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O agenciamento Deleuze-Guattari: considerações sobre método de pesquisa e formação de pesquisadores em educação1
The agency Deleuze-Guattari: Considerations about research method and training of researchers in education
O agenciamento Deleuze-Guattari: considerações sobre método de pesquisa e formação de pesquisadores em educação1
Educação Unisinos, vol. 20, núm. 1, pp. 68-75, 2016
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Recepção: 11 Dezembro 2014
Aprovação: 04 Agosto 2015
Resumo: O artigo visa à problematização de método de pesquisa e formação de pesquisadores em educação a partir de um horizonte pós-estruturalista, com foco no pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari e no legado pós-metafísico de Friedrich Nietzsche. O estudo desenvolve: (a) uma crítica em relação a uma condição metodológica da pesquisa que, a partir de uma visão representacional de linguagem, estabelece uma “palavra de ordem” na construção e legitimação dos problemas educacionais; (b) a exploração da experiência de trabalho de pensamento de Deleuze-Guattari tomada como estudo de caso para fomentar a discussão sobre criação de métodos de pesquisa. Apontamos que o encontro Deleuze-Guattari opera como um agenciamento na criação de uma espécie de método como acontecimento. Essa discussão é estratégica para a formação de pesquisadores, pois viabiliza o debate sobre modos de pensamento e construção linguística de problemas educacionais, modulando outras políticas de verdade em educação.
Palavras-chave: método, linguagem, pensamento.
Abstract: The article discusses the research method and training of researchers in education from a poststructuralist horizon, focusing on the thought of Gilles Deleuze and Felix Guattari and post-metaphysical legacy of Friedrich Nietzsche. The study develops: (a) a criticism of a methodological condition of research, from a representational view of language, establishing a “watchword” in the construction and legitimation of educational problems; (b) the exploitation of the work experience of thought of Deleuze-Guattari taken as a case study to encourage discussion about creating research methods. We point out that the Deleuze-Guattari meeting operates as an agency in creating a kind of method as an event. This discussion is strategic for the training of researchers because it enables the debate on modes of thought and linguistic construction of educational problems by modulating other policies of truth in education.
Keywords: method, language, thought.
O debate sobre métodos de pesquisa se institui, de modo geral, no âmbito das próprias práticas investigativas - sejam científicas, filosóficas ou artísticas -, tendo em vista uma espécie de diversificação, ou, ainda, de sofisticação dos modos de fazer que lhes seriam peculiares. Tomando como foco uma problematização sobre método de pesquisa em educação, a presente discussão propõe um deslocamento dessa abordagem: problemas acerca de método não seriam tratados como meros tópicos de epistemologia educacional, mas demandariam um esforço analítico de problematização em torno do próprio caráter de formação - e, portanto, educativo - dos pesquisadores educacionais. Assim, questões de método de pesquisa remeteriam a um território de injunção entre o domínio específico das práticas investigativas e a própria condição formativa do pesquisador, tornando indissociáveis as dimensões de investigação e de formação.
Do ponto de vista analítico, este estudo situa-se em um horizonte pós-estruturalista, privilegiando o pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, bem como a investida pós-metafísica de Friedrich Nietzsche. Faz-se necessário demarcar que, a despeito de suas especificidades, as várias incursões qualificadas como pós-estruturalistas tendem a apontar a indissociabilidade das relações entre linguagem e produção de verdade (Peters, 2000; Williams, 2012). Essa premissa torna-se crucial no debate de questões metodológicas de pesquisa, uma vez que suscita a interpelação perante o próprio modo de produção linguística dos chamados objetos de investigação.
