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Angra do Heroísmo, Açores, Portugal. Cidade Património Mundial: Um Convite ao Turismo Cultural

Angra do Heroísmo, Azores, Portugal. World Heritage City: An invitation to Cultural Tourism

SUSANA SERPA SILVA
Universidade dos Açores, Portugal

Angra do Heroísmo, Açores, Portugal. Cidade Património Mundial: Um Convite ao Turismo Cultural

Rosa dos Ventos, vol. 13, núm. 2, pp. 434-459, 2021

Universidade de Caxias do Sul

Recepción: 02 Enero 2020

Aprobación: 25 Septiembre 2020

Resumo: A cidade de Angra, cujo nome deriva da pequena enseada [angra] que lhe serve de porto, é a mais antiga do arquipélago dos Açores, Portugal. Situa-se na costa sul da ilha Terceira e foi elevada a esta categoria por carta de D. João III, de 21 de Agosto de 1534. Desde logo, avultou a importância do seu porto para a navegação atlântica e enquanto escala da designada Carreira da Índia, levando o cronista Gaspar Frutuoso, por finais de quinhentos, a classificá-la como a ‘Ocidental escala do Mar Oceano’. A par de um significativo papel na História do Atlântico, a cidade teve ainda uma parte ativa na História de Portugal. Quando a 1º de janeiro de 1980 foi abalada por um violento terramoto. No processo de reconstrução manteve-se o rigoroso traçado ortogonal das ruas e procurou-se preservar a riqueza das suas edificações. Reconhecendo o valor do conjunto arquitetónico do centro histórico da cidade e o seu sítio como muito relevante para a história da expansão dos impérios europeus, em 1984, a Unesco classificou Angra do Heroísmo como Património da Humanidade. Atendendo a esta classificação, pretende-se, com este trabalho, contribuir para o conhecimento da cidade, não só pelo seu significado histórico-patrimonial, mas como um destino de eleição para o Turismo Cultural, que é desejável desenvolver, nos Açores, como complemento do Turismo de Natureza.

Palavras-chave: Turismo Cultural, História, Património Unesco, Angra do Heroísmo, Açores, Portugal.

Abstract: The city of Angra, whose name derives from the small cove that serves as its port, is the oldest one in the Azores Archipelago, Portugal. It is located on the southern coast of Terceira Island and has this category by letter of D. João III of 21st August 1534. From the beginning, the importance of its port for the Atlantic navigation and as a scale of the designated India’s Career led chronicler Gaspar Frutuoso, by the end of the 16th century, to call it the ‘Western Ocean Sea Scale’. Alongside a significant role in the Atlantic History, the city also played an active part in the History of Portugal. On January, 1st, 1980 it was shaken by a violent earthquake. In the process of reconstruction, the strict orthogonal layout of the streets was maintained and the richness of its buildings was preserved. Recognizing the value of the architectural complex of this historic city center and its site as very relevant to the History of European empires, in 1984 UNESCO classified Angra do Heroísmo as a World Heritage City. Given this classification, it intended, with this work, to contribute to the knowledge of the city, not only for its historical-heritage significance, but also as a destination for Cultural Tourism, which is desirable to develop, in the Azores, as a complement of Nature Tourism.

Keywords: Cultural Tourism, History, Heritage, Unesco, Angra do Heroísmo, Azores, Portugal.

INTRODUÇÃO

A cidade de Angra, cujo nome deriva da pequena enseada que lhe serve de porto, é a mais antiga do Arquipélago dos Açores. Situa-se na costa sul da ilha Terceira e foi elevada a esta categoria por carta de D. João III, datada de 21 de agosto de 1534. Em novembro deste mesmo ano, passou a sede de bispado, avultando a importância do seu porto para a navegação atlântica e enquanto escala da designada Carreira da Índia. Tudo isto motivou o crescimento da malha urbana e a construção de um sistema defensivo que teve início com o Castelo de São Sebastião e que culminou, no período do domínio filipino, com a Fortaleza de São Filipe [mais tarde designada de São João Batista]. Por finais do século XVI, o cronista Gaspar Frutuoso (1978, IV) classificava Angra como a ‘Ocidental escala do Mar Oceano’, onde, desde início da centúria, se instalara a Provedoria das Armadas. Às naus portuguesas, repletas de especiarias, vieram juntar-se os galeões espanhóis que, carregados de ouro e de prata, percorriam a rota que vinha de Cartagena das Índias, com destino a Sevilha, passando por Porto Rico e Angra (Monjardino, 1999).

A par de um significativo papel na história do Atlântico, a cidade teve ainda uma parte ativa na história de Portugal. A resistência e expulsão dos espanhóis valeram-lhe o título de ‘Sempre Leal Cidade’, atribuído por D. João IV. Em 1766, o ministro de D. José tornou-a sede da Capitania Geral dos Açores, capital da respetiva província, e no período das lutas liberais, Angra foi protagonista da resistência a D. Miguel, acolhendo a Regência e o primeiro Ministério Liberal, que trouxeram, aos Açores, a elite apoiante de D. Maria da Glória e o próprio D. Pedro. Por decreto de 12 de janeiro de 1837 recebeu o título de ‘Mui nobre, leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo’, sendo ainda condecorada com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada.

A 1º de janeiro de 1980, um violento terramoto destruiu, parcialmente, o património edificado de Angra mas, apesar das perdas, a cidade foi reconstruída e estendeu-se por novos bairros. Manteve-se o rigoroso traçado ortogonal das ruas, o ritmo das fachadas, a riqueza das suas igrejas, conventos e misericórdia. Reconhecendo o valor do conjunto arquitetónico do centro histórico da cidade e o seu sítio, como muito relevante para a história da expansão dos impérios europeus, em 1984 a Unesco classificou Angra do Heroísmo como Património da Humanidade. Como se pode ler no respectivo site: “The port of Angra is also the eminent example of a creation linked to the maritime world: It is directly and tangibly associated with a development of a universal historic significance, the maritime exploration that allowed exchanges between the world’s great civilizations” (Unesco, s.d.)

Atendendo à história e ao património de Angra do Heroísmo, este pequeno trabalho procura contribuir para o conhecimento e divulgação da cidade Património Mundial, situada no Arquipélago dos Açores, não só pelo seu papel e significado, mas como um destino de eleição para o Turismo Cultural que é urgente e desejável desenvolver, nestas ilhas, como complemento do Turismo de Natureza. Na atual conjuntura, a importância assumida pela atividade turística, como setor exportador, transformou-a num empreendimento estratégico dominante, bem como numa das áreas consideradas prioritárias entre as políticas públicas de desenvolvimento regional e nacional. Todavia, a vertente histórico-cultural nem sempre tem sido devidamente considerada no que toca ao arquipélago dos Açores, que oferecem muitos séculos de história e um relevante património, plasmado numa panóplia de conjuntos, sítios, monumentos e tradições.

Esta realidade incentiva e aconselha a uma maior atenção para com os centros urbanos insulares, e os seus atrativos, na certeza de que o segmento do Turismo Cultural é uma vertente indissociável do turismo sustentável, que precisa ser aprofundada e consolidada, na senda da ampliação e diversificação da oferta turística açoriana. O reconhecimento, nos anos 1960 pela Comissão Europeia de Turismo, de que as paisagens, monumentos, cidades e costumes constituíam um grande capital turístico, marca um primeiro passo no sentido da afirmação do Turismo Cultural. Foi, porém, desde os princípios dos anos 1980, que se desenrolou uma nova fase na área do Turismo, precisamente com a consolidação de uma tendência de inclusão da cultura na construção dos produtos turísticos, de modo a inovar a experiências vividas (Silveira, 2011). Segundo Craik (1997), o Turismo Cultural consiste em passeios ou excursões “organizadas com o intuito de conhecer outras culturas e lugares, aprendendo sobre os hábitos quotidianos da população local, sobre a história, sobre o património e sobre as manifestações artísticas que reflectem o contexto cultural e histórico de um destino turístico em específico” (p. 121).

