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Ucrânia invadida: quando identidade e geopolítica se encontram na estratégia populista de Vladimir Putin
Ucrânia invadida: quando identidade e geopolítica se encontram na estratégia populista de Vladimir Putin
Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares, vol. 24, núm. 1, pp. 7-19, 2022
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais
Recepção: 01 Março 2022
Aprovação: 01 Abril 2022
Resumo: A invasão da Ucrânia iniciada em fevereiro de 2022 se baseou em uma política de expansão de poder e influência que se compreende por uma digressão das relações entre Rússia e Ucrânia, desde o fim da guerra fria. Desde a fundação do Estado da Ucrânia em 1991, diferentes identidades e alinhamentos da população, elites governamentais e oligarquias disputam interesses e influência política no país. Visando a uma contribuição modesta, mas cumprindo um nicho de reflexões e estudos sobre o tema dos conflitos da Ucrânia no Brasil, este artigo parte do conceito de “putinismo” (LAQUEUR, 2015; TAYLOR, 2018; SNYDER, 2013; 2019; McFAUL, 2020), enquanto uma expressão de designação da política interna e externa do presidente Vladimir Putin. Em seguida, o artigo explora duas dimensões de análise e interesse do Kremlin sobre a Ucrânia: uma perspectiva social e cultural e outra geopolítica, que se complementam. Os argumentos do artigo buscam introduzir um aporte ao entendimento de fatores que se revelam estratégicos no sistema político de Vladimir Putin, o primeiro presidente da Rússia eleito no contexto da transição econômica ocorrida a partir do fim da Guerra Fria, ainda ocupando de forma alternada o governo, seja como primeiro ministro ou presidente, desde 1999
Palavras-chave: Ucrânia, Rússia, Putinismo.
Abstract: The invasion of Ukraine started in February in 2022, it was based on a Russian policy of expansion of power and influence that is understood by a historical digression of the relations between Russia and Ukraine since the end of the Cold War. Since the foundation of the state of Ukraine in 1991, different identities and population alignments, government elites and oligarchies vie for interests and political influence in the country. Aiming at a modest contribution, but fulfilling a niche of reflections and studies on the subject of the conflicts of Ukraine in Brazil, this article starts from the concept of “Putinism” (LAQUEUR, 2015; TAYLOR, 2018), as an expression of designation of the domestic and foreign policy of President Vladimir Putin. Then the article explores two dimensions of the Kremlin's analysis and interest in Ukraine: a social and cultural, and a geopolitical perspective, which complement each other. The article's arguments intend to introduce a contribution to the understanding of factors that prove to be strategic in the political system of Vladimir Putin, the first elected president of Russia in the context of the economic transition addressed by the end of the cold war, still occupying the government alternately, either as prime minister or president since 1999.
Keywords: Ukraine, Russia, Putinism.
Introdução
As dimensões priorizadas para a análise da crise na Ucrânia neste artigo consideram aspectos de identidade e da sociedade ao lado de estratégias políticas do governo do presidente Vladimir Putin e sua política de poder para a região do entorno da Rússia contemporânea. A invasão da Ucrânia iniciada em fevereiro de 2022 se baseou em uma política de expansão de poder e influência que se compreende por uma digressão das relações entre Rússia e Ucrânia, desde o fim da Guerra Fria. Desde a fundação do Estado da Ucrânia em 1991, diferentes identidades e alinhamentos da população, elites governamentais e oligarquias disputam interesses e influência política no país.
Um olhar para as revoluções da Ucrânia ocorridas em 2004 (Revolução Laranja) (DICKINSON, 2020) e 2014 (Revolução Maidan ou Euromaidan) contribui para o entendimento de multirrazões e fatores políticos e sociais que dividem a sociedade contemporânea e explicam o levante da população, que levou à adesão corajosa e enfrentamento do povo ucraniano quanto à defesa de sua democracia. Em contraste a essas revoluções históricas, vimos em fevereiro de 2022, entretanto, a injustificada e inexplicável invasão de um país soberano por uma força estrangeira. O grau de violência testemunhado pelo mundo com a invasão da Rússia na Ucrânia exige uma compreensão responsável pelos pesquisadores das sociedades contemporâneas, da política, da história e da democracia, sobre os temas regionais e nacionais da Ucrânia e as relações entre Rússia e Ucrânia.
