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Pierre Bourdieu e a fotografia: socioantropologia reflexiva em imagens

Pierre Bourdieu and photography: reflexive socio-anthropology in images

Jesus Marmanillo Pereira
Universidade Federal da Paraíba, Brasil

Pierre Bourdieu e a fotografia: socioantropologia reflexiva em imagens

Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares, vol. 25, núm. 2, pp. 1-19, 2023

Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais

Recepção: 01 Maio 2023

Aprovação: 01 Outubro 2023

Resumo: O presente artigo visa situar o local da pesquisa imagética segundo a sociologia e antropologia reflexivas de Pierre Bourdieu. Para tanto, consideramos a relação entre teoria, prática e estratégias fotográficas a partir da noção de fotoetnografia, tomando como suporte as experiências desse cientista social francês na Argélia colonial e província do Béarn. Transitando entre uma antropologia visual e a sociologia da imagem, o estudo da produção imagética de Pierre Bourdieu possibilita importantes reflexões epistêmicas sobre os condicionantes sociais da pesquisa em contextos de extraordinariedade, a questão da pluralidade dos papéis do pesquisador e a importância do olhar que, embora teoricamente treinado, não se pode privar das experiências subjetivas e objetivas no campo. Além de suas principais obras, foram utilizados especialistas e comentadores de Pierre Bourdieu, entre os quais destacamos Loïc Wacquant ,  Tassadit Yacine,entre outros.

Palavras-chave: Pierre Bourdieu, fotoetnografia, antropologia, sociologia.

Abstract: This article aims to situate the location of imagery research according to Pierre Bourdieu's reflexive sociology and anthropology. To this end, we consider the relationship between theory, practice and photographic strategies based on the notion of photo-ethnography, taking as support the experiences of this French social scientist in colonial Algeria and the province of Béarn. Navigating between a visual anthropology and the sociology of the image, the study of Pierre Bourdieu's imagery production enables important epistemic reflections on the social constraints of research in contexts of extraordinariness, the issue of the plurality of the researcher's roles, and the importance of the look that, although theoretically trained, one cannot deprive oneself of subjective and objective experiences in the field. In addition to his main works, specialists and commentators of Pierre Bourdieu were used as reference, from which we highlight Wacquant (2006), Yacine (2004), among others.

Keywords: Pierre Bourdieu, Photo-Ethnography, Anthropology, Sociology.

Introdução

Em outubro de 1987, Pierre Bourdieu ministrou o seminário “A prática da Antropologia reflexiva” na Escola de altos Estudos Superiores de Paris2, na qual apresentou uma série de características que constituem a sua sociologia reflexiva. Lá, discorreu sobre pontos como o esforço de construção de um problema de pesquisa, a relação entre teoria e prática, problematização e controle das condições de pesquisa e outras questões epistemológicas que marcam a obra do autor.

Partindo dessa perspectiva, o presente artigo se propõe a refletir sobre as contribuições teórico-metodológicas de Pierre Bourdieu para a prática fotoetnográfica, compreendida na acepção de Achutti (2004) como uma combinação entre o olhar treinado do antropólogo e a linguagem fotográfica. Uma primeira inspiração para pesquisa veio do texto “Seguindo Pierre Bourdieu no Campo”(Wacquant, 2006), que traz, de forma sintética, exemplos de pesquisas etnográficas realizadas por Bourdieu na região da Cabília (Argélia) e na província de Béarn (França), ressaltando o uso da fotografia. 

Dessa forma, buscaremos observar como trânsito entre teoria, campo e aspectos biográficos marcam e podem ser observados nas fotografias de Pierre Bourdieu.  Nesse sentido, foram analisadas e selecionadas dezesseis fotografias produzidas por ele, dentre as quais duas foram feitas no Béarn e quatorze na Argélia. Elas foram extraídas, respectivamente, das obras “O baile dos celibatários: crise da sociedade camponesa no Béarn (2021)” e “Picturing Algeria (2012)”. Grosso modo, essas duas obras são as mais valorizadas pelos antropólogos3, oferecendo especial atenção a temas como “técnicas corporais”, habitus, e tensão entre culturas tradicionais rurais e capitalistas urbanas. Tais imagens foram contextualizadas com as observações de uma série de comentadores e pesquisadores como Wacquant (2006), Yacine (2004), Achutti (2004), entre outros, que nos possibilitam refletir sobre a contribuição de Pierre Bourdieu relacionada à experiência na Argélia e Béarn, e sobre o papel das imagens na pesquisa etnográfica.

Partimos da hipótese de que tal caminho possibilita pensar Pierre Bourdieu no âmbito de uma Sociologia visual e da imagem, refletindo sobre o papel do próprio pesquisador cuja biografia caracteriza um intelectual que viveu a experiência do colonialismo interno, na França, e por isso cremos ser um europeu cuja história tende a romper com o binarismo “lá - cá”, Ocidente-Oriente, centro-periferia, e tantos outros que demonstram uma perspectiva estática de classificação que fixa momentos e situações como regras e contexto constantes. Nesse sentido, nossa segunda hipótese é de que as experiências na Argélia e no Beárn relatadas nas obras citadas são um importante ponto de partida se refletir sobre esse movimento do autor que dificulta qualquer classificação apressada sobre a relação entre seu robusto quadro conceitual e sua experiência de vida.

É importante situar o presente texto inserido em um conjunto de esforços realizados pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Cidades e Imagens (LAEPCI-UFPB) que desde 2016 tem realizado projetos e produções relacionadas à teoria sociológica, etnografia e fotografia. Também é fundamental explicitar que muitas reflexões do ensaio foram oriundas de minha participação na disciplina “Tópicos Especiais: A Etnografia de Pierre Bourdieu”, ministrada pela professora Patrícia Ramiro4 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba, em 2021. Enfim, o texto foi organizado em três tópicos que buscam contextualizar o leitor com a ideia de uma fotoetnografia bourdieusiana, e as condições de pesquisas e experiências dele tanto nas áreas camponesas do Beárn e Argélia, quanto nas áreas urbanas da Argélia.

