Artigo

Serendipidade na Ciência da Informação: principais autorias e eixos temáticos

Serendipity in Information Science: main authorships and thematic axes

Alessandra Stefane Cândido Elias da Trindade
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Alzira Karla Araujo da Silva
Universidade Federal da Paraíba, Brasil
Henry Poncio Cruz
Universidade Federal da Paraíba, Brasil

Serendipidade na Ciência da Informação: principais autorias e eixos temáticos

Em Questão, vol. 30, e-136581, 2024

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Received: 04 November 2023

Accepted: 29 March 2024

Resumo: Objetiva identificar os principais autores e eixos temáticos associados aos estudos de serendipidade na Ciência da Informação. Para atingir o objetivo, foi realizada uma pesquisa bibliográfica na Web of Science e na Base de Dados em Ciência da Informação, 53 documentos foram recuperados e analisados, o software VOSviewer foi utilizado para gerar a rede de coautoria e a rede de co-ocorrência de palavras-chave, ambas as redes foram analisadas por meio de Análise de Redes Sociais. Os resultados mostram que na Ciência da Informação a serendipidade tem sido abordada no contexto de comportamento informacional, busca de informação, aquisição de informação e frequentemente associada à descoberta de informação, mas há estudos que abordam esse fenômeno em outros contextos. Nas considerações finais, sugere-se que, na literatura nacional em Ciência da Informação, quando o conceito serendipidade for abordado como uma experiência de descoberta de informação, estes termos sejam utilizados: infoserendipidade ou serendipidade informacional.

Palavras-chave: Serendipidade, descoberta de informação, análise de redes sociais, comunicação científica.

Abstract: Aims to identify the main authors and thematic axes associated with studies on serendipity in Information Science. To achieve this goal, a bibliographic search was conducted on Web of Science and the Base de Dados em Ciência da Informação. Fifty-three documents were retrieved and analyzed. The VOSviewer software was used to generate the co-authorship network and the keyword co-occurrence network, both of which were analyzed using Social Network Analysis. The results show that in Information Science, serendipity has been addressed in the context of information behavior, information seeking, information acquisition, and often associated with information discovery, but there are studies that address this phenomenon in other contexts. In the final considerations, it is suggested that in the national literature in Information Science, when the concept of serendipity is approached as an experience of information discovery, the terms “infoserendipity” or “informational serendipity” be used.

Keywords: Serendipity, information discovery, social network analysis, scientific communication.

1 Introdução

A serendipidade, enquanto experiência de descoberta de informação, desempenha um importante papel na forma como as pessoas descobrem, exploram, aprendem, criam e inovam, pois essa experiência pode impulsionar a geração de novas ideias, de novos conhecimentos e de pesquisas inovadoras (Björneborn, 2017; Sun; Sharples; Makri, 2011; Trindade; Vechiato, 2022). Os ambientes de informação, sejam analógicos ou digitais, podem ser projetados para promover experiências de serendipidade, o que amplia a possibilidade de os usuários satisfazerem as necessidades informacionais primárias e secundárias. Ademais, compreender a serendipidade é importante para aprimorar mecanismos voltados à encontrabilidade da informação, no que tange à descoberta de informação.

Contudo, o constructo serendipidade, embora importante para os estudos de informação, é abordado de forma incipiente na literatura brasileira em CI. Frente ao exposto, surge esta questão de pesquisa: Como e por quais autores a serendipidade tem sido abordada e desenvolvida na produção científica em Ciência da Informação (CI)?

Este estudo objetiva identificar os principais autores e eixos temáticos associados aos estudos de serendipidade na CI e representa uma contribuição teórica ao referido campo ao abordar um conceito incipiente na literatura nacional.

Evidencia-se que, para atingir o objetivo elencado, a produção sobre serendipidade indexada pela Web of Science (WoS) e pela Base de Dados em Ciência da Informação (Brapci) foi analisada. Ademais, os principais autores foram identificados ao analisar a rede de coautoria e os principais eixos temáticos ao analisar a rede de co-ocorrência de palavras-chave e os textos recuperados nas buscas realizadas nas bases de dados ora citadas.

