Artículos científicos

O impacto das infecções urinárias recorrentes na qualidade de vida de mulheres em atendimento ambulatorial no Brasil

The impact of recurring urinary infections on the quality of life of women in outpatient care in Brazil

El impacto de las infecciones urinarias recurrentes en la calidad de vida de mujeres en atención ambulatoria en Brasil

Luciano Garcia Lourenção
Universidade Federal do Rio Grande, Brasil
Jacqueline Flores de Oliveira
Universidade Federal do Rio Grande, Brasil
José Carlos Carraro-Eduardo
Universidade Federal Fluminense, Brasil
Giovani Machado Homem
Universidade Federal Fluminense, Brasil
Carlos Augusto Faria
Universidade Federal Fluminense, Brasil

O impacto das infecções urinárias recorrentes na qualidade de vida de mulheres em atendimento ambulatorial no Brasil

Población y Salud en Mesoamérica, vol. 21, núm. 2, 2024

Universidad de Costa Rica

Recepción: 22 Noviembre 2022

Corregido: 05 Octubre 2023

Aprobación: 10 Octubre 2023

Resumo: Objetivo: Avaliar o impacto das infecções recorrentes do trato urinário na qualidade de vida de mulheres com infecções recorrentes, em atendimento ambulatorial. Método: Estudo observacional, descritivo e analítico, realizado com 98 mulheres atendidas em ambulatório de um hospital público de ensino da cidade de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil, sendo 49 mulheres com infecções recorrentes de trato urinário, confirmadas pela cultura de urina, sem complicações e 49 mulheres sem infecções recorrentes de trato urinário, pareadas por idade. A qualidade de vida foi avaliada utilizando a versão brasileira do questionário abreviado da Organização Mundial de Saúde, o WHOQOL-Bref. Resultados: Mulheres com infecções do trato urinário apresentaram maior comprometimento da qualidade de vida nos domínios físico (p = 0,007) e psicológico (p = 0,038), e demonstraram maior escore de qualidade de vida na auto avaliação (p = 0,002), quando comparadas ao grupo controle. As mulheres com infecção urinária recorrente apresentaram escores médios significativamente menores do que o grupo controle nas facetas Energia e fadiga (p = 0,003), Sentimentos positivos (p = 0,014), Autoestima (p = 0,040), Dependência de medicação (p = 0,029), Sentimentos negativos (p = 0,023) e Recreação e lazer (p = 0,041). Conclusão: As infecções recorrentes do trato urinário causam impacto na qualidade de vida das mulheres, principalmente nos domínios Físico e Psicológico, representando um problema significativo para as mulheres, para os profissionais de saúde e para o sistema de saúde.

Palavras-chave: Infecções Urinárias, Qualidade de Vida, Saúde da Mulher, Controle de Infecções.

Abstract: Objective: To evaluate the impact of recurring urinary infections on the quality of life of women in outpatient care. Method: Observational, descriptive, and analytical study with 98 women attended in the outpatient clinic of a public teaching hospital in Niterói, Rio de Janeiro, Brazil. 49 of these women had recurring urinary infections, confirmed by urine cultures, with no complications; 49 had no recurring urinary infections, and the two groups were matched for age. Quality of life was evaluated using the Brazilian version of the World Health Organization's abbreviated questionnaire WHOQOL-Bref. Results: The quality of life of women with urinary tract infections was more compromised in the physical (p = 0.007) and psychological (p = 0.038) domains. These women also presented a lower self-assessment of quality of life (p = 0.002) when compared to the control group. Women with recurring urinary infections presented significantly lower mean scores than the control group in the facets Energy and fatigue (p = 0.003), Positive Feelings (p = 0.014), Self-esteem (p = 0.040), Dependence on medicinal substances (p = 0.029), Negative Feelings (p = 0.023), and Recreation/leisure activities (p = 0.041). Conclusion: Recurring urinary tract infections have an impact on the quality of life of women, especially in the Physical and Psychological domains, being a significant problem for women, health workers, and the health system as a whole.

Keywords: Urinary Tract Infections, Quality of Life, Women's Health, Infection Control.