Uma Fotoetnografia Bourdieusiana:Argélia colonial e Béarn colonizado

Quando falamos de fotoetnografia, compreendemos a produção de textos etnográficos estruturados em um rico diálogo com imagens fotográficas, com o domínio da técnica fotográfica teoricamente orientada. Segundo Achutti:

A fotoetnografia é uma forma de utilização da imagem fotográfica na composição de narrativas. É uma espécie de investigação documental, mas com um olhar da técnica da antropologia, da teoria antropológica. É uma maneira de conhecer determinada realidade e discorrer sobre ela por meio da imagem fixa, que se associa ao texto, mas, ao mesmo tempo, mantém autonomia. Há diversas pesquisas que, se forem realizadas somente com imagens, ficam insuficientes. E, ao mesmo tempo, há outras que se forem realizadas somente com texto, se tornam insuficientes ou enfadonhas. O que a fotoetnografia se propõe é utilizar texto e imagem em colaboração.

(Achutti, 2021, p.,442, grifos do autor).

Por essa definição, já poderíamos arriscar em pensar uma fotoetnografia de viés bourdiesiano, considerando a existência de um equilíbrio na combinação de imagens e textos com o intuito de produção etnográfica5. Nessa linha, verificamos que as pesquisas realizadas na Cabília e no Béarn são repletas de imagens e sinalizam um rico campo para se debater sobre a reflexividade na pesquisa. Demonstram, também, a capacidade narrativa das imagens e o próprio contexto de produção imagética - que mescla o diálogo entre a técnica fotográfica e uma visão teoricamente orientada.

No livro “Argelia: Imagenes del desarraigo” há uma narrativa textual e visual sobre o desenraizamento pelo qual a cultura tradicional argelina é analisada em um contexto de colonização francesa. Trata-se de uma situação na qual o autor observou a tensão de toda estrutura militar, econômica e cultural francesa diante de costumes e experiências práticas que marcam o cotidiano das populações locais. Ele nota um tipo de dominação simbólica internacional que se expressou no choque direto entre a dominação francesa e o Movimento de Libertação Nacional, e, indiretamente, por meio de uma série de atitudes cotidianas que demonstravam hexis corporais, habitus e outras formas de resistência nativa diante da situação colonial.

O conjunto de fotografias combinadas com explicações textuais explicita o deslocamento das populações tradicionais do alto das montanhas para as planícies e cidades. Sinalizam que a situação de guerra gerou novas formas de organização socioespacial e de habitação. Apontam, ainda, a emancipação das mulheres e alterações na divisão sexual do trabalho. Verificamos que as imagens possibilitam uma narrativa sobre o triste processo de resistência e negação da cultura campesina em relação aos modos de vida urbanos, sendo possível notar a quebra da relação dos homens com a terra, mudanças na forma e sentidos do trabalho, a tensão entre um habitus camponês e um “modo de vida urbano” marcado, sobretudo, por uma oposição entre o auxílio mútuo em detrimento de comportamentos individualistas6.

Tais situações que demonstram a complexidade da colonização e seus efeitos em processos diversos marcam a originalidade da perspectiva etnográfica desse autor, que considerava que a Antropologia cultural da época ignorava que a transformação dos sistemas culturais e dos valores não era resultado de uma simples combinação entre os modelos importados e originais. Para ele, as transformações só eram possíveis por meio da mediação da experiência e da prática de indivíduos diferentemente situados em relação ao sistema econômico (Bourdieu, 2021), ou seja, era necessário compreender a constituição do habitus e sua relação com as estruturas e práticas (Bourdieu, 2009).

Outra pesquisa do autor que demonstra essa tensão entre culturas rurais e urbana pode ser observada no livro “O Baile dos Celibatários: crise da sociedade camponesa no Béarn”, que traz um uso interessante das fotografias. Nele, o autor explora, analiticamente, as posturas corporais e paisagens camponesas, deixando evidente a influência maussiana na análise e no registro das posturas corporais.

 A originalidade de Bourdieu é contextualizar tais técnicas corporais em um campo de posições que caracteriza a tensão entre tradição e modernização. Nesse contexto, o baile rural foi o lócus privilegiado de observação etnográfica de Pierre Bourdieu, já que se tratava de um lugar legitimamente permitido para o encontro entre homens e mulheres, e onde ocorriam as situações de choque cultural.

Corpos, fazendas e bailes no contexto do Béarn
Imagem 1
Corpos, fazendas e bailes no contexto do Béarn
Fonte: Bourdieu (2021).

Bourdieu (2021a) notou que, nos bailes, o camponês revelava a impressão social de um corpo rude e de traços grosseiros associados à própria vida cotidiana de trabalho duro no campo. Disso resultava a sensação de embaraço diante do próprio corpo e um desconforto em situações que exigem extroversão e centralidade nos gestos corporais, por exemplo, na situação do baile (Imagem 1).

Essa construção social do corpo os impedia de dançar e ter atitudes simples na presença das moças. Já com os moradores da cidade, a percepção do corpo era totalmente oposta e ancorada na comunicação de massa de estilos musicais distintos das músicas tradicionais rurais7, resultando daí uma melhor interação com as mulheres. Sobre a hexis corporal na Argélia, ele explica que os tipos de movimentos e posturas corporais expressam usos sociais que indicam a oposição entre o masculino e o feminino. Para Bourdieu (2021a), o corpo era também a base na qual os argelinos estabeleciam as relações entre si, com o tempo e o sistema de valores do agrupamento. Um exemplo citado pelo autor é o uso da boca, nos momentos de refeição, pois, enquanto os homens podem utilizar toda a boca, as mulheres devem limitar-se ao uso dos lábios. Diante de um disciplinamento e moralidade sobre o corpo, sobretudo feminino, os estudos de Bourdieu (2011, 2006) apontam que o estímulo da liberação da mulher foi um esforço constante, estimulado pelos estrangeiros que dominavam a habilidade da dança e costumes urbanos - características que influenciaram diretamente na estrutura social e valores locais.