O conceito de Turismo Cultural encontra-se expresso na Carta Internacional do Turismo Cultural publicada pelo Icomos (1999a), na cidade do México, em outubro de 1999. Este documento fulcral sublinha a relevância do património – que abrange paisagens, locais históricos, sítios e ambientes construídos, bem como a biodiversidade, coleções, práticas culturais passadas e continuadas, conhecimentos e experiências vividas, registando e exprimindo o longo processo do desenvolvimento histórico — que urge proteger, conservar e interpretar para memória e usufruto da comunidade e dos que a visitam. Logo, o património histórico é uma parte integrante da vida moderna, sendo, em simultâneo, um elemento diferenciador no mundo globalizado e um elemento identificador das sociedades locais ou regionais, em relação às quais muitos turistas sentem, cada vez mais, curiosidade e vontade de conhecer.

Importa, pois, aprofundar o binómio Turismo - Cultura, aproveitando os múltiplos e importantes recursos culturais como produtos turísticos, motivando o incremento de distintos nichos de mercado, com elevado valor acrescentado, desde logo, sensibilizando os profissionais do setor e disponibilizando informação, de qualidade, a quem visita as ilhas dos Açores. Como refere o documento do Icomos (1999a), a que acabámos de aludir,

[...] o turismo doméstico e internacional continua a estar entre os veículos mais importantes para as trocas culturais, proporcionando uma experiência pessoal, não só sobre aquilo que sobreviveu do passado, mas sobre a vida e a sociedade contemporânea dos outros. Ele é crescentemente apreciado como sendo uma força positiva para a conservação natural e cultural. O turismo pode capturar as características económicas do património e dedicá-las à conservação, gerando fundos, educando a comunidade e influenciando a política. É uma parte essencial de muitas economias nacionais e regionais, e pode ser um importante factor no desenvolvimento, quando gerido com sucesso. O próprio turismo tornou-se num fenómeno crescentemente complexo, com dimensões políticas, económicas, sociais, culturais, educacionais, biofísicas, ecológicas e estéticas (p. 2).

De acordo com a Carta de Burra, promulgada pelo Icomos (1999b) da Austrália, em 1999, os sítios enriquecem a vida das pessoas, proporcionando, muitas vezes, um profundo e inspirador sentido de ligação à comunidade e à paisagem, ao passado e às experiências vividas. São registos históricos que se tornam importantes como expressões tangíveis da identidade e da experiência local. Os sítios com significado cultural refletem a diversidade das nossas comunidades, dizendo-nos quem somos e qual foi o nosso passado. Eles são insubstituíveis e preciosos e devem ser conservados para as gerações actual e futuras, assim como para os turistas que procuram a essência dos lugares que visitam e a alma das populações com que vão contactar.

Em 2005, a Organização Mundial do Turismo, em conjunto com a European Travel Commission, definiu o Turismo Cultural como “o movimento de pessoas para as atrações culturais em cidades de países diferentes do seu local de residência habitual, com a intenção de obter novas informações e experiências ou para satisfazer as suas necessidades culturais” (Rodrigues, 2018, p. 66). Também para Silberberg (1995), este tipo de Turismo “são as visitas feitas por pessoas de fora da comunidade, motivadas, totalmente ou em parte, pelo interesse do património histórico” (cit. por Rodrigues, 2018, p. 66). Estas definições realçam a importância da cidade enquanto destino do turismo cultural que, por seu turno, é indissociável da história e do património, seja relacionado com artefactos e arte, seja relacionado com tradições e costumes.

Sendo certo que todas as cidades são históricas, atendendo ao percurso da sua existência, há cidades que, para além das suas edificações, do seu traçado urbanístico, dos seus bens e equipamentos culturais — com maior ou menor poder de atração para quem as visita — apresentam, ainda, um “valor histórico e universal” que contribui “para o conhecimento e a compreensão do processo de uma civilização” (Marujo, Serra & Borges, 2013, p. 2), chamando, por isso, a atenção dos organismos internacionais.

No Arquipélago dos Açores (Portugal), a cidade de Angra do Heroísmo é um exemplo de um sítio com um forte simbolismo histórico-patrimonial, que espelha e conserva os vestígios do passado correlacionados e interdependentes dos ambientes culturais e humanos. Para quem viaja até ao arquipélago e tem interesse em aprofundar o conhecimento do papel destas ilhas nas dinâmicas históricas do Atlântico e procura saber mais sobre a História dos Açores deverá visitar a cidade de Angra do Heroísmo, património mundial da Unesco e destino privilegiado de Turismo Cultural.

BREVE HISTÓRIA DE UMA CIDADE HISTÓRICA

A fundação da localidade de Angra, na segunda metade do século XV, mais propriamente por volta de 1460, deve-se à fixação de dois grupos de povoadores, o primeiro, chefiado por Álvaro Merens, que terá feito uma ‘tomada de terras’ na zona leste [onde viria a nascer o bairro do Corpo Santo e o Porto das Pipas] e o segundo, chefiado por Álvaro Martins Homem que, vindo a mando de D. Fernando, segundo donatário das ilhas, tinha poderes de capitão e se fixou na zona do Outeiro, tomando medidas de cariz público (Reis Leite, 2014). Apesar dos desafios impostos pelo relevo acidentado, Martins Homem percebeu a importância do porto natural, “pequeno mas profundo, que era o mais abrigado dos Açores de então [...]” (Monjardino, 2005, p. 9) e aproveitou a abundância de águas doces — em especial, a existência de uma caudalosa ribeira que avolumavam os atrativos do lugar. Além da construção de uma levada para condução das águas, mandou edificar moinhos e alcaçarias. Na zona do Outeiro [Alto do Morro] foi construída a primeira fortaleza, o designado Castelo de São Luís ou de São Cristóvão, popularmente conhecido como Castelo dos Moinhos (Monjardino, 2005). De acordo com Antonieta Reis Leite, esta obra, de abrigo e vigia, hoje desaparecida, terá sido concluída antes de 1495, constituindo um espaço estrategicamente privilegiado e com características defensivas intrínsecas ao lugar onde foi erguido (Leite, 2014).

O ano de 1474 foi de enorme importância para o povoamento e administração da Terceira, uma vez que, sob o poder da donatária D. Beatriz [na menoridade de seu filho, D. Diogo], foi formalizada a divisão da ilha em duas capitanias: a da Praia, entregue a Álvaro Martins Homem, e a de Angra, que ficou a cargo de um fidalgo da casa do duque donatário, de seu nome João Vaz Corte-Real (Reis Leite, 2014). Daqui, nasceram as duas vilas homónimas, pelo que a fundação da então vila de Angra, bem como o seu desenvolvimento, se devem ao capitão Corte-Real. Sob sua administração resultou a organização da câmara, a fundação do convento dos Franciscanos, a implantação do porto, a construção da casa dos donatários, alguns dos arruamentos principais e a criação da Misericórdia, com o seu hospital do Santo Espírito (Reis Leite, 2014). A 15 de março de 1492 a irmandade, sob os moldes da confraria de Lisboa, inaugurou este hospital que viria a desempenhar um relevante papel no auxílio às tripulações e navegadores que desbravavam as longínquas rotas do mar oceano.

