Resumo: Este estudo apresenta uma análise do turismo étnico indígena, que tem como objetivo, descrever o processo de formação do território turístico tendo como base as expressões culturais e os elementos simbólicos usados pelos povos de raiz indígena, e como objetivos específicos, historicizar a formação das comunidades indígenas Sahu-Apé e I’nhãa-bé e; relatar como o turismo étnico se apropria e interage com os espaços e os rituais indígenas como elementos atrativos aos turistas. O recorte espacial inclui duas comunidades indígenas Sateré, localizadas em Manaus e Iranduba, municípios amazonenses. Sob abordagem dialética, a pesquisa teve como procedimentos levantamento bibliográfico, documental, observação, aplicação de questionários, entrevistas do tipo história de vida, e registro cartográfico. Em seguida, sendo feita a análise de conteúdo. Como resultados principais observamos que as duas comunidades reorganizaram seu espaço para a atividade turística, resgataram expressões culturais que estavam sendo esquecidas e adaptaram à confecção de artesanatos para que se tornassem mais atrativas, porém sem descaracterizar as expressões culturais próprias da etnia. O ritual da Tucandeira, elemento mais expressivo das comunidades, acontece agora com maior frequência e de modo sistematizado, envolvendo os visitantes e sendo um veículo de divulgação das aldeias.
Palavras-chave: Turismo Étnico, Comunidades Indígenas, Sahu-Apé, I’nhãa-bé, Amazonas, Brasil.
Abstract: This study presents an analysis of indigenous ethnic tourism, which aims to describe the process of formation of the tourist territory based on cultural expressions and symbolic elements used by indigenous peoples, and as specific objectives, historicize the formation of the Sahu-Apé and I'nhãa-bé communities and; report how ethnic tourism appropriates and interacts with indigenous spaces and rituals as attractive elements for tourists. The spatial focus was two Sateré indigenous communities, located in Manaus and Iranduba, two municipalities in Amazonas. Under a dialectical approach, the research had bibliographic, documental, observation procedures, application of questionnaires, interviews of the life history type and cartographic record. Then, being made a content analysis (BARDIN, 2016). As main results we observed that the two communities reorganized their space for the tourist activity, recovered cultural expressions that were being forgotten and adapted the making of handicrafts so that they became more attractive, but without mischaracterizing the cultural expressions typical of the ethnic group theirs. The Tucandeira ritual, the most expressive element of the communities, now happens more frequently and of systematic way, involving visitors and being a vehicle for disseminating the villages.
Keywords: Ethnic Tourism, Indigenous Peoples, Sahu-Apé, I’nhãa-bé, Amazon, Brazil.
Artigos
Turismo Étnico Indígena no Amazonas: Mitos e Territórios que Contam Histórias
Indigenous Ethnic Tourism in Amazonas: Myths and Territories that tell stories
Recepción: 12 Julio 2020
Aprobación: 31 Enero 2021
Hoje o estado do Amazonas se caracteriza como maior, mais rico em biodiversidade e berço da maior concentração de povos indígenas do País. A região Amazônica brasileira, que abrange o território dos estados de Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do Maranhão, é um cenário vivo de riquezas naturais no mais amplo do termo. Nestes territórios vagueiam vidas que cantam e encantam, trazendo à mente imagens multifacetadas de um ambiente atrativo ao turista que vive em áreas urbanas.
O turista busca uma ambiência convidativa aos turistas a sair de suas imagens urbanas em adentrar e vislumbrar outras paisagens, como falam Deleuze e Guattari (2007). Esta é a descrição do novo tipo de turista, que busca em mergulhar em experiências novas, diferentes daquelas oferecidas pelo turismo tradicional. Para Urry (2001), o “turismo envolve, necessariamente, o devaneio e a expectativa de novas e diferentes experiências” (p. 30), pois a cada vivência, o participante é instigado a novos sentidos. Nesta direção, MacCannell (1978) considera que o turismo é carregado de um sistema semiótico, isto é, cada objeto apresenta um símbolo de modo interpretativo para aquele que apreciar ou vivenciar qualquer momento. Na região Amazônica o sistema de símbolos que os moradores adotaram ligados aos elementos da natureza é bastante vasto.
A atividade turística vem crescendo de forma constante nos últimos anos. De acordo com o Ministério do Turismo (2019), a Organização Mundial do Turismo (OMT) previu um crescimento do turismo mundial entre 3% e 4% em 2019. Com a crescente demanda, o setor busca destinos escolhidos por suas peculiaridades e pelos seus elementos únicos que possam servir de atrativo aos turistas. Novos segmentos como o turismo indígena estão presentes nestas previsões. De acordo com Kunasekaran, Gill e Talib (2015), para que o turismo indígena se desenvolva, é necessário fortalecer o aspecto étnico, o patrimônio e a realização de festivais. A identidade é o seu produto turístico, e ao valorizar a identidade destes povos, valorizam também a sua relação com o seu espaço de vivência. Dentro das sociedades indígenas, os signos em ritual são também elementos de comunicação (Alvarez, 2009). Entre eles se incluem certos objetos padronizados como roupas especiais, gestos, palavras, músicas e aromas usados no ritual. É sobre este tema que o estudo aborda, tomando como base a cultura do povo indígenas Sateré-Mawé [Amazonas, Brasil], e a complexa relação simbólica que os une, bem como as contribuições para o turismo étnico.
Este estudo tem como objetivo descrever o processo de formação do território turístico tendo como base as expressões culturais e os elementos simbólicos usados pelos povos de raiz indígena. Além disso busca historicizar a formação das comunidades indígenas Sahu-Apé e I’nhambé e relatar como o turismo étnico se apropria e interage com os espaços e os rituais indígenas como elementos atrativos aos turistas. Esta temática apresenta extrema relevância, tendo em vista a lacuna teórica que reside na falta de pesquisas relacionadas à proposta deste campo, o que se considera uma busca com potencial inovador no campo científico das Ciências Sociais e particularmente do Turismo.
O indígena morre lentamente quando tem sua terra expropriada pelo garimpeiro ou pelo madeireiro, morre quando não pode viver de acordo com sua história, morre aos poucos quando, por falta de condições de vida, é empurrado para as grandes cidades buscando um subemprego. Na realidade amazônica, este cenário é ainda mais cruel e visível, diante das riquezas do subsolo que incita garimpeiros a invadir terras e a criar conflitos entre os nativos. E neste sentido, percebe-se que o turismo em terras indígenas se concretiza a partir da valorização da identidade, e como afirma Moesch (2002) se configura em uma prática histórico-social que leva em consideração a ação dos sujeitos, seu espaço e seus simbolismos sendo, portanto, a subjetividade é inerente a cada grupo.