Assim, poderia se falar em deslocamentos, usos, perspectivas e disposições corporais que constituem hexis socialmente construídas e sinalizam um campo de disputas no âmbito da influência dos militares europeus sobre as mulheres. Para ele:

A hexis corporal é a mitologia política realizada, incorporada, tornada disposição permanente, maneira durável de se portar, de fazer, de andar, e, dessa maneira, de sentir e de pensar. A oposição entre o masculino e o feminino se realiza na maneira de se portar, de carregar o corpo, e de se comportar sob a forma da oposição entre o reto e o curvo (ou o curvado), e entre rigidez, a retidão, a franqueza ( que olha de frente e enfrenta e que dirige o seu olhar ou seus ataques direto ao objetivo) e, do outro lado, a discrição, a reserva, a leveza. Como testemunha o fato de que a maior parte das palavras que designa as posturas corporais evoca virtudes e estados da alma, essas duas relações com o corpo estão repletas de outras duas relações com os outros, com o tempo e com o mundo e, dessa maneira, de dois sistemas de valores.

(Bourdieu, 2009, p.114-115, grifos do autor).

A citação constitui-se como base teórica que orienta a forma de olhar (treinado) do pesquisador sobre os corpos dos nativos analisados, personagens principais focalizados a cada fotografia ou filme. Por conta disso, a composição da Imagem 1 demonstra como os corpos camponeses são narrados visualmente em relação ao contexto de trabalho na roça e ao distanciamento  introspectivo, durante o baile. Apesar das diferentes situações, ainda assim, trata-se de corpos arrojados na aspereza do ofício rural e retraídos diante de comportamentos que expressam outra moral corporal urbana.

Nota-se um tipo de jogo no qual os camponeses não acreditam mais na eficácia de suas ações diante das novas regras colocadas no cenário. Uma espécie de choque de habitus, que demonstra a tensão entre diferentes sociedades.  Se para Bourdieu os corpos são associados aos estados da alma, isso só reforça a necessidade de compreensão relacional das posturas dentro de representações e percepções socialmente construídas. O autor aponta para a necessidade de se pensar a cultura incorporada nos gestos, posturas e moralidades associadas aos usos do corpo.  Sobre isso, Wacquant (2006) demonstra que Pierre Bourdieu se opunha à visão cartesiana que pensava a consciência autoconstituída e criadora do mundo com base na oposição entre corpo e alma. Para tanto, recorreu aos estudos de Merleau-Ponty para se intensificar na crítica a uma perspectiva moderna, pautada nas antinomias e binarismos.8

O produto visual em si sinaliza a síntese de uma experiência prática em campo, mesclada com uma formação de teoria anterior e os aspectos “românticos” (Da Matta, 1978) do campo, ou seja, quando o pesquisador se vê obrigado a estabelecer outros papéis sociais para se manter na interação com os interlocutores. No caso de Pierre Bourdieu, todos esses aspectos aparecem nesse contexto de produção fotográfica, desde sua formação sociológica até os diferentes níveis de acesso aos locais de observação dos fenômenos sociais e, por fim, os diferentes papéis assumidos – militar francês, camponês francês, pesquisador, ser humano. Todos esses aspectos são diretamente ligados à intencionalidade com que ele realiza enquadramentos e composições que expressam os personagens principais, como potencialidade para compreender habitus, relações, cenários, cultura e quaisquer aspectos que sinalizem a agência do corpo e maneira como interage com a estrutura. Mas também revelam, talvez não tão intencionalmente, as condições de pesquisa dele.

É importante considerar a atenção à relação de aproximação que aquele pesquisador estabeleceu com seu próprio campo, já que Pierre Bourdieu é originário do próprio Béarn. Portanto, é interessante escapar da teatralidade e aspectos performáticos, principalmente daqueles que se pautam em binarismos ou antagonismo de classificações estáticas, pois não se tratava de um contato, caricato, de um europeu parisiense na província do Béarn e na Argélia.

 Nesse caminho, autores como Yacine (2004),Wacquant (2006) e o próprio Bourdieu já sinalizavam uma relação direta entre a trajetória pessoal de jovem béarnês e as opções teórico-metodológicas desenvolvidas ao longo da vida. Sobre a pesquisa de Bourdieu na Argélia, Yacine (2004) explica que se trata de uma colonização externa desenvolvida pela França, que foi percebida por um francês colonizado internamente e desenraizado do Béarn. Por isso, a região da Kabylia, na Argélia, é compreendida por Yacine (2004) como um “espelho ampliador” para compreender processos que ocorriam em menor velocidade na França e em nível local. Dessa forma, o choque de cultura pode ser entendido como o ponto de intersecção que liga as obras às experiências de vida do pesquisador no Béarn, Paris e Argélia.

Avanço ao longo de um caminho, acima do mosteiro, até a um pequeno boque onde encontro um velho cabila de rosto magro, nariz aquilino, bigode branco magnífico- o que me faz recordar o meu avô materno-, ocupado a secar figos em tabuleiros de vime.

(Bourdieu, 2005, p.56, grifos do autor).

Meus inquéritos de campo, na Cabília, reportavam-me frequentemente aos camponeses béarneses para me defender da sociologia espontânea dos meus informadores (...)parecia-me interessante, por um lado, questionar, tal como o fenomenòlogo, a relação familiar com o mundo social, mas de maneira quase experimental, tomando por objecto de análise objectiva, ou mesmo objectivista, um mundo que me era familiar (onde todos os agentes tinham nomes próprios, onde as maneiras de falar, pensar e agir eram para mim completamente evidentes), e , por outro lado, objectivar, ao mesmo tempo, quer a minha relação de familiaridade com este tipo de objetcto.

(Bourdieu, 2005, p.67-68, grifos do autor).

Pelos trechos retirados da obra “Esboço para uma auto-análise9”, é possível observar a aproximação e um esforço de reflexão e vigilância epistemológica que sinalizam dois papéis presentes em Bourdieu, um mais subjetivo e outro focado na objetivação das experiências. É na interação entre esses dois papéis que ele busca a compreensão daquele contexto. Considerar o pesquisador na pluralidade de papéis pode ser um passo fundamental em termos metodológicos de objetivação da experiência, pois os vários papéis sociais ativados naqueles contextos são fundamentais para compreender a produção das fotografias.

