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O Rural como Atrativo Turístico e a Experiência Cultural: A Fazenda Santa Gertrudes
Ruralities as Tourist Attraction and Cultural Experience: The Santa Gertrudes Farm
O Rural como Atrativo Turístico e a Experiência Cultural: A Fazenda Santa Gertrudes
Rosa dos Ventos, vol. 9, núm. 3, pp. 447-456, 2017
Universidade de Caxias do Sul
Recepção: 15 Outubro 2016
Aprovação: 02 Julho 2017
Resumo: O artigo discorre sobre o rural paulista como atrativo turístico e cultural, destacando a Fazenda Santa Gertrudes. A metodologia consistiu em pesquisa bibliográfica, entrevistas com envolvidos e atividades didáticas na propriedade. Os resultados indicam um crescimento das atividades não agrícolas no rural, voltadas para o turismo como complemento de renda.
Palavras-chave: Turismo Rural, Fazendas Históricas, Fazenda Santa Gertrudes, São Paulo-SP, Brasil.
Abstract: The article discusses the rural of São Paulo, Brazil, as a tourist and cultural attraction, highlighting Fazenda Santa Gertrudes. The methodology consisted of bibliographic research, interviews with involved and didactic activities in the property. The results indicate a growth of non-agricultural activities in the rural sector, aimed at tourism as income supplement.
Keywords: Rural Tourism, Historic Farms, Santa Gertrudes Farm, São Paulo-SP, Brasil.
INTRODUÇÃO
O meio rural brasileiro, especialmente o espaço do interior do Estado de São Paulo [Brasil], modificou-se profundamente nos últimos tempos, hoje não sendo mais definido somente como uma área de desenvolvimento agropecuário. Algumas atividades caracteristicamente urbanas agora acontecem nesses espaços rurais, em complemento às atividades agrícolas (Silva, Balsadi, & Del Grossi, 1997). As atividades não agrícolas aparecem como opção de geração de renda, incentivando a permanência da população no meio rural, sobressaindo-se as relacionadas ao lazer e ao turismo. O incremento do turismo em espaços rurais vem, cada vez mais, auxiliando a valorização do território.
Em seus primórdios, o interior paulista recebeu diferentes povos, que tiveram diversas influências sobre o local, no decorrer do tempo, a iniciar pelo sincretismo dos hábitos e costumes dos portugueses com os indígenas, a partir de 1500, no litoral (Augusto, 2010). Posteriormente, em 1554, jesuítas portugueses chegaram ao Planalto de Piratininga, fundaram a vila de São Paulo, dedicando-se à agricultura de subsistência. Em meados do século XVII, estes paulistas passaram a organizar as famosas bandeiras, expedições para o interior do Brasil. Eram expedições que tinham o objetivo de aprisionar índios e descobrir metais preciosos no sertão, ainda intacto em termos de presença europeia. Os bandeirantes tornaram-se pioneiros na ocupação do território do hoje Estado de São Paulo, abrindo muitos caminhos por terra, mas também usando as bacias hidrográficas, principalmente a do rio Tietê (Fausto, 2001).
São Paulo teve, ainda, a presença marcante dos povos africanos que, inicialmente, chegaram como escravos às grandes propriedades canavieiras do Nordeste brasileiro, já a partir de 1550. Posteriormente, espalharam-se pelo país e também vieram para região Sudeste, em função da demanda por mão de obra dos grandes cafezais locais. No final da primeira metade do século XIX, começaram a ocorrer as primeiras experiências com imigrantes europeus não ibéricos, que chegaram ao Brasil para, gradualmente, substituir a mão-de-obra dos escravos. Pode-se, então, afirmar que o Estado de São Paulo, como todo território brasileiro, é resultado de um mosaico de vários povos com diferentes culturas, sendo a lusitana a principal herança (Furtado, 2007).
