Artigos
Recepção: 06 Novembro 2016
Aprovação: 04 Agosto 2017
DOI: https://doi.org/10.18226/21789061.v9i4p656
Resumo: A Congregação do Coração de Jesus, fundada em 1878, instalou-se no século passado entre os povos do norte e centro de Moçambique e os seus membros [apelidados de dehonianos] ainda hoje subsistem em missões abertas ao mundo, junto da população que guiam espiritualmente e ajudam comunitariamente. Mas os novos tempos trouxeram dificuldades financeiras, e os dehonianos têm de encontrar formas de sustentar as suas atividades. O turismo pode ser a solução para as comunidades de Nampula, Alto-Molocué, Quelimane, Milevane e Gurué, nas províncias de Nampula e Zambézia. Pretende-se abordar as possibilidades turísticas das comunidades dehonianas presentes no centro e norte de Moçambique, assentes nas potencialidades das regiões onde se inserem, mais especificamente as particularidades naturais e culturais das comunidades locais e religiosas, e das atividades pastorais e sociais dos dehonianos. Através de análises SWOT criadas a partir da investigação no terreno, concluir-se-á a viabilidade do desenvolvimento da atividade turística com base nas casas dehonianas. Tal, no entanto, é uma solução que exige vontade e esforço financeiro por parte dos dehonianos e a atração do público-alvo adequado.
Palavras-chave: Turismo Cultural-Religioso, Patrimônio, Dehonianos, Análise SWOT, Moçambique.
Abstract: The Congregation of the Sacred Heart [SCJ], founded in 1878, settled in northern and central Mozambique during the last century and its members [called dehonians] still remain in missions open to the world, spiritually guiding and helping the local community. But new times have brought financial difficulties, and its members have to find ways to sustain their activities. Tourism can be the solution for the communities of Nampula, Alto-Molocué, Quelimane, Milevane and Gurué, in the provinces of Nampula and Zambézia. The objective is to discuss the touristic possibilities in the SCJ communities, present in central and northern Mozambique, based on the potential of the regions where they are based, specifically the natural and cultural characteristics of the local and religious communities and pastoral and social activities of the SCJ. Through SWOT analysis created in the aftermath of the fieldwork, the development of touristic activity in this context is expected to be achieved. However, this is a solution that requires will and financial effort from the SCJ and the attraction of the appropriate audience.
Keywords: Cultural-Religious Tourism, Heritage, Dehonians, SWOT Analysis, Mozambique.
INTRODUÇÃO
O presente artigo pretende analisar sumariamente as possibilidades turísticas das comunidades dehonianas do norte e centro de Moçambique, nomeadamente as que se encontram nas localidades de Nampula, na província homónima, de Alto-Molocué, Quelimane, Milevane e Gurué, localizadas na província da Zambézia. Este estudo aborda temas na área do turismo cultural, nomeadamente o turismo religioso na sua perspetiva ampla onde se inclui o turismo solidário, embora em interação com o turismo de base natural. Surgiu na sequência da percepção da necessidade de soluções para a sustentabilidade financeira das comunidades religiosas dehonianas em Moçambique, além de se constituir como um percurso exploratório das possibilidades turísticas de regiões atrativas mas pouco exploradas deste país africano.
O presente texto derivou de um estudo de campo de três meses, baseando-se em entrevistas, observação direta e na recolha de dados junto das instituições competentes. Este trabalho de campo permitiu a elaboração de análises SWOT[2], das quais se condensaram as conclusões finais. Assim, este nosso artigo inicia-se com a caracterização da congregação do Sagrado Coração de Jesus e da sua presença em Moçambique, passando pela apresentação dos atrativos turísticos associados às comunidades religiosas e aos habitantes locais, culminando nas conclusões consequentes das análises SWOT. Admite-se a desatualização de algumas informações apresentadas, já que os dados foram recolhidos entre março e maio de 2013.