Resumen: Objetivo: Evaluar el impacto de las infecciones recurrentes del tracto urinario en la calidad de vida de las mujeres con infecciones recurrentes en atención ambulatoria. Método: Estudio observacional, descriptivo y analítico realizado con 98 mujeres atendidas en un consultorio externo de un hospital público de enseñanza de la ciudad de Niterói, Río de Janeiro, Brasil, comprendiendo 49 mujeres con infecciones urinarias recurrentes confirmadas por urocultivo sin complicaciones y 49 mujeres sin infecciones urinarias recurrentes, emparejadas por edad. La calidad de vida se evaluó mediante la versión brasileña del cuestionario abreviado de la Organización Mundial de la Salud, el WHOQOL-Bref. Resultados: Las mujeres con infecciones del tracto urinario mostraron mayor deterioro de la calidad de vida en los dominios físico (p = 0,007) y psicológico (p = 0,038), y mostraron menores puntuaciones de calidad de vida en la autoevaluación (p = 0,002) en comparación con el grupo de control. Las mujeres con infección urinaria recurrente mostraron puntuaciones medias significativamente más bajas que el grupo de control en las facetas Energía y fatiga (p = 0,003), Sentimientos positivos (p = 0,014), Autoestima (p = 0,040), Dependencia de la medicación (p = 0,029), Sentimientos negativos (p = 0,023) y Ocio y tiempo libre (p = 0,041). Conclusión: Las infecciones urinarias recurrentes afectan a la calidad de vida de las mujeres, especialmente en los ámbitos físico y psicológico, lo que representa un problema importante para las mujeres, los profesionales sanitarios y el sistema de salud.

Palabras clave: nfe, Infecciones Urinarias, Calidad de Vida, Salud de la Mujer, Control de Infecciones.

1. Introdução

As infecções do trato urinário (ITU) são infecções bacterianas mais comuns em ambiente ambulatorial e afetam, globalmente, cerca de 150 milhões de pessoas ao ano, sendo mais comum nas mulheres. Estima-se que uma em cada três mulheres apresente pelo menos um episódio de ITU ao longo da vida e que 30 a 50% destas mulheres podem apresentar recorrência da infecção dentro de 6 a 12 meses (Grigoryan et al., 2022; Naber et al., 2022).

A probabilidade de recorrência destas infecções aumenta com o avanço da idade. Este aumento da incidência das infecções urinárias recorrentes se deve a fatores como a menor produção de estrogênio no climatério e maior prevalência de incontinência urinária (Renard et al., 2015; Wagenlehner et al., 2018).

Clinicamente, diversos fatores podem estar associados às ITU, como o sexo feminino, atividade sexual, diabetes, obesidade, suscetibilidade genética e infecção vaginal causada por diferentes organismos que colonizam o períneo e a vagina, e podem causar infecções isoladas ou recorrentes (recidivas ou reinfecções), em intervalos variados e de maior ou menor gravidade (Flores-Mireles et al., 2015; Keren et al., 2015; Moreira et al., 2016).

As infecções urinárias recorrentes aumentam as despesas com consultas, exames laboratoriais, medicamentos e internações, representando sobrecarga econômica para o sistema de saúde. Além disso, geram um custo social relacionado ao absenteísmo e à morbidade das pessoas acometidas (Flores-Mireles et al., 2015; Haddad et al., 2020; Wagenlehner et al., 2018).

Estudos demonstram elevado impacto das infecções recorrentes do trato urinário e da cistite na qualidade de vida das pessoas (Aydin et al., 2015; Izett-Kay et al., 2022; Yang, & Foley, 2018). Muitas mulheres com infecções urinárias recorrentes experimentam desconforto devido aos efeitos físicos, psicológicos, emocionais e sociais que podem interferir nas atividades diárias e na qualidade de vida, tornando esses quadros infecciosos um importante problema de saúde para as mulheres que, no entanto, pode ser amenizado com o tratamento correto (Izett-Kay et al., 2022; Vahlensieck et al., 2016).

A profilaxia pode ser uma estratégia para melhorar a qualidade de vida das pacientes e evitar o uso excessivo de antibióticos (Sosland, & Stewart, 2021). Contudo, não há consenso na América Latina sobre a profilaxia e o tratamento das infecções urinárias recorrentes (Haddad et al., 2020).