O processo de ocupação da terra e as práticas econômicas desenvolvidas no interior paulista mostram importantes aspectos, mudanças e permanências. A região onde está a Fazenda Santa Gertrudes, a Depressão Periférica, localizada no centro do Estado [distante cerca de 170Km da capital, São Paulo], revela condições parecidas a outras áreas paulistas e, ao mesmo tempo, algumas especificidades (Fig.1). Inicialmente, este espaço foi dividido em sesmarias que, posteriormente, foram recortadas em latifúndios cafeeiros de terra roxa. Nos fins do século XIX e início do século XX, estavam localizados próximos dos municípios de Campinas, Limeira, Araras, Itu, Araraquara, Ribeirão Preto, Mococa entre outros (Oliveira, 2015).

Santos (1997) dizia que o espaço é constituído pelos objetos geográficos naturais e artificiais da paisagem, e também pela sociedade, sendo esta o principal elemento para traçar o perfil dos lugares. O autor afirma que os elementos do espaço são: os homens; as firmas [produção de bens, serviços e ideias]; as instituições [normas, ordens e legitimações]; as infraestruturas e o meio ecológico, que se modifica em meio técnico, sofrendo os impactos das ações antrópicas. O espaço do entorno da Fazenda Santa Gertrudes tem sido reconfigurado por inúmeras razões, os rearranjos territoriais observados ali são resultados da ação antrópica incessante há séculos, exploração agropecuária e mineral, principalmente da indústria ceramista. Mais recentemente, surge um fluxo de visitantes oriundos dos municípios vizinhos que procuram a propriedade para realização de eventos e também para turismo pedagógico e cultural. Estes turistas já podem ser considerados agentes modificadores do espaço local. Os proprietários da Fazenda também são responsáveis pela reorganização espacial da área [que possui um belo conjunto arquitetônico histórico], por meio da implantação de infraestrutura receptiva para festas, lazer e educação socioambiental e patrimonial.
O presente trabalho discorre sobre o rural paulista como atrativo turístico e cultural, destacando a Fazenda Santa Gertrudes, buscando fazer um exercício preliminar para apreender a realidade desta propriedade e suas singularidades. O conhecimento das partes, das suas relações e de sua evolução, é fundamental para se apreender o sistema. A percepção de um todo orgânico e seus fenômenos, com coerências e contradições, dentro de um processo de transformação e desenvolvimento devem compreendidas a partir de suas condicionantes originais e suas ligações com os diferentes sistemas existentes (Pontes, 1983).
Para elaborar este artigo, buscou-se para o estudo de caso sobre a Fazenda Santa Gertrudes, propriedade com feições multifuncionais, primeiramente, realizar uma pesquisa bibliográfica, voltada para o novo rural brasileiro e seu aproveitamento pelo turismo. A pesquisa bibliográfica é relevante, permitindo “um grau de amplitude maior, economia de tempo e possibilita o levantamento de dados históricos” (Dencker, 1998, p. 125). Em paralelo às buscas bibliográficas, houve aplicação de entrevista semiestruturada com o proprietário da área rural em foco, objetivando obter informações primárias sobre o processo de turistificação local, suas estratégias de empreendedorismo, facilidades e dificuldades encontradas. O proprietário é tratado como LM, iniciais de seu nome, com a sua devida concordância. A entrevista caracteriza-se pelo teor qualitativo e foi utilizada para levantar as expectativas do proprietário perante o atrativo alvo de modo subjetivo. Enfatiza-se que a "entrevista é uma das mais comuns e poderosas maneiras que utilizamos para tentar compreender nossa condição humana" (Fontana & Frey, 1994, p.361). Enfim, é hoje uma técnica interessante para obtenção de informações, principalmente, em Ciências Humanas, pois “explora um assunto a partir da busca de informações, percepções e experiências de informantes para analisá-las e apresentá-las de forma estruturada” (Duarte, 2005, p.1).