Ao longo do século XVI o crescimento demográfico seria uma realidade, aumentando também os arruamentos e a urbanização até à zona do convento de S. Gonçalo, que viria a ser fundado em 1532. A malha ou retícula urbana de Angra resultou de um programa fundacional, que se estruturou em quarteirões, acrescidos de bairros periféricos, como o Outeiro, Santa Luzia e São Pedro. No coração da cidade, ficaram os bairros da Sé de São Salvador, da Conceição e Corpo Santo, repletos de casario ritmado e distendidos em redor da baía (Reis Leite, 2014).

Em 1499, a armada de Vasco da Gama, no regresso da Índia, aportou à baía de Angra, acabando o irmão do navegador, Paulo da Gama, por ficar sepultado na cidade. Na consequência da reconhecida importância deste porto e da sua alfândega, caberia a D. Manuel, o Venturoso, ordenar que todas as naus da Índia procurassem ‘abrigo e aguada’ apenas em Angra, confirmando, assim, o papel de escala, desta vila, na dura e longa viagem de regresso do Oriente. Ademais, os próprios condicionalismos geográficos e as correntes marítimas assim o determinavam (Reis Leite, 2014).

Pouco depois, já com o rei D. João III, veio a ser instituída a Provedoria das Armadas e Naus da Índia, símbolo do papel basilar desta baía, quer para as embarcações regressadas do Oriente, quer das naus e galeões provenientes da América do Sul. O Provedor encarregava-se de dar apoio às frotas e procurava garantir a segurança das mercadorias, atentas as inúmeras riquezas que por aqui passavam, despertando práticas de contrabando e a cobiça dos piratas e corsários. Como afirma José Guilherme Reis Leite (2014):

A politica da organização do Império ultramarino delineada e seguida por D. João III reservou a Angra um papel importante e contribuiu para o seu engrandecimento. Começou por ser elevada a vila a cidade, em agosto de 1534 e em novembro do mesmo ano transformou a sua Igreja de S. Salvador em Sé de um novo bispo, o bispo e a diocese de Angra integrada numa nova rede ultramarina de dioceses que iam do Funchal a Goa (p. 17).

Assim, na qualidade de sede da diocese e enquanto residência do Corregedor das ilhas e do Provedor da Fazenda, a cidade de Angra afirmava-se e crescia “com ruas largas e regulares, o seu pelourinho, a sua praça, a sua câmara e um eixo transversal, de leste a oeste, do Alto da Conceição ao Alto das Covas e antepara protectora dos ventos que eram as casas de São Gonçalo” (Monjardino, 2005, p. 11). No contexto das colonizações ultramarinas e, no que se reporta às ilhas dos Açores, Angra tornou-se, desde muito cedo, num centro administrativo, logo à cabeça da respetiva capitania e, em seguida, com marcada capitalidade sobre toda a ilha Terceira e o próprio arquipélago (Reis Leite, 2014).

A partir de quinhentos, o movimento portuário e a navegação inimiga no Atlântico, obrigaram a repensar a defesa da frente marítima da cidade. Surgiram os muros e portas do cais, junto à alfandega e à Prainha, iniciando-se diligências para a edificação de novas fortificações (Reis Leite, 2014). Desde 1570, ano em que se iniciou a construção da catedral, o Castelo de S. Sebastião [vulgo Castelinho guardava a vertente oriental da baía, mas a nova e imensa fortaleza filipina veio reforçar a segurança do porto, marcando, profundamente, a fisionomia do Monte Brasil e do flanco ocidental da baía, no desempenho do seu papel de “sentinela da cidade” (Monjardino, 2015, p. 28).

Na sequência da crise dinástica de 1580 e da decisão dos angrenses em apoiarem a causa de D. António, Prior do Crato, resistindo contra os espanhóis, veio a concretizar-se a construção do Forte de Santo António, na ponta do Monte Brasil. Após uma bem sucedida resistência, com a vitória de D. António e dos terceirenses sobre os espanhóis, na Batalha da Salga, de 1582, a ocupação inimiga acabou por realizar-se. A cidade, conquistada pelo Marquês de Santa Cruz, conheceu um governo ditatorial e muita violência, mas devido ao seu relevante papel no Atlântico, viu reforçado o seu sistema defensivo com a construção da imensa Fortaleza de S. Filipe, rebatizada de S. João Batista, após a Restauração da independência portuguesa (Fernandes, 1995).

Por esta altura, mais propriamente em 1595, o holandês Linschoten desenhou o primeiro ‘retrato da cidade’, uma minuciosa planta com os bairros marítimos [S. Pedro e Corpo Santo], as freguesias [Sé, Conceição, S. Pedro, S. Bento e Santa Luzia], o traçado, em esquadria, das ruas, a partir de um eixo central formado entre a Praça e o Alto das Covas [Rua da Sé], bem como as principais edificações: os castelos, os conventos, as igrejas e o primeiro Colégio dos Jesuítas. Esta Companhia, vinda para Angra em 1572, primeiro favorecida por D. Sebastião e depois por Filipe II, tornou-se muito influente no ensino e construiu um novo colégio, no centro da cidade, em 1608, junto com a Igreja de Santo Inácio, edifício que ainda hoje se destaca no panorama urbano (Fernandes, 1995).

Dois anos após a restauração, em 1642, Angra conquistou notoriedade no panorama nacional, ganhando os títulos de Mui Nobre e Leal Cidade, em virtude dos angrenses, guiados pelos capitães-mores da Praia e de Angra, Francisco Ornelas da Câmara e João de Bettencourt, respetivamente, terem encurralado o governador espanhol no castelo, conseguindo conquistá-lo, sem ajudas externas. Doravante, a cidade passou a ser governada pela aristocracia local. Ao longo do século XVII, os Franciscanos, um tanto ofuscados pelos Jesuítas, decidiram reedificar o seu convento, construindo uma grande igreja dedicada a Nossa Senhora da Guia [bem visível da parte baixa da urbe] e a Misericórdia — relevante e simbólica instituição — levou por diante a construção da sua nova e grandiosa igreja, cuja fachada ficou virada e sobranceira à baía de Angra.

Como refere José Guilherme Reis Leite (2014), as cinco igrejas da Sé, Conceição, do Colégio dos Jesuítas, do convento de S. Francisco e da Misericórdia, “deram à cidade a sua marca de monumentalidade e tornaram-se simbolicamente indissociáveis de Angra, sede do bispado e posto avançado da reforma católica no Atlântico” (p. 23). Esta rede completava-se com os mosteiros das Clarissas, em especial o de S. Gonçalo, fundado em 1532, ampliado no século XVII e que ainda existe nos nossos dias. Apenas no século XVIII viria a declinar o esplendor religioso, desde logo, com a expulsão dos Jesuítas, em 1760.

Gradualmente, o fim da função de escala e o termo do monopólio marítimo por parte dos portugueses levou a que Angra fosse perdendo a sua fisionomia defensiva, bem como a sua proeminência atlântica. No século XVIII, os efeitos do terramoto de Lisboa, de 1755, e do tsunami por este causado, fizeram desaparecer a porta do cais, então substituída pelo Pátio da Alfândega e sua escadaria [obra do engenheiro militar, José António Júdice]. Por iniciativa do Marquês de Pombal, então ministro de D. José e na esteira de uma politica centralista, foi instituída a Capitania Geral dos Açores, com sede nesta cidade da ilha Terceira e que viria a perdurar entre 1766 e 1832 (Reis Leite, 2014). Angra torna-se na capital dos Açores e quase de imediato, a casa dos Jesuítas foi transformada em palácio para moradia e expediente dos sucessivos capitães-generais.

