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Em busca do bem-estar perdido: mobilidade, contraurbanização e sensibilidades contemporâneas
Em busca do bem-estar perdido: mobilidade, contraurbanização e sensibilidades contemporâneas
Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares, vol. 24, núm. 3, pp. 401-419, 2022
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais
Recepção: 01 Janeiro 2022
Aprovação: 01 Dezembro 2022
Resumo2: A partir de novas ondas migratórias à procura de afastar-se do estilo de vida das grandes urbes, este artigo ensaístico explora as motivações de tais mobilidades em um contexto do capitalismo tardio. Discorre-se sobre as emoções em jogo perante as ditas escolhas, a formação social das mesmas e suas potenciais consequências práticas. A discussão teórica aqui formulada aspira a contribuir para a reflexão sobre as sensibilidades do século XXI para as camadas médias e altas cosmopolitas.
Palavras-chave: Mobilidades, Sociologia das emoções, Consumo, Regimes do bem, Migrações contemporâneas.
Abstract: Based on new migratory waves seeking to move away from the lifestyle of large cities, this essay explores the motivations of such mobilities in a context of late capitalism. The emotions at play through these choices, their social constitution and their potential practical consequences are analyzed. The theoretical discussion formulated here, aspires to contribute to the reflection on the sensibilities of the 21st century, for the cosmopolitan middle and upper classes.
Keywords: Mobilities, Sociology of emotions, Consumerism, Wellness regimes, Contemporary migrations.
1. Há lugares que merecem ser chamados de #meulugar? É claro que há!
Personagem 1 - Existe um tipo de cliente que todo dono de comércio quer ter, aqueles que sempre vêm e que curtem o lugar - afirma em uma loja de roupas, uma moça entre vestidos de claros tons.
Personagem 2 -Aqueles que sentem que o lugar é deles. Porque faz parte de sua história, de sua vida - indica um homem sentado em uma cafeteria, onde exibe um sorriso proeminente que não parece cessar, sendo essa expressão realçada pelos raios de luz natural que atravessam a janela nas suas costas.
Personagem 3- Aqueles que recomendam seus lugares favoritos como se estivessem chamando para ir em casa- assinala uma terceira personagem desde um salão de beleza, acompanhada de uma tênue iluminação.
Personagem 1- Foi aqui que eu achei o vestido do meu primeiro encontro com João.
Personagem 2- Essa era a mesa que meu avô se sentava todo domingo. Hoje é a minha mesa de domingo.
Personagem 3 - Esse é o salão que a minha mãe me trouxe pela primeira vez, e hoje eu trago a minha filha
Os três personagens- Esse é meu lugar - entre novos sorrisos, que seguem aqueles que acompanharam cada uma das anteriores cenas.
Compartilhar amor pelos seus lugares favoritos. NÃO TEM PREÇO.
Este ensaio discorre sobre a satisfação e sentimento de bem-estar que os lugares produzem, abordando a construção de prazer a eles associados. Existem lugares que, ao serem relacionados a tais efeitos ou afetos, se transformam em espaços que encantam, que apaixonam. De acordo com Williams (1989, p. 70), pode se encontrar entre os moradores da cidade uma romantização do alheio ao seu cotidiano urbano como lugar de desejo. “Idealiza-se não a economia rural, do passado ou do presente, mas sim uma casa de campo comprada, ou um ‘encantador refúgio na costa’, ou mesmo ‘uma árida ilha costeira’. Isso não representa um sonho rural, e sim suburbano, em reação à corrupção interna da cidade percebida por alguns dos seus habitantes. Essas associações simbólicas levaram décadas atrás a uma segunda moradia no litoral ou nas serras, no campo ou num afastado vilarejo, e nos tempos atuais levam, inclusive, a que esses lugares se tornem a primeira moradia. Isto desde antes da pandemia por Covid-19, especialmente durante e também depois.
Tal forma de mobilidade tem sido denominada migração por amenidade (GLORIOSO; MOSS, 2007) ou migração por estilo de vida (BENSON; O´REILLY, 2009), conformando uma modalidade não convencional de migração distante dos fatores econômicos ou políticos usualmente associados às decisões migratórias. Os tipos de projetos de vida que envolvem esses deslocamentos encontram-se usualmente restritos a pessoas de um médio ou alto capital cultural e/ou econômico, as quais, baseadas na imagem formada em relação a um destino que geralmente conheceram mediante uma experiência turística, decidem voltar para se instalar de maneira temporal ou definitiva (MCINTYRE, 2012). A escolha de um novo lugar de residência, para esses migrantes, implica a percepção de uma potencial capacidade de lhes garantir uma vida plena e satisfatória (ibid.). Os autores Buller e Hoggart (1994), além de Stewart (2002), definem como "contra-urbanização" essa tendência contrária aos fluxos do campo – cidade que caracterizaram a modernidade, promovendo uma “nova ruralidade”. As paisagens menos urbanizadas, a respeito do lugar de origem, fundamentam um deslocamento que acontece em busca de um novo ambiente e novas percepções sobre si e o meio.
