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Invisibilidade relativa: as grandes cidades de Simmel a partir de Howard Woolston e Robert Park
Invisibilidade relativa: as grandes cidades de Simmel a partir de Howard Woolston e Robert Park
Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares, vol. 24, núm. 1, pp. 41-67, 2022
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais
Recepção: 01 Dezembro 2020
Aprovação: 01 Maio 2022
Resumo: Este artigo aborda os primeiros passos da recepção americana do ensaio de Simmel As grandes cidades e a vida do espírito a partir de dois artigos publicados no American Journal of Sociology: O primeiro em 1912, The Urban Habit of Mind, por Howard Woolston, e o segundo em 1915, The city: Suggestions for the investigation of Human Behavior in the City Environment, por Robert Park. Esse tortuoso percurso inicial da recepção é importante para se reconhecer como Simmel foi mobilizado para se produzir um discurso sobre a cidade com pretensão de legitimidade sociológica, em um período de amplo debate a respeito do significado das grandes cidades americanas.
Palavras-chave: Simmel, Grandes Cidades, Sociologia Americana.
Abstract: This article covers the first steps of the American reception of Simmel's essay The Metropolis and Mental Life, based on two articles published in American Journal of Sociology: The first in 1912, The Urban Habit of Mind, by Howard Woolston, and the second in 1915, The City: Suggestions for the Investigation of Human Behavior in the City Environment, by Robert Park. This tortuous initial journey of the reception is important to recognize how Simmel was mobilized to produce a discourse about the city with a claim of sociological legitimacy, in a period of wide debate about the meaning of the great American cities.
Keywords: Simmel, Metropoles, American Sociology.
Introdução: as grandes cidades de Simmel nos EUA
Todo estudo sobre a recepção de Simmel é obrigado a lidar com a sua frase:
Sei que irei morrer sem herdeiros espirituais (e é bom que seja assim). Meu espólio é como uma herança em dinheiro vivo, que é dividida entre muitos herdeiros: cada um converte a sua parte em alguma aquisição de acordo com a sua natureza, de modo que não se pode enxergar a sua proveniência daquele espólio.(SIMMEL, 1967 [s.d.], apud WAIZBORT, 2007, p. 12).
Provavelmente essa frase de Simmel é a que melhor identifica a relação de sua obra com seus leitores e, também, de suas aulas com seus alunos, à revelia da possível busca de seus herdeiros pela fidelidade diante de seu espólio. Dificilmente o poder evocativo do ceticismo que ela porta perderá seu efeito, mesmo que seja repetida tantas outras vezes.
Dois de seus alunos, que atravessaram o atlântico em busca de formação sociológica, são exemplos emblemáticos da conversão da herança em propósitos imprevistos. Acompanhar os momentos iniciais da transmissão de um fragmento dessa herança, a conferência de Simmel Die Großstädte und das Geistesleben [2](As Grandes cidades e a vida do espírito), para seus ex-alunos Howard Woolston e Robert Park, talvez seja um caminho interessante para se constatar transformações imprevistas da recepção de Simmel, mais especificamente do conceito de “grande cidade” e do tipo de indivíduo associado a esse conceito.
Dois ex-alunos vinculados também, porém em níveis distintos, à Universidade de Chicago. Howard Woolston teve curta passagem pela Universidade de Chicago em 1901, como professor e estudante, e esteve na Europa entre os anos de 1902 e 1904, onde pôde frequentar alguns cursos de Simmel entre 1902-1903 (JAWORSKI, 1997, p. 99). A carreira de Woolston, entretanto, está mais associada à Universidade de Columbia, onde, sob a orientação de Franklin Giddings, obteve o seu Phd em 1909 com a tese A study of the population of Manhattanville (Um estudo da população de Manhattanville) e também com a Universidade de Washington, onde se torna professor em 1919 e permanece até sua aposentadoria em 1947.
Robert Park não teve vínculos com a Universidade de Chicago em seu período de formação. Graduou-se em filosofia na Universidade de Michigan, em 1887, e realizou duas pós-graduações, também em filosofia. A primeira em Harvard entre 1897-1898, e o seu doutorado na Universidade de Heidelberg, concluído em 1903, com a tese Masse und Publikum (Massa e Público). Entre os anos de 1899-1900 frequentou cursos de Simmel, inclusive sobre sociologia (LANNOY; RUWET, 2004, p.84). Frequentou ainda os cursos privados de Simmel em sua casa (Privatissimus), com alunos selecionados por ele (FITZI, 2021, p. 54), e sua orientação com o importante filósofo neokantiano Wilhelm Windelband em Estrasburgo e em Heidelberg se deu provavelmente a partir da recomendação do próprio Simmel (FITZI, 2021, p. 51). Após esse período de formação, teve curta passagem como professor assistente no curso de filosofia da Universidade de Harvard (1903 – 1905), em paralelo com o cargo de secretário na Congo Reform Association. Entre os anos de 1905 e 1912, dirige as relações públicas no Tuskegee Normal and Industrial Institute. Somente em 1913 se torna professor especialista na Universidade de Chicago, a convite de William Thomas. É efetivado como professor em 1923 e permanece em Chicago até sua aposentadoria, em 1933 (VALLADARES, 2018, p. 152). Ao revisar seu período de formação em seu rascunho, História de vida, Park afirma que foi a partir de Simmel que desenvolveu um “ponto de vista fundamental para o estudo do jornal e da sociedade” (PARK, 2018a, p.30).
Os dois artigos que tratarei foram publicados em período de amplo debate nos Estados Unidos a respeito da imigração massiva para cidades como Nova York e Chicago, e participam desse debate público, segundo a necessidade de sustentação sociológica de suas posições. The Urban Habit of Mind (O hábito urbano da mente) foi publicado em 1912 por Howard Woolston, e The city: Suggestions for the investigation of Human Behavior in the City Environment (A cidade: Sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano) foi escrito por Robert Park e publicado em 1915, ambos na revista American Journal of Sociology. Esses dois artigos são emblemáticos e representativos da maneira um tanto tortuosa como a conferência de Simmel foi recebida nos Estados Unidos. Para evidenciar isso, é necessário, antes de avançarmos com a análise e contextualização desses dois artigos, situar como e em que circunstâncias ele foi mencionado nos EUA, desde a publicação da conferência em 1903 até meados da década de 1920.
A relativa invisibilidade de As grandes cidades e a vida do espírito
Desde já é necessário apontar que a conferência de Simmel foi marcada por uma relativa invisibilidade nos EUA nesses primeiros passos de sua recepção, devido ao pequeno reconhecimento recebido. Em grande medida, essa invisibilidade se deveu à demora para tradução. A publicação de The Metropolis and Mental Life, título recebido em inglês, somente ocorreu de forma mais ampla em 1950 (SIMMEL, 1950), ainda que se tenha notícia de uma versão abreviada, de tradutor anônimo, disponibilizada por Sorokin em 1930 (LEVINE; CARTER; GORMAN, 1976a, p. 817). A demora na tradução é curiosa, pois muitos textos de Simmel foram traduzidos nos Estados Unidos, pelo menos nas primeiras décadas do departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade de Chicago. Albion Small, por exemplo, diretor desse departamento desde sua criação em 1892 até 1924, quando se aposenta, foi responsável pela tradução e divulgação de alguns ensaios de Simmel, publicados no American Journal of Sociology, revista criada por ele próprio em 1895 (COULON, 1995, p. 16). Portanto, desde o início, Simmel foi considerado pela organização da revista uma referência importante para a institucionalização da sociologia praticada pela Universidade de Chicago e que se pretendia modelo para a sociologia americana.
