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A Economia na Pandemia Covid-19: Algumas Considerações
The Economy in Pandemic Covid-19: Some Considerations
A Economia na Pandemia Covid-19: Algumas Considerações
Rosa dos Ventos, vol. 12, núm. Esp.3, pp. 1-8, 2020
Universidade de Caxias do Sul
Recepção: 11 Junho 2020
Aprovação: 15 Junho 2020
Resumo: A economia brasileira e a mundial não chegaram em 2020 com crescimento econômico satisfatório, porém, havia fortes indícios que 2020 seria melhor que 2019. Mas, a pandemia de Covid-19 vem evidenciando o quão frágil fica a atividade econômica perante a necessidade de evitar a disparada da contaminação pelo vírus, tendo em vista que não existe nem vacina e nem uma medicação eficaz para recuperar as pessoas infectadas. Portanto, o objetivo deste artigo é fazer algumas considerações a respeito dos impactos na economia, sobretudo, na economia brasileira em tempos de pandemia. Conforme apurado, a atividade econômica está sendo fortemente impactada e, assim como a vida em sociedade, está se reinventando para sobreviver ao momento.
Palavras-chave: Turismo, Economia, Impactos Econômicos, Pandemia Covid-19.
Abstract: The Brazilian and world economy did not arrive in 2020 with satisfactory economic growth, but there was strong evidence that 2020 would be better than 2019. However, the Covid-19 pandemic has been showing how fragile economic activity is in the face of the need to avoid the surge in contamination by the virus, given that there is neither a vaccine nor an effective medication to recover infected people. Therefore, the purpose of this article is to make some considerations about the impacts on the economy, especially on the Brazilian economy in times of pandemic. As determined, economic activity is being strongly impacted and, like life in society, it is reinventing itself to survive the moment.
Keywords: Tourism, Economy, Economy Impacts, Pandemic Covid-19.
INTRODUÇÃO
A economia brasileira, assim como a mundial, chegou em 2020 em níveis pífios de atividade econômica. A China, o grande player mundial, vem reduzindo seu PIB a cada ano e tem ‘estacionado’ na casa de 6% a.a. Os Estados Unidos de Trump cresceram meros 2,3% em 2019 ante aos 2,9% de 2018. A Zona do Euro, por sua vez, também teve um PIB em 2019 bem abaixo de 2018 (1,1% contra 1,8%). Ainda assim, em termos de Brasil, havia uma projeção de um 2020 melhor que 2019, tendo em vista que a reforma da previdência foi aprovada, estava em análise uma reforma administrativa e um cenário positivo para o governo aprovar tal reforma, além de discussões em relação a uma reforma tributária. Estas reformas, no médio e longo prazo, visavam diminuir a dívida pública bem como encolher a máquina pública.
Mas, o vírus Covid-19 chegou como um furacão nas Américas, depois de fazer estragos na China e na Europa, sobretudo na Itália. Subestimados seus efeitos sobre os Sistema de Saúde e sobre a economia, ao chegar no Brasil adicionou um componente a mais para o seu potencial de destruição: o negacionismo do governo federal e de parte da sociedade. Em pleno século XXI, com a toda a tecnologia disponível e a super velocidade na proliferação das informações pelas redes sociais, não houve uma previsão correta dos impactos que o vírus poderia causar ao Brasil, nem sequer se a chegada aconteceria. Em dezembro, quando o Covid-19 já devastava a China, os governos deveriam ter se preparado para a sua iminente aterrissagem pela terra brasilis.
Feito este preâmbulo e dado que a preocupação com a possível pandemia, que por aqui começou apenas em fevereiro e quando muito provavelmente o vírus já estivesse entre nós, inclusive pulando Carnaval, as estratégias para conter a contaminação se resumiam ao isolamento social e a testagem em massa. Como a segunda opção não era viável do ponto de vista técnico e financeiro, a opção foi pelo isolamento social. Desta forma, este artigo objetiva evidenciar alguns números do impacto da pandemia Covid-19 na atividade econômica do local, no caso Caxias do Sul-RS de onde falo, ao internacional.
