seus filhos. “As águas do reguinho descem perenemente do Morro da Fonte Grande, cujo nome explica sua denominação, para a baía de Cidadilha. Mas no outono alcançam seu ponto ideal de serenidade. É quando os filhos dos pescadores aproveitam para fazer barquinhos de papel que botam para flutuar no reguinho. A brincadeira contagiou os adultos. Em pouco tempo, junto com os barquinhos de papel, barcos de madeira montados por artesãos de cabelos enrodilhados passaram a navegar o reguinho, enfeitados com bandeirolas coloridas. O costume virou tradição, e a tradição associou-se a São Pedro, padroeiro dos pescadores” (SANTOS NEVES, 2008, p. 61). Até que enfim, uma história que emociona e não arrepia.
Pista 5: toponímia invertida
Soube que tem uma praia por perto. Pois, a caminho estou. Cheguei... “Bem que podia se chamar Rua da Maré, dos Mangues ou dos Caranguejos. Mas, por uma questão de bairrismo”, os cidadilhos preferem “chamá-la Rua da Praia. No entanto, praia nenhuma existe por aqui e, de rua, o que” há é “um caminho escorregadio à beira do mangue” (SANTOS NEVES, 2008, p. 75). Opsss, escorrego, quase caio... “As casas situadas de um lado desse caminho têm quintais voltados para a maré que os inunda nas cheias. Quando a maré” baixa, “o cheiro penetrante da lama entra pelas casas adentro, junto com centenas de caranguejos que parecem animais domésticos. [...] a tradição mais celebrada na Rua da Praia” são “as caranguejadas” (SANTOS NEVES, 2008, p. 75-76). Aproveito para degustar... Não há talheres. Observo a técnica dos cidadilhos: quebrar as patas nas articulações. Devoro o fiapo da carne branquinha. Vou quebrando o restante, sem sucesso. A carne fica grudada na parte interna. Agarro a puã e sigo a técnica de um comensal: pego uma tábua e um pedaço de madeira que serve de martelo, bato com força e despedaço tudo. Ganho outra puã e bato com mais delicadeza. Sucesso! Uma delícia. Peço outra e não dão. Alegam que é a melhor parte. Falam para eu comer a barriga, mas prefiro caminhar, com as mãos lambuzadas...
Chego na Praça do Teatro e não há teatro. Informam que havia um “construído numa arquitetura de madeira19 [...] pegou fogo e somente ficaram de si mesmo cinzas sobre cinzas. Mas o nome permanece em homenagem ao ilustre incendiado” (SANTOS NEVES, 2008, p. 99). A Praça é animada. Funciona como palco de “exibições populares”: vejo, aos gritos, uma pregação religiosa. Vou até o vendedor “de ervas milagrosas, as demonstrações de curas são extraordinárias”. Curam tudo e todos. Observo que há “um cardápio sortido de shows que fascina a multidão”. Vou até os trovadores. Eles sobem num “banquinho portátil, que carregam debaixo do braço, para declamar quadrinhas do seu repertório com o ânimo de colegiais de primeiras letras [...]: “Eu sou pequena,/ Das pernas grossas,/ Vestido curto,/ Papai não gosta” (SANTOS NEVES, 2008, p. 100). O público delira. Os capoeiristas chegam “despidos a caráter: com uma calça branca justa que lhes vai até as canelas, descalços e com o peito nu em alto relevo”. Abrem “uma roda folgada e, ao som de um berimbau de barriga, se lançam num simulacro de combate à base de chutes e tesouradas com as pernas para o ar como se fossem atingir brutalmente os adversários que contra-atacam no mesmo estilo e violência, sem que nenhum dos contendores acerte o corpo do outro. Tudo à brinca, nada à vera, numa mentirinha arteira e rasteira, sob o trinado miudinho do berimbau, be-rim-bau, be-rim-bau-bau...” (SANTOS NEVES, 2008, p. 100).
Hora de seguir para o cais e partir, sem berimbau-bau-bau, para encarar as marolas da baía e suas pedras tão singulares.
