Artigos
Oportunidades Geoturísticas do Caminho dos Diamantes: Uma Viagem pela Perspectiva dos Viajantes Naturalistas
‘Caminho dos Diamantes’ Geotouristic Opportunities: A Journey Through Naturalist Travelers Perspective
Oportunidades Geoturísticas do Caminho dos Diamantes: Uma Viagem pela Perspectiva dos Viajantes Naturalistas
Rosa dos Ventos, vol. 10, núm. 2, pp. 213-229, 2018
Universidade de Caxias do Sul
Recepção: 03 Fevereiro 2017
Aprovação: 06 Outubro 2017
Resumo: O Caminho dos Diamantes, trecho da Estrada Real que liga as cidades de Ouro Preto e Diamantina, ambas no Estado de Minas Gerais, é um produto consolidado, que apresenta possibilidades em diversos segmentos, entre eles, o geoturismo. A prática, cuja conceituação é pouco difundida, mas, se aplicada,, permite conhecer e valorizar uma localidade através de suas características geológicas e mineiras. A presente pesquisa associa relatos feitos por cientistas naturalistas - que percorreram a região no século XIX -, a recursos atuais, buscando entender os Lugares de Interesse Geólogico e Mineiro [LIGEMs]. Na pesquisa de campo, ao aliar as ferramentas de navegação disponibilizadas no site do Instituto Estrada Real aos relatos dos cientistas naturalistas, percebe-se que a geodiversidade antecede ao apelo e utlização turística atual, do produto Estrada Real. Os resultados encontrados indicam que o geoturismo pode ser uma alternativa para o aprimoramento turistíco da Estrada Real, alem de seu potencial como ferramenta de conservação e educação ambiental.
Palavras-chave: Geoturismo, Geodiversidade, Viajantes Naturalistas, Século XIX, Caminho dos Diamantes, Estrada Real, Minas Gerais, Brasil.
Abstract: The Caminho dos Diamantes [Diamond Road] is a section of the Estrada Real, a road that connects the cities of Ouro Preto and Diamantina, both in the State of Minas Gerais [Brazil]. It’s a consolidated product that presents possibilities in several segments, geotourism among them. The practice and concept of geotourism are not very widespread, but if applied, they allow us to know and value a locality through its geological and mining characteristics. The present research associates reports made by naturalistic scientists - that went through the region in the 19th century - to current resources, seeking to understand the Places of Geological and Mining Interest [LIGEMs]. Research allied navigation tools available in the Estrada Real Institute website and naturalistic scientists' reports. It’s perceived that geodiversity precedes the current tourist appeal and use of Estrada Real product. The results indicate that geotourism can be an alternative for tourist improvement, in addition to its potential as a conservation and environmental education tool.
Keywords: Geotourism, Geodiversity, Naturalistic Scientists, 19th century, Diamond Road, Estrada Real, Minas Gerais, Brazil.
INTRODUÇÃO
A partir do fim da primeira década deste século percebe-se um aumento da conscientização no que tange a geoconservação, especialmente com o reconhecimento da importância dos geossítios em prol do desenvolvimento sutentável e do segmento geoturismo. Embora existam locais turísticos importantes, onde o principal atrativo é o geopatrimônio, para a efetivação deste segmento é necessário utilizar e divulgar o conhecimento e linguagem adequados aos processos geológicos daquele ambiente, o que, atualmente, é pouco utilizado ou muitas vezes negligênciado. Até recentemente, era pouco percebida a necessidade de conservação cultural ou natural dos recursos, sendo consenso que o mundo e seus recursos seriam inesgotáveis. Gradualmente, a geologia científica, juntamente com o geoturismo, evoluem, porém práticas como a depredação do patrimônio geológico tanto por pesquisadores, quanto por visitantes ou pela extração e venda de fósseis e minerais para turistas e colecionadores, ainda são comuns. Sendo assim, a utilização da geodiversidade associada a um novo segmento turístico, pode-se vislumbrar oportunidades de geoconservação quando tratarmos o turismo como ferramenta de divulgação, conhecimento e preservação destes sítios.
O produto turístico Estrada Real, lançado em 2003 pelo poder público, com o apoio de órgãos e instituições do trade turístico, possui uma base consolidada e potencial de oportunidades para o desenvolvimento de diferentes segmentos turísticos. Atualmente, é gerido pelo Instituto Estrada Real [IER], criado por iniciativa da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, com a finalidade de organizar, fomentar e gerenciar produtos vinculados à marca ‘Estrada Real’. Com mais de 1630 quilômetros de extensão, divide-se por quatro caminhos distintos, que percorrem os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Para este artigo, o recorte – a partir do patrimônio geológico e mineiro catalogados em campo -, prioriza os locais que integram a rota do Caminho dos Diamantes [Estrada Real, MG] citados em relatos de alguns viajantes naturalistas que percorreram a região no século XIX. É possível visualizar, através da percepção destes cientistas, uma nova possibilidade de turismo naquela região.
ASPECTOS DO GEOTURISMO
O geoturismo tem se tornado uma opção ao desenvolvimento e aperfeiçoamento de um novo segmento, que privilegie o turismo em areas naturais. Porém, conforme descrito por Moreira (2010), as pesquisas nessa área ainda são incipientes e faz-se necessário ampliar as investigações a respeito de suas características, impactos e definições. Ruchkys (2013) descreveu geoturismo como uma “atividade do segmento turístico que utiliza do patrimônio geológico como atração principal, desenvolvendo a proteção através de pesquisas e conservação do ambiente, proporcionando ao turista a consciência, utilizando a interpretação deste patrimônio e tornando-o acessível ao público leigo” (p. 23). Aparentemente, os praticantes de turismo em áreas onde o principal atrativo é o geopatrimônio, não possuiriam maior conhecimento e compreensão da Geologia, tanto como ciência quanto como força histórica na mudança da sociedade. Deste modo, é extremante necessário associar uma abordagem histórico-conceitual, para esclarecer aspectos e aprofundar os conhecimentos necessários às boas práticas do Geoturismo. Mc Keever, Larwood & Mckirdy (2006) afirmam que o Geoturismo, se comparado a outras modalidades turísticas, ainda estaria na infância, mas que será através do suporte para a geoconservação que se assegurará o recurso para as suas atividades.
Possibilidades turísticas na Estrada Real com enfoque ao Caminho dos Diamantes - O trajeto do projeto turístico Estrada Real foi delimitado a partir dos caminhos percorridos pela realeza presente no Brasil no século XIX – daí sua denominação – e que conduziam as Minas Gerais desde meados do século XVIII. Além de ter sido o principal caminho de escoamento da riqueza mineral do país naquele período, a Estrada Real passou a exercer papel fundamental no desenvolvimento cultural, político e socioeconômico do Brasil. No total, segundo site do Instituto Estrada Real (2016), seu eixo principal, com mais de 1600 km de extensão, passa por 87 cidades e distritos (em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro) e possui 80 mil km2 de área de influência.

