Entrevistas

Drª MARIA LUIZA CARDINALE BAPTISTA AMOROSIDADE, AUTOPOIESE E HOLISMO NOS ESTUDOS DOS ECOSSISTEMAS TURÍSTICOS

Lovingness, Autopoiesis and Holism in the Studies of Tourism Ecosystems

JENNIFER BAUER EME
Universidade de Caxias do Sul, Brasil
JÓICE DOS SANTOS BERNARDO
Universidade de Caxias do Sul, Brasil
MARIA LUIZA CARDINALE BAPTISTA
Universidade de Caxias do Sul, Brasil

Drª MARIA LUIZA CARDINALE BAPTISTA AMOROSIDADE, AUTOPOIESE E HOLISMO NOS ESTUDOS DOS ECOSSISTEMAS TURÍSTICOS

Rosa dos Ventos, vol. 13, Esp., pp. 1-21, 2021

Universidade de Caxias do Sul

Resumo: O texto apresenta a discussão sobre amorosidade, autopoiese e holismo, nos estudos dos ecossistemas turísticos, do turismo-trama, a partir de entrevista com a Profª Drª Maria Luiza Cardinale Baptista. A entrevista integra os registros comemorativos aos 20 anos do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hospitalidade, da Universidade de Caxias do Sul. A pesquisadora resgata conexões de sua história de vida e percursos na pesquisa e na docência. Destaca-se, na entrevista, o percurso de criação e consolidação do Amorcomtur! Grupo de Estudos em Comunicação, Turismo, Amorosidade e Autopoiese, vinculado ao PPGTURH-UCS. Os estudos da professora e do grupo que ela lidera desenvolvem-se com ênfase na interface Turismo, Comunicação e Subjetividade, com proposição autoral metodológica, a Cartografia dos Saberes e as Matrizes Rizomáticas, já consolidadas em estudos nacionais e em parcerias internacionais.

Palavras-chave: Turismo, Amorosidade, Autopoiese, Cartografia dos Saberes, Matrizes Rizomáticas.

Abstract: The text presents discussions on amorosity, autopoiesis and holism, in the studies of tourist ecosystems and of tourist-plot, based on an interview with Prof. Drª Maria Luiza Cardinale Baptista. The interview is part of the 20th-anniversary records commemorating by the Program in Tourism and Hospitality, at the University of Caxias do Sul. The researcher recovers connections from her life story and paths in research and teaching. The interview highlights the creation and consolidation of Amorcomtur! Study Group on Communication, Tourism, Love, and Autopoiesis, linked to PPGTURH-UCS. The studies of the professor and the group she leads are developed with an emphasis on the Tourism, Communication and Subjectivity interface, with a methodological authorial proposition, the Cartography of Knowledge and Rhizomatic Matrices, already consolidated in national studies and in international partnerships.

Keywords: Tourism, Lovingness, Autopoiesis, Cartography of Knowledge, Rhizomatic Matrices.

INTRODUÇÃO

Jornalista de formação, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Maria Luiza Cardinale Baptista é doutora em Ciências da Comunicação, pela Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, com estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura da Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas. Integra o corpo permanente de docentes e pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hospitalidade e, também, do curso de Comunicação Social da Universidade de Caxias do Sul. É líder do Amorcomtur! – Grupo de Pesquisa em Comunicação, Turismo, Amorosidade e Autopoiese [CNPq-UCS], em conexão com pesquisadores de várias regiões do Brasil e do exterior. A professora Malu Cardinale, como é mais conhecida, nasceu no interior de São Paulo, onde passou a infância apaixonada por estudar e escrever, assim como aprendeu a ‘florescer’, com os fazeres de florista em família. É mãe adotiva de quatro filhos e mãe biológica de uma filha, o que já sinaliza para uma orientação voltada para a amorosidade e para a reinvenção no dia a dia, nas aprendizagens e enfrentamentos de desafios cotidianos.

ENTREVISTA

Jennifer Bauer Eme e Jóice dos Santos Bernardo [JBE & JSB]: Professora, qual é sua formação?

Maria Luiza Cardinale Baptista [MLCB]: Sou jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1986, apaixonada pelo Jornalismo, desde sempre, pela contação de histórias, pelas descobertas no cotidiano. Também sou mestre e doutora em Ciências da Comunicação, pela Universidade de São Paulo, experiência que me marcou muito. Terminei o doutorado no ano de 2000, na subárea Rádio e Televisão. No mestrado, fiz uma pesquisa sobre a relação do metalúrgico de Porto Alegre com a telenovela e com a comunicação do sindicato. Então, foi um trabalho já interdisciplinar com a Psicologia, com os Estudos de Subjetividade, especialmente. Também já era um trabalho transdisciplinar, porque tinha uma base científica, com as referências que direcionaram meus estudos, a partir da aproximação com professores do Jornalismo, que trabalham numa perspectiva ampliada e holística, como o Edvaldo Pereira Lima e a Cremilda Medina.