Albion Small costumava ainda recomendar a vários de seus alunos que aprimorassem os estudos sociológicos na Europa, principalmente através dos cursos de Simmel em Berlim. Orientação seguida, por exemplo, por Howard Woolston (LEVINE; CARTER; GORMAN, 1976a, p. 815-816). Esse tratamento se intensifica e consolida as bases da influência de Simmel no Departamento de Sociologia e Antropologia com a publicação, em 1921, de Introduction to the Science of Sociology. Nesse monumental manual de sociologia organizado por Robert Park e Burgess, que, além das suas próprias considerações, conta ainda com textos de vários autores distribuídos por temas, foram incluídos 10 textos de Simmel, alguns reproduzidos a partir das traduções já realizadas no American Journal of Sociology. Mas, assim como aconteceu na seleção de Albion Small para a revista, os organizadores do livro Introduction to the Science of Sociology não incluíram As grandes cidades e a vida do espírito.
Outro motivo para essa invisibilidade inicial na divulgação escrita desse ensaio de Simmel se deve, também, às poucas menções que lhe foram feitas nas três primeiras décadas do século XX. Há pelo menos duas referências na década de 1910 em notas de rodapé de artigos publicados pelo American Journal of Sociology. A primeira em 1910, um artigo traduzido do francês para o inglês, de René Maunier, intitulado The definition of the city, com uma referência rápida ao ensaio, enquadrando-o como parte de um conjunto de textos que analisam os efeitos psicológicos da cidade (MAUNIER, 1910, p. 541). Ou seja, um texto que, segundo o autor, não ajudava na definição mais propriamente sociológica de cidade que buscava. A segunda nota de rodapé foi feita por Howard Woolston, em seu artigo The Urban Habit of Mind, escrito para apresentação no encontro anual da Associação Americana de Sociologia e publicado em 1912 no American Journal of Sociology, e que trataremos mais detidamente. Mas já é possível antecipar que, apesar de abordar vários dos temas de Die Großstädte und das Geistesleben, a única referência ao artigo é justamente essa nota (WOOLSTON, 1912, p. 606).
Na década de 1920, Park e Burgess se reportaram duas vezes ao ensaio de Simmel no já mencionado livro Introduction to the Science of Sociology. A primeira no capítulo III, Society and the Group, citado com o título em alemão, como referência bibliográfica para o estudo dos grupos sociais a partir da perspectiva territorial, classificados como grupos sociais territoriais (PARK; BURGESS, 1921, p. 218). A segunda citação se dá sem a referência bibliográfica da sua publicação em livro, e os autores o mencionam com o título traduzido pelos próprios organizadores, mas que não foi seguido pela tradução de 1950: The great city and cultural life (A grande cidade e a vida cultural). Assim como na primeira referência, o ensaio é citado como recomendação de material para estudo, inserido no tema do capítulo V, Social Contacts, quando os autores comentam os textos selecionados para compor o capítulo, especificamente a respeito do subtema: Os contatos secundários. Essa segunda citação ao ensaio de Simmel se deu nos seguintes termos: “Georg Simmel fez uma excepcional contribuição para a sociologia, ou melhor, para a filosofia social da cidade em seu artigo ‘A grande cidade e a vida cultural’” (PARK; BURGESS, 1921, pp. 331-332)3. Outra menção ao ensaio na década de 1920 foi feita por Louis Wirth ao afirmar, em 1925, que o ensaio Die Großstädte und das Geistesleben é “o mais importante artigo isolado sobre a cidade a partir da perspectiva sociológica” (WIRTH, 1967, p. 219)4. Apesar do tom bastante elogioso, a citação é feita também em local de pouco destaque, na bibliografia comentada de Wirth contida no famoso livro intitulado The city, publicado em 1925, que inclui uma versão revisada do artigo de Robert Park de 1915. Esse elogio de Wirth não ressoou no livro para além da seção de bibliografia comentada, pois a conferência de Simmel não foi mencionada em nenhum dos capítulos escritos por Burgess, McKenzie e Park, nem mesmo com a oportunidade oferecida pela revisão do artigo The city.
Diante desse breve histórico da relativa invisibilidade do ensaio de Simmel nos EUA das três primeiras décadas do século XX, qual seria de fato a relevância do estudo de sua recepção nos artigos de Woolston, que apenas o cita em uma nota de rodapé, e de Park, que em nenhuma das duas versões de The city menciona texto algum de Simmel? O ponto central para iniciar a resposta a essa questão é destacar que essa invisibilidade é relativa, tanto no contexto geral como para os dois artigos, The Urban Habit of Mind, de Woolston, como na primeira versão de The City, de Park.
Donald Levine, Ellwood Carter e Eleanor Gorman realizaram exaustivo levantamento da recepção nos EUA de vários temas e ensaios de Simmel, e no tópico em que trata especificamente de “The Metropolis and Mental Life”, os autores apontam a grande aproximação do ensaio de Simmel com o artigo de Howard Woolston. Elencam os temas que foram “copiosamente” reproduzidos de Simmel: hiperestimulação nervosa, atividade mental acelerada, atitude blasé, medidas de tempo e espaço, monetarização dos valores, relações sociais impessoais e proliferação de facilidades culturais. Essa listagem realizada pelos autores demonstra como as semelhanças são bem mais significativas do que poderia ser deduzido “a partir de uma simples nota de rodapé” (LEVINE; CARTER; GORMAN, 1976b, p. 1112-1113). O artigo de Park também é comparado à conferência de Simmel por Pierre Lannoy e Coline Ruwet, a partir de um quadro com trechos do ensaio de Simmel e do artigo The City de 1915 de Park, que tratam os mesmos temas: divisão do trabalho e especialização funcional, economia monetária e desenvolvimento da racionalidade, processo de adaptação ao ambiente urbano e, por último, impessoalidade e superficialidade das relações (LANNOY; RUWET, 2004, p. 85-86).
Apesar dessas aproximações temáticas, os autores questionam a suposta influência do ensaio de Simmel na escrita desse artigo, e apontam, inclusive, que não há registros de que Park o conhecesse até o momento da publicação de The City. Os autores justificam a semelhança entre os temas com a afirmação de que os argumentos de Simmel sobre as grandes cidades já eram parte do debate público americano, o que teria definido uma economia de referências ao trabalho de Simmel (LANNOY; RUWET, 2004, p. 87). Ainda que Park não tivesse conhecimento do ensaio de Simmel, a tentativa dos autores em explicar a semelhança em tantos pontos sinaliza para recepção anterior do ensaio de Simmel, em que Park apenas reproduziria esses temas que foram tornados comuns ao debate público, com os vestígios mais apagados da autoria. Portanto, mesmo sem a leitura do ensaio, como defendem, a explicação dada para tantas semelhanças ainda demonstraria a importância dos argumentos de Simmel sobre as grandes cidades no cenário intelectual americano e, por essa via, sua recepção indireta por Robert Park. Recepção indireta possivelmente através, inclusive, do texto do próprio Woolston, The Urban Habit of Mind, pois ele foi publicado no mesmo número de American Journal of Sociology que o artigo Race Psychology: Standpoint and Questionnaire with Particular Reference to the Immigrant and Negro de Thomas (Psicologia Racial: Ponto de vista e Questionário com Referência Particular ao Imigrante e ao Negro) (THOMAS, 1912). Este devidamente citado por Park e considerado por Pierre Lannoy e Coline Ruwet a principal referência para a elaboração de The City (LANNOY; RUWET, 2004, p. 89). Não é difícil imaginar que Park tenha conhecido por essa via o ensaio e Woolston, cujo tema estava diretamente relacionado ao seu interesse. Caso o tenha consultado, Park teria encontrado a referência de Woolston ao ensaio de Simmel.