Segundo o site do Instituto Estrada Real, o Caminho Velho, 710 km de extensão, foi a primeira via a ser aberta pela Coroa Portuguesa, ligando as cidades de Paraty-RJ a Ouro Preto-MG. O Caminho dos Diamantes, com 400 km de extensão, indo de Ouro Preto a Diamantina e passando pela Reserva da Biosfera do Espinhaço, surgiu em função da descoberta e exploração de diamantes. O caminho de Sabaraçu (antigo nome dado a Serra da Piedade), com 160km de extensão, teve seu início devido a crença de que o minério de ferro que brilhava ao contato com a luz solar, fosse ouro (IER, 2015). Assim criaram uma rota alternativa entre Ouro Preto [Caminho Velho] e Barão de Cocais [Caminho dos Diamantes]. Por fim, o Caminho Novo, com 515 km e criado em função do acesso a região aurífera, passou a ser uma alternativa mais rápida e fácil ao Caminho Velho, unindo as cidades de Ouro Preto-MG e Rio de Janeiro-RJ, que em 1763 se tornara a capital da Colônia Portuguesa na América do Sul.
Os marcos da Estrada Real estão espalhados por todas as vias principais, ao longo dos quatro Caminhos. Geralmente se encontram em pontos estratégicos como pontos de visitação, bifurcações ou locais que possam gerar dúvida ao viajante, sobre qual caminho seguir. Os marcos são padronizados, em concreto, para indicar coordenadas geográficas, as cidades e distância. Conforme o site já citado, caso o viajante percorra mais de dois quilômetros sem visualizar algum dos marcos, provavelmente ele terá saído do caminho principal. Porém, como a responsabilidade de manutenção dos mesmos é das municipalidades, a pesquisa de campo constatou que alguns podem ter sidos retirados, estarem danificados ou cobertos por vegetação.
![Marco inicial da Estrada
Real [Casa Bandeirista, Parque Estadual do Itacolomi]](../473557641002_gf3.png)
O recorte para desenvolvimento do presente trabalho é o Caminho dos Diamantes que, de acordo com o Instituto Estrada Real (IER, 2015), no seu eixo principal de aproximadamente 400 quilômetros entre Ouro Preto e Diamantina, abrange 50 municípios. Este caminho foi utilizado após 1729, quando as pedras preciosas descobertas no Arraial do Tejuco (Diamantina) passaram a exercer grande impacto econômico no Brasil e em Portugal, mudando a realidade da capitania de Minas Gerais, que até então crescia em virtude da mineração de ouro. A partir de então, a Estrada Real tem seu prolongamento de Ouro Preto até Diamantina. Para acesso ao Caminho dos Diamantes, verifica-se atualmente a presença de uma extensa e importante malha viária constituída de estradas federais e estaduais [BR-381, BR-262 e BR-120, entre outas], que ligam os municípios e integram o roteiro turístico. As estradas estaduais como MG-010, MG-020, MG-262 também auxiliam no acesso às cidades mineiras que fazem parte ao Caminho dos Diamantes, destacando-se a MG-010 que percorre grande parte da Serra do Espinhaço e permite o acesso a importantes pontos turísticos da Estrada Real e do Caminho dos Diamantes. Essa malha viária em grande parte utiliza-se dos mesmos trajetos dos caminhos e estradas do período pré-republicano.

