MOVIMENTOS SOCIAIS EM CENA
Recepção: 15 Março 2019
Aprovação: 25 Julho 2019
Resumo: A investigação apresentada buscou reunir subsídios teóricos e metodológicos para compreender a organização política do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), não somente por intermédio de suas clássicas formas de luta - ocupações e marchas -, mas através da mística, com dramatizações e performances constituintes desse cenário. As práticas performativas apresentadas durante o VI Congresso Nacional (2014) foram estudadas pelo levantamento de dados disponibilizados em diferentes repositórios na internet e pelo uso da etnografia digital. Em linhas gerais, foram analisados os espaços de resistência criados pelos movimentos sociais em sua luta por emancipação no século XXI.
Palavras-chave: MST, Práticas Performativas, Tecnologias Digitais, Reforma Agrária, Mística.
ABSTRACT: This research gathered theoretical and methodological subsidies to understand the political organization of the Landless Rural Workers Movement (MST), not only through its classic forms of struggle – occupation of land and marches –, but also through the mystique with dramatizations and performances forming this scenario. The performative practices presented during the 6th National Conference (2014) were studied by searching the database available in different repositories on the Internet and using digital ethnography. In general, the resistance spaces created by social movements in their struggle for emancipation in the 21st century were analyzed.
Keywords: MST, Performative Practices, Digital Technologies, Land Reform, Mystique.
Résumé: La présente recherche visait à rassembler des subventions théoriques et méthodologiques pour comprendre l’organisation politique du Mouvement des Travailleurs Ruraux Sans Terre (MST), pas seulement à travers ses formes classiques de lutte - occupations et marches - mais aussi à travers la “mystique”, avec des dramatisations et performances constitutives de ce scénario. Les pratiques performatives présentées lors du 6e Congrès National (2014) ont été étudiées en collectant des données disponibles dans différents référentiels sur Internet et en utilisant l’ethnographie numérique. De manière générale, les espaces de résistance créés par les mouvements sociaux dans leur lutte pour l’émancipation au 21e siècle ont été analysés.
Mots-clés: MST, Pratiques Performatives, Technologies Numériques, Réforme Agraire, Mystique.
A Performance no Campo de Luta dos Movimentos Sociais: a mística do MST na luta pela Reforma Agrária Popular
No contexto do século XXI, as sociedades continuam a vivenciar um conjunto complexo de desdobramentos da Terceira Revolução Industrial e que pode ser identificado em vários níveis da estrutura social, econômica, política e cultural. De tal maneira:
Esse sistema tecnológico, em que estamos totalmente imersos na aurora do século XXI, surgiu nos anos 70. Devido à importância de contextos históricos específicos das trajetórias tecnológicas e do modo particular de interação entre a tecnologia e a sociedade, [...] Todos têm algo de essencial em comum: embora baseadas principalmente nos conhecimentos já existentes e desenvolvidas como uma extensão das tecnologias mais importantes, essas tecnologias representaram um salto qualitativo na difusão maciça da tecnologia em aplicações comerciais e civis, devido a sua acessibilidade e custo cada vez menor, com qualidade cada vez maior. Assim, o microprocessador, o principal dispositivo de difusão da microeletrônica, foi inventado em 1971 e começou a ser difundido em meados dos anos 70 (Castells, 1999, p. 91).
Evidente imaginar que o impacto desse conjunto de transformações estruturais seja também observado nas formas de mobilização e ação dos movimentos sociais, com equivalente repercussão no campo acadêmico. De acordo com Gohn (2010), o campo dos movimentos sociais acabaria sendo matizado por diferentes paradigmas explicativos, contudo, cabendo ao pesquisador eleger suas afinidades teórico-conceituais para a compreensão dessa complexidade. Analiticamente a autora destaca as categorias de participação, experiência, direitos, cidadania, exclusão social e identidade coletiva.
O recorte teórico adotado pelo presente trabalho aponta para uma tríade de categorias analíticas. A participação, no sentido atribuído por Gramsci (2000; 2002; 2004; 2005) em seus estudos sobre a relação entre Estado e sociedade civil, aparece como capaz de dialogar contemporaneamente com a concepção de democracia popular. Por sua vez, a categoria de experiência articula-se com o conceito de classe na acepção de Thompson (1984), sendo relacionada com as condições materiais de existência e engendrando uma força motivadora para ação. Por fim, a centralidade da exclusão social se constitui como fulcro para lutas históricas e formas de resistência dos movimentos sociais (Scherer-Warren, 2006; Gohn, 1996). A concepção de movimentos sociais adotada ao longo da pesquisa destaca o sentido de popular, revelado pela abordagem teórica que considera a historicidade das categorias analíticas, situando a performance como o próprio campo e espaço de luta inerente aos movimentos sociais constituídos dentro da realidade latino-americana.