Percursos: nas pistas do cartógrafo e outras pegadas
Antes de seguir as pistas do cartógrafo, algumas considerações: Luiz Guilherme, no seu citado jogo de logro, não inclui o Colégio dos Jesuítas e a Igreja de São Tiago20 (demolidos para a construção do atual Palácio Anchieta, sede do Executivo estadual) em sua cartografia ficcional. Desse conjunto arquitetônico construído em meados do século XVI, o escritor só inclui a escadaria (das Pobres Figuras) que lhe dá acesso, mas deixa pistas da presença dos jesuítas na Ilha, como o citado Porto dos Padres. Nesse logro, há um jogo de lusco-fusco: 1) na narrativa verbal, o escritor ofusca a igreja jesuítica, levando o leitor que conhece Vitória a procurá-la ao longo do livro até por sua importância histórica e sua marcante localização; 2) na linguagem imagética, como já dito, a Igreja se ilumina na capa de Cidadilha, mantendo-a em destaque na referida inversão (ou relação especular) da imagem da cidade. Por esse viés, não haveria como escamotear sua presença: “eram massas arquitetônicas que se desdobravam na mais coerente interligação. Completavam a paisagem montanhosa sem ferir-lhe a fisionomia plástica que a natureza moldara” (DERENZI, 1971, p. 19). Luiz Guilherme explicou esse logro em palestra realizada no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGAU/UFES), em 2016:
[...] a inversão de valores e do foco visual se mostra evidente desde a capa do livro, onde o desenho da velha cidade provincial de Vitória aparece com seus polos geográficos invertidos, num simbolismo ambíguo, ou seja, com o núcleo urbano em torno da igreja de Santiago, fundada pelos jesuítas, colocado à direita de quem olha o desenho, tendo no lado oposto o núcleo em torno da igreja do Rosário, numa contraposição de imagens que não correspondem à realidade física da cidade vista de sua baía21.
Evidenciam-se, assim, as relações entre o verbal, o imagético, a cidade, o imaginário geográfico, a historiografia e suas ressignificações.
Quanto ao paradoxo sobre o visitante, vimos que ele só é bem-vindo pelo Cabido para engordar os cofres públicos, mas é mal-vindo pelos cidadilhos. Voltemos, então, à Pista 1 do viajante-cartógrafo, que sentiu na pele e no espaço o que os cidadilhos desejam: boa viagem faz quem em sua casa fica em paz. A senha que o visitante recebe - “sobreviver para ver é vitória” -, confirma o narrador, celebra a vitória dos sobreviventes da ponte-língua traiçoeira, “habilitando-se a ver a cidade aonde aportavam, embora muitos visitantes [confundam] os seus termos com frases [sem] sentido: sobreviver apara a vitória; só reviver para a vitória; viver e ver é vitória” (SANTOS NEVES, 2008, p. 16).
Por que os visitantes insistem em ir para Cidadilha? O narrador ironiza três hipóteses: 1) “porque visitantes visitam desde as muralhas da China até o cós do mundo”; 2) “para tirar a prova de que [Cidadilha] nada [tem] a lhes oferecer de visitável. Neste caso, [agem] como São Tomés” [...]; 3) “Mas se nada [há] para encher os olhos [...], já se sabe que ali [estão] a célebre língua-ponte do Cais das Colunetas e as estatísticas do placar que um arlequim misterioso [manipula] na função de mordomo da cidade” (SANTOS NEVES, 2008, p. 17-18).
