Artigo

O ciclo da desinformação em plataformas digitais: criação, disseminação e recirculação

The disinformation cycle on digital platforms: creation, dissemination, and recirculation

Thiago Henrique de Jesus-Silva
Universidade Federal do Ceará, Brasil

O ciclo da desinformação em plataformas digitais: criação, disseminação e recirculação

Em Questão, vol. 32, e-146993, 2026

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Received: 20 April 2025

Accepted: 08 October 2025

Funding

Funding source: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

Contract number: 01/2025

Funding statement: Esta pesquisa foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio da bolsa do Edital n. 01/2025 do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da universidade Federal do Ceará (PPGCOM/UFC).

Resumo: Este artigo exploratório propõe um modelo trifásico para compreender a trajetória da desinformação em plataformas digitais: criação, disseminação e recirculação. A partir de revisão de literatura, análise exploratória de casos e contribuições teóricas contemporâneas, argumenta-se que a recirculação - tradicionalmente marginalizada nas análises - constitui um estágio estruturante da longevidade e adaptabilidade da desinformação. Baseado no redirecionamento do conceito de recirculação originalmente formulado por Zago, o estudo evidencia como conteúdos desinformativos são reformulados, emocionalmente ressignificados e continuamente reintroduzidos em circuitos comunicacionais digitais. Algoritmos de recomendação, práticas culturais de compartilhamento e a erosão da autoridade epistêmica das instituições tradicionais compõem um ecossistema que favorece a persistência simbólica da falsidade. Argumenta-se que a recirculação não apenas amplia o alcance da desinformação, mas a transforma em artefato discursivo dinâmico, resistente a estratégias convencionais de checagem. Conclui-se que o enfrentamento da desinformação exige abordagens sistêmicas, capazes de considerar sua circulação prolongada, natureza performativa e capacidade de adaptação contextual.

Palavras-chave: Desinformação, plataformas digitais, recirculação, ecossistemas informacionais.

Abstract: This article proposes a three-phase model to understand the trajectory of disinformation on digital platforms: creation, dissemination, and recirculation. Drawing from literature review, case analyses, and contemporary theoretical frameworks, the study argues that recirculation - often overlooked - plays a structural role in the endurance and adaptability of disinformation. By redirecting Zago’s concept of recirculation, originally formulated within digital journalism, this paper shows how false content is reframed, emotionally re-signified, and persistently reintroduced into digital communication flows. Recommendation algorithms, sharing cultures, and the erosion of epistemic authority of traditional institutions contribute to an ecosystem that legitimizes informational falsehoods. Recirculation not only extends the reach of disinformation but transforms it into a dynamic discursive artifact, resistant to conventional fact-checking. The study concludes that tackling disinformation requires systemic approaches capable of addressing its performative, context-adaptive, and prolonged circulation dynamics.

Keywords: Disinformation, digital platforms, recirculation, information ecosystems, virality.

1 Introdução

A desinformação é hoje um fenômeno estrutural das sociedades digitais, cuja presença persistente e impacto crescente desafiam os pilares democráticos, a saúde pública, a segurança informacional e os regimes de verdade. Em meio à intensificação das dinâmicas comunicacionais, impulsionadas por plataformas digitais regidas por algoritmos opacos e modelos econômicos orientados ao engajamento, falsas narrativas se difundem, recodificam e persistem não apenas como ruídos no sistema informacional, mas como formas comunicacionais com agência sociopolítica própria. Esse cenário instaura o que Wardle e Derakhshan (2017) conceituaram como disorder of information (desordem informacional), uma ecologia de circulação de sentidos em que os limites entre fato, ficção e manipulação se tornam crescentemente difusos.

Nesse contexto, o fenômeno da desinformação deve ser compreendido não como um desvio ou ruído no fluxo comunicacional, mas como parte constitutiva das arquiteturas digitais do capitalismo digital, operando por meio de incentivos estruturais, lógicas comerciais e mecanismos psicossociais que favorecem a viralização de conteúdos falsos, enganosos ou manipulados, como aponta Jesus-Silva (2024). Diversas pesquisas vêm documentando os impactos dessa dinâmica em processos eleitorais, campanhas de vacinação e conflitos geopolíticos, revelando que a desinformação não apenas desinforma, mas também reconfigura crenças, polariza afetos e desestrutura a confiança social (Wardle; Derakhshan, 2017; Guess et al., 2023).

Embora a maioria dos estudos se concentre nas fases de criação e disseminação da desinformação, um estágio crucial permanece marginal nas análises: a recirculação. Trata-se do processo pelo qual conteúdos desinformativos, já difundidos e muitas vezes desacreditados, são reapresentados em novos contextos, reformulados em diferentes formatos (como memes, vídeos curtos ou posts com novos comentários) e reinseridos em fluxos comunicacionais, gerando nova onda de engajamento. Essa prática amplia a longevidade das informações manipuladas, intensifica a percepção de veracidade por meio da repetição (efeito de ilusão de verdade) e dificulta a rastreabilidade das fontes originais (Pennycook et al., 2020).

Este artigo parte da hipótese de que a recirculação não constitui uma anomalia residual ou um efeito colateral da desinformação, mas sim uma etapa estratégica de reconfiguração discursiva, em que conteúdos previamente desacreditados são reelaborados, reinscritos e ressignificados em novos contextos sociotemporais. Para isso, propõe-se um modelo trifásico da desinformação composto por: (1) criação, (2) disseminação e (3) recirculação. Essa estrutura permite compreender o ciclo desinformativo como um processo contínuo e adaptativo, no qual a verdade factual é progressivamente substituída por regimes de verdade afetiva e performativa. Trata-se de um estudo exploratório que integra uma tese de doutorado em desenvolvimento, que conta com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

2 O modelo trifásico da desinformação

A compreensão da desinformação nas plataformas digitais demanda um arcabouço teórico capaz de capturar sua complexidade sistêmica (Recuero, 2024, 2025), ultrapassando análises lineares centradas apenas na origem ou no momento inicial de circulação. Propomos, neste estudo, um modelo trifásico da desinformação, ilustrado na Figura 1, constituído por três etapas interdependentes - criação, disseminação e recirculação - que, juntas, delineiam um ecossistema informacional dinâmico, onde manipulações são não apenas geradas e difundidas, mas também continuamente ressignificadas, legitimadas e reativadas.