No entanto, entre as questões que se deve levar em conta em relação ao turismo étnico, há que se pensar em duas vertentes que influenciam nas comunidades. A atividade do turismo foi inserida pelos moradores como oportunidade de trabalho e renda para as famílias, que aos poucos vinham sendo separadas com a busca de emprego na capital do Amazonas, ao mesmo tempo em que se buscou resgatar tradições e expressões culturais que aos poucos vinham sendo esquecidas pelas novas gerações, e que poderiam ser atrativos aos turistas. A atividade, porém, traz impactos nestas mesmas expressões culturais na medida em que leva a uma adequação de elementos como rituais, organização territorial e confecção de artesanatos, para que sejam consumidas pelos turistas. É neste sentido que este estudo se caracteriza, na dimensão dos diferentes olhares sobre a atividade.
Turismo Étnico - Em pesquisa realizada na base de dados EBSCO HOST, foi utilizado o termo “turismo étnico” e “ethnic tourism” como constructo principal, e após a busca, verificou-se que foram publicados 124 artigos em língua estrangeira, entre 1999 e 2019, e foi em 2018 que houve maior produção acadêmica sobre o tema. Dentre as variáveis encontradas com o tema turismo étnico indígena, o termo “grupos étnicos” foi encontrado em 69 artigos, sendo em sua maioria, derivados de pesquisas empíricas que abordam o modo de vida e a dinâmica do turismo em comunidades especificas. 9 e 10
Diante do reduzido número de artigos sobre o tema, viu-se a necessidade de ampliar os estudos acadêmicos, tendo em vista que o Brasil já possui uma história relacionada aos povos indígenas e há diversos projetos de implantação do turismo nas comunidades que precisam ser estudados. No campo cultural, dependendo do foco, percebe-se uma maior interface com a antropologia e a educação, a partir de uma visão sistêmica imbuída da interdisciplinaridade, uma vez que Jafari & Ritche, (1981) nos diz que esta é a forma mais adequada de se estudar o turismo.
Do ponto de vista conceitual, sobre turismo étnico, Berghe (1980) afirma ser “uma forma de turismo onde a cultura e o exotismo dos nativos são o principal atrativo turístico” (p. 223), sendo realizado num espaço preservado. Esse pensamento é gerado principalmente pelo interesse do turista por experiências culturais excêntricas, no desejo de estabelecer uma interação com grupos étnicos, agregando um manancial de conhecimentos. Assim, aquilo que se mostra diferente aponta para um certo exotismo que encanta, apesar de muitas vezes não ser compreendido em seu contexto. É possível que nesta dimensão possamos falar de turismo étnico.
O Turismo étnico indígena, pensado neste contexto, diz respeito ao turismo que envolve povos indígenas em seu sentido de pertencimento a um lugar, onde eles mesmos promovem ações e serviços a um público específico. Segundo Corbari, Bahl e Souza (2016), o turismo étnico indígena pode ser apreendido como um modo de expressão por interesse pela cultura e pelo modo de vida dos povos, de forma a compreender as diferenças entre os povos. Neste viés, em contextos indígenas, fazem parte do atrativo turístico os elementos simbólicos que estão representados no canto, na dança, nos artesanatos e em todas as expressões da cultura, que carregam sentimentos memoráveis. Isto é, “trata-se de signos que representam a imagem mental e ou reais dos atrativos turísticos semiotizados pelos turistas” (Mello, 2019, p. 99). Destacamos que os indígenas que residem em área metropolitana estão inseridos na sociedade como um ser diferente pelas pessoas que os cercam, isto é, pois estão fora do seu contexto de Terras Indígenas. Sobre o respeito pelo outro, para Gusmão (2003) “a alteridade revela-se no fato de que o que eu sou e o outro é não se faz de modo linear e único, [...] saber o que eu sou e o que o outro é depende de quem eu sou, do que acredito que sou, com quem vivo e por quê” (p. 87). Nesse sentido, é preciso compreender o outro a partir de si próprio. Dialogando com (Barth apud Souza 2009, p. 19), o que determina a etnicidade, as representações simbólicas da cultura material e espiritual de um povo, é o contato com outros grupos sociais. É o contato interétnico que estabelece o limite cultural, racial, linguístico e social entre os grupos. Mesmo fora das Terras Indígenas – TI, preservam o mito de origem, os rituais, as lembranças, as narrativas orais, as memórias e toda a historicidade. Todo esse contexto tem sido indutor para o turismo.
No cenário do turismo étnico, o modo de vida dos indígenas se constitui de elementos de atração aos turistas que buscam lugares diferentes dos cenários urbanos. Estes lugares promovem no indivíduo a curiosidade em conhecer o estilo de vida diferente do estabelecido pelos padrões capitalistas. Assim, conhecer o cotidiano e as atrações de um grupo e a forma como se projetam no tempo e no espaço, é a experiência cada vez mais procurada os turistas. É nesse contexto que se reconhece “o aspecto mais importante da semiótica, a forma como os signos e imagens são interpretados compondo a linguagem do turismo” (Tresidder, 2011, p. 75).
Em se tratando de povos indígenas, pensamos logo em cultura e em tradição cultural. Nesse viés “a cultura é a soma dos saberes acumulados e transmitidos pela humanidade, considerada como totalidade, ao longo de sua história” (Cuche, 2002, p.21). Ela está integrada ao todo, a qual os elementos culturais são as partes constitutivas que compõem a tradição cultural. Assim, para estudar um povo, deve-se compreender a sua totalidade, cultura, língua e tradição cultural. No viés da antropologia, cultura “é um conjunto complexo que inclui conhecimento, crença, arte, lei costumes e vários outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade (Levi-Strauss, apud Mello 1986, p. 397). O conjunto dos saberes ancestrais são transmitidos a cada geração, por meio da oralidade e da escrita.
Turismo Étnico Indígena e suas características - Os primeiros estudos para a definição do turismo étnico foram apresentados por Pierre L. Van den Berghe (1980), que discutiu a diferença entre turismo cultural e turismo étnico. Para ele o turismo étnico tem no homem nativo, sua principal ou mais significativa atração. Neste sentido, o turista busca o conhecimento de um modo de vida diferente do que ele vive normalmente, e a comunidade étnica apresenta uma dimensão do cotidiano que chama a atenção do turista.
Nesta perspectiva, com base na fala de Cruz (2001) quando afirma ser o turismo a única prática social que consome elementarmente espaço, este assim como os modos de vida são os atrativos, sendo o turismo étnico, uma alternativa ao turista de experenciar um novo modo de vida, uma nova forma de organização e construção espacial e cotidiana. Pensado numa perspectiva mercadológica, o espaço de vivencia dos moradores de uma comunidade étnica, é seu produto, é o que ele ‘vende’ ao visitante, sendo porém, que a adaptação ao turismo, revela faces deste mesmo espaço como lugar de resgate de uma cultura que aos poucos, estava sendo esquecida pela proximidade com a capital. São duas formas de olhar o espaço étnico turistificado.