2 Serendipidade

Serendipidade é a tradução do termo serendipity, este cunhado na língua inglesa por Horace Walpole1, em 1754, em uma carta que descrevia como os personagens-título do conto “Os três príncipes de Serendip” faziam frequentemente descobertas, por acidente e sagacidade, de coisas que não estavam procurando. Walpole propõe “serendipity” como uma denominação adequada para tais descobertas, utilizando serendip como raiz da nova palavra. A palavra serendipity se popularizou na década de 1880, após a publicação das cartas de Walpole. Mas foi Cannon (1945) que forneceu um tratamento mais formal ao termo serendipity, e, devido a essa publicação, o termo passou a ser associado à descobertas científicas (Carr, 2015; Erdelez; Makri, 2020; Foster; Ellis, 2014; Liestman, 1992).

O significado de serendipidade mudou ao longo do tempo, distanciando-se da concepção original concebida por Walpole. Hoje, significa, principalmente, descoberta acidental de qualquer coisa (informações, pessoas, recursos, soluções) (Carr, 2015; Björneborn, 2017; Dantonio; Makri; Blandford, 2012). Ressalta-se que o referido conceito tem sido estudado por diferentes campos do conhecimento.

Na CI, o termo serendipidade costuma ser usado para abordar o fenômeno da descoberta de informação, como apontam as definições de serendipidade apresentadas no Quadro 1.

Quadro 1 -
Definições de serendipidade no contexto da CI
Definições de serendipidade no contexto da CI
Fonte: Elaborado pelos autores.

Ressalta-se que uma experiência de serendipidade costuma ser agradável e desencadear uma resposta emocional positiva à pessoa que a vivencia (Carr, 2015; Agarwal, 2015).

No contexto internacional das produções em CI, há diferentes perspectivas sobre a descoberta de informação. Agarwal (2015, p. 1, tradução nossa) defende que “a descoberta fortuita de informações [...] trata-se mais de encontrar, ou tropeçar, em informações quando não se está procurando diretamente por elas”.

Austin (2003), por sua vez, apresenta quatro tipos de descoberta: (a) sorte cega: quando não há esforço da pessoa; (b) acidentes felizes: ocorre devido à exposição a fatos e as experiências da pessoa que podem, ou não, estar relacionadas à descoberta; (c) mente preparada: a descoberta ocorre devido à exposição a muitos fatos relacionados ao problema que a pessoa precisa resolver; (e) individual: a descoberta é resultado do conhecimento ou do interesse distintivo/individual da pessoa.

Liestman (1992) propõe seis abordagens para compreender a serendipidade na busca de informação: (a) coincidência: serendipidade como resultado de sorte aleatória, uma vez que o usuário inevitavelmente encontrará algo útil; (b) graça preveniente: há uma relação de causa e efeito, pois a organização prévia da informação auxilia a serendipidade; (c) sincronicidade: serendipidade como fruto de fatores desconhecidos que auxiliam o usuário; (d) perseverança: usuários-pesquisadores minuciosos são mais propensos a vivenciar experiências de serendipidade; (e) altamirage: a serendipidade acontece como resultado de comportamentos, características e habilidades de cada pessoa; (f) sagacidade: abordagem pragmática que demanda intuição e habilidade, nesse contexto a serendipidade ocorre devido à sagacidade subconsciente (ideias/informações soltas/desconexas passam por um período de incubação e, devido a um evento catalisador, são relacionadas) ou a sagacidade intuitiva (a pessoa percebe uma conexão entre um evento e algum problema).

Björneborn (2008) apresenta quatro formas de descobrir informação em bibliotecas: (a) descoberta planejada: usuário encontra o que planejou encontrar; (b) descoberta substituta: usuário não encontra o material planejado e o substitui por materiais similares; (c) descoberta suplementar: após navegar, o usuário encontra novos itens que podem complementar a descoberta planejada ou a descoberta substituta; (d) encontros incidentais: descoberta ocasional de materiais interessantes, mas não planejados, durante a interação com o ambiente.

Ressalta-se que encontros incidentais podem fazer com que uma necessidade de informação secundária se torne primária.

Frente ao exposto, compreende-se que uma experiência de serendipidade, no contexto da descoberta de informação, compreende encontrar ou descobrir, por acaso, informações úteis, valiosas, interessantes ou relevantes: (a) em lugares inesperados; (b) durante uma busca de informação passiva; (c) durante uma busca de informação ativa: ao procurar por uma informação X (que corresponde a uma necessidade de informação primária) e encontrar informação Y (que corresponde a uma necessidade de informação secundária). Portanto, o aspecto inesperado de uma experiência de serendipidade está associado ao valor, à existência ou à localização da informação encontrada por acaso.

