Artigos
Hostels: Territórios de Amorosidade nas Relações de Turistas Contemporâneos
Hostels: Lovingness Territories in the Contemporary Tourists’ Relationships
Hostels: Territórios de Amorosidade nas Relações de Turistas Contemporâneos
Rosa dos Ventos, vol. 10, núm. 4, pp. 785-797, 2018
Universidade de Caxias do Sul
Recepção: 25 Agosto 2017
Aprovação: 04 Agosto 2018
Resumo: Este artigo discute o meio de hospedagem hostel e a valorização de um turismo ecoamoroso, voltado à ética da relação entre os sujeitos. Em termos teóricos, associa Turismo, Hospitalidade, Subjetividade e Comunicação, na dimensão de amorosidade (Baptista, 2014a). Epistemologicamente, segue-se a concepção de trama e, em termos metodológicos, o artigo resulta de uma cartografia bibliográfica e observação direta. A mutação no modo de hospedagem, representada pelo hostel, entrelaça demandas por relações comprometidas com a cooperação, em detrimento da lógica competitiva presente no modelo tradicional de hospedagem. Emerge, desse modo, um turismo ecoamoroso e socioamoroso nas relações sociais de acolhimento mútuo, no qual as diferenças convivem com respeito e confiança.
Palavras-chave: Turismo, Hospitalidade, Amorosidade, Hostel.
Abstract: This article discusses the hostel as differentiated lodging and the valuation of an eco-loving tourism, focused on the ethics of the relationship among the subjects. In theoretical terms, it associates Tourism, Hospitality, Subjectivity and Communication, in the dimension of lovingness (Baptista, 2014a). Epistemologically, it follows the conception of weave and, in methodological terms, the article results from a bibliographical cartography and report of experiences of one of the researchers. The mutation in the lodging way, represented by the hostel, interweaves demands for relationships committed to cooperation, to the detriment of the competitive logic present in the traditional lodging model. In this way, an eco-lovingand socio-lovingtourism emerges in social relations of mutual acceptance, in which differences coexist with respect and trust.
Keywords: Tourism, Hospitality, Lovingness, Hostel.
INTRODUÇÃO
Este artigo discute o meio de hospedagem hostelea valorização de um turismo ecoamoroso, voltado à ética da relação entre os sujeitos, no âmbito de um turismo social. Entende-se o turismo amoroso no sentido de ecoamoroso e socioamoroso,ou seja, como uma superação dos aspectos inerentes ao modelo tradicional que envolve a área de conhecimento e as práticas da atividade. Trata-se da ressignificação do turismo, de modo a evidenciar sua dimensão provocadora de movimentos de desterritorialização, que possibilitem o encontro de diversidades e, por isso mesmo, a reinvenção dos laços sociais em função da construção do respeito mútuo e do estabelecimento de laços de confiança[3].
A expressão‘turismo amoroso’ não corresponde a uma proposta de segmentação, mas a uma postura epistemológica, que se orienta pela compreensão de que o amor é o laço que constitui o plano ecossistêmico, em essência[4]. Conforme a visão de Humberto Maturana (1998), um dos autores fundamentais, nesta perspectiva, o amor é o reconhecimento do outro como legítimo outro na convivência. Essa é a concepção que sustenta também os neologismos ecoamoroso e socioamoroso, neste texto. Significa, portanto, voltar-se para sociedade, em sua ambiência ecossistêmica, marcada por relações éticas, de acolhimento mútuo e de estabelecimento de confiança plena.
Especificamente, este artigo tem como objetivo analisar aspectos da trama de amorosidade, hospitalidade, subjetividade e comunicação, nas relações sociais no ambiente multicultural hostel.A temática abordada, em termos de lócus investigativo, corresponde a uma área em expansão no que diz respeito a hospedagens turísticas. Em termos científicos, a temática já se faz presente em artigos, trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses, mesmo que por aproximação. Tais pesquisas tratam o Hostel sob enfoques como hospedagem (Gomes, G. 2014), hospitalidade (Rezende, 2008), características (Medeiros, 2013), design (Gomes, B. 2014) e o turismo backpacker (Galvão, 2013).