O presente artigo pretende contribuir para uma abordagem ainda pouco desenvolvida no campo de estudos dos movimentos sociais no Brasil: de analisar o papel das tecnologias digitais nas formas de protesto desenvolvidas na sociedade do espetáculo (Debord, 1997). A partir das especificidades e dos desdobramentos relacionados com o caso brasileiro, o trabalho situa o Movimento do Passe Livre (MPL)1 e seu projeto de emancipação política - em torno da Tarifa Zero - como o movimento que originalmente protagonizou os protestos de 2013, as chamadas Jornadas de Junho. Para alguns autores, como Dowbor e Szwako (2013), o MPL potencializaria o sentido de performance, sobretudo ao utilizar metáforas dramatúrgicas em seus protestos contra o aumento de tarifas e pelo direito à mobilidade urbana. Assim, para ambos:
Nessa competição pela interpretação da plateia e por uma reação positiva do público, a performance dos movimentos visa transformar aquilo que é uma plateia desde sempre virtual (seja ela as autoridades estatais, a opinião pública ou quaisquer outras personagens da sociedade civil) em um público espectador cativo, um aliado. Para esse trabalho de convencimento e adesão, os movimentos dramatizam ações, forjando ou emprestando palcos e vitrines e encenando atos que dependem da cooperação entre seus protagonistas (os militantes) e do esforço deles para a perfeição de cada parte do seu espetáculo (a cenografia, a trilha sonora, o figurino) (Dowbor; Szwako, 2013, p. 44-45).
O trabalho buscou situar a categoria performance como instrumento para compreender um leque mais amplo e diversificado de movimentos sociais, tendo como referência um conjunto de autores e de formulações teóricas. A performance2 apareceria como instrumento de mobilização política3, capaz de produzir uma força potencializadora para ação dos militantes, no sentido da mobilização de corpos para a formação de um ativismo político.
É, portanto, diante deste cenário, que consideramos as Jornadas de Junho como performances do corpo social, como performances de anti-arte, como ação urgente na sociedade através de mobilização de corpos, amparados pelo suporte das novas mídias e com objetivos em que arte e vida se conectam, longe da produção de um objeto ou obra, mas no sentido de provocar agenciamentos políticos, ainda que momentâneos (Fornaciari, 2016, p. 37).
Portanto, o desafio de compreender a complexidade do campo dos movimentos sociais poderia ser enfrentado por uma abordagem teórica heterodoxa, composta por categorias analíticas presentes no campo do interacionismo e da teoria crítica - mas que, por continuarem revestidas de rigor acadêmico, permitem fundamentar o movimento incessante do pesquisador em acessar níveis profundos de desvelamento do real.
No processo de recorte do objeto, se partiu da necessidade de compreender a relação dos movimentos de luta pela terra com o Estado. Esses movimentos se constituiriam nas contradições entre a disputa por políticas públicas e a luta pela emancipação - vivenciando uma situação pendular entre avanços e refluxos, entre a conquista e a perda de direitos. Diante disso, nos espaços de luta do século XXI, se concebe e desenha uma mística militante que anuncia novas formas de ação política.
O trabalho de pesquisa buscou subsídios para compreender as possiblidades e contradições no campo das lutas camponesas. Portanto, as formulações de David Harvey (2014), que apontam para a ampliação da noção de espacialidade foram desenvolvidas pelo uso da categoria de lutas permeáveis.
A clara distinção outrora existente entre o urbano e o rural estava desaparecendo aos poucos, dando lugar a espaços permeáveis [...] sob o domínio hegemônico do capital e do Estado. [...] É de conhecimento geral que já está em andamento um grande e diversificado número de lutas e movimentos sociais urbanos (no sentido mais amplo do termo, isto é, aquele que também inclui os movimentos nas zonas rurais) (Harvey, 2014, p. 55-65).
A escolha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) como objeto de estudo se justifica por sua expressividade como movimento social e, sobretudo, pela centralidade da mística na sua organização política, especialmente na luta pela terra e pela reforma agrária. Um caso emblemático para desenvolver estudos das práticas performativas como formas de luta dos movimentos sociais, nas quais o rural e o urbano apareceriam como lutas integradas para a emancipação dos trabalhadores e das classes populares.
A mística congregaria um sentido, originalmente religioso, de ritos que celebrariam o mistério da fé e se anunciariam como capazes de religar corpo e alma, produzindo motivações profundas no espírito. O sentimento religioso, de uma espiritualidade profunda, intensa e enraizada, também poderia assumir um sentido político. A sociabilidade camponesa personificaria essa mediação entre a experiência religiosa e a organização política - sendo que a própria trajetória de constituição do MST marcaria esse vínculo.
A história de surgimento do MST em 1984 envolveria um processo anterior de mobilização dos camponeses durante a Ditadura civil-militar4. A ocupação da Encruzilhada Natalino (1981), realizada por cerca de 600 famílias, pode ser considerada um marco simbólico da luta pela terra no Brasil, de resistência contra o autoritarismo e de organização desses trabalhadores em torno da redemocratização do país. Nesse contexto, Gaiger (1987) descreve o surgimento da mística, instituída pela relação entre agentes religiosos originários da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e os acampados.
Os estudos realizados por Coelho (2017)5 indicam que as primeiras publicações (MST, 1991, p. 2) sobre a mística do MST somente surgiram no ano de 1991 e tinham como propósito problematizar ideias e valores fundamentais do Movimento. O autor tece considerações sobre o sentido da mística encontrado em alguns outros textos internos - conhecidos como Cadernos Vermelhos. Uma pesquisa feita no portal Armazém Memória (1998), com ferramentas de busca on-line, revelou outro importante documento: o Caderno de Formação (27), intitulado Mística: uma necessidade no trabalho popular e organizativo - com textos de autores como Boff, Bogo e Peloso.