Destaca-se que na CI, sobretudo no contexto internacional, não há consenso sobre o termo adequado para se referir à descoberta de informação e diferentes termos são utilizados como sinônimo de serendipidade, a saber, information encountering, accidental discovery of information, incidental information acquisition, oportunistic discovery of information2 (Erdelez, 2005b; Sun; Sharples; Makri, 2011; Foster; Ellis, 2014).

Information encountering compreende uma experiência de descoberta inesperada de informações úteis ou interessantes quando a pessoa está procurando ativamente informações sobre um assunto, mas encontra informações relacionadas a outro, ou quando esbarra em informações durante uma atividade rotineira (Erdelez, 2005a, 2015b). Ressalta-se que Sanda Erdelez conduziu, em 1995, a primeira pesquisa sobre serendipidade no contexto da aquisição de informações, e nela o termo information encountering foi utilizado pela primeira vez (Erdelez; Makri, 2020).

Erdelez; Makri (2020, p. 2, tradução nossa) propõem information encountering como “[...] conceito preferido para se referir à serendipidade no contexto da aquisição de informação e para enquadrar futuras pesquisas de LIS3 sobre este tema”. Contudo, compreende-se que a proposta da autoria não é adequada para o cenário brasileiro, pois o conceito encontro de informações, tradução de information encountering para português, não enfatiza o caráter fortuito inerente a uma experiência de serendipidade.

3 Análise de redes sociais

O termo rede social, embora atualmente esteja demasiadamente relacionado às plataformas digitais de relacionamento e entretenimento, pode ser utilizado para descrever uma estrutura social composta por pessoas que se relacionam, têm valores e objetivos similares e trocam informações, como apontam as definições de rede social dispostas no Quadro 2.

Quadro 2 -
Definições de rede social
Definições de rede social
Fonte: Elaborado pelos autores.

Evidencia-se que, por meio das relações, “[...] os atores sociais desencadeiam os movimentos e fluxos sociais, através dos quais partilham crenças, informação, poder, conhecimento, prestígio, etc.” (Ferreira, 2011, p. 213). Portanto, a importância e o prestígio de uma pessoa da rede é reflexo das suas interações.

A Análise de Rede Social (ARS) é uma metodologia quanti-qualitativa que, quando voltada à análise da produção científica, permite compreender a dinâmica de colaboração (entre atores, instituições e países), observar os fluxos de transferências de informação, mensurar a visibilidade e a influência de pesquisadores e identificar tendências temáticas (Marteleto, 2001; Silva, 2014; Silva et al., 2006). Essa metodologia possui nomenclaturas e indicadores, dentre os quais destacam-se os que serão utilizados neste estudo, a saber:

Acrescenta-se que os clusters costumam ser formados por atores que têm interesses de pesquisa similares. Os hubs interagem com muitos atores, consequentemente, podem ter acesso a muitas informações de diferentes grupos sociais (clusters) e facilitar o compartilhamento delas na rede. Os laços fortes costumam ser formados entre atores que pertencem ao mesmo cluster e têm expertises ou identidades similares, consequentemente, laços fortes são relações de alto nível de credibilidade e influência, mas atores com muitos laços fortes acessam informações com pouco grau de novidade, pois têm acesso apenas as informações originadas dentro do seu próprio contexto social (cluster). O laço fraco, por sua vez, costuma ser constituído entre atores que têm expertises ou identidades diferentes, atores com muitos laços fracos podem atuar como hub e facilitar a disseminação de novas informações e inovações na rede. Alta densidade indica boa colaboração, interação, coesão social, comunicação e compartilhamento de informações entre os atores da rede, enquanto baixa densidade indica o oposto (Kaufman, 2012; Marteleto, 2001; Silva et al., 2006; Tomaél; Marteleto, 2006).

4 Percurso metodológico

Este estudo utiliza uma abordagem mista (quanti-qualitativa) e pode ser classificado como descritivo. Este tipo de pesquisa visa expor as características de um universo, uma população ou uma realidade, tendo em vista mapear variáveis e identificar relações (Bufrem; Alves, 2020).

Inicialmente, foi realizado, em janeiro de 2023, um levantamento bibliográfico sobre serendipidade em duas bases de dados, a saber, WoS e Brapci, conforme a estratégia de busca apresentada na Figura 1.