Pode se ter certeza, no entanto, de que Park o conhecia antes da publicação do livro The City em 1925, cuja revisão do texto não ofereceu para Park motivo suficiente para incluir alguma referência a Simmel, ainda que essa versão revisada de 1925 tenha diferenças decisivas em relação ao artigo de 1915, como a retirada da concepção da cidade como uma instituição (RUWET, 2017). Como foi demonstrado, há duas citações ao ensaio no livro de 1921, Introduction to the Science of Sociology. E não deve ter passado desapercebida a retórica correção de Park e Burgess ao designar o “artigo” de Simmel como uma contribuição para a filosofia social. Essa classificação poderia indicar um argumento plausível para a resistência em traduzi-lo e publicá-lo em Introduction to the Science of Sociology, pois são conhecidos seus esforços para diferenciar a sociologia da filosofia social (CALHOUN, 2007, p. 27). Entretanto, a questão mais curiosa é que as duas referências ao ensaio de Simmel ocorrem em capítulos que reproduzem trechos de artigos de Park. E no capítulo V, onde menciona o ensaio de Simmel como uma “excepcional contribuição para a sociologia, ou melhor, para a filosofia social”, ele reproduz dois trechos de seu artigo The City, além do excurso de Simmel O estrangeiro. Portanto, na seção em que poderia ter disponibilizado o ensaio de Simmel, preferiu trechos de seu próprio artigo. E não qualquer trecho, mas justamente aquele que trata o efeito dos estímulos sobre os habitantes das grandes cidades (PARK, 2018b, p. 75; PARK; BURGESS, 1921, p. 313-314). Esse tema é fundamental ao ensaio de Simmel, apesar de não ter sido incluído no quadro comparativo apresentado por Pierre Lannoy e Coline Ruwet (LANNOY; RUWET, 2004), em que sinalizaram as semelhanças entre As grandes cidades e a vida do espírito e o artigo The City de Park.
A alegação de tratar o “artigo” de Simmel como contribuição para a filosofia social não é, no entanto, um argumento forte o suficiente para a conferência de Simmel não ter sido selecionada por Park para compor o livro Introduction to the Science of Sociology, e cuja designação foi poucos anos mais tarde, como já mencionado, enfaticamente revista pelo grande elogio de seu orientando Louis Wirth, que o tratou como o mais importante artigo sobre a cidade a partir da “perspectiva sociológica”. Muitos dos textos de outros autores selecionados para compor o livro Introduction to the Science of Sociology não eram sociológicos, e foram escolhidos devido às afinidades temáticas, independentemente da área acadêmica. Creio que a invisibilidade relativa desse ensaio de Simmel na obra de Park seja de outra ordem. E isso já pode ser verificado mesmo no artigo de Park de 1915, ainda que se suponha ter recebido indiretamente as ideias de Simmel a partir de sua aclimatação no cenário dos debates americanos, públicos e acadêmicos, ou que tenha consultado diretamente sua conferência, o que parece mais provável devido às muitas equivalências temáticas que acabam por estruturar o desenho teórico geral de ambos os textos.
As semelhanças entre os três textos são realmente bem evidentes. Porém, aqui não buscarei identificar nem o grau de fidelidade ou equívocos de interpretação com o objetivo de atestar se são ou não verdadeiros “herdeiros espirituais”. Apesar dos pontos em comum, há propósitos nos dois artigos americanos que destoam do ensaio de Simmel. Tentar traçar um panorama que situe tais propósitos está mais de acordo com a constatação de Simmel de que cada herdeiro usará sua herança de acordo com a sua própria natureza. A seguir serão comparados alguns traços dos três textos que podem ajudar a identificar a ideia de grande cidade de cada um. Com essa aproximação pretendo sondar a “natureza” dos artigos dos sociólogos americanos, a partir da suposição de que tal “natureza” esteja diretamente atrelada ao contexto intelectual da época. Desse modo, será possível compreender a atitude seletiva desses textos diante dessa pequena e importante parte que “herdaram” do espólio de Simmel, o ensaio sobre as grandes cidades.
Cosmopolitismo, natureza e subjetividade
Uma moldura inicial possível para caracterizar a grande cidade no ensaio de Simmel passa pela apresentação dos efeitos da variedade e velocidade de estímulos da vida econômica, profissional e social. Tais estímulos incessantes dão o tom do cotidiano nesse tipo de grande cidade, marcado pela intensificação da vida nervosa. A persistência desses estímulos tem como reação mais geral dos indivíduos um modo de adaptação baseada na intensificação da consciência, a preponderância do entendimento diante do ânimo (SIMMEL, 2005, p. 577-578). Um dos efeitos dessa intensificação da consciência é a elaboração de uma técnica de vida, baseada na redução de valores qualitativos a valores quantitativos, o que significa adotar a pontualidade, a contabilidade, a exatidão (SIMMEL, 2005, p. 580) como uma capa que reveste a relação dos indivíduos com o mundo externo. A técnica de vida, portanto, oferece as condições para a distância e maior objetividade nas interações sociais. Essa moldura inicial se repete nos dois artigos americanos, mas com diferentes ênfases nas leituras.
Woolston, na primeira página de The Urban Habit of Mind, toca em uma das questões do ensaio de Simmel ao mencionar a diferença entre a complexidade da grande cidade e seu profundo impacto na mentalidade dos habitantes, em contraste com a vida mental das populações do campo. E assim sintetiza em tom de definição: A vida urbana é marcada por seu aumento de estímulos (WOOLSTON, 1912, p. 602)5. Após a descrição da variedade e aceleração de uma simples saída à rua, Woolston aponta para a consequência desses inúmeros estímulos no indivíduo: O resultado natural da vida na cidade é o aumento do nervosismo (WOOLSTON, 1912, p. 603)6. Aumento de estímulos e consequente intensificação nervosa, exatamente como no ensaio de Simmel.
A partir desse traço, Woolston defende que a vida nessas grandes cidades encaminha seus habitantes, de maneira geral, a um ganho objetivo de análise e pensamento, e cita Simmel justamente quando aborda a questão extraída de A Filosofia do Dinheiro sobre a redução de elementos sociais em medidas e escalas. Mas o que parece ser ainda uma leitura passo a passo do ensaio de Simmel sofre algumas alterações decisivas. Essa maior objetividade do habitante das grandes cidades lhe confere um ganho positivo de “impessoalidade”, entendida por Woolston como uma “atitude científica da mente” para “medir objetivamente”, o que gera para ele, e a partir daqui se intensifica a discrepância em relação à Simmel, a superação de “preconceitos raciais e nacionais” (WOOLSTON, 1912, p. 606-607). A maior pressão econômica e subsequente competição criariam as condições sociais para o desenvolvimento das capacidades. Uma espécie de aperfeiçoamento objetivo de aptidões, que parece obedecer às condições externas da vida social. Como se essas condições externas oferecessem as circunstâncias adequadas para o desdobramento de algumas características próprias aos sujeitos. E com isso o abandono de hábitos e mentalidades tradicionais de grupos ou ligações familiares, que poderiam retardar o desenvolvimento dessa maior racionalidade. Mas, ainda assim, incapazes de evitá-las pois, segundo o autor, “a fidelidade às tradições de clãs e raças tende a desaparecer nos movimentos cívicos gerais”[7]. Nesse sentido, reafirma o mesmo pano de fundo indicado em sua investigação em um bairro de Nova York, campo de pesquisa da sua tese de doutorado A study of the population of Manhattanville (WOOLSTON, 1909, p.7).
