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Drª LUCIANE TODESCHINI FERREIRA EDUCAÇÃO, TURISMO E HOSPITALIDADE
Education, Tourism and Hospitality
Rosa dos Ventos, vol. 13, Esp., pp. 1-11, 2021
Universidade de Caxias do Sul

Entrevistas



DOI: https://doi.org/10.18226/21789061.v13i2021p11

Resumo: Em comemoração aos 20 anos do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hospitalidade, esta entrevista foi realizada em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul [Brasil], em outubro de 2019, por mestrandas e doutorandas do Programa, com a Professora Doutora Luciane Todeschini Ferreira, visando apresentar sua jornada acadêmica e profissional, ressaltando a trajetória nas áreas de conhecimento de Educação, Turismo e Hospitalidade.

Palavras-chave: Hospitalidade, Turismo, Educação.

Abstract: In celebration of the 20th anniversary of Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hospitalidade the interview with PhD. Luciane Todeschini Ferreira was conducted in the city of Caxias do Sul, state of Rio Grande do Sul [Brazil], in October 2019, by master´s and doctoral students from the Graduate Program, aiming to present her academic and career trajectory focusing on her path in the areas of Education, Tourism and Hospitality.

Keywords: Tourism, Hospitality, Education.

INTRODUÇÃO

Em vista aos festejos dos 20 anos do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hospitalidade da Universidade de Caxias do Sul [Brasil], fomos invitadas a realizar uma entrevista com Luciane Todeschini Ferreira, professora, orientadora e/ou coorientadora das participantes do grupo de entrevistadoras. A organização e apresentação da entrevista segue uma orientação metodológica-textual diferente da forma usualmente utilizada. Sem fugir do rigor científico exigido por um periódico dessa natureza, optamos por tecer, descritiva e afetivamente, o texto. Fragmentos textuais presentes no discurso da professora foram selecionados a fim de, para além de perguntas e respostas, constituirmos narrativas afetas às marcas teóricas que emergem da Hospitalidade.

Da trajetória da área de conhecimento em Turismo e Hospitalidade, em que a professora está inserida, como foco da entrevista, brotam memórias que se vinculam às próprias trajetórias das entrevistadoras e repercussões diversas. É daí que se tecem os pontos e pespontos numa constante artesania. No ponto de laçada desta artesania, o relato da professora, têm-se as primeiras incursões na vida acadêmica e profissional. Sua trajetória inicia com a formação no Curso Normal e com as aulas ministradas durante 27 anos na rede pública do estado do Rio Grande do Sul. Isso se reflete em nossas vivências com Luciane, como se manifesta nas palavras dela: Por isso que eu gosto e estou trazendo cada vez mais para a pesquisa, as questões sobre Educação e Hospitalidade.

Em 1988 a professora formou-se em Letras (Português-Inglês) pela Universidade de Caxias do Sul [UCS] e, na sequência, inicia uma pós-graduação lato sensu nesta instituição: Saí da UCS como aluna de graduação em 1988; em 1990 eu já estava fazendo uma especialização [...]. Algumas parcerias datam dessa época. A Professora Marcia Maria Cappellano dos Santos já tinha sido minha orientadora nesse programa de pós. Hoje, pesquisamos juntas sobre Educação, Hospitalidade e Turismo.

Ainda como professora na educação básica, dá início à trajetória profissional em cursos de nível superior na UCS, no ano de 1995. Aos poucos, foi ganhando maior espaço como docente, vindo a desempenhar também funções administrativas, em especial na coordenação do curso de Letras, função exercida nas cidades de Caxias do Sul, Farroupilha, Nova Prata e Veranópolis, onde o curso era ofertada pela Universidade. Refletindo sobre sua trajetória, destaca, de forma afetiva, o mestrado em Comunicação e Semiótica (1999), um programa interinstitucional entre Universidade de Caxias do Sul e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Eu já comentei com vocês em outras ocasiões, esse mestrado, pra mim, é um divisor de águas, porque eu vinha sempre com a perspectiva de texto dada pela Linguística. Embora eu fizesse algumas incursões pela linguagem visual, o meu objeto de análise, não raro, era o texto escrito. Essa visão modificou-se ao longo do mestrado.