São motivos que deixam os visitantes felizes até descobrirem outras tenebrosidades dos cidadilhos, explicitadas na Pista 2 do cartógrafo, sobre o verdadeiro imbróglio provocado pela mistura entre topofobia e estranhas tradições. Pela etimologia, topos é lugar, e phóbos, medo mórbido de certos lugares. Ou seja, o inverso da topofilia, familiaridade e apego ao lugar, o que leva Tuan (1980, p. 114) a concluir: “A familiaridade engendra afeição, quando não o desprezo”. No caso de Cidadilha, não é apenas a ausência da familiaridade do visitante com o lugar. O que gera a topofobia são as sarcásticas e tragicômicas táticas dos moradores. Além da festa para os mortos da ponte-língua, do chouriço que o cartógrafo não quis degustar, citemos outro exemplo tradicional: o bosque da solidão, localizado no Largo da Misericórdia. O local reserva uma particularidade: a gruta sob o barranco do bosque, dizem, “é a boca de um túnel que se descaminha pelo interior das montanhas que cercam a cidade-ilha, até desembocar numa saída de geografia variável, movediça como a foz de um rio movediço, [...] [cujo] bafo cavernoso [...] [provoca] vômitos e diarreias” (SANTOS NEVES, 2008, p. 36). Pior: há setas turísticas para a gruta. Resultado: só de chegarem “perto da entrada fétida, e ainda por cima, ao começarem botar os bofes para fora, são brindados pelos moradores com esta pergunta galhofeira: Sarapico, pico, pico,/ Quem te deu tamanho bico?” (SANTOS NEVES, 2008, p. 36 - grifos do autor). Portanto, enquanto o visitante vivencia a topofobia, os cidadilhos divertem-se com seu parque de horrores.
Na Pista 3, o traçado sinuoso das ruas, obedecendo à topografia, é capturado na caminhada do cartógrafo ao subir e descer morros e registrar as maneiras do fazer cotidiano. Para Certeau (1994, p. 176), os “jogos dos passos moldam espaços. Tecem os lugares” e se relacionam a algo mais: o “ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação [...] está para a língua” (CERTEAU, 1994, p. 177 - grifos). Ou seja, o ato de caminhar estabelece um espaço de enunciação, cujo efeito “é uma tríplice função ‘enunciativa’”:
[...] é um processo de apropriação do sistema topográfico pelo pedestre (assim como o locutor se apropria e assume a língua); é uma realização espacial do lugar (assim como o ato da palavra é uma realização sonora da língua); enfim, implica relações entre as posições diferenciadas, ou seja, “contratos” pragmáticos sob a forma de movimentos (assim como a enunciação verbal é “alocução”, “coloca o outro em face” do locutor e põe em jogo contratos entre colocutores). (CERTEAU, 1994, p. 177-grifos do autor).
Ao percorrer a cidade-ilha, o cartógrafo tece os lugares acompanhando a topografia e transforma a caminhada em “relatos de práticas de espaços” (CERTEAU, 1994, p. 181) por associá-los a duas figuras de linguagem: a sinédoque e o assíndeto. A primeira (metonímia) designa uma parte no lugar do todo, como a língua traiçoeira, que conota a ponte de acesso à Cidadilha, como as maldades dos cidadilhos. O assíndeto suprime “os termos de ligação, conjunções e advérbios, numa frase ou entre frases. Do mesmo modo, na caminhada, seleciona e fragmenta o espaço percorrido; ela salta suas ligações e partes inteiras que omite [...]. Pratica a elipse dos lugares conjuntivos” (CERTEAU, 1994, p. 181).
Porém, a elipse dos lugares conjuntivos não oculta a Pista 4 em que o cartógrafo estabelece relações entre Cidadilha e suas toponímias, descrevendo como seu corpo vibrátil percebeu a ressignificação de ruas, como a do Piolho, do Reguinho ou do Fogo. Tais nomes eram batizados pela criatividade popular, mas o conhecimento dessa denominação se restringiria aos cidadilhos por falta de qualquer indicação22.
Em contraposição, nosso viajante flagrou toponímias invertidas, abrindo a Pista 5, após relatar o espaço percorrido. Na Praça do Teatro, enquanto a narrativa mantém o finado Teatro Melpômene em elipse (no plano geográfico), sua presença se ilumina na memória histórico-afetiva. Essa memória definiu todos os encaminhamentos e os respectivos conjuntos de cartografias por aqui navegados, que extrapolaram os trinômios passado, presente, devir; concretude, virtualidade, presencialidade; e presença, ausência, potência na linguagem e nas experiências fenomenológicas.