Com isso, queremos propor que as fotografias sejam pensadas em relação ao contexto de guerra e às emoções suscitadas por isso. Que se considere o processo de identificação daquele pesquisador com as referidas situações e experiências ocorridas no Béarn e na Argélia. Essas são condições seminais para iniciar uma leitura crítica de como as aproximações e distanciamentos dele poderiam ser pensadas em relação às imagens.

No âmbito emocional relacionado à empatia e (auto)identificação com o contexto de desenraizamento na Argélia, Wacquant (2006) explica que a fotografia serviu como meio de orientação na tempestade emocional que afetava Bourdieu ao manter uma aproximação com aquele contexto de destruição. Ele próprio explica:

Se trataba de una situación muy habitual em mi experiencia, que era bastante extraordinaria: me commovía mucho y era muy sensible al sufrimiento de toda esa gente, pero, al mismo tiempo,  mantenía también una distancia de observador que se manifestaba em El hecho de hacer fotografias.

(Bourdieu, 2011, p.35).

Se uma primeira estratégia de objetivação de Pierre Bourdieu foi o desenvolvimento de genealogias e estatísticas que mostrassem as tendências gerais e estruturais, já as ações individuais e seus sentidos foram observados, também, por uma etnografia e sociologia ligadas ao uso da câmera fotográfica. Assim, a fotografia lhe possibilitou um distanciamento, mas ao mesmo tempo sinaliza uma proximidade do contexto rural familiar, gerando foco em detalhes nem sempre acessíveis e perceptíveis para qualquer etnólogo.

Com uma postura empática, Pierre Bourdieu transitou nas regiões como Collo, Cabília e Ouarsenis, mesmo que em um fogo cruzado que o colocava como alvo da Algérie Française e de elementos da extrema direita local, que o observavam como um poderoso criador de casos na universidade10.  Não se tratava apenas de um pesquisador em uma simples situação de pesquisa, mas de uma coleta de dados e reflexões realizadas em um contexto extraordinário marcado por um alto grau de violência, expressada na guerra e no processo acelerado de desenraizamento dos camponeses, excluídos na cidade. Por isso, a importância e o cuidado com a própria integridade física.

Para ter condições de segurança durante a coleta de dados, ele se valeu de uma rede de apoio ligada a padres e intelectuais situados nas margens da universidade (Yacine, 2004), e do uso de equipamentos fotográficos discretos que chamassem pouca atenção (Bourdieu, 2011).

Wacquant (2006) explica que as primeiras fotos foram feitas com uma câmera Leica e que, posteriormente, Bourdieu adquiriu uma ZeissIkoflex, que lhe possibilitou fazer fotografias sem ser percebido. Isso porque, diferentemente da Leica e de muitas outras câmeras que são posicionadas na frente do rosto do fotógrafo na altura da cabeça, a ZeissIkoflex, por possuir um modelo Rolleiflex que é posicionado na altura do peito, exige assim que o fotógrafo incline a cabeça para baixo para acessar o visor localizado na parte superior do equipamento. Isso permite o ato fotográfico sem uma expressão corporal que indique uma mirada direta sobre o objeto11, ou seja, fornece um contexto de discrição.

Quanto às interações que precedem os atos fotográficos, ele explica que ocorriam algumas situações em que era exigida a autorização para fotografar, em outras, a moralidade local o proibia de fotografar determinadas situações ou pessoas – as mulheres, por exemplo. Aconteciam, ainda, contextos nos quais os próprios nativos lhe solicitavam para realizar as imagens.  Sobre esse último,discorre: “hay unas fotos sobre una circuncisión que son bastantes dramáticas; las hice a petición del padre família  que me dijo: «Ven a sacar fotos». Era médio  introducirme y de ser bien acogido.

(Bourdieu, 2011, p.24, grifos do autor).

Compreendemos que as fotografias eram acionadas (ou não) segundo o conhecimento e interação que ele desenvolvia com as populações locais. Isso nos faz lembrar que, por mais que em um exercício de pesquisa se tente uma diferenciação das experiências comuns, ela constitui, antes de tudo, uma relação social com alguns princípios similares a qualquer outra (Bourdieu, 2007).

Notamos que Pierre Bourdieu desenvolveu dois tipos de relações com seus respectivos nativos: primeiramente como um pesquisador (nativo) problematizando seu próprio contexto de pertencimento, ou seja, possui uma aproximação muito grande e íntima com os nativos e contexto com os quais possui bastante familiaridade; no segundo caso, há uma fronteira étnica que pode ser caracterizada no fato de ele ser um militar francês na subjugada Argélia colonial.

Considerando o fato de o pesquisador ser uma vítima de um colonialismo interno e observador de outros tipos distintos de colonialismo, na colônia francesa, é importante destacar a pluralidade de papéis e a maneira como são operacionalizados nos diferentes contextos marcados por diferentes culturas e moralidades.  Para fugir de uma interpretação que tome Pierre Bourdieu em um binarismo simplista que opõe europeu-africano, colonizador–colonizado, cremos ser importante considerar essa pluralidade de sua trajetória biográfica a partir da reconstituição e análise das interações concretas desenvolvidas em campo. As fotografias sinalizam aproximações e distanciamentos que marcam uma dinâmica complexa e fluida incapaz de se restringir às fronteiras desses termos, nesse jogo binário. A pluralidade de papéis que caracterizam o pesquisador é um aspecto a ser considerado antes de qualquer julgamento ou enquadramento apressado a respeito da produção visual ou tendências desse autor, no âmbito do trabalho de campo.

Fotografia no contexto camponês: Argélia e Beárn

No livro “Argelia: Imágenes del desarraigo”, a riqueza de detalhes de uma fotografia próxima dos interlocutores pode ser observada, principalmente, naquelas realizadas nas áreas rurais. O acesso do pesquisador àqueles interlocutores já foi algo detalhado por Yacine (2004) e por ele próprio, quando narrou que o acolhimento dos camponeses argelinos lhe trazia lembranças dos Béarn e o sensibilizava, já que se tratava de gestos de afeto no contexto da violência do Exército de Libertação Nacional - que o observava como alvo (Bourdieu, 2005)12.