DEHONIANOS EM MOÇAMBIQUE
A história da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus começa com a sua fundação pelo padre francês Léon-Jean Dehon nos finais do século XIX, traçando o seu propósito no serviço da comunidade e na abertura ao mundo (Ribeiro, 1993). A expansão do espaço de influência dá-se progressivamente desde os primeiros anos, dentro e fora da Europa, abrangendo atualmente 41 países, na Europa, África, América e Ásia (Priests of the Sacred Heart, 2012; U.S. Province, Priests of the Sacred Heart, 2002).
Presença em Moçambique - Em 1920 nasce a província dehoniana da Itália do Norte. Na década de 1940, os sacerdotes desta província pretendiam avançar para Moçambique, mas o estatuto de colónia portuguesa obrigou à presença dos sacerdotes italianos na metrópole. A casa no Funchal, fundada em 1946, marcou o início da presença dehoniana em Portugal. Em 1947, missionários da província dehoniana da Itália do Norte fundam a primeira missão em Moçambique em Malua, localidade do distrito de Alto-Molocué, na Alta Zambézia, região onde se concentram os esforços dehonianos, com a ajuda de Dom Sebastião Soares de Resende, o primeiro bispo da Beira [diocese em que se inseria a região], e personalidade da oposição ao regime de Salazar (Madella, 1998). Portugal, enquanto província dehoniana, dependia de Itália, tal como Moçambique. Em 1967, os dehonianos portugueses obtêm a sua independência e, em 1982, fundam a primeira missão em Madagáscar, mantendo-se quase à margem das missões em Moçambique.
Entretanto, no período entre as primeiras fundações e as nacionalizações após a independência (1975), assiste-se a uma primeira fase de crescimento, com a criação de missões em Nauela (1947), Gurué (1948), Ile, Mualama (1948), Molumbo (1948), Quelimane (1951), Gilé (1956), Namarrói (1957), Alto Ligonha, Nabúri, Mulevala (1959), Pebane (1960) e Milevane (1960) (Policarpo, 2012, 15 de outubro). As missões são zonas de evangelização em cujo centro se concentram os padres que daí se deslocam periodicamente às várias comunidades. Esse centro era constituído pela igreja, a casa da comunidade dehoniana, a escola e o centro de saúde. Devido ao número elevado de comunidades atribuídas a cada missão, estas são visitadas com pouca regularidade e celebram os seus ritos com a intervenção de ministros e catequistas locais. Nestes polos, foram-se criando centros de catequização, seminários e noviciados, com o objetivo de favorecer o surgimento de vocações autóctones, para que a animação das comunidades não ficasse dependente dos missionários estrangeiros, mas também escolas, como as de artes e ofícios. Chegaram a ser 13 missões, cada uma com cerca de 50 escolas primárias sob a sua alçada. Depois da primária [quatro anos] seguia-se para o ensino básico, que para os colonos estava disponível em colégios (Policarpo, 2012, 14 de outubro; Policarpo, 2012, 15 de outubro).
Em 1954, nasce a diocese de Quelimane, que tem jurisdição sobre a Zambézia, e a sede regional da Congregação, tal como a sede de província mais tarde, encontra-se invariavelmente aqui, mesmo quando, em 1994, é criada a diocese do Gurué, abrangendo a Alta-Zambézia. Esta presença serve um propósito de proximidade aos poderes religiosos e administrativos regionais, na tentativa de eliminar eventuais entraves e facilitando a ação dos dehonianos. Havia ainda, antes da independência, uma escola de Artes e Ofícios em Quelimane, com desenho técnico, alfaiataria, escultura, entre outras artes (Madella, 1998).
A partir de 1972 assiste-se à abertura à cultura, ecumenismo, sentido de justiça social por parte dos dehonianos. Todavia, como a congregação decidira no início da década permanecer em Moçambique apesar da instabilidade política (Policarpo, 2012b), a província dehoniana enfrentou nacionalizações destrutivas, tensões com a hierarquia religiosa, divisões entre missionários e pressão das autoridades sobre os religiosos, que provocavam a suspensão da normal atividade dos sacerdotes (Madella, 1998). A guerra civil limitou em muito a ação missionária, destruindo a organização de trabalho presente, obrigando os sacerdotes a abandonarem as casas de missão sem grandes meios de refúgio ou escapatória (Policarpo, 2012, 14 de outubro). Porém, todo o trabalho anterior de evangelização garantiu a continuidade das comunidades cristãs, já que os missionários estavam impedidos de circular pelas localidades (Policarpo, 2012, 15 de outubro).