A compreensão do turismo étnico se dá então diante de vários tópicos de análise. A Figura 1, adiante, apresenta uma análise aproximada dos elementos do turismo étnico indígena em suas diversas dimensões, e como é necessário compreender estes elementos, dentro de uma realidade específica.
O turista busca a autenticidade, que se expressa em um modo de vida único, e se diferencia não somente da vida urbana, mas também de outras aldeias indígenas, em função da etnia a que o grupo pertence. O que move o turista a adentrar em espaços indígenas são as vivências autênticas, isto é, diferenciadas, com hábitos particulares e com vida saudável (Berghe, 1980). Mesmo em áreas metropolitanas a autenticidade reside nos saberes filosóficos ancestrais marcados pelos rituais e pelo mito de origem. Ao compartilhar saberes com outros povos não significa dizer que a identidade indígena será posta em risco. Sobre isso, identidade étnica não se caracteriza como concepção estática (Barth, 2000), mas sim dinâmica, podendo ser construída a partir das interações dos grupos sociais. No entanto, o autor afirma que a influência mútua com outros grupos não leva ao desmoronamento, ou apagamento da cultura em espaços híbridos, isto é, “as diferenças culturais podem persistir apesar do contato interétnico e da interdependência entre etnias” (Barth, 2000, p. 26).

Para Xie (2010), o que promove as atividades turísticas é o capital cultural distinto daquela comunidade, e é ele que atrai os visitantes, sendo então usado como meio econômico para o desenvolvimento. Através deste segmento turístico, acontece uma redescoberta de raízes étnicas que possibilita aquele grupo recontarem seu passado e com isso, alcançar benefícios significativos tendo como base a sua identidade e sua autenticidade.
Os artefatos produzidos e usados na comunidade expressam sua relação com o espaço, e o domínio do território em que vivem na forma como se relacionam com os elementos naturais, e como os transformam para que atendam sua necessidade. E nesta relação, se estabelece a sustentabilidade, no uso consciente destes elementos naturais e na forma como o espaço é conservado. A fauna, a flora e o solo [e suas propriedades], são a fonte de vida destes indígenas, e através delas, retiram seu sustento e todos os elementos, que usam para expressar sua cultura como marca identitária. A exemplo disso, o ritual da Tucandeira entre os Sateré-Mawé, em que usam a formiga, cientificamente, paraponera clavata, e as palhas na preparação do ritual de passagem (Carvalho, 2019)
Ainda Maza (2014) discute que existem muitas definições para o turismo indígena, mas a ênfase na cultura da comunidade é sempre apresentada como elemento de comércio dos costumes curiosos e pessoas que vivem de modo diferente da dinâmica do mundo urbano, e nesta via a vinda do turista emerge como uma forma de troca de saberes e contribui para a manutenção e conservação de elementos étnicos. Para o tuxaua da comunidade I’nhãa-bé “o turismo nos aproxima de outras culturas além da valorização dos nossos saberes, deixados pelos nossos pais”.
Na Amazônia, o turismo étnico indígena é hoje uma alternativa socioambiental muito importante, pois explora uma experiência diferente aos turistas, que fogem dos padrões de vida urbanos, aproximando-os da natureza e mais próximo a uma cultura diferente. Neste sentido, é necessário compreender como nasce o território turístico, e mais especificamente o território turístico indígena, com suas peculiaridades e dialeticidade. Novas formas e funções são dadas ao território. O turismo faz com que os elementos do espaço se reconfiguram e se refuncionalizam de modo a atender aos interesses dos visitantes e esta dinâmica promove expressivas mudanças visíveis e invisíveis nos lugares.
Lugares afastados e que sejam atrativos turísticos, são desafios maiores para os operadores turísticos, devido à falta de estruturas para a recepção dos turistas, e ainda, a falta de preparação dos moradores para a atividade. Ainda sobre isso, Luchiari (1998) aponta para a questão na análise das relações que se estabelecem entre antigas paisagens e velhos usos e novas formas e funções, impulsionando a relação do lugar com o mundo trazendo então novos costumes, hábitos, maneiras de falar, mercadorias, modos de agir. Desta forma, recria-se a identidade do lugar e se produz de modo dinâmico um espaço social híbrido, onde o velho e o novo fundem-se dando lugar a uma nova organização socioespacial.
Sendo as populações indígenas próximas à capital mais vulneráveis a esta dinâmica, é importante entender até que pondo o turismo interfere na organização sócio espacial e cultural destes povos. Na Amazônia a atividade turística em comunidades indígenas ainda está sendo estruturada aos poucos, e o acompanhamento desta questão é de extrema necessidade para identificar formas de manter a autenticidade destas comunidades.
Formação do Território Turístico em Comunidades Indígenas - O território na análise do espaço geográfico, se caracteriza como elemento de identidade que transporta ao pertencimento a um lugar. Santos (2000) destaca ainda que o território é o que marca a identidade de um povo, o chão e a população, onde se estabelecem as relações de trabalho e a vida das pessoas, e a partir deste, o sentimento de pertencimento ao lugar. Nesta perspectiva, este território se forma da ação humana sobre o seu espaço e de como ele organiza e dá funções a cada um dos elementos, como transforma a natureza a partir do seu trabalho e como dá significado ao lugar. Santos (1996) diz que a configuração territorial se estabelece no conjunto formado pelos sistemas naturais existentes em um dado país ou numa dada área e pela forma como o homem se impõe sobre este sistema natural. Para o autor, a configuração territorial não é o espaço, já que sua realidade vem de sua materialidade, enquanto o espaço reúne a materialidade e a vida que a anima.
A organização da comunidade, sua forma de vida e as relações que estabelecem, são importantes para o turismo, como diz Wagley (1988). É neste espaço coletivo, que os habitantes de uma região ganham a vida, educam os filhos, levam uma vida familiar, agrupam-se em associações, adoram seus deuses, tem suas superstições e seus tabus e são movidos pelos valores e incentivos de suas determinadas culturas. As transformações do espaço, na perspectiva do turismo étnico indígena, envolvem além dos recursos naturais, os elementos socioculturais dos povos. Cruz (2000) entende que o turismo se configura na única prática social que consome elementarmente espaço. No turismo, em comunidades indígenas, a natureza em toda a sua exuberância e na forma como os recursos são usados, fazem parte dos produtos oferecidos ao turismo.