Parte-se do pressuposto que o ‘sujeito do turismo’ busca, na contemporaneidade, mais do que ofertas comerciais de viagens, restritas a aspectos concretos e a dimensões tangíveis, organizadas numa lógica da engrenagem maquínica[5]. A pressuposição tem com bases alguns dados apresentados neste texto, bem como o mergulho no universo dos Hostels, realizado por uma das pesquisadoras, com produção de diário de campo, resultante da observação participante, conversas informais e rodas de conversa nos Hostels frequentados. Em função disso, entende-se que háa emergência de sujeitos que almejam uma real hospitalidade, expressiva troca de cultura e boa prática da amorosidade, em todas as suas relações com o outro. Em termos de narrativa, antes de apresentar uma abordagem teórica do meio de hospedagem em análise e de suas peculiaridades em termos de hospitalidade e amorosidade, o artigo apresenta alguns sinalizadores, inerentes à estratégia metodológica escolhida, a Cartografia de Saberes e sua vinculação com as matrizes rizomática, como propostas por Baptista (2014b, 2017a).
SINALIZADORES METODOLÓGICOS
Os aspectos inerentes ao objeto de estudo das pesquisas que estão sendo parcialmente relatadas neste artigo conduzem à escolha de uma abordagem metodológica qualitativa, complexa-sistêmica. Há, aqui, portanto, a proposta de um mix de metodologias e técnicas, todas embasadas em teorias e aplicadas em conjunto para o desenvolvimento da pesquisa. Considera-se a dimensão de trama complexa do fenômeno, em sintonia com autores da Ciência Contemporânea, como Capra (2003) e Morin (1991).Por isso, considera-se, para este trabalho, não metodologias, propriamente ditas, mas sim sinalizadores metodológicos, que partem de matrizes e não de metodologias rígidas ou métodos engessados. A estratégia metodológica segue a Cartografia de Saberes (Baptista, 2014b), que se alinha aos pressupostos epistemológico-teóricos mencionados, em associação às Matrizes Rizomáticas da Pesquisa (Baptista, 2017a), que apontam direcionalidades de desenvolvimento da investigação, que a autora trata como ‘viagem investigativa’.
Segundo Baptista (2014b), a trama investigativa se constrói através de tessituras entre saberes pessoais, saberes dos outros [especialmente os teóricos, que decorrem de levantamento bibliográfico] e a vivência do pesquisador na área da pesquisa a ser realizada, com aproximações e definições das ações investigativas. Entende-se que, através de uma série de aproximações e ações investigativas participantes, é possível ter uma real compreensão da forma como a amorosidade, a educação e a hospitalidade podem estar presentes nas relações sociais no Hostel.Vale explicar que a diferença entre aproximações e ações investigativas está no nível do planejamento. No caso das aproximações, o pesquisador desenvolve algumas atividades iniciais, que possibilitem aproximar-se do campo de pesquisa, acionar a escuta sensível do que o fenômeno pode oferecer. Entre essas atividades, em geral, estão observação participante, conversas informais, produção de diário de pesquisa, levantamento preliminar de dados em diversos suportes, como Internet e, mesmo, em registros pessoais, como fotografias, ou em produções midiáticas, como flyers, cartazes, etc. As ações são escolhidas e planejadas em função dos dados preliminares e do primeiro ‘garimpo’ no material bibliográfico, que, diga-se de passagem, deve passar por discussões em rodas de conversa do grupo de pesquisa, pela produção de síntese e seminários de orientação.
O presente texto tem caráter ensaístico, tendo sido produzido com base em aproximações investigativas registradas em diário de pesquisa por uma das autoras em suas hospedagens em Hostels. No período de 2013 a 2017 foram realizadas 11 aproximações investigativas, sendo cinco nos Estados Unidos, uma no Canadá, uma no Peru, uma na Argentina e três no Brasil. Essa trama está sendo construída e acionada, no sentido de possibilitar a análise desses conceitos, nesse ambiente, no dia a dia desses locais, no cenário do turismo contemporâneo. É o que Baptista (2014b) trata como usina de produção, a qual engloba as aproximações e ações investigativas aplicadas em conjunto, para o desenvolvimento da pesquisa. Por isso, além do levantamento bibliográficoem livros, banco de dados e websites, é feito um resgate das lembranças, a partir de observações diretas, conversas informais, análise do ambiente e dos modos de convivência em alguns Hostels. Com esse resgate de memórias, é feita a organização dos textos e se cria discussão sobre as diferentes experiências nos mesmos, bem como a relação com a teoria e a decupagem das diversas cenas de situações vividas, observadas e relatadas no diário do campo.