O entendimento das facetas da relevância e enredamento das relações entre as sociedades e os temas políticos que envolvem a região dos dois países desde o fim da Guerra Fria exige diferentes e entrelaçados enfoques no esforço de uma análise de cenário crítica. Senso assim, este artigo tem um recorte e um foco específico, visando a uma contribuição modesta à nova agenda de pesquisa que se abre para a reflexão sobre os atuais desafios da ordem mundial, das sociedades europeias e de uma mudança da ordem internacional. Questões de segurança e de armamento nuclear, aspectos relevantes sobre a expansão da União Europeia (UE) com impacto para os países do leste e a expansão da OTAN após o fim da Guerra Fria exigem um aprofundamento tangencial e paralelo sem espaço neste artigo, que visa ser uma peça à contribuição para o entendimento do tema dos conflitos na Ucrânia.
Visando a uma contribuição pontual, com foco em um nicho de reflexões e estudos sobre a relação entre Rússia e Ucrânia pós-Guerra Fria, este artigo parte do conceito de “putinismo” para explorar duas dimensões de análise e interesse do Kremlin sobre a Ucrânia: uma perspectiva social e cultural e outra geopolítica, que se complementam, segundo os argumentos que serão desenvolvidos e apontados nas notas conclusivas.
Putinismo
Visando contribuir para um aporte ao entendimento de fatores que se revelam estratégicos no sistema político de Vladimir Putin, o primeiro presidente da Rússia eleito após a transição econômica alavancada pelo fim da Guerra Fria, consideramos o conceito de putinismo. Esse conceito popular na literatura europeia tem sido usado para identificar características específicas da liderança de quem tem ocupado de forma alternada o governo da Rússia, seja como primeiro ministro ou presidente, desde 1999 até o presente.
Taylor (2018) designa como “código do Putinismo” uma referência à natureza do sistema político de Putin, quanto à economia, política doméstica e externa. Para Taylor (2018), dentre as principais características estão o antiamericanismo, o conservadorismo social, o autoritarismo, a dominação estatal e articulação entre amigos e grupos de associados leais ao presidente, de forma pessoal, e uma política externa assertiva e expansionista. Snyder (2019) inclui a trajetória de Putin na Rússia aos levantes autoritários e iliberais que atravessaram as Américas e a Europa na década de 2000, incluindo a estratégia de Putin ao seu projeto nacional ideológico, com características fascistas e autoritárias.
No caso da Ucrânia, Timothy Snyder (2013) já apontava o quanto a negação da existência do país e o posicionamento do governo de Putin sobre o Estado, sua autonomia e do povo ucraniano, se apresentavam como um alvo estratégico, com destaque sobre o pronunciamento, em dezembro de 2013, do Embaixador russo na França, quando em discurso declarou que “russos e ucranianos são uma só nação” e “assim como bretões e normandos” também “não podem ser separados” (SNYDER, 2013). Orlov estava reforçando a política externa russa para a Ucrânia nos moldes do “nacionalismo conservador”, que marca o regime de Putin enquanto uma trajetória de reforço e incentivo de ideais iliberais e autoritários, marcados pela comunhão entre valores de cunho religioso ortodoxo (MCFAUL, 2020) e uma ideologia de governo centrada na figura pessoal de um líder redentor da grandeza do país. Também de acordo com McFaul (2020), a anexação da Crimeia em 2014, dentre outros posicionamentos da política externa de Putin, diferenciam o putinismo de outras políticas externas expansionistas, em busca de maximização de poder. O putinismo apresenta um elemento novo de divisão ideológica no mundo, em que, sustentado por ideias nacionalistas e instituições cada vez menos abertas e menos democráticas, propõe uma política doméstica de fortalecimento de valores e ideias de identidade que propaga externamente.