No século XIX, as lutas liberais voltaram a destacar a cidade de Angra, pois a ilha Terceira tornou-se o último reduto do regime constitucional, recebendo a Regência e, mais tarde, o Ministério Liberal instituído por D. Pedro I, do Brasil e IV de Portugal. O triunfo do liberalismo e a reviravolta propiciada pela Guerra Civil motivaram alterações profundas no património edificado da então cidade de Angra do Heroísmo. Tal como sucedeu noutras cidades do arquipélago, assistiu-se à profanização de muitos edifícios religiosos, em especial, conventos, que assumem novas e diferenciadas valências: de hospitais a cadeias, de asilos a instituições de ensino. No espaço de cercas conventuais, construiu-se o novo jardim da urbe ­­— Jardim Duque da Terceira — e, para além dos mercados e inúmeras lojas, que vieram testemunhar um novo tecido social e económico mais aburguesado, emergiu o novo edifício dos Paços do Concelho, de traça neoclássica, em substituição da antiga Câmara seiscentista com o seu alpendre, escadaria e torre sineira.

Como marco das inovações resultantes do triunfo liberal, no morro do antigo e esquecido Castelo dos Moinhos, foi erguido um obelisco em honra de D. Pedro, no ainda hoje conhecido Alto da Memória. É o testemunho, em pedra, da ‘Mui Nobre, Leal e Sempre Constante Angra do Heroísmo’ - a Angra Liberal - que há muito ia assistindo à perda de importância do seu porto e baía, quer devido ao declínio do Império do Oriente e consequente alteração das rotas marítimas, quer na sequência do crescimento da cidade de Ponta Delgada e respetiva doca, quer ainda na esteira da construção do porto da Praia da Vitória. Ficou, para sempre, o papel desempenhado pela histórica Angra na empresa dos descobrimentos, a primeira grande e revolucionária experiência mundial de globalização. Assim o entenderam os peritos da Unesco que visitaram a cidade após o terramoto de 1 de janeiro de 1980 (Fernandes, 1995).

ANGRA DO HEROÍSMO: CIDADE PATRIMÓNIO MUNDIAL DA UNESCO

O forte sismo que abalou as ilhas da Terceira, Graciosa e S. Jorge, afetou, profundamente, a cidade de Angra, cujo centro histórico ficou repleto de escombros. A tarefa de recuperação foi árdua, pelo que foi criado um Gabinete de Apoio à Reconstrução, “com larga capacidade executória e em coordenação com os serviços e entidades oficiais [governamentais e municipais]” (Maduro-Dias, 1996, p. 39), que deu apoio, forneceu materiais, coordenou as atividades e fiscalizou as obras. Por outro lado, a Direção-Geral do Planeamento Urbanístico efetuou um levantamento que veio a revelar-se fundamental, fachada a fachada, dentro dos limites do centro histórico, que, à data do sismo, se encontrava protegido por dois diplomas legais: o Decreto Legislativo Regional nº 20/1979/A, que definia as formas de proteção do Património Cultural na Região Autónoma, em especial o edificado e o Decreto legislativo nº 3/1980/A, que criou a Paisagem Protegida do Monte Brasil, incluindo toda a zona urbana do poente. Seguiram-se várias resoluções que incidiram na proteção do Património Arquitetónico, elaboradas pelo Governo Regional dos Açores que igualmente determinaria as normas a que deviam obedecer as obras de reconstrução (Maduro-Dias, 1996).

Assim, a resiliência e vontade das autoridades e populações fizeram reerguer este centro urbano, com respeito e fidelidade pela traça tradicional, o que, sem ser o motivo principal, concorreu para a integração do centro histórico — a designada Zona Classificada [Figura 1] — na Lista do Património Mundial da Unesco. Corria o ano de 1983, da catástrofe natural, a cidade reergueu-se e ficou no centro das atenções mundiais. Não obstante, o principal motivo que levou à sua classificação foi o lugar que esta ocupou no âmbito da expansão portuguesa e europeia no mundo e sobre as águas do Atlântico.

Planta de Angra do Heroísmo
Figura 1
Planta de Angra do Heroísmo
Unesco (s.d.). A zona central, classificada, delimitada a negro, está assinalada a rosa e a verde, a reserva paisagística.

Como refere Reis Leite (2014), esta cidade notável é “um elo na compreensão e interpretação da Expansão Europeia pelo mundo, na aproximação dos povos e culturas e na primeira globalização, ao ponto de ser classificada pela Unesco como Património da Humanidade” (p. 11). Dois critérios fundamentais sustentaram a classificação do centro histórico da cidade: o papel central do porto de Angra, como paragem obrigatória das frotas que regressavam de África e da Índia, que fizeram desta urbe um exemplo marcante de ponto de ligação marítima à escala mundial e na rede das grandes explorações ultramarinas; a associação da cidade a um acontecimento histórico universal de grande alcance e significado, isto é, a expansão oceânica que permitiu contactos e trocas entre as grandes civilizações mundiais. Deste modo, Angra do Heroísmo ficou equiparada à Torre de Belém e ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, e a Goa, na Índia, cujas igrejas e conventos são considerados igualmente Património Mundial da Unesco. De acordo com Francisco Maduro-Dias (1996), a votação favorável por parte do Comité do Património Mundial representou uma mudança significativa e relevante na aplicação dos critérios de classificação deste organismo, “onde até então a beleza e a arquitetura tinham imperado, o fator histórico aumentou de importância” (p. 41).

As primeiras cidades classificadas como Património da Humanidade foram Cracóvia e Quito, em 1978, mas por volta de 2010, já eram mais de uma centena. Entre elas encontramos ‘cidades mortas’, que são símbolos de antigas culturas, como é o caso de Pompeia, e cidades vivas. No geral, distribuem-se, preferencialmente, pela Europa e América, sendo que a Península Ibérica é uma das zonas do mundo onde mais cidades foram declaradas Património da Humanidade (Pérez, 2009).

No tocante a Portugal, a integridade e a autenticidade foram [e são] os selos de garantia para a definição da Zona Classificada de Angra do Heroísmo. Dentro dos limites de 212,40 hectares estão localizados todos os elementos necessários para expressar o “Valor Universal Excepcional da Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo, nos Açores, incluindo o sítio abrigado, o porto, o sistema defensivo de fortificações, o plano urbano, a arquitetura religiosa monumental e a arquitetura vernacular característica” (Unesco, s/d.). O facto de Angra do Heroísmo ter perdido, há mais de três séculos, o seu papel como encruzilhada marítima internacional afetou, em muitos aspectos, o seu desenvolvimento e expansão, mas por outro lado, permitiu preservar o seu plano urbanístico e o conjunto homogéneo de edifícios civis e religiosos, bem como as suas imponentes fortalezas que, num quadro de maior dinamismo e crescimento económico e urbano, poderiam ter sido perdidos irremediavelmente. Embora não exista atualmente nenhuma zona tampão, reconhece-se que a propriedade não tem sofrido efeitos adversos de desenvolvimento e/ou negligência (Unesco, s/d.).

A Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo, nos Açores, apesar do processo de reconstrução, mantém uma grande autenticidade, que vai desde a localização e configuração, às formas, desenhos e materiais utilizados. Foi substancialmente reparada e regenerada, conseguindo-se preservar a rede rodoviária dos séculos XV e XVI, bem como seus edifícios inventariados. A utilização de materiais e técnicas tradicionais de construção foi e é incentivada em projetos de reabilitação, sem prejuízo dos avanços tecnológicos. Naturalmente, existem ameaças e riscos, que estão identificados e que incluem as pressões do desenvolvimento, decorrentes da crescente densidade demográfica e possíveis desastres naturais, resultantes das condições geológicas e da própria morfologia da localização da cidade, simultaneamente vulcânica e tectónica.

