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Turismo e Evento: Festa do Divino Espírito Santo em Natividade, Tocantins, Brasil

Tourism and Event: Divine Holy Spirit Feast in Natividade, Tocantins, Brazil

GERUZA ALINE ERIG
Universidade de Brasília, Brasil
ALINE GOMES SANTANA
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Campus Palmas, Brasil
MAYELE CRISTINA DE ANDRADE FERREIRA
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Campus Palmas, Brasil

Turismo e Evento: Festa do Divino Espírito Santo em Natividade, Tocantins, Brasil

Rosa dos Ventos, vol. 10, núm. 3, pp. 594-606, 2018

Universidade de Caxias do Sul

Resumo: A Festa do Divino Espírito Santo, em Natividade, Tocantins, é uma das principais tradições religiosas daquele Estado. Trata-se de uma festa de origem portuguesa, que segue ainda tradições do Império e que acontece desde 1904 na cidade, atraindo turistas e fieis. O objetivo do artigo é o de descrever o evento, relatando seu processo de organização pela comunidade. A metodologia utilizada foi a da entrevista, com aplicação de questionário semiestruturado, desenvolvido com os organizadores da Festa no ano de 2016. Como resultados, constata-se que o evento não apresenta um planejamento formalizado, mas que o mesmo é realizado através de tradição passada de geração em geração, com a contribuição da comunidade e dos devotos. Destaca-se a cooperação da comunidade e sua resistência frente aos desafios da sociedade contemporânea.

Palavras-chave: Turismo, Evento Religioso, Festa do Divino Espírito Santo, Natividade-TO, Brasil.

Abstract: The Feast of the Divine Holy Spirit, in Natividade, Tocantins, is one of the main religious traditions in that State. It is a party of Portuguese origin happening since 1904 in the city, attracting tourists and faithful. The purpose of the article is to describe how the event is planned, by community. The methodology applied was interview with a semi-structured questionnaire, developed with the organizers of the Fest in 2016. As a result, it can be seen that the event does not present formalized planning, but that it is carried out through the past tradition of generation in generation, with community and devotees’ contributions. Regardless of the absence of the proposed steps in planning techniques, community cooperation resists the challenges of contemporary society.

Keywords: Tourism, Religious Event, Divine Holy Spirit Feast, Natividade, Tocantins, Brazil.

INTRODUÇÃO

Os eventos fazem parte das práxis das pessoas, são momentos de alegria, de acontecimentos, de criatividade, de costumes, de tradições, de lazer e proporcionam encontros e conhecimentos a quem os desenvolve e a quem os prestigia. Entende-se por evento, “acontecimentos previamente planejados, organizados e coordenados de forma a contemplar o maior número de pessoas em um mesmo espaço físico e temporal, com informações, medidas e projetos sobre uma ideia, ação ou produto, apresentando os diagnósticos de resultados e os meios mais eficazes para se atingir determinado objetivo” (Brito & Fontes,1997, p.66).

O Brasil vem ganhando visibilidade internacional nos últimos anos, ao realizar grandes eventos esportivos e culturais, mostramos ao mundo que o País reúne inúmeros atrativos em termos de gastronomia variada, acervo artesanal, diversidade folclórica e festas populares. A pesquisa Dimensionamento Econômico da Indústria de Eventos do Brasil – 2013, realizada pelo Sebrae e a Associação Brasileira de Empresas de Eventos [ABEOC Brasil], mostra que o segmento de eventos movimentou R$ 209,2 bilhões naquele ano, o que representa uma participação do setor de 4,32% do PIB do País. Ainda de acordo com a ABEOC, o turismo religioso é um dos segmentos que mais cresce no mundo, com um público dimensionado em 17,7 milhões de pessoas. No Brasil, o setor é responsável por gerar R$ 15 bilhões anualmente, segundo pesquisa do Ministério do Turismo que cita, ainda, que 96 destinos possuem calendário de eventos exclusivos de turismo religioso no país, e que 344 municípios possuem como atrativos o segmento religioso. Significa dizer que o segmento, inclusive, é forte incentivador de pequenos negócios e investimentos, movimentando economias locais nos setores indústrias, comercial, de serviços, incluindo turismo e artesanato, com geração de emprego e renda em todas as regiões do país.