Estudos europeus apontam que o impacto das infecções de repetição do trato urinário na qualidade vida das mulheres é significativo e representa um importante problema para a saúde física e mental das mulheres, além de causar impactos sociais relevantes (Sosland, & Stewart, 2021; Wagenlehner et al., 2018). Nesse contexto, investigar o quanto as infecções urinárias recorrentes comprometem a qualidade de vida das mulheres contribui para o direcionamento de ações assistenciais, de promoção e cuidados de saúde, que poderão impactar na gestão dos serviços, a partir da redução de custos no tratamento dessas mulheres.

Ante o exposto, este estudo objetivou avaliar o impacto das infecções recorrentes do trato urinário na qualidade de vida de mulheres com infecções recorrentes, em atendimento ambulatorial.

2. Métodos

Estudo observacional, descritivo e analítico, realizado com 98 mulheres atendidas em ambulatório de um hospital público de ensino da cidade de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil, sendo 49 mulheres com infecções recorrentes de trato urinário, confirmadas pela cultura de urina, sem complicações e 49 mulheres sem infecções recorrentes de trato urinário.

Considerou-se infecção recorrente a ocorrência de três episódios de infecção do trato urinário com três culturas de urina positivas, nos últimos 12 meses, ou dois episódios anteriores nos últimos seis meses (Malik, & Zimmern, 2018).

Para o grupo de estudo foram selecionadas mulheres com idade igual ou superior a 18 anos, que tinham pelo menos duas ocorrências de infecção do trato urinário no período de seis meses e/ou três ou mais episódios de infecção em um ano, como indicado pelo histórico clínico e confirmado por exames de cultura de urina (Faria et al., 2018). Aquelas que estavam grávidas, em uso de cateter vesical, que apresentavam obstrução do trato urinário ou tinham bexiga neurogênica foram excluídas do estudo. Para constituir o grupo controle foram selecionadas 49 mulheres, pareadas por idade com o grupo de casos, que realizavam tratamento ambulatorial na mesma instituição (serviço ambulatorial) e que não tinham infecção do trato urinário.

Para a coleta dos dados foi utilizado um instrumento elaborado pelos autores, contendo variáveis clínicas (peso, altura, possui hipertensão, possui diabetes mellitus, número de gestações, número de partos, número de partos cesariana, possui vida sexual ativa, tipo de incontinência, faz uso de contraceptivo), e a versão brasileira do questionário de qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde, o WHOQOL-Bref, constituído por 26 questões cujas respostas são dadas em uma escala do tipo Likert de cinco pontos, através de quatro tipos de escalas (dependendo do conteúdo da pergunta): intensidade, capacidade, frequência e avaliação (World Health Organization, 2010).

Este instrumento permite uma avaliação genérica, sob uma abordagem multidimensional e multicultural da qualidade de vida, a partir de quatro domínios: Físico, Psicológico, Relações Sociais e Meio Ambiente. Inclui, ainda, duas questões gerais, sendo a primeira referente à qualidade de vida (Como você avaliaria sua qualidade de vida?) e a segunda, relacionada à saúde (Quão satisfeito(a) você está com a sua saúde?). Quanto maior o escore de cada domínio, melhor é a qualidade de vida. Valores inferiores a 50,00 indicam comprometimento importante da qualidade de vida (Cordioli Junior et al., 2020; World Health Organization, 2010).

No segundo semestre de 2018, após completar a coleta dos dados, procedeu-se à análise dos resultados, utilizando o programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 23.0. As variáveis clínicas foram utilizadas para descrever a amostra estudada e, para avaliar a qualidade de vida das mulheres estudadas, foram realizadas análises estatísticas, considerando: frequências e medidas estatísticas descritivas para as questões gerais sobre a vida e a saúde dos participantes; escores médios e desvios padrão para os domínios do WHOQOL-Bref, e escores médios para as facetas que compõem os domínios do WHOQOL-Bref, comparando-se os dois grupos (casos e controles). Para comparação entre os grupos aplicou-se teste qui-quadrado para as questões gerais e teste t para os domínios e facetas, considerando nível de significância de 95 % (p ≤ 0,05). Para avaliar o possível impacto da infecção urinária recorrente na qualidade de vida, foi realizada análise de regressão ajustada para possíveis fatores de confusão (hipertensão, vida sexual ativa, IMC e uso de contraceptivos).

O estudo respeitou as exigências formais contidas nas normas nacionais e internacionais regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos, e recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal Fluminense sob Certificado de Apresentação e Aprovação Ética n° 01655812.1.0000.5243.