A cultura e o espaço, dialogam então com as necessidades do mercado turístico, o patrimônio cultural é então adaptado para ser produto a ser consumido. O Patrimônio é definido por Maldonado (2009) como conjunto dos valores e crenças, conhecimentos e práticas, técnicas e habilidades, instrumentos e artefatos, lugares e representações, terras e territórios. Os diversos tipos de manifestações tangíveis e intangíveis de um determinado povo constroem seu modo de vida e organização social, sua identidade cultural e suas relações com a natureza. O turismo realizado nas comunidades tradicionais promove alterações na dinâmica social e natural destas localidades como tratam Fraxe (2011) e Beni (2000, 2001). As mudanças nas formas de uso dos recursos naturais e as transformações espaciais, citadas por Santos (2013, 2015) são facilmente percebidas na comunidade Sahu-Apé dos índios Sateré-Mawé localizado na Amazônia Brasileira.
O turismo, para as comunidades indígenas, se configura em elemento de mudança das relações com a cultura e com o espaço, pois os modos de vida e o uso dos recursos naturais, são elementos que atraem os visitantes. Neste sentido, o espaço é modificado para este fim. A comunidade então atua no sentido de construir um trabalho coletivo usando o espaço que possui, para a vida e para suas manifestações culturais. Cada povo impõe diferentes significados ao ambiente natural e social, e como cita Claval (2001), parte da experiência do homem que constrói suas representações mentais.
O território é o locus da expressão cultural do povo, é no seu espaço que são coletadas as sementes, as folhas, os elementos animais e tudo aquilo que é utilizado de modo concreto na fabricação de bijuterias, artefatos e alimentos usados nestes momentos em que acontecem os rituais. Entende-se então, a importância do território como construção da identidade indígena, e como se configura em um elemento que atrai aos turistas por sua originalidade. No território é que um povo se expressa sua cultura, e esta, se consolida por meio de sua relação com os recursos do lugar onde este povo vive.
A Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (IPHAN, 2003), artigo 02, o Patrimônio Imaterial é definido como as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – assim como os instrumentos, objetos, artefatos e espaços culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, indivíduos reconhecem como fazendo parte integrante de seu patrimônio cultural. Esse patrimônio cultural imaterial – que se transmite de geração em geração – é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu entorno, de sua interação com a natureza e sua história, e lhes fornece um sentimento de identidade e de continuidade, contribuindo assim a promover o respeito pela diversidade cultural e a criatividade humana.
O patrimônio imaterial de um povo está ligado às suas expressões culturais, modos de vida, formas de interação entre homem e ambiente, e os elementos que constroem sua história. É este patrimônio que é transmitido para as gerações que se sucedem de modo a fazer com que os membros de um povo mantenham sua identidade e a continuidade do seu modo de vida, estabelecendo suas próprias territorialidades. No caso da Amazônia, a organização da comunidade, sua forma de vida e as relações que estabelecem, é importante para o turismo. As manifestações culturais influenciam o uso do espaço, e este, o modo de vida dos povos. Sobre esta relação Bonnemaison (2002) afirma que a cultura cria o território que é fortalecido pela relação simbólica que se cria entre a cultura e o espaço.
Para adentrar à floresta, segundo os habitantes que nela convivem, é necessário estar em harmonia com a natureza, com os animais, respeitando os elementos constituintes do espaço natural. Assim, antes de cada celebração, o líder espiritual faz invocações a deus Tupana, pedindo proteção aos seres vivos, uma boa colheita e outros pedidos, este fato acontece antes, durante e depois do ritual. Cada membro exerce uma função para a execução das tarefas (Carvalho, 2019). Essas relações com o ambiente, com os recursos e com os fenômenos da natureza também fazem parte de um conjunto que forma o patrimônio cultural de um grupo de pessoas, que pode constelar para o universo turístico, de acordo com Mello (2019).
A natureza Amazônica, como elemento Flora, tem sido um cenário que atrai turistas de vários lugares do Mundo. Os turistas preferem conviver com a paisagem natural, dentro do espaço indígena. Como elemento Fauna, eles apreciam as variadas espécies de peixe, costumam contemplar animais silvestres, navegar pelos rios, além de conviver com os indígenas e participar do momento ritualístico de pinturas como os grafismos, buscando o elemento Natureza.
O turismo em terras indígenas se concretiza a partir da valorização da identidade e, como afirma Moesch (2002), se configura em uma prática histórico-social que leva em consideração a ação dos sujeitos, seu espaço e seus simbolismos. Ou seja, a subjetividade que é inerente a cada grupo. Mas é relevante discutir que este mesmo movimento que o turismo causa em uma comunidade, pode também a modificar, na medida em que a adequação interfere na forma tradicional de vida destas comunidades.
Após anos de vivências de pesquisadores envolvidos neste estudo com as comunidades envolvidas e diante da riqueza de elementos e do contexto das aldeias pesquisadas, partir-se para uma análise qualitativa com base na dialética para compreender o contexto do processo de turistificação destas comunidades. Este estudo aproveitou a vivência empírica para entender a organização das atividades na comunidade. Assim, para além do aspecto científico, também o buscou-se compreender o aspecto místico e pessoal destas formas de vida, a partir do entendimento de que “... a experiência é uniforme porque é impermeável à razão” (Bachelard, 2006, p. 15).
O estudo se caracteriza como uma pesquisa dialética, com estratégias etnográficas e de abordagem qualitativa. Para isso, utilizou-se da pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo, por meio da observação e da descrição captando “características de determinada população ou fenômeno ou estabelecimento de relações entre variáveis” (Gil, 2006, p. 73). A etnografia se ancora nos aspectos antropológicos e sociais e, conforme descreve Geertz (2008), diz que, “ela orienta o pesquisador na seleção de informantes, no estabelecimento das relações com a comunidade, além de direcionar quanto ao mapeamento e construção do diário das atividades de campo” (p.4). Nesse sentido ela possibilita ao pesquisador um estreitamento denso e descritivo do campo. Nessa abordagem, no campo do turismo étnico devemos pedir inicialmente, a permissão para entrar no espaço da comunidade, bem como respeitar o tempo biológico dos participantes da pesquisa. Assim, o líder da comunidade Sahu-Apé destacou que “nosso tempo de atendimento depende do Deus Tupana, nosso guia espiritual, que permite o turista a adentrar. Temos prazer em receber e socializar os saberes do nosso povo”.
A dialética foi entendida neste estudo como abordagem que nos propõe a entender a construção do espaço em uma dimensão além do material, mas na sua ação humana, nas diferentes formas de apropriação do meio físico e na função em que cada elemento deste tem diante da vida cotidiana do homem. E é no diálogo do homem com a natureza, que o turismo modifica as paisagens. A abordagem foi selecionada por dar conta da compreensão do diálogo entre as vivências do ‘homem branco’ no cotidiano do indígena, e os diferentes olhares sobre o tempo e o espaço deste. Nesta via, há que se pensar nos conflitos que surgem diante da atividade turística, que ao mesmo tempo em que estimula o resgate de expressões culturais que possam ser usadas como atrativos turísticos, também pode promover uma modificação que as descaracterize.