Nos anos 1990, com a abertura do regime político e a capitalização da economia, dá-se um retorno de muitas propriedades nacionalizadas aos dehonianos, incluindo os edifícios da escola de Artes e Ofícios no Gurué e o seminário em Milevane, no geral em mau estado de conservação. Algumas igrejas foram recuperadas, mas o ensino e a saúde ficaram a cargo do estado. Os restantes edifícios que faziam parte das missões quase nunca foram recuperados, até porque o modo de organizar a evangelização mudara (Policarpo, 2012, 14 de outubro).
Em termos de administração religiosa da congregação, Moçambique atinge o estatuto independente da Itália em 1997, quando se consolida a paz, após a guerra civil. Só a paz permitiu o aumento do número de padres dehonianos naturais de Moçambique, que à data era reduzido, e, consequentemente, de bispos dehonianos moçambicanos. Entretanto, os padres italianos vão persistindo, todavia destinados a serem substituídos na totalidade pelos padres de origem moçambicana. Nas duas últimas décadas, a redução de missionários e sacerdotes dehonianos obriga ao abandono de missões e casas da congregação, que ficam geralmente a cargo de padres diocesanos. Assim, atualmente, apenas Maputo [caso excluído do presente estudo por razões práticas], Quelimane, Gurué, Milevane, Alto-Molocué e Nampula mantêm casas dehonianas, quando antes estavam estabelecidas treze missões (U.S. Province, Priests of the Sacred Heart, 2002).
Atualmente, à imagem dos seus predecessores, a ação dos sacerdotes dehonianos junto das populações locais extravasa a componente evangélica, abrangendo a formação profissional, o apoio social (assistência médica, disponibilização de aparelhos de moagem, bibliotecas e outros equipamentos de uso público) e a oferta de emprego em oficinas, escolas, bibliotecas, hotelaria e restauração no âmbito da atividade dehoniana. Porém, a essas atividades está associada uma balança financeira desequilibrada, negativa, em que os custos ultrapassam largamente as receitas, provenientes na sua maioria de doações. Desta forma, algumas soluções de autofinanciamento foram equacionadas, à cabeça as de natureza turística, que serão em parte exploradas neste artigo.
ANÁLISE SWOT – POSSIBILIDADES TURÍSTICAS DAS CASAS DEHONIANAS
Nos três meses de trabalho de campo, a principal ferramenta de recolha de dados foi a entrevista semidiretiva; esta tipologia de entrevista segue um guião com objetivos pré-determinados mas confere liberdade quanto à abordagem por parte do entrevistado (Ghiglione & Matalon, 1993, in Pires, 2012), o que permite recolher informação mais variada dentro das temáticas pretendidas. Ao todo foram realizadas 44 entrevistas e cinco focus group. Os entrevistados foram subdivididos em quatro categorias correspondentes a quatro guiões de entrevistas: Superiores das comunidades; Habitantes locais; Visitantes – alojamento; Visitantes - turismo.
Seis entrevistas foram efetuadas aos superiores das comunidades para uma melhor caracterização das casas dehonianas em estudo e para conhecermos a sua recetividade ao desenvolvimento de equipamentos, serviços e atividades relacionadas com o turismo cultural. Quatro entrevistas e um focus group foram feitas a visitantes que pernoitaram nas comunidades dehonianas com o objetivo de conhecermos a sua opinião sobre as condições de alojamento destas comunidades. Paralelamente realizámos 31 entrevistas e quatro focus group a habitantes locais para percebermos a sua sensibilidade ao desenvolvimento do turismo nas suas localidades e três entrevistas a visitantes sobre a sua experiência turística na região. No total, realizaram-se 12 entrevistas em Nampula, 20 em Alto-Molocué, seis em Quelimane, três em Milevane e 13 no Gurué.
As informações recolhidas foram processadas e sistematizadas na forma de quadros de análise SWOT, criados a partir das diretrizes de vários autores nacionais e internacionais (nomeadamente Pahl e Richter, 2009 e Rosa e Lúcio, 2001). Segue-se a análise das casas e do seu contexto regional segundo esses estudos.