IMPACTOS NA ATIVIDADE ECONÔMICA
Com o isolamento social veio a queda brutal na atividade econômica. Apenas as atividades tidas como essenciais puderam continuar funcionando, leia-se supermercados, farmácias, postos de combustíveis e hospitais. Em um segundo momento, oficinas mecânicas e outras atividades foram sendo liberadas para funcionamento.

Conforme a Figura 1, a Secretaria Estadual da Fazenda do Rio Grane do Sul vem monitorando, através da emissão de nota fiscal eletrônica, o desempenho da atividade econômica no Estado do Rio Grande do Sul, desde o dia 16 de março do corrente ano. São informações semanais. Observa-se a queda brusca de todas as atividades econômicas até o início de abril. Após o dia 3 de abril, com algumas atividades liberadas com restrições, a queda é interrompida, mas o crescimento continua negativo. Do início do monitoramento até agora [segunda semana de junho], apenas o setor do atacado conseguiu crescimento positivo, embora tenha perdido força nas últimas semanas. Pode-se inferir que houve a compra no atacado, mas o varejo não está conseguindo vender os produtos e, portanto, parou ou reduziu as compras nesse momento.
No setor industrial, tudo aquilo que não é alimento, produtos de higiene ou que estejam diretamente relacionados a eles, evidenciam-se perdas importantes, como se pode observar na Figura 2.

Destacam-se as perdas do setor coureiro-calçadista, do setor de veículos e o de metalurgia por registrarem as maiores quedas no faturamento. Caxias do Sul e região têm uma indústria forte exatamente na área de metalurgia e mecânica, bastante voltada para o segmento automotivo. Em uma pesquisa realizada pelo Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul [Simecs], os números corroboram com os dados estaduais. Cabe ressaltar que a pesquisa remete a indústrias de Caxias do Sul e de outros municípios da região da região turística Serra Gaúcha que fazem parte do referido Sindicato.
Mais de 80% dos respondentes [254 entrevistadas] são indústrias micro e pequenas, o que traduz mais ou menos o percentual do porte das empresas do Estado do Rio Grande do Sul. Em relação ao impacto na demanda, 75% responderam que a queda foi intensa e 9% que houve apenas queda. Apenas 1% respondeu que teve aumento na demanda. Em 51% delas houve a manutenção do quadro de funcionários. Entretanto, segundo os números do Cadastro de Emprego e Desemprego [Caged], do governo federal, somente em Caxias do Sul, no mês de abril, houve 5.098 demissões, sendo que a imensa maioria estava na indústria, seguida pelo setor de serviços e depois pelo comércio.

Dentro do esperado, os maiores impactos elencados pelo setor industrial foram a queda no faturamento e o cancelamento de pedidos. Tem-se notícias de que antes da determinação do isolamento social, as empresas estavam com boa carteira de pedidos.
Embora a cidade de Caxias do Sul e região tenha na indústria uma base muito forte de sua atividade econômica, o turismo vem ganhando posições e se destacando não tanto na cidade, mas em municípios limítrofes e próximos, inseridos na região turística Serra Gaúcha. No entanto, o setor do turismo e o da economia criativa são os que mais estão sofrendo os impactos da crise Covid-19. E, provavelmente, serão os últimos a voltarem a ‘normalidade’. Somente nos primeiros 15 dias de março, o setor de turismo brasileiro acumulou perdas de aproximadamente R$ 2,2 bilhões, o que significa um recuo de 16,7%, além de afetar mais de 100 mil empregos no Brasil, segundo Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC, 2020).
Ao comparar os números do volume e da receita do setor de turismo de março (completo) deste ano com o mesmo período do ano passado, as perdas registradas são de mais de 30%. (IBGE, 2020)
Tendo em vista a tendência de aglomeração nos serviços oferecidos pelo setor de turismo, como transporte, seja aéreo, rodoviário ou marítimo, seja em parques, museus, teatros e outros, o setor sofreu uma queda muito forte e deverá demorar a conseguir se reestabelecer. De acordo com as projeções do Departamento de Economia do banco Bradesco (Depec, 2020), a estimativa de queda no PIB do Brasil é -5,9%, resultado da queda da atividade econômica, sobretudo no setor de serviços, que guarda proximidade e participação no setor de turismo. Além das restrições previstas em função da pandemia, o setor de turismo também sofrerá com a queda da renda dos brasileiros. Isto porque registra-se uma taxa de desemprego de mais de 12%, um contingente de empresas que reduziram os salários dos seus funcionários pela metade e, ainda, o aumento da inadimplência. Todas estas informações somadas afetam a demanda por turismo.