A opção pela pesquisa descritiva foi motivada pela busca em compreender a dinâmica da produção do espaço turístico e a transformações do território indígena, tendo como base a justificativa de Veal (2011) que entende que a “pesquisa descritiva é muito comum na área de lazer e turismo por três motivos: o caráter incipiente do ramo, a natureza mutante dos fenômenos estudados e a frequente separação entre pesquisa e ação” (p. 24). Desta forma entende-se que este tipo de pesquisa é adequado ao tema a ser abordado diante das características do estudo. Permite que o território onde o turismo se estabeleça, seja mapeado e analisado, e se possa compreender a dinâmica que o turismo implanta sobre ele.
O processo de coleta de dados foi realizado em três etapas a seguir. Etapa teórica: foi realizada a construção bibliométrica com o constructo principal “Turismo Étnico”, e constructo secundário “Turismo Étnico Indígena”. Foi realizado o levantamento bibliográfico em livros, artigos e periódicos da base de dados EBSCO e CAPES [Banco de Teses e Periódicos], a partir do qual se construiu o referencial teórico e a base teórica para as discussões. Etapa de campo: nesta etapa foi feita a observação, coletas de pontos para georreferenciamento e aplicou-se um formulário com perguntas abertas a 15 participantes das aldeias indígenas Sahu-Apé e I’nhãa-bé.
Etapa de análise de dados: nesta fase, foi realizada a análise de conteúdo das entrevistas e elaboração dos produtos cartográficos. A análise do conteúdo, com base em Bardin (2016), se constituiu de um conjunto de técnicas de análise das comunicações que tem como objetivo, a descrição do conteúdo das mensagens e indicadores, por meio de procedimentos sistemáticos e objetivos, buscando inferir sobre os conhecimentos relativos às condições de produção/recepção [variáveis inferidas] destas mensagens. A análise dos dados foi realizada por meio de estratégias etnográficas com a intenção de “obter um quadro holístico do tema, com retratação das experiências cotidianas” (Creswell, 2010, p. 231).
A Etnia Sateré-Mawé [termo que significa lagarta de fogo] abrange, 11.060 mil indígenas, um número expressivo dentre outras etnias da região. De acordo com o site oficial da organização Socioambiental (2019), habita basicamente as duas terras indígenas no Médio Amazonas, já citadas, e destes locais, famílias migraram para vários municípios, tendo sido encontrados em Barreirinha, Parintins, Mawé, Nova Olinda do Norte e Manaus. Foi na década de 1970 que muitos indígenas Sateré migraram para Manaus em busca de melhores condições de vida e trabalho (Bernal, 2009). A história da comunidade Sahu-apé tem suas origens neste movimento. A organização do seu território parte da compreensão de um espaço próprio.
Para entender a concepção territorial dos povos indígenas, é necessário se depreender dos conceitos da sociedade ocidental sobre a terra, especialmente da propriedade privada e buscar essa compreensão a partir da cultura dos povos indígenas, ou seja, a partir da visão dos índios. Uma concepção que tenha a propriedade privada como parâmetro distorce o significado dos territórios indígenas, que são, por excelência, direitos coletivos. O olhar coletivo que o indígena tem sobre a terra, remonta à ancestralidade, em que as comunidades se formavam e permaneciam juntas, garantindo assim a permanência dos indivíduos. A terra indígena é então, uma terra dos homens em comunidade, e não uma propriedade privada como a maioria das pessoas conhece e prática.
Quando buscamos a relação com a perspectiva do território turístico é preciso entender que desde um ponto de vista geográfico, o que fundamentalmente interessa não é tanto a estrutura econômica de um dado território, mas sim o papel do espaço, na medida em que toda atividade social, e por consequência toda atividade econômica, necessita, imprescindivelmente de uma base territorial na qual possa desenvolver-se. “Importa, portanto, considerar a base territorial da atividade turística...” (Sanchez, 1991, p. 220). Sobre o espaço é que a atividade turística se constrói, e quando se trata do turismo étnico indígena, este espaço se caracteriza pela relação que o homem tem como ele, o indígena em sua riqueza de cultura.
Na fala das duas lideranças Sateré das comunidades pesquisadas, o turismo permitiu que se construísse um espaço livre para as expressões culturais, e estas mesmas expressões se tornaram o produto que eles comercializam e garantem o sustento coletivo. Cada criança que nasce na comunidade é uma esperança de perpetuação de suas tradições. Este mesmo turismo, visto muitas vezes como negativo para os indígenas por destruir sua cultura, pode ser o caminho para resgatá-la mesmo que de modo adaptado para uma demanda específica. Mas diante desta ‘tragédia’, qual seria a outra alternativa?
A reportagem mostra a luta de pessoas de 13 etnias que residem hoje na comunidade Sol Nascente, bairro Francisca Mendes em Manaus. Este grupo, assim como outros grupos urbanos que lutam para sobreviver na capital, possuem uma história semelhante de migração por falta de condições de vida nas cidades do interior, expulsos pelo crescimento imobiliário ou por posseiros que buscavam recursos nas terras onde estes grupos residiam.
Uma reportagem de um jornal digital de Manaus pode ser a resposta para este questionamento (figura 2):

A busca por emprego saúde e educação que empurra os indígenas para a cidade também não seria uma forma trágica de perda das tradições? Neste caso, a outra alternativa seria a manutenção destes povos nos seus locais de origem, porém nem sempre isso é possível. O turismo, nesta perspectiva, é uma saída viável economicamente e culturalmente, e estabelece a territorialidade dos grupos indígenas que a realizam.
A comunidade Sateré Sahu-Apé (o termo Sahu-Apé significa toca do tatu), assim como as comunidades Sateré-Mawé Yapyrehyt e Waikiru [localizadas no bairro da Redenção, Manaus], Inhãa-Bé e Mawé [Área rural de Manaus, rio Tarumã-Açu] e Waranã [município de Manaquiri], se formaram a partir da migração dos membros das comunidades localizadas no médio Solimões. Narrada pela própria matriarca com o auxílio de seu filho, SAHU, a história da comunidade Sahu-Apé, nasce com a Senhora Zelinda Silva Freitas, que foi enviada em 1969 para Manaus para que estudasse e trabalhasse. Não se adaptou à realidade urbana de Manaus e no ano seguinte, volta para a comunidade do Andirá e se casa com o sr. Benedito Souza e inicia sua família, com os filhos Mizael, João, Ismael, Lucemir e Midian. De acordo com Dona Zelinda, a escassez de alimentos foi um dos fatores que motivou a migração.