Tuan (1980, p. 107) denominaria essa relação como uma forma de “topofilia”, ou seja, a descreveria em termos de “laços afetivos dos seres humanos com o meio ambiente material”. De maneira semelhante a quem decide voltar ao café onde viveu momentos significativos, algumas pessoas decidem voltar com expectativas de permanência ao lugar onde viveram aquelas experiências durante as suas últimas férias ou as de um passado distante, embora guardado com proximidade na memória. Episódios que certamente alimentaram sonhos, imaginações e devaneios. “O meio ambiente pode não ser a causa direta da topofilia, mas fornece o estímulo sensorial que, ao agir como imagem percebida, dá forma às nossas alegrias e ideais” (TUAN, 1980, p. 129). A escolha dos migrantes por amenidade ou estilo de vida atrela-se a projetos escolhidos, à convicção de estar no lugar certo e desejado pelo lugar em si ou o que desperta em termos de sensação de bem-estar, no contraste com o que se viveu antes. Exemplos podem se encontrar em destinos como Ilha Grande no Brasil (PRADO, 2003), Mar de las Pampas na Argentina (NOEL, 2011), a Norpatagonia chilena (ZUNINO; ARÉVALO; VALLEJOS-ROMERO, 2007) ou La Paloma no Uruguai (CAJARVILLE, 2021), entre inúmeros exemplos.
2. O metabolismo do capitalismo
O capitalismo permite ser lido como um modelo socioeconômico portador de uma indiferença normativa tal que o torna capaz de alinhar-se com quem resulte necessário aos seus fins últimos. Este tem demonstrado suficiente plasticidade como para conduzir-se em busca de apoio moral nos seus aparentes “inimigos”. Em outras palavras, certas crenças que em determinado momento têm um importante poder de persuasão, embora em princípio hostis à busca do lucro almejado por esse modo de produção, podem ser incorporadas e ativadas como um conveniente impulso (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009). Em tal sentido, encontramos oposições ao capitalismo, para as quais a acumulação pela acumulação tem sido fortemente desestimulada, em tais casos, "supõe-se que não seja legítima uma fortuna que não permita ao seu proprietário uma autêntica satisfação interior” (DIAS DUARTE, 2010, p. 242).
A esse modo de produção, alvo de recorrentes críticas, lhe é exigido fornecer provas de realidade (op. cit); quer dizer, ele deve fornecer evidências eficazes em justificar a sua existência. A racionalidade instrumental com a qual tem comungado essa cosmogonia moderna em suas origens a partir de um puritano ascetismo promotor da acumulação de capital necessário ao seu surgimento, de acordo com Weber (1969), foi posteriormente interceptada por outros valores, como a busca do prazer enquanto meio para a elevação espiritual ou, inclusive, como um objetivo em si mesmo (CAMPBELL, 2001). Embora os ideais desinteressados dessas emergentes valorações tenham resultado em uma possível ameaça, não o acabaram sendo ou pelo menos não o suficiente para desestabilizar o resiliente espírito do capitalismo.
A cultura do amor romântico, a entrega gratuita e desinteressada a uma paixão tem coexistido com “uma radical mercantilização da experiência humana, incomparável com as outras formas de organização econômica histórica e etnograficamente descritas” proporcionada pelo modo de produção capitalista (DIAS DUARTE, 2010, p. 243). Weber chegou a considerar que o amor seria a última reserva à jaula de aço representada pela racionalidade instrumental capitalista, assinala Illouz (apudALCOBERRO, 2011, p. 3). As emoções souberam ser interpretadas como um refúgio ao desencantamento do mundo que a racionalidade do capital trouxe (op. cit). Mas, apesar das esperanças de revolta e resistência contidas nos ideais românticos, estes serviram de pano de fundo para que os sentimentos se convertessem em objetos de consumo (op.cit.). Poderia se interpretar a partir das reflexões da autora o tanto que o amor se racionaliza, ao incorporar exigências em termos de uma eficácia a ser atestada para a sua renovação ou permanência; o capitalismo e o consumo se sentimentalizam, ao serem imbuídos de uma fruição da qual careciam antes de aliar-se com valores hedonistas.
Em linha com as observações que Alatorre (2015) coloca, o capitalismo conta com uma notória engenhosidade através da qual integra os sentimentos e as emoções como parte de suas lógicas de funcionamento. A escolha de uma vida longe da grande cidade envolve um afastamento do consumo urbano, embora não deixe de ser uma opção de consumo atrelada à singularização das relações entre mercado e aqueles que o usufruem. Contudo, uma desaceleração de consumos urbanos acontece apesar do surgimento de novos deslocamentos, novas exigências sobre a instalação de serviços, entre outros, que levam a perguntar sobre a contração daqueles níveis de consumo, segundo o caso.