A FAZENDA SANTA GERTRUDES
A fazenda Santa Gertrudes pode ser considerada o resultado de uma ação antrópica que, no passado, apropriando-se dos recursos naturais abundantes da região, terra fértil coberta por cerradão e Mata Atlântica, relevo pouco acidentado e cursos d´água, acarretou o surgimento, inicialmente, de um enorme canavial. Nessa época, pertencia ao Marquês de Três Rios e, posteriormente, sendo proprietário o Conde de Prates, tornou-se uma monocultura cafeeira, com características e dinâmica próprias. Certamente, foi uma das mais complexas e bem sucedidas propriedades cafeeiras do Brasil (Rocha, 2008). Constituída em 1817 e batizada como Santa Gertrudes em 1854, a propriedade alcançou em seu auge entre 1890 e 1920, quando incluía dois mil colonos imigrantes nos seus 3.570 hectares, dos quais 500 exclusivos para a cultura, com cerca de um milhão de pés de café. Depois de ser administrada pelo Marquês de Três Rios, passou às mãos do Conde Eduardo Prates em 1895, trisavô do atual dono da fazenda, Luís Felipe Botelho de Medeiros. Eduardo Prates concluiu a construção de uma igreja em 1898, mas também tinha em suas terras escola, açougue e consultório médico e apresentações de cinema aos sábados. A casa sede ainda abriga acervo de objetos e móveis deste período.
É na mesma igreja Santa Gertrudes de 1898, que noivos do século XXI celebram suas bodas. A propriedade abre suas portas todas as semanas para esse tipo de evento, que pode ser celebrado ainda no salão da antiga tulha ou no jardim [...]. Também recebe visitas de escolas e grandes grupos, além das realizadas pela Secretaria de Turismo de Limeira. Esforços desses redutos da História para manter a sua viva. Bem sabem que recompõem um mosaico que representa não apenas suas famílias, mas as de muitos outros brasileiros (Couto, 2010, s.p.).
Nos dias atuais temos, verdadeiramente, um novo rural brasileiro, e no interior paulista a fazenda Santa Gertrudes pode ser citada como um exemplo de refuncionalização socioespacial, ou seja, a propriedade, por meio da iniciativa de seus responsáveis, assumiu, nas duas últimas décadas, a atividade turística como mais uma de suas funções econômicas e sociais. O espaço foi adaptado para receber visitantes, reconfigurando-se com atrativos que chamam a atenção da população vizinha e de outras regiões mais distantes, e mesmo da capital e de estrangeiros, em busca de um passado simbólico perdido com o início do êxodo rural a partir dos anos de 1950. Enfim, o turismo foi adotado como estratégia de desenvolvimento, entre outras. A atividade turística desenvolvida na Fazenda Santa Gertrudes é fundamentada no aproveitamento dos patrimônios históricos, culturais e paisagísticos existentes, apropriados para lazer e recreação, oferecendo empregos e gerando renda. Podemos também afirmar que propriedades como a Fazenda Santa Gertrudes são, hoje, multifacetadas, além da visitação, a mesma desenvolve outras atividades econômicas relacionadas à cana de açúcar, entre outras.
Naveh (2000) estudou paisagens multifuncionais, estabelecendo premissas para compreendê-las, a saber: (1) Surgiram como consequência da revolução científica transdisciplinar, a partir das dimensões naturais e culturais; (2) Fazem parte do sistema organizacional com mais informações que a mera soma de seus componentes; (3) Baseando-se na Teoria dos Sistemas Gerais, considera a organização hierarquizada dos sistemas abertos de diversos níveis; (4) Destacam a interação do natural e do cultural, enfatizando o papel da sociedade como integrante do ambiente e a construção do patrimônio cultural que permanece na paisagem de geração para geração. A fazenda Santa Gertrudes encaixa-se bem nas premissas definidas por Naveh, como uma paisagem construída por diferentes atores sociais, em diferentes momentos históricos, evoluindo e dando oportunidade para aqueles que ali viveram, de deixar a sua marca na organização espacial rural.