A comunidade se formou a partir de 1997 e as construções foram feitas de madeira, ainda em energia ou água encanada. Neste período, de acordo com as falas dos moradores, não se recebiam os turistas com frequência na própria comunidade. O grupo era convidado para fazer apresentações nos hotéis das redondezas ou ainda em eventos em Manaus. Está localizada na Vila do Ariaú, no km 36 da Rodovia Manoel Urbano [AM-070], registrada no número 610, município de Iranduba, região metropolitana de Manaus-AM. Está cravada no meio da floresta Amazônica, e ao mesmo tempo, com uma relativa proximidade da capital do Amazonas, Manaus. Este dado é muito importante quando se analisa o fluxo de turista nesta e em outras comunidades indígenas. Apesar de não ser considerada uma aldeia urbana, a comunidade tem fácil acesso tanto por via terrestre como por via fluvial, o que facilita e impulsiona as atividades turísticas no local.
A comunidade possui em 2020 uma área delimitada de 10.500 m², aproximadamente 70 de frente e 150 de fundos, esta área é formada por um terreno cortado pelo paraná do Ariaú. O terreno é relativamente acidentado e com a inundação periódica do rio, sua área útil reduz bastante. De acordo com os moradores, no início das atividades turísticas, no final da década de 1990 e início da década de 2000, os poucos turistas que vinham na comunidade eram trazidos por alguns agentes de turismo que marcavam com antecedência para que esses se preparassem com a encenação do ritual da Tucandeira[i] e alguns artefatos para venda.
Na comunidade, conforme fala dos entrevistados, muitos itens foram mudados para que se estabelecesse uma atividade turística mais intensa ao longo dos anos. A compreensão desta lógica permeia antes de tudo, a compreensão do processo em que eles organizam não somente o espaço do turista, mas seu próprio espaço de vida, e integrando ambos, constroem o espaço da comunidade, constituindo assim em espaço complexo e relacional. Nesta área de estudo o fenômeno do turismo étnico surge em função da necessidade de trabalho destes indígenas, que, já não tendo o seu modo de vida natural baseado na caça, na agricultura e na pesca por falta de espaço, precisam sobreviver e para isso, transformar sua realidade para que se possa não somente adequar ao turismo, mas também, melhorar suas condições como um todo.
Nas comunidades Sateré do médio Amazonas, os moradores dispõem de terras extensas, onde podem cultivar raízes, frutas e verduras para a alimentação, bem como podem caçar na floresta e pescar nos rios relativamente conservados das redondezas. Já na proximidade da capital como é o caso das comunidades estudadas, as áreas das comunidades são bem menores, e a pressão urbana faz com que a pesca, a caça e a agricultura aconteça com bem menos intensidade, sendo insuficiente para o sustento dos moradores, como informa o Pajé da comunidade Sahu-Apé. O turismo então veio como alternativa de renda aos moradores. Esta comunidade apresenta diversos elementos que atraem os turistas (Figura 4). Organizada em forma de um pequeno circuito, a visita começa com a apresentação da comunidade no barracão central onde os turistas conhecem um pouco sobre o ritual da tucandeira, em seguida, visitam a ‘farmácia’ e conhecem os remédios feitos com os produtos da floresta, e por fim, são convidados a conhecer os artesanatos, onde podem adquiri-los.
Constatou-se na comunidade Sahu-Apé que o pajé atende vários turistas na farmácia indígena, denominada de kunã[ii] e, se constituindo, na fala da entrevistada A, no “primeiro lugar de visitação ..., o pajé explica as propriedades místicas e curativas de seus remédios, interagindo com os turistas, e às vezes, diagnosticando mau-olhado”. Dialogando com Nascimento (2013), a compreende-se a preparação dos remédios como um ritual, pois envolve saberes e fazeres específicos. Na entrevista B afirmou que “muitos turistas agendam visitas para conhecer a vida diária dos moradores, onde participam do ritual, convivem com o pajé, usando os remédios caseiros”. Esses remédios são preparados pelo pajé com ervas extraída da natureza. Além disto, o grupo musical é uma das atrações e é formado basicamente pelas crianças e jovens da aldeia.

A - Grupo musical Tatu Pequeno; B - Luva com formigas Tucandeiras usada no ritual; C - Jovem guerreiro da tribo pronto para o ritual de passagem para a vida adulta; D - Pajé apresentando os tratamentos na Kunã, ou farmácia; E - exposição dos artesanatos produzidos na aldeia.
Acervo dos Autores (2018-2019).As formas de expressão cultural e uso do espaço da comunidade, se constituem no produto que a comunidade oferece para o turista, é este modo de vida que o visitante busca, a expectativa do encantamento e do medo que envolve o misticismo. Castro (2007) enfatizou que a tradição cultural de um povo, isto é, os saberes dos povos indígenas, estão ancorados na ecologia, de forma natural e cultural. Estes saberes têm atraído os não indígenas, sobretudo turistas em visitação à Amazônia. Nesta direção, em contexto do turismo étnico, se apoiam na cultura em busca de fazer a imersão no cotidiano em espaços indígena.
Ainda com base nos relatos, antes do turismo a comunidade tinha outra estrutura, e não havia um espaço para que pudessem receber os visitantes. Com apoio do Programa Gasoduto Coari Manaus[iii] foi construído, com melhores condições o barracão e a escola, assim foi possível atender com mais conforto e segurança os turistas que visitam a comunidade.
Observa-se também em relação aos artesanatos, que houve uma adaptação para que estes fossem mais atrativos, mais coloridos e alegres para quem os compra. Mesmo com adaptação, os padrões Sateré foram mantidos, alguns sendo resgatados pelos próprios moradores com o apoio dos indígenas mais idosos de outras comunidades.
A aldeia I’nhãa-bé está localizada no entorno de Manaus, no rio Tarumã-Açu. Nesta comunidade, observou-se a manutenção de vários costumes étnicos, como os hábitos alimentares, a realização de festas religiosas tradicionais, o ensino da língua materna, o estímulo do resgate às narrativas orais entre outras atividades. O nome I’nhãa-bé significa chocalho na língua Mawé. Essa comunidade ocupa uma terra invadida pelos parentes Sateré, sob o comando de várias lideranças indígenas, conforme as informações recebidas do seu atual Tuxaua, Sr. Pedro Ramãw. Essa comunidade foi criada há quase 13 anos e é formada por 15 famílias indígenas, não somente da etnia Sateré-Mawé, mas também das etnias Tariano, Piratapuaia, Tikuna e Mura, as quais entraram na família Sateré por alianças matrimoniais e trabalham unidas na comunidade. As atividades econômicas que desenvolvem são derivadas do Turismo Étnico e a produção de artesanato.