Logo em 1984, para garantir a concretização dos objetivos da Unesco, foi promulgado o Decreto Legislativo Regional nº 15/1984/A [atualizado pelo Decreto nº 29/2004/A, de 21 de agosto] que classificou o centro histórico, maioritariamente privado, como Monumento Regional, criando um conjunto de regras que definiram a conservação e o futuro da designada zona central. Por este mesmo Decreto foi criado o Gabinete da Zona Classificada, que garantiu a vigilância e a cooperação da administração regional com a municipal (Maduro-Dias, 1996). Atualmente, a Zona Classificada é protegida pela Lei nº 107/2001, de 8 de setembro, que estabelece a base legal e o regime de protecção do património cultural.

Angra do Heroísmo recebeu também o estatuto de Monumento Nacional/Zona de Protecção Especial ao abrigo do Decreto Legislativo Regional nº 15/2004/A, de 6 de abril, que submete todos os instrumentos de planeamento ao Plano de Protecção e Valorização de Angra do Heroísmo. Através deste instrumento, cada edifício está sob a supervisão direta das respectivas autoridades quanto à sua preservação. Importa, pois, manter e aprimorar o Valor Universal Excepcional da propriedade, além de permitir que recursos contemporâneos sejam introduzidos na arquitetura do Angra de modo a que, cada geração, possa contribuir para o melhoramento e desenvolvimento de cidade (Unesco, s.d.)

As adulterações e incumprimentos podem levar a que qualquer bem seja excluído da lista da Unesco, embora as cidades declaradas possam pedir, a este organismo, assessoria técnica e ajudas para a formação de técnicos ou de carácter financeiro. Para que isto aconteça é necessário um parecer do Icomos e as ajudas materiais dependem do contributo do país para a própria Unesco. Alguns dos problemas fundamentais com os que estas cidades lidam são, em alguns casos, o excesso de dependência face ao turismo e, noutros, a conversão das mesmas em cidades-museu e centros unifuncionais. É preciso pensar que antes de serem cidades património da Humanidade são património dos seus residentes, e compatibilizar estes usos e perceções não é nada fácil (Pérez, 2009). No caso de Angra do Heroísmo, ainda que o turismo tenha vindo a registar um gradual aumento, até ao momento, não causa uma pressão excessiva sobre a cidade, que também não corresponde, propriamente, a uma cidade-museu. Importa manter um crescimento turístico sustentado, sendo que a maior pressão que se coloca sobre Angra é o perigo das catástrofes naturais, bem como o próprio desgaste proveniente das condições oceânicas. De resto, Angra apresenta-se - nas palavras de Maduro-Dias (1996) - como uma cidade da Época Moderna, “de aquém como de além-mar, onde se cruzam os caminhos do Atlântico, onde a simbiose do Velho com o Novo Mundo é particularmente sensível” (p. 42).

NOTAS PARA ALGUNS ROTEIROS CULTURAIS DE ANGRA DO HEROÍSMO

De acordo com a Organização Mundial do Turismo e a Unesco, o Turismo Cultural, Natural e Patrimonial é o setor que apresenta o maior e mais célere crescimento, agregando movimentos das pessoas em busca de motivações essencialmente culturais, tais como excursões de estudo, teatralizações e excursões culturais, viagens para festivais e outros eventos culturais, visitas a localidades e monumentos, viagens para estudar a natureza, folclore ou arte e peregrinações. Este potencial de crescimento pode e deve aproveitar à cidade de Angra do Heroísmo, quer pelo seu papel histórico, quer pelo património edificado e cultural que o testemunham.

Se aos turistas, que a visitam, a cidade oferece uma experiência de conhecimento, aprendizagem e fruição nos campos da História, da Cultura e do Património, para Angra, o incremento do Turismo Cultural irá aportar crescimento económico e desenvolvimento sustentável do território, especialmente através da conservação e preservação das suas infraestruturas. Enquanto os turistas satisfazem as suas necessidades culturais, usufruindo dos espaços, dos eventos, do comércio e da gastronomia, a cidade vai criando “uma nova imagem e um novo simbolismo, assim como uma economia de serviços, atraindo capitais e investimentos externos ao mesmo tempo que se tenta contribuir para a coesão da comunidade” (Pérez, 2009, p. 294). Como refere Xerardo Pérez (2009), o turismo cultural urbano está associado aos três ‘R’: requalificação, reutilização e revalorização, o que contribui para a regeneração da própria cidade.

De acordo com Pahos, Stamos e Kicosev (2010), “Cultural tourism has become recognized as an important agent of economic and social change in Europe” (p. 88) e, no caso de Portugal, as rotas ligadas à cultura, desde a gastronomia ao património edificado, têm vindo a ganhar dinâmica própria, sendo fundamentais para a afirmação da identidade e da memória (Rodrigues, 2018). Citando uma obra publicada pela Câmara Municipal da cidade de Angra do Heroísmo: “Ao deambular por Angra encontram-se, a cada passo, palpáveis ainda hoje, testemunhos de um antes e um depois, como se, perante novos desafios e conhecendo novas soluções, os povos aqui chegados tivessem decidido que era tempo de mudar” (1996, p. 9).

De uma traça inicialmente medieval, Angra mostrou desde cedo sinais de modernidade: os arruamentos paralelos ou perpendiculares, à maneira renascentista; a ausência de muralhas, compensada pela edificação de duas grandes fortalezas; a abertura para o mar e a ligação directa ao porto, bem como a orientação da nova Sé que, ao invés dos moldes medievais que determinavam a orientação do altar-mór para Jerusalém, ficou com uma fachada na direção norte, paralelamente à rua principal (Maduro-Dias, 1996). Por isso, como afirma Antonieta Reis Leite, a urbe angrense é um caso de estudo especial e paradigmático no âmbito do urbanismo português, atraindo o olhar de arquitetos, geógrafos e de historiadores (Leite, 2014).

Percorrer o centro histórico de Angra significa, pois, admirar e fruir de um conjunto edificado que abraça o casario tradicional a par da imponência de monumentos religiosos e civis, repletos de história e de simbolismo. Aqui ficam algumas sugestões, de modo algum exaustivas, de possíveis roteiros culturais de Angra.

PARA UM ROTEIRO DE ANGRA DOS DESCOBRIMENTOS À ÉPOCA DA CAPITANIA-GERAL

Segundo José Manuel Fernandes (2008a), a arquitetura erudita de Angra, inserida no conjunto do Arquipélago, “enquadra-se em termos mais gerais nas formas do ‘mundo Atlântico e insular’, com ramificações estilísticas que podem chegar ao Brasil, às Canárias ou à Península, sem deixar porém de depender profundamente da evolução específica da arquitetura portuguesa” (p. 60). A uma fase inicial de cariz Gótico-Manuelina, cujos vestígios já são escassos, encontramos uma época Renascentista-Maneirista, que se sobrepõe ao ‘Estilo Chão’ e que vai de 1570 ao século XVIII. Nesta época, e construídos entre os séculos XV e XVI, existiram pequenos fortes, fundamentais para a defesa da cidade, como o do Porto das Pipas [junto ao de S. Sebastião], o de São Cristóvão [junto à ribeira e cais da cidade], o das portas do Cais, junto à Alfandega, o da Prainha e o do Porto Novo. Todavia, a mais impressionante e grandiosa construção militar, edificada segundo o traçado do arquiteto João de Vilhena, é o Forte de São Filipe, rebatizado de São João Batista após a restauração da independência portuguesa relativamente ao domínio espanhol (Fernandes, 2008a).

Dominando as duas baías, do Fanal e de Angra, podendo isolar-se tanto do Monte Brasil, como da cidade, constitui a fortaleza portuguesa que delimita maior área, atingindo toda a extensão das suas muralhas cerca de uma légua. A fortaleza possui de qualquer modo uma escala ‘transoceânica’ que, me monumentalidade e grandeza, ultrapassa de algum modo a tradicional dimensão da arquitetura portuguesa, para a aproximar de uma escala mais ‘ibérica’ [...]. (Fernandes, 2008a, pp. 62-63).