De acordo com a política estadual de regionalização do Turismo, o trajeto selecionado pertence a três circuitos turísticos distintos: Circuito Turístico do Ouro, Circuito Turístico Parque Nacional da Serra do Cipó e Circuito dos Diamantes.
METODOLOGIA
Devido ao grande número de viajantes que passaram pela região no século XIX, foram selecionados para este artigo os que, nas pesquisas bibliográficas, apresentaram o maior número de relatos sobre a região que hoje abarca do Caminho dos Diamantes (Estrada Real – MG), conforme roteiros, biografias, diários e relatos de viagem publicados por pelos cientistas viajantes. Os documentos foram fonte de informações para selecionar os lugares de interesse geológico, mineiro e natural, presentes em seus relatos. Foi realizada, ainda, uma compilação das bases cartográficas destes naturalistas e materiais atuais relativos aos elementos geomorfológicos e estruturais, relevo, litologia, drenagens, vegetação disponibilizados on line por órgãos públicos e privados. As informações orientaram as visitas de campo assim como a posterior confecção de mapas temáticos, contextualizando as informações descritas e pesquisadas durante o trabalho. De forma geral, foram consultadas referências bibliografias sobre turismo, geoturismo, aspectos geomineiros do Caminho dos Diamantes.
Foram feitas três visitas de campo para reconhecimento, seleção e inventariação dos LIGEMs. Na primeira viagem foi realizado um levantamento dos pontos passíveis de registro e inventariação. Na segunda saída ao campo, utilizando apenas das planilhas e materiais de navegação disponibilizados pelo site oficial do Instituto Estrada Real, tentou-se percorrer todo o Caminho dos Diamantes, passando-se por todos os marcos. Foram elaboradas planilhas descritivas de cada trecho. Nelas é possível visualizar a distância a ser percorrida, a direção a ser tomada e a descrição de pontos de referência para que não sejam usados apenas os marcos, para orientação.