Estratégia de busca do levantamento bibliográfico realizado
Figura 1 -
Estratégia de busca do levantamento bibliográfico realizado
Fonte: Elaborado pelos autores.

Evidencia-se que o texto de Vechiato e Farias (2020) foi recuperado em ambas as bases de dados consultadas, portanto, cinquenta e três documentos compõem a amostra deste estudo. Em ambas as buscas, não houve restrição de idioma ou de período de publicação. Na busca realizada na WoS os filtros foram aplicados para: (I) recuperar documentos que têm serendipidade como principal objeto de estudo; (II) facilitar a análise (uma vez que artigos são textos mais objetivos e sempre apresentam palavras-chave, que é objeto de análise); (III) recuperar apenas documentos relacionados à CI. Na busca realizada na Brapci, não foi necessário aplicar filtros devido a quantidade de documentos recuperados.

Na sequência, as publicações foram analisadas, utilizou-se o software VOSviewer para elaborar a rede de coautoria e a rede de co-ocorrência de palavras-chave, ambas as redes foram analisadas por meio de ARS, e realizou-se uma busca em sites institucionais para coletar informações sobre os principais pesquisadores, especificamente, filiação, país, área de atuação e interesses de pesquisa.

5 Resultados e discussões

A Figura 2 apresenta a evolução da produção científica sobre serendipidade na CI, conforme dados da WoS e da Brapci.

Evolução da produção científica sobre serendipidade na CI
Figura 2 -
Evolução da produção científica sobre serendipidade na CI
Fonte: Elaborado pelos autores.

Na CI, especificamente no contexto internacional, Bernier (1960) publicou o primeiro estudo sobre serendipidade ao discutir como esse tipo de experiência informacional pode influenciar o processo de pesquisa científica. Para Erdelez e Makri (2020) o estudo de Bernier (1960) foi o primeiro a definir a natureza e o escopo da serendipidade, no contexto da aquisição de informação, e contribuiu ao desenvolvimento de diversos modelos que buscam explicar essa experiência.

No cenário brasileiro, o estudo de Zattar (2017) foi o primeiro a mencionar o termo serendipidade. Ressalta-se que o referido texto é um relato de experiência sobre o ensino de competência em informação no curso de graduação em Biblioteconomia, consequentemente, serendipidade é um assunto secundário. Compreende-se que Vechiato e Farias (2020) e Salcedo e Bezerra (2020) foram as primeiras autorias brasileiras a abordar a serendipidade diretamente, ou seja, que apresentam serendipidade como objeto central de análise e discussão.

Ressalta-se que, no cenário internacional, as publicações sobre serendipidade são recorrentes desde 2010, o que demonstra que o referido conceito tem sido desenvolvido e observado sistematicamente. Porém, o mesmo não ocorre no contexto brasileiro, onde a serendipidade é uma temática incipiente.

O Quadro 3 apresenta, em ordem cronológica, as cinquenta e três produções que compõem a amostra.

Quadro 3 -
Publicações sobre serendipidade indexadas na WoS e na Brapci
Publicações sobre serendipidade indexadas na WoS e na Brapci
Fonte: Elaborado pelos autores. Nota: A coluna “I” identifica a base de dados que indexa o documento: utiliza-se “B” para Brapci e “W” para “WoS”.

No cenário internacional, a serendipidade é abordada de diferentes formas, mas a maioria dos estudos contribui para o desenvolvimento teórico-conceitual do referido conceito na CI e aborda a serendipidade no contexto de busca e de recuperação de informação, comportamento informacional, competência em informação e aquisição de informação. Também há pesquisas que mapearam os fatores ambientais e individuais capazes de influenciar experiências de serendipidade, que discutem como esse tipo de experiência informacional afeta a construção de conhecimento, a descoberta científica, a satisfação das pessoas com os sistemas e plataformas, entre outras perspectivas de abordagem.

Enfatiza-se que a maioria das produções brasileiras aborda a serendipidade no contexto de comportamento informacional, competência em informação e busca de informação, portanto, estão alinhadas às tendências de pesquisa das produções internacionais. Exceto Trindade e Vechiato (2022), uma vez que discutem como a serendipidade e a criatividade podem influenciar a inovação de produtos e serviços de bibliotecas universitárias.