A partir de 1570 fez-se substituir a igreja matriz de São Salvador pela nova Sé, na sequencia da elevação, da cidade, a sede episcopal, em 1543, sendo certo que ambos os edifícios coexistiram e que a primeira chegou a desempenhar o papel de catedral (Reis Leite, 2014). A Sé, construída entre 1570 e 1618, foi recuperada em 1985, após o terramoto e incêndio que destruíram, infelizmente, grande parte da sua talha e espólio. O projeto, segundo traço do arquiteto Luís Gonçalves, revela uma fachada e estrutura maneiristas, com uma planta de três naves, pilares em vez de colunas e cobertura de madeira. Na fachada, sobressaem a galilé e as torres sineiras, rematadas por coruchéus de base octogonal (Fernandes, 2008b). Yves Bottineau compara-a com o frontispício e a escadaria da Igreja do Colégio de S. Salvador da Baía, no Brasil (Fernandes, 2008a). Uma estátua do Papa João Paulo II, da autoria do escultor micaelense Álvaro França, colocada no adro, do lado esquerdo, evoca a visita papal de 1991.

A Sé de Angra
Figura 2
A Sé de Angra
Visit Portugal

No âmbito da arquitetura religiosa, destacam-se, para além da catedral, a Igreja da Conceição, a da Misericórdia, a da Fortaleza de S. João Batista (1642), o conjunto dos Franciscanos (1663-72) e o convento de S. Gonçalo (1730-50), junto ao Alto das Covas. A primeira, que está classificada como Imóvel de Interesse Público, ter-se-á tornado sede de paróquia em 1553 e inclui antigos e importantes retábulos, de reconhecido valor artístico. A segunda, da Misericórdia, igualmente classificada, não é o templo original de quando foi constituída esta irmandade - uma das primeiras de todo o Portugal. A atual igreja data do século XVIII, tendo abrigado a Ordem de Nossa Senhora do Carmo. De planta retangular, apresenta uma fachada ladeada por duas imponentes torres sineiras, com cobertura em pedra.

A Igreja de S. João Batista, implantada na Praça de Armas, da Fortaleza, foi o primeiro monumento erguido após a restauração da independência de Portugal e dada a sua relevância histórica, é de visita obrigatória para quem passa por esta fortificação. Destaca-se pela sua dimensão e robustez (Raimundo, 2014). Igualmente obrigatória é a visita ao conjunto dos Franciscanos [convento e Igreja] que, hoje, são imóveis classificados e integram o principal Museu da cidade de Angra, depois de, durante décadas, terem funcionado como Liceu e, ainda, como Seminário Diocesano. O templo é de considerável dimensão [um dos maiores dos Açores], com planta de três naves, em cruz latina. O convento foi sede da ordem franciscana nestas ilhas, cuja presença remonta ao século XV.

Já o Convento de S. Gonçalo foi fundado por volta de 1545, sendo um dos mais antigos da cidade e o primeiro destinado a freiras da Ordem de Santa Clara. É o maior conjunto conventual de Angra e um dos maiores dos Açores, devido ao grande aumento do número de religiosas, ao longo dos séculos XVII e XVIII. Possui dois claustros, cerca, granéis e a igreja, com os coros alto e baixo. Esta, de nave única, sobressai pelo seu estilo barroco, destacando-se: a abertura oval do coro, o cadeiral do coro alto com figuras fantásticas; os painéis de azulejos portugueses [séc. XVIII] e o notável revestimento em talha, telas e teto pintado (Raimundo, 2014).

Mas, este Roteiro não ficaria completo sem uma passagem pela Casa do Capitão ou dos Corte-Real e pelo Palácio dos Capitães-Generais, anexo à Igreja do Colégio dos Jesuítas. Nas imediações da Praça Velha, subindo o eixo da rua Direita, deparamo-nos com estes grandiosos e simbólicos edifícios (Fernandes, 2008ª). A Igreja, imóvel classificado, está implantada no cimo de ampla escadaria e apresenta uma fachada sóbria, sem torres, rematada por falsa balaustrada. De nave única, é coberta por um magnífico teto em caixotões de madeira e apresenta ricas pinturas, talha, painéis de azulejos e um imponente órgão. Em anexo, o Palácio - outrora Colégio da Companhia de Jesus - representou, a partir de 1766, a sede do poder civil no arquipélago. Além de ter albergado os Capitães-Generais que dominaram as ilhas, foi também Paço Real, quer de D. Pedro IV, de Portugal [Primeiro do Brasil], quer de D. Carlos e D Amélia, em 1901. O visitante pode apreciar obras de arte dos séculos XVIII e XIX, configuradas em valiosas peças de mobiliário, telas e porcelanas.

Ainda no âmbito da antiga arquitetura civil, para além da Casa do Capitão, de estrutura quatrocentista, destacam-se o Solar dos Remédios e o Solar da Madre de Deus. O primeiro, situado no Largo com o mesmo nome, foi, ao longo dos tempos, sucessivamente ampliado e modificado. A sua construção iniciou-se no século XVI, com Pêro Anes do Canto, 1º Provedor das Armadas, mantendo-se na posse da família até ao século XIX. Servia de residência e também de Provedoria, prestando, assim, apoio às Armadas vindas da Índia e de outras paragens, bem como à própria Armada das Ilhas. O conjunto é composto pelo solar e capela, ambos de grande dimensão e situados numa plataforma elevada que permite uma privilegiada visibilidade sobre a cidade. Foi no século XVIII que adquiriu a configuração semelhante à que apresenta nos dias de hoje. Após o sismo de 1980 sofreu também uma grande intervenção devido aos graves danos provocados. O Solar da Madre de Deus, no lado oposto da cidade, junto ao Alto das Covas, foi implantado também numa plataforma elevada, representando um misto entre residência urbana, solarenga e propriedade rural, que se prolongava para norte. Foi erguido no século XVII, pelo Capitão-Mor de Angra e a longa fachada, de composição simétrica, inclui a Ermida de evocação a Nossa Senhora, Madre de Deus (Raimundo, 2014). Ao longo dos séculos XVII e XVIII o património edificado da cidade foi sucessivamente enriquecido com outras construções solarengas, que se podem observar nos trajetos pedonais, como o Solar das Salinas, o Palácio Bettencourt, entre muitos outros. Esta evolução prosseguiu no século XIX.

PARA UM ROTEIRO DE ANGRA OITOCENTISTA E LIBERAL

Uma das edificações mais emblemáticas da cidade, que remonta ao século XIX e tem uma forte ligação ao contexto das lutas liberais, é precisamente a Câmara Municipal, de traça neoclássica. Os grandiosos Paços do Concelho, implantados na Praça Velha, vieram substituir o antigo edifício, quase em ruínas, muito semelhante ao da Câmara Municipal da cidade da Praia da Vitória. A fachada atual está dividida em secções e é encimada por uma cimalha com platibanda. A secção central é rematada por um frontão triangular, com tímpano esculpido que inclui o brasão da cidade e a inscrição ‘Valor, Lealdade e Mérito’ (Raimundo, 2014). Existindo possibilidade de visitar o edifício, logo à entrada, é possível contemplar o brasão que pertenceu ao antigo mercado municipal e, ao cimo da escadaria, o vitral triplo que ostenta a bandeira portuguesa, as insígnias da cidade e a Cruz de Cristo, primeiro símbolo da ilha. Enquadrado pelo vitral, o busto do Infante D. Henrique, esculpido, em 1960, por Numídico Bessone, relembra os tempos gloriosos dos descobrimentos ultramarinos. No salão nobre, estão presentes sinais da História de Portugal e da ilha: o busto de D. Pedro IV, de 1826, da autoria de Marc Ferrez e o quadro da rainha D. Maria II, datado de 1829 e pintado por William Fowler, que pintou alguns retratos da rainha Vitória. Distinguem-se, ainda, as chaves da cidade, as varas dos vereadores e a Carta Régia que lhe concedeu a Ordem da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito (Melo, 2016)[i].