Outro auxilio no que se refere à dificuldade do trecho, seria um gráfico altimétrico e de informações básicas, de fácil entendimento, disponibilizada pelos gestores da rota. Além da percepção visual, o viajante obteria informações sobre os critérios utilizados para definir o grau de dificuldade de cada trecho. Foi possível baixar as linhas do GPS no formato .gtm de cada trecho da Estrada Real e encontrar fotos e relatos de outros viajantes que já fizeram o percurso. Os trabalhos de campo foram finalizados, quando o percurso foi realizado utilizando-se relatos dos viajantes naturalistas para que, a partir da perspectiva desses cientistas, se pudesse selecionar alguns pontos importantes do percurso. Nessa oportunidade também foi realizado o inventario das localidades não visitadas nos percursos anterior. Como ferramenta de georreferenciamento optou-se por utilizar o aplicativo Wikiloc disponível para Android. Essa escolha foi feita pela preferência em utilizar ferramentas gratuitas e de fácil entendimento para que a metodologia possa ser reproduzida por diversos públicos de forma acessível. Foram selecionados os pontos, com características importantes da geodiversidade em localidades que fazem parte do Caminho dos Diamantes e foram identificados na literatura pesquisada de alguns viajantes naturalistas que realizaram este mesmo percurso sendo possivel associar relatos e passagens de alguns viajantes naturalistas que percorreram aquela região.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
O fenômeno conhecido como grand tour favoreceu que aristocratas europeus realizassem viagens científicas e relatassem em diários, guias, documentos, características encontradas nos locais para os quais viajavam. Vários deles organizaram expedições pelo território de Minas Gerais, em função de interesses científicos ou mesmo por contratação pelo império português e, depois, pelo brasileiro. O recorte dado ao trabalho abordou apenas a passagem de alguns cientistas na região da Serra do Espinhaço Meridional em Minas Gerais, entre Ouro Preto, a sul e Grão Mogol, a norte, ressaltando aspectos relacionados à geodiversidade, tais como picos e rios, que auxiliaram a sua orientação ou foram focos de seus estudos.

A presença desses cientistas na Minas Gerais do século XIX marcou os primeiros passos para a consolidação dos conhecimentos sobre um vasto território, deixando um legado de relatos, roteiros e mapas cujas bases eram a visão integrada da natureza, seus recursos, a sociedade e a relação sociedade-natureza. Muitos dos pontos de destaque em seus relatos, sobretudo aqueles que serviam de referenciais naturais de seus trajetos hoje são reconhecidos como Lugares de Interesse Geológico e Mineiro [LIGEMs] (Paula & Castro, 2014).

Os roteiros, biografias, diários e relatos de viagem publicados por aqueles cientistas viajantes são fontes de informações para procurar lugares de interesse geológico, mineiro e natural em suas trajetórias. Além de uma compilação de bases cartográficas destes naturalistas, foram utilizados e associados materiais e bibliografias atuais, inclusive ferramentas disponíveis no site do Instituto Estrada Real, onde é possível encontrar todos os caminhos com roteiros planilhados e georreferenciados. Conforme exposto a seguir, diversas cidades pertencentes ao Caminho dos Diamantes foram percorridas por esses viajantes e, a partir de seus relatos aliados com o patrimônio local, pode-se obter uma imagem diferenciada daquela comumente utilizada pelo trade turístico abarcando, inclusive, aspectos geoturisticos importantes. Vale ressaltar que diversos locais, tiveram os nomes alterados, contudo utilizaram-se exatamente as referências como pesquisadas.
Parque Estadual do Itacolomi por Johann Baptist von Spix & Karl Friedrch Philipp von Martius (1817-1820):
O Itacolomi, ensombrado na base pela negrura das matas e destacando - se de todos os vizinhos com o seu píncaro rochoso e nu, domina toda a região. Um maravilhoso altar de luz, desde a mais ofuscante claridade do sol até a negrura da mais tenebrosa sombra... A natureza parecia solenizar conosco, com a gravidade do silencio, o estado de alma que nos empolgava, diante do magnıfico panorama (Spix & Martius, 1981).