3. Explorando a sensibilidade contemporânea
“Mesmo que a salvação transcendente continue a brilhar num horizonte distante, há um investimento a ser feito nas coisas deste mundo e há um comprometimento íntimo de cada sujeito nessa tarefa” (DIAS DUARTE, 2010, p. 245). Em tal direção, a mundanização da experiência resulta em uma incisiva chave interpretativa da modernidade ocidental e suas zonas de influência, em que poderíamos colocar a América Latina como integrante dos limiares de um “sistema de significado específico, a que se pode chamar, tentativamente, de cultura ocidental moderna” (DIAS DUARTE, 1999, p.22). O autor citado nos propõe pensar em um dispositivo de sensibilidade para nos aproximarmos das características desse período em que a imanência da experiência carnal - do corpo, da mente e quiçá do espírito que se antepõe perante anteriores visões transcendentalistas que ainda sobrevivem. A sexualidade, a sensualidade e a sensibilidade, que compõem o dispositivo de sexualidade proposto por Foucault, incorporam através de Duarte outros alicerces teóricos. Entre os séculos XVII e XVIII, o dispositivo de sensibilidade surgiria como uma articulação a partir de aspectos tais como as noções de perfectibilidade, experiência e fisicalismo. Esses traços analíticos que compõem o dispositivo serão desenvolvidos a seguir.
A noção de perfectibilidade se erige sobre a “ideia de que nós somos seres providos de uma capacidade de perfectibilidade constante e indefinida que nos distingue dos demais entes existentes sobre a face da Terra” (DUARTE, 1999, p. 24), baseada em um aparente aperfeiçoamento indefinido. Por outra parte, o autor descreve a persistência de um lugar de preeminência concedido à experiência: “Os sujeitos humanos no Ocidente são considerados portadores de um mecanismo de “verdade” (a razão), que se encontra impresso em seu “interior” e que sustenta (ou deveria sustentar) sua “vontade” , sua responsabilidade ativa em relação à divindade, a si mesmo e a outrem” (ibid). Eis então que a relação com o mundo, através da experiência, possibilita a busca pela perfeição ao ser esta mediada pela razão. Os sentidos passam a ser constituídos com um elemento-chave nesse processo, tanto pelo seu caráter de veículos da razão, como também de estímulos à imaginação e à emoção. Por último, o fisicalismo emerge num período “decorrente da separação radical entre o corpo e o espírito (...) se passa a poder considerar a corporalidade humana como dotada de uma lógica própria” (ibid.). A corporalidade em si se torna detentora de uma capacidade autoexplicativa, além de uma leitura de simples instrumento da alma.
Dias Duarte, seguindo os três eixos recém-introduzidos, nos conduz a pensar na sua articulação como parte de um dispositivo de sensibilidade capaz de incitar aos prazeres, a escolher o novo sobre o tradicional, à procura da extensão da vida e otimização do corpo, bem como ao consumo generalizado de diversas drogas (ibid., p. 27). O hedonismo moderno, afirma o autor a partir da proposta teórica de Campbell, “opera como uma estratégia qualitativa de busca de intensidade sempre maior” (ibid., 28). A decorrente valorização de experiências sensoriais novas, e consequente dificuldade em ceder ante aquilo considerado como “o de sempre” (ou, pelo menos, aquilo que ainda não mudou), aparece como uma busca da potestade de aperfeiçoamento atribuído ao novo. A noção de individualismo qualitativo corresponde a essa visão da contemporaneidade, partindo do precedente de um individualismo quantitativo de caráter universalizante indispensável à origem do primeiro.
Por outra parte, observa-se a relação entre a maximização da vida e a otimização do corpo, os dilemas entre as aspirações do longo prazo e do curto prazo compõem uma árdua tensão contemporânea (ibid.). Ao mesmo tempo, a ênfase na perfectibilidade ocorre acompanhada de uma incessante insatisfação, adicionando mais uma tensão. Tais desafios existenciais, como poderíamos lhes chamar, perpassam em maior ou menor medida aos regimes do bem (DIAS DUARTE, 2010) do Ocidente moderno e suas zonas de influência. A partir dessa outra categoria do antropólogo brasileiro, podemos definir as formas contemporâneas de busca de satisfação e bem-estar. As mesmas seriam caracterizadas por um apelo laico e terreno, apesar das concomitantes religiosidades, de uma busca pela felicidade - noção associada a inúmeras definições, reunidas nessa categoria, que abrange diferentes objetos de desejo e satisfação.
A concepção de joie de vivre não é uma construção da virada do milênio, mas tem cobrado um apelo particular na atualidade. O romantismo, em suas formas contemporâneas, continua sendo um fervoroso crítico da vida urbana considerada como impessoal, caótica e alienante3, ao tempo que, a partir do dispositivo de sensibilidade sugerido por Dias Duarte, a busca de experiências capazes de superar frustrações, tais como as percebidas a partir do modo de vida na cidade, envolveriam hoje um menor número de obstáculos em relação ao passado para a sua concreção. A disposição de superação daquilo definido pelos sujeitos modernos como promotor de mal-estar e a busca de uma alternativa a cada vez contariam com um menor número de freios, principalmente entre os membros das camadas médias e altas, portadoras das condições objetivas necessárias à busca de novas pessoas, produtos, lugares que sejam capazes de produzir uma noção de significativa superação, assim como de satisfação ou prazer sensitivo.
