MULHERES NEGRAS EMPREENDEDORAS E SEUS COMPORTAMENTOS DE SUPERAÇÃO
BLACK WOMEN ENTREPRENEURS AND THEIR OVERCOMING BEHAVIORS
MULHERES NEGRAS EMPREENDEDORAS E SEUS COMPORTAMENTOS DE SUPERAÇÃO
Revista Pensamento Contemporâneo em Administração, vol. 18, núm. 2, 2024
Universidade Federal Fluminense
Recepción: 13 Abril 2024
Aprobación: 20 Julio 2024
Resumo: O objetivo dessa pesquisa é analisar os desafios enfrentados e os comportamentos de superação desenvolvidos pelas mulheres negras empreendedoras. Realizou-se uma pesquisa exploratória indutiva por meio de entrevistas individuais com empreendedoras negras. Os resultados evidenciam que a interseccionalidade de raça e gênero impacta a maneira de empreender de mulheres negras, seus desafios e comportamentos de superação. Esse estudo contribui ao identificar comportamentos de superação, sendo eles: sororidade, aquilombamento, resiliência e aprendizado contínuo. Este artigo contribui para a literatura centrada nos desafios e dificuldades da mulher negra ao avançar na compreensão dos comportamentos de superação no empreendedorismo feminino negro.
Palavras-chave: Empreendedorismo negro, Empreendedorismo feminino, Raça, Gênero, Interseccionalidade.
Abstract: The aim of this paper is to analyze the challenges faced and overcoming behaviors developed by black women entrepreneurs. Inductive exploratory research was realized through individual interviews with black women entrepreneurs. The results show that the intersectionality of race and gender impacts the way black women do business, their challenges, and their overcoming behaviors. This study contributes by identifying overcoming behaviors, namely sorority, aquilombamento, resilience, and continuous learning. This paper contributes to the literature focused on the challenges and difficulties of black women by advancing the understanding of overcoming behaviors in black female entrepreneurship.
Keywords: Black entrepreneurship, Female entrepreneurship, Racial, Gender, Intersectionality.
Introdução
Ao abordar o empreendedorismo feminino negro e seus comportamentos de superação, compele-se iniciar debatendo as categorias sociais em que a mulher negra está inserida e o que isso impacta no seu negócio. Como Machado e Paes (2021) afirma: “a mulher negra abarca em si mesma, várias formas de identidades de minorias sociais por meio da denominada interseccionalidade. Esse conceito fica evidente ao pensarmos que a mulher negra carrega consigo outras categorias como gênero, raça e classe”. Com isso, entende-se que a trajetória de empreendedoras negras não pode ser vista sem o contexto social que estão inseridas, pois muitas vezes é esse meio que define as oportunidades que lhe serão ofertadas, o modo como serão tratadas, as dificuldades que enfrentarão e até mesmo, conforme o foco desse estudo, a forma como elas superam essas adversidades. Assim, evidencia-se a necessidade de levar em consideração a intersecção de raça e gênero no estudo dos comportamentos dessas empreendedoras (Silva & Souza, 2017; De Oliveira, Dos Santos, & De Sousa Oliveira, 2021; Ojediran, Discua Cruz, & Anderson, 2022; Murphy, 2023; Norman, Aiken, & Greer, 2024).
De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), em 2021, iniciar um negócio devido à “escassez de empregos” foi o motivo mais presente entre pretos e pardos (80%), com aproximadamente 10 pontos percentuais a mais do que entre os brancos. Ao olhar para a mesma análise feita por gênero, encontra-se que empreender para “ganhar a vida porque os empregos são escassos” também está como motivação predominante entre as mulheres (81,3%). Esses dados expõem o quanto a necessidade está ligada ao início de empreendimentos de mulheres e pessoas negras, e apontam a falta de empregos e oportunidades que eles enfrentam, sendo necessário buscar em si mesmas os recursos fundamentais para seu sustento, encarando o desafio de empreender, lidar com as incertezas de um negócio e resistir aos preconceitos existentes no mercado que já afetam sua trajetória (Duarte & Spinelli, 2019; Siqueira & Samparo, 2017; Oliveira, Pereira e De Souza, 2013; De Aguiar, Nassif, & Garçon, 2023; Norman et al., 2024).
Embora os estudos anteriores tenham focado nas características, dificuldades e desafios da mulher negra empreendedora, os seus comportamentos de superação ainda são pouco explorados. Além disso, considerando a ampla literatura sobre empreendedorismo, ainda são poucos os estudos que focam em mulheres negras empreendedoras, o que resulta em uma escassez de estratégias para que as mulheres negras desenvolvam suas carreiras empreendedoras (Norman et al., 2024). Portanto, para contribuir com a discussão sobre empreendedorismo feminino negro, esse estudo acrescenta para a literatura a investigação dos comportamentos de superação que as mulheres negras empreendedoras desenvolvem para estabelecerem seus empreendimentos. Portanto, o objetivo da pesquisa é analisar os desafios e os comportamentos de superação desenvolvidos pelas mulheres negras empreendedoras.
Por meio de uma pesquisa qualitativa com método indutivo, esse estudo investigou as motivações para empreender, os desafios enfrentados e os comportamentos de superação para enfrentar os desafios da trajetória empreendedora da mulher negra. Ao lançar uma luz sobre esse assunto, esse artigo contribui ao propor diferentes tipos de comportamentos de superação das mulheres negras empreendedoras que visam fornecer evidências para que as mulheres desenvolvam estratégias de superação e para que sejam propostas políticas públicas de apoio e desenvolvimento de empreendedoras negras. Esse estudo fomenta reflexões e debates frente às consequências de preconceitos como racismo e sexismo, contribuindo para o desenvolvimento de ações afirmativas voltadas para as mulheres negras empreendedoras.
Referencial Teórico
O empreendedorismo feminino negro é visto como uma categoria diferente do “empreendedorismo feminino” e do “empreendedorismo negro”, pois a mulher negra enfrenta adversidades vindas não apenas de um conceito como raça ou gênero, mas sim, dessas duas identidades e seus respectivos desafios (Schachter, 2022).
Um importante ponto inicial é o olhar sob o contexto histórico, no qual Bonomo (2022) destaca que as mulheres negras atuavam como “quitandeiras”. Essa denominação era usada para as mulheres negras que realizavam vendas em tabuleiros, vistas como “escravas de ganho” pelos patrões. Essa forma de trabalho possibilitava libertação tanto para as mulheres quanto para seus filhos e companheiros com o excedente que lhe sobrava. A referida autora destaca que assim as mulheres negras recorriam ao empreendedorismo desde muito cedo na história, não por oportunidade, mas pela necessidade, algo que ainda pode ser visto hoje em dia.
Os empreendimentos de mulheres negras ocorrem desde o fim do período de escravização em meados do século XIX, isso sendo recorrente pela falta de espaço no mercado de trabalho para elas, que eram discriminadas e silenciadas, restando se contentar com o lugar de empregadas domésticas, que antes ocupavam dentro das casas dos senhores de engenho (Machado & Paes, 2021). As injustiças sociais decorrentes da escravidão reverberam em marginalização e exploração da população negra, caracterizando o racismo estrutural e institucional (Carolino, Ferreira, & Teodósio, 2023).
É importante trazer essa contextualização, porque o empreendedorismo feminino negro não se enquadra no conceito e características clássicas do empreendedor, como aquele que empreende por oportunidade e se assemelha ao empreendedor shumpteriano, conhecido por sua habilidade em criar novas oportunidades e de inovar a partir da exploração comercial (Alves & Fonseca, 2021). Pelo contrário, essas empreendedoras são marcadas pela dificuldade de se localizar no mercado de trabalho, devido à escassez de vagas para elas, sendo sua única saída buscar seus próprios meios subsistência.