Se os movimentos sociais têm sido espaços de organização das lutas emancipatórias e de formação dos sujeitos dessa transformação, a performance sintetizaria o próprio campo e espaço de luta. No caso do MST, a mística expressaria o embate em sua multiplicidade de dimensões, sendo marcada pela radicalidade orientada para universalizar a luta pela Reforma Agrária Popular - nos acampamentos e assentamentos, nas marchas e ocupações, no campo e nas cidades, nas ruas e nas redes sociais. Em todos os espaços de formação das subjetividades políticas de sua militância.
Aspectos Metodológicos do Trabalho: a etnografia digital e a análise crítica do discurso (ACD)
No campo das Ciências Sociais, o método etnográfico representaria a escolha mais evidente do pesquisador para compreender a performance. Partindo dos debates promovidos por uma específica publicação digital6, se propõe situar a mística do MST no campo dos estudos da cultura em performance e da ação dramatúrgica de cunho político.
O fio condutor partiu de uma ancoragem da mística fora de sua expressão presencial, na medida em que o trabalho de pesquisa analisou a narrativa representada no vídeo oficial do VI Congresso Nacional do MST7. O material audiovisual permitiu tecer algumas considerações sobre a mística do Movimento e sua relação com a mobilização política, considerando o conjunto de ações performáticas em destaque no vídeo. A abordagem adotada demonstrou as potencialidades da internet como repositório de memória e como fonte privilegiada de dados - sobretudo para o estudo de expressões performáticas que estejam fora de sua manifestação de sincronicidade com o pesquisador.
No campo das Ciências Sociais, especialmente da Antropologia, a observação participante foi largamente utilizada como instrumental metodológico para o estudo de ritos. Diante do descompasso de temporalidade entre a mística e o trabalho de pesquisa, foi necessário partir da concepção geral de netnografia (Kozinets, 2014), como um tipo especial de etnografia realizado pela mediação do computador. No Brasil, pesquisadores (Fragoso; Recuero; Amaral, 2011) costumam adotar a expressão etnografia digital (Hine, 2009) - pesquisa realizada no ambiente virtual -, mas considerando os protocolos mais gerais da técnica etnográfica original. Assim, o exercício de observação e descrição da mística representada no vídeo buscou capturar o sentido de formação das subjetividades políticas.
Todavia, no vídeo pouco se conseguiu enxergar dos bastidores8, até porque a preparação para um evento desse porte costuma acontecer com muito tempo de antecedência9. Por ser reconhecidamente produto de um trabalho de edição de imagens, a própria estruturação entre palco e vitrine recebeu outros contornos. Ao analisar um material com essa caracterização, o pesquisador precisa reconhecer a intrincada relação entre interação direta e virtual. Esse fato produz implicações sobre os significados políticos produzidos por esses sujeitos na construção de sua história e, ao mesmo tempo, indica um recorte político do objeto na construção da narrativa do vídeo.
O palco do evento montado pela edição do vídeo não pode ser visto e entendido, em sua essência, como o exatamente igual ao vivenciado pelos militantes e convidados presentes na ocasião. E, mesmo para os presentes, o palco poderia ter tomado a forma de uma vitrine de valores e princípios relacionados com a questão central do evento: discutir a Reforma Agrária Popular.
O levantamento de dados para o trabalho foi realizado em dois espaços específicos do MST. No site oficial, especificamente no item Nossa História (MST, 2014b); e no canal do MST no YouTube, considerando o material audiovisual do VI Congresso Nacional do MST10 (2014c). Metodologicamente, se buscou informações sobre o evento no formato de dados abertos11, disponíveis nos espaços virtuais de sociabilidade política do Movimento. A escolha do Congresso Nacional do MST, como substrato analítico privilegiado, ocorreu exatamente por simbolizar um momento emblemático de natureza coletiva, sendo o último grande evento que reuniu militantes de várias partes do Brasil e do mundo - nesse caso também para celebrar os 30 anos do Movimento. Em função de orientar o viés político do Movimento e por consolidar a linha política para o período seguinte, caberia concluir que as práticas performativas instituídas nesses espaços sintetizariam valores e princípios contidos no cotidiano de organização e luta política do MST.
A Análise Crítica do Discurso (Fairclough, 2001) representou uma importante ferramenta metodológica para denotar o papel da linguagem no desvelamento das mudanças sociais em curso. O trabalho utilizou as seguintes categorias propostas pelo autor: entidade-chave, posicionamento dos sujeitos sociais e mudança histórica. Assim, ao analisar as expressões da mística por intermédio do vídeo, se tornou inequívoco caracterizar os efeitos construtivos da linguagem - nos sentidos identitário, relacional e ideacional. Para o autor, o discurso contribuiria para “[...] moldar as identidades sociais, construir e negociar as relações sociais e criar sistemas de conhecimento e crença” (Fairclough, 2001, p. 92).