O litoral com suas praias e povoados onde ainda “cabe gente”, assim como outros ambientes igualmente distantes da grande cidade, emergem como um alvo de projeções e promessas de bem-estar alternativas àquelas disponíveis nos lugares de origem de seus novos residentes. A decisão de ir em busca desse novo território, após esporádicas aproximações prévias a ele, faz emergir a percepção de uma melhoria - ou aperfeiçoamento - do estilo de vida frequentemente urbano do qual “escapam” os migrantes que viajam à procura de encontrar certo encanto (considerado perdido onde eles habitavam). Tal consideração aplica especialmente se pensarmos na categoria weberiana de desencantamento do mundo, associado a um certo ethos capitalista que as grandes cidades ainda hoje tendem a refletir. Mas resultam esse azul litoral ou aquela verde serra capazes de oferecer uma satisfação inextinguível a partir da realização física dos devaneios que o fato de habitar tais geografias se suscitam? A experiência oferecida pela efetiva concreção de uma experiência vital nesses territórios é capaz de saciar as expectativas e aspirações dos seus novos moradores? E, por outra parte, resulta acaso possível encontrar um lugar que resulte em um constante e inalterável paraíso? Existe a possibilidade, hoje, de nos conformarmos com a incompletude de nossas experiências em relação a nossos anseios?
O encanto contra-urbano associa-se, evidentemente, a uma valoração sobre o real/aparente caráter impoluto e de proximidade com uma certa natureza considerada sagrada para muitos no meio rural, ou também na pequena ou mediana comunidade, segundo Carvalho e Steil (2008) nos convidam a pensar ao propor o conceito de sacralização da natureza. Contudo, a busca de um aperfeiçoamento interior através de uma experiência pessoal e física em um lugar, como os povoados costeiros do leste uruguaio, ou as vilas do Nordeste brasileiro, em que se diferencia do oferecido por outros cenários que não foram considerados pelos migrantes que chegaram até esses balneários em busca de mudar o seu estilo de vida? Isto tendo especialmente em conta as distâncias percorridas por eles, sendo essas transoceânicas em diversos casos.
O dispositivo de sensibilidade opera potenciando experiências externas mediante uma pulsão interior, sintetizada na produção de uma totalidade vivencial em torno da qual os indivíduos situam suas experiências e o seu self (DIAS DUARTE, 1999). Neste sentido, o fato de viver no litoral, no mato ou na montanha pode ser analisado como um catalisador material de anseios interiores de sossego, “conexão com a natureza”, laços comunitários atribuíveis à pequena comunidade, que realçam a percepção de si dos migrantes em questão. Apesar disso, tais percepções não necessariamente serão mantidas de maneira indefinida na escolha de usufruir um novo lugar, resultando de interesse compreender os percursos transitados por migrantes que, constantemente estimulados por novas opções ou diversas possibilidades sobre onde estar ou como estar, movimentam-se ou são desafiados pelo movimento de opções ao seu redor.
4. Do goce provisório das férias ao êxtase cotidiano (?)
He pasado tres días extraños: el mar, la playa, los caminos me fueron trayendo recuerdos de otros tiempos. No sólo imágenes: también voces, gritos y largos silencios de otros días. Es curioso, pero vivir consiste en construir futuros recuerdos; ahora mismo, aquí frente al mar, sé que estoy preparando recuerdos minuciosos que alguna vez me traerán la melancolía y la desesperanza.
(SABATO, 2015, p. 69).Maria, em “El Túnel" de Ernesto Sábato, escreve a Juan Pablo uma carta na qual consta a frase anterior, a qual li durante o trabalho de campo realizado em La Paloma (Uruguai), acabando por refletir junto, também perto do mar. Nessa carta, a ação de pensar transcende a razão notoriamente e envolve os sentimentos da sua autora, antecipa e alimenta o que está por vir. Viver consiste, entre outras coisas, em construir futuras lembranças. A modernidade preconizou inicialmente a razão por sobre a emoção, mas ambos aspectos se mantiveram associados. E o segundo resultou determinante para o desenvolvimento do capitalismo, de acordo com o autor de “A ética romântica e o espírito do capitalismo moderno”. O consumismo imperante no capitalismo atual, por oposição ao ascetismo que teria promovido o seu surgimento, deve à busca pelo novo boa parte de sua existência. A legitimidade atribuída não simplesmente ao caráter produtivo dos objetos de consumo, como também ao prazer despertado por eles como aspecto central e não simplesmente secundário, deveio em uma potente amálgama. Segundo Campbell (2001), as justificativas ao consumismo moderno conferidas à manipulação promovida tanto pela moda como pela propaganda, ou também a existência de um hipotético instinto que nos conduz à ostentação em relação a terceiros, acham-se em segundo plano perante o poder imaginativo e ilusivo do ato de devanear, por conseguinte de ansiar.