Hoje tais marcas tornaram-se verdadeiras relíquias muito valorizadas pelos visitantes que procuram reaprender a apreciar o mundo do campo. Esta nova fase [que também pode ser uma nova face] do rural brasileiro, ainda precisa ser melhor analisada e pesquisada, mas já é plausível vislumbrar que o estudo da multifuncionalidade da paisagem pode ser um extraordinário instrumento de gestão territorial sustentável que aglutina avanços sociais, econômicos e também a conservação ambiental (Guiomar, Fernandes & Neves, 2008). Alguns estudos têm sido feitos sobre o turismo no espaço rural (Elesbão, 2008; Cavaco, 2001; Talavera, 2001; Tiradentes, entre outros), fornecendo informações importantes para a atividade como opção de desenvolvimento rural. Os autores citados pesquisaram as atividades turísticas em outras regiões brasileiras e outros países, mas nos oferecem dados que também são observados no interior paulista. Mostram, principalmente, elementos que se referem às transformações do meio rural no mundo contemporâneo e aspectos da multifuncionalidade das propriedades, bem como, os investimentos que estão a surgir em atividades do setor de serviços como o turismo no espaço rural.
Tais pesquisas enfatizam que o turismo em espaço rural tem promovido rearranjos socioespaciais locais, evoluindo para uma base regional, principalmente, no interior rural paulista. Esta área sofreu transformações nos últimos anos, constatando-se outros aproveitamentos dos recursos locais, evidenciando-se a sua apropriação pelo turismo, alternativa e expressão de diversificação econômica importante para aqueles que permanecem no campo, em contexto de neorruralidades que assume, gradativamente, novos significados. Identificam-se mudanças e adaptações aonde o turismo acontece, destacando-se que este coexiste com outros fatores que intervém nos núcleos receptores e possui inúmeras interligações, tendo como principal característica o fato de ser uma prática social voltada para o consumo do espaço.
A implementação do turismo em espaço rural em território paulista vem ocorrendo há mais de três décadas, começando de forma tímida, desordenada e lenta, mas evoluindo constantemente, com a implantação gradativa de equipamentos de infraestrutura. O turismo em espaço rural é encarado como uma alternativa em tempos de “desemprego estrutural, [...] arrocho salarial, [...] desregulamentação do mercado de trabalho e o avanço dos empregos informais [...] (Garcia, 2007, p.44). A atualidade evidencia mudanças profundas em contexto de desenvolvimento irregular nas diferentes regiões, com o surgimento de empregos no setor de serviços e a atividade turística é um exemplo.
As fazendas paulistas, principalmente aquelas ligadas à cana-de-açúcar e ao café, possuem atributos históricos, culturais e naturais preexistentes como casarões [casas sede], conjuntos arquitetônicos representativos [armazéns, tulhas, terreiros, antigas senzalas, estábulos etc] e os cursos d’água, o relevo, a vegetação que compõem o espaço com um valor paisagístico apreciado pelos turistas. Trata-se de “os objetos geográficos contêm valores que podem mudar […] com a situação e com os interesses dos atores sociais” (Pereira & Oliveira, 2010, p.869). É importante destacar que o turismo no espaço rural pode trazer muitos melhoramentos, tais como Alves e Simões (1996) enumeram: dinamização e diversificação das atividades locais como a construção civil, do comércio e dos serviços como recreação, roteiros e espetáculos musicais no campo; valorização dos pequenos investimentos locais como por exemplo, restaurantes e bares temáticos; criação de empregos; fixação da população na área rural devido às novas perspectivas; articulação com a agricultura; valorização de recursos patrimoniais; ganhos ambientais com uso responsável dos atrativos naturais, tais como, vegetação exuberante com trilhas, rios e cachoeiras.
Além disso, o “desenvolvimento rural envolve a descoberta, mobilização e valorização dos recursos locais, sendo que o turismo normalmente é apresentado como uma das atividades capazes de organizar e desenvolver as potencialidades” (Souza, Elesbão, & Schaidhauer, 2011,p.219). Outros fatores também são considerados quando ocorre o desenvolvimento de turismo no espaço rural, como:
A valorização da cultura caipira [...] reforça a sensação de pertencimento da sociedade local que permite a valorização de uma identidade construída e também da construção de uma imagem positiva da região, que incorpora esses aspectos constitutivos de uma tradição interiorana em sintonia com o futuro, por meio da presença de formas de consumo modernas (Vitte, 2008,p.24).