3. Resultados

A idade das mulheres variou de 18 a 87 anos, com média de 41,6 (± 17,0) anos; 36,7 % tiveram entre uma e três gestações; 32,2 % tiveram entre um e três partos e 74,5 % alegam ter vida sexual ativa; 37,8 % apresentaram incontinência urinária (IU), sendo que 9,2 % eram IU de esforço, 14,3 % bexiga hiperativa e 14,3 % incontinência mista. Além disso, 46,9 % das pacientes do grupo controle e 18,4 % das mulheres do grupo de estudo (com infecção urinária recorrente) eram hipertensas.

Quando comparado o índice de massa corporal (IMC), 59,6 % das pacientes do grupo controle e 44,2 % das mulheres com infecção urinária recorrente apresentaram sobrepeso ou algum grau de obesidade, sendo que 36,2 % das mulheres do grupo controle tinham obesidade grau I e 11,6 % das mulheres com infecção urinária recorrente tinham obesidade grau III. Já em relação ao uso de contraceptivos, 23,5 % das mulheres faziam uso contínuo de anticoncepcional.

Tabela 1
Características clínicas das mulheres em tratamento ambulatorial. Niterói – Rio de Janeiro, Brasil, 2018
Variáveis ClínicasMulheres com IUMulheres sem IUValor-p 1
Gestações
Nenhuma17 (34,7)18 (36,7)0,439
Uma a três18 (36,7)24 (49,0)
Quatro ou mais6 (12,2)7 (14,3)
Não respondeu8 (16,3)-
Parto
Nenhum25 (51,0)31 (63,3)0,800
Um a três13 (26,5)16 (32,7)
Quatro ou mais3 (6,1)2 (4,1)
Não respondeu8 (16,3)-
Parto tipo cesariana
Nenhum24 (49,0)27 (55,1)0,491
Um a três16 (32,7)22 (44,9)
Quatro ou mais1 (2,0)-
Não respondeu8 (16,3)-
Vida sexual ativa
Sim40 (81,6)33(67,3)0,105
Não9 (18,4)16 (32,7)
Tipo de Incontinência Urinária
Não26 (53,1)35 (71,4)0,293
Incontinência urinária de esforço5 (10,2)4 (8,2)
Bexiga hiperativa9 (18,4)5 (10,2)
Incontinência mista9 (18,4)5 (10,2)
Hipertensão
Sim9 (18,4)23 (46,9)0,003
Não39 (79,6)26 (53,1)
Não respondeu1 (2,0)-
Diabetes
Sim2 (4,1)5 (10,2)0,251
Não46 (93,9)44 (89,8)
Não respondeu1 (2,0)-
Índice de Massa Corporal (IMC)
Desnutrição1 (2,0)-0,002
Normopeso23 (46,9)19 (38,8)
Sobrepeso12 (24,5)10 (20,4)
Obesidade grau I2 (4,1)17 (34,7)
Obesidade grau II-1 (2,0)
Obesidade grau III5 (10,2)-
Não respondeu6 (12,2)2 (4,1)
Uso de contraceptivos
Não23 (46,9)28 (57,1)0,150
Condom masculino e espermicida9 (18,4)7 (14,3)
Anticoncepcional oral contínuo14 (28,6)9 (18,4)
Anticoncepcional oral cíclico-4 (8,2)
Dispositivo Intrauterino (DIU)-1 (2,0)
Não respondeu3 (6,1)-
¹ Teste qui-quadrado

Conforme mostra a Tabela 2, o percentual de mulheres com infecção urinária recorrente que consideram a qualidade de vida como ruim ou muito ruim (14,2 %) é significativamente maior do que o percentual de mulheres do grupo controle (2,0 %) que avaliam a qualidade de vida como ruim ou muito ruim. Contrapondo este resultado, observa-se que o percentual de o percentual de mulheres com infecção urinária recorrente que consideram a qualidade de vida como boa ou muito boa (55,1 %) é significativamente menor do que o percentual de mulheres do grupo controle (73,4 %) que avaliam a qualidade de vida como boa ou muito boa.