Sobre a análise de palavras-chave, a amostra apresenta 118 termos, mas a maioria deles, 104 (88%), aparece apenas uma vez. Diante disso, optou-se por aplicar um critério de corte (ocorrência igual ou superior a dois) para mapear as palavras-chave mais importantes e representativas, o que resultou em quatorze termos (Figura 3 e Tabela 1).

Gráfico da rede de co-ocorrência de palavras-chave
Figura 3 -
Gráfico da rede de co-ocorrência de palavras-chave
Fonte: Elaborado pelos autores.

Tabela 1 -
Rede de co-ocorrência de palavras-chave
Rede de co-ocorrência de palavras-chave
Fonte: Elaborado pelos autores. Nota: A coluna “N°” apresenta o total de ocorrências da palavra-chave, enquanto a coluna”I” identifica a base de dados que indexa o documento: utiliza-se “B” para Brapci e “W” para “WoS”.

Na CI, como já explicitado, a serendipidade está associada a estudos de comportamento informacional, busca de informação, recuperação de informação, competência em informação e information encountering é um termo utilizado como sinônimo de serendipidade. Alguns estudos, Björneborn (2008) e Agarwal (2015), por exemplo, discutem como o design do ambiente pode favorecer a serendipidade e destacam que as pessoas tendem a vivenciar essa experiência durante a navegação.

A serendipidade, enquanto experiência de descoberta de informação, “[...] está ligada a um processo de busca de informações. É, em outras palavras, um produto das ferramentas que os usuários empregam no curso da pesquisa e descoberta” (Carr, 2015, p. 835, tradução nossa). Ademais, pode ser influenciada pela capacidade do usuário perceber o potencial ou a utilidade das informações encontradas por acaso (Oliveira; Costa; Trindade, 2022). Portanto, a competência informacional e o comportamento informacional são fatores que influenciam a ocorrência de experiências de serendipidade.

Ademais, alguns modelos de comportamento informacional observam a serendipidade (Quadro 4).

Quadro 4 -
Modelos de comportamento informacional que consideram a serendipidade
Modelos de comportamento informacional que consideram a serendipidade
Fonte: Adaptado de Erdelez e Makri (2020).

A epistemografia interativa, por sua vez, é um conceito associado à participação dos usuários nos processos de representação e organização da informação. Essa prática pode favorecer a encontrabilidade da informação e a descoberta de informação (Bezerra; Salcedo, 2022; Salcedo; Bezerra, 2020). Evidencia-se que o termo epistemografia interativa apareceu nas produções brasileiras, mas pode ser relacionado às produções do cenário internacional, pois há autorias, Qin et al. (2022) e Yi et al. (2017), por exemplo, que discutem como a folksonomia pode favorecer a serendipidade.

Ao analisar as palavras-chave, foram identificados três termos que podem ser utilizados como sinônimo de serendipidade, a saber, information discover, passive information acquisition e serendipitous information retrieval4.

A Figura 4 apresenta a rede de coautoria gerada com os atores que compõem a amostra.

Rede de coautoria: produções sobre serendipidade indexadas pela WoS e Brapci
Figura 4 -
Rede de coautoria: produções sobre serendipidade indexadas pela WoS e Brapci
Fonte: Elaborado pelos autores.

Setenta e seis atores compõem a rede, que apresenta dezessete clusters, dezessete nós soltos, baixa densidade e muitos laços fracos. Portanto, há conexões não exploradas e muitas relações esporádicas. Sharples, A. (destaque “A”) ocupa posição de centralidade na rede, pois é o ator que apresenta o maior número de conexões, a saber, sete. Na sequência, destaca-se Makri, S. (destaque “B”) que possui seis conexões. Evidencia-se que Makri, S. é o único hub da rede, pois, por meio da sua relação com Erdelez, S. (destaque “D”), autora que cunhou o termo information encountering, conecta os clusters um e dois. Ademais, o cluster cinco é formado apenas por atores brasileiros.

McCay-Peet, L. (destaque “F”) e Toms, E. G. (destaque “G”) têm o elo mais forte da rede, pois escreveram quatro textos juntas. Na sequência, destacam-se Sun, X5. (destaque “C”) e Sharples, S. (destaque “A”), que escreveram três textos juntas.

A maioria dos atores, 55 (72%), publicou apenas um texto sobre serendipidade, o que indica que para eles a serendipidade não é o principal objeto de estudo.