Conforme Dos Santos Baia e Costa (2022), a construção do próprio negócio não representa apenas uma forma de sustentação financeira, mas um caminho para se inserir econômica, política e socialmente, principalmente para mulheres negras que tiveram seu acesso negado no mercado de trabalho e precisaram recorrer à abertura dos seus empreendimentos como forma de sobrevivência. Sendo importante ressaltar, a tendência delas em empreender como forma de trazer impacto para a sua comunidade, podendo ser mencionado como exemplo histórico a Madam C.J. Walker, conhecida por ser a primeira empreendedora negra à alcançar 1 milhão de dólares vendendo elixires capilares que desenvolveu para mulheres de cabelos cacheados e crespos. Além disso, ela atuava no empoderamento negro incentivando a valorização da beleza negra, bem como de seus traços e negritude (Dos Santos Baia & Costa, 2022).
Mulheres no mercado de trabalho
Adentrando a esfera de gênero, De Morais, Krupezak e Garcia (2023) levantam diferentes formas como as mulheres empreendedoras são estereotipadas como inferiores em relação a homens empreendedores. Essas formas de inferioridade são: financeira, técnica e psicológica. Em relação às questões financeiras, a mulher recebe menos investimento e, portanto, tem dificuldades de expandir o negócio. Em relação às questões técnicas, são consideradas menos capacitadas ou limitadas a trabalhos relacionados a serviços ou cuidados. No campo psicológico, enfrentam restrições que fazem muitas mulheres pensarem não serem capazes ou que empreender não é para elas.
Essas são apenas algumas das barreiras que muitas mulheres passam. Outro ponto relevante é a dupla jornada de trabalho de grande parte das mulheres, que precisam trabalhar fora para garantir o complemento da renda familiar e ainda, cuidar do trabalho doméstico, bem como de seus filhos, não recebendo reconhecimento nem pelo seu emprego ou empreendimento e tampouco pelos cuidados dentro da casa (Domingos, 2021).
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) em 2022, as mulheres dedicavam 9,6 horas a mais do que os homens aos afazeres domésticos e/ou cuidado de pessoas. Na Região Nordeste obteve-se a maior diferença por sexo, sendo 18,1 p.p a mais para as mulheres (Nery & Britto, 2023).
Ainda faz-se necessário salientar a luta contra os estereótipos construídos socialmente que delimitam não apenas o espaço que podem ser ocupados pelas mulheres, mas também o quanto elas deverão receber. Siqueira e Samparo (2017) apresentam o termo “teto de cristal” ou glass ceiling, referindo-se ao número reduzido de mulheres em cargos de liderança ou com uma menor remuneração, o que nos remete à desigualdade existente no mercado de trabalho a que muitas mulheres estão submetidas sendo um dos muitos motivos que leva ela a empreender.
Além disso, Duarte e Spinelli (2019) levantam que toda vez que a mulher escolhe um caminho diferente do padrão, ela corre o risco de ser submetida a rótulos que possuem o intuito de discriminar e apontar uma suposta inferioridade social. Enfatiza-se que os estereótipos colocam homens e mulheres em diferentes categorias, o que faz com que mulheres negras enfrentem padrões atribuídos aos gêneros atrelados aos preconceitos de raça.
Negros no mercado de trabalho
De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM, 2022), a variação entre as taxas específicas 2022/2021 em %, obteve um aumento de 18% de pretos/pardos e entre brancos uma redução de 17% na taxa de empreendedorismo estabelecido, podendo-se entender que os negros obtiveram um maior sucesso em manter seus negócios ativos. É importante salientar que mesmo havendo essa variação de um ano para o outro, a taxa propriamente dita dos pretos/pardos é muito semelhante à dos brancos, com menos de um ponto percentual separando os dois grupos.
Esses dados, no entanto, quando analisados na perspectiva de Dos Santos Baia e Costa (2022, p. 82), podem ressaltar que a pessoa negra tem no empreendedorismo sua forma de sobrevivência diante da falta de oportunidade no mercado de trabalho:
É nesse ambiente de desigualdade que cresce o empreendedorismo por necessidade entre as pessoas negras, uma vez que vivem em um contexto de insegurança empregatício que as colocam em trabalhos informais, sem carteira assinada nem contratos fixos. Apesar de o empreendedorismo ser visto como um importante mecanismo de sobrevivência, faz-se relevante não romantizá-lo, quando ele se coloca como a única opção para que a maior população brasileira possa sobreviver.
O empreendedorismo negro é marcado pela dificuldade de abertura e manutenção do empreendimento, pela falta de oportunidade no mercado de trabalho e desigualdades étnicas que afetam, por exemplo, na captação de recursos financeiros para investir nas suas atividades (Oliveira et al., 2013). Porém, também ressalta-se o potencial do empreendedorismo para empoderar pessoas negras.
Como Siqueira, Nunes e De Morais (2018) afirmam, o empreendedorismo negro não é uma solução para todos os problemas discriminatórios contra a população negra brasileira, mas funciona como uma ferramenta para amenizar as desigualdades existentes entre a pessoa branca e negra, em um espaço que antes era dominado pelo homem branco, combatendo a exclusão social, permitindo que o homem e a mulher negra abracem suas identidades e empoderem-se. Os empreendedores negros estabelecem uma identidade e buscam enfrentar o racismo por meio do fortalecimento da comunidade negra, ou seja, por meio do aquilombamento (Murphy, 2022).
A mulher negra no mercado de trabalho e o empreendedorismo
Na perspectiva da mulher negra no mercado de trabalho, primeiro salienta-se que “a mulher branca nunca vivenciou a opressão racial a qual a mulher negra sempre fora submetida.” (Hooks, 1981). Silva e Souza (2017) mostram que apesar das mulheres brancas e negras sempre terem sofrido com o machismo, havia uma diferença crucial entre elas dentro da história e de casa, em que a mulher branca estava no papel de patroa e a negra no de servir, de acordo com o que lhe era ordenado, para que não fosse punida.
De Oliveira et al. (2021) corroboram que a visão que se tinha da mulher branca e da mulher negra eram e ainda são diferentes, ocasionando em distintos pontos de vista, percepções, níveis de aceitação em determinados espaços, poder que sua voz teria e o olhar sob seus corpos. Já que “somos seres moldados a partir da perspectiva daquilo que se é e aquilo que é construído socialmente. Isso, perpetuado e reproduzido por tantos anos, enraíza-se na mulher negra, que acaba incorporando em sua própria identidade esses marcadores de diferença” (De Oliveira et al., 2021).
Vale ressaltar que ao trazer as desigualdades e disparidades que a mulher negra enfrenta no mercado de trabalho, seja formal como informal, aborda-se uma pauta atual mas que possui raízes históricas (Quinto, 2023). Sendo possível observar isso através das taxas de desemprego, que correspondiam a 22,1% no 1° trimestre de 2021, sendo o dobro da marcada entre homens brancos/amarelos (10,0%) e distante da marcada por mulheres brancas/amarelas e homens negros (13,8%). Apesar de ter sido visto uma forte queda nesses valores, no 1° trimestre de 2022, ainda permanece alta em 16,3% e distante dos demais grupos demográficos, com base em microdados da PNADC/IBGE (Feijó, 2022). Outra vertente importante para esse trabalho é que a quantidade de mulheres negras em cargos de liderança ainda é muito pequena, isso pode ser visto através de um estudo feito pela Gestão Kairós que mostra que entre 900 líderes entrevistados, 25% eram mulheres e disso apenas 3% eram mulheres negras, esses dados podem ser desmotivadores para outras mulheres negras que possuem objetivos similares, revelando a falta de representatividade da mulher negra em posições de liderança (Dayrell, 2022).