Nessa mesma linha, se entende o discurso como prática política que estabelece relações de poder, internas e externas, além de comunicar um projeto político de mudança social - como o projeto de Reforma Agrária Popular. Enfim, o discurso como prática social, também presente na mística, revela uma luta hegemônica, com vários níveis de embate e confronto. Reforçam-se alianças táticas, dentro dos pressupostos de construção de redes de mobilização e ação, no intrincado jogo de composição e estruturação do poder popular.
No espaço do site, o MST assume uma forma autorreferenciada e peculiar de reconstruir sua própria história (MST, 2014a), destacando alguns marcos temporais e conjunturais na luta pela terra e na construção da reforma agrária no Brasil. A defesa da democracia aparece como valor fundamental, que se articula com a crítica da ditadura, acionando a memória de momentos históricos de luta12 e de massacres13.
Analisando Elementos da Mística no Vídeo do VI Congresso Nacional do MST
A abordagem teórica da mística partiu de uma tríade de categorias analíticas - participação, experiência e exclusão social -, usada para compreender o sentido das práticas performativas na formação da sociabilidade política. Nessa mesma linha, Caldart (2001; 2004) e Bogo (1999; 2008; 2011), dois destacados intelectuais orgânicos ligados ao MST, apontavam a luta contra a exclusão social como aspecto marcante da história de formação do MST. De tal maneira, os sujeitos históricos de transformação social tomariam o enfrentamento como a principal tática de luta - saindo do escopo acadêmico, o mesmo Bogo expressaria essa perspectiva na letra do hino do MST escrita por ele.
A análise da mística permitiu recuperar a profunda carga simbólica das ações coletivas, exatamente por ser capaz de externalizar concepções políticas e ideológicas do MST. Sendo assim, a potente relação entre a mística e a mobilização política criou um encadeamento consistente para a pesquisa. O uso da categoria performance representou uma chave de leitura da mística do Movimento, no sentido de compreender a mobilização de corpos para a formação de um ativismo político e para a ação dos movimentos sociais.
As estratégias utilizadas para mobilizar a audiência no vídeo do VI Congresso do MST (Imagem 1) se intercruzam em diferentes formatos. Assim, o trabalho buscou sistematizar as informações, descrevendo e analisando a realidade em três níveis conjugados: a) pontuando os principais tipos encontrados, como encenações e dramatizações, jograis, músicas, poesias, legislação, dados estatísticos, painéis, grandes murais e cartazes; b) agregando com aspectos da mística e sua relação com a mobilização política da militância; c) correlacionando com depoimentos das lideranças do Movimento14.
A luta por direitos constituiu um tema central e recorrente no site e no vídeo, aparecendo como herdeira da questão da redemocratização - exatamente por representar um valor que se confunde com a própria origem do MST. Portanto, a abordagem encontrada no material se diversifica dentro dessa linha temática, inclusive assumindo formatos distintos, embora discursivamente complementares.
Tomando como tema o painel principal do Congresso, o vídeo destaca uma sequência de imagens para problematizar a destruição do Código Florestal e da Constituição, enfatizando a atuação predatória de algumas corporações frente ao conjunto de documentos que ampara a luta pela terra no Estado Democrático de Direito. O recurso de câmera acionado na edição de imagens - de uma panorâmica, para mostrar detalhes - intenciona ressaltar a relação direta entre o projeto de agricultura de determinadas empresas ligadas ao agronegócio - Monsanto, Cargill, Bunge, Syngenta, Bayer, Dow AgroSciences - e a destruição da legislação brasileira (Imagem 2).

Na mística de abertura, vários militantes ocupavam o centro do ginásio com suas camisetas de cor preta, com a seguinte frase de Thiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar”15 (Imagem 3). Na verdade, o trecho se refere a uma poesia chamada Madrugada camponesa, escrita em 1965, em plena Ditadura civil-militar. Os versos discorrem sobre o sofrimento vivido nos anos de chumbo, mas sem perder de vista a utopia de transformar o mundo.

Para além da questão dos direitos sociais e da liberdade, a leitura do poema também indica um princípio característico dos movimentos sociais: a organização em redes. No campo de estudos acadêmicos envolvendo a temática, Gohn (2010) contribuiu para mapear os movimentos sociais organizados em rede e para compreender a construção de redes de mobilização - associações civis, ONGs, fóruns, plenárias, articulações nacionais e transnacionais. Por sua vez, Scherer-Warren (2006) apontava uma reflexão para esferas de mediação alocadas nas redes de movimento, criadas para gerir o tensionamento constantemente vivenciado pelos movimentos sociais na sua relação com o Estado.
Retomando a realidade social nos termos da categoria de redes de mobilização (Gohn, 2010, p. 39), a Comissão Pastoral da Terra (CPT)16 comporia um grupo com uma patente proximidade ideológica com o MST. Na sua origem, a mística do MST foi constituída por elementos religiosos, como a bíblia e a cruz. Todavia, no texto do site oficial, atualmente a simbologia da mística do MST se revestiria da força de símbolos de resistência e luta: o hino e a bandeira, além da lona preta. De algum modo, a relação entre religião-política desponta em ambos os grupos, sendo a própria mística originariamente resultante dessa intrincada combinação. Para Coelho (2017), as místicas fariam uma fusão entre referências de natureza religiosa-revolucionária e intelectual-militante.