Segundo Kara-Murza (2017), são considerados dois estereótipos na busca da legitimação do putinismo, para que se compreenda seu funcionamento enquanto um regime particular. O primeiro é que Putin é extremamente popular junto aos cidadãos russos, no entanto não há como se confiar nas pesquisas de opinião de um país com alto controle governamental sobre as instituições e centralização dos meios de formação de opinião. O segundo, ainda mais polêmico, é o estereótipo de que o povo russo se identifica com o estilo autoritário e uso da força de Putin, o que da mesma forma não se sustenta quando não há direito à contestação e à crítica ao governo. Nos dois casos, a falta de transparência nas informações, a falta de uma imprensa livre e oposição governamental desqualificam o uso do termo putinismo como uma ideologia ou um sistema que se sustentaria sem estratégias já conhecidas e usadas por lideranças populistas. Segundo Müller (2016, p.49), líderes populistas são aqueles que, enquanto alegam estarem salvando seu povo de usurpadores do poder e traidores do povo, bem como elites corruptas, acabam por representarem exatamente o que dizem estar combatendo, justificando-se pela popularidade e autorização direta do povo, com argumentos democráticos que buscam ultrapassar a intermediação das instituições e outros mecanismos de controle da liderança populista.
Kara-Murza (2017) relembra que o povo russo em 1906 já optou pela liberal democracia, foi chave na revolução popular de 1917, e apoiou o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), quando seu governo já não retratava os anseios populares legítimos. Ou seja, há um histórico de manifestação, ativismo e uma cultura de participação e preocupação com a política e com a democracia no histórico da sociedade russa, segundo Kara-Murza (2017). Mas ainda assim é um fato que, mesmo com excessivos poderes presidenciais e assumido conservadorismo no campo dos valores, da religião e da política (HERPEN, 2013), Putin alcança suporte político que tem garantido sua permanência no poder, reforçado com ações e estratégias institucionais e populares, baseadas em um governo de culto à presidência (WHITE; MCALLISTER, 2008) e de personalização da política.
Por fim, se reforçar o elemento “pessoal” da presidência russa significa ressaltar que, para Putin, o uso dos poderes formais do cargo não parece suficiente para ser analisado ou para definir sua liderança (WHITE; MCALLISTER, 2008), torna-se relevante compreender os interesses e apelos das ações do Kremlin, não apenas desde uma perspectiva institucional ou de medidas governamentais, mas também nas politicas de identidade que fortalecem e dão respaldo ao sistema ou ideologia (APPLEBAUM, 2013) designada como putinismo pela literatura (FISH, 2017; KARA-MURZA, 2017; WHITE; MCALLISTER, 2008, TAYLOR, 2018; HILL, 2010).
Identidades coletivas da Ucrânia
De acordo com dados do último censo publicado pela Ucrânia (ALL-UKRAINIAN POPULATION CENSUS, 2001), convivem na Ucrânia mais de 130 nacionalidades e grupos étnicos no território do país. No entanto, a principal cisão demográfica, gerada por diferenças ideológicas, religiosas, culturais, linguísticas e étnicas se traduz em dois projetos de sociedade e visões de Estado. Cerca de 77.8% da população se considera ucraniana e, em segundo lugar, 17% se considera russa (em terceiro, com grande diferença: 0.6% é bielorusso). Em todo o país, quase 30% consideram o russo sua língua natal, e 67.5 % o ucraniano (ALL-UKRAINIAN POPULATION CENSUS, 2001), sendo que as duas línguas são comumente conhecidas por toda a população.
Apesar de um nacionalismo ucraniano se desenvolver desde a criação da República da Ucrânia em 1991, ao mesmo tempo, a presença de povos russos em regiões ao sul e leste do país se manteve como uma identidade coletiva mais associada ao projeto russo de Estado do que ao europeu. Ao norte e na fronteira ocidental da Ucrânia se encontra uma parte da população mais identificada com o modelo europeu de Estado, com prevalência de valores de uma democracia liberal.
A década de 2004-2014 foi marcada pela luta de influências europeias e russas na região fronteiriça entre a Rússia e a União Europeia. Na Ucrânia, o povo saiu às ruas nas duas revoluções que revelaram nos anos 2000 uma sociedade insatisfeita com a aproximação do país com seu passado soviético ou, visto de outra forma, rejeitava a aproximação com o presente autoritário de uma Rússia que já revelava sua orientação antiocidental e antiliberal. Conflitos na fronteira ao leste e na península da Crimeia, ocorridos em 2014, resultaram na ocupação de tropas russas e suporte militar justificado pela proteção da diáspora de populações russas que vivem na Ucrânia.