Podemos perceber que o mestrado, para a professora, foi um divisor de águas. Ela salienta, com entusiasmo: Eu tive contato com pessoas das mais variadas áreas. Havia gente da educação, do rádio, do cinema, da dança, das tecnologias. Eu só pude crescer. Algumas teorias conversavam com a Linguística, já que tratávamos de e sobre linguagens. Muito do aporte teórico eu conhecia, mas também tive contato com autores que, à época, me eram desconhecidos (Edgar Morin, Charles Sanders Peirce, Ilya Prigogine). Questões de pós-modernidade e de avanços tecnológicos já eram debatidas. Então, pra mim, foi um grande divisor de águas, essa abertura, essa amplitude, esse conhecimento expandido.

Ainda nesse contexto de divisor de águas, Luciane destaca a influência da Professora Lúcia Santaella. Ela não foi a minha orientadora, mas chegava para a turma e dizia: ‘Hoje eu vou apresentar para vocês Peirce. Próxima semana virá outro professor. Ele vai desdizer tudo o que eu disse’. Isso, pra mim, era uma quebra de paradigmas muito grande, porque dizia exatamente isso: olha, querida, a visão que se tem é sempre parcial e apenas uma. Você escolha uma, transite por ela, faça abertura por essa se você desejar. Esteja aberta para outros movimentos. No tricotar dos pontos, Santaella compôs uma das mãos na construção do tecido pessoal e profissional de Luciane. A orientadora, Professora Ana Maria Zilochi, também imprimiu marcas na então mestranda. A Professora Ana sempre apresentou uma orientação segura. Me dizia uns nãos, quando eu estava me desviando do objeto e respeitou o meu desejo. Quando finalizei o trabalho, lembro-me de ter dito a ela que eu deveria ter feito um estudo sobre a expansão do signo/ conceito <velhice>. Então ela, sorrindo, me disse: ‘Esse era o trabalho que eu gostaria que tu tivesses feito desde o início’. Rimos jutas. Generosamente aprendi que o desejo do outro deve também ser acolhido.

O mestrado ensinou a Luciane o quanto o distanciamento também é um bom professor: Quando estamos envolvidos no processo, não temos, muitas vezes, condições de efetivamente refletirmos sobre tudo o que estamos fazendo e aprendendo. Essa reflexão de forma mais aprofundada vem quando conseguimos nos distanciar um pouco.

Ao ingressar no doutorado, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no Programa de Letras, cinco anos após concluir o mestrado, muito em função de compromissos profissionais, destaca a influência de seu orientador. E no doutorado eu tive um outro grande mestre, que é o Professor Paulo Coimbra Guedes. Com ele aprendi que o professor é o seu aluno mais atento. Ele sempre dizia que o professor é aquele que se projeta na primeira classe, aprendendo. Foi ele também que me ensinou a capacidade de olhar o texto com atenção, com carinho. E foi ele também que respeitou meu tempo, que me deu tempo. Eu precisei de um tempo pra escrever, não foi algo tão fácil. Ele deu o tempo pra eu amadurecer e poder escrever. A leitura dele era dialógica: ele conversava o tempo todo comigo, me questionava, dizia que não tinha entendido determinada ideia... Eram momentos ótimos.