A observação direta, as análises e as conversas informais podem ser realizadas em diversos ambientes dentro do Hostel, propícios para essa investigação. Um deles é a recepção, que é o primeiro espaço de contato com a hospitalidade que se tem enquanto hóspede, e também proporciona a primeira impressão sobre o local. Isso também ocorre nos quartos compartilhados, na cozinha e nas demais áreas sociais, que são ambientes onde ocorre maior interação entre os hóspedes. Estes são espaços em que é viabilizada a troca de conhecimento, experiências, cultura e, também, em que se pode verificar a prática desses valores já mencionados.É importantedizer, também, que a Cartografia de Saberes não propõe uma ordem, e que as aproximações e ações podem acontecerde forma simultânea. Isso remete ao que Baptista (2017a) trata como matrizes rizomáticas[6], que significa, no âmbito da pesquisa, que as brotações são irregulares, às vezes autônomas, desafiando os sentidos, o pensamento e as práticas do pesquisador.
HOSTEL E SUAS PECULIARIDADES
Há indícios que a palavra hostel tenha vindo do francês e significaria estabelecimento que providencia acomodações. Já a palavra albergue viria do baixo latim heribergium, passando pelo antigo alemão haribërga, como “alojamento de tropas”, unindo hari [exército] mais Berg [asilo, abrigo][7]. Hoje, acredita-se que se entenda hostel – ou ainda hostal, em espanhol – em linguagem generalizada para a acomodação em que há, em sua maioria, o compartilhamentode unidades habitacionais, banheiros e cozinha, com preço de diária menor. Apesar do uso, também, do termo albergue, optou-se por utilizar nessa pesquisa hostel, em função de ser otermo, em princípio, mais difundido turisticamente.
São poucas as referências sobre o históricodo Hostel. Relatos[8] apresentam que o primeiro estabelecimento do tipo teria como idealizador o professor Richard Schirmann, em 1909 (Simpson, 2015). Ele dedicava parte de seu tempo para criar programas de convivência e fazia muitas saídas a campo com seus alunos. Passou, então, a organizar pequenas viagens de estudo. Depois de ser surpreendido, com um grupo de alunos,por uma tempestade, precisou refugiar-se em uma escola com os mesmos e, vindo daí a ideia de criar o que ficaria conhecido como Hostel. O primeiro Albergue da Juventude foi criado em 1912, na Alemanha.Percebe-se que o Hostel não é um tipo novode acomodação, mas se pode dizer que o conceito se expandiu e a demanda por ele aumentou, no Brasil, depois do ano 2000.
A Câmara Temática Nacional de Desenvolvimento do Turismo [CTNDT], que integrava o Grupo Executivo Gestor da Copa do Mundo FIFA de Futebol no Brasil, determinou que os Hostels, durante o evento 2014, seriamincluídos na oferta de hospedagem. Isso pode ser considerado um avanço, tendo em vista que as agências de viagens, quando vendem um pacote completo de viagem, geralmente, colocam como opção de acomodação o hotel.Embora hotéis e pousadas continuem sendo os estabelecimentos com maior número de registros, segundo pesquisa da Phocuswright [empresa que realiza pesquisas de viagens, turismo e hospitalidade] e divulgada pela HostelWorld [plataforma líder de reservas online] em 2016, o crescimento dos Hostels no Brasil, em cinco anos, foi de 533. Não há dados oficiais sobre o número total de Hostels no mundo, mas, no HostelWorld é possível encontrar mais de 35 mil. No Brasil, foram identificados 750 estabelecimentos cadastrados, sendo 140 só na cidade do Rio de Janeiro.