Segundo Deustche Welle (2020), a Organização Mundial do Turismo estima que o turismo tenha uma queda de 80% no mundo por conta do Covid-19. Isto porque, boa parte dessa queda está atrelada a redução no transporte aéreo e na redução dos serviços inerentes ao setor, como os meios de hospedagem e alimentação. Com a chegada do verão no hemisfério Norte e as fronteiras europeias ainda fechadas, a queda nos pacotes de viagens deve chegar a 70% na Alemanha, segundo estimativas da Associação das Agências de Viagens. Já a Comissão Europeia afirma que os mais afetados serão os cruzeiros marítimos, com uma queda de 90%. Há que se registrar que o setor de turismo representa 10% do PIB da União Europeia e, em alguns países como Grécia e Malta, o percentual pode ficar entre 20 e 25%. (Portal G1, 2020).
Embora a queda no Brasil ainda não tenha sido divulgada [até o momento] sabe-se que novos comportamentos em relação ao turismo, tanto internamente quanto no exterior, sofrerão alteração. Uma das questões diz respeito ao destino a ser escolhido tão logo seja permitido. Para Lenora Schneider, que está à frente da Associação Brasileira de Turismólogos e Profissionais do Turismo, as pessoas devem trocar as viagens internacionais por viagens nacionais e locais, ou seja, percorrer distâncias menores (Oliveira, 2010). Aliás, essa deve ser a tônica da economia como um todo, a da volta da força da economia local em detrimento das importações. A tendência é produzir localmente e consumir localmente. A Pandemia expôs a excessiva dependência de produtos importados que outrora eram produzidos em solo nacional, muitas vezes. Mas, na busca por competitividade, acabaram tendo sua produção transferida para países cujos fatores de produção são mais baratos como China e outros países asiáticos. Com o turismo deve acontecer o mesmo, o que poderá ser a redenção do setor nacionalmente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Se existem lições a serem deixadas por esta pandemia Covid-19, gostaria de destacar duas. A primeira delas diz respeito à solidariedade não só dos brasileiros, mas também mundo afora. Uma corrente do bem procurou ajudar os mais necessitados, incluindo aí pequenos negócios. Talvez nunca antes tenha se visto um movimento como este.
A segunda lição diz respeito à necessidade de se reinventar. Isto vale para os indivíduos e para as empresas. O novo comportamento vai ditar o ‘novo normal’. Temos que usar máscaras, higienizar as mãos a todo o momento e nos manter em distância mínima, além de, claro, evitar aglomerações.
Pois bem, dadas estas premissas, a nova vida em sociedade está mudando, e as empresas terão que repensar seus produtos e serviços nesta nova vida. O mundo virtual tem sido o grande destaque nesse processo. Tudo, absolutamente quase tudo, está sendo realizado on line. Entender como meu negócio pode se beneficiar dessa onda é uma questão de sobrevivência e vale para todos os segmentos da economia, inclusive o turismo.
REFERÊNCIAS
Banco Bradesco, Departamento de Economia – DEPEC (2020). Economia em Dia. Link
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo – CNC (2020). Setor de turismo é afetado por pandemia e recua 16,7% na primeira quinzena de março. Brasília: EBC. Link
Deustche Welle (2020). Queda do turismo global devido a pandemia pode chegar a 80%. Link
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Link
Portal G1 Globo (2020). Setor de turismo convive com a incerteza em meio a pandemia. Link
Oliveira, R. (2020). Qual será o futuro do turismo após a pandemia de Coronavírus. Metrópoles. Link
Estado do Rio Grande do Sul, Secretaria da Fazenda - SEFAZ (2020). Boletim Semanal Receia Estadual. Impactos do Covid-19, Edição 10. Link
Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias Do Sul -SIMECS (2020). Link