Depois, no doutorado, estudei processos de escrita do jovem adulto, como expressão da subjetividade e da relação com a trama comunicacional, os meios de comunicação. É importante destacar nesta pesquisa, o viés epistemológico-teórico dos processos de escrita, que envolvem, não a materialidade na escrita, mas a processualidade da inscrição do sujeito. É uma questão de filosofia da Comunicação. O projeto foi aceito e eu fiz uma tese que propõe uma teoria sobre processos de escrita e sua relação direta com a trama subjetiva e comunicacional. Estava aqui, já definido o que eu chamo de ‘dimensão trama’, que transversaliza todos os meus estudos, também o modo como eu penso o Turismo e a Hospitalidade.

No mestrado, meu orientador foi o professor José Manoel Moran Costas, que foi ótimo. Ele trabalha com uma perspectiva humanista e amorosa, na Comunicação e na Educação, o que foi perceptível, já no acolhimento na USP, pela maneira como ele me recebeu. Ele já desenvolvia processos de ensino-aprendizagem com desconstrução da sala de aula, trabalhava muito com projetos. Então, os percursos de aprendizados, coordenados por ele, eram ‘campos de invenção’, como eu chamo, em que os pós-graduandos produziam ‘a aula’! É interessante lembrar, também, que Moran se reuniu com outros professores para criar a Escola do Futuro na USP, que foi um marco, no sentido de implantação de projetos, associando a tecnologia à lógica de projetos de aprendizagem. Por isso mesmo, esse professor é uma referência nacional, no que diz respeito aos estudos com projetos, à educação humanista e amorosa e, também, ao uso de tecnologias para o ensino presencial e a distância.

O professor propõe a construção do conhecimento, a partir do aluno e de aulas, que podem ser também a distância, com utilização de altas tecnologias. Desde a década de 1990, ele já previa que esta seria uma tendência no ensino. Então desenvolveu e participou de projetos do MEC, assim como deu consultoria para várias instituições que estavam implementando o EAD. Eu me dou conta que muito dessa referência de amorosidade, que nós cultivamos na UCS, e a orientação filosófica do Amorcomtur! também tem o traço do Manolo Moran, como nós, amigos, o chamamos. Ele propõe e manifesta profundo respeito pelos estudantes e seus diversos saberes, o que se expressa na maneira de tratar as pessoas e de se posicionar na Academia.

Depois, ser orientanda do professor Mauro Wilton de Souza, no doutorado, também foi um privilégio muito grande, não apenas pelas semelhanças, mas pelas diferenças também, entre nós. Do ponto de vista da perspectiva teórica, principalmente, éramos de mundos distintos. Ele é sociólogo e vinha de uma linha da Sociologia, com trabalho respeitado, a partir de uma visão mais estruturalista, com mergulho e apreço aos métodos tradicionais. Eu trabalho com teorias pós-modernas, ligadas à visão ecossistêmica complexa e holística. Na época, já combinava a fundamentação epistemológica de mutação da ciência, de autores como Fritjof Capra e Roberto Crema, com a esquizoanálise de Félix Guattari e Gilles Deleuze. São perspectivas desafiadoras, do ponto de vista da metodologia. Meu encontro com Mauro Wilton significou a oportunidade de ser cuidada e exigida a dar sustentação e fundamentação ao pensamento e modo de pesquisar, com consistência e possibilidade de diálogo com pesquisadores de outras visões paradigmáticas.

Então, foi um encontro muito forte o nosso. Eu refleti muito sobre os desafios da relação orientador-orientando. Com respeito às nossas diferenças, vivemos no Doutorado uma relação ótima, com muita parceria. Ele também me acolheu de uma forma grandiosa e foi um orientador muito exigente. Discutiu cada palavra da minha tese. Lembro-me que tive reuniões de orientação que duraram sete horas, o que não era muito comum na USP. Quando imaginava que meu texto estava quase pronto, voltava para Porto Alegre, com um texto todo marcado, com as ideias todas remexidas e questionadas. Parecia que tinha que reinventar a vida, de novo. Sou muito grata, por isso. Com o bombardeio de questionamentos, sei que fui cuidada e fui mais segura para a banca final.

Aprendi muito no Doutorado, fui amadurecendo. Mesmo trabalhando na tese com um embrião da Cartografia de Saberes, minha estratégia metodológica autoral, ela já tinha uma sustentação e um diálogo com a metodologia tradicional, o que foi muito elogiado na tese. A banca reconheceu que havia coerência em tudo que eu estava trazendo da epistemologia para teoria, metodologia e coleta. Fui aprovada com distinção e louvor, com uma tese de 440 páginas, escrita em primeira pessoa do singular, iniciando com poesia minha e terminando me chamando de Maluca. Ao final, servi espumante para a banca, porque me considerava uma vencedora de Fórmula 1, pelo esforço de ser pesquisadora, mulher, mãe adotiva de vários filhos, em um país como o Brasil. Na banca, uma avaliadora me disse: “Impressionante! Você é muito fértil!”. Eu não tinha conseguido engravidar até então. Só tinha filhos adotivos. Na semana seguinte à defesa de tese, engravidei, contrariando todos os prognósticos médicos. Minha filha biológica hoje tem 20 anos. Ao todo tenho cinco filhos; quatro são adotivos.