Quando Luciane reflete sobre esses trânsitos, parece-nos que surge um processo de metacognição. A professora retoma o que foi dito por ela e analisa sobre a função do professor, sobre suas competências. Para ela, o professor deve estar atento à sua prática pedagógica, mantendo abertas reflexões durante o processo de ensino. Eu acho que o professor, obrigatoriamente, e eu vou colocar como uma obrigatoriedade mesmo, deve ser um ser reflexivo. Se o professor não pensa sobre sua prática, não reflete sobre sua prática, sobre sua ação educativa, qual é o seu papel? Porque nós estamos sempre trabalhando com seres humanos, e num mundo que se modifica a toda hora [...] então a reflexão nos permite sempre ampliar um pouco mais daquilo que nós estamos vendo, ou como estamos vendo. Eu acredito muito nesse professor reflexivo. E eu procuro ser assim.

Ao apresentar um pouco mais sobre a sua pesquisa de doutorado, sobre formação de professores, Luciane justifica a sua escolha, aproximando-a de sua própria trajetória. Então, no doutorado eu pesquisei sobre formação de professores. Por quê? Porque eu vinha de uma trajetória de professora de estágio da UCS: Estágio 1, Estágio 2, Estágio 3 e Estágio 4. E os estagiários precisavam produzir diários de leituras e diários de aula [estes diários, reflexivos sobre a prática docente].

Durante o doutorado, Luciane segue atuando como docente na formação de professores e descreve sua própria trajetória tendo em conta os fluxos de vida pessoal e profissional. Esses possibilitaram congruências que repercutiram na sua construção de tese.

Na sequência, quando questionamos sobre a sua inserção na UCS e, especificamente, no Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hospitalidade, chama-nos a atenção, afetuosamente, a descrição sobre os medos sentidos quando a professora foi convidada para lecionar na Universidade: Como sempre digo a vocês em tom de brincadeira [mas é verdade], sou filha da UCS. Minha formação acadêmica deu-se aqui: graduação, pós-graduação, até o mestrado foi aqui. Por duas vezes fui convidada a lecionar na instituição e as duas vezes eu disse ‘Não’! Verdade! [risos]. Eu fiquei com medo. Medo faz parte também do ser humano, não é? Pensei: Imagina, isso é muito maior do que eu. Um ou dois anos depois, ingressei na Universidade. Isso foi em 1995, época de grande expansão institucional.

Pelos pontos cruzados, a Professora Marcia Maria Cappellano dos Santos surge novamente como presença de destaque no percurso profissional de Luciane. Da vivência como orientadora na especialização aos contatos nos corredores, advém o convite para a participação em atividades no PPGTURH. Explica, então, sem ter muita certeza de como o encontro se deu: Acho que era coordenadora do curso de Letras e me reencontrei com a Professora Marcia em um evento da UCS. Aí comentei com ela que havia finalizado o doutorado. Ela já sabia de minha formação em Comunicação e Semiótica e me convidou pra eu participar do Núcleo de Pesquisa Desenvolvimento Humano e Social, Linguagem e Processos Educacionais. Foi essa a porta de entrada para o contato com o Turismo [...] comecei a me inteirar de conceitos que eram extremamente novos. Demorei um pouquinho, na verdade, pra fazer algumas construções. Ingressei no corpo colaborador e ministrava as oficinas de Leitura e Produção de Textos. Atividade essa que desenvolvo até hoje.

A sua atuação como docente na graduação em Turismo inicia pela disciplina de Português Instrumental que, posteriormente, passou a ser chamada de Leitura e Escrita na Formação Universitária. A professora não lembra da primeira vez que lecionou, na graduação, a disciplina de Hospitalidade. Lembra que atuou, em alguns momentos, em parceria com a professora Marcia. Nesse contexto, Luciane ressalta que essa disciplina vem perdendo espaço no curso de Turismo.

Para além do ensino, a professora sinaliza que a interlocução com a comunidade é também um desafio, defendendo a interlocução entre universidade e comunidade; pesquisa e extensão. Eu acredito na nossa capacidade, no nosso poder de conversarmos com as pessoas e de contribuirmos. Um dos projetos que Luciane cita, como exemplificativo dessa relação entre academia e comunidade, é o Aquecetur, apresentado como extensão universitária UCS, em parceria com representantes do roteiro Termas e Longevidade, com vistas à promoção de desdobramentos com repercussões na potencialização do desenvolvimento turístico.