Para além da expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte e da União Europeia, que trazem fatores analíticos de relevância sobre a resposta da Rússia ao aumento de influência ocidental nas ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia, desde a fundação do novo Estado em 1991, foi marcada por um crescente nacionalismo.
O cenário nacional e internacional de favorecimento ao crescimento e continuidade de uma diplomacia promissora com o Ocidente para o presidente Putin, que marcou o início do seu primeiro mandato presidencial, mudou desde o início dos anos 2000. Enquanto a União Europeia se expandia para o leste, incorporando só no ano de 2004 dez países do Leste Europeu, o desempenho econômico da Rússia já demonstrava a perda de fôlego ao longo dos anos. Depois de ter passado por anos de crescimento em torno de 10% em 2001, em 2005 já começa a cair para 6.4% (THE WORLD BANK data, 2022). Em 2014, a Rússia não cresceu, e em 2015 seu PIB foi negativo (-1.9%) (THE WORLD BANK data, 2022).
Vimos na política doméstica, a partir de 2004, aumento de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e maior orientação para apelos identitários internamente e aproximação de parceiros estratégicos internacionais, como com a China (KOFMAN; KENDALL-TAYLOR, 2021) e a Turquia. A anexação da Crimeia cumpriu assim, em 2014, uma trajetória de sucesso para uma nova fase de inserção da Rússia na ordem regional e internacional, não mais apenas alinhada com potências emergentes, mas também passando a se utilizar do evento para recuperação de sua identidade gloriosa e imperial do passado.
Desde 2014, Moscou realizou altos investimentos em infraestrutura, com a construção da ponte kerch de extensão de 19 quilômetros, no estreito de mesmo nome, que dá passagem do Mar Azov ao Mar Negro. A ponte é um projeto do início do século, hoje um complexo de passagem de veículos entre a Rússia e a Crimeia e uma linha férrea que desde 2019 passou a conectar São Petersburgo ao porto de Sevastopol, localizado ao oeste da península. Sevastopol é a maior cidade da Crimeia, onde se localiza o maior porto do Mar Negro, fundado por Catarina, a Grande, no século XIX, onde se localiza a frota marinha russa desde então. O domínio de Sevastopol foi uma das grandes vitórias da anexação da Crimeia.
Outro investimento, o mais conhecido, foi o novo braço do gasoduto Nord Stream, que conecta a Rússia à Alemanha, pelo fundo do Mar Báltico.3 Com o Nord Stream II, além de aumentar o fluxo de comércio com a Europa, se enfraquece economicamente a Ucrânia. O gasoduto começou a ser construído em 2015 e já se encontra pronto para funcionar, aguardando apenas para seus últimos arranjos a aprovação normativa para funcionamento, uma certificação que deve ser dada pela agência regulatória alemã, atualmente suspensa como uma das sanções em função da invasão da Ucrânia.4 Com o Nord Stream II, o fluxo de gás que atravessar o território ucraniano deixa de ser relevante para a Rússia, que deixará de pagar tarifas e comissões de passagem.
Donbass e Crimeia pós-2014
A posição estratégica da península da Crimeia que dá acesso do Mar de Azov ao Mar Negro e ao Mar Mediterrâneo, além de ser uma região tradicionalmente ocupada pela Rússia com históricos de alternância de domínio e conflitos constantes, guarda, principalmente, o acesso ao mar, e no porto de Sevastopol, a frota marinha russa, fundada por Catarina, a Grande, no século XVIII. Assim também as cidades de maioria russa ocupadas em Donbass desde 2014, que foram reconhecidas oficialmente pelo Kremlin em 2022, após a invasão da Ucrânia, já recebiam suporte de tropas do Kremlin desde a autoproclamação das repúblicas independentes.