A cidade de Ouro Preto por John Luccock (1808-1818):
Vila-Rica é, talvez, um dos lugares mais estranhamente situados no mundo todo e somente mesmo o poderoso amor do ouro poderia ter dado origem a uma cidade grande em tal posição. Todavia, a aparência de suas ruas é digna e mais ainda o de seu calçamento, Uma delas estende-se através de vários contrafortes em linha reta, medindo cerca de duas milhas de comprimento. Das cinco mil casas que o local possui, consta uma quinta parte de boas construções, sendo as restantes construídas ligeiramente (Luccock, 1975, p. 332).

Cidade de Mariana por Wilhelm von Eschwege (1810-1821):
Para os outros lados, o vale, em forma de caldeirão, é balisado por morros pouco elevados, constituídos de xistos argilosos, em toda a parte devastados pelo serviço de talho aberto. Em um deles, o proprietário, um dos mais distintos padres da catedral de Mariana, perdeu a vida em 1816, quando, dirigindo o trabalho, foi soterrado com seus escravos por uma massa de terra que se desmoronou (Eschwege, 1979, p. 11).

Distrito de Santa Rita do Durão por Auguste François Cesar Prouvençal Saint-Hilaire (1816-1822)
Avistamos repentinamente a Serra do Caraça, um dos pontos mais elevados da cadeia ocidental, e em breve chegamos a Inficionado. Essa povoação, situada a 4 léguas ao norte de Mariana, é considerável e bem edificada. É a sede de uma paróquia, e na localidade se contam três igrejas. Foi em Inficionado que nasceu o P. José da S. Rita Durão, o autor do poema intitulado Caramuru (Saint-Hilaire, 1975, p. 88).
![Matriz Nossa
Senhora de Nazaré [Serra do Caraça ao fundo]](../473557641002_gf11.png)
Cidade de Catas Altas por John Mawe (1808-1818)
Daí à aldeia de Catas Altas, 2 léguas além, está uma região aberta, das mais belas que eu jamais vira no Brasil. Ela muito se assemelha à que se estende de Matlock a Derby, e suas montanhas apresentam grande conformidade com as de Westmoreland. Algumas têm fendas, nas quais geralmente se encontram topázios bastante medíocres. Este distrito pareceu-me igualmente próprio para a agricultura e para os trabalhos das minas, sendo aí ricos o solo e o subsolo. Catas Altas conta pelo menos dois mil habitantes e está situada em lugar muito povoado. Seus edifícios públicos são bem construídos; as 347 habitações particulares têm bom aspecto, mas apresentam todos os sinais de decadência (Mawe, 1978, p. 143).
![Cidade de Catas Altas [Serra do Caraça
ao fundo]](../473557641002_gf12.png)
Cidade de Santa Barbara por Auguste François Cesar Prouvençal de Saint-Hilaire (1816-1822)
Chegado próximo do Rio de Santa Bárbara segui seu curso até à aldeia do mesmo nome. As duas margens do rio foram revolvidas pelos mineradores; retiraram daí bastante ouro, mas o metal esgotou-se e a povoação de Itajuru de Santa Bárbara, que precede a aldeia de Santa Bárbara, está hoje quase abandonada. Nesse povoado, cujas casas são muito separadas umas das outras, e construídas a pouca distância do rio, existe uma que por seu tamanho chamou-me a atenção, podendo ser comparada a um de nossos castelos. Desta casa, que pertencia à família do capitão Pires, da aldeia de Itabira, dependia outrora uma mineração importante; essa mineração esgotou-se e a casa está atualmente quase abandonada (Saint-Hilaire, 1974, p. 57).