O devaneio é definido pelo autor da seguinte maneira: “essa forma de atividade mental em que imagens futuras positivamente vívidas são trazidas à mente (em primeiro lugar, quer deliberadamente, quer não) e ora são julgadas agradáveis, ora são elaboradas de um modo que assim as faça” (ibid., p.120). Diferencia-se da antecipação, a imaginação de algo previsível ou esperado; e da fantasia, a construção de imagens mentais de impossível concreção material. O devaneio recorre ao conhecido, ou aquilo por conhecer, e que poderemos encontrar no futuro. Este consiste em um processo imaginativo definido pelo autor como a combinação entre os prazeres da fantasia e a antecipação da realidade, apontando a encenações potencialmente materializáveis.
“A procura do prazer é uma atividade essencialmente motivada pelo desejo de contato com uma dada fonte de prazer” (ibid., p.125), sendo tal busca prazenteira em si mesma, e embora a consumação daquilo ansiado possa superar em sua fisicalidade as propriedades da imaginação, envolve uma iminente frustração da perfeição do imaginado. “A consumação do desejo é, portanto, uma experiência necessariamente desencantadora para o hedonista moderno, uma vez que ela constitui a “prova” do seu devaneio de encontro à realidade, com o resultante reconhecimento de que alguma coisa está perdida” (ibid. p. 127). A insaciabilidade repercute como uma consequência definitória do sentir ocidental contemporâneo, enunciável como hedonismo moderno, produzindo uma consequente frustração perante uma realidade que, embora possa superar os sonhos, acaba revelando uma ostensiva imperfeição em relação a estes, pouco tempo após sua concreção imediata.
Diferentemente, o hedonista tradicional alcançava a sua satisfação no conhecido. Esta era produzida a partir mais do que nada da qualidade, assim como também essa satisfação manifestava-se no espaço público mais do que no privado. Em contrapartida, o hedonista moderno encontra prazer no anseio íntimo de uma experiência antecipada que ainda não foi vivida, na sua singularidade do novo acha o principal aliciente para dirigir a realização de experiências subjetivas que visam a sua satisfação. Os indivíduos, a partir desse segundo momento, localizam dentro do indivíduo as emoções a serem sentidas se deparando com um declínio da manipulação coletiva das mesmas. O ambiente deixa de ser visto como a fonte primeira da emoção (ibid. p. 104), apesar de continuar a ser uma fonte de inspiração para os devaneios modernos. A esse desencantamento do mundo externo, voltando a essa categoria analítica anteriormente considerada, o acompanha o encantamento do mundo psíquico e interior (ibid., p. 105).
O desejo de uma antecipada qualidade de prazer, seguindo as imagens mentais que uma experiência promete dar, convida a pensar sobre os devaneios que o período de férias suscita nos veraneantes de vilarejos afastados como Punta del Diablo (Uy), Penedo (Br) ou Tilcara (Arg), também cidades de praia como Punta del Este (Uy) ou Viña del Mar (Ch), senão destinos de serra como Canela ou Nova Friburgo (Br), ou até Esquel (Arg). A aposentadoria ou rendas externas garantem viver nesses lugares. Muitos trabalham ou empreendem no turismo, se não, sobrevivem através do teletrabalho ou de viagens ocasionais até cidades vizinhas por negócios; as vagas públicas em saúde, educação, gestão e outros também promovem oportunidades de mobilidade entre diversos caminhos possíveis. Afinal, falamos de migrações de camadas médias e altas, na imensa maioria dos casos, que contam com um grau capital social, cultural e econômico que lhes confere plasticidade aos seus projetos vitais.
A noção de devaneio resulta aplicável para pensar as migrações por amenidade ou estilo de vida, rumo a um destino próximo ao campo como uma ilusão de salvação perante uma vida urbana anterior (na grande e densa cidade, na maioria dos casos), percebida como angustiante e desestimulante. Expectativa que logo se realiza ou refuta. As “adversidades” da parcial quietude litorânea existem, mas são de outro tipo, diferente das da metrópole. Basicamente: excesso de tranquilidade (tédio) antes que correria, infraestrutura de serviços (saúde, educação, etc.) com restrições, menor dinamismo econômico/laboral/cultural. Voltar à grande cidade só reafirma o acerto em vários casos, o imaginado em relação à praia do litoral, embora em outros não necessariamente. O perfil dos referidos migrantes, de médio e alto poder aquisitivo, como já se falou, permite a eles retornar de tempo em tempo para a sua cidade de origem, assim como também realizar viagens por lazer, em alguns casos fazendo-o por períodos prolongados.
Ao mesmo tempo, geralmente deslocam-se pelo mundo conferindo a suas trajetórias vitais um perfil cosmopolita ou global (ZUNINO; ARÉVALO; VALLEJOS-ROMERO, 2014), que alterna o lugar de permanência e confere contrastes para imaginá-lo. A fluida mobilidade contra-urbana (desde onde a urbanização é densa para onde é menor) da qual eles são ou têm sido parte, provavelmente contribui para manter o encanto do litoral vivo, no entanto a alteração desse cenário por outros de maneira ocasional pode realimentar os devaneios realizados que o balneário de praia ou serra frustraria com o tempo. Essa suposição explicaria por que sua escolha litorânea continua sendo atrativa como moradia primeira. Ao compararem-se as imperfeições/frustrações descobertas nele com as de outros lugares, desde um processo retroalimentativo promotor de devaneios novos sobre esse território já conhecido, este pode surpreender de volta ou reafirmar o nele projetado. Muitas vezes, a necessidade, a impossibilidade de desfazer planos, o projeto familiar (educação dos filhos, etc.) ou laboral atrelado ao alvo de uma melhor qualidade de vida, levam a persistir naquele lugar que foi desejado, mas nem sempre o continuou sendo, desviando-se do almejado.