Verdadeiros símbolos da Angra liberal e de visita obrigatória são o Jardim Duque da Terceira e o Alto da Memória, onde pontifica um portentoso obelisco erguido em honra de D. Pedro IV e da sua passagem, pela ilha Terceira, em 1832. O Jardim — cujo nome evoca o Conde de Vila-Flor, importante militar liberal que encabeçou a ‘Campanha dos Açores’, no período das lutas - está enquadrado pelo Convento de S. Francisco e pelo Colégio dos Jesuítas, organizando-se em vários patamares que possibilitam a subida da parte mais baixa da cidade à cota mais elevada - a Memória, de onde se desfruta de uma excelente vista panorâmica. No jardim abundam os canteiros de flores e a vegetação exótica, incluindo um pequeno monumento em homenagem ao escritor Almeida Garrett, o Pátio dos Azulejos e o Tanque do Negro, que recorda a presença de escravos domésticos, na ilha. Subindo pela Passagem Silva Sarmento e algumas rampas sinuosas, alcança-se o miradouro já referido (Raimundo, 2014), erguido sobre as ruínas do antigo Castelo dos Moinhos [primeira fortificação angrense]. O obelisco tem a forma de pirâmide assente num pedestal escalonado e está no centro de uma plataforma (miradouro) de planta quadrangular. Na base encontram-se várias inscrições e elementos decorativos (Raimundo, 2014), que alguns estudiosos associam à simbologia maçónica.

Obelisco do Alto da Memória
Figura 3
Obelisco do Alto da Memória
Olhares

Na esteira da afirmação burguesa e da difusão de títulos e comendas, tão típica da segunda metade de oitocentos, João Jorge da Silveira e Paulo, que fez fortuna em S. Tomé e foi agraciado como Fidalgo-Cavaleiro da Casa Real, adquiriu o antigo Solar dos Noronha, junto à Igreja da Conceição e, depois de o demolir, construiu o elegante palacete, com mirante, ainda hoje conhecido como Palacete Silveira e Paulo. As obras tiveram início em 1900, mas em 1937, o edifício passou para a posse do Estado. Hoje, adaptado a serviços públicos regionais, não deixa de ser um atrativo da cidade, seguindo “uma linguagem arquitetónica eclética de prevalência classizante em que impera a simetria” (Raimundo, 2014, p. 245).

Descendo pela típica Rua do Galo, de que falaremos no Roteiro seguinte, o visitante chega à Praça Velha e subindo a Rua da Sé, numa das transversais à direita, encontra o Teatro Angrense. Este imóvel de interesse público, cuja inauguração decorreu em 1860, está integrado entre edifícios de habitação, dos quais se destaca pelas suas características e dimensão. A fachada é de linguagem neoclassizante e o tímpano que remata a secção central tem um relevo decorativo com as letras T.A. No interior, a sala tem forma de ferradura aberta para a zona do palco, cuja boca de cena é um grande arco abatido. Em redor, três níveis de camarotes emolduram a ampla plateia (Raimundo, 2014). O gosto pelo teatro, que se afirmou em Portugal no período do Romantismo [ainda que com tradições mais antigas], rapidamente se consolidou nas ilhas.

Se a arquitetura religiosa e civil pública adquire um importante significado e interesse para o turista que visita esta cidade, a arquitetura popular não se reveste de menor importância.

PARA UM ROTEIRO DA ARQUITETURA POPULAR ANGRENSE

Segundo José Manuel Fernandes (2008a), a casa tradicional dos Açores resultou da adoção e adaptação de modelos trazidos da Europa para o meio insular, em especial, da Europa mediterrânica. As casas populares urbanas de Angra do Heroísmo inscrevem-se em duas tipologias: as casas térreas, de porta ladeada por uma janela de cada lado; as casas de dois ou três pisos, com as suas fachadas ritmadas por ‘vãos’ [janelas] e ‘cheios’ [paredes]. As primeiras aparecem mais na periferia da malha urbana; as outras, as chamadas ‘casas esguias’ ou ‘casas largas’ [consoante a largura da fachada], ladeiam as ruas do centro histórico, lembrando, muitas vezes, o perfil das artérias de cidades do Brasil, como Salvador da Baía (Fernandes, 2008b). O turista que percorre a Rua da Conceição, a Rua do Galo, as ruas perpendiculares à Rua de Sé, incluindo esta até à Rua de S. Pedro, depara-se com um conjunto de edifícios residenciais, por vezes, com estabelecimentos comerciais no piso térreo, que correspondem à típica casa burguesa que, da cidade do Porto à cidade do Recife, ficaram associadas, nos séculos XVIII e XIX, “às cidades comerciais e/ou portuárias de influência portuguesa” (Fernandes, 2008a, p. 94).

As casas construídas, empena a empena, formam um todo coerente, com abundância de vãos de verga curva, as tradicionais varandas corridas, por vezes com as típicas reixas e os não menos típicos aventais, sob as janelas, muitas delas de guilhotina (Fernandes, 2008b). Estas são características muito bem preservadas no centro histórico desta cidade Património Mundial da Unesco. Porém, a arquitetura popular ou vernácula de Angra inclui outra edificação muito típica e muito cara à alma açoriana: os Impérios do Espírito Santo.

Para alem dos templos católicos, é a ilha Terceira - e também Angra - famosa pelos seus pequenos edifícios dedicados a um antigo culto muito popular: o do ‘Divino Espírito Santo’, culto este talvez com origem remota nas práticas franciscanas que valorizavam a adoração autónoma das figuras da Trindade [...] dentro da liturgia da Igreja Católica. Na Terceira, o Império atinge uma uniformidade estrutural, como construção de alvenaria, difundida profusamente por toda a ilha. Este tipo de construção terá surgido nos finais do século XVIII (1795) - o Império de São Pedro - muito embora seja difícil datar os actualmente existentes, dado que as datas que neles figuram correspondem geralmente à data de reconstrução (Fernandes, 2008b, p. 84).

Semelhantes a pequenas ermidas, assumem características estéticas e artísticas sui generis, resultantes da inspiração popular. Destacam-se pela sua originalidade e, por vezes, por alguma exuberância decorativa e das cores com que são pintados. São pequenas edificações sobrelevadas, com acesso por escada e fachada de três vãos, num misto de sagrado e profano, que não obstante as reduzidas dimensões, se evidenciam no contexto edificado, demonstrando um notável sentido de monumentalidade. Apesar das semelhanças a nível estrutural, os Impérios acabam por ser todos distintos devido à sua decoração ou pintura. No período festivo, aqui se expõem os símbolos do Espírito Santo, como a Coroa para adoração dos fiéis (Duarte, 2008).

Em Angra do Heroísmo não podemos deixar de referir os Impérios do Outeiro e o de São Pedro, por serem os mais antigos, os Império dos Quatro Cantos e o da Caridade, pela sua originalidade e o Império da Rua Nova, por ter a despensa associada. Este Roteiro dos Impérios só fica completo se o viajante puder participar, dependendo da época do ano, nos festejos em honra do Divino, assistindo às Coroações; vendo passar o cortejo com as bandeiras e as coroas, degustando as sopas de carne e gozando os respetivos arraiais.