O Aquecetur foi uma atividade de extensão, organizada aqui, junto ao PPGTURH. Chamamos doutorandos para conversar com a comunidade do Roteiro. Como isso aconteceu? A UCS participa do Comtur [Conselho Municipal de Turismo] da cidade de Nova Prata. [...] E, em um dos encontros, foi solicitado que a Universidade organizasse um evento acadêmico. Eles tinham interesse em refletir sobre as águas termais. Na época, definimos por encontros mensais. E funcionou muito bem. Então, às vezes, os cursos de extensão nascem assim, de uma conversa. Esse, então, é um que até solicitam que a gente volte a fazer. É interessante, porque desses movimentos reflexivos, as pessoas repensaram também as suas práticas, repensaram as suas ações, o que estão fazendo nas comunidades. Esse, me parece um caminho interessante; fazer essa parceria universidade-comunidade, via extensão, e mais, via programa de pós-graduação, já que há conhecimento sendo aqui produzido.

Outro projeto coordenado pela professora, que fez essa articulação entre as duas áreas, foi o Reflexões Conceituais sobre Turismo, Hospitalidade e Educação, por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência [Pibid]. Os graduandos em Letras Português/Inglês que participam do Pibid, após intervenção em escola de Educação Básica, tiveram um encontro com doutorandas do PPGTURH para discussões afetas às áreas em questão, buscando ampliar conhecimentos que repercutissem na prática docente: No PIBID, eu fiz orientação, junto com professor de escola, a acadêmicos do curso de Letras, para pensar questões de ensino. De ensino e, óbvio, por essa minha trajetória no Programa, de Acolhimento e de Turismo, hospitalidade e acolhimento. Então foi uma nova abertura para alunos que serão professores de língua de rede de ensino: pensar questões de Hospitalidade.

No que tange aos projetos de pesquisa no PPGTURH, o primeiro que a professora participou, cuja coordenação esteve sob a responsabilidade da Professora Marcia Maria Cappellano dos Santos, foi o Relações Dimensionais de Hospitalidade/Acolhimento, que já estava em andamento na comunidade de Ana Rech. O projeto originou a agenda As Vozes de Ana Rech. Este é apenas um dos projetos de que ela fez/faz parte, como colaboradora do Núcleo de Pesquisa. Também se propõe a criar e coordenar os seus, na continuidade de estabelecer aproximações entre Turismo, Hospitalidade e Educação.

Como destaca em sua fala: O projeto Eduhtur, meu projeto atual, procura exatamente investigar o quanto a educação está inserida como um eixo constitutivo do desenvolvimento turístico. [...] está em desenvolvimento no Roteiro das Termas e Longevidade, que abrange com cinco município: Nova Prata, Protásio Alves, Vila Flores, Veranópolis e Cotiporã. [...]Vou trabalhar com os gestores e professores desses cinco municípios, buscando identificar, analisando, o quanto a educação pode aparecer como esse elemento constitutivo ou não. Como perspectivas para dar continuidade ao projeto, a professora aponta: Eu acho que existe um grande campo a ser feito junto aos professores de rede de ensino e de pensar sobre elaboração de material educativo, buscando pontuar as relações humanas e de acolhimento.

Promover essa articulação entre ensino-pesquisa-extensão é um desafio crescente para as universidades e, também, uma atribuição dos docentes. Isso fica evidenciado na trajetória de atuação da professora. Extrapolando a articulação entre áreas do conhecimento, notamos, por meio de suas atitudes e ações, grande aproximação com pesquisadores aprendentes. Isso se reflete quando a questionamos sobre suas orientações, pois, em sua resposta, ressalta cada um de seus orientandos e as pesquisas desenvolvidas por eles. A construção coletiva, que, no discurso, aparece pelo uso da primeira pessoa do plural, é marcada pela simetria nas relações estabelecidas, sejam elas em qualquer dimensão.