O empreendedorismo feminino negro nasce da necessidade de sobrevivência, liberdade e ascensão social, mas que não se restringe à isso, buscando transpor as barreiras econômicas e atingir o social, de maneira a impactar sua comunidade, agregar valores da ancestralidade, reduzir a invisibilidade e superar “a falta de reconhecimento sobre sua própria identidade, sua ancestralidade, reforçada pelo pensamento racista e machista, que impede que as mulheres negras possam contemplar positivamente seus traços, sua estética e ocupar locais que são seus por direito.” (De Oliveira et al., 2021).
As mulheres negras empreendedores enfrentam dificuldades para legitimar sua identidade empreendedora em contextos em que o perfil de empreendedor socialmente estabelecido é o de homem branco. Assim, as mulheres buscam estabelecer suas identidades empreendedoras através de autodescrições heroicas, profissionalismo e desempenho de múltiplos papéis (Ojedira et al., 2022). Nesse desafio de legitimação, as mulheres negras muitas vezes são consideradas como vítimas ou indivíduos para quem são destinados assistencialismo e não como agentes de mudança e inovação (Schachter, 2022). A compreensão sobre gestão e empreendedorismo é construída sob uma perspectiva racista que homogeniza e inferioriza grupos raciais minorizados, construindo uma categorização hegemônica de homens brancos dominando o empreendedorismo (Garcia & Baack, 2023).
Diante desse contexto, as mulheres negras empreendedoras enfrentam dificuldades relacionadas à conciliação de trabalho, família, comunidade, acesso a recursos financeiros, desvantagens relacionadas à falta de modelo empreendedor, acesso à educação, preconceito e medo do fracasso (de Aguiar et al., 2023). Também enfrentam barreiras relacionadas às desvantagens em negociações, parcerias e captação de capital financeiro (Norman et al., 2024), dificuldades essas que podem estar conectadas à interseção de classe que afetam essas mulheres (Carvalho & Brito, 2024). Frente a esses desafios, mulheres negras desenvolvem estratégias de resistência relacionadas ao trabalho digno e empoderamento de outras mulheres (Murphy, 2023).
Procedimentos metodológicos
Para atingir o objetivo da pesquisa de analisar os desafios e os comportamentos de superação desenvolvidos pelas mulheres negras empreendedoras, empreendeu-se uma pesquisa qualitativa básica exploratória, empregando-se o método indutivo. Como Neves (1996) afirma, a preocupação ao utilizar métodos qualitativos reside no entender o processo social, visando entender o contexto, de maneira empática com o objeto de estudo, implicando em uma melhor compreensão do fenômeno observado.
Os dados da pesquisa foram coletados no período de setembro de 2023 a fevereiro de 2024. Sendo realizado através de entrevistas individuais semiestruturadas com 10 empreendedoras negras, com uma faixa etária entre 18 e 60 anos, com negócios abertos há mais 1 ano, de diferentes ramos. Para recrutar os participantes foi adotada a técnica de snowball, técnica de amostragem em que os primeiros participantes indicam outros para participarem da entrevista. A abordagem aos participantes foi por meio de redes sociais, identificando-se empreendimentos fundados por mulheres negras e enviando-se mensagem com convite. Além disso, foram solicitadas indicações de profissionais relacionados ao fomento ao empreendedorismo. Para preservar a identidade das empreendedoras, seus nomes próprios foram substituídos por nomes de mulheres negras que foram pioneiras em cultura, política e ciência. No Quadro 1, pode-se observar o perfil das entrevistadas.
| ID | Idade | Escolaridade | Área em que empreende | Tempo de atividade |
| Antonieta de Barros | 38 | Superior Completo | Mentoria de Negócios | 2 anos |
| Dandara dos Palmares | 59 | Médio Incompleto | Bolsas | 10 anos |
| Laudelina de Campos Melo | 43 | Superior Completo | Produção de roupas | 5 anos |
| Maria Firmina dos Reis | 23 | Superior Incompleto | Artesanato | 5 anos |
| Marli Pereira Soares | 53 | Superior Incompleto | Doceria artesanal | 1 ano e meio |
| Marta da Silva Vieira | 36 | Superior Completo | Acessórios | 2 anos |
| Ruth de Souza | 18 | Médio Completo | Acessórios artesanais | 2 anos |
| Carolina Maria de Jesus | 28 | Superior Completo | Portal de notícias | 4 anos |
| Teresa de Benguela | 26 | Médio Completo | Beleza capilar - Trancismo | 2 anos |
| Dete Lima | 53 | Superior Incompleto | Moda criativa sustentável | 1 ano |
As entrevistas foram gravadas após consentimento das entrevistadas, tiveram uma duração média de 30 a 60 minutos, sendo transcritas com a utilização do software Sonix.ai. As entrevistas buscaram compreender as experiências das mulheres empreendedoras, contemplando a sua trajetória empreendedora, os desafios enfrentados e as formas de superação. Elaborou-se um roteiro de entrevista semiestruturada com base na literatura pesquisada. A análise de dados foi realizada por meio da análise temática. Os temas não foram pré-definidos e emergiram a partir da codificação e análise das entrevistas.
Apresentação e análise dos resultados
Para analisar os comportamentos de superação fez-se necessário entender a realidade dessas empreendedoras e suas trajetórias, culminando na identificação das suas motivações - sendo aqui caracterizadas como as condições relacionadas ao indivíduo, ao seu contato com o ambiente e cultura, explicando o “por que queremos o que queremos” e “por quem faz o que faz”, como afirma Alves e Fonseca (2021). Em seguida, os desafios enfrentados e, por fim, os comportamentos de superação para lidar com tais adversidades.
Na Figura 1, é possível observar a estrutura de códigos derivada dos principais conceitos desenvolvidos, trazendo um panorama geral dos resultados encontrados na pesquisa.
Motivações internas e externas
Iniciando com a análise das motivações, classificou-se em motivações internas e externas, configurando-se em Internas: Propósito; Ativismo Social; Classe social/Necessidade. Externas: Luta pelo espaço; Influência da família e mentores.