Modelo Trifásico da Desinformação
Figura 1
Modelo Trifásico da Desinformação
Fonte: Elaborada pelo autor.

Esse modelo se fundamenta na premissa de que a desinformação opera de forma cíclica e adaptativa, explorando tanto as affordances técnicas das plataformas (Moraes; Botelho-Francisco, 2022) quanto os vieses cognitivos e as clivagens socioculturais dos usuários. Cada fase do ciclo é sustentada por mecanismos específicos de ação, que se articulam em três níveis analíticos: (i) tecnológico, por meio da lógica algorítmica de amplificação e recomendação; (ii) cognitivo, mediante processos como viés de confirmação e heurísticas de familiaridade; e (iii) sociopolítico, refletindo interesses estratégicos de atores institucionais, movimentos ideológicos ou mercados de atenção.

Ao integrar essas dimensões, o modelo trifásico não apenas oferece uma taxonomia funcional da desinformação, mas também propõe um olhar processual e sistêmico que permite compreender como conteúdos manipulados se transformam em fenômenos autossustentáveis. Trata-se, portanto, de um enquadramento teórico que reconhece a desinformação como um processo de longa duração, em constante mutação e recodificação, cuja eficácia comunicativa está menos em sua veracidade e mais em sua capacidade de adaptação, circulação e reinscrição social.

2.1 Criação: a gênese da informação manipulada

A etapa da criação marca o ponto de origem da desinformação como artefato comunicacional intencionalmente manipulado. Trata-se de um processo que mobiliza recursos simbólicos, tecnológicos e discursivos para produzir conteúdos com aparência de veracidade, mas cujos objetivos se desviam do compromisso com a verdade factual. A criação de informações manipuladas não é acidental ou espontânea; é, na maior parte dos casos, uma ação planejada, orientada por estratégias geopolíticas, interesses econômicos ou agendas ideológicas.

No plano geopolítico, a desinformação tem sido cada vez mais mobilizada como instrumento estratégico de guerra híbrida, compondo ações coordenadas de desestabilização institucional, manipulação eleitoral e corrosão da confiança pública em regimes democráticos. Diferentemente das guerras convencionais, a guerra híbrida opera por meios informacionais e psicológicos, visando minar a coesão social, deslegitimar o discurso científico e enfraquecer estruturas normativas democráticas sem o uso direto da força física (Pamment, 2020; Rid, 2020).

Segundo Silveira (2025) e Bennett e Livingston (2020), atores estatais e paraestatais passaram a investir em sofisticadas infraestruturas de desinformação, muitas vezes com financiamento governamental (in)direto, operando por meio de think tanks1, empresas de marketing político e redes de perfis coordenados - humanos e automatizados. Essas redes exploram fissuras sociais preexistentes, como tensões raciais, disputas religiosas ou polarizações ideológicas, para fomentar o conflito interno e deslegitimar adversários.

Essa produção desinformativa é multifacetada e utiliza uma combinação de tecnologias digitais, táticas discursivas e engenharia social. Inclui desde a criação de portais noticiosos falsos com estética jornalística até o uso de microsegmentação algorítmica via bancos de dados obtidos em vazamentos ou vendidos por data brokers2. A estratégia é atingir grupos específicos com mensagens moldadas por suas vulnerabilidades cognitivas e afetivas, o que amplia o impacto da desinformação e reduz sua detecção (Bradshaw; Howard, 2019).

Além disso, a aliança entre redes globais de desinformação e influenciadores locais é uma tática recorrente, conforme apontado por Rêgo (2025) e Santos (2020), pois confere às campanhas uma aparência de autenticidade e proximidade cultural. Muitas dessas campanhas operam sob o princípio da plausibilidade negável, estruturadas de modo a evitar traços diretos com os patrocinadores originais, dificultando tanto a responsabilização quanto a contenção jurídica internacional (Polyakova; Fried, 2019).

Casos emblemáticos dessa atuação incluem interferências em pleitos eleitorais nos EUA (2016), no Reino Unido (Brexit), e no Brasil (2018 e 2022), onde investigações revelaram uso intensivo de plataformas digitais para disseminação de conteúdo enganoso, manipulação de tendências e ataques coordenados a instituições democráticas. Tais episódios demonstram que a desinformação, nesse nível, não é apenas um problema comunicacional, mas uma arma geopolítica silenciosa, cujo objetivo é enfraquecer adversários por meio da erosão da verdade compartilhada e da fragmentação do espaço público informacional (Cadwalladr; Graham-Harrison, 2018; Green, 2017; Howard; Bollobás; Bradshaw, 2017; Sparemberger; Silva, 2022).

A intensificação da desinformação como estratégia de guerra híbrida aponta para o surgimento de uma nova fronteira de disputa geopolítica: o território cognitivo. Nessa perspectiva, as batalhas contemporâneas não se dão apenas sobre territórios físicos ou econômicos, mas sobre a capacidade de moldar percepções, corroer consensos e reconfigurar a realidade compartilhada. Trata-se do que Portnoff (2020) denomina de guerra informacional transfronteiriça, na qual atores estatais ou não estatais utilizam as redes digitais para infiltrar narrativas manipuladas em contextos alheios, fragilizando democracias sem necessidade de invasão formal.

Esse fenômeno evidencia uma crise da soberania informacional: as nações perdem o controle sobre os fluxos simbólicos que circulam em seus territórios, pois as plataformas globais operam com lógica transnacional e algoritmos opacos. Como observa Tufekci (2018), o poder das big techs em determinar o que circula, o que engaja e o que desaparece das timelines cria um novo tipo de assimetria de poder, algorítmica, invisível e incontrolável. Nesse ambiente, campanhas de desinformação tornam-se não apenas possíveis, mas altamente eficazes, explorando falhas nas regulações locais e lacunas na educação midiática dos usuários.