Com foco nos eventos religiosos, este trabalho tem como cerne a Festa do Divino Espírito Santo, um evento de cunho religioso que acontece no município de Natividade, no Estado de Tocantins, desde 1904. Sua origem remonta a Portugal, no século XIV, atualidade fazendo parte de uma das tradições populares mais importantes do Brasil, sendo realizado oficialmente pela religião Católica. O evento ocorre 50 dias após a Páscoa, comemorando o dia de Pentecostes.

Natividade, onde a festa acontece, é um município histórico do Tocantins, que nasceu com a exploração do ouro e teve seu centro histórico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional [IPHAN], em 1987. De acordo com Simone Camelo, representante da Associação Comunitária Cultural de Natividade [ASSCUNA], a “cidade proporciona aos turistas o contato com o turismo histórico – cultural e religioso, pois cultiva a miscigenação de etnias e culturas revelando um povo que ostenta grande apreço as tradições, às atividades culturais e religiosas e, aos hábitos presentes no cotidiano dos moradores do centro histórico”.

Sendo assim, o objetivo deste artigo é o de descrever como acontece o planejamento da Festa do Divino Espírito Santo na referida cidade, destacando o cerimonial e protocolo praticados no evento. A metodologia utilizou-se de pesquisa qualitativa descritiva, de natureza etnográfica. A pesquisa etnográfica seria a arte e a ciência de descrever um grupo humano, suas instituições, seus comportamentos interpessoais, suas produções materiais e suas crenças (Angrosino & Flick, 2009). O principal foco da etnografia é o estudo da cultura e o comportamento de determinados grupos sociais.

Foi desenvolvido, ainda, entrevista e um questionário semiestruturado com perguntas abertas e fechadas, aplicado entre os dias 16 e 17 de janeiro e 12 e 13 de novembro de 2016, junto aos organizadores e participantes da Festa daquele ano, além de observação da prática associadas à Festa, para analisar as dinâmicas interativas do evento. Foram entrevistados o Imperador [principal responsável pela Festa]; o Capitão do Mastro [segundo personagem mais importante do evento]; despachantes de folias [coordenadores das quatro folias do evento]; e a Asccuna, nas entrevistas representada pela senhora Simone Camelo.

Considera-se que o evento é um “acontecimento especial, antecipadamente planejado e organizado, que reúne pessoas ligadas a interesses comuns. [que] tem, local determinado e espaço de tempo predefinido” (Tenan, 2002, p.3). Matias (2010) afirma que os eventos de acordo com a área de interesse, podem ser classificados em artístico, científico, cultural, cívico, promocional, turístico e religioso. Os eventos religiosos são comemorações relacionadas a convicção e práticas religiosa de diferentes grupos sociais, muito frequentes no Brasil, integrando um vasto calendário litúrgico, que reúne as festas cristãs da religião católica. Para Martins e Leite (2006), “as celebrações de cunho sagrado dão instrumentação de identificar nesses eventos uma vivência do religioso incorporado ao cultural, possibilitando muitas vezes, a recuperação da própria identidade” (p.105). O Ministério do Turismo recomenda que áreas com forte sazonalidade, podem atrair turistas ao longo do ano, através de um calendário de eventos que contemple suas atrações e recursos turísticos, respeitando sua fragilidade, mas buscando aumentar a utilização dos equipamentos.

A Festa do Divino Espírito Santo é um evento presente no calendário católico de várias localidades receptoras de fluxos turísticos. Em Tocantins, no período da Festa do Divino a cidade de Natividade se transforma, recebendo grande fluxo de turistas e visitantes vindos de diversas regiões do País. Trata-se de momento em que a comunidade, devotos e visitantes agradecem pelas benções recebidas e renovam seus pedidos.

A teoria sobre o planejamento de um evento recomenda ser necessário reunir informações para coordenar, da melhor maneira possível, cada uma das tarefas a serem realizadas na execução, independentemente do tipo de evento.