Propósito
Caracteriza-se como a vontade e a visão das empreendedoras do impacto que estão causando na sociedade, em suas comunidades e para seus clientes através dos seus empreendimentos. Podendo ir desde ajudar e orientar outras empreendedoras no início para que consigam sua emancipação até a elevação da autoestima de mulheres negras através de acessórios que valorizam os traços negróides ou no impacto ao meio ambiente, como por exemplo na fala de duas empreendedoras:
“...porque empreender só faz sentido se for para contribuir. Se não, não faz sentido.” - Antonieta de Barros
“Eu acho que eu gosto da troca, sabe? De tanto de produzir, tanto essa troca comigo mesmo, que é de experiência, que é de conhecimento, que é de estudar. Quanto eu gosto de ver o resultado daquilo que eu faço nas pessoas. Sabe essa questão que eu te falei? Da autoestima, de produzir adornos em que a pessoa possa expressar a singularidade dela sem ser julgada por aquilo ou usar peças que foram criminalizadas e você poder ressignificar aquilo de forma a ser belo. Eu acho que isso para mim, no momento tem sido assim. A maior satisfação de ver essa arte perambulando por aí.” - Maria Firmina dos Reis
“Eu saber que o que eu faço não é só uma prestação de serviço, sabe? É trabalhar com algo que de fato faz parte da minha história, faz parte da minha comunidade enquanto mulher negra, né?” - Teresa de Benguela
“É isso que eu quero. Eu quero contribuir com meu planeta, eu quero contribuir com as pessoas. Eu quero receber delas o melhor que elas têm e dar o meu melhor. Eu quero me fortalecer, né?” - Dete Lima
Além disso, é possível evidenciar uma conexão com a cultura afro em seus discursos visando a valorização como algo importante para elas:
“Mas por ser uma. Uma peça diferenciada, que também dialogava com um contexto histórico, né? Não é uma peça produzida em grande escala. Tem tudo isso. Porque as peças que a gente cria, os afroempreendedores, eles têm. Bastante histórica, né? Não é uma blusa de viscose, não é só viscose, né? Ela tem. Ela traz alguma coisa, ela traz um pedaço do tecido africano. Ela conta a história daquele tecido africano. As pessoas que fazem a questão da bijuteria, né também? Então tem essa pegada. Tinha essa questão atual também, tinha a produção.” - Laudelina de Campos Melo
“É a principal motivação. Uma vez uma cliente falou assim para mim e eu estou muito feliz com esse acessório, porque eu não me via nesse lugar. Uma mulher negra que não achava o nariz dela bonito, o nariz largo, entendeu? Esses acessórios já são muito antigos dos ancestrais, entendeu mesmo? Eu só modifiquei ele para ficar um pouco mais moderno. E realmente, as pessoas têm muita dificuldade, pelo menos antigamente, né? Hoje em dia as pessoas já aceitam mais os nossos traços, né? Mas eu mesma me acho muito mais bonita de nós do que no nariz. E meus clientes também. Isso me deixa muito, muito, muito feliz mesmo ver que eu estou ajudando na autoestima das pessoas.” - Ruth de Souza
Ativismo Social
Apresenta-se como a conexão que essas mulheres possuem com movimentos sociais e causas relacionados à negritude e/ou feminismo, por exemplo, sendo possível perceber que isso possibilita ela estar conectada à outras pessoas que estão passando pela mesma luta, que entendem seus desafios e medos, acima disso, estão dispostos a pensar em soluções e alternativas em conjunto para melhorar uma situação coletiva e não apenas individual.
“A gente acompanha o impacto que a gente gera, porque assim o nosso foco é reduzir a violência doméstica, reduzir desigualdade de gênero, reduzir desigualdade de raça e ampliar a autonomia econômica de mulheres nesses quatro focos.” - Antonieta de Barros
“Essa questão da liderança comunitária e eu sempre trabalhei com grupos de mulheres e na pauta da questão das mulheres, mas também na pauta da infância, né? Então, em maioria dos meus trabalhos eles são foram voltados para a infância, para a geração de renda...” - Laudelina de Campos Melo
Além disso, percebe-se a importância do descobrir-se negra para o entendimento de muitas situações passadas ao longo da vida, bem como a diminuição do sentimento de solidão e como é possível contribuir para uma mudança de cenário.
“Daí eu passei a conhecer o mundo que para mim era um desconhecido, que era de movimentos sociais. Porque de repente você pensa mas não acho que é só você que pensa. Tem 1001 pessoas também que pensa igual a você, né? Aí entra o feminismo, que me descobri como uma mulher negra. Me descobri como uma mulher de luta. Entrei dentro da caminhada da Economia Solidária há 15 anos atrás.” - Dandara dos Palmares
“Porque eu lembro até de uma. Não sei se era um seminário, algo assim, que a Nátaly Neri, que antes da influência youtuber que ela explica que a gente não se reconhece como negro, a sociedade ensina para gente que a gente é negro. Então chegou para mim que eu era negra muito antes de eu me entender como uma pessoa negra, que as pessoas já me apontavam, já passava casos de racismo, dentre outras coisas, e eu não entendia por que que eu passava aquilo. Então eu entendi que eu era um indivíduo, né, negro a partir da sociedade. E foi a partir daí que eu comecei a entender aos poucos todo esse processo, todo esse trâmite...” - Maria Firmina dos Reis
“Outro dia eu tava até comentando com algumas amigas que eu sofria preconceito sem saber o que era preconceito... Primeiro por ser mulher. E segundo, por estar dentro de um setor de tecnologia da informação que é totalmente masculino, né? Segundo, ser uma mulher preta, periférica, sem formação, sem nível superior.” - Dete Lima
“Tipo, tipo assim como eu te disse, eu tenho um tempo muito diferente de de entender as coisas, sabe de tudo. E eu passar por uma situação hoje e sei lá, eu só ter o total discernimento sobre isso daqui a alguns meses, daqui alguns anos, quiçá.” - Teresa de Benguela
Também pode-se observar os efeitos do distanciamento com os movimentos e causas sociais, como o desânimo e desmotivação advindos do sentimento de estar lutando só uma batalha muito maior, como relata uma delas:
“Como pessoa negra, eu me sinto muito, às vezes até sufocada assim, de ver que. Às vezes eu não de. De saber que eu não vou conseguir. Não porque eu não tenha capacidade de nada, mas. Aí é muito mais difícil, né? Difícil. Cinco vezes mais, né? Tanto pelo fato. Pela questão de conseguir, não de publicidade, mas. De conseguir chegar em algum em algum lugar que não é uma linha reta. Quanto pela questão de acreditar mesmo. Às vezes eu não tô acreditando.” - Marta da Silva Vieira
É importante salientar que 8 das 10 empreendedoras apresentaram a visão de conexão do seu negócio com seu propósito e o ativismo social, evidenciando uma maior motivação e ânimo diante das adversidades.
Classe Social/Necessidade
Uma característica que pôde ser observada na jornada de algumas empreendedoras foi o empreendedorismo por necessidade, sendo marcado por um início muito precoce na vida delas, visando contribuir com as despesas da casa ou ter seu próprio dinheiro, como algumas falas exemplificam:
“Mas com 15 anos eu realmente comecei a contribuir financeiramente com a casa, né? Porque só a renda da minha mãe não dava, ela ganhava muito pouquinho.” - Antonieta de Barros
“Então, com 16 anos eu comecei a trabalhar, fui procurar a minha independência, né? Justamente por não achar justo só uma pessoa ter encarregado de cuidar de sete filhos.” - Dandara dos Palmares
“Pode ser, né? E aí quando eu consegui entrar eu pensei em ter um negócio. Eu já fazia bijuteria desde a adolescência, da miçanga para vender na escola e tal.” - Marta da Silva Vieira
“Eu trabalho desde muito nova, mas por incrível que pareça, o mercado é tão doido.” - Teresa de Benguela
“E eu comecei a empreender desde muito nova. Eu vendia dindin porque eu queria dinheiro. Eu acho que eu tinha dez anos, eu vendia dindin, eu queria dinheiro para poder comprar perfume, maquiagem, essas coisas.” - Ruth de Souza
Luta pelo espaço
Um fator que apresentou-se de maneira forte na fala de algumas empreendedoras foi a questão da luta para ocupar e se manter em determinados espaços, sendo evidenciado uma solidão por ser a única pessoa negra em muitos desses cenários.