A dimensão cognitiva dessa guerra também é fundamental. Ao atacar a confiança nas instituições, imprensa, ciência, justiça, a desinformação instala um estado de suspeição generalizada, que favorece o colapso dos parâmetros epistêmicos coletivos. Como apontam Kalpokas (2019) e Ferguson (2019), a lógica da pós-verdade não reside apenas na falsidade das informações, mas na relativização sistemática de todas as fontes, produzindo uma sensação de equivalência entre fatos e boatos, entre ciência e opinião, entre jornalismo e rumor.

Nesse sentido, a desinformação geopolítica não visa apenas convencer - ela desestabiliza, confunde, satura e neutraliza. Seu objetivo não é necessariamente que todos creiam em uma manipulação específica, mas que deixem de acreditar em qualquer verdade factual possível. Essa estratégia de erosão da confiança pública, somada ao uso intensivo de desinformação em ambientes digitais, converte-se, assim, em um mecanismo de dominação assimétrica, com custos reduzidos e impactos massivos.

Do ponto de vista econômico, a proliferação de conteúdos desinformativos nas plataformas digitais deve ser compreendida como resultado de um sistema estruturalmente orientado à monetização do engajamento, em que a visibilidade e a viralização, e não a veracidade, se tornam os principais vetores de valor. Em outras palavras, a desinformação não é apenas um subproduto da comunicação digital: ela é, muitas vezes, um ativo lucrativo inserido no coração da economia da atenção (Zuboff, 2019; Napoli, 2021; Rêgo, 2025).

Plataformas digitais como Facebook, YouTube e TikTok operam com modelos de negócios baseados em publicidade programática, onde anunciantes compram espaços direcionados com base em dados de comportamento do usuário, conforme Jesus-Silva e Lima (2024) e Jesus-Silva (2024). Esse sistema recompensa conteúdos que geram maior tempo de permanência, compartilhamentos e reações - mesmo que sejam enganosos, sensacionalistas ou nocivos. Santos Junior e Nichols (2025) demonstram que sites especializados em desinformação conseguem receitas consideráveis a partir do tráfego massivo gerado por conteúdos emocionalmente apelativos, frequentemente distribuídos em massa com títulos clickbait, imagens manipuladas e frases de efeito projetadas para provocar indignação, medo ou fúria.

Essa lógica é amplificada pelo que Hwang (2020) define como uma economia do engajamento tóxico, na qual conteúdos divisivos têm maior probabilidade de circulação porque provocam reações fortes e impulsivas: elementos fundamentais para o funcionamento dos algoritmos de recomendação. Em termos econômicos, a desinformação se alinha aos princípios da escassez de atenção: em ambientes hipercompetitivos, narrativas manipuladas bem embaladas capturam mais cliques do que reportagens verificadas, sobretudo por sua simplicidade, carga emocional e linguagem acessível (Bakir; McStay, 2018).

Além disso, a presença de redes organizadas de produção e monetização de desinformações, frequentemente formadas por agências digitais, operadores autônomos ou estruturas conhecidas como fazendas de cliques, revela que a desinformação se constitui como uma atividade economicamente lucrativa, com modelos próprios de investimento e retorno. Estima-se que sites especializados em desinformação tenham gerado, globalmente, mais de 2,6 bilhões de dólares em receitas publicitárias apenas em 2021, sendo 1,62 bilhão nos Estados Unidos, por meio de publicidade programática veiculada por grandes empresas como Google e IndexExchange (Statista, 2022). Um estudo publicado por Papadogiannakis et al. (2023) aponta que mais de 40% dos sites de desinformação analisados mantinham relações comerciais com redes de anúncios legítimas, expondo uma falha crítica na rastreabilidade das cadeias de financiamento digital.

A esse cenário soma-se à baixa transparência nas cadeias de financiamento digital, o que dificulta a responsabilização de plataformas e anunciantes por conteúdos prejudiciais. Mesmo grandes empresas, ao automatizarem suas campanhas publicitárias, acabam financiando, sem saber, páginas especializadas em desinformação, perpetuando o ciclo de lucro em torno da manipulação. Como sintetiza Zuboff (2019), o que está em jogo não é apenas a circulação de informações manipuladas, mas a institucionalização de um modelo de negócio que converte o comportamento humano em matéria-prima econômica, alimentando algoritmos que favorecem o extremo, o viral e o impreciso. Nesse contexto, a desinformação deve ser entendida não apenas como um problema de conteúdo, mas como uma externalidade negativa de um ecossistema digital orientado à captura da atenção e maximização de receita, no qual a verdade factual ocupa um lugar secundário frente ao valor mercadológico do clique.

A consequência é o surgimento de mercados paralelos de desinformação, onde produtores de conteúdo falso competem por atenção com veículos jornalísticos tradicionais, muitas vezes utilizando as mesmas ferramentas de visibilidade, SEO, segmentação, impulsionamento pago, mas sem qualquer compromisso ético ou editorial. Essa concorrência desigual distorce a arquitetura da informação e fragiliza a sustentabilidade econômica do jornalismo profissional, que, por depender de tempo, apuração e checagem, não consegue competir com a agilidade e o apelo sensacionalista da desinformação.

Nesse cenário, a regulação do ambiente digital emerge como uma demanda urgente. Contudo, como destaca Ghosh (2020), qualquer tentativa de regular a monetização da desinformação deve ir além da simples remoção de conteúdo ou desmonetização pontual: é necessário repensar os fundamentos da economia digital, questionando a centralidade do engajamento como métrica dominante e criando mecanismos de responsabilização para plataformas e intermediários. Sem essa reestruturação, a desinformação continuará operando como um negócio invisível, porém altamente rentável, blindado por camadas técnicas e jurídicas que dificultam sua responsabilização efetiva.

O vetor ideológico desempenha papel central na gênese da desinformação ao servir tanto de catalisador de engajamento afetivo quanto de reforço de identidades coletivas. Grupos extremistas - do QAnon nos EUA às milícias digitais de extrema‑direita na Europa - e movimentos identitários radicalizados (como o supremacismo branco ou o nacionalismo étnico) valem‑se de narrativas conspiratórias para consolidar um nós versus eles, explorando ansiedades sociais e econômicas. Sob a lógica de verdade alternativa, essas narrativas subvertem os critérios epistemológicos tradicionais ao atribuir autoridade exclusiva a fontes internas ao grupo, enquanto desacreditam evidências externas (Benkler; Faris; Roberts, 2018; Uscinski; Parent, 2014).