Da mesma, o percentual de mulheres com infecção urinária recorrente que se consideram insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a saúde (48,9 %) é significativamente maior do que o percentual de mulheres do grupo controle (14,3 %) que se consideram insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a saúde (p = 0,004). Enquanto o percentual de mulheres com infecção urinária recorrente que se consideram satisfeitas ou muito satisfeitas com a saúde (34,7 %) é significativamente menor do que o percentual de mulheres do grupo controle (59,2 %) que se consideram satisfeitas ou muito satisfeitas com a saúde.

Tabela 2
Frequências de respostas das mulheres com e sem infecção urinária recorrente e escores médios para as questões gerais de qualidade de vida. Niterói – Rio de Janeiro, Brasil, 2018
QuestãoOpções de respostaCom InfecçãoSem Infecção
n%n%
Como você avaliaria sua qualidade de vida?(p = 0,027) ¹1 - muito ruim2 - ruim3 - nem ruim nem boa4 - boa5 - muito boa Escore Médio Desvio-padrão1 6 15 19 8 3,6 1,02,0 12,2 30,6 38,8 16,3- 1 12 33 3 3,8 0,6- 2,0 24,5 67,3 6,1
Quão satisfeito(a) você está com a sua saúde?(p = 0,004) ¹1 - muito insatisfeito2 - insatisfeito3 - nem satisfeito nem insatisfeito4 - satisfeito5 - muito satisfeito Escore Médio Desvio-padrão6 18 8 16 1 2,8 1,112,2 36,7 16,3 32,7 2,0 3 4 13 24 5 3,5 1,06,1 8,2 26,5 49,0 10,2
¹ Teste qui-quadrado

Mulheres com infecção urinária recorrente demonstraram maior comprometimento da qualidade de vida nos domínios Físico e Psicológico, e apresentaram maior escore na auto avaliação da qualidade de vida, conforme observado na Tabela 3.

Tabela 3
Avaliação da qualidade de vida nos grupos de mulheres com e sem infecção urinária recorrente. Niterói – Rio de Janeiro, Brasil, 2018
Domínios do WHOQOL BrefCom Infecção 1Sem Infecção 1Valor-p 2
Físico62,81 ± 15,5971,35 ± 14,890,007
Psicológico67,79 ± 14,7673,95 ± 14,180,038
Relações Sociais77,76 ± 13,6075,52 ± 15,030,440
Meio Ambiente67,33 ± 13,7863,52 ± 12,050,148
Auto avaliação da qualidade de vida72,65 ± 12,3763,06 ± 17,100,002
1 Mean ± standard deviation.2 T-test.

A avaliação do impacto das infecções recorrentes do trato urinário na qualidade de vida evidenciou que as mulheres com infecção urinária obtiveram média 13,2 % menor do que as mulheres do grupo controle (sem infecção urinária), conforme mostra a Figura 1.

Após análise ajustada para possíveis fatores de confusão (hipertensão, vida sexual ativa, IMC e uso de contraceptivos), verificou-se que a associação entre infecção urinária recorrente e a qualidade de vida permaneceu estatisticamente significativa (β = -1,95; p = 0,014).

Impacto da infecção urinária recorrente na qualidade de vida de mulheres atendidas em serviço ambulatorial. Niterói – Rio de Janeiro, Brasil, 2018
Figura 1
Impacto da infecção urinária recorrente na qualidade de vida de mulheres atendidas em serviço ambulatorial. Niterói – Rio de Janeiro, Brasil, 2018

A Figura 2 apresenta os escores médios para as facetas dos domínios do Whoqol-Bref, segundo os grupos de estudo (casos x controle), evidenciando que as mulheres com infecção urinária recorrente apresentaram comprometimento nas facetas Sono e repouso (48,47), Dependência de medicação ou de tratamentos (44,27), Sentimentos positivos (46,94), Recreação e lazer (44,9), enquanto as mulheres do grupo controle apresentaram comprometimento na faceta Recursos financeiros (45,42).

O grupo de mulheres com infecção urinária recorrente apresentou escores médios significativamente menores do que o grupo controle nas facetas Energia e fadiga, Sentimentos positivos, Auto estima, Dependência de medicação, Sentimentos negativos e Recreação e lazer.