Check-out
A partir da literatura, vimos o quanto o espaço imaginário se conecta ao núcleo fundacional de Vitória e de que forma o escritor humaniza o cotidiano dos cidadilhos, preservando laços históricos, tradições religiosas e folclóricas similares aos da cidade real. O cartógrafo antropofágico cumpriu seu papel: devorou a cidade, se abriu à alteridade, se alimentou não só do referencial de Luiz Guilherme (que se nutriu de outras obras, de sua experiência como historiador e de suas nostalgias), mas, ao “intertextualizar” suas caminhadas em relatos com a narrativa de Cidadilha, revigora a obra ficcional. Mais do que isso, o cartógrafo abre passagem aos afetos/desejos ao permitir que seu olho e corpo vibráteis capturem, experimentem e degustem todas as sensações, inclusive as variações do prefixo topos, que, adicionado a diferentes sufixos, gera outros sentidos/afetos às experiências no espaço e na paisagem: grafia, de sistemas analíticos e descritivos; filia, de familiaridade e afeto; e fobia, relativo ao medo e à aversão.
Porém, um fio permanece solto: a terrafilia, o “antônimo da topofilia. Pode-se dizer que existe uma relação inversa (correlação negativa) entre as duas noções: quanto mais forte a descaracterização, mais fraca a topofilia e vice-versa” (ROCA; OLIVEIRA; NUNO, 2006). Por essa perspectiva, há um triplo viés em Cidadilha: 1) como dito, a terrafilia é imposta pelo Cabido para desenvolver a cidade, abrindo novos negócios com o turismo, mas a ficção não detalha se há preocupação quanto à preservação da cidade. É provável que não; 2) os cidadilhos não querem os visitantes para não perderem suas noções de topofilia, de raízes e de costumes, seu folclore e seu jeito de ser e viver, permanecendo avessos às possíveis descaracterizações. Relembrando: querem preservar a cidade como presépio, justamente uma das imagens símbolos verídicas da capital capixaba23; 3) Luiz Guilherme esclareceu, em sua referida palestra que, ao criar Cidadilha, tentou desconstruir a “badalada visão de Cidade Sol24 e Ilha do Mel25, Pasárgada ou Xangrilá”, conhecidos paraísos imaginários. Ou seja, tentou desconstruir a simbologia que associasse Cidadilha a um paraíso perdido. Embora o escritor não tenha incluído (em sua citação) a Cidade-Presépio (presente na ficção), esta não deixa de ser um paraíso prestes a se perder na visão dos cidadilhos. Assim, o autor criou “uma gozação literária, tendo por base a antiga cidade de Vitória”.
Portanto, a terrafilia aplica-se ao Cabido, e a topofilia, aos cidadilhos. O escritor, por sua vez, ao contrário de outras ficções dedicadas a Vitória26 e ao Espírito Santo, desconstruiu as imagens símbolos de sua terra natal, apropriando-se de uma linguagem mordaz e satírica. Desse modo, é provável que transite entre a terrafilia e a topofilia até porque, como urbanita, sentiu em seu corpo vibrátil os efeitos da descaracterização da cidade em suas transformações das dinâmicas urbanas e às alternâncias econômico-sociais, sem perder o sentimento topofílico.
De volta a Cidadilha, para Luiz Guilherme27, por trás de toda carga de menosprezo aparente, há uma “mal disfarçada afetividade de quem, apesar de falar mal, agiu movido por um grande bem-querer ao objeto mal falado, por mais contraditório que isso possa parecer”. Talvez, por isso, o escritor brindou seus leitores com outra ficção sobre Vitória: Navegação em torno da ilha vislumbrada (2014) em outro tom:
A ilha é firme e dadivosa, encravada num anel de mar. Ao seu redor, ilhas menores se espalham - satélites magnetizados.
A ilha sempre amanhece com cara de terra nova. É um estímulo para que seus habitantes fiquem de bem com a vida.