É visto que o vetor ideológico da desinformação se fortalece por meio de bolhas de filtro e câmaras de eco, onde algoritmos e práticas sociais convergem para reforçar crenças preexistentes. Segurado (2021) e Ecker (2025) demonstram que comunidades online radicalizadas não apenas compartilham conteúdos conspiratórios, mas são continuamente alimentadas por recomendações algorítmicas que priorizam narrativas extremas. Esse efeito de reforço amplifica a coesão interna e a hostilidade a estrangeiros ideológicos, acelerando a radicalização sem contato com perspectivas divergentes.

Essa intensificação da desinformação não se restringe à propagação de inverdades, mas opera no nível mais profundo da configuração simbólica da realidade social. Como apontam Wardle e Derakhshan (2017), estamos diante de um cenário de desordem informacional (information disorder), em que as fronteiras entre informação, desinformação e má-informação se tornam cada vez mais difusas, corroendo os alicerces de um espaço público orientado pelo diálogo racional e pela factualidade.

Nesse contexto, a desinformação age como tecnologia de afetação política: seu poder não está apenas no conteúdo do que é dito, mas na capacidade de mobilizar afetos, como medo, raiva, ressentimento, nostalgia, que funcionam como dispositivos de adesão identitária e ação coletiva (Papacharissi, 2015; Ahmed, 2014). Ao invés de convencer pelo argumento, a desinformação afirma pela emoção, criando comunidades de pertencimento que se alimentam do antagonismo com outro imaginado e da deslegitimação sistemática das instituições democráticas.

A desinformação não opera apenas como falsificação factual, mas como um mecanismo estruturante de sentido, capaz de orientar a percepção política e afetiva dos sujeitos em contextos de polarização extrema. Conforme argumenta Bachur (2021), trata-se de uma operação social performativa, cuja eficácia não depende da veracidade do conteúdo, mas da sua capacidade de provocar identificação afetiva e tomada de posição. A repetição dos enunciados, a circulação em bolhas cognitivas e o acionamento de gatilhos emocionais produzem um “efeito-verdade” que desativa o julgamento racional e legitima a adesão a narrativas ideológicas, mesmo que sabidamente falsas ou enganosas. Dessa forma, grupos radicalizados não apenas compartilham desinformação: eles a incorporam como fundamento simbólico de coesão e pertencimento, o que torna o enfrentamento desse fenômeno um desafio que extrapola o campo da correção informacional e adentra o domínio da disputa simbólica e ética pela verdade no espaço público.

Bachur (2021) propõe que a desinformacão não deva ser lida apenas como informações erradas, mas como atos comunicativos eficazes em uma lógica de pertencimento político e afetivo. Isso reforça a ideia, também presente em Ahmed (2014) e Papacharissi (2015), de que o valor da desinformação para o sujeito que a compartilha não está em sua verdade factual, mas em sua função de reforçar identidades e alianças simbólicas. “As fake news não são apenas cognitivamente erradas: são comunicacionalmente funcionais, afetivamente motivadas e politicamente eficazes.” (Bachur, 2021, p. 442).

Do ponto de vista técnico-discursivo, os mecanismos de criação da desinformação atravessaram um salto qualitativo significativo com o avanço das tecnologias de geração automática de conteúdo, especialmente a partir da consolidação de modelos de inteligência artificial generativa. Ferramentas como CHAT GPT, DALL·E, Midjourney e Sora permitem a criação em massa e em escala industrial de textos, imagens, áudios e vídeos sintéticos com alto grau de verossimilhança, fenômeno que tem sido descrito como a emergência da desinformação sintética (Momeni, 2024; Bontridder; Poullet, 2021).

Esse novo estágio da desinformação altera não apenas a quantidade, mas a qualidade das falsificações ou das enganações, tornando-as indistinguíveis de conteúdos legítimos para a maioria dos usuários. O uso de deepfakes audiovisuais, por exemplo, já foi documentado em contextos eleitorais, com a replicação da voz de líderes políticos para fins de manipulação discursiva (Momeni, 2024). Além disso, a combinação de elementos multimodais, como imagens geradas por Inteligência Artificial (IA), texto sintético, vídeos editados e som dublado, contribui para uma experiência sensorial persuasiva, que engaja mais profundamente os sentidos e as emoções do público, dificultando a checagem convencional e elevando a eficácia do conteúdo manipulado.

A sofisticação desses artefatos discursivos é acompanhada por técnicas de microtargeting3 e A/B testing4, que permitem moldar a mensagem não apenas quanto ao conteúdo, mas também quanto ao tom, estilo, vocabulário e estética visual mais adequada a cada nicho de audiência. Essa lógica de customização algorítmica da enganação reduz drasticamente os custos de produção e aumenta a escala e a precisão da manipulação, com implicações diretas para a desinformação política, médica e científica (Vaccari; Chadwick, 2020).

Outro aspecto central dessa nova arquitetura é o que alguns autores vêm chamando de estetização da desinformação (Donovan; Dreyfuss; Friedberg, 2022): a enganação deixa de ser apenas conteúdo falso e passa a ser esteticamente atrativa, imersiva e interativa, o que desloca o foco da verificação para a experiência emocional e sensorial do usuário. Essa estetização é particularmente eficaz em plataformas de mídia visual, como TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts, onde vídeos curtos, editados com ritmo acelerado e sobrepostos a músicas virais, transformam desinformação em conteúdo culturalmente consumível e replicável. Diante disso, a desinformação sociotécnica-discursiva deve ser entendida como parte de uma infraestrutura comunicacional orientada à opacidade, cuja sofisticação não é um acidente, mas uma condição estrutural do novo regime algorítmico de sentido.