Escores médios para as facetas dos domínios do Whoqol-Bref, segundo os grupos de mulheres do estudo (com infecção urinária e sem infecção urinária). Niterói – Rio de Janeiro, Brasil, 2018
Figura 2
Escores médios para as facetas dos domínios do Whoqol-Bref, segundo os grupos de mulheres do estudo (com infecção urinária e sem infecção urinária). Niterói – Rio de Janeiro, Brasil, 2018

3.1 Discussão

Os resultados do estudo mostram que a recorrência de infecções do trato urinário nas mulheres causa um importante impacto na qualidade de vida e na satisfação com a saúde. O estudo mostrou, ainda, que as mulheres com infecções urinárias recorrentes apresentam comprometimento dos aspectos físicos e psicológicos relacionados à qualidade de vida, significativamente maior do que as mulheres sem infecção. Esses resultados corroboram estudos realizados com mulheres asiáticas e europeias, com infecções recorrentes do trato urinário, que apontaram amplo impacto negativo das infecções recorrentes na qualidade de vida das mulheres, afetando principalmente as dimensões física e mentais (Ennis et al., 2018; Renard et al., 2015).

O maior comprometimento nos domínios físicos e psicológicos apresentado pelas mulheres com infecções urinárias recorrentes pode ser explicado pela cronicidade dos sintomas decorrentes dessas enfermidades, que podem comprometer as atividades laborais e o engajamento no trabalho, a prática de atividade física, o exercício de cuidados familiares e demais atividades diárias das mulheres e reduzir o engajamento. Além disso, essas infecções causam sintomas como ardor ou dor ao urinar (disúria), micção frequente ou de urgência, poliúria, hematúria e/ou desconforto abdominal inferior, que podem influenciar nas atividades diárias e na qualidade de vida das mulheres (Carvalho et al., 2023; Keren et al., 2015; McLellan, & Hunstad, 2016).

No Brasil, estudo com mulheres com infecções urinárias recorrentes, utilizando os instrumentos Whoqol-bref e King’s Health Questionnaire (KHQ), identificou efeito das infecções recorrentes nas atividades físicas, sociais e sexuais das mulheres, com perda da autoestima e surgimento de ansiedade e depressão (Faria et al., 2018). Ademais, ao comprometer a realização das atividades diárias, as infecções recorrentes impactam na saúde mental das mulheres, desencadeando sentimentos como frustração, irritação e cansaço (Naber et al., 2022; Scott et al., 2021; Wagenlehner et al., 2018).

Estudo com mulheres de cinco países europeus evidenciou que as infecções urinárias recorrentes estão associadas ao desenvolvimento de estresse em um grande número de mulheres, podendo levar ao desenvolvimento de depressão (Wagenlehner et al., 2018). Tais achados são corroborados por outros estudos que apontam as infecções recorrentes do trato urinário como causa sentimentos negativos e comprometimento emocional (Grigoryan et al., 2022; Izett-Kay et al., 2022; Naber et al., 2022; Renard et al., 2015; Sosland, & Stewart, 2021).

O comprometimento da qualidade de vida relacionado às condições de sono e repouso, sentimentos positivos e recreação e lazer, apresentado pelas mulheres com infecção urinária recorrente, pode estar associado ao quadro clínico decorrente dos episódios infecciosos. Essa hipótese é reforça pelos escores significativamente mais baixos, apresentados pelas mulheres com infecção urinária recorrente nas facetas sentimentos positivos, autoestima, recreação e lazer, em comparação ao gupo de mulheres sem infecção.

O desconforto decorrente da urgência miccional causada pela infecção pode afetar a qualidade do sono das mulheres, além de comprometer o convívio social, prejudicando a satisfação em desfrutar a vida (Bermingham, & Ashe, 2012; Faria et al., 2018). Há, ainda, prejuízos relacionados a atividades de lazer, como atividades sociais em grupo, viagens e atividades familiares, que podem comprometer a autoestima, agravando o impacto negativo na qualidade de vida dessas mulheres (Faria et al., 2018; Seshan, & Muliira, 2014).

A recorrência dos episódios de infecção urinária exige tratamentos medicamentosos frequentes, incluindo antibioticoterapia. Além de gerar um importante ônus econômico para o sistema público de saúde, o uso inadequado dos antibióticos pode favorecer o desenvolvimento de microrganismos multirresistentes, complicando o quadro clínico das infecções. Isso pode explicar o baixo escore relacionado à faceta dependência de medicação ou de tratamentos apresentado pelas mulheres com infecção urinária recorrente, estatisticamente menor do que o apresentado pelas mulheres sem infecção (Al Demour, & Ababneh, 2018; Faria et al., 2018; Medina, & Castillo-Pino, 2019; Sosland, & Stewart, 2021; Wagenlehner et al., 2018).