A diferença decisiva em relação ao ensaio de Simmel é a excessiva positividade e também homogeneidade conferida à racionalização e objetividade dos hábitos urbanos por Woolston. Enquanto a moldura inicial desenvolvida por Simmel (estímulos – intensificação da vida nervosa – entendimento – técnica de vida) oferece os contornos para a explicação do individualismo quantitativo, mas, como veremos mais à frente, não totalmente para o outro o individualismo qualitativo, Woolston tende para composição de um corpo objetivo e homogêneo. Não se trata de um equívoco de interpretação, mas a recusa tanto desse desdobramento oferecido por Simmel a respeito dos individualismos como ainda da correlação entre o modo de vida racional e objetivo com uma técnica de vida, a que Woolston substituirá por “hábito da mente”, termo que inclusive constitui o título do seu artigo.
Nem individualismos nem técnica de vida. A relação entre o sujeito e as condições externas da existência nas grandes cidades parece ocorrer sem grandes crises, como se algo da natureza dos indivíduos antes sujeita à tutela e vigilância das “tradições de clãs e raças” pudesse se libertar. Mas a libertação da natureza por esse estimulante meio iria ao encontro de um hábito mental cosmopolita, pensado em termos de unidade de consciências. A superação, portanto, de modos de vida provenientes de meios rurais e de pequenas cidades, e mesmo de áreas segregadas e isoladas das grandes cidades americanas, contribuiria para a consciência compartilhada em uma vida comum, para a formação da “mente social” (WOOLSTON, 1912, p. 614). Após afirmar que qualquer indivíduo, ao simplesmente se misturar na multidão de uma grande cidade, passa a ter um vislumbre diferente de sua própria personalidade, finaliza o artigo nos seguintes termos:
Ele reconhece a cidade como mais do que um lugar, uma corporação, ou uma unidade política. Para ele a cidade é uma unidade espiritual, uma unidade ainda não completa, mas crescente, ampliando e lutando pela realização de uma ordem ajustada em que todos os homens possam compartilhar.(WOOLSTON, 1912, p. 614).8
Não se resiste à multidão, pelo contrário. Dela emerge a consciência da própria personalidade em integração mais perfeita com o coletivo, pois seguir e adotar seu fluxo seria desenvolver a própria natureza. Para ele os estímulos, os sucessivos shocks (WOOLSTON, 1912, p. 603) e o aumento do nervosismo não produzem efeitos contraditórios e tensos. A partir desses estímulos os indivíduos se aprimoram e ganham autonomia. Uma atitude considerada cosmopolita, entendida como forma de liberdade consciente e racional, integrada a uma organização social mais plenamente desenvolvida.
Os estímulos são fatores importantes na caracterização de Park sobre a grande cidade, pois também conduzem seus habitantes à maior racionalização e objetividade. Park ainda destaca a relevância dos estímulos a partir do contraste entre ambientes cosmopolitas de grandes cidades e círculos sociais mais restritos e isolados, que podem mesmo existir em algumas regiões dessas grandes cidades. Esses locais mais isolados reduzem as possibilidades de desenvolvimento subjetivo, pois em tais locais preponderam as relações baseadas no sentimento, reguladas por “vínculos familiares”, “associações locais”, “cultura”, “casta” e “status” (PARK, 2018b, p. 48) em que “o passado se impõe sobre o presente” (PARK, 2018, p. 41).
O contraponto entre tais espaços é ressaltado ao se analisar os estímulos habituais das áreas centrais de grandes cidades gerados pela mobilidade, competição e dinâmica comercial, como relações com o meio marcadas pela preponderância dos interesses em detrimento do sentimento (PARK, 2018b, p.50). Park identifica vários aspectos da vida social das grandes cidades em que essa preponderância dos interesses pode ser verificada, entre eles a dinâmica do mercado altamente aperfeiçoado. E, como Simmel, constata como a preponderância de relações baseadas em interesses está atrelada à relevância que o dinheiro assume nas grandes cidades. Pois para ele o dinheiro é “um dispositivo fundamental pelo qual os valores se tornaram racionalizados e os sentimentos foram substituídos pelos interesses” (PARK, 2018, p. 51).
Mas, assim como em relação a Woolston, é possível identificar o afastamento de Park em relação a Simmel, pois também correlaciona o desenvolvimento mais racional de tais interesses nas grandes cidades com a possibilidade de aprimoramento das capacidades singulares através da especialização. “Em situações de concorrência individual, o êxito depende da concentração em uma única tarefa, e essa concentração estimula a demanda de métodos racionais, dispositivos técnicos e habilidade excepcional” (PARK, 2018b, p. 48).
A maior divisão do trabalho que ocorre em grandes cidades para ele tornou possível o desenvolvimento de “poderes latentes da humanidade” (PARK, 2018, p. 47). Portanto, para Park, assim como para Woolston, a prevalência dos interesses parece estar em consonância com as disposições subjetivas, pois a “habilidade” do indivíduo, “baseada no talento natural”, através de aprimoramento oferecido por “escolas profissionalizantes e de comércio”, “serve ao mesmo tempo para selecionar e enfatizar as diferenças individuais” (PARK, 2018b, p. 48). E essas “diferenças individuais” encontram possibilidade de sua expressão na crescente divisão do trabalho e especialização que esse processo desencadeia, “para as quais os homens descobrem suas vocações” (PARK, 2018b, p. 48). Trata-se, portanto, do tratamento da divisão do trabalho como um processo em que a habilidade, ainda em estágio latente, se desenvolve com a especialização e toma forma como profissão. Após o aperfeiçoamento das capacidades naturais, agora profissionalizadas, buscam-se novas formas de relação em que se verificam novamente a preponderância dos interesses em detrimento dos sentimentos, pois quaisquer tipos vocacionais, como “ator”, “encanador” ou “madeireiro”, criam, entre si mesmos, associações baseadas não em relações pessoais e “laços comuns de amabilidade”, mas em “interesses comuns” (PARK, 2018b, p. 49).
Uma das discrepâncias entre Park e Woolston é a diferença com que ambos tratam a possibilidade da uma consciência coletiva através da divisão do trabalho e da crescente racionalização. Park parece contestar a possibilidade de uma consciência comum por dois motivos. O primeiro ao afirmar que a organização em associações dos tipos vocacionais, essas classes geradas para viabilizar interesses ocupacionais comuns, não alcançaram, no Estado democrático moderno, nenhuma organização eficaz (PARK, 2018b, p. 49). O segundo motivo indica uma discrepância mais decisiva entre os artigos. As disposições singulares, que se desenvolvem mais amplamente nas grandes cidades, podem produzir tensões sociais, pois certas vocações que não estão associadas a um esquema coeso e planejado da cidade também tendem à racionalização, pois, como Park fez questão de sinalizar, na “cidade, cada vocação, mesmo a de um mendigo, tende a assumir o caráter de uma profissão (...)” (PARK, 2018b, p. 48).