Reflexos da teoria construída pelo grupo parecem se entrelaçar ao comportamento da professora, tendo em conta que: “A definição de simetria no fenômeno acolhimento leva em conta o nível de igualdade [...]” (Perazzolo, Pereira e Santos, 2014, p. 5). A simetria “se mostra significativamente adequada para favorecer o crescimento interpessoal, na medida em que permite ativar trocas transformadoras e pressupõe disposições solidárias, francas, assim como o reconhecimento do potencial e da estética das diferenças” (p. 9). A mestranda Lisele Taufer, quando eu propus: ‘Vamos trabalhar um pouco com internet, buscar Hospitalidade/Acolhimento, por aí’, ela deu um passo além e passamos a refletir sobre Turismo e Realidade Virtual, pensando se as experiências com o uso do dispositivo óculos 3D podem ser caracterizadas como turísticas. Esse trabalho foi e é um grande desafio (Taufer, 2020).

Eu orientei o mestrando Gabriel Godoi da Silva, ele sempre pesquisou sobre o CouchSurfing e, agora, busca fazer aproximações com teorias de Hospitalidade, refletindo ainda de que tipo é a hospitalidade que ocorre no CouchSurfing: não seria um tipo diferenciado de hospitalidade doméstica? (Silva, 2020) Também oriento a mestranda Aline Neves da Silva, que caiu de avião aqui [Aline é comissária de voo]. Estamos conversando, mas os questionamentos estão derivando para a profissão de comissário de voo e Hospitalidade: do encenado ao não encenado. Ah, também participei de coorientações, a doutora Marcela é uma delas (Marinho, 2019).

Ainda, via discurso, é possível identificar a marcação que Luciane faz sobre outra dimensão proposta pelo grupo referente às condições do acolhimento (sincronia), aspecto que caracteriza contextos de tempo e espaço: “o acolhimento sincrônico é caracterizado pela ocorrência da hospitalidade num mesmo tempo e espaço experiencial. Trata-se da forma mais elementar e básica do encontro, em que as dimensões sensoriais, que incluem o olhar, a expressão corporal, a escuta direta do desejo e de saberes, se destacam na trama dinâmica do movimento que constitui o fenômeno do acolher” (Perazzolo, Pereira e Santos, 2014, p. 8).

Olha, um grande desafio do orientador [...] ele diz ‘siga esse caminho’. E o orientando resolve seguir outro ou outros. Sim, na verdade essas idas e vindas são ajustes que vão sendo feitos à medida que esse objeto, e eu digo sempre que é um objeto de desejo, vai se manifestando de forma mais clara para o orientando e também para o orientador. Quando esse ajuste começa a ficar mais fino, a orientação fica muito fácil, muito leve. Tu começas a ter uma maior sincronia com o orientando. Mas há um caminho a ser percorrido, nesse sentido. Para mim orientar é sempre um grande desafio porque implica saber ouvir e também saber dizer não.

Foi neste tear, de mesclas de áreas, pessoas [dentre outros, alunos de outros cursos, gestores públicos, empresários], vida pessoal e profissional, que se desenha a inserção e permanência da professora no universo do Turismo e da Hospitalidade.

Diante do exposto, é possível perceber o caminhar teórico da professora sobre Turismo e Hospitalidade, sendo que atualmente, com todas as interfaces estabelecidas, concebe Turismo: E o turismo é o que te move para o aprender. E se nós levarmos à máxima esse conceito, o sujeito aprendente é sempre um turista, para além do espaço físico. Mas ainda cabe muita discussão [...] para o grupo de pesquisa, o turista é aquele que se move na direção do desejo e na direção de um aprender. A hospitalidade, por sua vez, é a forma e o acolhimento, a dinâmica, de um fenômeno [...] que ocorre num espaço ‘entre’. Se é um espaço ‘entre’, nós estamos falando em relacionamento, o que ocorre nesse meio. Isso é legal! Porque não existe alguém só que recebe, alguém só que dá.