O planejamento é a espinha dorsal do evento. É ele que dá o norte, que define o rumo para onde se deve ir, onde obter a sustentação econômica. Já a organização é o pulmão e o coração do evento. Sem ela, o evento para de bater, as tarefas deixam de ser feitas, os fornecedores não recebem as informações e os pagamentos necessários para trabalhar e fazer acontecer o evento em toda a sua plenitude (Martin, 2003, p.70).

É nessa perspectiva que se encontra a importância de um planejamento conciso, além da necessidade que os planos têm de serem adaptados à dinâmica das circunstâncias. Deve-se haver preocupação com detalhes, como também atenção ao conjunto de considerações estratégicas. O projeto de um evento é um documento de registro e deve ser consultado e adaptado com frequência, para que haja sucesso no mesmo.

FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

A Festa do Divino Espírito Santo teria sua origem em Portugal, no começo do século XVI, na baixa Idade Média, na Vila de Alenquer, próxima à cidade de Lisboa, em uma época marcada pela fome, pestes e guerras. A Festa é considerada um evento católico, com compromisso de reunir os fiéis para saldar o Divino (IPHAN, 2009). Algumas localidades denominam os festejos como Festa de Pentecostes, pois comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo e sobre Maria, sua mãe. O evento é celebrado 50 dias após o domingo de Páscoa, quando as pessoas se reúnem e seguem em procissão, cantado e dançando em louvor ao Divino. Segundo Souza e Ertzogue (2013) a festa chegou ao Brasil com a colonização dos portugueses:

De um modo geral, as festas do Espírito Santo tiveram um ciclo de implementação, expansão e decadência na história de Portugal. A sua fase de implementação constituiu-se (possivelmente) no início do século XIII até a implantação do modelo ‘império’, em Alenquer, no início do século XIV, com sua fase de expansão também no início do século XIV até meados dos séculos XVI e, por fim, a fase de decadência que vai ao final do século XVI até nossos dias com maior ou menor intensidade e linearidade (p.4).

Em Alenquer, a Rainha Isabel, esposa do rei Dom Dinis, passava parte do seu tempo em oração e ajudando aos pobres, em uma época em que Portugal e Espanha guerreavam. Em função dos conflitos, a Rainha teria feito uma promessa ao Espírito Santo e, caso o mesmo fosse atendido ela alimentaria os famintos, vestiria os nus e ofereceria sua coroa ao Divino, em troca de paz (IPHAN, 2009). O pedido foi atendido e a promessa cumprida, ficando assim a crença de que o Espírito Santo acabaria com a peste, a fome e a guerra. O culto ao Santo Divino passou a ser difundido nos países colonizados pelos portugueses.

Na atualidade os festejos em honra do Divino Espírito Santo são uma das mais expressivas manifestações populares e religiosas da cultura brasileira, movimentando importantes destinos turísticos no Brasil. Há poucas referências ao seu surgimento no Brasil, mas sabe-se que as comemorações acontecem norte a sul do País. Um exemplo emblemático é o da cidade goiana de Pirenópolis, onde a festa do Divino acontece desde 1819. Hoje, a celebração, considerada a maior e a mais importante do país, ostenta o título de Patrimônio Cultural Imaterial, pelo IPHAN (MTur, 2015). Segundo o IPHAN (2014), o Patrimônio Cultural Imaterial é constituído:

Pelas práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. É formado pelos bens culturais de natureza imaterial que se manifestam em: saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão; e lugares.

Ainda de acordo com o IPHAN (2014), a Festa do Divino Espírito Santo é uma das maiores manifestações de devoção católica no Brasil, unindo o passado e o presente, envolvendo as populações locais e determinando padrões de sociabilidade.