“foi muito difícil, porque eu não cabia naquele espaço. Aquele espaço não era para mim. Mas eu sou teimosa e ainda assim, apesar de eu não caber naquele espaço, sofri” - Antonieta de Barros
“E eu era a única pessoa negra da história, né? Então, quando eu cheguei numa reunião com a gestão, as pessoas se referiram à advogada do projeto que ela era a mulher branca e não a mim, que acho que sempre tem esse, esse, essa relação, né? Que quem é que né? Quem é que tá no poder? Não, não, essa com certeza não. Ela não tem. Ela não tem perfil de liderança. Liderança é a pessoa branca, a mulher branca, maquiada.” - Laudelina de Campos Melo
“Mas foram diversos os desafios, principalmente ocupar locais elitizados, né? Hoje em dia, tipo, tem muitas feirinhas assim nesses espaços culturais e existe uma concorrência e uma rivalidade muito grande nesse mercado. E a maior parte da galera que atua que eu conheço nesse ramo são pessoas bem privilegiadas. Então, chegar lá já é uma burocracia gigantesca e estar lá é mais ainda, porque a forma como é que eu posso dizer da manutenção da branquitude faz com que a gente não se sinta merecedor de estar nesses locais.” - Maria Firmina dos Reis
“eu sei em determinados locais o que eu tenho que usar e tudo, mas a gente se torna invisível em determinados locais por conta da cor mesmo, né?” - Dandara dos Palmares
Ainda faz-se necessário trazer a luz a existência de uma disparidade entre a comunidade negra nordestina e a do sul e sudeste citada por uma das entrevistadas.
“Essa galera do black twitter do Brasil era uma galera assim negra, mas negra do sul e sudeste e muitas vezes a gente tentava comentar nas discussões, nas threads que eles faziam, mas a gente não era ouvido, essas pessoas ignoravam a gente, sabe, a gente se sentia assim, ignorados, a gente, nós negros nordestino.” - Carolina Maria de Jesus
Um ponto que veio à tona foi um olhar mais voltado para a criação de novos espaços que possam as acomodar em vez de tentarem se encaixar ao do outro.
“Eu acho que cria-se um imaginário de que pessoas negras elas tem que ocupar todos os espaços. Eu, em contrapartida, hoje em dia já penso diferente. Eu creio que nós, pessoas negras, a gente tem que criar os nossos espaços, sabe? Porque não adianta a gente querer estar dentro de espaços que são embranquecidos, que a gente já entende que dentro daquele espaço, por mais que a gente se insira lá dentro, o processo de manutenção para se instalar ele custa muito caro.” - Maria Firmina dos Reis
“Hoje eu procuro não não pensar mais muito nessas coisas assim é porque é uma questão de espaço, de você demarcar o seu espaço dentro dessa sociedade machista, patriarcal, preconceituosa, que já vem de berço dentro das pessoas. Porque a pessoa tem uma pele escura, não tem condição de ter de entrar numa loja, participar de um evento. Somos. Somos realmente invisíveis para muitas pessoas? Somos sim.” - Dandara dos Palmares
Influência da família e mentores
Refere-se ao acesso a exemplos de empreendedores dentro da família, ao contato por meio dos familiares, a forma de produção, bem como o incentivo e apoio que receberam deles no seu negócio.
“Só que desde pequeno eu tive muito contato com o empreendedorismo. A minha mãe, ela sempre gostou muito de empreender. Ela fazia bolos em casa, dindins para vender quando eu era criança. E aí eu fui crescendo, vendo ela fazer aquilo.” - Maria Firmina dos Reis
“Minha mãe é uma artista, ela pintava, desenhava, costurava. Tudo ela aproveitava. Essa coisa do aproveitamento era muito forte nela.” - Dete Lima
"Então eu peguei o exemplo dessas pessoas que me mostraram que tipo, você não precisa só do mercado convencional, você não precisa ter um patrão para você ter um trabalho e para você conseguir renda. Então foi basicamente nisso que elas me influenciaram." - Teresa de Benguela
“Eu vi minha mãe fazendo artesanato, né? Tanto minha mãe como tia, minha vó. Minha vó fazia tricô e minha tia fazia tricô, como fazia também crochê. E aí minha mãe começou a fazer crochê também. E aí a gente. Aí eu vi elas fazendo. Elas faziam diariamente. Faziam juntas ali na calçada. Eu sou canhota e minha mãe nunca quis me ensinar. Ela achava que eu não ia aprender. E minha tia também não. A minha tia não sabia me ensinar a ser canhota. E aí eu tive a curiosidade de aprender e comecei a fazer sozinha. Eu pegava o restinho de linha e ia fazendo ali a alguma roupa, alguma coisa, juntando os restos de linha.” - Marta da Silva Vieira
“Então, eu. Eu tenho um envolvimento com a militância dos movimentos populares desde que eu me entendo de gente, porque a minha mãe era uma liderança comunitária.” - Laudelina de Campos Melo
Já pelo olhar dos mentores, atribui-se uma forma de pensar em momentos de conflito, fornecendo orientações capazes de contribuir substancialmente para a história dessas mulheres. Apenas duas empreendedoras fizeram menção a influências dessas pessoas, mas é importante mencionar pois elas ocupam um espaço de influência através de lugares de liderança em coletivos ou impactando outras mulheres a empreenderem, sendo responsáveis por um impacto em grande escala.
“Aí essa professora chegou… você ganhou uma oportunidade. E essa oportunidade assim, um cavalo branco. Toda vida que uma oportunidade passar na sua frente, nem que seja pendurada. Pelo pé ou pelo cabresto. O pé enganchado no cabresto do cavalo branco sendo arrastada por quilômetros. Mas você não desgruda desse cavalo branco. Você vai até o fim com ele. Ela quis dizer a questão de nunca, jamais eu deixar nenhuma oportunidade que passasse na minha frente passar, porque ela se chegou até você é porque era para você. Deixar passar não é sabedoria.” - Antonieta de Barros
Análise dos resultados da dimensão motivações internas e externas
Os resultados corroboram com a perspectiva de que as empreendedoras negras são motivadas principalmente a iniciarem seus negócios por necessidade, evidência destacada por Dos Santos Baia e Costa (2022), que ressalta a necessidade de sobrevivência e de renda que leva a pessoa negra a empreender. Para as empreendedoras negras, há também um impacto na dupla jornada de trabalho, confirme aponta Domingos (2021), característica que afeta as mulheres por conciliarem atividades profissionais empreendedoras e atividades domésticas, manutenção da casa e cuidado com a família. Assim, corrobora-se com Alves e Fonseca (2021) que a motivação da mulher negra empreendedora diferencia-se da visão clássica schumpeteriana do empreendedorismo.
Evidencia-se que as motivações para empreender também estão relacionadas à busca pelo fortalecimento da comunidade negra, à identificação com o propósito de contribuir para que mulheres negras sejam empoderadas e que a identidade negra seja fortalecida. Essa evidência relaciona-se com a perspectiva de De Oliveira et al. (2021) de que o apagamento histórico da identidade negra possa ser um propulsor para a motivação empreendedora das mulheres de superarem essa barreira social.
Desafios
Quanto aos principais desafios vivenciados tanto durante o início do negócio quanto atualmente, foi possível observar quatro categorias principais, sendo: Falta de oportunidade no mercado de trabalho; Captação de recursos; Administração; Precificação.
Falta de oportunidade no mercado de trabalho
Como foi exposto anteriormente, o empreendedorismo feminino negro é marcado pela necessidade e não pela oportunidade, o empreender da mulher negra vem do desemprego, do precisar encontrar alguma renda para prover para ela e sua família. Sendo que cinco relataram essa dificuldade de encontrar emprego ou estágios em suas áreas, levando-as a pensar em formas criativas de resolver o problema.