A maioria dos textos, 31 (58%), foram escritos em colaboração, mas essa colaboração não se estende para outros clusters, portanto, há espaço para novas relações. Reforça-se que a pessoa cientista não sobrevive como ser isolado, pois a produção de novos conhecimentos demanda estratégias de colaboração, inclusive com atores de outros contextos sociais, e é uma tendência do campo científico (Silva; Targino, 208).

A Tabela 2 apresenta os atores que têm o maior número de publicações sobre serendipidade.

Tabela 2 -
Atores com maior número de publicações sobre serendipidade
Atores com maior número de publicações sobre serendipidade
Fonte: Elaborado pelos autores. Nota: A coluna “P” apresenta o total de publicações do ator e a coluna “R” o total de relações/conexões do autor. As colunas seguintes apresentam identificações da rede de coautoria (Figura 3), a coluna “C” indica o cluster e a coluna “I” a identificação do ator.

Makri6 desenvolve estudos que buscam compreender como a informação digital é adquirida (ou seja, procurada e encontrada), interpretada e usada, tendo em vista projetar ambientes digitais capazes de promover experiências informacionais envolventes, enriquecedoras, emocionantes e gratificantes. McCay-Peet7 desenvolve pesquisas que buscam compreender como os ambientes digitais podem favorecer a serendipidade. Enquanto Toms8 estuda recuperação de informação, usabilidade, sistemas de informação, experiência do usuário e serendipidade. Quan-Haase9, por sua vez, estuda mídias sociais, capital social digital, humanidades digitais, comunicação acadêmica digital e serendipidade. Por fim, Sharples10 pesquisa fatores humanos nos transportes futuros e nas tecnologias de apoio à saúde, mobilidade inteligente, Interação Humano-Computador (IHC) e ergonomia cognitiva. Ressalta-se que os atores têm interesses de pesquisa similares e convergentes.

6 Considerações finais

O termo serendipidade pode ser utilizado para nomear uma experiência de descoberta acidental de qualquer coisa, inclusive informação, e tem sido estudado por diferentes campos do conhecimento. Na literatura em CI, há diferentes definições e compreensões sobre serendipidade e a maioria dos estudos aborda esse constructo como uma experiência de descoberta de informação. Maas existem outras abordagens, uma vez que há autorias que buscam compreender como a serendipidade influencia a construção de conhecimento, as descobertas científicas, a compra de produtos em plataformas de e-commerce, o processo de inovação de produtos e serviços, entre outras. Portanto, é necessário, ao consultar um texto sobre serendipidade, compreender como o referido constructo está sendo abordado.

Diante disso, sugere-se que, na literatura nacional em CI, quando o conceito serendipidade for abordado como uma experiência de descoberta de informação, estes termos sejam utilizados: infoserendipidade ou serendipidade informacional, tendo em vista enfatizar o caráter e a natureza informacional da experiência. Reforça-se que, para estudar a serendipidade, enquanto experiência de descoberta de informação, é preciso recorrer à literatura internacional. Nesse contexto, alguns termos são utilizados como sinônimo de serendipidade, a saber, information encountering, accidental discovery of information, incidental information acquisition, oportunistic discovery of information, information discover, passive information acquisition e serendipitous information retrieval, e conhecê-los facilitará a compreensão desse fenômeno e a pesquisa bibliográfica.

Agradecimentos

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo apoio e financiamento deste estudo.

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Notes

1 Escritor, historiador e político inglês (Carr, 2015).
2 Os termos significam, respectivamente, encontro de informações, descoberta acidental de informações, aquisição incidental de informações, descoberta oportunista de informações.
3 Library and Information Science (LIS) ou, em português, Biblioteconomia e CI.
4 Os termos significam, respectivamente, descoberta de informação, aquisição passiva de informação e recuperação fortuita de informação.
5 Vinculada ao departamento de Engenharia Mecânica, Materiais e Manufatura da University of Nottingham (China), desenvolve pesquisa sobre experiência do usuário, design e inovação de produtos e serviços centrados no usuário, IHC.
6 Dados disponíveis no site da universidade (clique aqui).
7 Dados disponíveis no site da universidade (clique aqui).
8 Dados disponíveis no site da universidade (clique aqui).
9 Dados disponíveis no site da universidade (clique aqui).
10 Dados disponíveis no site da universidade (clique aqui).

Author notes

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