Os ensinamentos do pajé, como rezas, bebidas, cantos, danças, uso de plantas medicinais, uso de sementes, colares, pinturas, grafismos indígenas, ancorados na semiótica, da natureza são elementos simbólicos carregados de significados, os quais são usados durante rituais indígenas. Isso mostra “um novo estilo de vida, assentado sobre o cuidado, a compaixão, a sobriedade compartida, a aliança entre a humanidade e o ambiente” (Boff, 2016, p.183). Compreender a cosmovisão é respeitar e manter viva o imaginário poético de cada povo, no respeito às tradições, por meio dos signos, os quais certificam a validam da tradição à identidade dos grupos étnicos, num diálogo semântico. Assim, a linguagem é simbólica e carregada de signos que motivam o indivíduo à imersão nas práticas ritualísticas em diversos momentos da vida, ligado à questão filosófica do significado. Essas linguagens simbólicas se despontam, ainda no sentido diário, como figuração do que se representam (Leach, 1996).
No que diz respeito ao turismo étnico, a teoria do signo empregada é a que revela os desejos dos turistas, nas imersões durante as práticas ritualísticas, de forma real de sua ação no contexto da promoção e recepção dos visitantes (Mello, 2019). Durante a imersão, no campo etnográfico da pesquisa, podemos destacar a narrativa do Tuxaua Sateré-Mawé, da aldeia I’nhãa-bé, área do município de Manaus, Amazonas, que em entrevista nos relatou a entrevista C, e diz que “eu tenho sido procurado por pequenos grupos de turistas que apreciam a tradição cultural do povo Sateré-Mawé”. Assim, tem divulgado a cultura a grupos de turistas. Para o mesmo entrevistado “o turismo sustentável é uma forma de sobrevivência para as famílias que compõem a etnia, presentes na região metropolitana de Manaus.
Quanto ao espaço, a aldeia I’nhãa-bé ocupa uma área de densa floresta, margeada pelo rio Tarumã Açu, de águas escuras e navegável. Nela todas as atividades estão ligadas às práticas ancestrais, isto é, aquelas passadas de geração a geração. Na aldeia o turista consegue conviver harmonicamente com os indígenas e com a natureza, assim, “o turismo e a viagem constituem um espaço de possibilidades e de reorganização imaginária e simbólica de si, do outro e dos alhures” (Amirou, 2007, p. 11).
De acordo com os entrevistados os atrativos mais apreciados pelos turistas são: o ritual da Tucandeira e seus elementos simbólicos, como as bebidas ancestrais, grafismos, canto, danças; participação de pescarias e apreciar as fases da lua; participar do roçado. A atratividade das atividades realizadas pelo turismo reforça a imagem como mediadora de informações (Guimarães, 2003). Para o entrevistado D, o espaço da aldeia é um local que é denominado pelos turistas de paraíso, isto é, “de uma imagem bastante privilegiada e tornou-se mítica culturalmente em todas as sociedades da Terra.” (Aoun, 2011, p. 1-2). A partir da narrativa dos entrevistados, a figura 3 demonstra as atividades que atrações turísticas na aldeia I’nhãa-bé por períodos do ano.

Os atrativos ao turismo, segundo MacCannell (1979) têm representações simbólicas [tratadas como signos]; para os indígenas, cada elemento tem um significado no aspecto do sagrado ligado ao xamanismo, ou seja, práticas de cura pelo pajé. Destaca-se, ainda, que o pajé é o ‘médico’ tradicional na aldeia.
O turismo étnico dentro das aldeias tem inquietado alguns pesquisadores da Antropologia, pois para eles, este tipo de turismo pode colocar em risco a cultura dos indígenas. No entanto, o discurso do entrevistado D (2019) “é um momento de socializar a cultura, por meio de nossas práticas deixadas pelos nossos antepassados, com isto garante o sustento dos moradores da aldeia”. Nessa perspectiva, sem dúvida, o turismo étnico tem que ocorrer de forma responsável e respeitosa, porém, em pleno século XXI, não se pode isolar ou deixar no anonimato as vivências ritualísticas dos povos indígenas. Esses saberes reforçam a resistência desta cultura há mais de quinhentos anos. Afinal, como as aldeias deste estudo estão no entorno da capital amazonense, Manaus, certamente, elas precisam gerar fluxo contínuo de atividades turísticas nas referidas aldeias.
Elucida-se que os entrevistados relataram que recebem turista de todo lugar do Planeta: “Já recebi turista do Japão, do Brasil, da Noruega, da Nova Zelândia ... eles vivenciam rituais, outros preferem ficar uma semana na Aldeia” (Entrevistado D, 2019). De acordo com os entrevistados, é um público desprovido de luxo, mas carregado de emoções, que busca um turismo alterativo, isto é, “.tudo aquilo que é extraordinário, entendido como diferentes e distintos dos seus cotidianos” (Mello, 2019, p. 82). No contexto amazônico, Santos (2010) enfatizou que o fortalecimento econômico e a crescente expansão do turismo foram acompanhados pelo aceleramento do fluxo em destinos turísticos diferenciados. Esses fatos permitiram que a etnia Sateré - Mawé buscasse alternativas de realizar as manifestações culturais sem descaracterizar a cultura. Nessa perspectiva, o entrevistado E relatou que “o turista, quando põe a mão na luva, ele está valorizando a nossa cultura, além de promover renda remuneratória para a aldeia”.
Nos dias de festividade do Ritual da Tucandeira, o turista quer vivenciar momentos nunca vividos por ele. Como se trata de uma festa sagrada, os cuidados e os zelos não são expostos a todos os presentes, somente entre seus parentes[iv]. Esse tipo de festa tem atraído muitos turistas, brasileiros e estrangeiros, que de um modo ou de outro se identificam com a cultura Sateré-Mawé. Conforme destacou o entrevistado D, “o turista não quer saber de luxo e conforto e sim apreciar e participar das atividades culturais na aldeia”. Cruz (2001) aponta que o turismo constrói novos significados para o espaço, e introduz objetos conforme sua demanda.
A comunidade I’nhãa-bé, por estar localizada na região metropolitana de Manaus, tem sido alvo de turistas que desejam vivenciar momentos diferenciados na aldeia. Um dos atrativos é o ritual de passagem denominado de ritual da Tucandeira. Esse ritual tem incitado o interesse de vários pesquisadores, alguns por interesse de divulgação no mercado midiático. Como exemplo da experimentação, o relato do entrevistado D (2019), morador da comunidade Inhãa-bé, relata em detalhes a experiência turística.
Como exemplo de uma experiencia do turismo étnico indígena, pode-se relatar sobre um moço da Noruega que ali chegou para vivenciar o Ritual da Tucandeira e representava uma emissora de televisão. Ele passou sete dias na aldeia, fez todos os procedimentos antes de participar do ritual, mas no momento da sua realização, não teve coragem por conta da dor que percebeu que iria sentir. Segundo o entrevistado D, há turistas que se instalam na aldeia por uma semana, onde eles passam a dormir na maloca em rede tecida por material ecológico, costumam pescar, andam em trilhas e participam de atividades no roçado, buscando vivenciar momentos a tradição cultural. Na figura 5, vemos o momento do ritual em que os jovens da aldeia e os turistas que tiverem coragem, colocam a mão na luva e sentem as ferroadas da temerosa formiga.