Por fim, destaca-se a capacidade de adaptação contextual como um dos elementos mais eficazes e sofisticados na gênese da desinformação no capitalismo digital. Campanhas desinformativas não operam de forma genérica e homogênea, mas articulam-se a partir de gramáticas socioculturais específicas, moldando-se às particularidades históricas, políticas, religiosas e afetivas de cada território. O estudo exploratório de Jesus-Silva e Martins (2025) revela que as campanhas desinformativas não operam de maneira aleatória ou genérica, mas constroem narrativas profundamente enraizadas em conflitos, afetos e disputas simbólicas locais: um fenômeno que se alinha ao conceito de mimetismo narrativo, no qual a manipulação se reveste de verdade plausível ao apropriar-se da linguagem e dos signos culturalmente reconhecíveis.

No caso das enchentes no Rio Grande do Sul (RS) em maio de 2024, o estudo identificou que grande parte das narrativas desinformativas explorou tensões preexistentes, como a desconfiança em relação às instituições estatais, disputas político-partidárias e o ressentimento em relação à cobertura da imprensa tradicional. Esses discursos falsificados e enganosos, como a acusação infundada de sabotagem estatal ou a negação da gravidade do desastre, reconfiguraram a tragédia em um campo de batalha discursivo, no qual a veracidade factual era secundária diante do apelo simbólico e emocional das mensagens.

Além disso, a personalização da desinformação foi intensificada por plataformas digitais que operam com algoritmos de recomendação opacos e segmentadores, os quais canalizam conteúdos específicos para públicos ideologicamente predispostos. Isso resulta em um ambiente digital que favorece a recirculação de mensagens moldadas para confirmar visões de mundo já estabelecidas, dificultando o contraditório e promovendo a cristalização de crenças falsas. Nesse contexto, a desinformação se torna uma ferramenta de mediação social e política, articulando discursos que competem com a ciência, o jornalismo e os saberes institucionais na disputa por legitimidade interpretativa.

2.2 Disseminação: a viralização inicial

A segunda etapa do ciclo da desinformação diz respeito à difusão estratégica dos conteúdos manipulados e enganosos, na maioria potencializada pelas lógicas algorítmicas das plataformas digitais comerciais. Plataformas como Facebook, X (ex-Twitter), Instagram, YouTube e TikTok operam com sistemas de recomendação guiados por métricas de performance, como tempo de visualização, compartilhamento, curtidas, comentários, que priorizam conteúdos de alta reatividade emocional, independentemente de sua veracidade. Essa estrutura algorítmica favorece a viralização de mensagens que provocam choque, indignação, medo ou raiva, emoções diretamente associadas à amplificação de desinformação (Rathje; Bavel; Linden, 2023).

Trata-se de uma arquitetura de visibilidade orientada ao engajamento, na qual os conteúdos mais polarizadores, mesmo que enganosos, são recompensados com maior exposição. Conforme apontam Vosoughi, Roy e Aral (2018), informações desinformativas se espalham significativamente mais rápido do que as verdadeiras, em parte porque são mais “novas”, surpreendentes ou sensacionalistas. O design das plataformas, baseado em scroll infinito, notificações personalizadas e bolhas de filtro, cria um ambiente hiperestimulado, onde a checagem racional cede lugar à resposta emocional imediata, comprometendo os filtros críticos do usuário (Zuboff, 2019; Santos, 2025).

Além dos algoritmos, a disseminação da desinformação envolve uma arquitetura de agentes humanos e não humanos. Influenciadores digitais, youtubers, militantes ideológicos e até celebridades, muitas vezes conscientemente, amplificam conteúdos enganosos em busca de capital político, simbólico ou financeiro. Paralelamente, redes coordenadas de bots e contas automatizadas operam para inflar artificialmente o alcance de certos conteúdos, criando uma aparência de relevância orgânica e desencadeando reações em cadeia (Shao et al., 2018; Braga; Montenegro, 2023). Esse processo, conhecido como astroturfing5, simula apoio popular e acelera a penetração de mensagens em novos grupos.

A viralização, contudo, não é apenas uma função técnica: ela está profundamente enraizada em mecanismos cognitivos e dinâmicas sociais. O viés de confirmação, tendência a aceitar informações que confirmam crenças preexistentes, atua como motor interno da disseminação, levando usuários a compartilhar conteúdos enganosos mesmo sem plena convicção de sua veracidade, desde que esses conteúdos sirvam para reforçar identidades grupais ou marcar posições ideológicas (Ecker et al., 2022). Além disso, o compromisso com o grupo social, a busca por prestígio simbólico e a pressão por participação em tendências reforçam uma lógica performativa de compartilhamento, em que se compartilha menos por informar e mais por pertencer (Papacharissi, 2015).

Estudos recentes também indicam que o contexto emocional do usuário no momento da exposição influencia sua propensão a compartilhar conteúdos desinformativos. Segundo Roozenbeek et al. (2022), sentimentos de ansiedade, incerteza ou desconfiança aumentam a receptividade a mensagens enganosas, sobretudo em contextos de crise, como pandemias, eleições ou desastres ambientais. Isso reforça a ideia de que a disseminação da desinformação não pode ser dissociada das condições estruturais e afetivas da vida social contemporânea.

Portanto, a viralização inicial da desinformação resulta da intersecção entre infraestruturas algorítmicas, arquiteturas comunicacionais e cognição social, constituindo um sistema dinâmico e retroalimentado que não apenas propaga conteúdos manipulados, mas os legitimam por meio da repetição, do engajamento e do pertencimento simbólico.

Essa dinâmica de disseminação massiva e afetivamente orientada produz efeitos para além do alcance e da visibilidade: ela redefine os próprios modos de circulação da verdade na esfera pública digital. Ao favorecer conteúdos altamente emocionalizados e polarizados, os sistemas de recomendação e as redes de compartilhamento criam um ambiente informacional hiperfragmentado, onde diferentes grupos sociais passam a operar com referenciais epistêmicos distintos, ou seja, não apenas acreditam em conteúdos diferentes, mas confiam em fontes diferentes, usam critérios diferentes para avaliar o que é “verdadeiro” e rejeitam consensos mínimos de realidade compartilhada (O’Connor; Weatherall, 2019).