Camponeses Argelinos
Imagem 2
Camponeses Argelinos
Fonte: Bourdieu (2012).

Apesar das tensões contextuais, a relação próxima dele com os nativos refletiu-se diretamente na produção fotográfica. A composição oferecida pela Imagem 2 demonstra isso, com o registro de expressões faciais e postura corporal tranqüilas e  olhares que se direcionam para uma câmera já ambientada e livre de qualquer situação desconfortável. Ainda assim, isso não impede a formação de fronteiras internas e a necessidade de fotografias voyeurísticas que denotam círculos fechados de diálogos ou locais socialmente não acessíveis.  Sobre o referido contexto, ele explica:

Aquella gente me conto historias, historias de ogros y de juegos a los cuales se pusieron a jugar: habían tomado aceitunas del olivo que tenían encima de ellos, aceitunas todavía verdes, y empezaba el juego: uno tiraba lãs aceitunas y debía recuperar lãs com el dorso de la mano y, segúnel número de aceitunas falladas, se ganaba tres o cuatro papirotazos.

Bajo aquelo olivo, pregunté a aquellos individuos que andaban entre los treinta y cincuenta años, algunos de los cuales llevaban um fusil oculto bajo suchilaba, se pusieron a jugar (quien perdía dos se llevaba una tobacon dos dedos, quientres, contres dedos, etc.) y golpeaban muy, muy fuerte, jugaban como los niños.

(Bourdieu, 2011, p.38, grifos do autor).

A ludicidade e o “ouvir” foram pontos que marcaram aquele contexto de interação do pesquisador, que contou com o apoio de padres locais que o auxiliaram no  processo de inserção nas aldeias. Ele explica que o padre Dewulder13 o ajudou, atuando diretamente no aumento da aceitação dele no local. Fala também que, em situações de interação, se identificava facilmente com os soldados franceses, já que um ano antes vestia a mesma farda. Pela leitura, é importante considerar que o campo dele contou com a mobilização de papéis sociais e com mediações que auxiliaram o trânsito e entrada em campo (Bourdieu, 2005).

Sobre a relação dele com os padres, Yacine (2004) explica que o pesquisador francês, ao notar que a universidade de Argel era fechada para novas ideias, buscou contatos com padres brancos, jesuítas, professores de escolas primárias, jornalistas e alunos.  Sobre isso, Bourdieu (2005) cita amigos apoiadores, como Rolande Garèse, Moulah Hennine, Abdelmalek Sayad, Ahmer Misraoui, Mini Bensmaíne, Mahfoud Nechem, entre outros, que o auxiliaram na elaboração de uma representação da realidade argelina (Idem, 2005).

Na pesquisa de campo, Bourdieu (2005) relata que muitas vezes foi ajudado por agentes que possuíam respeitabilidade nas aldeias, possibilitando uma espécie de salvo-conduto que lhe permitia o trânsito livre e a transmissão de confiança aos aldeões.  Cita o Bouafer de Aín Aghbel, um velho que os acompanhava nas entrevistas e após tudo gostava de emitir a própria opinião e interpretação a respeito da situação, expressando uma espécie de saber cultural. Assim, quando contextualizamos as condições de pesquisa de Bourdieu através das imagens, é possível compreender o motivo pelo qual há maior inserção e liberdade do pesquisador naquele contexto.

Já com a pesquisa realizada no Beárn, não ocorreu tanta dificuldade na obtenção de mediações ou representações a respeito daquela região camponesa na qual o pesquisador nasceu e viveu parte da vida. Bourdieu (2006) nota que, para os nativos, a fotografia é vista como algo suspeito e que não se encaixa naquela cultura, seja por exibir uma característica corporal mais sensível para manuseio do equipamento, seja pelo gasto econômico, que é interpretado como um luxo fútil ou pela característica de distinção que gera em relação à comunidade.

Assim, era aceitável um homem urbano fazer fotografias e vendê-las na aldeia, e reprovável um camponês caminhar com uma máquina no ombro (Bourdieu, 2006) 14. De modo similar à análise realizada na Argélia, temos um caso de formação de um habitus camponês tensionado com uma cultura urbana moderna que favorece os processos de desenraizamento. Em um viés que poderia ser pensado na relação “Imagens-Sociedade”, ele relaciona a prática fotográfica tomando como referência as pequenas burguesias do Bourg, os aldeões, e como esses segmentos conferiam diferentes sentidos e usos para a referida prática.

Nas cerimônias de casamento do Beárn, existia uma postura corporal diante da câmera e a necessidade de se executar socialmente o “eu estive lá”, registrando um momento ritual dentro das famílias ou comunidades. Quando se pensa nas posturas do camponês diante da câmera e sua relação com o fotógrafo, e com a própria moral do grupo, é possível refletir sobre as “interações fotoetnográficas” (Pereira, 2015), já que todo o processo de inserção em campo exige uma capacidade de “leitura” de si próprio e do outro, no âmbito da moral, das representações e contexto cultural.  

Tais questões presentes no texto “O camponês e a fotografia” já apresentam uma perspectiva trabalhada anteriormente, na década de 1960, no livro “Un art moyen. Essai sur lês usages sociaux de la photographie”, que é constituído por um conjunto de textos de pesquisadores15, que demonstram uma perspectiva relacional que parte das bases sociais para compreender o habitus da prática fotográfica, bem como suas definições no âmbito estético. Nesse sentido, todos partem de um viés clássico quando pensam, primeiramente, as funções sociais, as condições materiais e os ethos, que atribuem sentidos historicamente e culturalmente construídos. Assim, as fotografias são pensadas em relação as suas funções sociais vinculadas aos rituais familiares, em relação à formação de clubes que constroem socialmente uma definição estética relacionada à produção de imagens, ao campo profissional dos próprios fotógrafos.