Dados europeus mostram que as infecções urinárias recorrentes geram aumento do absenteísmo e de consultas médicas. De acordo com a literatura, cada episódio de infecção do trato urinário gera, em média, três dias de licença médica. Essa perda de capacidade para o trabalho associada ao desgaste emocional causada pelo quadro infeccioso e seu tratamento, leva à maior perda de energia e aumento da fadiga entre as mulheres com infecção urinária recorrente, favorecendo o surgimento de sentimentos negativos, como medo, frustração, mau humor, ansiedade e depressão, além de impactar na produtividade econômica (Bermingham, & Ashe, 2012; Medina, & Castillo-Pino, 2019; Scott et al., 2021; Wagenlehner et al., 2018).

Embora a literatura demonstre aumento no nível de bem-estar das mulheres, não há relatos de melhora da qualidade de vida relacionada ao tratamento. Por isso, nem sempre o tratamento médico bem-sucedido do episódio de infecção implicará em melhoria na qualidade de vida da paciente (Sosland, & Stewart, 2021). Contudo, estudos apontam que, quando ocorrem eventos adversos relacionados ao tratamento, as mulheres tendem a apresentar maior comprometimento da qualidade de vida (Renard et al., 2015; Wagenlehner et al., 2018).

Assim, a definição e implementação de estratégias eficazes de prevenção e tratamento das infecções recorrentes do trato urinário exige que os profissionais de saúde, especialmente médicos e enfermeiros, entendam o real impacto destas infecções na vida das mulheres. Isso implica no compartilhamento das decisões entre profissional e paciente, visando atender as expectativas e melhorar a qualidade de vida das mulheres (Moskowitz, & Lee, 2018; Sosland, & Stewart, 2021; Wagenlehner et al., 2018).

Apesar de um estudo europeu multicêntrico recente apontar que o tratamento profilático pode reduzir a ocorrência do número de episódios infecciosos e melhorar a qualidade de vida das mulheres, a falta de consenso sobre a profilaxia e o tratamento das infecções urinárias recorrentes na América Latina, dificulta a adoção de medidas profiláticas (Ennis et al., 2018; Renard et al., 2015; Wagenlehner et al., 2018). Assim, são necessários novos estudos que avaliem a eficácia, os riscos e benefícios de diferentes opções profiláticas na saúde e na qualidade de vida das mulheres com infecções urinárias recorrentes.

O estudo apresenta limitações relacionadas ao número de mulheres incluídas na amostra e à sua origem unicêntrica, sendo importante a realiação de novos estudos, com amostras maiores, oriundas de serviços de diferentes regiões do país. Contudo, os resultados obtidos trazem subsídios para o direcionamento de ações assistenciais que contribuam para a melhoria da qualidade de vida das mulheres com infecções recorrentes, fortalecendo a promoção, a recuperação e o restabelecimento da saúde destas mulheres em atendimento ambulatorial.

4. Conclusão

O estudo evidencia que as infecções recorrentes do trato urinário podem impactar negativamente na qualidade de vida das mulheres, principalmente nos aspectos físicos e psicológicos, comprometendo o nível de satisfação com a saúde. Esses resultados reforçam que as infecções urinárias recorrentes representam um problema de saúde pública, que afeta as mulheres, os profissionais e o sistema de saúde.

A adoção de medidas profiláticas esbarra na escassez de estudos que comprovem sua eficácia e na falta um consenso latino-americano. Assim, conclui-se que são necessários novos estudos para ampliar a discussão sobre os fatores de riscos associados às infecções urinárias recorrentes, seus impactos socioeconômicos e a eficácia de tratamentos profiláticos, produzindo conhecimentos que subsidiem a implementação de ações efetivas para a assistência à saúde dessa população.

5. References

Al Demour, S., & Ababneh, M. A. (2018). Evaluation of Behavioral and Susceptibility Patterns in Premenopausal Women with Recurrent Urinary Tract Infections: A Case Control Study. Urologia Internationalis, 100, 31-36. https://doi.org/10.1159/000485568

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