Observa-se que os Hostels têm algumas características similares, como a boa localização na cidade e algumas particularidades decorativas. São ambientes descontraídos e propícios à socialização, onde há pessoas do mundo todo. Para os quartos, há opções de compartilhado – com quatro, 10, 12 ou mesmo maiscamas –, ou privativo,este com valor mais elevado. Os banheiros também são compartilhados, assim como a cozinha, onde cada um pode preparar a sua comida. Usualmente há uma ou mais áreas de lazer, com sofás, televisão e jogos, entre outros[9].
Outra questão que vale mencionar aqui é a emergência das discussões sobre sustentabilidade e a descoberta de formas de proteção ao meio ambiente, aspecto que vem sendo reconhecido como de grande relevância, tanto por empresas, como pela comunidade em geral. Importante mencionar que não se pretende aprofundar, aqui, a discussão sobre sustentabilidade, apenas apresentar como ponto para reflexão, por sua relevância. Assim, com simples observação, enquanto no hotel cada quarto tem seu ar condicionado, frigobar, luzes e televisão, na acomodação compartilhada, cada quarto comunitário tem [ou não] ar condicionado, uma lâmpada para todos; na sala de lazer, há uma televisão; e, ainda, na cozinha, uma geladeira para todos. Além disso, os quartos e os banheiros, limpos todos os dias, comportam mais hóspedes.
Conforme José Francisco Salles Lopes (Ministério do Turismo, 2011[10]), “os Hostels representam uma oferta de hospedagem diversificada e especializada, que atende um público que tem prazer em viajar, e que não limita a sua atividade turística ao quesito financeiro. Em viagens de longa duração, o gasto médio praticamente se equipara ao dos demais viajantes”. Além disso, entende-se que o consumidor mudou de perfil. De acordo com a Revista Veja[11], “antes era maioria os estrangeiros de mochila nas costas, hoje 60% dos ocupantes dos quartos são brasileiros”. E completa, “público típico de acomodações tradicionais que topa encarar um pouco menos de conforto para pagar menos”. Segundo a FBAJ[12], os hóspedes do Hostel são jovens entre 21 e 28 anos, interessados em “troca de experiências e valores como liberdade, confraternização, paz e respeito”, diferente do público que procura por meios de hospedagem tradicionais.
Ross (2002) analisa o segmento mochileiro relativo ao local de destino e pondera que “esses critérios incluem a preferência por uma acomodação ao orçamento, uma ênfase em conhecer outros viajantes, um plano de viagem organizado de forma independente e flexível [...] atividades de lazer informais e desestruturadas [...]” (p.90). Essas atividades informais e desestruturadas vãoao encontro dopensamento de Andrade (2000), que cita como elemento motivador para optar por um Hostel, o espírito de aventura - característico de um grupo cada vez mais reduzido.Para Carlos Augusto Alves, presidente da FBAJ, "boa parte do público escolhe o albergue não só por economia, mas também por filosofia de vida. Muitas amizades surgem a partir destes locais"[13].
Baptista (2014a) relata que na área do turismo, os termos amorosidade e hospitalidade também se entrelaçam, não podendo haver um, sem o outro. A autora cita ainda, a palavra confiança como parte dessas ideias. Confiança é, portanto, outro valor que merece ser considerado, quando se fala em convivência entre pessoas desconhecidas. Esse é um valor que, geralmente, se cria entre pessoas, depois de certo tempo de comunhão. Dentro do Hostel,porém,é necessário, de certa forma, confiar no desconhecido que está dividindo o mesmo ambiente. Há um exemplo que retrata essa questão, em uma das experiências da pesquisadora, em hospedagem em Hostel: “Havia uma dúzia de ovos na geladeira compartilhada. Veio à mente o fato de que, realmente, não sabia se sua comida estaria lá, no dia seguinte, mas surpreendeu-se quando faltava um ovo na caixa, mas, no lugar do ovo havia uma nota de um dólar – valor que quase pagava a dúzia inteira”[14]. Nota-se o respeito e o cuidado pelo que é do outro, e, com isso, é possível compreender um pouco desses valores, na prática.