A cidade faz a festa e a festa faz a cidade. Por meio dela se marca o tempo, se reproduzem estruturas sociais e se conformam identidades coletivas e individuais. Seus elementos essenciais, por ordem de ocorrência, são: as Folias “da Roça” e “da Rua”, que “giram” pela zona rural e pela cidade, levando as bandeiras do Divino e angariando donativos para a festa; a coroa, a figura do Imperador, as cerimônias e rituais do Império, com alvoradas, cortejos, novena, jantares e outras refeições coletivas, missas cantadas, levantamento do mastro, queima de fogos, distribuição de “verônicas”, sorteio e coroação do Imperador (IPHAN,2014).

A celebração do Espírito Santo tem variações em torno de uma estrutura básica: a Folia, a Coroação do Imperador e o Império do Divino, símbolos principais do ritual (IPHAN, 2014). A história deste culto é tão longa como a lista de municípios brasileiros que a transformam em um evento que mistura o sagrado ao profano, incorporando rituais religiosos e expressões culturais que mobilizam turistas de todos os cantos do País.

Natividade: Uma Cidade Cheia de História - Natividade, município do Estado do Tocantins, está situada a 218 quilômetros de Palmas e de acordo com o IBGE (2010) conta com aproximadamente nove mil habitantes, em uma área de 3210,95 km². Fundada por Antônio Ferraz de Araújo em 1734, nascida com a exploração do ouro, preservou sua história, arquitetura, manifestação folclórica e festas religiosas, e é considerado o mais antigo núcleo urbano do Estado do Tocantins. Natividade está situada na região turística Serras Gerais. As “Serras Gerais do Tocantins fazem parte da maior cadeia de serras do Brasil e, [...] guardam tradições, arquitetura colonial, história e cultura como as cavalhadas, as festas do Senhor do Bonfim e do Divino Espírito Santo” (Turismo Tocantins,2017). O conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Natividade foi tombado pelo Iphan em 1987, pela vinculação do sítio e da paisagem ao modo de urbanização do século XVIII. A cidade é dividida em três zonas de usos específicos: Zona de Proteção Histórica, Zona de Proteção Ambiental e Zona de Expansão, e o conjunto arquitetônico é formado por ruas estreitas de casarões e igrejas.

A cidade com o núcleo mais antigo do Estado guarda histórias que podem ser narradas pelos seus próprios moradores, entre elas o desenvolvimento da cidade. Os mais antigos moradores de Natividade sempre são lembrados nos estudos e pesquisas sobre a cidade, pois participaram de todo o desenvolvimento do município, incluindo o saber fazer de sua cultura, de suas manifestações folclóricas, de suas festas religiosas.

Organização da Festa - A organizar a Festa do Divino Espirito Santo, em Natividade, é fruto da colaboração de toda a comunidade, além dos anfitriões, o Imperador e o Capitão do Mastro, personagens mais importantes do evento. A festa necessita de organização, pois as comemorações incluem a distribuição de grande quantidade de comidas, bebidas, lembrancinhas e decoração, sendo a cor símbolo do evento, o vermelho. As pessoas da comunidade que ajudam na organização em geral são devotas do Divino Espirito Santo, e o fazem para agradecer por graças alcançadas.

Para a preparação da Festa são realizadas reuniões na casa do Imperador ou do Capitão do Mastro, quando os organizadores tomam as decisões necessárias, verificam o processo de organização de todas as etapas do evento. Os festeiros se reúnem com pessoas da comunidade e com os coordenadores de folias [pessoas que auxiliam as famílias dos foliões], para apurarem sobre o andamento dos preparativos em cada grupo responsável por uma parte do evento. A festa se marca pela vivência coletiva do trabalho, da devoção, do entretenimento e de outras práticas da vida social da comunidade de Natividade.

A preparação do evento inicia-se no ano anterior, na Igreja Matriz, no mesmo dia da festa de coroação do Imperador. As funções de Imperador e Capitão do Mastro, festeiros do ano seguinte, são designadas por sorteio, sendo a transmissão de cargos feita durante a missa de Pentecostes. É neste mesmo dia que alguns coordenadores [despachantes] já sinalizam se vão ou não ‘soltar’ alguma folia ajudando o Imperador e o Capitão do Mastro na busca de donativos sejam eles em dinheiro ou produtos para realização da festa (Sousa & Ertzogue, 2013). Sobre o Imperador e os demais personagens da festa, Audrin (1963) afirma:

O imperador é o personagem principal da festa, além de ser o responsável pela realização da festa, devendo ser ao mesmo tempo seu maior investidor e aquele por meio de quem a cidade presta suas homenagens ao Divino. Outros personagens que também fazem parte desta festa são o capitão e a rainha do mastro, o despachante, os foliões, os alferes, os arrieiros, os caixeiros e o procurador da sorte. Estes personagens são sorteados no encerramento de um festejo para outro, para que assim ele tenha tempo suficiente para organizar a festa (p. 121).