Introdução
Certas condições metodológicas de pesquisa, ancoradas em uma abordagem representacional de linguagem, imprimem uma espécie de “palavra de ordem” na construção e legitimação dos problemas educacionais, cujos efeitos ultrapassam uma suposta dimensão inócua do âmbito epistemológico, remetendo ao foro ético-político.3
Assim, de largada, encontramos no embate de Nietzsche (1998, 2001, 2008a, 2008b) frente aos domínios da cultura e da formação modernas o arsenal para uma crítica aos atuais modos supostamente assépticos, inócuos e virtuosos das artes de pesquisar. Historicamente submersos em uma longa cultura da investigação, tendemos à naturalização de maneiras de pensamento tidas como guardiãs de processos civilizatórios. Tal certeza nubla o caráter ficcional da verdade com seus mecanismos de produção e veridicidade. Na provocação do pensador alemão, o impulso à verdade, a obrigação de ser veraz tal como instituída pela sociedade, diz respeito, em uma perspectiva moral, à “obrigação de mentir conforme uma convenção consolidada, mentir em rebanho num estilo a todos obrigatório” (Nietzsche, 2008a, p. 37).
A crítica de Nietzsche a uma forma de cultura fundamentada no imperativo da veridicidade se faz incidir nos campos da arte, da ciência e da filosofia, condição que o convoca a vislumbrar, respectivamente, uma tragicidade estética, uma gaia ciência e uma filosofia da suspeita.
Nessa atmosfera crítica, poderíamos evocar a discussão sobre método e verdade como um problema que, ultrapassando o domínio técnico das instâncias de conhecimento acima enunciadas, implicaria amplamente os próprios modos de vida, daí sua inextricável condição ético-política.
Ao voltar-se criticamente sobre o modo operativo da ciência, Nietzsche (2001) problematiza o privilégio na busca pela explicação a partir dessa instituída formulação de relações de causa e efeito:
Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis - como pode ser possível a explicação se primeiro tornamos tudo imagem, nossa imagem! Basta considerar a ciência a humanização mais fiel possível das coisas, aprendemos a nos descrever de modo cada vez mais preciso ao descrever as coisas e sua sucessão. Causa e efeito: essa dualidade não existe provavelmente jamais - na verdade, temos diante de nós um continuum, do qual isolamos algumas partes; assim como percebemos um movimento apenas como pontos isolados, isto é, não o vemos propriamente, mas o inferimos (p. 140, grifos do autor).
Ao detalhar o modo de operação da ciência moderna, o pensador expõe seu caráter de arbitrariedade e, como decorrência, o efeito ficcional da verdade emergente dessa trama operativa. Além disso, tal mecanismo centrado na busca da explicação a partir do deslindamento de relações causais estabelece, como prerrogativa, a definição de certas imagens como pontos de ancoragem para a realização de inferências. Ocorre que essas imagens não são tomadas como tais, ou seja, como operações linguísticas, mas como expressões fiéis de descrição de objetos e/ou fenômenos. O autor alerta que tais imagens são a medida mesma do antropomorfismo condutor dessas operações linguísticas e, portanto, o ato do conhecimento não se refere à suposta descoberta do inédito, mas, ao contrário, implica um mecanismo cognitivo de (re)conhecimento - daí a crítica ao princípio da representação que sustentaria uma forma de pensamento fundada na reflexividade.
A crítica nietzschiana também permite entrever esse jogo linguístico do (re)conhecimento no território da filosofia. Nessa chave, o trabalho filosófico não remeteria ao debate sobre validação e certificação de valores, tendo em vista a conservação da cultura, mas, diferentemente, ao exercício de uma crítica permanente diante dos processos de valoração do valor, por meio de um gesto genealógico capaz de esgarçar os modos como as verdades são produzidas como tais, tornando a própria cultura uma espécie de maquinaria do pensamento. O criador de Zaratustra nos provoca ao afirmar que “o homem do conhecimento deve poder não somente amar seus inimigos, como também odiar seus amigos” (Nietzsche, 2008b, p. 17), fundando, daí, uma filosofia da suspeita.
No curso da empreitada nietzschiana, a questão da valoração do valor implica, com a mesma gravidade ético-política, o campo da arte. O inquieto autor alemão recusa uma cultura do ressentimento e, consequentemente, uma forma de arte que tenda a (re)produzir esse histórico modo de vida ancorado na metafísica da dor e na soberania de um sujeito centrado na expressão de um suposto mundo interior de afetos. É contra uma cultura que dimensiona a culpa como moeda de troca civilizatória, sacralizando o sofrimento como condição de redenção metafísica, que Nietzsche evoca a experiência da tragicidade como uma máquina de guerra.