Em paralelo, o acesso a meios digitais aproxima dos migrantes uma resposta à presumível falta que poderia significar a ausência de contato com os seus seres queridos, também como ao acesso de produtos culturais diversos. Embora tal satisfação ocorra de maneira significativamente diferente de um encontro físico com familiares e amigos, ou uma ida ao cinema, situa-se como um valioso substituto. Não é simplesmente um lugar para viver o que se busca, senão experiências gratificantes a sonhar e realizar, escolher em vida um sentido e uma constante experiência sensitiva, no agora, nesse tempo e mundo. Num fluxo de andar e estar no mundo, que pode tirar ou dar novo sentido para essa escolha.
5. Um deslocamento interior
Gilberto Velho (2004), ao refletir sobre o significado de morar em Copacabana para as camadas médias cariocas em princípios da década de 1970, mostrou como para algumas pessoas “a opção pode ser permanecer no seu grupo original com pouca gratificação, frustração e escasso prestígio ou sair em busca de novos espaços físicos e sociais” (ibid, p. 46). O ascenso social e o reconhecimento daquelas pessoas cuja impressão sobre nós é considerada significativa resulta em um aspecto constitutivo dos projetos individuais, em interseção com os projetos sociais disponíveis nos repertórios sociais de um espaço e tempo. Assim como Velho se deparou, algumas décadas atrás, com os processos de deslocamento físico e social assinalado para um momento e lugar específico, na atualidade podemos encontrar processos que representam ostensivas continuidades com aqueles. Em paralelo podemos observar configurações que, embora contemplem semelhanças em relação às buscas e projetos de vida de camadas médias de origem urbano estudadas pelo antropólogo brasileiro, envolvem características singulares às possibilidades individuais e sociais especificamente contemporâneas.
Através da decisão vital de mudar-se para longe da grande cidade rumo a um destino em maior grau próximo do rural, observam-se sinais de que tal deslocamento transcende a centralidade da busca de status atribuída por terceiros à definição de tais projetos de vida. Embora referências externas resultem indefectivelmente influentes para essa decisão, essa mostra de corresponder-se maiormente a uma busca de satisfação de anseios individuais que diminuem o peso de “cobranças” externas sobre quanto se tem, senão sobre a autenticidade das experiências e sensações do que se vive. Aumenta a exigência de uma “descoberta de si”, perante certa “eficácia em mapear e dar um sentido às emoções e sentimentos individuais” (VELHO, 2013, p.108). O litoral permite para diversos potenciais migrantes o encontro do seu “(...) auténtico y predestinado lugar en el mundo” segundo assinala Noel (2011, p. 222), para o litoral sul da Província de Buenos Aires (Argentina). Definições sobre o autêntico que Wang (1999) enuncia como construção e aspecto decisivo de projetos existenciais.
Os objetos de nosso consumo (lugares, inclusive) não são em si mesmos o alvo de nossa ansiosa busca por eles, nos propõe pensar Campbell, senão que o efeito sensitivo e imaterial dessa procura constituída pelos prazerosos devaneios que nos conduzem a eles. O qual se imbrica em sua materialidade. O acontecimento vital de mudar-se para uma pequena ou mediana comunidade, que se afasta da escala urbana de uma outra anteriormente habitada, mais do que uma decisão vital suscetível de conferir status como observado para a decisão de mudar-se em Copacabana, envolve outros incentivos atrelados à “virtude autêntica" do romantismo. O devaneio de morar longe de uma atmosfera urbana percebida como “ominosa” perante o “idílico” atrativo da pequena cidade e a busca de uma vida satisfatória em torno a tal anseio possivelmente aproximam-se a desejos individuais potencialmente distantes de demonstrações de status e aproximam-se de práticas tendentes a um certo cultivo de si em consonância com o dispositivo de sensibilidade teorizado por Duarte.