“Eu tenho necessidade. Eu não tenho outro trabalho. Eu não consigo carteira assinada, não tem. Então a gente vai vivenciando essa dificuldade.” - Laudelina de Campos Melo
“Só que eu só decidi começar a empreender quando tava na época da pandemia que eu me vi desempregada. E aí eu tava precisando de dinheiro, não sabia o que fazer, a gente não tava podendo sair de casa.” - Maria Firmina dos Reis
“Tá precisando e amanhã que vai continuar precisando. Só que hoje em dia. É por essa necessidade de tipo assim tem que fazer dar certo, tem que fazer dar certo, tem que fazer dar certo.” - Teresa de Benguela
“Não consegui estágio, não consegui trabalho em outra área. E aí eu pensei em ter um negócio próprio para que, quando eu me formasse, não entrar na fila do desemprego, né?” - Marta da Silva Vieira
“E eu tive que usar mais uma vez a minha criatividade, porque eu mandava currículo todos os dias eu me levantava para fazer muitos currículos e ia atrás de trabalho e não era chamada. E meu currículo era bom e meu currículo era bom. Eu comecei a estagiar extra curricular desde o começo da faculdade que eu já sabia que eu precisava de estágio extra curricular para ter experiência. Eu tinha as melhores recomendações dos professores, eu tinha pesquisa Até que um dia Deus revelou no meu coração assim tira a tua foto. E eu tirei minha foto. Fiz uma nova leva de currículos, já com seis meses, formada, sem conseguir nada. E aí eu fiz uma leva de currículo sem minha foto e voltei. Todos os hospitais e clínicas que eu já tinha passado, deixando meu currículo. E pasmem, eu deixei os currículos na quinta. Na sexta eu fui chamada para 11 entrevistas.” - Antonieta de Barros
Captação de Recurso
Por causa desse início turbulento, muitas acabam começando sem preparo e sem o capital de giro necessário, que muitas vezes o empreendimento é desenvolvido na informalidade.
“Então o que mais dificultou foi a questão do acesso ao capital de giro… A gente acordou que cada um entraria com o que tinha e os serviços que a gente costurava.” - Laudelina de Campos Melo
“Tive que ir enxugando a equipe, porque eu vi que não ia ter condição de pagar todo mundo ou de ter tanta gente trabalhando para mim ao mesmo tempo.” - Carolina Maria de Jesus
“Essa questão do apoio financeiro sabe que o empreendedor não tem. Eu acho que é um gargalo mesmo. Porque o microempreendedor, ele ou ele entra numa linha de crédito e pouquinho pra ficar pagando as mensalidades sozinha e daqui a pouco entra outra linha de crédito para poder se mantendo.” - Dete Lima
“Então, assim, os perrengues mesmo, os problemas que acontecem, é a questão de financiamento, que é complicado a gente ter financiamento que possa nos proporcionar assim um ambiente legal no ateliê, né? Ainda não tô nessa, ainda não tô nessa vibe, mas vou conseguir.” - Dandara dos Palmares
“A parte mais difícil eu acho que foi o dinheiro para investir, que foi muito difícil de eu conseguir.” - Ruth de Souza
“Não tem acesso a Crédito, né? Geralmente quem vai começar ganha dinheiro emprestado de alguém ou até o próprio banco, né? E quando eu comecei, eu fui pensando em alternativas que eu pudesse começar de onde eu estava, com o que eu tinha.” - Marta da Silva Vieira
Administração
Apresenta-se como uma dificuldade em lidar com a gestão do seu negócio, advinda da falta de preparo que o início acaba não proporcionando, e também como lidar com as múltiplas jornadas de trabalho que a mulher enfrenta enquanto chefe de família e empreendedora.
“Eu sabia o que eu queria fazer, mas eu não sabia nada com dinheiro, nada de gestão, nada de administração.” - Antonieta de Barros
“Não é só acessar o crédito, é também como gerenciar isso. E isso é o que se pega. Porque quando você, mulher periférica, mãe de cinco filhos, está empreendendo e está, não está fazendo renda, mas tem aquele recurso ali que você conseguir. Com financiamento, você vai gastar.” - Laudelina de Campos Melo
“Fiz a faculdade e ela foi muito ensinada, a gente é muito ensinado a ser empregado e não empregador, a gente é muito ensinado a isso, trabalhar com redação seja impressa, seja TV, seja rádio ou assessoria ou comunicação empresarial e ponto. E não lançar seu próprio podcast, lançar seu site e como monetizar isso, a gente não, eu tinha essas disciplinas na época…” - Carolina Maria de Jesus
“A parte mais difícil é administrar. E o empreendedor? O artesão, principalmente, é a parte de administrar, porque quando, por exemplo, um empresário ele vai abrir uma loja, mas aí ele contrata um gerente, ele contrata um vendedor. Ele contrata o comprador tem cada pessoa. E nós. Principalmente nós, mulheres que cuidamos da casa, cuidamos dos filhos. Então é muita coisa.” - Marli Pereira Soares
Precificação
Caracteriza-se como um medo de impor uma precificação - vista como justa e adequada ao mercado considerando a qualidade do seu trabalho, dos materiais e o tempo despendido na criação do produto e serviço - levando os clientes a deixarem de consumir, bem como pode-se observar resquícios da influência da baixa autoestima sobre o se sentir merecedora.
“Assim como às vezes eu faço um produto como esse e eu achar que esse produto aqui não vale nem 10 reais, ninguém vai comprar isso. Aí vem uma pessoa dizer isso é tudo isso que é maravilhoso. Isso aqui é 200 reais. Tem certeza? Eu acho que tem, eu tenho certeza, 200 reais... . Porque eu já entendi que é uma barreira minha.” - Marta da Silva Vieira
“E a minha autoestima era muito baixa, então eu tinha muito medo de as pessoas não comprarem ou de aumentar o preço e as pessoas não quererem não querer comprar mais, entendeu? De não dar certo?” - Ruth de Souza
“Não ter medo de precificar, que às vezes a gente fica com medo de precificar. Mãe, o seu produto é bom. A senhora só usa matéria prima de boa qualidade. A senhora é caprichosa.” - Marli Pereira Soares
Análise dos resultados da dimensão desafios
Os resultados evidenciam a falta de oportunidade no mercado de trabalho que as mulheres negras enfrentam, conforme destacado por Siqueira e Samparo (2017) e Duarte e Spinelli (2019). Diante das desigualdades, as mulheres enfrentam desafios profissionais que afetam seu comportamento empreendedor. Os desafios enfrentados corroboram com a perspectiva de De Morais et al. (2023) de que as mulheres negras sofrem estereótipos advindos das perspectivas financeira, técnica e psicológica, que retratam os desafios de falta de recursos financeiros e investimentos, pouco acesso à formação e conhecimento de gestão, e baixa autoestima relacionada à preconceitos e estereótipos que implicam em limites para o potencial desenvolvimento dos negócios.
Os resultados corroboram que as mulheres negras empreendedoras enfrentam desafios relacionados ao acesso a recursos financeiros, desvantagens relacionadas à falta de modelo empreendedor, acesso à educação, preconceito e medo do fracasso (de Aguiar et al., 2023). Também enfrentam barreiras relacionadas às desvantagens em negociações, parcerias e captação de capital financeiro (Norman et al., 2024), evidenciando os desafios provenientes da intersecção entre gênero e raça (Carvalho & Brito, 2024).
Comportamentos de superação
Os comportamentos mapeados representam as formas utilizadas pelas empreendedoras para enfrentar os diversos desafios que perpassam sua trajetória, sendo identificados no discurso delas e agrupados em categorias que permitam uma interpretação alinhada às falas relatadas, como Sororidade; Aquilombamento; Resiliência; Aprendizado contínuo.
Sororidade
De acordo com a Academia Brasileira de Letras (2023), sororidade é definido como sendo: “Sentimento de irmandade, empatia e união entre as mulheres, por compartilharem uma identidade de gênero; conduta ou atitude que reflete este sentimento, especialmente em oposição a todas as formas de exclusão, opressão e violência contra as mulheres.” Foi através dessa interpretação que definiu-se essa categoria, relacionando o vínculo existente entre mulheres e refletindo no apoio que estas receberam.