Esse fenômeno intensifica o que Polanyi (2021) denomina pluralismo epistêmico disfuncional: uma condição na qual a multiplicidade de narrativas não fortalece o debate democrático, mas sim mina as possibilidades de deliberação pública, ao gerar zonas de irredutibilidade entre os discursos. Nesse cenário, a desinformação não apenas se propaga, ela altera a gramática pública da confiança, deslocando o eixo de autoridade das instituições tradicionais (ciência, imprensa, universidade) para referenciais afetivos e comunitários, frequentemente mediáticos ou para-institucionais.

Além disso, o processo de viralização cria uma lógica de normalização da manipulação, em que a exposição recorrente a conteúdos enganosos não apenas aumenta sua credibilidade percebida, mas também reduz a sensibilidade crítica do público diante do enganoso. Como demonstram Pennycook et al. (2020), o fenômeno da exposição meramente repetida (mere-exposure effect) eleva a aceitação de conteúdos enganosos, mesmo entre sujeitos conscientes de sua falsidade original. Isso favorece o surgimento do que propomos conceituar como cansaço epistêmico plataformizado: uma condição estrutural em que a saturação de narrativas conflitantes, mediada por sistemas algorítmicos orientados ao engajamento, produz o esgotamento coletivo da capacidade de discernimento crítico. Embora a literatura registre fenômenos correlatos, como a fadiga informacional (Eppler; Mengis, 2004), a attention fatigue (fadiga de atenção) (Davenport; Beck, 2001), a verification fatigue (fadiga de verificação) (Amazeen, 2017), e exaustão algorítmica (Karhawi; Prazeres, 2022), mas nenhum desses termos captura a especificidade da condição aqui descrita. O cansaço epistêmico plataformizado não resulta da mera abundância informacional, mas da mediação algorítmica que privilegia engajamento emocional sobre veracidade factual, característica estrutural do capitalismo de plataformas (Srnicek, 2016, 2017). Essa condição induz apatia crítica, desconfiança generalizada nas instituições mediadoras de conhecimento e, paradoxalmente, a sensação de que o esforço de verificação tornou-se simultaneamente necessário e inútil, corroendo as bases epistêmicas da deliberação democrática.

Adicionalmente, é preciso considerar que a viralização da desinformação não ocorre de forma neutra, mas sim atravessa desigualdades sociais e estruturais. Grupos mais vulnerabilizados, seja por falta de acesso à educação crítica, conectividade limitada ou baixa representação midiática, tornam-se mais suscetíveis a conteúdos enganosos, seja como público-alvo, seja como vetor de redistribuição involuntária. Isso revela a necessidade de pensar a disseminação da desinformação não apenas como um problema técnico de fluxo comunicacional, mas como um fenômeno situado nas relações de poder, exclusão e disputa simbólica.

2.3 Recirculação: a reconfiguração da desinformação

A terceira e mais negligenciada etapa do ciclo trifásico da desinformação é a recirculação: entendida como o processo contínuo de reativação, recontextualização e reapropriação de conteúdos desinformativos. Diferente da disseminação inicial, que visa o alcance massivo, a recirculação atua de forma mais sofisticada, promovendo a persistência simbólica da desinformação por meio de sua reapresentação em novos formatos, temporalidades e sentidos.

O conceito de recirculação foi originalmente formulado por Zago (2011, 2014, 2018) no campo do jornalismo digital. Em sua definição, a recirculação constitui uma subetapa do processo jornalístico, situada entre a circulação e o consumo, na qual os usuários deixam de ser apenas receptores de notícias e passam a atuar como filtros, comentadores e avaliadores, expandindo o alcance das informações por meio de práticas como o compartilhamento, o remix e a curadoria discursiva. Ao aplicar esse conceito à análise da desinformação, ampliamos sua potência explicativa, compreendendo que a desinformacão também se mantém viva pela ação dos públicos que as recirculam em redes sociotécnicas, como ilustrado na Figura 2.

Recirculação da desinformação
Figura 2
Recirculação da desinformação
Fonte: Elaborada pelo autor.

Na arquitetura digital, essa recirculação é intensificada por algoritmos de recomendação que favorecem conteúdos previamente engajados, gerando câmaras de eco e ciclos de retroalimentação (Bail et al., 2018). Além disso, os próprios usuários reeditam o conteúdo, criando memes, vídeos curtos, montagens ou postagens com novas legendas e hashtags, conferindo novos contornos semânticos às mensagens originais. Trata-se de uma reconfiguração discursiva que adapta a mensagem às demandas emocionais e cognitivas de diferentes públicos, em diferentes contextos históricos e culturais.

Um dos efeitos mais deletérios desse processo é o fenômeno da ilusão de verdade segundo o qual a repetição de uma informação aumenta sua credibilidade percebida, mesmo após sua refutação (Pennycook et al., 2020). Em vez de desaparecer com o tempo, a desinformação ganha novas camadas de sentido, legitimidade social e relevância política.

Portanto, ao redirecionar o conceito de Zago (2011, 2014, 2018) para o campo da desinformação, reconhecemos a recirculação não como uma falha ou ruído, mas como uma etapa fundamental de seu funcionamento contemporâneo, capaz de prolongar, amplificar e ressignificar a manipulação informacional, tornando sua contenção ainda mais desafiadora.

Ao transpor o conceito de recirculação de Zago (2011, 2014, 2018) para o campo da desinformação, evidenciamos uma mudança crucial no entendimento sobre o papel dos públicos digitais: eles não apenas redistribuem conteúdos, mas os reconstroem discursivamente, ativando sentidos conforme seus repertórios afetivos, morais, econômicos e ideológicos. Nesse processo, a desinformação deixa de ser um artefato estático e se torna um objeto vivo e dinâmico, sujeito a mutações, adaptações e recombinações narrativas que a tornam mais resistente às estratégias tradicionais de refutação.

Esse redirecionamento teórico permite compreender a recirculação não como um resíduo do ciclo informativo, mas como um mecanismo estruturante da eficácia simbólica da manipulação. Nas plataformas digitais, onde as interações se baseiam na lógica do engajamento e da visibilidade algorítmica, a recirculação funciona como uma segunda camada de produção de sentido, na qual a desinformação se conecta com novos eventos, grupos e disputas. Ela se atualiza constantemente, tornando-se um vetor de ressonância discursiva adaptável ao presente, como conteúdos antivacina que reaparecem sob novos enquadramentos durante diferentes surtos epidêmicos.