Uma pesquisa na internet, com ferramentas de busca, revelou uma organicidade entre o MST e a CPT. A afinidade se expressa pelo alinhamento ideológico dos eventos promovidos pelas duas organizações no ano de 2014, inclusive usando a mesma obra de Thiago de Mello. A CPT organizou seu IV Congresso, com o tema Memória, rebeldia e esperança dos pobres do campo. De forma muito contundente, a poesia presente na mística do MST constituiu também o lema do encontro organizado pela Pastoral da Terra, além de constar na capa e ao final do Boletim17 que anunciava o evento. Na mesma publicação, além de temas presentes no cotidiano de debates do MST - como o assassinato de trabalhadores rurais, casos de trabalho escravo contemporâneo, produção orgânica e agroecológica, além de conflitos agrários generalizados - também se poderia encontrar uma matéria sobre os 30 anos do MST.
Para além do componente religioso, a mística se expressa por diferentes linguagens: combinando um jogral teatralizado com dados estatísticos. Uma dupla de militantes inicia uma leitura dramatizada, com uma representação de temporalidade - de um passado mítico de guerrilhas e batalhas, envolvendo sofrimento e impunidade. As marchas, como formas emblemáticas de luta do MST, moldam os corpos militantes que, com suas palavras e ideias, organizam as lutas do presente e preparam para vitórias no futuro, pleno de direitos e liberdade.
Aqui temos um passado e um presente. E na luta está o nosso futuro! Todos os que morreram no sangue, permaneceram vivos na lembrança. Todos os gritos que ceifaram o silêncio da impunidade e ecoaram do alto da guerrilha, hoje são as nossas canções de liberdade. Todos os corpos que encheram os campos de batalha, hoje são os pilares da nossa luta. As palavras exiladas, hoje são os caminhos das nossas ideias. [...] Só se é permitido descansar quando a luta de nossos mortos se realizar, porém inteira, não pela metade (Débora MST-AL, no vídeo oficial do 6° Congresso Nacional do MST) (MST, 2014c).
Na sequência, alguns dados referentes ao ano de 2013 são apresentados na tela do vídeo: o uso exacerbado de agrotóxicos; o monopólio da produção e comércio agrícola por parte de 30 empresas transnacionais; o favorecimento do agronegócio, em detrimento da agricultura camponesa; além da concentração de terras.
A dramaticidade da mística ganha intensidade quando se encena um embate entre as forças coercitivas policiais e os camponeses. A tensão da música de fundo acompanha esse momento, a partir do qual algumas imagens de repressão são intercaladas com a representação do conflito. As cenas seguintes incluem um enfrentamento concreto ocorrido durante o próprio evento. No embate entre os militantes e a polícia aparecem faixas: 1600 camponeses assassinados! Cadê a Justiça? - Lutar, construir a Reforma Agrária Popular. Para finalizar a dramatização, um casal entra em cena com um bebê coberto de sangue.
Ao mesclar teatralização com dados estatísticos, a subjetividade encarna a vivência da desigualdade e da exploração, dialogando com informações concretas e dados sobre o número de camponeses assassinados. Ao utilizar cenas de uma marcha promovida durante o Congresso de 2014, o vídeo integra a temporalidade da mística com as lutas concretas feitas pelo MST no espaço público e em torno da justiça social. A faixa anuncia a situação de violência no campo e, ao mesmo tempo, sedimenta pontos centrais para o projeto de Reforma Agrária Popular: a denúncia do uso exacerbado de agrotóxicos e da fragilização de um projeto de educação para o campo18.
Retomando a fala dramatizada pelo casal de jovens, cabe destacar um reforço simbólico da narrativa de corpos marcados por gritos e sangue. A prerrogativa de uma luta inteira, serve para nutrir os ânimos na luta organizada. E se ajusta ao reconhecimento de direitos para todos. Logo, Só se é permitido descansar quando a luta de nossos mortos se realizar, porém inteira, não pela metade.
A temporalidade da luta, entre passado e presente, recupera a discursividade do corpo. A utopia dos campos de batalha, visando a conquista da liberdade, pretende catalisar uma marcha para a vitória contra a opressão e a exploração. E mesmo o sentido de religiosidade da mística ressurge pela ideia hibridizada entre corpo e sangue - concepção muitas vezes constituída no ordenamento do rito religioso e na organização da luta política.
Como já foi apontado, autores como Dowbor e Szwako19 (2013) enfatizam dois aspectos importantes na configuração da luta dos movimentos sociais: a dramaticidade e a vitimização performatizada pelos militantes como estratégia de reconhecimento de direitos.
Na base do continuum vitrine-palco opera um gradiente de violência que vai das dinâmicas apenas tácitas de tensão a formas abertas de conflito físico. [...] trazendo à tona sua capacidade de articular diversos e numerosos atores [...] trabalho dramático de martirização e que a violência dramatizada exige vítimas, de modo que o poder dessa dramatização depende de como ela é comunicada e encenada [...] o recurso à violência não é, por si só, uma estratégia desse movimento: é, antes, uma modalidade de interação pela qual e a partir da qual os militantes se representam como personagens ‘vítimas’, isto é, vitimizados e antagonizados por ‘vilões’ (Dowbor; Szwako, 2013, p. 50-54).