A partir da realização do sorteio, no Domingo de Páscoa do ano seguinte começam os giros das folias; durante 40 dias, homens montados a cavalo, percorrem a zona rural e municípios vizinhos a Natividade levando a mensagem de Cristo ressuscitado por meio de cantigas, da pregação do evangelho e ainda arrecadam dinheiro e donativos para a realização da festa principal (Asccuna, 2016). De acordo com o mesmo autor, participam deste giro três folias, representando o Pai, Filho e o Espírito Santo. São elas: Folia dos Gerais, Folia do Outro Lado do Rio Manoel Alves e Folia de Cima. Integram-se a cada folia os alferes, os foliões, os caixeiros, os arrieiros e, principalmente os despachantes de folias, conhecidos como coordenadores.

Os coordenadores possuem um papel muito importante para o giro de folias, pois ajudam os festeiros, organizando um grupo formado por 15 ou mais homens, prestando assistência necessária ao bem-estar das famílias que ficaram em casa, enquanto os homens estão fazendo o giro de 40 dias, levando a palavra de Cristo. Cada membro da folia tem a sua função: os alferes, conhecidos como os líderes do grupo, carregam a Bandeira do Divino; o caixeiro toca a caixa para anunciar a saída e a chegada das folias; os arrieiros cuidam dos animais que estão sendo utilizados no giro de folias, dos mantimentos da tropa, e são eles os primeiros a chegar para organizar o pouso das folias, e os foliões são os músicos que compõem, cantam, tocam e dançam rodas catiras (Asccuna, 2016).

O giro de folias termina com o encontro das três folias na Praça da Igreja Matriz, dez dias antes da comemoração do Dia de Pentecostes. Após a chegada das folias (Fig. 1) é dado início ao Tríduo do Divino Espírito Santo, quando os devotos cantam e louvam o Espírito Santo durante três dias (Idem).

 Chegada das Folias na Igreja Matriz
depois do giro de 40 dias (2016)
Figura 1
Chegada das Folias na Igreja Matriz depois do giro de 40 dias (2016)
Foto Flávio Cavalera (2016)

No sábado, anterior ao Domingo de Pentecostes, ocorre à procissão da Esmola Geral (Fig. 2), quando a comunidade e os alferes saem pelas principais ruas de Natividade com a Bandeira da Misericórdia e as Bandeiras dos Devotos, visitando os moradores e arrecadando donativos para grande festa. Depois da peregrinação, todas as pessoas que participaram da Esmola Geral “se dirigem para casa do Imperador, onde entregam as bandeiras e os donativos arrecadados” (Idem, s.d). Após a Esmola Geral, toda a comunidade e visitantes se reúnem no local onde acontecerá a festa do Imperador e do Capitão do Mastro, para ajudar nas ornamentações, e produção das bebidas e comidas típicas que são oferecidas na festa.

Procissão da Esmola Geral 2016
Figura 2
Procissão da Esmola Geral 2016
Flávio Cavalera (2016)

À noite, no mesmo dia da Esmola Geral, após o término da missa, acontece a Festa do Capitão do Mastro que, juntamente com sua esposa, fica em cima de um mastro todo enfeitado com as cores do Divino e uma bandeira no seu topo, de aproximadamente cinco metros de altura. Os personagens dessa etapa da festa são carregados por vários homens que sacolejam, dificultando o equilíbrio do Capitão, seguindo assim a tradição. “O mastro, com a bandeira no alto, significa uma grande seta apontada para o céu de onde o Espírito Santo virá para encher o coração dos fieis de dons divinos” (Idem, s.d).