Além disso, a recirculação incorpora elementos performativos e estéticos que deslocam a centralidade do texto para a experiência sensorial e emocional do conteúdo. Memes, vídeos curtos, montagens humorísticas ou postagens cringe não apenas viralizam, mas também modulam a recepção do conteúdo, criando atmosferas afetivas que dificultam o julgamento racional e favorecem a adesão tácita à desinformação. Aqui, a “verdade” não é determinada por critérios objetivos, mas por afetos partilhados, humores coletivos e dinâmicas de pertencimento.

Essa ressignificação contínua da manipulação torna a recirculação uma forma de insurgência discursiva, na qual verdades alternativas são reiteradas, remixadas e reabilitadas por grupos que desafiam as instituições tradicionais de autoridade epistêmica. É nesse ponto que o conceito de recirculação ajuda a compreender a desinformação como prática social complexa, marcada por disputas simbólicas, engajamentos performativos e estratégias de permanência que vão além da mera manipulação do conteúdo.

Além disso, a recirculação tem demonstrado uma capacidade preocupante de inserir desinformação em eventos futuros, como eleições, pandemias, crises ambientais ou escândalos institucionais. Muitas vezes, narrativas falsas são armazenadas e posteriormente reativadas estrategicamente, ganhando novas camadas de sentido à luz de acontecimentos emergentes. Essa temporalidade elástica da manipulação reforça sua eficácia, pois atua como um repertório pronto para interpretação imediata dos fatos, eclipsando explicações mais complexas ou verificadas.

Portanto, a recirculação deve ser compreendida como núcleo estruturante da longevidade e eficácia da desinformação, uma vez que permite não apenas sua sobrevivência, mas sua transformação adaptativa e sua reinscrição nos regimes de sentido contemporâneos.

3 Por que a recirculação importa?

A recirculação não deve ser vista como uma simples repetição mecânica de conteúdos manipulados, mas como uma etapa estratégica e dinâmica que assegura à desinformação sua longevidade, adaptabilidade e poder simbólico. Diferentemente da disseminação inicial, muitas vezes rápida e efêmera, a recirculação confere densidade narrativa e persistência histórica à desinformação, permitindo que ela seja reconfigurada, atualizada e ressignificada em diferentes contextos sociotemporais.

Do ponto de vista técnico, plataformas digitais reforçam esse processo ao organizarem seus algoritmos a partir de métricas de engajamento, como curtidas, comentários, tempo de exibição, que priorizam conteúdos previamente consumidos ou semelhantes a eles (Huszár et al., 2022). Essa lógica de recomendação personalizada funciona como uma engrenagem de retroalimentação, em que conteúdos desinformativos já vistos voltam a aparecer, reforçando percepções anteriores. A repetição gera familiaridade, e esta, por sua vez, contribui para o chamado efeito da ilusão de verdade, pelo qual uma informação repetida tende a ser percebida como mais confiável (Pennycook et al., 2020).

Do ponto de vista sociocultural, a recirculação mobiliza a cultura do compartilhamento como vetor de legitimação coletiva. Quando mensagens são recodificadas por usuários, por meio de legendas, comentários, memes ou reinterpretações narrativas, a desinformação adquire novas camadas de sentido e se torna mais palatável, emocionalmente ressonante e aderente a comunidades específicas. Como destacamos, o conceito de recirculação, originalmente formulado no estudo de práticas de compartilhamento nas mídias sociais (Zago 2011, 2014, 2018), é redirecionado aqui para pensar a persistência da desinformação como uma construção coletiva e relacional. A recirculação, nesse sentido, é uma prática de mediação que integra produção e consumo, deslocando a análise da desinformação da esfera puramente técnica para uma dimensão sociocomunicacional mais ampla.

Esse ciclo é ainda mais potente diante da atual crise de autoridade epistêmica. Instituições tradicionais como a mídia, universidades ou órgãos de saúde pública vêm perdendo credibilidade em amplos segmentos da população, o que favorece a emergência de espaços alternativos de circulação de sentido, como grupos em aplicativos fechados, canais de YouTube ou fóruns anônimos, nos quais desinformações recirculadas encontram terreno fértil para prosperar. Nesses ambientes, a repetição não apenas reforça a crença, mas também cria um senso de comunidade e pertencimento, intensificando a coesão identitária e a rejeição a narrativas concorrentes.

A recirculação deve ser compreendida não apenas como um fenômeno técnico ou comunicacional, mas também como uma operação política que intervém diretamente nas disputas de sentido que estruturam o espaço público. Quando uma informação manipulada e enganosa é repetidamente recodificada e redistribuída, ela deixa de ser apenas um conteúdo desinformativo para se tornar um artefato discursivo que atua na construção de mundos, reforçando crenças, moldando identidades e reconfigurando regimes de verdade (Foucault, 2014).

Essa operação adquire especial relevância em contextos de polarização e instabilidade, nos quais a desinformação recirculada passa a funcionar como mecanismo de consolidação de vínculos afetivos e de orientação moral. Consideramos que as mensagens falsas e enganosas frequentemente oferecem explicações simples e moralmente satisfatórias para dilemas complexos, o que facilita sua aceitação e difusão. A recirculação, nesse sentido, não é apenas o reaparecimento de uma informação: é a reinscrição dessa informação em um novo contexto simbólico, emocional e político.

Além disso, o processo de recirculação muitas vezes implica um deslocamento epistêmico: a verdade factual cede lugar à verdade socialmente performada, que se estabelece não por verificação empírica, mas por validação comunitária. Essa transição é visível, por exemplo, em grupos de WhatsApp e Telegram que compartilham desinformação reiteradamente como forma de coesão interna (Monteiro Filho; Barreto; Mourão, 2024). A repetição torna-se uma prática de resistência simbólica contra autoridades externas, como a mídia, o jornalismo profissional ou a ciência, vistas como inimigas da “verdade do grupo”.