O interesse é cada vez maior em relação à cultura indígena, especialmente quando se trata do Ritual da Tucandeira, artesanatos, medicina tradicional e uso do guaraná, na língua waraná, sendo o demiurgo do povo Sateré-Mawé. Estes elementos são a expressão cultural e caracterizam o modo de vida dos indígenas. É a vida diferente do mundo urbano, que muitas vezes assusta, mas ao mesmo tempo em que encanta o turista. Este entende a relação do indígena com o seu espaço, com os elementos da natureza que nele existem, como a terra, as sementes, a água, o vento, os animais e as plantas. Estes elementos são a própria vida do indígena. Diferente do ‘branco’, que vive em um mundo cheio de artificialidade. É nesta perspectiva que o turismo étnico indígena constrói sua sistemática. É na relação que se constrói com um mundo diferente, com a vivência da integração do homem com a natureza, na experiência mítica do ritual da Tucandeira como no exemplo das duas comunidades.
Com a migração dos povos indígenas em estudo para área metropolitana de Manaus, realizar a incursão do campo nos proporcionaram pistas importantes para a compreensão advindas da cosmogonia e da cosmologia desse povo, mediante os saberes e fazeres tradicionais, da sua forma de ser, enquanto povo em migração. Esse caráter migratório construído, estabelece “uma relação na e com a cidade”, segundo Fiori (2018, p. 34), possibilitando mobilidade para uma fuga dos problemas e conflitos sociais nas Terras Indígenas. Para Santos (2015), as pesquisas sobre Sateré-Mawé não definem as causas pelas quais houve o êxodo rural. Foi a oportunidade do empoderamento das famílias de se reafirmarem na epopeia, na saga dos rios e canoas para a migração em espaços urbanos, no estado do Amazonas.
Nas narrativas memoráveis do professor Sateré, João Silva, destacou que desde “1998 entramos em parcerias com o hotel Ariaú, e realizamos um projeto na Fundação Estadual dos Povos Indígenas FEPI, hoje é a Fundação Estadual do índio, FEI, sobre o etnoturismo e tivemos a visão da importância do turismo na comunidade, na valorização da nossa cultura”. Para o tuxaua D “na cidade nossos filhos têm acesso à saúde, educação e melhores condições de vida e, é por meio do turismo que conseguimos nos manter”. Porém, nas narrativas da senhora Maria Silva Sateré, ela enfatizou que “temos boas lembranças do nosso roçado, da falta da nossa farinha, das frutas saudáveis, das pescarias ... na cidade tudo depende de muito dinheiro, além que não vivenciamos nossa cultura original”, a cultura que é mais bem vista “não como complexos de padrões concretos de comportamento-costumes, usos, tradições, feixes de hábitos, com tem sido agora, mas como um conjunto de mecanismos de controle-planos receitas, regras, instruções” (Geertz,2008, p. 56.).
Vivencias na cidade requer um novo planejamento dentro dos espaços das comunidades, além de controle para não dispersar a tradição cultural. Nesse viés, o que se percebe é um sentimento pela falta do território original, denominado de Terras Indígenas -TI, onde ficaram boa parte dos familiares e por outro lado o protagonismo nas áreas não demarcadas pela Fundação Nacional do Índio [FUNAI]. Por outro lado, percebemos a “emancipação e autodeterminação e a busca de espontaneidade, reforço das relações interpessoais e criatividade” (Weaver, 1991, p.415). Para tanto, o turismo étnico em comunidades indígenas traz benefícios quando realizado com responsabilidade, ancorado no tripé da sustentabilidade: cultura, economia e ambiental.
Ao longo da pesquisa, percebeu-se que é crescente a procura pelo turismo com povos indígenas, aqui denominado de turismo étnico indígena. Nesta perspectiva, esta tipologia de turismo se sustenta sobre as experiências que são completamente adversas à vida urbana. É na relação com a natureza que o morador destas comunidades expressa sua cultura, sinalizou Cruz (1999), porque “nenhuma outra atividade consome, elementarmente, espaço, como faz o turismo. [...] Esse consumo se dá através do consumo de um conjunto de serviços, que dá suporte ao fazer turístico” (p. 14S]. Sendo assim, a formação do território turístico se deu, nas duas comunidades, em função da crescente demanda por este tipo de atividade. Os espaços se funcionalizaram a partir de como o turista se relaciona com o modo de vida e a forma de uso dos recursos, diferente da realidade urbana. Assim, a dinâmica da produção de territórios turísticos [ou seja, da apropriação dos espaços pela prática social do turismo] comporta, com a incorporação de novos espaços, o abandono parcial ou total de outros, pois, entre os fatores que determinam sua valorização, destacam-se os modismos, produzidos pela ação determinante do marketing. (Cruz, 2001).
Neste sentido, o “turismo reinventa e cria funções, recupera antigas práticas e bens culturais por meio do folclore e monta atrações turísticas para a região” (Luchiari, 1998, p.15). O presente estudo demostrou que a atividade turística fez com que os moradores resgatassem algumas práticas que antes estavam esquecidas, principalmente pelos jovens. Tais praticas foram adaptadas para que se tornassem mais atrativas ao turista. O ritual da Tucandeira é um dos exemplos mais claros, pois se manteve sua essência mítica ao mesmo tempo em que se enfatizaram os aspectos visuais e se abriu a oportunidades para ‘não índios’ passarem pelo processo de dor, cura e força, que significa este ritual.
Os artesanatos passaram a ser confeccionado com materiais mais coloridos, ao mesmo tempo em que também se criou formas de expressão da cultura, tendo como base a matéria prima disponível nas próprias comunidades. Pode-se entender então, que o turismo reconstrói as práticas socioespaciais, ao mesmo tempo em que dá novas formas e funções aos espaços, mas há que se ter o devido cuidado para que não se destruam as tradições e culturas ou as modifique a tal ponte que as descaracterize. Com esta pesquisa, a partir das narrativas indígenas, em seus territórios, buscou-se mostrar os resultados que poderão orientar projetos específicos, em espaços do turismo étnico, viabilizando a organização de uma atividade turística, com responsabilidade, que não destrua as diferentes formas de vivência dos moradores, mas fortalecendo-as, na medida em que estas passam a ser também, sua ferramenta de trabalho e renda.



A - Grupo musical Tatu Pequeno; B - Luva com formigas Tucandeiras usada no ritual; C - Jovem guerreiro da tribo pronto para o ritual de passagem para a vida adulta; D - Pajé apresentando os tratamentos na Kunã, ou farmácia; E - exposição dos artesanatos produzidos na aldeia.
Acervo dos Autores (2018-2019).