No dia seguinte, no domingo de Pentecostes pela manhã, acontece o grande dia do reinado [cortejo], da coroação do Imperador, a missa solene e transmissão dos cargos. A Missa de Domingo é o momento mais esperado por todos, “onde o Espírito Santo derrama bênçãos e graças em sete dons: Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor a Deus” (Idem, s.d.). Ao término da missa, os participantes recebem o pão do Divino e acompanham o Reinado até a casa do Imperador, onde tudo já está preparado para a grande festa do Divino com muita fartura de comidas, bolos, doces, bebidas e licores (Fig.3). O Imperador, junto com sua esposa, a Imperatriz, usam os símbolos do Divino que são a coroa, o cetro, o manto e a salva [bandeja de prata]. Após este momento são sorteados os festeiros do ano seguinte, o novo Imperador e Capitão de Mastro, acontecendo a transmissão de cargos. O final de uma festa já é o começo da festa do ano seguinte.

Imperador de
2016
Figura 3
Imperador de 2016
Flávio Cavalera (2016)

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A Festa do Divino Espírito Santo é um evento que segue o calendário móvel cristão de acontecimentos religiosos e neste contexto, resultados da pesquisa, obtidos por meio das entrevistas, são relevantes. Para a coleta de dados foram realizadas entrevistas com os organizadores do evento [Imperador, Capitão do Mastro, Despachantes de Folias, Asccuna, representada pela senhora Simone Camelo, pessoas da comunidade que produzem os alimentos servidos na festa e o padre responsável pela paróquia de Natividade em 2016) totalizando 15 entrevistados, por meio de um questionário semiestruturado composto por 16 perguntas, com intuito de obter informações sobre o planejamento e organização da Festa.

A primeira pergunta da entrevista foi a respeito dos responsáveis pelo planejamento da festa. Os entrevistados responderam que o Imperador e o Capitão do Mastro, pessoas da comunidade que se voluntariam para serem organizadores da festa, são os principais responsáveis, junto com a comunidade, com a paróquia, com a Asccuna e os festeiros:

“O Imperador é a peça principal da festa, tendo assim autoridade para estabelecer atividades a serem desenvolvidas na festa”.

“A associação já dá as orientações iniciais para os festeiros do ano que vem, para que façam o planejamento e a execução da maior festividade que mostra a culinária, religiosidade, manifestação cultural, pois a festa é muito rica em detalhes, o final de uma festa é o começo de outra.”.

“Existe um grupo na paróquia que também é responsável por esse planejamento”.

Sobre das folias, o Imperador as apresenta como sendo o anúncio da ressureição de Jesus representado pelos 40 dias de Cristo na terra. Os despachantes alegam ser uma tradição religiosa e que a folia forma um grupo de foliões e alferes que saem evangelizando, em grupos formados geralmente por 10 pessoas. A representante da Asccuna completa as informações, mostradas nos excertos a seguir:

“O giro da folia representa a jornada de Jesus Cristo e seus 12 apóstolos durante os 40 dias, levando o evangelho e convidando a todos do interior para a festa”.

“É o momento do grande mensageiro, com o primeiro objetivo levar a mensagem de Jesus e, o giro de folia funciona como uma “igreja ambulante” os foliões estão representando a igreja e são eles que convidam as pessoas da zona rural para a festa e receber o Divino Espírito Santo”.

Quando questionados sobre os tipos de doações que são arrecadados para a Festa, o Imperador diz ter recebido em dinheiro 23 mil reais das três folias e quatro mil reais da esmola geral, e ainda animais para abate como: gado, galinhas e porcos. Receberam, também, alimentos como: polvilho, ovos, além de ajuda para produção dos alimentos, organização e ornamentação da cidade para realização do evento. Sobre como é feita a captação de recursos, o Imperador e os despachantes confirmam que são doações espontâneas. Sobre a existência de incentivo da Prefeitura de Natividade ou do Governo Estadual do Tocantins para a realização da Festa, o Imperador do ano de 2016 confirma ter recebido adesivos para promoção do evento; outros organizadores entrevistados declaram que a Prefeitura ajuda com a limpeza da cidade após o evento.