Percebe-se que o que está em jogo é uma mutação de valores, a emergência de outra concepção de mundo. Capra (2003) também dá sustentação a essa ideia, quando relaciona as teorias da Física contemporânea aos conceitos de realidade, afirmando que a concepção do universo é “como uma rede interligada de relações” (p.82). Ele considera da mesma forma os fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais, todos como interdependentes. Essa perspectiva é coerente à concepção de Moesch (2002), quando diz, conforme já citado, que o turismo é uma “combinação complexa de inter-relacionamentos” (p.9). Nesse estudo do mundo de relações, Maturana (1998), por sua vez, descreve o amor como fator fundamental: “O amor é a emoção que constitui o domínio de ações em que nossas interações recorrentes com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência” (p.22).
De acordo com Moesch (2002), “para permitir novos modos de sensibilidade humana, de relação com o outro que coincidam aos desejos, ao gosto de viver, à vontade de conhecer o mundo, com a instauração de dispositivos capazes de desterritorializar, criando novas relações, sentidos e representações na busca da transversalidade entre os grupos humanos” (p.15). Pode-se considerar, portanto, a seguinte citação da presidente da Associação Paulista de Albergues da Juventude, Maria José Giaretta: “A cozinha de um albergue é um dos espaços mais multiculturais que eu conheço. Eu como abacate com açúcar, o outro come com limão, o outro com feijão. Quem estiver naquele espaço aprende coisas tão particulares que só um contato desses permite”[15]. E quando se presencia essa situação, através da vivência, percebe-se que há muito de verdade no que ela diz. Pode-se dizer, ainda, que essa experiência multicultural vai muito além da cozinha, acontece em todos os ambientes do Hostel e que esse experimento pode se estender quando se mantém contato, posteriormente, com as pessoas de diferentes locais, conhecidas e integradas por meio do ambiente em que estavam inseridas.
O albergue ou Hostel, geralmente, oferece um ambiente propício para troca de valores, não só porque são jovens de diferentes nacionalidades, culturas e condições sociais, em um ambiente informal, mas também porque precisam praticar esses valores pessoais para a boa convivência, já que praticamente todos os espaços desse alojamento são compartilhados.É interessante também citar essa frase do programa veiculado pela RBSTV, intitulado Patrola: “O hostel é uma Torre de Babel. Tem gente de todos os lugares do mundo”.[16] E isso faz com que exista uma troca de cultura muito grande. Deve-se supor,ainda, que esse público seria mais sociável e que escolheria o local por viajar sozinho e buscar, ali, trocas com outros viajantes. Sob esse olhar é possível reconhecer que somos sujeitos vistos como partes de um único conjunto, pertencentes a um mesmo tipo de mundo e compreendendo que “o todo é mais do que a simples soma das partes [...] diversas abordagens teórico-metodológicas que buscam explicar de forma mais completa possível o mundo nas suas relações” (Anjos et al., 2013, p. 394).
MEIOS DE ACOMODAÇÃO E HOSPITALIDADE
A acomodação, ou hospedagem, é considerada como um dos setores mais antigos, reportando às hospedarias e aos mosteiros que abrigavam peregrinos (Sartor, 1977). Depois disso, os espaços de hospedagem se expandiram e o serviço foi se transformando, conforme a demanda aumentava. A mudança para um novo território, mesmo que temporário, envolve a hospedagem em algum local, sendo esse um serviço elementar para o turista e importante para o turismo. Nesse sentido, Dias (2005) afirma que “podemos considerar o alojamento do turista como um dos pontos fundamentais na experiência que realiza ao decidir fazer turismo [...]” (p. 152). O local de hospedagem é para onde o turista volta ao regressar do passeio turístico, por exemplo. Será como sua residência temporária. O autor classifica os meios de hospedagem por: hotéis, pousadas, motéis, pensões, campings, colônia de férias, albergues, entre outros.