Nampula - A comunidade dehoniana de Nampula encontra-se instalada em Napipine, bairro central da cidade de Nampula, capital da província homónima. Os dois padres residentes ocupam-se da pastoral, e um dos sacerdotes de estudos etnográficos relativos à etnia Macua, dominante na região. A casa atual [figura 1] constitui-se por dois edifícios que reúnem sete quartos e algumas áreas comuns. Acrescenta-se, porém, que estas estruturas encontram-se numa propriedade que não pertence aos dehonianos, aguardando-se a transferência num futuro próximo para uma propriedade da congregação, localizada num espaço externo ao conjunto urbano.
Análise SWOT - A pesquisa revelou algumas possibilidades turísticas no seio da comunidade dehoniana. Desde já, a presença de um especialista em cultura Macua permite pensar o desenvolvimento de cursos para os visitantes. A casa atual ocupa uma posição central na localidade, apresenta boas condições de habitabilidade e encontra-se perto de instituições de ensino com que a comunidade possui boas relações, apontando para certa capacidade de desenvolvimento de protocolos com as universidades locais e externas. Quanto à nova propriedade, a construção encontra-se numa fase inicial, podendo esta caminhar num sentido favorável ou não ao desenvolvimento de um projeto turístico. Nampula é um ponto estratégico na ligação entre as outras comunidades e o exterior do país, pois aqui se localiza o único aeroporto internacional das duas províncias com presença dehoniana.

Porém, os sacerdotes presentes em Nampula encontram-se pouco preparados e extremamente ocupados nas suas atividades. A casa atual é de pequenas dimensões, não tem serviços preparados para visitantes e está assente numa propriedade que não pertence aos dehonianos. A propriedade nos arredores de Nampula [figura 2] localiza-se a uma distância apreciável do centro urbano, o plano arquitetónico da nova casa não prevê, pelo menos por enquanto, um aproveitamento turístico e prevalecem as dificuldades logísticas e de financiamento na construção. Por fim, um projeto de hospedagem pode sofrer gravemente com a expansão hoteleira na cidade.
Enquanto cidade e província, Nampula destaca-se dos outros lugares deste estudo pela influência do crescimento económico mais acelerado [permitindo a presença e expectativa de algumas comodidades inexistentes nos outros lugares], pela existência do aeroporto internacional e de maior variedade de transportes e pela importância turística da Ilha de Moçambique (a cerca de 180 quilómetros de Nampula). Porém, muitos entrevistados, dentro e fora de Nampula, apontam para insegurança da cidade, queixa raramente apresentada para outros lugares.

Alto-Molocué - A poucos quilómetros do centro da vila de Alto-Molocué, sede do distrito homónimo, na província da Zambézia, uma comunidade dehoniana, constituída por três padres, vela pelo Centro Juvenil Padre Dehon [figura 3]. Estes ocupam-se da pastoral, da gestão dos equipamentos e serviços do Centro (biblioteca, ensino pré-primário, formação técnica em carpintaria e informática, entre outros), da administração da hospedagem dehoniana (que conta com 13 quartos) e do apoio à população local, nomeadamente na assistência médica.
Análise SWOT - A par dos dehonianos do Gurué, verifica-se que os sacerdotes do Alto-Molocué oferecem o melhor preço-oferta do distrito em hospedagem e restauração, sendo estes serviços recomendados por trabalhadores itinerantes e personalidades locais e regionais, os principais frequentadores do alojamento. A par do papel social da comunidade dehoniana, a qualidade e o prestígio destes serviços são também reconhecidos pelos habitantes locais.
Trata-se de um projeto de hospedagem bem-sucedido e, por isso, pode impulsionar experiências semelhantes noutras casas da congregação. Reconhecem-se ainda as condições necessárias para a concretização de um projeto turístico, explorando a interação dos turistas com a comunidade local, tendo a comunidade dehoniana como intermediária. Porém, observam-se capacidades limitadas de hospedagem e de restauração, ainda que com possibilidade de expansão, e a comunidade religiosa não revela a vontade e a disponibilidade necessárias para a concretização de um projeto turístico que ultrapasse as componentes do alojamento e restauração.