Nessa paisagem analítica, haveria, pois, uma zona de confluência nos fazeres da ciência, da filosofia e da arte, cujas forças motoras remeteriam, sobretudo, a processos de estetização. A esse respeito, conclui Nietzsche (2008a):
Pois entre duas esferas absolutamente diferentes tais como entre sujeito e objeto não vigora nenhuma causalidade, nenhuma exatidão, nenhuma expressão, mas, acima de tudo, uma relação estética, digo, uma transposição sugestiva, uma tradução balbuciante para uma língua totalmente estranha. Algo que requer, de qualquer modo, uma esfera intermediária manifestamente poética e inventiva, bem como uma força mediadora (p. 42, grifos do autor).
Enfatizando o caráter arbitrário dos mecanismos linguísticos instituintes da verdade nas várias frentes da cultura, o autor nos chama a atenção de que nos encontramos, isto sim, no domínio das relações estéticas.
Esse conjunto de perspectivas seguido da formulação final disposta acima nos parece constituir a tessitura mesma de discussão desse trabalho. Os mecanismos linguísticos que materializam os fazeres científicos, filosóficos ou artísticos tendem a ser formalizados e enunciados como métodos. A companhia nietzschiana nos incita a transtornar essa prerrogativa do método como condição pensável dos fazeres, alertando-nos de que uma validação metodológica está genealogicamente implicada com um processo de veridicidade e, portanto, com certas formas de verdade.
Deleuze-Guattari: uma experiência de pensamento
É no interior desse debate que o presente trabalho propõe tomar a exploração da experiência de trabalho de pensamento de Deleuze-Guattari como um estudo de caso para fomentar a discussão sobre criação de métodos de pesquisa, afirmando, a priori, a necessidade de transtornar essa vontade de verdade de método, ecoando a investida nietzschiana.
Buscamos perseguir a seguinte hipótese analítica: o encontro Deleuze-Guattari ultrapassaria a mera condição de obra em coautoria, constituindo-se como criação de uma espécie de método de trabalho de pensamento. Defendemos que a experiência desse encontro constitui a própria experiência de criação de pensamento.
A materialidade do encontro entre o filósofo e o psicanalista se fez por meio da invenção de um território de escrita a quatro mãos, inaugurado com a produção da obra O Anti-Édipo. “Deleuze dizia que Félix era o descobridor de diamantes e que ele era o talhador. Portanto, era preciso apenas que lhe enviasse os textos tal como os escrevia para que ele os arranjasse e foi o que ocorreu” (Donatti inDosse, 2010, p. 17).
Esse dispositivo pactuado de escrita era a ocasião possível de um trabalho radical de des-subjetivação, trazendo à cena a dimensão/conceito do agenciamento coletivo de enunciação. Destacamos que essa circunstância produz, ao mesmo tempo, duas operações: a formulação/expressão da ideia de agenciamento - um estratégico vetor conceitual na obra dos pensadores -, bem como a efetivação desse conceito manifesta na própria materialidade do encontro de seus corpos. Tal situação evidencia que a criação do conceito se faz na contingência do encontro de forças que ultrapassam a suposta soberania da autoria ou da premissa linguística da subjetivação.
De um lado, Guattari afirma: “quanto a mim, sou mais propenso a operações aventureiras, de ‘comando conceitual’, digamos, de inserção em territórios estrangeiros. Já Gilles possui armas pesadas filosóficas, toda uma intendência bibliográfica” (Guattari inDosse, 2010, p. 18). De outro, a propósito da raríssima capacidade de criação de conceitos e de inventividade de Guattari, comenta Deleuze: “suas ideias são desenhos ou mesmo diagramas. A mim, o que interessa são os conceitos [...]. Eu trabalhava na época unicamente nos conceitos, e ainda de forma muito tímida” (Deleuze inDosse, 2010, p. 19).