“Quem me ajudou foi uma mulher que me deu a mão, foi uma mulher. E tudo que foi acontecendo depois disso, as mulheres entendiam a dor que eu tava passando, porque talvez em algum momento elas também já tinham passado aquela dor. A maioria das mulheres sofrem violência.” - Antonieta de Barros
“Então a gente está dentro de loja, é enfrentamento todo dia, é mostrar o nosso trabalho, é o enfrentamento de ter onde colocar até fazer essas parcerias, é enfrentamento. Então, assim eu faço os meus enfrentamentos e vou. Vou aprendendo com as meninas também, né? Porque ninguém solta a mão de ninguém, porque a gente vai aprendendo também, né? Todo dia. E eu acredito que seja um enfrentamento que eu, eu queria lhe dizer que seja isso.” - Dandara dos Palmares
“O fato de cuidar dessas pessoas era uma forma de automaticamente também estar me cuidando, porque o recorte de pessoas que procuram pelo meu trabalho são mulheres, a grande maioria também adoecidas por várias questões e tal. Então, tipo assim, ouvir também a história delas e fortificar cada vez mais o meu entendimento, sabe? … Então eu acho que o fato de ouvir muito relatos, histórias, ser atravessada por várias pessoas que dividiam também a vida delas e tal, me ajudou a superar as minhas próprias questões, me ajudou a superar as minhas próprias dores.” - Teresa de Benguela
“Uma amiga minha assim diz, a gente vai se apoiando no sonho das pessoas brancas, você vai se juntando com um. Aqui, outro acolá e a pessoa diz vai, vai dar certo, você será, você vai se acreditar. Porque você sabe que a sua insegurança é uma coisa da sua cabeça, que a outra pessoa tá dizendo que vai dar certo também. Se ela for branca é porque vai dar certo mesmo, né? Mesmo que ela tenha bem menos experiência, bem menos cabeça, faz a gente repensar, né? E essa questão do sonho? Eu parei de sonhar.” - Marta da Silva Vieira
Aquilombamento
O ato de aquilombar refere-se à reunião e união de pessoas negras, de maneira a pensar em alternativas e soluções juntos, bem como enfrentar os desafios, diminuindo o sentimento de solidão e de impotência frente a preconceitos estruturais dentro da sociedade. A partir das falas, foi possível observar que essa movimentação trazia ânimo e motivação em momentos de cansaço mental, além do entendimento que essa é uma luta coletiva e não individual.
“Eu sei, eu sei, eu acho que tá no coletivo, eu acho assim. Eu acho que isso ajuda a você. Quando você tá isolado você, você não consegue perceber, né? A sua potência, né? O quanto você pode. Então, acho que o que hoje, que o que me fortalece aqui, né? E a gente tá em coletivo.” - Laudelina de Campos Melo
“Se a gente não se juntar como a gente já vem na estrada com a economia do negro, fazendo os enfrentamentos, convidando as pessoas para participar, fazendo esse entendimento também que tem que a gente também, que não, não entende essa luta, né? E que acha que é tudo muito fácil. E não é. Tem que ter sim o coletivo para a gente se apoiar umas às outras.” - Dandara dos Palmares
“Mapeando essas pessoas para trazer elas pro projeto porque eu precisava de repórter da Bahia, né... para falar de Salvador, para falar da Bahia, de outros lugares da Bahia, precisava de repórter em Pernambuco, para falar de Recife, Olinda e por aí vai, então foi aí que a gente foi conhecendo as pessoas e se aquilombando, digamos assim, como se fosse uma espécie de aquilombamento digital né.” - Carolina Maria de Jesus
“...que seria estar me inserindo com as pessoas que eu considero que são meus iguais, em locais que eu sei que as pessoas que estão ocupando ali elas entendem as minhas dores, elas entendem os meus desafios cotidianos. Por isso que quando eu falo muito dessas potências que eu acompanho, dessas pessoas que estão fazendo moda, principalmente aqui em Fortaleza, são pessoas que eu pego como referência porque têm vivências parecidas com a minha. Porque eu entendo que os desafios eles sempre vão estar lá. Eu só escolho qual deles eu vou investir a minha energia e a minha saúde para tentar acabar com eles de alguma forma.” - Maria Firmina dos Reis
Resiliência
Essa categoria considera uma forma de pensar e visão de mundo muito semelhante percebido nas falas de cinco das empreendedoras, que mostravam a necessidade de olhar o lado positivo das situações, sempre buscando tirar o melhor de cada cenário e acreditar nas suas capacidades.
“E como é que eu posso usar a palavra não é nem perseverar, é acreditar. Acreditar no seu produto, o principal, aquele meu filho sempre diz mãe, a gente tem que acreditar no nosso produto. A gente tem que fazer um produto...” - Marli Pereira Soares
“Saí de lá e desmistificar essa crença que a gente leva para a vida, que a gente só pode ser potência, só pode ser pessoas bem sucedidas se a gente fazer faculdade e for para o mercado de trabalho. Então, tipo, para algumas pessoas isso seria fracasso. Para mim foi uma ressignificação daquilo que eu queria para minha vida. Então, eu acho que, tipo assim, não tem como ser fracasso. Eu só quero redirecionar minha vida para aquilo que eu sei que vai me fazer bem, aquilo que eu quero fazer naquele momento perfeito.” - Maria Firmina dos Reis
“Dos processos, dos obstáculos. E eu digo caramba, eles querem me ouvir. Então, a minha história é importante, ninguém pode dizer que ela não é. E eu não vou deixar ninguém dizer que ela não é. Eu construí ela, né? Eu construí ela. Então ela é muito importante pra que outras pessoas também entendam. E quando você tá achando que é o fim, não é o fim. É você que vai determinar que é o começo de algo que você tem que fazer, que você ama.” - Dete Lima
“Mas era. Mas foi isso também. E muita coisa envolvida, muitos perrengues que a gente passa e vai caminhando, né? Vai, vai sabendo caminhar, vai aprendendo, né? E tudo é um aprendizado, né? Você vai aprendendo. Passei por muitos perrengues.” - Dandara dos Palmares
“Ele contava a história de uma menina que tinha acontecido toda a desgraça do meio do universo com ela. E para ela conseguir sair daquilo. Ali ela jogava o jogo do contente. De tudo de ruim que acontecia com ela. Ela olhava e criava o que poderia sair de bom a partir daquilo que era ruim. E ela me ensinou a jogar o jogo do Contente. Com a leitura daquele livro. E eu decidi que daquele dia em diante eu ia jogar o jogo do Contente. E eu jogo até hoje o jogo do contente. É saber tirar a lição positiva que cada situação difícil da sua vida lhe apresenta. E eu faço isso até hoje.” - Antonieta de Barros
Aprendizado contínuo
Por fim, destaca-se que cinco das entrevistadas relataram ser essencial estar sempre buscando aprender com cada dificuldade, se atualizar das demandas mercadológicas, bem como da qualidade e procedência dos seus materiais. Objetivando esse aprendizado contínuo em todas as fases e cenários.