Quanto ao potencial turístico da região em si, é relevante apontar a passagem da estrada nacional que atravessa o país de norte a sul, o que garante a chegada de muitos visitantes em viagens de negócio. Desta forma, destaca-se a potencialidade de desenvolvimento do turismo de negócios, a par do cultural, religioso e de voluntariado, possibilitados pela relação entre a comunidade local e os religiosos dehonianos. Todavia, é preciso salientar a inexistência de um departamento de turismo, caso único nas localidades sedes de distrito estudadas, o que denota o desinteresse pelo desenvolvimento deste sector no distrito da parte do estado moçambicano.
A comunidade de Quelimane ocupa um lugar central na hierarquia dehoniana em Moçambique, já que os seus três sacerdotes se ocupam praticamente só da administração provincial, com a exceção de um dos membros da comunidade que é médico-cirurgião. A Casa Provincial [figura 4] localiza-se perto do centro da cidade de Quelimane, capital da província administrativa da Zambézia, e é constituída por uma casa de dois andares, com 22 quartos e alguns espaços comuns.

A comunidade de Quelimane ocupa um lugar central na hierarquia dehoniana em Moçambique, já que os seus três sacerdotes se ocupam praticamente só da administração provincial, com a exceção de um dos membros da comunidade que é médico-cirurgião. A Casa Provincial [figura 4] localiza-se perto do centro da cidade de Quelimane, capital da província administrativa da Zambézia, e é constituída por uma casa de dois andares, com 22 quartos e alguns espaços comuns.
O futuro da presença da sede dehoniana em Moçambique na cidade é incerto, já que o microclima da região é pouco propício à estadia prolongada e a cidade encontra-se isolada do resto da província e do país e, desta forma, distante das restantes localidades de influência dehoniana na região, devido à distância entre este centro urbano e os acessos rodoviários e ferroviários mais importantes na região.
Análise SWOT - A casa reúne algumas condições para o estabelecimento de um projeto turístico e de hospedagem. Todavia, é necessário um investimento avultado, nomeadamente na renovação, ampliação e incremento das condições atuais, e a comunidade não se encontra disponível nem possui vocação para a hospedagem, tendo alguns membros demonstrado até oposição. É preciso apontar, ainda, que esta é a comunidade mais distante das demais, dificultando a criação de uma eventual rota turística entre as comunidades.

Passando à análise das potencialidades da região, verificam-se mais aspetos positivos. De destacar o património histórico [figura 5], a proximidade à praia de Zalala, bem conhecida em Moçambique, e a um dos maiores palmeirais do mundo [com 600 quilómetros de extensão], associado a inúmeras indústrias e formas de artesanato na região, mas em perigo por causa de uma doença que se tem propagado agressivamente. A variedade de transportes dentro do distrito e a existência de opções mais orientadas aos turistas, como os transfers, são claramente facilitadores da promoção de opções turísticas na região, que não é estranha a eventos de lazer, alguns de importância provincial e até nacional. Entre festivais [como o de Zalala], que se realizam principalmente no vizinho distrito de Nicoadala, e o carnaval de Quelimane, a região atrai com sucesso o turista e o excursionista moçambicano. O departamento turístico provincial oferece grandes contributos para este sucesso, promovendo a região com estes eventos e outras iniciativas, como concursos de eleição de lugares relevantes ao turismo regional; porém, sofre com a falta de meios monetários. Entre os aspetos negativos, há que destacar a presença de algumas doenças praticamente endémicas, como a malária, associadas aos meios de saúde limitados e a um severo microclima, que podem afastar o turista da região, principalmente da cidade de Quelimane.
Por fim, há que destacar que o facto de o território já ser conhecido e frequentado pela componente balnear e por alguns eventos culturais demonstra que existe já um público que poderia ser incentivado a participar noutras atividades, caso existissem e fossem bem promovidas.