A radical diferença que emergiu do encontro Deleuze-Guattari constitui a criação mesma de um modo de pensamento. Entretanto, esse modo não irrompe como plataforma hermenêutica para conferir um corpo de teorização e de instrumental conceitual. Tal modo de pensamento se faz a partir da contingência de um encontro no qual a diferença é elevada à sua máxima radicalidade, a despeito dos limites de cada um dos pensadores. Nos dizeres de Deleuze: “o que complicará as coisas é que eu quero obter de Félix algo que ele nunca vai querer me dar, e ele, me empurrar em algum lugar para onde eu jamais gostaria de ir” (Deleuze inDosse, 2010, p. 23). Deleuze refere-se à prerrogativa de sua solidão e aos movimentos de Guattari, voltados às coletividades - demandas inconciliáveis que lançam ambos os pensadores na contingência das suas próprias órbitas.
Entretanto, o trabalho de pensamento parece ter efetivado sua potência na medida mesma do acontecimento no qual esses duplos e antagônicos limiares foram enfrentados. Parece haver, pois, uma condição trágica do encontro, a convocar um e outro a uma espécie de ultrapassagem de si, tendo em vista afirmar o tempo presente como ocasião de transbordamento de algo inédito que ali se anuncia virtualmente.
Dessa inarredável e trágica contingência, emerge uma forma de pensamento singular, cuja natureza não remete ao horizonte dialógico, mas ao movimento rizomático.
Com a produção da obra Kafka: para uma literatura menor (Deleuze e Guattari, 2003), materializa-se um modo de trabalho com a literatura, marcado pela experimentação, emergindo daí dois conceitos-chave no pensamento dos autores, a saber, o agenciamento e orizoma (Dosse, 2010).
Vislumbrando uma problematização do pensamento, o caráter de experimentação para com a literatura é expressão mesma tanto do encontro de Deleuze e Guattari com a obra estética de Kafka quanto do encontro entre o filósofo e o psicanalista. Esse encontro não é expressão de um diálogo entre pensadores e literatura. A singularidade aqui remete à condição de que algo situado “entre” Deleuze, Guattari e a obra-Kafka - e disparado na situação contingencial de um encontro sempre de natureza ímpar - passa a emergir no horizonte do pensamento para colocar em cena questões acerca da linguagem e do próprio pensar. Eis o movimento aqui evocado como experimentação.
Extrapolando tal fluxo para além da situação específica com a obra kafkiana, poderíamos perceber a invenção de um modus operandi desses autores, cuja tônica se faz pela insistente remissão à imanência como condição mesma de um trabalho de experimentação de pensamento.
Na abertura da obra Mil Platôs 1,Deleuze e Guattari (1995), a partir da criação de seu conceito de rizoma, fazem transbordar tal experimentação de pensamento forjada em um território intervalar, uma espécie de “entre”:
Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore impõe o verbo “ser” mas o rizoma tem como tecido a conjunção “e...e...e...” Há nessa conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser. [...] Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói as margens e adquire velocidade no meio (p. 37, grifos dos autores).
Salientamos que a emergência do rizoma como imagem-conceito remete ao campo radical da imanência dos encontros, instaurando uma necessidade de atenção à multiplicidade e suas conectividades. A afirmação do movimento rizomático como preceito de pensamento e de crítica se faz no mesmo golpe de recusa ao imperativo ontológico lastreado pelo verbo ser. Tal imperativo funciona como prerrogativa de um modo de pensamento que só se constitui a partir do estabelecimento de fundamentos como condição de jogo.
Encontramo-nos, pois, diante de um deslocamento radical, cuja problemática evocaria uma questão de método: da imagem arbórea para uma imagem rizomática. Da genealogia de origens e fins para uma dispersão rizomática, manifesta como uma multiplicidade de signos dispostos em insuspeitas conexões, engendrando uma cartografia de efeitos. “O rizoma é uma antigenealogia” (Deleuze e Guattari, 1995, p. 32).
A enunciação das implicações entre método e pensamento está explícita na argumentação dos pensadores, quando discutem a condição da multiplicidade:
Para o múltiplo, é necessário um método que o faça efetivamente [...] buscar um começo, ou um fundamento, implicam uma falsa concepção da viagem e do movimento (metódico, pedagógico, iniciático, simbólico) (Deleuze e Guattari, 1995, p. 33-37).