Quanto à prestação de contas com a comunidade, o Imperador alega que esse momento se dá na distribuição de alimentos na Festa; um dos despachantes afirma que cabe ao padre fornecer tais informações, juntamente com a equipe da casa do Imperador. O que é arrecadado na esmola geral, não é divulgado. Outro despachante entrevistado diz que não há o momento de prestação de contas de tudo que foi gasto para a realização da festa.

No questionamento sobre a existência de sorteio para a escolha de quem participa das folias, os organizadores afirmam que são todos voluntários e o sorteio acontece para a escolha de onde a folia vai girar, pois são três folias que representam o Divino. O sorteio escolhe os próximos festeiros, Imperador e Capitão do Mastro. Com relação aos responsáveis pela estrutura operacional do evento e atendimento aos visitantes, os entrevistados responderam que são os festeiros os principais responsáveis. Quando questionados sobre quais os alimentos oferecidos gratuitamente no banquete da Festa, os entrevistados responderam que são oferecidos: paçoca de carne de sol feita pela comunidade, uma variedade de bolos como bolo de arroz, bolo de mãe, pipocas [peta], amor-perfeito, biscoitos do céu, bolachas, licores de diversos sabores, doces, bebidas como refrigerantes. Para as pessoas que auxiliam na organização da Festa, os donos os festeiros, oferecem almoço, servindo arroz, feijão tropeiro, carne assada, frango, saladas, sucos e refrigerante.

Ao indagar se a cidade recebe turistas e se eles sabem da importância da Festa, os entrevistados afirmam que o contato que os turistas têm sobre da festa se dá por meio de materiais impressos todos os anos, explicando a história desde o início desse evento na cidade. Ao mesmo tempo foi identificado através das entrevistas que há necessidade de comunicação mais ampla com os turistas acerca da festa e de sua representação. Quanto à continuidade da Festa, os entrevistados afirmam que acreditam na tradição e que se depender da comunidade essa ela nunca irá desaparecer. Quando perguntados como descrevem o significado da Festa do Divino Espírito Santo, os entrevistados responderam que a festividade anuncia a ressureição de Cristo, um momento de grande fé, tradição e é uma festa de louvor ao Espírito Santo, de acordo com os trechos das entrevistas:

“Festa que vem anunciar a ressureição de Cristo e vem pregar essa ressureição como forma de festa e louvor ao Espírito Santo”.

“Momento onde comemoramos a descida do Espírito Santo sobre os 12 apóstolos”.

Por meio das entrevistas realizadas com os organizadores de 2016, constatou-se que a Festa do Divino Espírito Santo possui muitos acontecimentos de fé, devoção, agradecimento e espiritualidade, todos vivenciados entre os festeiros, a comunidade local e por turistas. Todos esses momentos são planejados e executados por muitas pessoas, sendo que o Imperador se destaca, como principal responsável pelo evento. Observa-se também que os festeiros não elaboram documentos do pré-evento e de tudo que precisa ser desenvolvido no decorrer da Festa, dificultando assim as etapas de planejamento de um evento e principalmente o pós-evento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Festa do Divino Espírito Santo, em Natividade, mobiliza foliões, devotos e, sobretudo a comunidade local, que são primordiais para a continuidade da cultura e da identidade regional, através desse evento. Os nativitanos renovam sua espiritualidade e fé, bem como redescobrem suas raízes e se veem pertencentes a uma comunidade tradicional. De acordo com a pesquisa, o Imperador e o Capitão do Mastro são os principais responsáveis pela Festa do Divino Espírito Santo, pois eles têm o compromisso de organizar durante todo o ano, a festa, a partir do momento do sorteio. O cerimonial e o protocolo da festa são estruturados de acordo com a necessidade dos festeiros, são realizadas reuniões com os organizadores da festa, onde discutem como poderão arrecadar mais doações em prol da festa.