Ao invés de consciência comum, as grandes cidades apresentam para Park um retrato condensado das mais variadas formas humanas de vida. Outras disposições latentes são liberadas para além do potencial humano relativo à divisão do trabalho. Por isso a importância para Park da investigação das regiões morais, dos locais onde certas forças “que, em todas as grandes cidades, tendem a desenvolver esses ambientes – nos quais os errantes e reprimidos impulsos, paixões e ideais se emancipam da ordem moral dominantes (...)” (PARK, 2018b, p. 77). Esses ambientes onde vivem ou se encontram “pobres”, “viciados” e os “delinquentes” devem ser compreendidos como locais em que “um código moral prevalece, porque as pessoas que as habitam são dominadas por um gosto, uma paixão ou algum interesse que têm suas raízes diretamente na natureza original do indivíduo” (PARK, 2018b, p. 79). Assim, para Park, seguir e desenvolver a própria natureza singular produz, nesses contextos, a proliferação da diversidade, e não a unidade de consciências que Woolston defendia. Justamente nesse ponto Park encerra o artigo justificando sua tese de que a cidade deve ser encarada como um “laboratório, ou uma clínica, em que a natureza humana e os processos sociais podem ser estudados de maneira conveniente e proveitosa”. Pois a cidade mostra “(...) excessivamente o bem e o mal da natureza humana” (PARK, 2018b, p. 80).
A moldura inicial do ensaio de Simmel (estímulos – intensificação da vida nervosa – entendimento – técnica de vida) assim esquematizada não abrange toda a extensão do texto devido às diferentes modalidades de adaptação dos indivíduos a essa moldura. Tal como apresentada, essa moldura inicial parece mais apropriada para se compreender aquilo que Simmel chamará de individualismo quantitativo, que é representado no ensaio pelo espírito de reserva, aquele comportamento de natureza social que evita um contato mais pessoal e próximo. Conviver cotidianamente com tantas diferenças e peculiaridades subjetivas provoca inúmeras aversões e repulsa mútuas (SIMMEL, 2005, p. 583). Assim o entendimento, tornado rotina nas interações sociais através da técnica de vida, evita que o “antagonismo latente” se converta em “antagonismo prático”. A tendência do espírito de reserva, caso ele se converta de fato em uma segunda natureza, pode fazer com que o indivíduo corra o risco de perder sua substância, e ameaça aquele traço distintivo de sua singularidade, que pode se atrofiar.
O individualismo quantitativo apresentado por Simmel diverge da correlação entre estímulos, racionalização e o desenvolvimento da natureza subjetiva identificada por Woolston e Park. Simmel chama atenção do contrário, dos efeitos negativos da redução acentuada de valores qualitativos a quantitativos. Adotar a técnica de vida como uma segunda natureza significaria confirmar a tendência mais geral da cultura moderna, manifesta nessas grandes cidades, de intensificar a hipertrofia da cultura objetiva (SIMMEL, 2005, p. 588). Com isso a divisão do trabalho, vista com tamanho entusiasmo por Woolston e Park, será entendida por Simmel como símbolo da discrepância de riqueza entre a cultura dos indivíduos e o espírito objetivo, cuja exigência de “realização cada vez mais unilateral (...) deixa atrofiar a sua personalidade como um todo” (SIMMEL, 2005, p. 588).
Para Simmel a natureza subjetiva, os traços singulares que os indivíduos podem vir a desenvolver, também se expressa através da especialização na divisão do trabalho, mas a partir de uma outra forma de relação com o espírito objetivo: ao invés da absorção da técnica da vida, a adoção do comportamento impessoal em relação ao mundo externo, correspondente ao individualismo quantitativo, Simmel apresenta uma outra forma habitual de subjetividade nas grandes cidades e com implicações na divisão do trabalho: o individualismo qualitativo. A intensificação da vida nervosa que ocorre com o bombardeio incessante de estímulos e a subsequente intensificação da consciência podem resultar em uma forma de subjetividade capaz de preservar a singularidade, pois, para Simmel, os “mesmos fatores que, desse modo, na exatidão e na precisão de minutos da forma de vida, correm em conjunto rumo a uma formação da mais alta impessoalidade, atuam por outro lado de um modo altamente pessoal” (SIMMEL, 2005, p. 581). Trata-se do caráter blasé, apresentado por Simmel como um fenômeno peculiar de adaptação, em que “(...) os nervos descobrem a sua derradeira possibilidade de se acomodar aos conteúdos e à forma da vida na cidade grande renunciando a reagir a ela (...)” (SIMMEL, 2005, p. 582).
A técnica de vida que se torna a forma de vida predominante nas grandes cidades, baseada nesse comportamento impessoal e contábil, apesar de perceptível em sua superfície, não se converte em uma segunda natureza ao blasé devido à proteção adotada com a indiferença. Para a autoconservação de certas naturezas, para se preservarem traços pessoais e singulares, essa forma de subjetividade designada por Simmel como individualismo qualitativo faz da renúncia seu modo de relação com a cultura objetiva. Portanto, os estímulos provenientes do espírito objetivo não são sentidos de modo apropriado, e na maioria das vezes nem sequer são percebidos. Com a desvalorização do mundo objetivo, o caráter blasé “(...) degrada irremediavelmente a própria personalidade em um sentimento de igual depreciação” (SIMMEL, 2005, p. 582).
Apesar das consequências negativas que a renúncia significa para a personalidade, há a possibilidade de o indivíduo voltar-se para si mesmo, de se reconhecer como unidade devido à importância conferida aos seus traços peculiares. E esses elementos singulares podem ser expressos através da divisão do trabalho. A busca pela particularização qualitativa é normalmente acompanhada da necessidade de atrair “(...) para si a consciência do círculo social (...)”, o que é “para muitas naturezas definitivamente o único meio de resguardar para si, mediante o desvio pela consciência dos outros, alguma autoestima e preencher um lugar na consciência” (SIMMEL, 2005, p. 587). A especialização da divisão do trabalho, dessa maneira, pode ser um dos caminhos para a busca da diferenciação, de mostrar-se singular e insubstituível, e assim dar visibilidade a um modo de vida altamente pessoal. A competição da divisão do trabalho pode significar, desse modo, não apenas a luta pela subsistência, mas também pela atenção.
Simmel reconhece a importância histórica da singularidade como manifestação da liberdade, que se dá fundamentalmente ao se seguir as leis da própria natureza, e reconhecer a sua não intercambialidade com a dos outros (SIMMEL, 2005, p. 586). Pois tal reconhecimento está no âmago da percepção de si mesmo como unidade, a condição para o florescimento e enriquecimento da cultura subjetiva. No entanto, a singularidade se desenvolve em contato com a cultura objetiva, como caminho para definição das fronteiras da subjetividade permeadas por trocas e recusas. Seguir a natureza, portanto, somente se converte em desenvolvimento de potencialidades e enriquecimento subjetivo ao se nutrir com as condições externas da vida provenientes da cultura objetiva. A forma como, para Simmel, a singularidade tende a se configurar na vida moderna das grandes cidades não é o caminho para esse enriquecimento. Tanto a motivação do indivíduo de ganhar para si a consciência do círculo social, bem como converter a especialização na divisão do trabalho em meio para se conferir relevo e destaque a poucas qualidades distintivas do próprio caráter, conduzem, ao contrário, para atrofia da cultura subjetiva. Pois a indiferença e a renúncia que podem predominar na relação do individualismo qualitativo com o espírito objetivo interditam o cultivo desses traços singulares.