Essa mobilidade semântica torna a desinformação recirculada particularmente difícil de combater. Ao contrário da versão original do conteúdo, que pode ser objeto de checagem e contestação direta, a versão recirculada já foi transformada, ressignificada e inserida em novas cadeias discursivas. Como mostram Wardle e Derakhshan (2017), desmentidos convencionais perdem eficácia diante de conteúdos que se movem em circuitos fechados de significado, onde a veracidade é decidida por critérios identitários e afetivos, e não por fatos verificáveis.

4 Considerações finais

A desinformação, como demonstrado ao longo deste artigo, não é um fenômeno pontual nem estático. Ao contrário, trata-se de um processo estruturado, dinâmico e altamente adaptável, sustentado por forças técnicas, cognitivas, econômicas e ideológicas que operam em convergência. O modelo trifásico proposto - criação, disseminação e recirculação - permite compreender a complexidade dessa arquitetura e evidenciar que a longevidade e eficácia das mensagens manipuladas não se devem apenas ao seu conteúdo, mas à forma como são constantemente atualizadas, legitimadas e reapropriadas pelos usuários e pelas próprias plataformas.

Ao reposicionar o conceito de recirculação de Zago (2011, 2014, 2018) para o campo da desinformação, argumentamos que essa etapa não deve ser vista como uma consequência residual da viralização, mas como um mecanismo central de reconfiguração simbólica, capaz de prolongar e intensificar os efeitos das narrativas enganosas. A recirculação transforma a desinformação em um objeto semiótico mutante, dotado de elasticidade temporal e semântica, o que desafia os mecanismos tradicionais de verificação, contenção e regulação.

Esse processo é potencializado por plataformas algorítmicas cuja lógica de funcionamento privilegia o engajamento emocional em detrimento da acurácia informacional. Combinado a isso, o cenário de desconfiança epistêmica e erosão institucional abre espaço para que as narrativas manipuladas recirculadas ocupem posições centrais no imaginário coletivo, funcionando como instrumentos de coesão identitária, mobilização afetiva e disputa política.

Portanto, enfrentar a desinformação demanda mais do que estratégias pontuais de fact-checking ou remoção de conteúdo. Exige um redesenho das arquiteturas informacionais, com regulação robusta das dinâmicas de monetização, ampliação da educação midiática crítica e responsabilização dos intermediários digitais. Também requer abordagens teóricas que reconheçam a performatividade discursiva e social da falsidade, compreendendo que seu poder não reside apenas na mentira que propaga, mas, na verdade, emocional e simbólica que constrói junto aos públicos que a recirculam.

A desinformação não é apenas um desafio comunicacional; é um sintoma e um vetor das transformações mais profundas do regime de factualidade no capitalismo digital. Compreendê-la em sua totalidade, especialmente a partir da recirculação, é condição fundamental para pensar respostas democráticas, éticas e epistemologicamente consistentes a esse fenômeno.

Agradecimentos

Esta pesquisa foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio da bolsa do Edital n. 01/2025 do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da universidade Federal do Ceará (PPGCOM/UFC).

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Notes

Declaração de disponibilidade de dados Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Como citar JESUS-SILVA, Thiago Henrique. O ciclo da desinformação em plataformas digitais: criação, disseminação e recirculação. Em Questão, Porto Alegre, v. 32, e-146993, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.146993
Parecer(es) aberto(s): https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.146993A

https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.146993B

1 Think tanks são organizações dedicadas à produção de conhecimento aplicado, atuando na formulação de diagnósticos, propostas e análises sobre temas de interesse público. Combinam pesquisa especializada com vocação estratégica, influenciando políticas públicas, debates legislativos e narrativas sociais. Embora variem em perfil ideológico e estrutura institucional, seu papel como mediadores entre saber técnico e decisão política é central para compreender disputas contemporâneas por legitimidade e direção normativa.
2 Data brokers são empresas ou entidades que coletam, agregam e comercializam dados pessoais e comportamentais de indivíduos, muitas vezes sem seu conhecimento direto. Esses dados, obtidos de registros públicos, navegação online, compras, redes sociais digitais e outras fontes, são usados para segmentar públicos, prever comportamentos e alimentar sistemas de recomendação. Em contextos de desinformação, os data brokers desempenham papel estratégico ao estruturar perfis que podem ser explorados para campanhas direcionadas, ampliando o alcance e a eficácia de conteúdos enganosos.
3 Microtargeting é uma técnica de segmentação que utiliza dados detalhados sobre comportamentos, interesses e perfis sociodemográficos para direcionar mensagens específicas a grupos ou indivíduos. Amplamente empregada em campanhas publicitárias e políticas, essa prática permite adaptar conteúdos persuasivos com alta precisão, aumentando o potencial de engajamento. Em contextos de desinformação, o microtargeting pode intensificar a polarização e dificultar o contraditório, ao criar bolhas informacionais onde narrativas enganosas circulam com pouca contestação.
4 A/B testing é uma metodologia de experimentação que compara duas versões de um mesmo conteúdo, como anúncios, mensagens ou interfaces, para avaliar qual gera maior engajamento ou eficácia. Ao distribuir aleatoriamente os públicos entre as versões A e B, é possível medir com precisão o impacto de pequenas variações. Em contextos de desinformação, essa técnica pode ser usada para testar enquadramentos mais persuasivos, otimizando a disseminação de conteúdos enganosos com base em respostas comportamentais.
5 Astroturfing é uma prática de manipulação comunicacional em que campanhas são disfarçadas como manifestações espontâneas da sociedade civil. O termo, inspirado na grama sintética “AstroTurf”, designa estratégias que simulam apoio popular, ocultando os verdadeiros patrocinadores ou interesses por trás das mensagens. Em contextos de desinformação, o astroturfing é usado para criar a aparência de consenso, amplificar narrativas enganosas e influenciar debates públicos por meio de perfis falsos, bots ou grupos coordenados.

Author notes

Editor-chefe Thiago Henrique Bragato Barros

Autoria para correspondência Thiago Henrique de Jesus-Silva contatothiagosilva@alu.ufc.br

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