Assim, a multiplicidade não seria mero conceito designativo de representação de fenômenos, mas se materializaria no próprio modo como forjamos problemas e a eles nos endereçamos. Como alerta Deleuze, “gritar ‘viva o múltiplo’, ainda não é fazê-lo, é preciso fazer o múltiplo” (Deleuze e Parnet, 1998, p. 24).
Esse trabalho busca evidenciar o caráter de irredutibilidade entre o ato de formulação dos problemas e a condição fática vivida por esses pensadores franceses em seu trabalho de pensamento-escrita. Deleuze e Guattari lograram inventar e sustentar um espaço intervalar que se abria “entre” ambos, produzindo como efeito uma criação conceitual que, por sua vez, materializava a própria experimentação de trabalho de pensamento por eles vivida. Em outras palavras: é a própria condição rizomática desse encontro singular das forças vitais Deleuze e Guattari que engendrou criações conceituais como rizoma, multiplicidade, agenciamento, acontecimento, (des)territorialização, etc.
Nesse sentido, um conceito não desponta como criação metafísica, não remete à representação de uma ideia, não equivale ao gesto hermenêutico ou de interpretação fenomênica. Uma criação conceitual deriva da afirmação da imanência do encontro, esse agenciamento constituído por toda a tragicidade inerente às suas contingências e limites. (Deleuze e Guattari, 1997). É nesse sentido que, no escopo desse estudo, tomamos o agenciamento Deleuze-Guattari como invenção de uma espécie de método.
Enfaticamente refutamos a tomada do método como uma herança da modernidade constituída por um conjunto de procedimentos organizados a partir de uma teleologia. Consequentemente, nosso estudo recusa quaisquer movimentos de postulação de metodologias de pesquisa, repelindo as clássicas tendências investigativas fundadas nos princípios de repetição, previsibilidade e controle. A singularidade dessa forma de vida Deleuze-Guattari nos atiça a considerar aquilo que usualmente denominamos de método - seja nos domínios científicos, filosóficos ou artísticos - como um trabalho de experimentação de pensamento efeito da imanência dos encontros. Tratar-se-ia de pensar o método como acontecimento.
Tal abordagem potencializa a natureza aleatória, fortuita, casual desse trabalho de experimentação - daí tratar-se de um acontecimento. Acontecimento, aqui, demanda uma acepção de temporalidade refratária ao princípio de sucessão cronológica (chronos). Deleuze evoca a noção estoica de aion, para referir-se a algo como um “entre-tempo” que irromperia como “uma cesura, um corte, de modo que o tempo se interrompe para retomar sobre um outro plano” (Zourabichvili, 2004, p. 26, grifos do autor). Haveria, pois, uma espécie de extra-temporalidade do acontecimento que lhe seria paradoxalmente imanente. O acontecimento, como esse elemento de disjunção temporal, marcaria, pois, uma diferença/diferenciação no interior do próprio tempo cronológico, introduzindo “o fora” no tempo (Zourabichvili, 2004).
É a efemeridade do movimento que confere intensidade ao trabalho de experimentação do pensamento. Afirmar a contingência dos encontros no tempo presente, assumindo seus limites constitutivos, implica colocar-se em uma condição radical de permeabilidade, ou melhor, de disponibilidade à afecção diante do imponderável e do inevitável. Para experienciar esse “entre-tempo”, esse acontecimento do próprio pensamento, faz-se necessária uma disposição trágica (Nietzsche, 2001), a qual exige “querer não o que acontece, mas algo no que acontece, para tornar-se digno do que nos acontece” (Pelbart, 2004, p. 95, grifo do autor).
Embora a obra dos pensadores possua, como disparadores, certas questões afeitas ao domínio da filosofia, os efeitos da criação desse modo de trabalho de pensamento reverberam fortemente nos campos de pesquisa das ciências naturais e humanas, bem como no âmbito da arte. Nesse sentido, buscamos explorar esse legado no horizonte das pesquisas em ciências humanas e, particularmente no escopo deste trabalho, no território das pesquisas em educação.