Observa-se que a hospitalidade tem papel fundamental na prática do turismo. De acordo com Camargo (2005), agradar ao hóspede “implica abrir mão de algo que se tem em favor dele. Esse algo pode ou não implicar dispêndio de dinheiro. Pode ser apenas um cafezinho já passado. Pode ser apenas tempo, moeda tão cara na vida moderna” (p.19). Revela ainda que a hospitalidade é um “processo de comunicação interpessoal, carregado de conteúdos não-verbais ou de conteúdos verbais [...]” (p.31). O autor diz que esse processo pode variar de um grupo social para outro, mas que no final são o desejo ou a recusa de vínculo humano. Conforme esse entendimento, Grinover (2002) expõe a troca de valores entre visitado e visitante, que “proporciona uma enorme riqueza de conhecimentos, modificando sua visão de mundo e acrescentando valores inconfundíveis ao relacionamento humano” (p. 28).
Nesse sentido, Baptista (2002), mencionada por Oliveira (2011), acredita em uma hospitalidade não mais artificial, racional, mas “uma hospitalidade que aproxima as pessoas, [...] mais humana, baseada no acolhimento, na solidariedade, na sensibilidade que só o outro pode dar” (p. 34). E também, no que diz respeito ao turismo, “não há hospitalidade sem o acionamento de planos amorosos, de disposição de estar junto, de respeitar-se mutuamente, os tempos, os silêncios, os ritmos, as diferentes ‘miradas’ para as cenas partilhadas” (Baptista, 2014a, p. 40). Assim, tem-se o foco dessa pesquisa, que é pesquisar o turismo pelo viés da amorosidade e hospitalidade, tendo em vista a ética da relação entre os próprios sujeitos que frequentam Hostels.
TURISMO E SUAS RELAÇÕES ECOSSISTÊMICAS
Na discussão sobre o sentido de turismo, busca-se refletir sobre os desafios contemporâneos para as áreas,tanto do ponto de vista de sua prática quanto de suas teorias. Vale destacar, como ponto de partida, o conceito apresentado por Beni (2003). Quando fala da globalização do turismo, descreve o crescimento do número de alojamentos hoteleiros ao redor do mundo e afirma que o “turismo já é o mais importante setor da economia no total de bens e serviços de exportação” (p.33). O autor, entretanto, explica que esse aumento gera um “sensível ajuste estrutural e funcional, em razão de uma nova filosofia de hospitalidade [...]” (p.28-29). Da perspectiva apenas financeira ou econômica, os conceitos foram evoluindo, como aborda Dias (2005), quando conceitua turismo como uma teoria e prática de viajar por motivo de lazer. E também Andrade (2000), quando comenta que “embora todas as viagens importem em deslocamento físico e espacial e revertam em gastos e lucros, o fenômeno turismo, em sua concepção ideal pura, é um deslocamento realizado por prazer a locais que despertem algum tipo de interesse objetivo ou subjetivo” (p.18).
Numa perspectiva um pouco mais contemporânea, Dias (2005) caracteriza turista como o sujeito que viaja por prazer e cultura, aquele que conhece outros lugares, por seus motivos de interesse. As razões pelas quais os indivíduos praticam o turismo, no entanto, certamente variam, como, por exemplo, quando relacionado a trabalho, estudo como congressos, seminários, reuniões e também quando a prática está voltada ao lazer como descanso, diversão, desejo e/ou curiosidade.Para compreender a prática do turismo como um todo, também é necessário entender que “não há território sem um vetor de saída do território, e não há saída do território, ou seja, desterritorialização, sem, ao mesmo tempo, um esforço para se reterritorializar em outra parte”(Deleuze, 2002, p.1). Nesse sentido, acredita-se que os autores propõem uma reflexão de como é a reterritorialização, ou seja, como é a reinserção do sujeito – no caso, turista – no novo ambiente. A partir disso, pensa-se a territorialização e a desterritorialização como processos simultâneos, essenciais para entender as práticas e relações humanas. Para Andrade (2002), a territorialidade é vista como um processo subjetivo, em que o sujeito quer fazer parte de um território. Pode-se dizer também que esse processo é marcado pela troca, por território e sujeito interagindo de forma recíproca.