“Até mesmo porque quando você parte para ter um negócio próprio, onde você vive, do que você faz, você tem que se atualizar. Não adianta, não adianta. A internet veio para ficar, as vendas online vieram para ficar. Você tem que estar antenada, você tem que estar por dentro de muitas coisas, né?” - Dandara dos Palmares
“Hoje, participando desses, dessas formações, dessas capacitações, eu vi também o quanto é importante a gente ter educação financeira na escola, sabe? ... E aí eu fui aprender também educação financeira, como lidar com dinheiro, como fazer venda, como e como chegar na minha hora de trabalho, como é que é minha hora trabalhada? Como é que eu chego nisso? Como é que é o preço do meu produto final que é lucro, né? O que é a aplicação financeira? O que é?” - Dete Lima
“Eu sou essa pessoa porque já fiz várias, vários investimentos em relação a estar me qualificando mesmo e em todas as em todas as áreas que eu busco, né? Essa qualificação o discurso é o mesmo, né?” - Teresa de Benguela
“Porque não é fácil. Não é toda porta que abre. Não, não é todo lugar que a gente consegue chegar, sabe? E o pessoal diz assim: Ah, é um leão por dia? Não, meu amor, é um dinossauro por dia, sabe? Mas eu sempre: Perseverança e perseverança. Tem que perseverar. E assim é procurar estudar, né?” - Marli Pereira Soares
“E eram coisas que eu estudava, que eu trabalhava e que eu precisava toda hora estar afirmando que eu era capaz de estar ali, que eu entendia do que eu estava falando e eu entendia de onde vinha o material, a obra prima para poder fazer aquelas peças. Mas aconteceu diversas vezes assim.” - Maria Firmina dos Reis
Análise dos resultados da dimensão comportamentos de superação
Os comportamentos de superação identificados passam pelo suporte de relações sociais e pela busca do autodesenvolvimento. Quanto ao suporte social, as mulheres negras empreendedoras encontram apoio em outras mulheres e em pessoas negras. Essa evidência corrobora com a perspectiva de Murphy (2022) de que para enfrentar o racismo, busca-se o fortalecimento da comunidade negra por meio do aquilombamento.
Quanto ao autodesenvolvimento, ressalta-se a resiliência e aprendizado contínuo como comportamentos de superação identificados nas mulheres negras empreendedoras, ressaltando que a perspectiva de Ojedira et al. (2022) de que autodescrições heroicas e profissionalismo são formas de fortalecimento da identidade da empreendedora negra. As mulheres negras desenvolvem estratégias de resistência por meio do trabalho e do empoderamento de outras mulheres, conforme ressaltado por Murphy (2023) e evidenciado nesse estudo.
Discussão
Diante dos resultados obtidos, observa-se que o início dos empreendimentos dessas mulheres, assim como Dos Santos Baia e Costa (2022) afirmam sobre o empreendedorismo feminino negro, tem suas bases na necessidade, porém com relevante anseio de impactar sua comunidade. O empreendedorismo surge como uma forma de emancipação diante da falta de oportunidades no mercado de trabalho relacionada à intersecção raça, gênero e classe que marginaliza as mulheres. Além disso, a motivação advinda da forte identificação comunitária, ativismo social das mulheres negras e construção de capital social apontam como um direcionador para o empreendedorismo feminino negro.
Os principais desafios obtidos corroboram com aqueles encontrados por Oliveira et al. (2013), de Aguiar et al. (2023) e Norman et al. (2024), salientando a falta de oportunidade e dificuldade na captação de recursos demonstrando um recorte da realidade enfrentada. Também pode-se perceber que muitas passaram por situações de despreparo devido ao começo abrupto, o que não as impediu de prosseguir e buscar sempre se especializar. Os desafios relacionados à baixa autoestima advinda da discriminação e da não valorização da sua trajetória profissional pela sociedade colocam as mulheres negras em situações de desvantagem em negociações estratégicas para fortalecimento do negócio.
Os comportamentos de superação apontam para a irmandade que sustenta a comunidade de mulheres negras ao identificarem-se com as adversidades relacionadas aos marcadores de gênero e raça. Esses comportamentos corroboram com estudos que pontuaram estratégias de superação empreendedora (Murphy, 2022; Norman et al., 2024). É importante salientar a importância de se estar em comunidade frente aos desafios estruturais enfrentados, como forma de diminuir o desânimo e o sentimento de impotência, considerando que dois comportamentos de superação relacionam-se ao apoio que um coletivo traz, bem como a busca por aprendizados, de maneira a se preparar para cada situação. Além disso, enfatiza-se a relevância que a resiliência representa para essas mulheres frente ao que está fora do seu controle. Os comportamentos identificados de resiliência e aprendizado contínuo corroboram com a busca por legitimidade das empreendedoras negras frente a um ambiente empreendedor predominantemente masculino e branco (Ojediran et al., 2022).
Considerações finais
O objetivo desta pesquisa foi analisar como as empreendedoras negras enfrentam e superam os desafios na sua trajetória empreendedora, refletindo sobre o impacto da intersecção de raça e gênero, conceitos sociais que perpassam sua realidade e que representam perspectivas diferentes. Dessa forma, nessa construção, discutiu-se as adversidades que a população negra e feminina enfrenta no mercado de trabalho, como isso molda a realidade da mulher negra e como o empreendedorismo se torna uma ferramenta de sustentação financeira advinda da necessidade.
Evidenciou-se que o empreendedorismo feminino negro possui suas raízes fundamentadas, principalmente na necessidade advindas da falta de oportunidade o mercado de trabalho, mas que o senso de propósito e o ativismo social que desenvolvem refletem-se na sua motivação e ânimo frente aos desafios - como o receio de precificar seus produtos, dificuldades no acesso ao crédito e de administração de seus negócios - e luta para ocupar e criar espaços que possam recebê-las. Dessa maneira, foi possível chegar à sororidade, aquilombamento, resiliência e o aprendizado contínuo como comportamentos de superação de maneira a reduzir a invisibilidade e possibilitar a mobilidade social destas.
Essa pesquisa apresenta contribuições para a literatura sobre empreendedorismo feminino negro. A primeira contribuição é avançar nos estudos que salientam os desafios para as mulheres negras empreenderem, acrescentando-se os comportamentos de superação desenvolvidos para que os desafios sejam superados. Assim, contribui-se propondo-se quatro comportamentos de superação, denominados de sororidade, aquilombamento, resiliência e o aprendizado contínuo. O estudo contribui para o avanço dos estudos sobre o tema, visto que o empreendedorismo de minorias sociais é um tema ainda pouco explorado na literatura e que demanda novas formas de interpretação da literatura do empreendedorismo para lidar com as principais questões vividas pelos empreendedores de grupos socialmente marginalizados.
Quanto às implicações da pesquisa, destaca-se que este estudo fornece evidências para o desenvolvimento de estratégias de apoio e capacitação dentro do ecossistema empreendedor. Compreender como as mulheres negras empreendedoras lidam com desafios e desenvolvem comportamentos de superação pode ajudar a informar políticas públicas, programas de mentoria e iniciativas mais inclusivas e sensíveis às suas necessidades. As implicações desse estudo envolvem contribuir para a promoção da diversidade, equidade e inclusão no empreendedorismo, evidenciando a importância de se criar ambientes mais inclusivos e igualitários para as mulheres negras empreendedoras prosperarem.
É importante trazer à luz algumas limitações desta pesquisa como uma definição ampla de tipos de negócios e mais restrita em termos regionais. Porém, salienta-se que a realidade da mulher negra empreendedora ao enfrentar o racismo e sexismo tem se apresentado de maneira semelhante nas pesquisas realizadas no Brasil e em outros países. As oportunidades para estudos futuros avançarem nessa temática é aprofundar nos mecanismos de desenvolvimento de cada um dos comportamentos de superação, desenvolvendo-se como a formação de coletivos de empreendedoras negras contribuem para o crescimento de negócios de mulheres negras. Sugere-se ampliar o estudo analisando-se como os programas especiais de incubação e de aceleração de negócios de mulheres negras contribuem para o desenvolvimento de comportamentos de superação. Por fim, sugere-se que estudos futuros abordem a formulação de estratégias para o avanço do empreendedorismo feminino negro tanto na esfera pública como nos ambientes de apoio ao empreendedorismo e nos ecossistemas empreendedores.
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