A partir dessa breve exposição percebem-se as distinções dos três autores a respeito do cosmopolitismo das grandes cidades. Nos três textos se verifica a suposição de que certos elementos da atitude cosmopolita estão, em maior ou menor medida, conectados com a natureza. Seguir a própria natureza é identificada como um caminho para a liberdade, cujo percurso é propiciado pelo ambiente urbano. Mas a discrepância a respeito dos meios para se expressar na configuração da vida a própria natureza os conduz a caminhos distintos, o que se supõe a divergência a respeito da própria compreensão da natureza humana e a forma seletiva com que os dois autores americanos destacaram alguns elementos e desprezaram outros na apreensão dos argumentos apresentados por Simmel. Nesse ensaio específico de Simmel se sobressai um tratamento não tão otimista das possibilidades modernas de cultivo da natureza singular, pois, apesar de ser possível se reconhecer como unidade, pelo menos naquele tipo englobado no conceito de individualismo qualitativo, essa natureza singular tende a se expressar a partir de meios que não são os mais adequados ao seu florescimento.
Apesar de diferenças entre os artigos de Park e Woolston, existe algo comum aos dois que pode justificar a provável rejeição a alguns dos argumentos expostos no ensaio de Simmel. Em nenhum momento dos seus artigos, Park e Woolston concebem a possibilidade de que a grande cidade seja também o palco da atrofia da natureza humana e da cultura subjetiva. E, muito menos, que a divisão do trabalho possa dificultar seu desenvolvimento. Talvez recolocar a abordagem dos dois artigos publicados no American Journal of Sociology a partir de alguns elementos que permeiam o contexto geral de ambos ajude a entender essa seletividade diante da exposição de Simmel.
O modernismo progressista americano
A sociologia nos Estados Unidos se desenvolveu em uma época da história americana designada como a Era Progressista, ou Gilded Age (era dourada), um contexto de mudança social dramática e de debates públicos generalizados sobre o que constitui o progresso e como é possível atingi-lo com mais rapidez e certeza (CALHOUN, 2007, p.10). Entre os integrantes dessa geração estão os pioneiros na institucionalização da sociologia americana, como Albion Small e Franklin Giddings. O primeiro foi a figura central na criação do departamento de sociologia e antropologia na Universidade de Chicago e o segundo, orientador de Howard Woolston, foi contratado por Columbia para fornecer um fundamento científico para a educação voltada para a ação prática e administrativa, e também para caridade (CALHOUN, 2007, p.10). Tanto Albion Small como Giddings obtiveram posições acadêmicas definidas em parte para prover bases científicas para a filantropia, mas ao mesmo tempo preocupados em diferenciar a sociologia da filantropia (BRESLAU, 2007, p. 56). A legitimidade científica da sociologia, assim concebida, se basearia em princípios de pesquisa empírica com maior rigor do que, por exemplo, os “social surveys” aplicados pelos centros comunitários (social settlements), apesar de manter muitas semelhanças em termos das técnicas de coleta de dados (CALHOUN, 2007, p. 12-13).
Os artigos de Park e Woolston fazem parte de um momento posterior da institucionalização da sociologia nos Estados Unidos. A postura assumida por Park em relação à objetividade sociológica, por exemplo, foi mais enfática. Em The City, percebe-se sua distância em relação aos social surveys e aos social settlements (PARK, 2018b, p. 43), principalmente a certo teor moralista vinculado à prática filantrópica (CALHOUN, 2007, p. 26). Howard Woolston, pelo contrário, ainda mantinha uma posição de apoio aos centros comunitários e ao papel da educação no processo de assimilação, inclusive enxerga semelhanças entre o método de coleta de dados de sua tese A study of the population of Manhattanville com as pesquisas divulgadas pelas Hull Houses (WOOLSTON, 1909, p. 5). Apesar dessas diferenças, Woolston e Park refletem as pretensões da Era Progressista ao justificar cientificamente os efeitos positivos desse ambiente cosmopolita da cidade nos imigrantes, amparados na sistematização teórica da assimilação através da sociologia. E, com isso, legitimavam o discurso favorável à imigração defendido pelos centros comunitários.
Para que o vínculo dos autores com a Era Progressista americana possa ser mais bem delineado, é necessário destacar, no entanto, o significado desse progressismo a partir da sua associação com o modernismo, pois a posição aparentemente difusa entre efervescência industrial e de desenvolvimento das cidades de um lado, e a postura mais positiva que estimulava a imigração e uma rede de acolhimento, que caracterizou o progressismo americano, estão atreladas de uma maneira mais ampla a certas premissas do modernismo. Percebem-se semelhanças, por exemplo, com a feição geral do modernismo nas correntes artísticas, que, segundo Argan, tentavam “interpretar, apoiar e acompanhar o esforço progressista, econômico-tecnológico, da civilização industrial”. E algumas dessas correntes buscavam diretamente “inspirar e redimir o industrialismo” (ARGAN, 2008, p.185). São conhecidos os desdobramentos estéticos do modernismo americano na projeção dos espaços e construções urbanas, principalmente com a Escola de Chicago de Arquitetura e Urbanismo, em que os prédios comerciais pretendiam ser uma extensão da vida da cidade, cujo desenho urbano buscava expressar seu vínculo orgânico com a sociedade (ARGAN, 2008, p. 194-199). Essa concepção modernista de cidade a define a partir de dois pontos. Primeiro, como expressão natural da industrialização, comércio e, principalmente, do trânsito ininterrupto de pessoas, informações e objetos. Mas também, em segundo lugar, a defesa de uma nova ideia de sujeito e estilo de vida, livre de tradicionalismos e convenções. Pode-se observar essa feição modernista e progressista nesse início da institucionalização da sociologia nos Estados Unidos nesses dois pontos, estendendo-se até os artigos americanos que estou tratando.
Ambos os artigos destacam indústria, comércio, mobilidade e os diversos mecanismos que viabilizam a constante e variada circulação de informações e pessoas. E o que se percebe de imediato é o esforço em vincular esses aspectos das grandes cidades à natureza humana. Park, por exemplo, toca nessa questão ao apontar como a cidade americana engana à primeira vista devido a sua forma geométrica, como se fosse uma “construção inteiramente artificial, que possivelmente poderia ser desmontada e montada novamente, como uma casa pré-fabricada”. Ele afirma, ao contrário, que a estrutura da cidade “nos impressiona por sua base na natureza humana, da qual é uma expressão” (PARK, 2018b, p. 40). Assim, o universo físico e a vida na cidade estão diretamente atrelados, e todo o aparato que a constitui deve ser entendido como “uma ferramenta na mão de um homem”, guiada pelas “forças vitais existentes nos indivíduos e na comunidade” (PARK, 2018b, p. 40).
Woolston vai ainda mais longe na defesa desse caráter orgânico das grandes cidades. Quase no final de seu artigo, afirma que os empreendimentos das cidades modernas podem ser menos impressionantes do que antigas construções europeias, como as catedrais, mas que é possível equipará-los em um aspecto: resultam de uma finalidade comum de seus cidadãos, como trabalho de muitas gerações (WOOLSTON, 1912, p. 613-614). Com essa comparação, Woolston elabora uma imagem de organicidade e simbiose da relação entre, de um lado, a técnica, industrialização e construções urbanas, e, de outro lado, a natureza humana pensada a partir de sua predisposição coletiva.