O projeto de uma Rússia ampliada, com o apoio formal do Kremlin, fez surgir a Nova Rússia: um projeto de confederação que agrega as repúblicas russas na região de Donbass, incorporando Donetsk e Luhansk a uma nova Confederação, com bandeira própria e capital em Donetsk. Lugansk complementa geograficamente a região de Donetsk, perfazendo o cinturão da fronteira da Ucrânia com a Rússia. Apesar de haver uma grande diversidade de etnias na Ucrânia, a região de Lugansk, em particular, já guardava, mesmo desde 2014, uma composição multinacional acima da média, com cerca de 68% de habitantes que têm o russo como língua natal, em contraste com 30% daqueles que consideram o ucraniano sua língua natal (ALL-UKRAINIAN POPULATION CENSUS, 2001).
Além de ser um cinturão fronteiriço, Donetsk é a quinta maior cidade da Ucrânia, ocupando a maior parte da fronteira ao leste do país com a Rússia. Na cidade se encontra a maior concentração de produção e indústria de carvão e aço. Logo, região de alta importância estratégica para o desenvolvimento da Ucrânia pelo seu potencial energético, além de que já se concentrava em Donetsk, segundo dados de 2001, 87.8% de população tendo o russo como língua natal (ALL-UKRAINIAN POPULATION CENSUS, 2001).
Para se compreender a facilidade de entrada de tropas russas na Ucrânia em 2022 pela fronteira leste, esses dados são relevantes, bem como o fato de que, para além do apoio da Bielorrússia na invasão, os investimentos do Kremlin realizados desde 2015 mencionados, especialmente na região da Crimeia, não teriam sido executados se Putin não estivesse disposto a se manter no país ou resistir à interferência estrangeira sobre sua política de poder na Ucrânia.
Dois dias após o referendo na Crimeia de 16 de março de 2014, que legitima a anexação pela aprovação popular da península por cerca de 97% (contra 2.51%) da população local – com a participação de 83% da população da península (MORELO; CONSTABLE; FAIOLA, 2014), o presidente Putin fez um discurso no Parlamento defendendo a decisão popular de apoio à anexação. Utilizou-se de uma retórica cheia de simbolismos e apelos históricos relacionados à fundação do Estado da Rússia e sua identidade (G1. MUNDO, 2014). Todos os anos são veiculadas as imagens do povo ortodoxo russo, bem como de Putin, realizando o rito do mergulho, associado a crenças de que este é um ato restaurador da saúde do corpo, ao mesmo tempo que fortalece o simbolismo da identidade religiosa e fundação do Estado, associando a bravura e a persistência ao mito fundacional destacado no discurso de 2014 citado. Diversos simbolismos associados e reforçados, não apenas pela Igreja, mas também pelo governo remetem ao mito de origem do Estado associado à Igreja ortodoxa russa e à região da Crimeia e do rio Dniepre (ou Dnipro), que atravessa Bielorrússia, Rússia e Ucrânia com extensão de mais de dois quilômetros até desaguar no Mar Negro.
A geopolítica e os recursos simbólicos
O projeto de eurasianismo para a retomada da projeção russa no sistema internacional pode ser interpretado também desde a definição de “pivot area” de Mackinder (1943), conceito que colabora para o entendimento sobre a estratégia russa, na busca por influência do país no seu entorno. Mackinder foi professor de geografia na Universidade de Oxford e Diretor da Escola de Economia e Ciência Política, quando, em 25 de janeiro de 1904, discursou na Sociedade Geográfica Real de Londres um ensaio intitulado “O pivô Geográfico da História”. Esse evento lançou seu pensamento e conceitos que passaram a ser desenvolvidos nos estudos da geopolítica.
O Heartland é a parte norte e o interior da Euro-Ásia. Estende-se desde a costa ártica até os desertos centrais e tem como limites ocidentais o amplo istmo entre o Mar Báltico e o Mar Negro. (...) Em primeiro lugar, temos nesta região, de longe, o plano mais amplo de planície da face da terra. Em segundo lugar, fluem através daquela planície alguns grandes rios navegáveis; alguns deles vão para o norte, para o Mar Ártico, e são inacessíveis pelo oceano porque são sobrecarregados de gelo, enquanto outros fluem para águas interiores, como o Mar Cáspio, que tem saída para o oceano. Em terceiro lugar, existe aqui uma zona de pastagem que, até o último século e meio, apresentava condições ideais para o desenvolvimento de elevada mobilidade por nômades montados a camelos e cavalos. (MACKINDER, 1943, pp. 597-598)5
Para Mackinder (1943), a extensão de acesso territorial e marítimo é uma ambição expansionista anfíbia e se revela particularmente na política do Kremlin para a Ucrânia desde quando contamos a história dessa região de fronteira desses países. Naturalmente, essa perspectiva não ficou livre de críticas, como a que diz respeito aos limites de uma visão “materialista” da geopolítica, que estaria, portanto, desconsiderando outros atores e fenômenos da sociedade. Raymond Aron (2002, pp.16; 264 ss.) foi um relevante baluarte da crítica à geopolítica, em função de sua perspectiva da política que valoriza aspectos sociológicos e históricos, nacionais e internacionais. Segundo o autor, falta à geopolítica a atribuição de um papel suficientemente relevante aos povos como decisivos na política e na luta por poder.