Por esse viés analítico, a violência se anuncia como forma de sociabilidade, acionada para realçar o sentido de martirização dos militantes e do Movimento, que, assim, se investem de força coletiva para enfrentar seus oponentes (Imagem 4). A representação de um trecho da poesia escrita por Pedro Tierra se revelou como um dos momentos mais densos da mística, sobretudo pelo tom carregado de emotividade. A pedagogia dos aços20 foi escrita exatamente para denunciar o massacre dos trabalhadores sem-terra em Eldorado dos Carajás21 (1996). Assim, o recorte pontual e preciso da frase, Se calarmos, as pedras gritarão22, reforça a memória e a identidade social da militância, convocando para a luta coletiva.
Diante da importância estratégica do MST para a condução da luta dos movimentos sociais na América Latina, a data do massacre de Eldorado dos Carajás, 17 de abril, acabou sendo indicada pela Via Campesina23 como o Dia Internacional da Luta Camponesa. Os Massacres de Eldorado dos Carajás, Corumbiara e Felisburgo representam capítulos emblemáticos na história do Movimento. No site do MST24 e no vídeo analisado há pontos que caracterizam uma narrativa dramática desses episódios violentos, pela via da martirização.
A ênfase dada aos massacres pelo MST, como linha narrativa para contar sua história, parece ser melhor entendida quando se aplica o princípio dramático de martirização, descrito por Dowbor e Szwako (2013, p. 54). Os autores destacam a dinâmica da estrutura social que estabelece uma relação conflituosa entre os movimentos sociais e as forças coercitivas, agindo como elemento de tessitura da identidade coletiva. A memória coletiva de um passado de militância se reaviva por histórias de luta, resgatadas para alimentar o presente e reativar a chama para novas lutas - inspirando a mobilização em torno de causas políticas mais amplas.
A simbologia construída ao longo dessa trajetória - presente nas marchas, ocupações e outras formas de ação direta inerentes ao contexto de luta do MST - acaba também sendo vivenciada no cotidiano de acampamentos e assentamentos, e em outros espaços mais amplos de interação social do Movimento. Na interface entre a política e a religião, o MST reconstrói sua memória por intermédio da mística, colocando-se como herdeiro de lutas históricas, prefigurando uma “verdade histórica” (Fernandes; Stédile, 2005) ou mesmo criando uma visão messiânica e sacralizada, uma “densidade mítica” (Chaves, 2000).
A prática da mística acompanha a organização do MST desde suas primeiras mobilizações, e teve como principais incentivadores os ‘agentes religiosos’ que apoiavam e prestavam assessoria ao Movimento. A mística é uma ‘espécie’ de ritual e celebração que acontece de diversas maneiras e com significados e sentidos variados. Sua prática dá‐se nos mais variados lugares, como nos acampamentos, assentamentos, Encontros, Congressos e nas diversas manifestações que o MST empreende. De maneira geral, é praticada em forma de teatro, contendo músicas, poesias e diversos elementos simbólicos em seu interior (Coelho, 2017, p. 120).
A mística do MST cumpre esse papel, nos diferentes espaços - de acampamentos e assentamentos, nas ações diretas e mobilizações virtuais, nas ocupações e vigílias, nos Encontros e Congressos -, constituindo e alimentando a relação entre os corpos e os saberes, conjugadamente acionados nas situações de conflito e embate. A bandeira e o hino representam elementos originários da luta pela terra, abrigando valores e princípios revestidos de uma identidade visual e simbólica que perpassa vários momentos. Ambos aparecem como instrumentos mobilizadores da militância camponesa, na formação da identidade coletiva e da sociabilidade política.
Enquanto a bandeira resguarda os símbolos da luta, o hino conclama a base de militantes para a construção do poder popular. De acordo com a narrativa do site, a mística também incluiria a lona preta, como elemento distintivo de construção da identidade do trabalhador sem-terra. Caracterizando-a como um rito de passagem, entre a condição de acampado para a de assentado; entre a luta cotidiana, contra o latifúndio, a exploração e a desigualdade; e a luta pela reforma agrária, incluindo a mudança do modelo de agricultura e de sociedade.
Em sua complexidade a mística aparece, ao mesmo tempo, como ato cultural de representação das lutas e esperanças dos trabalhadores sem-terra; forma de animar os militantes, desgastados com a repressão, a opressão e a exclusão; resgate do propósito da luta pela terra e do legado dos militantes e lideranças mortos.
No entanto, motivar a luta significa também identificar o oponente. Durante grande parte da trajetória do MST o latifúndio encarnou o principal inimigo, sobretudo por conta da histórica permanência da estrutura fundiária de concentração de terras no Brasil. Mais recentemente se observa uma significativa mudança no discurso e na retórica de identificação do oponente: transfigurado no capital internacional, no agronegócio, no Estado burguês e na grande mídia. O depoimento abaixo reforça essa visão das lideranças, com impactos sobre a militância.