Nessa perspectiva, a hospitalidade é um dos elementos fundantes do turismo. Marcando-se novamente como membro de um grupo de pesquisa, ela aponta o diferencial que caracterizaria tais proposições de hospitalidade e turismo: Eu acho que o grupo contribui muito na perspectiva de propor algumas tipologias para se pensar a hospitalidade, já que temos que pensar de forma metodológica, mais organizacional. Eixos tipológicos para o acolhimento – simetria e sincronia – disposições para o acolhimento são alguns dos caminhos reflexivos tomados. Além disso, a partir do conceito de hospitalidade/acolhimento proposto, em que se discute a relação sujeito-sujeito, a professora, junto ao grupo de pesquisa, verifica a necessidade de refletir sobre a relação entre sujeitos e coletividades. Apresentam, a partir disso, o conceito de Corpo Coletivo Acolhedor [CCA] (Santos & Perazzolo, 2012). O CCA, nas palavras de Luciane, é uma ideia de sistema acolhendo. Quando pensamos, pensamos em cidades. Mas é mais que cidades. Na verdade, são sistemas.

Luciane analisa que essas contribuições teórico-metodológicas vão ao encontro da concepção que possui sobre a finalidade da universidade: É gerar novos conhecimentos, é provocar, ou seja, ver o novo, o signo expandir. É irmos para uma ideia mais de efervescência. Morin trabalha com essa expressão, efervescência. No âmbito da recepção desses conceitos pela academia, a professora destaca que, apesar das dificuldades em estabelecer diálogos com outros pesquisadores, interlocuções vêm sendo realizadas nos últimos anos: Nem sempre fomos bem acolhidos, nem sempre. Aquilo que eu comentei pra vocês: colocar a Educação nessa relação com Turismo e com Acolhimento... Olha, nós chegamos a ir para eventos que conversávamos quase tão somente conosco [risos]. Mas também isso é um aprendizado, e, talvez, água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Essa ideia de persistência ou obstinação ou, se quiser, teimosia também, com o tempo, pode gerar frutos. Eu diria que, no último encontro que fomos, no Chile, não éramos só nós falando sobre Educação. Havia pessoas também voltadas para essa perspectiva. [...] Eu acho que hoje os nossos conceitos têm maior acolhida no meio acadêmico, em geral. O grupo se constitui, tem ramificações... Nós temos interlocuções com pesquisadores como a Professora Isabel Baptista, temos com o Professor Lucio Grinover, Professor Leandro Brusadin. Agora, de novo, a Professora Ana Paula Garcia Spolon reativou o seu grupo de pesquisa, do qual nós fazemos parte. Me parece que é possível, sim, termos redes de pesquisadores.

Nesse mesmo sentido, as aproximações com esses pesquisadores parecem possibilitar que estudiosos do Turismo, Hospitalidade e áreas afins contribuam para harmonizar as teorias propostas pelo grupo em diferentes contextos e perspectivas teórico-metodológicas e se mostram como desafio de superação pessoal, profissional e mercadológica. Ressalta a professora: O primeiro desafio pessoal foi, exatamente, me inteirar sobre o que já existia de estudos sobre Turismo. [...] O outro grande desafio é trazer a Educação e perspectivar em Turismo e Hospitalidade, fazendo aproximações inclusive com o mercado. [...]O desafio, também, é que esses conceitos que são trabalhados no grupo possam ser, de certa forma, aplicados por outros, pra ver da sua validade... Ou que nós tenhamos que os rever. Isso é um grande desafio, mas esse é o desafio da própria pesquisa.