 Para Bourdieu (2003),era importante estudar primeiro os “grupos reais” para compreender os sentidos e funções que eles atribuíam à fotografia. Nesse sentido, a obra prioriza grupos como os dos camponeses, operários, burgueses, profissionais, entre outros, que foram observados de forma prolongada. Embora tal livro seja corriqueiramente classificado como uma produção de sociologia da imagem, suas contribuições extrapolam essas fronteiras disciplinares, já que compreender a relação dos grupos com as imagens pode ser considerado um passo fundamental nos processos de inserção em campo.

Fotografias urbanas na Argélia: o voyeur caminhante

Já nos ambientes urbanos houve a preponderância de um viés voyeurístico favorecido pela discrição e capacidade técnica da câmera Roilleflex. Uma das principais características dessas fotografias voyeurísticas é o fato de as pessoas não saberem que estão sendo observadas e fotografadas. Na composição da Imagem 3 (a seguir), o enquadramento demonstra que a câmera está parada em frente a uma esquina de um prédio de loja comercial.  Vemos que há uma mancha preta na parte direita de uma das imagens, sinalizando que, provavelmente, o equipamento estaria sobre uma mesa, camuflado entre outros artefatos e objetos que adentraram o campo de visão, gerando a “mancha preta”.

Fotografias voyeurísticas na cidade
Imagem 3
Fotografias voyeurísticas na cidade
Fonte: Bourdieu (2012).

Já na composição seguinte, Imagem 4, é possível observar três casos interessantes que nos fazem pensar nas caminhadas pela cidade e a aproximação com os fotografados. A respeito da fotografia dos senhores sentados no estribo do automóvel, Bourdieu (2011) explica que se trata de uma imagem que mesclava realidades (árabes de turbantes / automóveis). Essa mescla de elementos tradicionais com símbolos “modernos” expressados na arquitetura, nas vitrines de lojas ou vestuários é uma forte marca nas fotografias urbanas que demonstram como o “choque” cultural chamava a atenção dele.

Aproximações camufladas e contatos possíveis
Imagem 4
Aproximações camufladas e contatos possíveis
Fonte: Bourdieu (2012).

Na fotografia da parte superior à direita da composição acima, é possível observar um rapaz vendendo jornais (no primeiro plano da imagem), senhores olhando a vitrine (no segundo plano da imagem) e uma mulher de burca (no terceiro plano da imagem). Na mesma composição (Imagem 4), há uma fotografia em que um vendedor ambulante fica no primeiro plano junto com um garotinho. Ele usa um vestuário “moderno” e parece saber que está sendo fotografado. A última imagem da composição foi feita provavelmente de dentro de um automóvel e capta uma mulher caminhando, ao mesmo tempo em que a imagem dela é refletida em uma vitrine (no terceiro plano), junto com um grande prédio.  A fotografia com seu objeto e reflexos traz elementos icônicos da tensão entre tradição e “modernidade”. Contudo, não podemos resumir a etnografia bourdieusiana nesse binarismo, principalmente por também narrar estratégias de resistência e adaptação.

Uma leitura que dialoga fortemente com as imagens urbanas de Pierre Bourdieu é a do livro “O desencantamento do mundo: estruturas econômicas e estruturas temporais”. Isso porque, grosso modo, demonstra e problematiza uma série de mudanças na concepção de tempo e trabalho nos dois contextos, urbano e rural. Por outro lado, descreve o cotidiano dos desenraizados na cidade por meio do detalhamento de aspectos como a precariedade do trabalho, da habitação, e outras formas de solidariedades que são criadas para que eles consigam prover as necessidades mínimas de sobrevivência. Há uma verdadeira etnografia urbana sobre as alterações no modo de vida e as resistências, por exemplo, as relacionadas ao papel da mulher (trabalhar fora de casa, usar a burca).

 Após a leitura do livro, as imagens de trabalhadores, crianças e mulheres (preponderantes na obra) são mais contextualizadas dentro de uma percepção bourdieusiana. Elas demonstram um esforço de adaptação dos migrantes camponeses diante da falta de condições objetivas de ascensão social. Sobre isso, vale ressaltar:

A vida inteira se passa sob o signo do provisório. Meu trabalho [diz um vendedor ambulante de Tlemcen] não é senão um quebra-galho, à espera que algo melhor apareça. Mal adaptados ao mundo urbano no qual se encontram perdidos, desprovidos de uma vida regular de trabalho e da segurança que garante o produto certo do trabalho, privados das tradições tranquilizadoras da comunidade aldeã e forçados a tudo aprender, simultaneamente o mundo da cidade e do mundo técnico, língua, disciplina, habilidades, eles andam obstinados encarniçados a forçar o acaso e tentar tomar posse de um presente que lhes foge.

(Bourdieu, 2021, p.124-125, grifos do autor).

Quando se trata de pensar o momento de construção do olhar fotográfico e inserção em campo, o texto “A prática da Antropologia reflexiva” 16 parece compor uma importante orientação para o exercício de pensar de forma relacional, combinar metodologias, duvidar das impressões primevas e constituir ferramentas de pensamento para problematizar o contato com as experiências de campo. Dessa forma, “é preciso saber converter problemas muito abstratos em operações científicas inteiramente práticas” (Bourdieu, 2004, p.21).

Para ele, a teoria não teria uma característica profética originária de outras teorias, mas era compreendida como uma espécie de “um programa de percepção e ação ou, se preferir, como uma teoria científica que só se revela no trabalho empírico em que é realizada” (Idem, 1995, 115). Por esse caminho, a fotografia não se resume ao automatismo do aperto do botão de disparo da máquina, nem o artefato fotográfico produzido encerra-se em si mesmo, pois tal operação prática constitui-se na interação íntima entre técnica, experiência cotidiana e uma maneira habilidosa de olhar.