Enfrentamos o poderio do capital sem pátria, sem povo e entreguista. O capital internacional, o agronegócio. O Estado burguês e oligarca. Uma mídia burguesa e preconceituosa. Mas nesses 30 anos também tivemos conquistas. Com a experiência do passado e a esperança de um futuro liberto. Em nome dos trabalhadores e trabalhadoras sem-terra desse país declaramos aberto o 6º Congresso Nacional do MST (Diego MST-PR, no vídeo oficial do 6° Congresso Nacional do MST) (MST, 2014c).
O roteiro de exibição do vídeo fornece suporte para aprofundar esse debate, ao discutir as relações sociais que permeiam o cenário de disputa por um projeto de agricultura para o campo brasileiro. Durante as dramatizações, o capitalismo é descrito como o maior trem do mundo - visto como a grande máquina (Imagem 5), capaz de destruir vidas e sonhos.

A narradora proclama que “o maior trem do mundo com suas engrenagens subtrai o tempo, a infância e a vida...Com muita miséria e destruição...Lá vai o maior trem e um dia não voltará”. Com machados nas mãos, repetem várias vezes: “Pancada de arrepio”. Posteriormente, no vídeo, alguns camponeses vestidos a caráter aparecem deitados no centro do ginásio, enquanto ouvem a repetição da frase “Arrepio, de pancada”25. O trem ganha materialidade e movimento com a formação de uma fileira de pessoas com roupas e guarda-chuvas, igualmente pretos, que são girados para acionar os mecanismos do maior trem do mundo.
A leitura teatralizada assume um tom dramático ao apontar os efeitos mais perversos do sistema capitalista - miséria, destruição e morte. Efeitos devastadores como forma de produzir sangue e dor, atingindo o corpo. Assim, o corpo pode ser situado como esfera, ao mesmo tempo, mais íntima e coletiva do militante em sua luta pelo reconhecimento de seus direitos. No conjunto desses efeitos nefastos, emerge o modelo de agricultura adotado pelo agronegócio, que se utiliza de agrotóxicos e sementes transgênicas para aumentar a produtividade, dentro de um contexto de lucro e exploração.
Na mística da colheita e do plantio, os valores da Reforma Agrária Popular despontam de forma contrastiva ao modelo do grande capital. Na representação se reproduz uma cena rural, com a presença de vários militantes do MST vestidos com suas camisetas e bonés vermelhos (Imagem 6). O fundo musical é composto pela cantoria do trecho de uma canção: “Amar o campo ao fazer a plantação. Não envenenar o campo é purificar o pão. Amar a terra e nela botar semente, a gente cultiva ela e ela cultiva a gente”.

Mesmo que o capitalismo continue habitando as narrativas como grande opositor, há uma ressignificação discursiva para indicar seu oponente mais direto: o agronegócio. Parece evidente pensar a organicidade entre o modelo capitalista de produção, em combinação com o modelo de produção do agronegócio, inspirado na Revolução Verde, como os principais inimigos a serem enfrentados pelo projeto de Reforma Agrária Popular do MST.
A essência da reforma agrária é começar repartindo a terra. Mas a reforma agrária que defendemos tem outros pilares além da terra: a produção de alimentos sadios. Essa é a mudança ideológica, porque antes bastava a terra para o trabalho dos camponeses. Agora os camponeses querem terra para produzir alimentos saudáveis para todo povo. Essa mudança ideológica que define o caráter popular da nossa reforma agrária: a Reforma Agrária Popular (João Pedro, MST, no vídeo oficial do 6° Congresso Nacional do MST) (MST, 2014c).
Assim, o Projeto de Reforma Agrária Popular se sustenta em princípios da agroecologia e na produção de alimentos saudáveis, propondo a soberania alimentar para a população. O sentido de mudança ideológica estaria relacionado com o enfrentamento do agronegócio e do capitalismo, pela via do Socialismo e do Poder Popular.
A agroecologia se coloca dentro do nosso projeto. Nosso projeto rumo ao socialismo. Um projeto de transformação social. Uma alternativa importante para os camponeses, com o objetivo de produzir alimentos saudáveis, mas também como enfrentamento do modelo do agronegócio, uma agricultura perversa que está sendo colocada, sendo financiada pelo Estado e pelos governos (Antônio, MST-TO, no vídeo oficial do 6° Congresso Nacional do MST) (MST, 2014c).
A Reforma Agrária Popular representaria um momento de mudança ideológica, de organização da produção pela via da agroecologia, como viés de soberania alimentar. De um projeto para autodeterminação e politização dos subjugados, incluindo o consenso ativo pela subjetividade social e pela luta coletiva.
Considerações Finais no âmbito da Análise Crítica do Discurso
No caso do MST, a mística representaria parte significativa das práticas de mobilização e ação, agregando formas clássicas de luta mescladas entre dois modelos emblemáticos: marcha-ocupação. Em linhas gerais, emergem novas formas de solidariedade e de valorização da vida, como substratos para a sociabilidade política e a formação militante. Assim, as performances encenadas pelos militantes acionariam valores simbólicos de construção da identidade camponesa, pela mediação de ritos, canções e hinos, convocatórias e palavras de ordem.