RESULTADOS: A APRECIAÇÃO DO PROPRIETÁRIO DA FAZENDA SANTA GERTRUDES
Ao refletir, de maneira breve, sobre o rural paulista como atrativo turístico, destacando a Fazenda Santa Gertrudes e procurando apreender a realidade desta propriedade e suas singularidades, percebe-se que o panorama na área estudada é promissor, apesar das dificuldades. Questionado sobre a configuração do novo rural brasileiro e sobre as modificações ocorridas na propriedade, o responsável local, LM, discorreu sobre o processo de refuncionalização socioespacial que vem ocorrendo na fazenda nas últimas décadas, principalmente nestes últimos cinco anos. Enfatizou que a área assumiu o turismo como uma de suas principais funções econômicas e sociais. Destacou que os responsáveis pelas áreas rurais, na atualidade, cada vez mais precisam desenvolver competências empresariais aprimoradas, buscando inovações. Enfatizou que diante das rápidas mudanças do mercado é fundamental que o empreendedor rural pratique uma forma de gestão que permita a tomada de decisões baseadas em dados concretos, tática que ele tem implementado na Fazenda Santa Gertrudes.
Constantemente, LM busca introduzir novas atividades, destacando aquelas relacionadas à prestação de serviços, como o turismo, uma nova forma de trabalho no mercado local. Fez investigações preliminares, coletando informações sobre novas tendências de mercado. Afirmou, nesta entrevista, que o espaço rural brasileiro, notadamente, o interior paulista, tem plenas possibilidades de abrir-se para novas alternativas econômicas com rentabilidade e competividade. Com sensatez, levantou as potencialidades de sua propriedade para o turismo, enfatizando os prédios históricos existentes, tais como: casa sede, casario dos colonos, igreja, armazéns, estrebarias, entre outros, ponderando também que além destas características tangíveis, a fazenda Santa Gertrudes é uma verdadeira relíquia de um período áureo do café paulista e, nesses termos, um símbolo.
Contou que, há uns 15 anos atrás, por volta de 2000, por várias razões, percebeu a oportunidade do turismo em sua fazenda como atividade complementar à cultura de cana-de-açúcar e investiu em reformas e ajustes em suas instalações, inovando no contexto local, ainda pouco voltado para o setor naquele momento. O turismo implementado na propriedade é direcionado para o aproveitamento de sua paisagem e patrimônios históricos e culturais, evidenciando suas múltiplas possibilidades relacionadas à visitação e outras atividades ligadas à cana de açúcar etc. Sobre as dificuldades iniciais, LM mencionou a falta de profissionais especializados em Hospitalidade e Gastronomia, principalmente quando tentou empregar os próprios funcionários de sua fazenda, pois ainda pouco conheciam sobre receber grupos de visitantes. Entretanto, com esforços gerencial e organizacional, gradativamente, foi conseguindo capacitar seus colaboradores, promovendo treinamentos rápidos com conhecedores do assunto de outras áreas e, também, contratando, profissionais das cidades vizinhas com mais experiência no assunto, como por exemplo: guias de turismo, cerimonialistas e decoradores. Buscou fornecer conhecimento sobre técnicas de hospitalidade, organização de eventos como casamentos, batizados, aniversários e outros, instrumentalizando seus funcionários para execução das tarefas básicas, estimulando também a criatividade.
Outro ponto importante destacado por LM, relaciona-se aos meios de divulgação usados pela Fazenda Santa Gertrudes para oferecer as novas atividades ali desenvolvidas, com muita habilidade em sensibilizar a população do entorno e também de cidades mais distantes, incluindo a capital, São Paulo. Disse que criar este novo negócio do turismo no espaço rural foi um árduo trabalho, novidade apresentada por meio de agências de viagem especializadas, sítios eletrônicos, parcerias com prefeituras municipais próximas. Neste contexto, LM mencionou o trabalho de divulgação em escolas oferecendo visitas técnicas e pedagógicas para diferentes níveis escolares, o chamado turismo pedagógico em espaço rural, nicho em que obteve êxito gradativo.