Cidade de Barão de Cocais por Auguste François Cesar Prouvençal de Saint-Hilaire (1816-1822)
A aldeia de S. João do Morro Grande, onde me separei do capitão Gomes, é a cabeça de uma paróquia cuja população ascende a 5.420 habitantes, e que compreende cinco sucursais. S. João fica a 19º57’ de lat., às margens do Rio Caeté e ao pé dos montes que o dominam. Outrora o ouro era encontrado com abundância nas vizinhanças deste rio; mineradores para aí acorreram e construíram a aldeia de S. João; mas as minas logo se esgotaram e a aldeia de S. João; mas as minas logo se esgotaram e a aldeia teve a mesma sorte que tantas outras, estando atualmente inteiramente abandonada. Não perdeu, contudo, todo o seu antigo esplendor; porque resta-lhe ainda uma das mais belas igrejas que vi na Província de Minas. Quase logo após ter atravessado S. João do Morro Grande, passei diante de uma cruz, sobre a qual não posso deixar de dizer algumas palavras. Um homem, viajando nessa região, acreditou ter visto almas do purgatório, que volteavam ao redor de seu cavalo, sob a forma de pombos, pedindo-lhe preces. Em memória dessa aparição ele fez erguer a cruz; a história que venho de relatar acha-se gravada ao pé da mesma (Saint-Hilaire, 1941, p.117).

Cidade de Conceição do Mato Dentro por Auguste François Cesar Prouvençal de Saint-Hilaire (1816-1822)
A povoação de Conceição (Nossa Senhora da Conceição de Mato Dentro) é a sede de uma paróquia cuja extensão é de 40 léguas, mas em que se compreendem florestas desabitadas que se estendem a leste. Essa povoação está situada em um vale, à margem de um regato que tem o mesmo nome. Por todos os lados é rodeada por colinas áridas e despidas, absolutamente impróprias para a cultura. Conceição pode ter cerca de duzentas casas que se alinham em duas ruas paralelas. A exceção de Itambé, de todas as povoações até então vistas, nenhuma apresentava como essa tantos sintomas de decadência e miséria. Essa povoação jamais esteve, certamente, na altura de Inficionado e Catas Altas; no entanto, o tipo das casas prova que seus primeiros ocupantes gozavam de abastança. Nessa época o ouro retirava-se sem dificuldade dos terrenos próximos à povoação; as minas, porém, empobreceram, e os atuais proprietários não possuem recursos para fazê-las explorar. Afastam-se sucessivamente de uma zona que não mais produz ouro e é imprópria à agricultura; o mato que cresce nas ruas de Conceição esconde quase completamente as pedras do 351 calçamento; grande número de casas já foi abandonado, e as outras caem em ruínas. Conceição tem aspecto muito árido (Saint-Hilaire, 1975, p. 135).

Cidade do Serro por John Mawe (1808-1818)
Vila do Príncipe foi erigida em comarca ou distrito em 1730, época na qual as lavagens de ouro eram mais produtivas, mas esta cidade fora fundada quinze anos antes, quando os paulistas, começando a deixar Vila Rica e os cantões vizinhos, aqui vieram se estabelecer. A cidade conta hoje cinco mil habitantes, dos quais a maior parte são lojistas; o resto é composto de artesãos, fazendeiros, mineiros e operários. Há um escritório de controle ao qual todos os mineiros do distrito trazem o outro que encontram e pagam o quinto, como em Vila Rica (Mawe, 1978, p. 159).

Cidade de Diamantina por Richard Francis Burton (1865-1868)
A localização de Diamantina é peculiar: para leste e sudoeste, o terreno é extremamente alcantilado, ao passo que a parte norte é uma continuação das terras onduladas do campo. A incipiente “Haute Ville” é a melhor e mais saudável localidade, e aqui a povoação se espalhar. A “cidadezinha” desce pela encosta ocidental de um morro muito [íngreme, para terminar no profundo vale do Rio São Francisco ou Rio Grande, cujas águas, servindo de escoadouro às do terreno mais baixo, alimentam a artéria principal da bacia, o Rio Jequitinhonha, que fica a 3 léguas em linha reta e seis indiretamente. Visto do “Alto da Cruz”, a cidade apresenta um aspecto de prosperidade. Mudou muito, depois de 1801, quando era o “Arraial do Tijuco” e só contava com casas de pau-a-pique; não poderia ser reconhecida nas páginas de Gardner e M. Barbot, que a descreveram como era na geração passada. Abaixo de nós, estende-se um lençol de casas pintadas de muitas cores, cor-de-rosa, branco e amarelo, com quintais e jardins verdejantes, ao longo de ruas largas e amplas praças, ao passo que os edifícios públicos de tamanho maior e uma confusão de igrejas de duas torres ou uma torre só testemunham a religiosidade do lugar (Burton, 1976, p. 87-88).