Considerando os fatos apresentados, conclui-se que a Festa do Divino Espírito Santo de Natividade não possui um planejamento por escrito, registrado, seu planejamento é por meio da sabedoria dos mais velhos, do aprender a fazer com o próximo, da tradição passada de geração para geração, da contribuição da comunidade e dos devotos. Portanto, a realização da Festa do Divino Espírito Santo é em favor da conservação da fé e identidade da comunidade. E independentemente de não haver todas as etapas do planejamento sendo desenvolvido, o evento é realizado por meio da união e da vontade da comunidade. A Festa do Divino Espírito Santo resiste aos desafios da sociedade contemporânea, mesmo com advento de novas tecnologias junto à juventude. Afinal, mesmo inserida em um mundo cada vez mais globalizado, competitivo e individualista, ainda assim a comunidade anciã, bem como os jovens, se engaja na realização desse evento de fé e devoção que é reconhecido não apenas regionalmente, mas também em nível nacional, o que corrobora para que essa tradição seja passada de geração em geração.

Sendo assim, é recomendado, então, que sejam feitas anotações para fins de registro, antes da festa, descrevendo em planilhas, as fases que precisam ser desenvolvidas com o cronograma, de que maneira ocorreram as arrecadações, quais e de quanto foram os gastos, dentre outros. Determinar funções na organização e execução do evento no decorrer do ano, podem ser úteis no sentindo de otimizar a mão de obra da população, bem como, para obterem melhores resultados com relação ao custo da festa em função das doações recebidas. Acredita-se a inserção dessa metodologia de planejamento na Festa do Divino Espírito Santo, será de grande valia para os festeiros e principalmente para as futuras gerações, que terá registro de toda sua história e dos acontecimentos deste importante ev ento para o estado do Tocantins.

Referências

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Angrosino, M. & Flick, U. (2009). (Coord.). Etnografia e observação participante. Porto Alegre: Artmed.

Asccuna - Associação Comunitária Cultural de Natividade. (2016). Festejos do Divino Espírito Santo Divino. Folheto. Natividade: Tocantins.

Audrin, J. M. (1963). Os sertanejos que eu conheci. Rio de Janeiro: José Olympio.

Ministério do Turismo. (2015). Festa do Divino Movimenta o Turismo Religioso. Link

Brito, J. & Fontes, N. (1997). Turismo e eventos. São Paulo: Sprint.

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia Estatística. (2010). Dados gerais do município de Natividade. Link

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IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. (2009). Festa do Divino Espírito Santo da Cidade de Paraty, RJ. Link

Martins, C. & Leite, L. (2006). Cultura, religiosidade popular e romarias: expressões do patrimônio imaterial. In: Martins, C. (Org.). Patrimônio cultural: da memória ao sentido do lugar. São Paulo: Roca.

Matias, M. (2010). Organizações de eventos: procedimentos e técnicas. São Paulo: Barueri.

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Sousa, P. M. & Ertzogue, M. H. (2013). Histórias, memória e religiosidade na festa do Divino Espírito Santo em Natividade-TO. Revista Internacional de Folkcomunicação, 11(22). Link

Tenan, I. P. S. (2002). Eventos. São Paulo: Aleph.

Turismo Tocantins. (2017). Serras Gerais - Regiões Turísticas. Link

Notas

[1] Geruza Aline Erig: Doutoranda em Geografia, Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil. Currículo: http://lattes.cnpq.br/0658541011856268. E-mail: geruza@ifto.edu.br
[2] Aline Gomes Santana: Graduada em Gestão de Turismo, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Campus Palmas, Palmas, Tocantins, Brasil. Currículo: http://lattes.cnpq.br/5084592600154803. E-mail: alinegomes1304@hotmail.com
[3] Mayele Cristina de Andrade Ferreira: Graduada em Gestão de Turismo, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Campus Palmas, Palmas, Tocantins, Brasil. Currículo: http://lattes.cnpq.br/2332506972649631, E-mail: ferreira.mayele@gmail.com
[4] Processo Editorial: Recebido: 25 AGO 2017; Avaliado (1) SET, (2) JAN 2018; Aceito: 19 MAI 2018.
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