É necessário, portanto, que o fotógrafo mantenha relação com a teoria, com o objeto de análise e com o momento da captação e produção da imagem.  Não como três elementos isolados e sobrepostos, mas em uma relação de mescla tão forte que impossibilite se pensar em fronteiras e limites rígidos para saber onde termina a parte teórica e inicia-se a prática. A proposta é justamente contrária, de se pensar um habitus que possibilite a teoria em forma de gesto, mesclados como um só elemento.  Assim, torna-se fundamental ter os sentidos abertos para a experiência de campo. Sobre a fotografia, Bourdieu explica:

A fotografia é, com efeito, uma manifestação do distanciamento do observador que registra e não esquece o que registra (o que nem sempre é fácil em situações familiares, como a dança), mas supõe também toda a proximidade do familiar, atento e sensível aos detalhes imperceptíveis que a familiaridade lhe permite e o incita a apreender e interpretar na hora (não é dito daquele que se comporta bem, cordialmente, que é "atento"?), a tudo isso infinitamente pequeno de prática que muitas vezes escapa ao etnólogo mais atento.

(Bourdieu, 2011, p.50, grifos do autor).

A sensibilidade de combinar o distanciamento e a aproximação não são estranhas para esse autor, cuja teoria é fundamentada no viés relacional, em detrimento da visão binária de oposição. Compreendemos que o distanciamento e a aproximação podem ser considerados duas percepções complementares que oferecem versões de uma possibilidade de captação da construção social da realidade fotografada. Seja por valorizar a vigilância epistêmica ou por focalizar nos detalhes do cotidiano nativo, esse grande pesquisador rompe com qualquer forma de monoteísmo metodológico, principalmente por combinar uma sensibilidade antropológica em campo com um rigor metódico que não se confunde com a falta de criatividade17.

Em caminho próprio, ele empreende um exercício etnográfico focado na descrição do habitus nos diferentes tipos de agentes que se relacionavam com aquelas estruturas em choque. Embora impactado pelo “desenraizamento”, ele observava que aquele povo resistia e desenvolvia adaptações nos usos de símbolos tradicionais e modernos. Um exemplo disso são os turbantes e véus, que para os europeus não sinalizavam reciprocidade, e também em novas formas de solidariedade condicionadas pelos baixos salários e utilizadas para garantir habitação e não privação nas favelas urbanas.

Bourdieu subvertia o monoteísmo que separava os métodos relativos às disciplinas de Sociologia e Antropologia. Nesse sentido, as fotografias e os estudos desse intelectual na Argélia partem de um conjunto de dúvidas que vão desde essa divisão disciplinar ortodoxa até o questionamento da ideia de que se trataria apenas de processos de aculturação provenientes da colonização francesa. Fugindo de um viés que questionava o potencial do subproletariado para a realização de uma revolução socialista, ele demonstra imageticamente a agência daquele povo por meio de resistências cotidianas, expressadas em gestos, comportamentos e na forma de ser.

No trânsito entre as duas áreas: Antropologia e Sociologia, Wacquant (2006) explica que esses trabalhos de Bourdieu na Argélia colonial e em Béarn (província natal do pesquisador) possuem um viés etnográfico, enquanto o Bourdieu do livro “Photography – a Middle Brow Art” poderia ser pensado como um sociólogo da imagem, preocupado com os usos sociais da fotografia. Comparando os dois trabalhos, observamos que a diferença está apenas na posição que ele ocupa em relação à fotografia, sugerindo que o antropólogo fotógrafo seria caracterizado por produzir fotos, enquanto o sociólogo analisaria os usos sociais, representações e dinâmicas relacionadas às fotografias já produzidas por outros.

Questionando essa oposição pautada na ideia de lugares específicos para produzir dados e outros para analisá-los, cremos que seria impossível pensar o Bourdieu antropólogo-fotógrafo na Argélia e Beárn sem que ele fosse o sociólogo de suas próprias imagens. Seria difícil estabelecer divisões disciplinares baseadas em operações técnicas, não buscando caminhos de síntese e interação dos conhecimentos no sentido de construção de um viés socioantropológico na pesquisa com imagens.

Conclusão

Se a prática fotoetnográfica é caracterizada, principalmente, pela relação entre teorias antropológicas e a prática fotográfica, observamos que as pesquisas de Pierre Bourdieu são sistematicamente integradas de forma relacional e reflexiva.  A premissa bourdieusiana de que a relação entre pesquisador e pesquisado é, antes de tudo, uma relação social se demonstrou como um rico campo de debate a respeito da pluralidade de papéis sociais que podem ser desenvolvidos no contexto do ato fotográfico. Reforça sempre a necessidade de se problematizar as situações sociais na pesquisa, considerando também aspectos extraordinários e de exceção.  Portanto, a produção imagética de Pierre Bourdieu sinaliza que o debate ético na produção de imagens deve caminhar lado a lado com a discussão sobre a familiaridade e o distanciamento entre pesquisador e objeto, bem como a dinâmica e os papéis sociais possíveis, no jogo de interação.

O deslocamento das fronteiras de colonização regional para as internacionais exigiu um trabalho epistêmico capaz de operar com uma dinâmica fluida entre objetividade e subjetividade, e refletir sobre a forma como determinados condicionantes sociais podem afetar as percepções durante as pesquisas com imagens e interações entre pesquisador e nativo. Assim, o “olhar” treinado por toda a antropologia e sociologia reflexiva deve ser contextualizado também em uma autoanálise que envolva aspectos como os medos, os confortos, os desconfortos, a empatia, e outras emoções presentes no trabalho de campo.

Podemos situar a contribuição de Pierre Bourdieu transitando entre os campos da sociologia da imagem e antropologia visual. Isso, principalmente, pelo fato de o aprendizado do pesquisador-fotógrafo ser desenvolvido por meio da constituição de um habitus. Isso significa trazer à tona o debate tanto da complexidade do campo quanto do exercício de um conhecimento prático, incorporado e bastante útil em situações de perigo.

Se a sociologia das imagens bourdieusiana pode ser compreendida nos momentos em que há um exercício de objetivização sobre si mesmo e a operacionalização da sociologia reflexiva sobre a experiência de campo18, a prática junto aos nativos revelou outros aspectos de aproximação, empatia, medo e situações que nos possibilitam refletir sobre uma própria idealização da pesquisa de campo como algo de posições não tão estáveis e bem definidas. Assim, a socioantropologia reflexiva só seria possível na situação prática, por meio do desenvolvimento de habilidades que emergem da própria experiência e de um conhecimento que não é mais aquele da teoria isolada da prática, mas um conhecimento que se faz, também, no campo.