Desse modo, Park e Woolston dão sustentação teórica ao modelo de urbanização a ser adotado pelas cidades americanas, fortemente amparada em novas técnicas de construções e melhorias tecnológicas, algo que já fazia parte do debate acadêmico da sociologia pelo menos desde o início do século. Isso pode ser observado, por exemplo, em quatro artigos publicados por Howard Woodhead no American Journal of Sociology, com ampla cobertura da Primeira Exposição Municipal Alemã e os vários desenvolvimentos tecnológicos expostos para a melhoria e aperfeiçoamento do planejamento urbano (WOODHEAD, 1904abcd). Por sinal, o mesmo evento em que Simmel profere sua conferência.
O segundo ponto atrelado ao modernismo progressista, a noção de sujeito e estilo de vida do meio das grandes cidades, passa diretamente pelo estímulo da imigração. Para que a imigração ganhasse legitimidade, era necessário combater a posição nativista que percebia essa abertura como ameaça de desintegração nacional, principalmente por julgar alguns tipos de imigrantes incapazes de se adaptarem ao país. Esse debate se estendia pelos mais diversos âmbitos sociais, como a literatura, o teatro, a academia e a política, o que demonstra sua amplitude pública. Havia pelo menos três posições mais gerais que faziam a defesa da incorporação dos imigrantes na sociedade americana, apesar de divergirem sobre como esses contingentes poderiam ser mais rapidamente assimilados. Os defensores da americanização consideravam que a assimilação dependia da incorporação dos recém-chegados no sistema educacional, para que apreendessem a cultura americana. Havia ainda os partidários do pluralismo cultural, que acreditavam que as diferentes comunidades, mantidas suas especificidades, estabeleceriam laços políticos devido aos interesses comuns, cuja consequência seria a integração social. Por último, aqueles que consideravam a possibilidade de uma assimilação mais ampla, em que os imigrantes se fundiriam aos nativos e formariam uma nova forma de vida, os que advogavam o melting-pot cultural, a fusão de culturas. Independentemente dessas diferentes compreensões da forma mais adequada de assimilação, todas essas posições partilhavam uma compreensão comum de sujeito. Partiam do princípio de que o self seria plástico, capaz de se transformar, em maior ou menor grau, diante das novas condições sociais oferecidas, mesmo que isso implicasse alteração de valores vinculados à cultura de origem (WILSON, 2010, p. 1-13).
A era progressista americana, assim, ganha sustentação no pressuposto modernista do sujeito fluido e adaptável, que se liberta com as transformações do cenário das grandes cidades. Como vimos, esse foi o principal ponto da argumentação desses artigos de Park e Woolston a respeito da convergência espontânea entre as exigências urbanas e industriais e a natureza subjetiva, que acaba por definir a grande cidade como o local da liberdade moderna.
A sociologia, a natureza urbana e o sujeito moderno
As premissas modernistas que podem ser verificadas desde os pioneiros da sociologia americana, até Park e Woolston, precisavam ser respaldadas cientificamente, e isso conferiu um papel de destaque à sociologia do período. Para legitimar a compreensão modernista de self mais maleável, era comum, principalmente aos pioneiros da sociologia americana, ratificar teoricamente as relações entre a sociologia e as teorias biológicas da natureza humana. E isso pode ser verificado com a predileção de uma parcela significativa da produção sociológica do período por concepções teóricas evolutivas que davam ênfase à capacidade do sujeito de incorporar caraterísticas provenientes do meio social, o que justificaria a filiação da maioria desses pioneiros às teorias evolucionistas de Herbert Spencer (BRESLAU, 2007, p. 46).
Spencer empreendeu uma leitura da natureza humana mais adaptável, capaz de incorporar elementos do meio, seguindo a concepção evolucionista de Lamarck e sua teoria do uso e desuso, a hipertrofia de determinados traços que passam a ser constantemente mobilizados e a atrofia de outros caracteres que se tornam desnecessários (FREEMAN, 2000, p.13). Giddings, inclusive, tem um papel de destaque na recepção de Spencer e mobilizou sua teoria de forma sistemática como fundamento da sociologia (BRESLAU, 2007, p. 53). Seu esforço para conciliar a discussão em torno da seleção natural com uma noção de justiça social, segundo leitura Spenceriana (GIDDINGS, 2004, p. 114), tem como finalidade afirmações como a de que todo sujeito possui tendências progressistas e conservadoras e penderá para uma ou outra, a depender da feição geral da sociedade à qual pertence, se ela é progressista ou conservadora (GIDDINGS, 2004, p. 327), uma concepção mais aberta de evolucionismo, que não obedece a uma única direção e modelo de sociedade. Essa influência de Spencer na sociologia americana, que se verifica também em Woolston, ainda teria reflexos mesmo na teoria urbana de Robert Park, ao identificar a cidade como um organismo vivo (BRESLAU, 2007, p. 61). Identificação mais intensa, pelo menos, neste artigo de Park analisado aqui.
A concepção de sujeito que emergiria na sociologia americana parece, portanto, aliar a defesa modernista do self fluido com a noção de progresso atrelado à industrialização e filantropia. E tal correlação seria justificada teoricamente pela compreensão mais difusa e atenuada de evolucionismo, retirando o peso e as ênfases da perspectiva biológica (WILSON, 2010, p. 19), portanto mais porosa às circunstâncias histórico-culturais do meio social. Desse modo, é possível compreender a posição analítica de destaque da noção de meio e de seus estímulos para a modelagem dos modos de vida de seus habitantes. E, ainda, a grande importância para Park e Woolston – e simultaneamente suas prováveis reservas – da definição simmeliana de grande cidade como ambiente de intensa estimulação nervosa.
A grande cidade, compreendida como um meio social com suas peculiaridades e condições especiais, ganhou, como já vimos, um aspecto decisivo nos artigos que estamos tratando, mas agora é possível compreender melhor, por exemplo, porque Woolston afirma que a “cidade é a grande agência para a seleção social” (WOOLSTON, 1912, p. 609)9, ou porque Park afirma:
O chamariz das grandes cidades talvez seja uma consequência de estímulos que agem diretamente sobre os reflexos. Como um tipo de comportamento humano, ela pode ser explicada, da mesma maneira que a atração exercida pela luz sobre a mariposa, como uma espécie de tropismo. (PARK, 2018b, p. 75).
Tropismo e seleção social estão associadas às concepções biológicas que destacam a influência do meio sobre os indivíduos através de estímulos. Noção de estímulo biológico atenuada para Woolston e para Park e adaptada para as circunstâncias dos espaços sociais das grandes cidades. A seleção social de Woolston não significa uma posição determinista em relação a tipos biológicos, como espécie de seleção dos mais aptos. Tal seleção se dá através da racionalidade que os estímulos das grandes cidades impõem aos sujeitos, pois o “processo de seleção nervosa é de fundamental importância para estabelecer um hábito urbano da mente” (WOOLSTON, 1912, p. 603)10. Aqueles tipos com traços característicos de menor sintonia ao que seria mais naturalmente requerido e estimulado pelo meio poderiam ser integrados a partir das compensações que o ambiente progressista promovia através de suas instituições públicas e filantrópicas, elas mesmas desenvolvidas segundo as necessidades desse ambiente.