Considerações finais
Esse modo de experimentação do pensamento confere uma dimensão de criação aos processos analíticos. Recusar uma abordagem sistêmica de método de pesquisa, dispensando a segurança de uma prerrogativa teleológica como baliza da ação, exige um enfrentamento radical da cultura acadêmica, uma vez que esta tende a referendar os sistemas clássicos de validação, seja no campo da ciência ou da filosofia.
Tal gesto de contraposição não se faz impunemente, pois provoca um combate na arena discursiva que legitima os critérios de veridicidade. Pressupor o caráter de imanência do método, bem como sua condição de acontecimento - reavivando os elementos do fortuito e do efêmero que, paradoxalmente lhe conferem a potencialidade criadora -, nos lança em outra modulação diante do estatuto do pensamento no âmbito das práticas de pesquisa.
As discussões pregressas acerca dos legados analíticos nietzschiano e deleuze-guattarianos nos permitem afirmar a relação genealógica entre os modos de pensamento circulantes em um determinado espaço de investigação e os objetos investigativos daí produzidos e legitimados. Defendemos que, particularmente, os desdobramentos do encontro Deleuze-Guattari, por colocarem em evidência outros modos de criação de pensamento, viabilizam, de imediato, a elaboração de um trabalho crítico perante o ato da pesquisa.
Na medida em que tal crítica focaliza prioritariamente a necessidade de desnaturalização dos objetos de investigação, essa discussão torna-se especialmente relevante no campo da educação, sobretudo quando nos dedicamos a problematizar tanto a construção de objetos de pesquisa educacionais quanto a própria formação de pesquisadores na área.
Aqui, faz-se necessário proceder a um giro analítico crucial: se os cânones científico e filosófico tendem a insistir na tomada do objeto de conhecimento como ponto de convergência do ato de conhecer, como evitar a armadilha da ontologia ou a prerrogativa da estrutura em relação à conformação desses tais objetos? Vale destacar que esse risco remeteria tanto a esse suposto objeto quanto em relação a um também suposto sujeito de conhecimento que lhe interpelaria, ou, ainda, diante do próprio modo de pensamento que conforma a ambos, sujeito e objeto - no jogo da veridicidade científica ou filosófica.
Parece-nos que uma possibilidade de transtornar esse movimento de estruturação - no limite, referente ao próprio pensar - encontra-se no seguinte deslocamento: em vez de conformarmos objetos de conhecimento, ousemos engendrar problemas de pensamento.
Ocorre, entretanto, que a disposição representacional da linguagem parece não interromper sua voracidade de forma, de espelhamento e de verdade. Em um gesto fácil, problemas se convertem rapidamente em novos objetos investigativos, de modo a se tornarem imediatamente capturáveis. Encontramos-nos diante de reiterativos procedimentos de linguagem que organizam os processos de (re)cognição, retroalimentando, assim, o caráter de validação dos métodos de pesquisa.
O campo educacional não é alheio ao imperativo desses procedimentos, no âmbito das práticas de pesquisas. O modo como a área de educação organiza seu escopo de linhas investigativas e publicações acadêmicas evidencia essa tendência à legitimidade de certo modo de configurar objetos de conhecimento. A título de exemplificação, tomemos duas situações estratégicas: (a) a estruturação e nomeação das frentes de pesquisa educacional junto ao CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico; (b) o modo de organização da área junto à ANPed - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, importante locus de concentração da produção de pesquisa educacional no Brasil. Do ponto de vista da estruturação da área de pesquisa educacional no Brasil, tomemos paradigmaticamente o sítio do CNPq. Ali, no interior da área de Ciências Humanas, aloca-se a subárea de Educação, a qual, por sua vez, divide-se em sete campos: administração educacional, currículo, ensino-aprendizagem, fundamentos da educação, orientação e aconselhamento, planejamento e avaliação educacional e por fim, tópicos específicos de educação. Notemos como tal estruturação tende a reforçar a organização epistemológica clássica da educação, cristalizando alvos analíticos como currículo, avaliação, ensino-aprendizagem, por exemplo (CNPq, 2015). Parece-nos que o campo “tópicos específicos” tende a comportar aquilo que escapa das categorizações clássicas e que pedem passagem no debate contemporâneo (CNPq, 2015). A emergência desse único tópico sugere uma iminente tensão entre os modos clássicos de organização do conhecimento educacional e questões contemporâneas que se afirmam para além da circunscrição de recortes analíticos clássicos, demandando outros modos de incursão analítica.