As fronteiras da península da Crimeia se revelaram como estratégicas para o Kremlin e como potencial ameaça à estabilidade da Rússia, reforçando iniciativas de expansionismo de Moscou como uma medida de freio ao expansionismo europeu ocidental sobre repúblicas da ex-URSS (AGÊNCIA EFE, 2018), incluindo-se a Ucrânia. Apesar de o país não ser membro ou candidato à entranha na União Europeia, faz parte de uma política para a vizinhança ao leste, e de uma parceria oriental, construídas desde o fim da Guerra Fria, que faz aumentar a influência do modelo liberal e da democracia europeia na Ucrânia.
Para Nunes e Silva (2018), a anexação da península da Crimeia em 2014 é parte do projeto eurasianista russo. Ademais, a entrada para o Mar Negro significa o aumento de controle da área continental e acesso a uma região de potencial petrolífero, além do recurso de acesso ao Mar Mediterrâneo. À mais tradicional rivalidade entre poderes terrestres e poderes marítimos é somada a ambição de um poder anfíbio, que satisfaça características das duas capacidades, conforme Mackinder (1943).
Desde 1997, Brzezinski já havia afirmado o quanto a conquista da Ucrânia pela Rússia a faria ter possibilidades de se tornar novamente “um império”, com potencial de impacto no papel da Polônia na região. Assim, a Ucrânia parece ter se revelado estratégica às ambições do putinismo, sem medidas nem freios à expansão dos objetivos de Vladimir Putin.
A anexação da Crimeia pela Rússia provocou uma alteração radical no contexto geopolítico da região e da própria Europa, mas mais importante, fez soar alarmes em alguns Estados Europeus, em especial na Polônia, com receio do renascimento do imperialismo russo, (...) (LAPA, 2019, p.1).
Conclusão
A popularidade de Putin tem se apoiado em narrativas identitárias, o que não significa ser antiliberal ou antiocidente, mas se associa a uma perspectiva de identificação com uma grandiosidade da Rússia mais relacionada ao modelo czarista do que soviético (SEGRILO, 2011). Por essa razão, uma avaliação das ações expansionistas de Putin como uma ambição soviética é um equívoco, podendo desviar uma visão mais crítica a respeito de um projeto do eurasianismo, o que se vê retratado no sistema de governo ou ideologia do putinismo, mais apropriadamente do que qualquer comparação ao modelo soviético.
O Mar Negro, que divide a Europa da Ásia e é marginal ao Mar de Azov ao leste e ao Mediterrâneo no Oeste, é um lugar marcado por simbolismos históricos que alimentam interesses e justificam a retórica com apelos identitários e a presença russa na região. Vladimir Putin não se poupa em reforçar em discursos e medidas políticas nacionalistas com apelos históricos e narrativas populistas, com o objetivo fundamental, a partir da associação do Estado com a igreja e seus símbolos, a invasão de um país soberano.
Na perspectiva realista de Mearsheimer (2014, p. 78), os líderes dos Estados Unidos e da Europa teriam se equivocado ao tentarem transformar a Ucrânia em um reduto ocidental na fronteira com a Rússia. Ou seja, segundo o autor e a partir de sua análise pragmática, a reação da Rússia à altura de suas perdas, internacionalmente e internamente, era prevista e esperada desde uma perspectiva realista da política externa de Putin. Essa foi uma afirmação realizada no contexto da anexação da Crimeia, quando não se projetava a possibilidade de uma invasão do país.
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Notas