Enfim, LM deixou claro que sua maior preocupação é desenvolver estratégias eficientes de gestão da propriedade, aplicando seus recursos com parcimônia, no lugar certo e no momento adequado, observando as legislações trabalhista e ambiental, inovando sempre com oferta de serviços de qualidade neste contexto do novo rural brasileiro, repleto de mudanças socioeconômicas profundas. Observa que a sua propriedade também compõe um roteiro de Fazendas Históricas Paulistas, grupo organizado em núcleos regionais que têm o propósito receber os interessados em conhecer os seus patrimônios arquitetônico e cultural. Em cada núcleo regional há fazendas abertas para visitação e outras que oferecem hospedagem. São fazendas do ciclo do açúcar [século XVIII], ciclo da colonização mineira [início do século XIX] e ciclo do café [segunda metade do século XIX até 1929]. LM finaliza a entrevista afirmando que o desenvolvimento da atividade do turismo rural na fazenda Santa Gertrudes envolveu o inventário e a revalorização dos recursos locais, sua grande potencialidade, oferecendo alternativa econômica a ser explorada, auxiliando a fixação de seus funcionários no campo.
Após a análise das afirmações de LM, concorda-se com Graziano (2001), quando este afirma:
[...] há [...] a emergência de um novo rural, composto tanto pelo agribusiness quanto por novos sujeitos sociais: alguns neo-rurais, que exploram os nichos de mercados das novas atividades agrícolas (criação de escargot, plantas e animais exóticos etc.); moradores de condomínios rurais de alto padrão; loteamentos clandestinos que abrigam muitos empregados domésticos e aposentados, que não conseguem sobreviver na cidade com o salário mínimo que recebem; milhões de agricultores familiares e pluriativos, empregados agrícolas e não-agrícolas [...] como aqueles que atuam no turismo (grifo da autora) (Silva, 2001, p.1).
CONCLUSÕES
Finalizando esta breve pesquisa exploratória baseada em revisão bibliográfica, entrevista e atividades/experiências didáticas, afirmamos que um dos caminhos para uma solidificação do turismo em fazendas paulistas como a Santa Gertrudes aqui apresentada, é a exposição sistemática e planejada de suas singularidades, de suas principais características no contexto deste território, que cada vez mais se consolida como industrial. Turismo no espaço rural é um contraponto interessante neste cenário, passando pela consolidação de relacionamentos firmes entre os envolvidos e a comunidade local, levantando-se os potenciais atributos da região, trabalhando em conjunto, verificando as condições de acesso aos equipamentos, sinalização e infraestrutura de suporte. Trabalhar também com os potenciais atributos simbólicos, alçando os atrativos culturais da região, pesquisando as características da demanda, detectando seus gostos e desejos.
Houve um crescimento significativo das atividades não agrícolas na ocupação da população rural nas últimas décadas e tal evidência indica uma certa complexidade da situação merecedora de atenção por parte do poder público. Enfim, é interessante que, sistematicamente, os agentes regionais e os envolvidos com as fazendas paulistas entrem num acordo sobre o papel que lhes cabe ao gerir o território, definindo estratégias que permitam potencializar os imensos recursos locais, valorizando-os, transformando as fragilidades em oportunidades de melhoria para todos, valorizando-se a multifuncionalidade da paisagem. As ações implementadas em nível de desenvolvimento local na Fazenda Santa Gertrudes, privilegiaram suas características históricas, ambientais e produtivas, esboçando bons resultados socioeconômicos, observando-se transformações socioespaciais na propriedade para os devidos ajustes necessários para a implantação da atividade turística. Surge, dessa forma, uma nova função para a fazenda Santa Gertrudes, a do turismo que parece ter vindo para ficar um bom tempo, oferecendo novas possibilidades de desenvolvimento.
Referências
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Notas