À noite, a ilha é platônica e misteriosa e a pátina da maresia umedece discretamente os bancos das praças públicas. (SANTOS NEVES, 2014, p. 11).
Nessa contraposição a Cidadilha, o escritor abre outro espaço-tempo no imaginário geográfico de Vitória, adicionando sempre a história de sua cidade quinhentista, seus costumes, evolução e conflitos. E nos ensina a repensar o espaço como “uma dimensão implícita que molda nossas cosmologias estruturantes. Ele modula nossos entendimentos do mundo, nossas atitudes frente aos outros” (MASSEY, 2008, p. 14). Por esse viés, o espaço afeta o modo de abordar as cidades e de praticar “um sentido de lugar. Se o tempo é a dimensão da mudança, então o espaço é a dimensão do social: da coexistência contemporânea de outros” (MASSEY, 2008, p. 14). A partir de Cidadilha, chegamos a outras maneiras de narrar, de criar e de praticar a teoria. Afinal, “a teoria surge da vida” (MASSEY, 2008, p. 14) para ser praticada com volúpia. E também porque “teoria é sempre cartografia” (ROLNIK, 1987). No nosso caso, em exercício prático, em mergulhos na geografia dos afetos, montando um mosaico de camadas de palimpsestos que devoramos, associamos e ressignificamos em múltiplas saídas, mas sem pretensões de chegar a conclusões definitivas. Construímos pontes para permitir outras travessias e outros modos de cartografar desejos/afetos.
REFERÊNCIAS
CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. Tradução Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
DERENZI, Luiz Serafim. História do Palácio Anchieta. Vitória: Secretaria de Educação e Cultura, 1971.
ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. 2. ed. Vitória: Instituto Jones Santos Neves, 1986.
LEFEBVRE, Henri. A vida cotidiana no mundo moderno. São Paulo: Ática, 1991.
MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.
MONTEIRO, Peter Ribon. Vitória: identidade e visibilidade. In: SIMPÓSIO DE COMUNICAÇÃO VISUAL URBANA, 1., 2005, São Paulo. Papers.... São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo/USP, 2005. Disponível em: <http://www.fau.usp.br/depprojeto/labim/simposio/PAPERS/SCV3AU13.htm>. Acesso em: 20 maio 2017.
ROCA, Zoran. Paisagem, identidade territorial, desenvolvimento e terrafilia. Comunicação. Sessão de Debate e Reflexão sobre Política Nacional de Arquitectura e Paisagem, Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional. Sintra, 2009. Disponível em: <tercud.ulusofona.pt/index.php/pt/documentos-on-line/category/5-2009?...roca...>. Acesso em: 5 jun. 2017.
ROCA, Zoran; OLIVEIRA, José, NUNO, Leitão. Da topofilia à terrafilia: paisagens, modos de vida e desenvolvimento territorial. In: ENCONTRO NACIONAL DE PROFESSORES DE GEOGRAFIA ENTRE O MAR E A TERRA: paisagens, itinerários didacticos, 20., 2006. Papers... . Peniche, Portugal: Universidade Lusófona. Disponível em: <tercud.ulusofona.pt/index.php/pt/documentos-on-line/category/8-2006>. Acesso em: 27 maio 2017.
ROLNIK, Suely. Cartografia ou de como pensar com o corpo vibrátil. In: Núcleo de Estudos de Subjetividade da PUC. São Paulo, 1987. Disponível em: <http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/suely%20rolnik.htm>. Acesso em: 10 jun. 2017.
______. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. 2 ed. Porto Alegre: Sulina/Editora da UFRGS, 2016.
SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. 5. ed. São Paulo: Hucitec, 1997.
SANTOS NEVES, Luiz Guilherme. Passeio pelo centro de Vitória na companhia de Rubem Braga. Fotografias de Humberto Capai. São Paulo: Empresa de Artes, 1992.
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TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo/Rio de Janeiro: Difel, 1980.
Notas
Autor notes