Império dos Quatro Cantos
Figura 4
Império dos Quatro Cantos
Explore Terceira

PARA UM ROTEIRO DA GASTRONOMIA E DA FESTA ANGRENSE

Uma estada em Angra do Heroísmo obriga a degustar a famosa alcatra à moda ilha Terceira. Este prato típico, que terá sido introduzido por povoadores oriundos do norte do reino [dada a clara influência da chamada, chanfana feita com carne de cabra], é confecionado com carne de vaca - alcatra - no passado considerada a melhor parte do animal. Gradualmente, e percebendo que ficava mais saborosa a mistura com pedaços com osso, os senhores mais ricos passaram a incluir outras peças de bovino, menos nobres. Cozinhadas, no forno, muito lentamente, num alguidar de barro, são enriquecidas com o tempero de várias especiarias que, outrora, abundavam no porto de Angra. Indispensável nas épocas festivas, a alcatra tem vindo a sofrer inovações, registando-se, na atualidade, novas modas com peixe, marisco e outras variedades cozinhadas com base nas mesmas técnicas[ii].

Especialmente confecionadas para as festas em honra do Divino Espírito Santo, as peças de alfenim são típicas da ilha Terceira. Segundo a tradição, a palavra vem do árabe ‘al-fenid’, que significa ‘o que é branco ou alvo’, uma vez que esta doçaria simbólica, é feita de apenas de açúcar, água e vinagre, num preparado que leva cerca de 20 a 25 minutos ao lume e, quando atinge o ponto, é vertido para uma bacia [untada com manteiga], de modo a que se possa moldar a massa, com formas de animais ou partes do corpo humano. A figura mais comum é a da pomba branca, símbolo do Espírito Santo. Todavia, porque o alfenim também está associado a promessas, decorrentes de problemas de saúde, são também encomendadas partes do corpo humano. Antigamente, a venda de alfenim era uma importante fonte de receita para as famílias das artesãs, usando-se em ofertas de batizados e casamentos. Hoje, é possível encontrar à venda, em diferentes pastelarias da cidade e da ilha, como um produto regional certificado[iii].

A doçaria terceirense é bastante variada, destacando-se ainda as queijadas D. Amélia, nas quais o mel de cana e a canela se associam a corintos e cidras. Reza a tradição que aquando da visita régia de D. Carlos e D. Amélia, à ilha Terceira, no verão de 1901, realizou-se um piquenique durante a Feira de Gado, no Paul. O transporte das comidas foi feito em carros puxados por bois, o que obrigou a certos cuidados. As senhoras, responsáveis pelo evento, decidiriam mandar confecionar uns pudins que levavam compotas, mas, para que ficassem mais consistentes e não se desmanchassem pelo caminho, decidiram alterar a receita e não incluir as compotas. A rainha terá apreciado muito esta sobremesa (Nobre, 2001) e daí por diante a receita deixou de incluir os doces de fruta, transformando-se mesmo em pequenas queijadas, de mais fácil venda e circulação, que passaram a ostentar o nome da soberana, imortalizando a sua passagem pela ilha.

Folgazões e hospitaleiros, os habitantes da Terceira vivem intensamente as suas festas. No plano religioso, sobressaem as que se celebram em honra do Divino Espírito Santo, transversais ao arquipélago e que se celebram após a Páscoa. No plano profano, para além do Carnaval, onde se multiplicam os típicos bailinhos - que consistem em representações teatrais de raiz popular -as touradas à corda e de praça e as célebres Sanjoaninas, marcam o calendário anual.

As Sanjoaninas - festas em honra de S. João, santo popular que, em todo o Portugal, se celebra em junho - são já consideradas as maiores festas profanas dos Açores. Da responsabilidade da Câmara Municipal, são preparadas durante um ano. Mal terminam, começa-se logo a pensar nas festas do ano seguinte. Pela descrição do jornalista João Gago da Câmara (2019) podemos imaginar o ambiente que se vive em Angra, entre 21 a 30 de junho:

As casas engalanam-se com colchas tecidas há séculos pelas avós. De cores muito fortes e puras, caem das janelas e das varandas estas tapeçarias antigas, [...]. As petúnias de muitas cores são obrigatórias e descem em cachos de vasos dispostos nas ruas e no entrançado das varandas. A cidade vibra com o som de dezenas de filarmónicas que vêm dos quatro cantos da ilha. Descem uma a uma a rua da Sé [...]. Na noite e no dia de São João, as filarmónicas tocam para marchantes, que, exuberantemente trajados, cantam, pulam e rodopiam, expandindo alegria, que contagia o povo que os ladeia, que aplaude e, por vezes, dança também, acompanhando a marcha da sua eleição. [...]Depois vem a espera de gado com os toiros das ganadarias da ilha, que são, neste caso, apenas seis e são soltos sem cordas em algumas ruas, devidamente tapadas para que os bichos se circunscrevam apenas a uma determinada área e não invadam outras artérias da cidade. [...]. Todos os dias há desfiles e há uma rainha da festa que, aos olhos de quem a elege, é a mais bonita da cidade, [...] e que, de cima de um camião totalmente invisível por estar decorado a preceito, acompanhada por pequenos pajens e por damas de honor, acena, altiva, e sorri à multidão, [...]. Assim costuma ser todos os anos, mudando apenas as raparigas, as crianças, a indumentária e a decoração dos camiões que percorrem as ruas principais da cidade. Há desfiles todos os dias sobre temas variados e para públicos diferentes. Há também, em simultâneo, concertos e bailaricos em diferentes pontos da cidade [...]. (s.p.)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pela sua longa História, Angra do Heroísmo é uma cidade insular e atlântica que merece a visita de todo o turista interessado em compreender melhor o passado, quer da história dos Açores - indissociável da história de Portugal - quer da História do mundo que gira em torno do oceano Atlântico. Dado o papel que esta cidade e ilha Terceira desempenharam em épocas-chave da História da Humanidade, representando um ponto de ligação entre o Velho e o Novo mundo, numa escala verdadeiramente global, não só a Unesco classificou o seu centro urbano como Património Mundial, como - em nosso entender - se torna obrigatório o tour turístico pelas suas ruas, praças e jardins, de modo a que o viajante possa usufruir do seu património edificado e cultural.

Desde o período dos Descobrimentos Ultramarinos até ao século XX, existem motivos de grande interesse para que Angra do Heroísmo se torne num destino privilegiado para o Turismo Cultural, que importa desenvolver e consolidar nesta cidade, como nas demais ilhas do arquipélago dos Açores. A uma natureza pródiga e diversificada, que vai da montanha, ao bosque, às lagoas e ao mar, é possível associar, nestas ilhas, a vertente histórica, do património e da cultura material e imaterial. Nos Açores, as cidades e as vilas, a arquitetura religiosa, civil e militar, os museus etnográficos, os parques e jardins, as tradições, os costumes, festas e a gastronomia convidam a experiências únicas, em pleno coração do Atlântico norte. Com este artigo, fica o convite a uma estada na cidade de Angra do Heroísmo – Património Mundial da UNESCO que será, certamente, um primeiro passo para visitar toda a ilha Terceira e as restantes ilhas e cidades dos Açores! Como se depreende, a cidade de Angra propicia vários e diferenciados roteiros, que se podem organizar e sempre melhorar, no sentido de oferecer ao turista a fruição de espaços históricos, repletos de simbolismo e significado, assim como de momentos de lazer, de experiência e aprendizagem, incluindo alguma diversão.

REFERÊNCIAS

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Notas

[i] Esta obra recente, de cariz comemorativo, inclui uma compilação das edições de 1966, 1972 e 1984 do clássico estudo de Pedro de Merlim.
[ii] Disponível em: https://byacores.com/alcatra-moda-terceira/
[iii] Disponível em: https://www.azorestv.com/index.php/news/1173/alfenim-doce-t%C3%ADpico-da-ilha-terceira-associado-às-festas-do-esp%C3%ADrito-santo/
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