Para Park, a noção de estímulo aplicado às grandes cidades também marca essa aproximação com a influência biológica, como foi possível perceber a partir do uso do termo tropismo. No entanto, e ainda mais do que para Woolston, sua aproximação com as teorias biológicas sofreu atenuações significativas. Inclusive a recepção de Simmel pela Universidade de Chicago desde Albion Small visava oferecer uma alternativa para as influências do que se convencionou designar como darwinismo social e também para a teoria de Spencer da seleção natural (JAWORSKI, 1997, p. 9). Ainda assim, percebe-se que essa alternativa foi mais de seleção e aproximação entre suposições teóricas do que rejeição completa das teorias biológicas, por exemplo, a possível influência da teoria darwinista em Park (BECKER, 1996, p. 184). Passagens do artigo The City, como a que se segue, apresentam essa dupla influência, de Simmel e de perspectivas biológicas, entre o conceito de interação e a compreensão dos tipos sociais como espécies:
As grandes cidades sempre foram grandes localidades de fusão (melting-pot) de raças e de culturas. Das interações vívidas e sutis das quais elas têm sido o centro, surgem as mais novas espécies e os mais novos tipos sociais. As grandes cidades dos Estados Unidos, por exemplo, tiraram do isolamento de seus povoados nativos grandes massas de populações rurais europeias e norte-americanas. Sob o choque dos novos contatos, as energias latentes desses povos primitivos foram libertadas, e dos processos mais sutis de interação surgiram não só tipos vocacionais mas também temperamentais. (PARK, 2018b, p.74).
Desse modo, a noção de estímulo utilizada para compreender o ambiente das grandes cidades se converte no elo significativo da relação entre sujeito e o meio. Ela é preponderante para que as interações sutis tenham condições adequadas de se efetivarem, e, com isso, o surgimento de “novas espécies” e “tipos sociais”. Interações sutis, ou, quando necessário, choques, que quebram possíveis resistências. O resultado é a assimilação, somente bem-sucedida por permitir a liberação das “energias latentes desses povos primitivos” antes reprimidas por formas culturais tradicionais. Esse tipo de assimilação se dá, assim, através da efervescência que a liberdade de seguir a natureza singular produziria. As afinidades surgidas a partir daí seriam mais concretas e gerariam tipos temperamentais calcados efetivamente nessas disposições subjetivas.
Tal noção de estímulo dificilmente se encaixaria na forma como foi apresentada pela conferência de Simmel. Em As grandes cidades e a vida do espírito não se indica que a “luta pela existência” ou o “seguir a própria natureza” conduzam a qualquer tipo de integração social, tal como concebidas pelos autores americanos. Percebe-se essa preocupação com a integração social em Woolston na sua suposição de que seguir a própria natureza leva a unidade espiritual, a “mente social”, pois “(...) as qualidades humanas essenciais são desenvolvidas na sociedade civil” (WOOLSTON, 1912, p. 602). Para Park a integração social também é importante, porém ela não tem o mesmo sentido de unidade defendido por Woolston. Principalmente porque pode envolver dificuldades decorrentes de algumas formas de interação racial. Como Park destaca em Racial Assimilation in Secondary Groups with Particular Reference to the Negro - Assimilação Racial em Grupos Secundários com Particular Referência ao Negro (PARK, 1914), algumas diferenças externas, como a cor da pele, podem requerer um processo mais longo para alcançar a integração social, pois, ainda que ocorra maior liberdade para seguir disposições subjetivas, os negros emancipados e os imigrantes orientais enfrentaram preconceitos que persistiam no enquadramento do indivíduo singular a partir de estereótipos negativos coletivos. Essas reações desencadearam, por outro lado, a seleção e organização de valores e modos de vida para a formação de grupos que compartilhavam semelhanças histórico/sociais. Ou seja, parte do processo de integração social, que não é visto neste artigo como algo necessariamente determinado, pode envolver formas intermediárias de segregação e conflitos.
Ainda que trate timidamente em The City a questão do negro e sua dificuldade de integração à sociedade americana após a sua emancipação, Park aponta essa crise a partir do tema das áreas segregadas da cidade, inclusive com populações negras. Mas sua abordagem da crise, seguindo o tratamento que é oferecido por Thomas (THOMAS, 1912) é compreendida como parte de um processo de “ajustamento”, de “sobrevivência biológica”, que acompanha toda mudança estrutural (PARK, 2018, p.61). Portanto, nesse período de sua produção intelectual, ainda que Park identifique níveis distintos de interação coletiva, marcados por crises no processo de assimilação, ele também vislumbrava, mesmo nessas condições, a integração social (JAWORSKI, 1997, p. 17), desde que tal forma de integração não tenha como único parâmetro a busca por identidades nacionais homogêneas. Em elaborações teóricas posteriores, como no já mencionado livro Introduction to the Science of Sociology, essa tendência à integração o leva a sugerir a assimilação como a quarta etapa de um processo que envolve a passagem prévia por três outras dinâmicas de interação: competição, conflito, acomodação e assimilação (JAWORSKI, 1997, p. 32).
Essa busca pela integração social talvez seja o ponto central para ambos evitarem adotar o ensaio de Simmel como modelo, pois a definição simmeliana de grande cidade, apesar de possuir traços de abertura para muitas vias de recepção, não estabelece um significado definitivo e necessariamente positivo para a relação entre natureza subjetiva e o ambiente cosmopolita, ponto essencial segundo a posição modernista e progressista adotadas por Park e Woolston nos dois artigos analisados.
Considerações finais
Park e Woolston seguem caminhos distintos, porém com o mesmo destino. O primeiro, ao considerar a diversidade de múltiplas formas de tipos sociais, e o segundo ao apostar na uniformização de uma mente social, supunham a real possibilidade da integração social e do consenso coletivo nas grandes cidades. Deram formas semelhantes à visão de cidade que vislumbraram, pensadas como unidade integrada, mas com contornos e efeitos distintos. A busca dos autores por tal imagem total, cujas contradições não ameaçassem sua integridade ou que poderiam ser superadas, participaram, na verdade, de uma das tentativas de definir, simultaneamente, o significado do moderno e, ainda, a grande cidade como o lugar privilegiado do moderno. A confluência entre o tempo histórico e o espaço, como se sua delimitação espacial fosse capaz de expressar uma imagem de conjunto dos modos de vida, dos sujeitos e das formas de relação que compunham aquilo que se definia por moderno.
Park e Woolston, na elaboração dessas suas imagens de grande cidade, apagaram tanto o teor contraditório das tensões apresentadas por Simmel como os vestígios do ensaio em seus artigos. Algo que evoca, metaforicamente, o que o ambiente modernista e progressista americano supunha ocorrer com os imigrantes e seus descendentes ao tocarem o solo das metrópoles americanas, o apagamento de suas origens com a assimilação. E talvez seja sugestivo pensar essa concepção mais ampla de assimilação como uma metáfora para o apagamento do ensaio de Simmel, que reproduz, em certa medida, o teor trágico da sua própria metáfora sobre a transmissão de sua herança em dinheiro vivo aos seus herdeiros.
Uma das imagens da assimilação mais bem-sucedidas e de forte apelo, segundo as pretensões do contexto americano da época, as primeiras décadas do século XX, é a de Thomas, que a comparou a um “enxerto de pele, onde o novo tecido não é aplicado em toda a superfície, mas pontos são enxertados, e a partir deles os tecidos conjuntivos ramificam” (PARK; MILLER, 1921, p. 280)11. Essa imagem, criada para ilustrar uma corrente de interpretação sobre a relação entre “nativos” e imigrantes, baseia-se na necessidade de garantir a unidade, concebida como integração social. A relativa invisibilidade da recepção do ensaio de Simmel por Park e Woolston pode ser pensada a partir dessa mesma imagem, e acrescentar um novo significado à metáfora criada pelo próprio Simmel. Vários dos seus argumentos foram extraídos de sua tessitura e incorporados para conformar essas duas outras configurações textuais, que representam distintas linhas de interpretação da grande cidade moderna.
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Notas