As fotografias de Pierre Bourdieu sinalizam uma poderosa autorreflexão, dialogam com os textos escritos e não servem apenas como ilustrações. Elas trazem uma série de informações captadas de forma intencional, significando que aquele pesquisador conscientemente se apropriou da câmera fotográfica como uma maneira de potencializar a coleta de informações.

As imagens feitas por ele sinalizam aproximações êmicas entre ele e os camponeses, assim como questões éticas que necessitam considerar os contextos de extraordinariedade. Elas discorrem sobre os nativos, mas também sobre os próprios processos de pesquisa e sobre o pesquisador em si. Ao mesmo tempo, elas materializam muito mais que uma técnica ou método de coleta, mas um ponto de partida para um denso debate entre as áreas, e caminho para se refletir sobre uma prática fotoetnográfica socioantropológica reflexiva com imagens.

Referências

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Notas

2 Pode ser consultado no livro BOURDIEU, Pierre. La práctica de la antropologia reflexiva In:  BOURDIEU, Pierre; WACQUANT, Loic J.D. Respuestas. Por una antropologia reflexiva. México: Grijalbo, 1995. Também corresponde ao texto “Introdução a uma Sociologia Reflexiva” presente no livro O poder simbólico.
3 Para refletir sobre essa questão, consideramos a observação de Wacquant (1995) quando lança forte crítica a uma assimilação dos escritos de Bourdieu, na América, em termos de três eixos definidos em determinadas obras. Assim ele explica que os especialistas em educação focam nos estudos a respeito de “A reprodução” e “elementos de uma teoria do sistema de ensino”, enquanto os antropólogos se concentrariam nas etnografias da Argélia e  nos estudos sobre habitus e teoria da prática. Já os sociólogos, observa Wacquant (1995), teriam uma preferência pelas obras “A distinção”. Tal como Bourdieu, seu discípulo Wacquant (1995) também foi crítico ao monoteísmo metodológico,binarismos e limites disciplinares, observando que os grupos de especialistas tenderam a não considerar os nexos orgânicos, teóricos e temáticos que conectavam as investigações de  Pierre Bourdieu.
4 Agradeço à Professora Patrícia Ramiro pelas ricas indicações e diálogos.
5 Se fôssemos traçar um rápido panorama sobre o uso das fotografias na produção etnográfica, seria possível mencionar o estudo de Mauss (1972), quando explica a importância das imagens fotográficas e videográficas para a compreensão das técnicas, e Sammain (1995), quando discorre que as imagens nas pesquisas de Bronislaw Malinoswki expressam um status que vai além da ilustração, já que dialogavam com os textos e possibilitavam interpretações que ultrapassavam o próprio registro visual.
6 Todos esses pontos desenvolvidos em um contexto de total restrição de oportunidades, para os campesinos migrantes.
7 Sobre esse estudo de Bourdieu, Wacquant (2006) comenta que as mulheres estavam abertas à influência cultural da cidade e passaram a avaliar os homens locais a partir das lentes urbanas, ou seja, sob uma perspectiva que os desvalorizava.
8 Em outro estudo, Wacquant (2002) situa a prática do boxe como algo que despreza as fronteiras entre razão e paixão, ação e representação, e retoma o termo maussiano de “Montagens psicosociológicas”, que sinaliza essa percepção ampla do corpo, não contido em si mesmo.
9 A respeito dessa (auto)identificação, há um trecho no livro em que ele relata uma marcha de soldados franceses sobre uma aldeia, com o objetivo de alcançar um Flanco onde se realizariam reuniões da ALN. Sobre esse fato, ele relata: ”Acompanho o seu avanço, no meio dos homens e mulheres da aldeia, que, como eu, esperam que não consigam atingir o refúgio antes de chegar a noite e que seus ocupantes possam fugir” (Bourdieu, 2005, p.57).
10 Segundo os estudos de Yacine (2004), o pesquisador teve que sair do país após descobrir que seu nome estava na lista de pessoas marcadas para morrer.
11 Por mais que atualmente ocorra um debate sobre a questão ética na produção de imagens, mais especificamente sobre o direito de imagens, vale salientar que em contextos de exceção, como guerras, pandemias etc., a produção imagética não pode ser apartada do próprio contexto, no qual se devem considerar as próprias condições de pesquisa e de integridade do pesquisador.
12 No livro esboço de auto-análise, Bourdieu (2005) narra uma situação na qual o som de disparos deixava os camponeses nervosos, pois significava um sinal do referido exército para que os nativos abandonassem a área, para servir de local de repouso das tropas militares.
13 Sobre esse ciclo de relações, Yacine (2004) destaca  os padres Jean-Marie Dallet e M. Devulder entre outros que atuavam fora do âmbito universitário.
14 Em uma abordagem que nos faz lembrar a análise de Mauss sobre a relação entre morfologia social e as variações sazonais das sociedades esquimós, principalmente pelo aspecto ecológico que mescla elementos da cultura, organização social e tensões entre práticas tradicionais e implementação de recursos modernos. Se os esquimós possuíam resistência aos sapatos especiais para caminhar nas extensas camadas de neve, artefatos que poderiam alterar profundamente a organização social e cultural dos esquimós, os camponeses observados por Bourdieu possuíam uma resistência às inovações modernas, por uma moral social que expressava bem um tipo de morfologia social.
15 Pierre Bourdieu, Marie-Claire Bourdieu, Jean Claude Chamboredone, Luc Boltanski,, Robert Castel e Dominique Schnapper , Gérard Lagneau e Jean Claude Passeron.
16 Pode ser consultado também no texto “Introdução a uma sociologia reflexiva”.
17 Tal atitude foi percebida por Peters (2017) como o movimento entre a familiarização etnológica do exótico e a “exotização” sociológica do familiar.
18 Sempre no sentido de manter certa distância em relação ao campo.
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