A análise do discurso26 de alguns militantes e lideranças revela que o grande embate do MST não acontece com o latifúndio, mas com o setor financeiro e os bancos, as transnacionais e os grandes meios de comunicação. O capitalismo se transfigura e assume a identidade do agronegócio, com suas formas de dominação e exploração. E, no embate contra esses opositores, representantes da hegemonia capitalista, a luta pela terra congregaria a transcendência da propriedade privada, o fortalecimento da educação popular e um sentido de solidariedade internacional.
A emancipação dos trabalhadores envolveria um duplo processo: de destruição das estruturas, para a formação política de sujeitos; e de conformação para um novo projeto de sociedade. De tal maneira, a performance apareceria como instrumento de mobilização política, capaz de produzir uma força mobilizadora de subjetivação da ação política na ação dos militantes. Partindo do lema do Congresso27, a Reforma Agrária Popular representaria a entidade-chave na estruturação do discurso político do MST - constituído pela soberania alimentar, agroecologia, alimentos orgânicos e agricultura familiar. Ao mesmo tempo, revelaria o posicionamento dos sujeitos sociais de embate com o agronegócio, em função do uso de sementes transgênicas e agrotóxicos. E desvelaria o sentido da mudança histórica: a Democracia Popular como forma ressignificada do Socialismo.
A emancipação decorreria da construção de uma nova hegemonia política, econômica e cultural, por parte dos trabalhadores historicamente excluídos da riqueza socialmente produzida. A performance trazida na mística agiria no sentido de prefigurar e alicerçar um tipo muito característico de subjetividade descrito por Semeraro (2006). Uma subjetividade ético-política, ao mesmo tempo individual e coletiva, capaz de instituir a ação de novos sujeitos sociopolíticos. Para o autor, um nível mais profundo da análise do discurso deveria estar combinado com o uso de categorias específicas, dialeticamente relacionadas com mudanças políticas e ideológicas.
Primeiro, no nível das mudanças históricas em conjugação com avanços científicos e tecnológicos. As mudanças estruturais propostas dentro do projeto de Reforma Agrária Popular ganhariam significado no cerne de um movimento complexo: pela recuperação e atualização do legado de luta política do MST e na defesa da cultura camponesa; pela organização da classe trabalhadora em sua luta de massas, agregando campo e cidade; pela produção agroecológica; pela ênfase nos direitos sociais, como saúde e educação; no enfrentamento do latifúndio, atualizado na figura do agronegócio. Por fim, na conformação de uma alternativa política socialista, encarnada no Poder Popular.
Segundo, na correlação entre frentes de luta em sua multiplicidade, além do Estado em sua complexa atividade. A luta organizada, em seu viés de classe, sendo constituída em torno dos embates com a estrutura capitalista vigente - o agronegócio, os banqueiros e rentistas, as transnacionais, além dos oligopólios de comunicação. Discursivamente, o MST aponta para o enfrentamento de um conjunto afinado de estruturas e entidades de manutenção da hegemonia burguesa, sobretudo pela formação de uma frente internacionalista de trabalhadores.
A mística apareceria como mobilizadora do projeto de Reforma Agrária Popular, como prática social em construção, tendo um vínculo profundo com a democratização das estruturas sociais e a emancipação dos trabalhadores do campo e da cidade. Especialmente em uma conjuntura política de retrocessos, a mobilização dos corpos, para a organização política e para a luta coletiva, assume um papel crucial para enfrentar o esfacelamento no campo dos direitos e garantias sociais. No horizonte mais próximo, a Reforma Trabalhista (2017) e a Reforma Previdenciária que se avizinha. O assédio das grandes corporações e do capital transnacional sobre a Saúde e a Educação públicas. As mortes violentas não somente de trabalhadores sem-terra em luta, mas também de mulheres, negros, indígenas, quilombolas, populações lgbt, sindicalistas, defensores de direitos humanos, moradores das periferias, dentre outros grupos perseguidos e marginalizados na sociedade.
O cenário se torna ainda mais agudo e desafiador, com a ameaça de grupos conservadores, com lastro de bancadas poderosas no Parlamento, em tipificar como terrorismo a ação dos movimentos sociais. A formação de um complexo de sujeitos coletivos de inspiração fascista, responsável por uma intimidação ameaçadora - em conjunto com a flexibilização do Estatuto do Desarmamento e o livre trânsito de milícias pelo poder instituído do Estado, sem a devida coerção por parte das estruturas de controle, como as forças policiais e o Judiciário -, precisa ser enfrentada com coragem e resistência por setores progressistas, acadêmicos e movimentos sociais.
Analisar o sentido e a profundidade das mudanças instrumentalizadas pelo MST, em mais de três décadas de luta, permite revelar o potencial emancipatório da mística, na perspectiva da transcendência dos processos estruturais de dominação e alienação. Portanto, uma prática performativa entendida como forma insurgente de luta política. Nesse cenário, os versos do hino do MST anunciam o propósito de mudança social: forjada na luta de uma pátria livre, operária e camponesa. Eis o grande desafio para o MST e para as forças populares e progressistas: instaurar uma mudança histórica, aportada na radicalização da Democracia pelo Poder Popular.
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Notas
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