Ao falar sobre as perspectivas de pesquisa futuras, é como se Luciane retomasse os desafios anteriormente elencados. A professora projeta possibilidades de pesquisa junto com os orientandos, que trazem suas próprias perspectivas e interações, e, nessa direção, afloram outras novas propostas e alternativas para pesquisas futuras. Sobre o percurso pessoal e profissional, traz preocupações que nos parecem pertinentes ao profissional do século XXI no que tange aos conhecimentos, habilidades e atitudes relacionadas ao saber, ao saber-fazer e ao saber ser nos âmbitos e dimensões da vida. E como ser humano, o grande legado são as relações que a gente estabelece com as pessoas. E, às vezes, não são relações tão positivas, não. Às vezes são relações conflituosas. Então o legado que fica, é como nós conseguimos, a cada vez, lidarmos com todas as pessoas com as quais nós nos relacionamos.

Ao término do trabalho, para emendar os pontos tecidos durante a conversa, o que parece se sobressair é o afeto que emerge do discurso da professora no tocante às rememorações sobre o percurso trilhado nas áreas da Educação, do Turismo e da Hospitalidade. Uma vida inteira dedicada a essa perspectiva de ensinar e aprender. Com essas palavras, a entrevistada arremata o diálogo tecido conosco sobre uma trajetória que se constitui individualmente e também em conjunto, deixando alguns fios que futuramente ainda podem ser entrelaçados.

REFERÊNCIAS SUGERIDAS

Perazzolo, O. A., Pereira, S., & Santos, M. M. (2014). Sincronia e Simetria: proposições tipológicas para o acolhimento. Anais... XI Seminário da Associação Nacional de Pesquisa em Pós-Graduação em Turismo, Ceará: Universidade do Estado do Ceará, 1-11. Link

Santos, M. M. C., & Perazzolo, O. (2012). A hospitalidade numa perspectiva coletiva: O corpo coletivo acolhedor. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, 6(1), 3-15. Link

Silva, G. G. (2020). Um sofá por vez: aproximações entre a voz institucional da rede couchsurfing e concepções teóricas de hospitalidade. Dissertação, Mestrado em Turismo e Hospitalidade, Universidade de Caxias do Sul, Brasil. Link

Taufer, L. (2020). Turismo, realidade virtual experiência turística: aproximações reflexivas. Dissertação, Mestrado em Turismo e Hospitalidade, Universidade de Caxias do Sul, Brasil. Link

Ferreira L. T., Dos Santos, M. M. C., Da Silva, A. N. & Bacim, G. (2020), COVID- 19: o estrangeiro que se impôs entre nós. Rosa dos Ventos - Turismo e Hospitalidade, 12(3 - Especial Covid-19), 1-11. Link

Lima, F., Santos, M. M. C., & Ferreira, L. T. (2020). Ensayos reflexivos cuestinadores sobre la dimensión pedagógica intrínseca al turismo prevista em la Concepción de ciudad educadora: el contexto brasilenõ. Gestión Turística, 33, 94-102. Link

Taufer, L. & Ferreira, L. T. (2019). Realidade Virtual no Turismo: Entretenimento ou uma mudança de paradigma? Rosa dos Ventos – Turismo e Hospitalidade, 11(4), 908-921. Link

Marinho, M. F., Santos, M. M. C., & Ferreira, L. T. (2018). Componentes curriculares de cursos de graduação em turismo: uma leitura sintático-semântica na relação dialógica entre áreas de conhecimento. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, 12(3), 197-218. Link

Perazzolo, O. A., Santos, M. M. C., & Ferreira, L. T. (2018). Terrorismo y Turismo: des fracasso de la hospitalidade al desplaziamento simbólico del deseo. Estudyos y Perspectivas em Turismo, 27(4), 902-920. Link

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Perazzolo, O. A., Ferreira, L. T., Santos, M. M. C., Zerger, E. (2016). Relações de Hospitalidade no entrecruzamento das dimensões ‘sincronia’ e ‘simetria’ no contexto do Turismo. Rosa dos Ventos – Turismo e Hospitalidade, 8(4), 1-17. Link



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