Milevane - Na isolada localidade de Milevane, no posto administrativo de Nauela, distrito de Alto-Molocué, encontra-se o Seminário de São Francisco Xavier [figura 6], albergando quatro padres, que se ocupam da pastoral e da orientação de alguns seminaristas residentes. Numa propriedade de muitos hectares, duas grandes estruturas do tempo colonial reúnem 47 quartos, uma camarata, um pequeno apartamento e variados e amplos espaços comuns, principalmente refeitórios, uma capela, uma biblioteca e várias salas de reunião e de aulas, para além de uma igreja e um cemitério. Antes deste estudo foram já pensados vários projetos para o local, como um centro de estágio, um campo de golfe, um hipódromo, uma faculdade da Universidade Católica de Moçambique ou um pomar de cerejas.
Análise SWOT - A massiva estrutura dos dehonianos tem potencialidades para quase tudo, dentro e fora de portas, num contexto natural e patrimonial de grande interesse, com capacidade elevada de alojamento e uma comunidade religiosa rotinada na organização de atividades religiosas que envolvem grupos de elevada dimensão.
O isolamento pode ser visto como vantagem e desvantagem. A casa de Milevane é a que possui maior potencial bruto para receber pequenos e grandes grupos que querem isolar-se com o objetivo de viver experiências religiosas ou naturais [figura 7]. Milevane pode vir a constituir um produto destinado a um nicho de mercado de turismo de aventura e ecoturismo ou de turismo religioso e de voluntariado, menos exigente com as condições das infraestruturas, equipamentos e serviços mas interessado no contacto com a realidade rural e com o ambiente de Moçambique e com vontade de preservar e respeitar o que encontra. Porém, o seu isolamento geográfico dificulta também a manutenção de um empreendimento de alojamento e de restauração, problema aliado a um sistema elétrico deficitário e a limitações nos sistemas de comunicação. É de acrescentar que se verifica o abandono progressivo do projeto dehoniano em Milevane, faltando vontade de decisores externos à comunidade religiosa local de ver a propriedade ser recapitalizada, muito por esta se encontrar isolada.

Fonte: Acervo da autora
Gurué - Os três padres da comunidade do Gurué gerem a massiva estrutura constituída por dois polos localizados nas proximidades do centro urbano da sede do distrito do Gurué (província da Zambézia), ocupando-se da pastoral, da hospedagem e da gestão dos institutos técnicos, oficinas [figura 8] e propriedades associadas.
O Centro Polivalente Leão Dehon (CPLD) alberga dois institutos técnicos, a Escola Básica Industrial e o Instituto Médio Agropecuário do Gurué, uma secretaria, alguns edifícios das aulas teóricas, uma biblioteca, várias oficinas dos institutos, uma moagem, algumas casas de arrendamento, uma sala de reuniões para 300 pessoas, um campo desportivo e um edifício onde pernoitam alguns hóspedes e os padres, com os respetivos espaços comuns. O segundo polo resume-se a um antigo noviciado [figura 9], que possui 65 quartos, alguns espaços comuns e um polo de ensino à distância da Universidade Católica de Moçambique.

Incluem-se, ainda, outras propriedades fora destes dois polos, usados para aproveitamento agrícola e espaços de estudo para o instituto agropecuário. Estas propriedades já motivaram algumas ideias de projetos de rentabilização, como um projeto residencial na localidade de Mangone, a construção de um campo de golfe ou de um centro de estágio.
Análise SWOT - É no Gurué que se localiza o empreendimento dedicado ao alojamento turístico com maior índice de sucesso no contexto das casas dehonianas. Colhe também preferências no contexto dos trabalhadores em movimento na região. Trata-se de estruturas coloniais recentemente recuperadas, com elevada capacidade de alojamento e instalações elogiadas até pela sua componente estética.
Os padres equacionam valorizar a oferta hoteleira existente, investindo no incremento dos equipamentos e serviços da casa e criando ou promovendo produtos turísticos ou eventos para os visitantes. Todavia, nem todos os elementos da comunidade concordam plenamente com uma aposta concreta num projeto turístico mais abrangente. Os dehonianos têm condições para explorar o turismo de voluntariado e agrário [através do CPLD], o turismo natural e de aventura e o turismo de negócios [já parcialmente aproveitado, graças à sala de reuniões]; possuem ainda meios para criar um acordo turístico com as fábricas de chá da região [figura 10], com o intuito de permitir aos turistas o contacto com a realidade da indústria, que conta já com décadas de história.