Quanto à necessidade que o sujeito sente de viajar, Andrade (2000) explica que o cotidiano do indivíduo pode ser bom, mas afirma ser também cansativo e estressante. Com isso, entende-se uma das razões pelas quais o ser humano busca fazer pelo turismo, ou seja, para, temporariamente, sair de sua rotina, espairecer e descansar. Pode-se perceber que, independentemente do conceito que caracteriza o deslocamento de território, ele acontece desde há muito tempo e avança conforme o tempo passa, assim como a necessidade humana muda e também evolui em cada questão. Nesse sentido, Panosso Netto e Trigo (2009) conceituam o turismo como um “grande negócio global. Porém é mais do que isso. É um convite à convivência entre as pessoas, etnias e culturas diferentes. É uma possibilidade de conhecer o planeta [...]” (p.49-50). Nesse ponto, já se fala não só em turismo como prática comercial, mas sim, percebe-se que háo encontro de outros valores que sãocolocados em prática nesse ‘novo’território.
Nessa discussão, o pensamento de Moesch (2002) parece bastante relevante: “O turismo é uma combinação complexa de inter-relacionamentos entre produção e serviços, em cuja composição integra-se uma prática social com base cultural, com herança histórica, a um meio ambiente diverso, cartografia natural, relações sociais de hospitalidade, troca de informações interculturais” (p.17). Isso remete ao tema desta pesquisa e vincula-se à noção de turismo ecoamoroso. Pode-se refletir e compreender o pensamento, no que diz respeito às relações humanas que envolvem os sujeitos, quando esses estão em contato com outros. Quando o hóspede pratica a convivência, coloca seus valores pessoais à mostra, e, com isso, entende-se que ele não está sozinho e precisa aprender a compartilhar o ambiente, a cultura e a respeitar os limites do próximo. Assim, se constrói e reinventa os laços sociais, em condições autopoiética e amorosas de viver o turismo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esse texto faz uma abordagem do turismo contemporâneo, tendo em vista o processo de mutação paradigmática da Ciência Contemporânea, com repercussão em processos turísticos, vividos, também, pelos sujeitos do turismo. Com isso, acredita-se que o meio de hospedagem hostel traz consigo elementos de valorização de um turismo amoroso, no sentido de ecoamoroso e socioamoroso, voltado para a ética da relação entre os sujeitos envolvidos. A partir do levantamento bibliográfico e das experiências discutidas pelas autoras, é feita uma reflexão sobre cada situação vivida. Nesse sentido, é possível perceber o resgate dealguns valores, visivelmente presentes no Hostel e não muito presentes no modelo de hospedagem tradicional. Além desse ambiente ser provocativo, no que diz respeito ao relacionamento interpessoal, nota-se também uma prática mais coletiva e menos individual.
O artigo apresentou dados preliminares, alinhados à dimensão qualitativa da pesquisa. Em termos metodológicos, sua produção foi orientada pela estratégia Cartografia de Saberes.Os dados apresentados correspondem a aproximações e ações investigativas, como resgate de memórias e produção de relato de vivências relativas aos Hostels visitados; retomada de visitas em novos Hostels; conversas informais; observação sistemática; produção de diário de campo, bem como conversa com o grupo de pesquisa e orientações.
Considera-se essas aproximações fundamentais para o delineamento do campo de investigação e a delimitação de ações investigativas a serem desenvolvidas em uma fase mais sistemática de aprofundamento da investigação, com mais visitas a Hostels. O delineamento do campo prevê ainda interação com os hóspedes, para o registro de depoimentos e rodas de conversa, sobre os diferenciais do tipo de hospedagem. Nessa perspectiva, valoriza a observação direta associada a discussão teórica.
Verifica-se que esse ambiente hostel até pouco tempo não era muito conhecido no Brasil e, agora, está se disseminando e,por isso, pretende-se auxiliar a expandir essa pesquisa no Brasil, ajudando também, em pesquisas futuras sobre o assunto. Por fim, acredita-se que todo o processo de investigação se constitui em paralelo à história dos sujeitos pesquisadores. O projeto Trama Amorcomtur! representa, no grupo de pesquisa, o aprofundamento da discussão de complexidade dos processos comunicacionais, turísticos e subjetivos, no que denomina-setrama, atribuída aos três campos de conhecimento.
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Notas