Esse movimento pode ser flagrado a partir de outro corte, de forma mais intensiva, do ponto de vista da efetiva produção e veiculação de pesquisa educacional no país. Tomemos estrategicamente a ANPed, dada sua relevância científica para a área. Tal entidade tende a organizar o debate da pesquisa educacional em Grupos de Trabalho de natureza temática - os chamados GTs - concebidos como “instâncias de aglutinação e de socialização do conhecimento produzido pelos pesquisadores da área de educação” (ANPed, 2015). Notemos como alguns desses GTs possuem demarcação disciplinar clássica (História da Educação, Sociologia da Educação, Filosofia e Educação, Psicologia da Educação, etc). Outros grupos evocam alvos analíticos específicos de natureza classicamente pedagógica (Didática, Currículo, Educação fundamental, Alfabetização, leitura e escrita, Educação matemática, Formação de professores, Educação de crianças de 0 a 6 anos etc). Outros, por sua vez, remetem às conexões de exterioridade entre domínios eminentemente educacionais e práticas sociais outras (Movimentos sociais, sujeitos e processos educativos, Educação e Comunicação, Educação e arte, Educação ambiental, Trabalho e educação, Educação e relações étnico-raciais, Gênero sexualidade e educação, etc).
Argumentamos no sentido de que os diferentes critérios de natureza dos GTs são expressão das próprias tensões, e, portanto, de resistências de pensamento frente aos modos de configuração dos objetos de pesquisa. Nos rastros do pensamento nietzschiano e deleuze-guattariano, afirmamos que tais tensões não são mera questão epistemológica, mas evocam questões de ordem política, na medida em que colocam em cena problematizações sobre os modos de pensamento, questionando a própria maneira como linguisticamente são produzidos, reconhecidos e legitimados os chamados objetos de pesquisa educacional.
Assim, defendemos que a sacralização de problemas como ensino, aprendizagem, currículo, e até mesmo formação, sequestraria a fecundidade da imanência e sua abertura à virtualidade. Parece haver certa recorrência na conversão imediata de problemas de pesquisa em conceitos, situação que fragilizaria a capacidade de criação, quando nos referimos, por exemplo, à seara analítica. De acordo com Deleuze (1992, p. 37-44, grifos nossos):
Por muito tempo eles [os conceitos] foram usados para determinar o que uma coisa é (essência). Nós, ao contrário, nos interessamos pelas circunstâncias de uma coisa: em que casos, onde e quando, como, etc.? Para nós, o conceito deve dizer o acontecimento e não mais a essência. [...] Não se trata em absoluto de reunir tudo num mesmo conceito, mas ao contrário, de referir cada conceito a variáveis que lhe determinem as mutações.
Notemos a radicalidade dessa proposição, na medida em que a convocação à imanência dos conceitos exige, em um mesmo movimento do pensar, a atenção à imanência do próprio acontecimento conceitual. Ora, desse modo, torna-se absolutamente inócuo postular a antecedência de quaisquer objetos ou problemas como condição do pensamento. Em vez da substantivação de um problema, evoquemos sua iminência como verbo. Problematizar seria ato imanente e resistiria à ontologia ou à estruturação de qualquer objeto-problema.
Essa conexão entre conceito e acontecimento parece-nos evidenciar o lugar do método para essa tomada analítica. Na medida em que se trata de recusar as grades conceituais apriorísticas e apreender a singularidade das variáveis na cena cartográfica, estamos nos afastando da metafísica do pensamento e adentrando ao domínio de sua experimentação. Se, como acima afirmou Deleuze (1992, p. 37), “o conceito deve dizer o acontecimento”, o modo de endereçamento metodológico, assim poderíamos dizer, também implicaria uma disposição ao acontecimento, ou seja, demandaria uma abordagem voltada ao eventual, ao incidental, à iminência presente no contingencial.