Quanto ao próprio distrito do Gurué, são apontadas como atrações mais importantes a paisagem montanhosa dominada pela agricultura, principalmente do chá, as fábricas coloniais e outro património anterior à independência, os lagos e cascatas, o monte Namúli [a segunda maior montanha de Moçambique] e a praia e o Festival Licungo, associados ao rio com o mesmo nome. Todavia, o património arquitetónico e industrial mais interessante, fora da cidade, encontra-se na posse das empresas de chá, pouco recetivas ao turismo. A cidade regista alguma criminalidade e alguns problemas sociais causados pela intensa movimentação de trabalhadores na região. O desaparecimento das tradições culturais locais e a negligência do património arquitetónico podem dificultar a criação de produtos turísticos culturais.

CONCLUSÕES
Depois de apresentados os dados particulares de cada casa e região, condensa-se essa informação em conclusões.
As comunidades dehonianas - Seguem-se as conclusões possíveis quanto à análise do potencial turístico das comunidades dehonianas.
Pontos fortes - É importante destacar que os religiosos consideram que é inevitável a rentabilização económica das casas, e uma das opções mais consideradas é a do alojamento. As unidades hoteleiras dehonianas do Alto-Molocué e Gurué constituem bons exemplos de sucesso de oferta de serviços de hospedagem no contexto dehoniano, graças ao rácio oferta-qualidade mais favorável e competitivo nas respetivas regiões onde se inserem. As casas dehonianas em geral oferecem componentes físicas e humanas atrativas como condições de alojamento superiores, localização favorável das casas, segurança, sossego, ambiente de convívio, conforto, atendimento, horário de entrada flexível, espaços de reunião, serviço de alojamento invejável em alguns casos, serviço de refeições superior, equipamentos e serviços variados. A comunidade dehoniana revela abertura ao mundo exterior e boas relações com a comunidade local.
Pontos fracos - As casas sem empreendimentos turísticos necessitam de um investimento em renovação, oficialização e, por vezes, expansão da capacidade hoteleira, os membros das comunidades não possuem experiência na área do sector turístico e é preciso converter os serviços da casa, que foram criados para a comunidade dehoniana local e não contemplam a presença de turistas. Estas casas encontram-se, assim, mais distantes de poderem oferecer serviços de alojamento de forma sistematizada. Além disso, as casas que já oferecem serviços de hotelaria registam uma falta de profissionalização dos serviços oferecidos e uma limitada divulgação dos serviços das casas e das possibilidades turísticas da região junto dos hóspedes. Por fim, a hospedagem e o desenvolvimento de atividades turísticas não constituem prioridades para as comunidades.
Oportunidades - A análise no terreno demonstra que o desenvolvimento turístico de todas as casas depende da vontade e da capacidade de investimento, pois os recursos existem. Desta forma, é possível perspetivar o aproveitamento do turismo solidário ou de voluntariado, graças à participação das comunidades dehonianas em projetos sociais, do turismo cultural, através do contato com a tradição da comunidade local, do turismo religioso e espiritual, no contexto das comunidades dehoniana e local [através da pastoral abrangente dos dehonianos] e do turismo de negócios, aproveitando a presença de espaços próprios para a realização de reuniões e congressos de negócios, debates e conferências.
Ameaças - Um projeto de turismo nas casas dehonianas tem de enfrentar a clara dificuldade em colmatar a necessidade de um atendimento mais profissional, já que a disponibilidade dos membros da comunidade para a atividade é reduzida, verifica-se o envelhecimento dos religiosos e a redução do seu número, e a contratação de um agente de confiança para a gestão é um processo complexo. As comunidades debatem-se ainda com o aumento da concorrência, apesar de frequentemente os alojamentos concorrentes possuírem uma relação preço-qualidade inferior, e com os custos elevados da recuperação das instalações, de manutenção e oficialização dos serviços turísticos.
As regiões - É essencial analisar igualmente o papel do contexto regional no potencial turístico da estrutura dehoniana no norte e centro de Moçambique.