6. A vida simples
Condé (2011) nos mostra como a noção de autocontrole das emoções, em certo sentido um selo da modernidade, permanece vigente e se fundindo com a busca de uma abrangente noção de felicidade. Essa abordagem surge inicialmente através do pensamento de Elias, que observou como a existência de manuais de civilidade cobraram desde o final da Idade Média uma notória centralidade para a emergência de uma crescente ênfase no equilíbrio das emoções, por ele categorizado como processo civilizador (REZENDE; COELHO, 2010, p. 104). De acordo com o autor inicialmente citado, na atualidade encontram-se diversas prescrições em jornais, livros de autoajuda, imprensa conselheira. A respeito dessas, o autor “considera os produtos da mídia como formas simbólicas capazes de revelar valores e visões de mundo da sociedade contemporânea” (CONDÉ, 2011, p.85). Técnicas, fórmulas e modelos continuam sendo disponibilizados ao amplo público e, entre eles, as camadas médias e altas contam com indicações que lhes são especificamente dirigidas. Um exemplo de imprensa conselheira nessa direção encontra-se na revista brasileira Vida Simples, para a qual, entre várias temáticas motivacionais abordadas,
são recorrentes associações da noção de felicidade à vida em lugares idealmente pacatos como “cidade do interior”, em oposição à “agitação” das grandes cidades, ou a uma redução das atividades diárias, principalmente profissionais, em favor de uma vida mais simples.
(CONDÉ, 2011, p. 91).Ao mesmo tempo, o apelo de muitas das prescrições encontradas pelo menos na mídia brasileira consultada pelo autor se dirige a uma singularização da experiência da felicidade, constituindo-se como um aspecto de desenvolvimento interior de caráter eminentemente pessoal.
As características atribuídas à vida onde o verde ou azul prevalece perante o cinza comporiam meios de satisfação (SCHIVELBUSCH apudDIAS DUARTE, 2010, p. 247), entendidos estes como canais para a realização de um estado de satisfação vista como interior. “Todas as culturas têm seus regimes do bem dependentes de certas fontes de satisfação materiais e imateriais, às quais concedem o melhor de seus esforços” (ibid.). O senso de satisfação, propiciado por aquilo considerado prazeroso, se encontraria em essas pequenas coisas que a cada dia nos aguardam, segundo várias das dicas de Vida Simples, a campanha #meulugar de Mastercard, e a voz de alguns dos lifestyle migrants sobre os quais este ensaio debate. Ronald Inglehart (1977, 1997) propõe ler a modernização como um processo de resposta às necessidades materiais básicas, como a segurança econômica e cidadã, primeiramente, e logo às outras, numa fase pós-materialista em que ideias de autorrealização e participação ganham centralidade através de uma “revolução silenciosa” (ibid.).
“Como sugerem as prescrições midiáticas, há um procedimento preferencial, uma conduta a ser observada, a fim de alcançar uma solução eficaz – sempre há uma solução – para uma situação problemática” (CONDÉ, 2011, p. 100). A felicidade seria, interpreta o autor, a solução para o mal-estar e se achariam disponíveis diversas receitas para a sua obtenção. De alguma maneira, esse tipo de produtos midiáticos confirma as conceitualizações antes assinaladas de um regime do bem e dispositivo de sensibilidade, em que a busca de uma experiência vital eudaimônica se faz presente. Neste caso evidenciando a formação de uma cultura terapêutica (RIEFF, 1966), persistente em exigir uma felicidade em ascensão constante e sem interrupções. O consumo de lugares através de mobilidades migratórias atrela-se a uma coerência entre repertórios culturais e decisões tomadas (VELHO, 2004), a qual acontece “em meio a uma enigmática diversidade de opções e possibilidades” (GIDDENS, 2002, p. 11), que convida e/ou obriga ao encontro reflexivo de si mesmo.
Ao dizer de McCracken (1998), a diversidade, variedade e heterogeneidade do nosso tempo sobressai perante a simplicidade e limitações de épocas anteriores, surgindo a pergunta sobre até que ponto pode se escolher isso último. Especialmente, quando até as opções sobre o simples e limitado multiplicam-se ao tempo que se almeja encontrar refletido no vivenciado aquilo que se almeja e que, é sabido, pode estar em outra parte. Tendo os recursos para ir à sua busca, o custo é aqueles da adaptação e desadaptação assim como dos laços (familiares, conjugais, de vizinhança) que não podem se comprar, quando estes existem e são procurados. Já não há preferências universais enquanto avança um leque cada vez mais vasto de alternativas, o qual forma novos tipos de vida social, segundo assinala McCracken no texto antes citado, num cenário em constante mudança, no qual a busca de plenitude sempre aparece desafiada através de novas opções em constante geração e adaptação entre si. Embora consumir defina identidades, a profusão de opções de consumo ameaça a permanência de um sentimento de plenitude perante a identidade desenvolvida.
Uma vida simples pode significar distinção social em termos das relações sociais que as atravessam desde uma competição social (MCCRACKEN, 2005), embora desde a linha de discussão aqui articulada evidencie uma tendência de ligação com a coerência do projeto de vida, o prazer estético e a realização de um afastamento de estímulos sufocantes. O pertencimento, ligado à distinção social, atrela-se também a uma narrativa biográfica e construção de projeto coerente. O status parece perder relevância no olhar romântico sobre a vida longe da cidade perante a recusa pelo menos parcial de uma sociedade mecanizada, na qual o local, o ecológico, o orgânico e aquilo que aparenta ser menos poluído por um trabalho humano massificador confere sentido, representa um ato político, afirma um agir certo e atribui bem-estar, assim como ocasionalmente também status.