CONCLUSÃO
Com ênfase particular na conservação, educação e atrativos turísticos em relação aos aspectos geológicos, o geoturismo procura interpretar o ambiente em relação aos processos que o modelaram e, em locais como o Caminho dos Diamantes, pode ser uma ferramenta de educação ambiental, proporcionando melhor aproveitamento dos recursos que a natureza oferece. Os roteiros, diários e relatos de viagem publicados por aqueles cientistas viajantes foram a fonte principal de informações para identificar Lugares de Interesse Geológico e Mineiro em suas trajetórias e podem apresentar uma nova leitura daquele patrimônio que atualmente já é atrativo de um produto turístico consolidado: o Caminho dos Diamantes.
Além da descrição minuciosa e valoração de aspectos importantes para atividades geoturísticas dos pontos selecionados, buscou-se a partir de relatos e diários de viajantes naturalistas citações destes lugares para corroborar a ideia de que a viagem motivada pelos aspectos geológicos e mineiros antecedem a apropriação e efetivação do produto turístico Estrada Real. O interesse por esta região antecede e ultrapassa a criação e objetivos deste referido produto turístico. Nela existem vários locais referenciais de visitação e de permanência de cientistas naturalistas do século XIX que narraram os primeiros passos para a consolidação dos conhecimentos sobre um vasto território, deixando um legado de relatos, roteiros e mapas cujas bases tinham uma visão integrada da natureza, seus recursos, a sociedade e a relação entre estes aspectos. Para efeito de organização dos dados obtidos neste trabalho, os cientistas que estiveram presentes nas regiões serranas do centro do território mineiro serão classificados em dois grupos: os residentes e os viajantes.
Embora existam registros históricos de viagens motivadas cientificamente pela geodiversidade, é perceptível que aspectos geológicos e mineiros passaram a despertar o interesse e a motivação de turistas nesta região. Conforme Moreira (2010), há algum tempo roteiros turísticos privilegiam a observação de características geológicas e geomorfológicas e não se restringem somente às saídas técnicas e aulas de campo. Contudo, apesar destes elementos serem destacados em diversos roteiros turísticos comercializados atualmente, inclusive em pontos salientados pelo Instituto Estrada Real, os agentes locais desconhecem ou não trabalham pela ótica do geoturismo. Este segmento turístico privilegia bem mais que a questão cênica, envolve além da estética, valores intrínsecos, culturais, econômicos, históricos, funcionais e científicos.
Referências
Burton, R. F (1976). Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico. Belo Horizonte: Itatiaia.
Eschwege, W. L. (1979). Pluto Brasiliensis. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp.
IER – Instituto Estrada Real (2015). Link
Mawe, J. (1978). Viagens ao interior do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia.
Mc Keever, P; Larwood, J; & Mckirdy, A. (2006). Geotourism in Ireland and Britain. In: Dowling, R & Newsome, D. (edits.) Geotourism. Oxford: Elsevier Butterworth Heinemann.
Moreira, J.C. (2010). Geoturismo: uma abordagem histórico-conceitual. Turismo e Paisagens Cársticas, 3(1), 5-10. Link
Paula, S. F; & Castro, P. T. A. (2014). Protocolo de avaliação e inventariação de lugares de interesse geológico e mineiro. Turismo e Paisagens Cársticas, 7(1/2).
Ruchkys, U. A.; & Machado, M.M.M. (2013). Patrimônio geológico e mineiro do Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais. Caracterização e iniciativas de uso para educação e geoturismo. Boletim de Geociências Paranaense, 70, 120-136. Link
Saint-Hilaire, A. (1941). Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Nacional.
Saint-Hilaire, A. (1975). Viagens pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia.
Spix, J. B.; & Martius, C.F.P. (1981). Viagem pelo Brasil. 1817-1820. Belo Horizonte: Itatiaia.
Notas