Pontos fortes - As cinco localidades analisadas e as respetivas províncias têm definitivamente potencialidades turísticas em termos culturais e naturais [figura 11], algumas delas tendo já produtos turísticos estabelecidos, nomeadamente o turismo balnear e o turismo cultural e de eventos na Ilha de Moçambique (província de Nampula) e em Quelimane e arredores [província da Zambézia].
Pontos fracos - As dificuldades económicas de Moçambique marcam claramente o contexto regional turístico. Na base presencia-se a falta de investimento estatal, que se reflete nas infraestruturas de acesso, nos transportes, no saneamento e na saúde; na área turística, em particular, assume-se em deficiências na capacitação dos recursos humanos, na inventariação e conservação de recursos, na fiscalização do sector turístico emergente e na sua promoção.

Observa-se um sector limitado pela reduzida cultura turístico dos moçambicanos, promovendo o desconhecimento e/ou a subvalorização do potencial turístico de muitos lugares. Os equipamentos e serviços turísticos existentes são deficitários e de baixa qualidade, os investimentos privados limitados e a oferta cara. Assim, a oferta turística é ainda muito dispendiosa para os moçambicanos e pouco competitiva no mercado internacional.
Oportunidades - Quanto ao contexto regional, pode-se tomar como oportunidades exatamente o vasto potencial turístico por valorizar e explorar que, associado aos produtos turísticos existentes, e conjugando os vários espaços estudados, possibilitam uma oferta singular e variada, entre turismo cultural, natural, desportivo, balnear, termal, de eventos, ecoturismo e de negócios.
Ameaças - A oferta turística de Moçambique é perturbado pela instabilidade política e social, que se sente mais em alguns pontos do país do que noutros, a ocidentalização cultural e a limitada capacidade da ação estatal, já explanada.
CONCLUSÕES
As diferentes análises SWOT possibilitaram as considerações que se seguem.
As casas dehonianas estudadas distribuem-se por uma vasta área geográfica, nomeadamente as províncias de Nampula e da Zambézia, no norte e centro de Moçambique, abrangendo, portanto, diversas paisagens naturais e diferentes etnias e tradições culturais, facultando a oportunidade de conhecer um Moçambique diversificado. Concluiu-se que o turista religioso e de voluntariado e o turista de negócios constituem as tipologias de turistas que melhor se adequam à vida das comunidades, já que os turistas da primeira tipologia são menos exigentes e pretendem testemunhar o país real, e os da segunda são frequentes nessas regiões e as casas reúnem condições para recebê-los.
As casas poderiam investir, igualmente, na receção de um público-alvo que visita Moçambique no contexto do chamado ‘turismo da saudade’. A casa de Nampula poderia proporcionar cursos sazonais sobre cultura Macua e promover encontros nacionais e internacionais sobre o tema em associação com as universidades. As casas dehonianas constituem regularmente a opção de alojamento mais acessível e de qualidade na região onde se localizam e são e/ou poderão ser competitivas na restauração, pelo facto de a sua alimentação ser variada, bem confecionada e oferecida a preço acessível.
Um projeto turístico depende da existência de um plano estratégico conjunto das comunidades mas, também, de cada comunidade em particular. Os superiores das casas têm consciência da necessidade de autofinanciamento, mas a estrutura humana atual parece não ter capacidade de resposta aos desafios que um empreendimento deste tipo implica.
Para tornar um projeto do género possível, é fundamental contratar um gestor por cada casa e trabalhadores para o atendimento, a segurança e a limpeza das unidades de alojamento, pois os membros da congregação são pouco numerosos e encontram-se demasiado ocupados nas atividades pastorais e comunitárias. O investimento na renovação, ampliação ou até mesmo construção de estruturas é também essencial.
Vontade, esforço financeiro e atração do público-alvo adequado encontram-se entre os requisitos indispensáveis para o progresso da atividade turística entre os dehonianos, especialmente em relação a um projeto em rede.
Referências
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Pahl, N. & Richter, A. (2009). SWOT Analysis: idea, methodology and a practical approach. Munique: GRIN Verlag.
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Notas