A simplicidade é almejada, e muitas vezes emerge como consumo responsável, em termos da “(...) capacidade de cada pessoa ou instituição, pública ou privada, escolher e/ou produzir serviços e produtos que contribuam, de forma ética e de fato, para a melhoria de vida de cada um, da sociedade e do ambiente” (ZERBINI; BARCIOTTE; PISTELLI, 2003, p. 1). Nesse sentido, Nava (2007) demonstra como as escolhas de consumo representam poder na hora de estimular ou desestimular certos lugares, certos itens, certas escolhas. Abandonar a cidade surge como uma forma crescente de satisfação valiosa e legítima, sem deixar de estar atrelada às novas dimensões do consumo contemporâneo.
7. Tempo de utopias?
O tempo - (...) Eu gostaria de te dar um conselho: Pense menos em mim, e mais em você. É perdendo tempo que se ganha vida. Neste ano, quanto tempo você passou com a sua família? Dando beijos? Jogando conversa fora com os amigos? O segredo do tempo não está nas horas que passam, está nos momentos que ficam. Porque são eles que vão contar a sua história. Eu sei disso. EU, SOU O TEMPO. // Itaú digital, para você ter mais tempo para ser pessoal-4
O protagonista de O estrangeiro (CAMUS, 2015) demonstra na sua vida à beira do mar uma patente ausência de sonhos, de desejos, de objetivos ao longo da primeira metade do romance. Não há devaneios, não há fantasias, somente antecipações. Seu protagonista, Mersault, se aproxima a um hedonista tradicional que se satisfaz com o que já conhece, com experiências sensoriais corriqueiras, como ir ao cinema, nadar no mar, ou simplesmente fazer sexo.
Os migrantes por amenidade ou estilo de vida buscam um sentido, se transformando literalmente em estrangeiros, elaboraram um projeto a partir dos seus sonhos. O incessante ciclo onírico contemporâneo que tem sido aqui descrito se torna promotor de ações potencialmente frustrantes em relação à vitalidade original dos sonhos, segundo Campbell. Todavia, necessariamente ocorre assim? O estilo de vida longe da cidade conforma um objeto de desejo a ser consumido em busca de satisfação, mas, embora surgindo de um anseio acaso poderá ser – pelo menos para alguns entre os novos residentes do lugar – um intento, fuga ao ciclo de desejo-aquisição-desilusão capitalista? Apesar de dificilmente atingir-se um escape pleno, pode a busca de calma litorânea (quando contrastada a área com as grandes urbes) representar um sinal de hedonismo tradicional extensivo (de aproveitamento da tranquilidade cotidiana)?
O cultivo do ambiente que acompanha o cultivo de si (CARVALHO; STEIL, 2008) presente nos migrantes analisados acaso nos fala de um hedonismo de baixo impacto? Envolvendo este para si e o entorno tanto uma valorização crescente da produção do próprio alimento como do uso de materiais reutilizáveis, renováveis e/ou recicláveis; a prática de modelos de construção em barro consideradas de baixo impacto ambiental, entre outras ações. O hedonismo moderno faz parte do processo migratório, mas parece encontrar naqueles migrantes que permanecem no lugar e convencidos uma alta dose de hedonismo tradicional. Embora convivam os dois perfis migratórios com “experiências” diferenciadas.
Pode-se encontrar, nos projetos vitais dos quais essas práticas formam parte, uma contribuição à desaceleração dos efeitos do consumismo moderno e, inclusive, uma alteração na sua forma. Ao mesmo tempo, pode simplesmente estar se abrindo o leque em direção a práticas de consumo que, embora dissímiles daquelas anteriormente praticadas pelos migrantes por amenidade antes de se radicarem no balneário, resultem em um menor impacto destruidor. O extensivo volta outra vez nesses projetos de vida à beira-mar, os quais inegavelmente envolvem escolhas, consumo e definição de quem somos nesse processo, como Douglas e Isherwood (1979) demonstraram. E não somente representam distinção social ou sinais de status, senão também percepções subjetivas de bem-estar, sensações que, embora mediadas socialmente, conferem sentido às práticas e decisões vitais.
“Não ser um consumidor moderno significaria ou deixar de devanear, ou restringir a atividade imaginativa de uma pessoa a fantasias irreais” (CAMPBELL, 2010, p. 139). Pode ser entendido, acaso, como hedonista tradicional o migrante que desiste de um certo ethos moderno associado ao consumo, entregando-se em certo grau à ausência de novos desejos perante a convicção de que os sucessos de sua vida corriqueira envolvem o maior dos prazeres possíveis, ainda que o prazer continue sendo entendido como meio de satisfação? O capitalismo até agora tem sabido absorver a sua crítica, sem dizimá-la por inteiro, e vai se transformando junto com os caminhos transitados por esta. Aqueles que se afastam da grande cidade, até que ponto a reproduzem com novas molduras? Ou, acaso, reconvertem e desafiam suas formas, a partir dos projetos almejados para si mesmos? O claro é, os fluxos de bens e pessoas do capitalismo global multiplicam as suas faces.
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Notas