Essa maneira de conduzir a tarefa investigativa, ao produzir a evanescência dos sacros problemas e conceitos vigentes na pesquisa educacional, incitaria o trabalho de experimentação do pensamento.
Não é objeto do presente estudo adentrar o atual cenário desse debate crítico no âmbito das pesquisas específicas em torno de alvos circunscritos como currículo, ensino-aprendizagem formação, etc., uma vez que visamos exatamente problematizar a postura de circunscrição de tais objetos, ainda que estes sejam abordados a partir de uma crítica pós-estruturalista. Este trabalho alinha-se ao conjunto de pesquisadores contemporâneos em educação que vêm focalizando a discussão sobre pesquisa educacional de modo mais amplo, tendo em vista uma crítica radical da própria linguagem constitutiva das problematizações.
Assim, este estudo busca engendrar outras questões a partir dos trabalhos de Costa (2002a, 2002b) e Costa e Bujes (2005), que buscam trazer à cena novos caminhos investigativos em educação; das provocações para outra política do pensamento, suscitadas por Tadeu (2007); das pedagogias infernais ou das “transcriações” metodológicas conduzidas por Corazza (2002, 2013); dos ensaios de pensamento orquestrados por Tadeu et al. (2004); do convite a uma educação menor disparado por Gallo (2003); da atenção à singularidade do fazer metodológico pós-crítico sustentado por Meyer e Paraíso (2012); da invocação de uma espécie de método cartográfico sugerido por Passos et al. (2012); da incitação às políticas poéticas mobilizadas por Ribetto (2014), entre outros.
Compartilhando das preocupações desses pesquisadores, argumentamos no sentido de que as estratégias outras de endereçamento analítico produzem efeitos radicais em relação às práticas de formação de pesquisadores em educação, sobretudo pelo aporte de criticidade perante problematizações concernentes às formas de produção de conhecimento.
No caso específico de nosso estudo, afirmamos que a imersão em um outro modo linguístico de construção de plataformas de pensamento, bem como de criações metodológicas experienciadas como acontecimento não se restringe a um debate clássico de natureza teórico-epistemológica. Na medida em que discutimos os procedimentos de construção linguística dos chamados objetos de investigação educacionais, estamos invocando os efeitos dessas produções nos processos de modulação das políticas da verdade. Situamo-nos, pois, no núcleo duro dos debates que expõem a condição imanente de linguagem e poder.
Assim, ao vertermos a discussão para uma perspectiva do método como acontecimento, conduzimos a problemática para um território de problematizações eminentemente ético-políticas. Isso se justifica porque, ao pautarmos questões de método, estamos trazendo à cena articulações específicas de linguagem e poder, as quais, por sua vez, definem critérios e procedimentos de validação de verdades educacionais.
Ao evocarmos essa imagem do método como acontecimento, buscamos enfatizar um trabalho analítico de experimentação do pensamento que somente se efetua na imanência. Nesse ato, sequestramos as discussões metodológicas da zona de conforto epistemológica e as arremessamos à arena ético-política da linguagem, uma vez que estamos no cerne da correlação entre modos de pensamento, políticas de verdade e seus efeitos éticos no âmbito das formas de vida aí implicadas.
Em nosso entendimento, tal percurso crítico é estratégico para o campo da filosofia da educação, particularmente no âmbito da formação de pesquisadores, uma vez que estamos nos defrontando com questões que expõem os próprios limites dos modos de pensamento, do ponto de vista analítico, investigativo. Portanto, se no processo de construção linguística dos problemas educacionais, residem complexas relações de poder e veridicidade, faz-se necessário apontar essa dimensão ético-política do gesto do pensar constitutivo das práticas de pesquisa, gesto este que demanda o fomento incansável às possibilidades de criação de outros jogos no pensamento pedagógico.
Referências
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO (ANPed). 2015. Sobre os GTs. Disponível em: http://www.anped.org.br. Acesso em: 10/06/2015.
CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO (CNPq). 2015. Disponível em: http://www.cnpq.br. Acesso em: 10/06/2015.
CORAZZA, S. 2013. O que se transcria em educação? 1ª ed., Porto Alegre, UFRGS/Doisa, 228 p.
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Notas
Autor notes