[JBE & JSB]: Como você se tornou professora?

[MLCB]: Penso que decidi ser professora por influência da minha mãe. Tínhamos uma fábrica de flores, no interior de São Paulo, onde eu, mesmo criança, também ajudava com pequenos fazeres. Acompanhava, diariamente, o jeito da minha mãe com as pessoas que trabalhavam na fábrica. Eram jovens adultos. Ela os ensinava, conversava, dava conselho, dava bronca, falava sobre a vida e sobre as flores. A Fábrica de Flores Santa Rita era um campo de florescimentos de projetos de vida. Éramos seres entrelaçados em produção de flores, com uma professora exigente, muito exigente, mas que nos fazia potentes, na brotação de margaridas, crisântemos, rosas, orquídeas, cerejeira, etc. minha mãe é uma professora por excelência, de saberes complexos. Uma matriz Cardinale, amorosa, como eu costumo dizer.

Na vida acadêmica, mais recente, a grande marca foi o Mestrado. Iniciei o Mestrado em 1989. Durante esse ano, cursava o mestrado em São Paulo, na USP, e trabalhava no Jornal Vale Paraibano, em São José dos Campos, um jornal de circulação em 40 cidades na região do Vale Paraíba, no interior de São Paulo. Foi ali, na redação, que reafirmei minha vontade de ser professora, o que vinha se mostrando, em várias situações, desde criança e ao longo da vida. Na redação do Vale Paraibano, presenciava muitas brigas, de chefias com a reportagem, de tratamentos pouco amistosos e de exposição dos profissionais que não tinham feito as matérias como a chefia queria. Por vezes, repórteres eram humilhados, em exposição diante do grupo, por terem feito matérias que não atendiam às expectativas dos leitores mais experientes - o secretário de Redação, os editores. Diante disso, comecei a chegar antes do meu horário e a chamar os repórteres à parte, para revisar as matérias. Dessa forma, quando o chefe chegava, as matérias já estavam prontas, revisadas e com os problemas resolvidos. Nessa época, uma repórter me disse: “Você tem que dar aula, porque eu nunca tive uma professora assim, que me ensinasse com calma, que tivesse paciência, que me dissesse o que eu tenho que fazer para melhorar”. Respondi: “Realmente, sempre sonhei dar aulas, desde criança. Ainda quero ser professora!". Minha mãe lembra até hoje que, quando criança, eu muitas vezes voltava da escola com os colegas, que tinham ido mal nas provas. Eu os levava em casa, para ‘dar aula’ para eles, para ensinar o que eles não conseguiam aprender na escola. A repórter do Vale Paraibano, depois daquela conversa, agendou uma visita nossa à Universidade de Taubaté, quando me apresentou e indicou, para o coordenador do curso. Na sequência, comecei a dar aulas naquela universidade.

A primeira aula que dei na minha vida, na graduação, em 1990, foi de Teoria e Método de Pesquisas e Comunicação, que era a disciplina preparatória para o Trabalho de Conclusão de Curso, em que os estudantes tinham que fazer o projeto do trabalho final de seu percurso acadêmico. Lembro que, naquele dia, entrei em sala de aula e encontrei os alunos sentados em fileiras próximas à porta. Estavam localizados nas extremidades da sala e prontos para irem embora e se livrarem de mim. Percebi que precisava agir, me espelhei nas aulas de Metodologia da professora Maria Immacolata Vassalo de Lopes, na USP. Ela sempre dizia: “Saber metodologia é uma questão política”. Eu já tinha entendido que aprender metodologia ia me permitir ajudar os alunos a produzirem e a realizarem seus próprios projetos de vida. Por isso, este também foi um momento marcante. Comecei a trabalhar de forma muito personalizada, com cada estudante e com cada objeto de estudo, tentando ajudar a encontrar uma maneira de aproximar a metodologia dos desejos dos pesquisadores iniciantes.

Ao longo da vida, os encontros com os alunos me ajudaram a suavizar certa rigidez minha, que aparecia na tentativa de ajudar/ensinar. Às vezes, eu tinha um jeito duro de dizer o que eu queria, preocupada que estava, no sentido de que os estudantes se comprometessem e escolhessem o que eu achava que era ‘o caminho certo’. Aos poucos, no entanto, fui entendendo que esse discurso também levantava oposição e estava ligada a uma visão arcaica da Educação. Alguns ficavam receosos e não conseguiam avançar. Isso não melhorava a comunicação e a produção das pesquisas, com alguns dos estudantes. Quer dizer, tentando ajudar, para alguns, eu também podia atrapalhar. Entendi, então, que conhecimento e boa vontade não bastam, ao professor; é preciso disposição de entrega, um exercício de calma e paciência constante, bem como a escuta ao jeito dos estudantes. É preciso sentir-se desafiado a construir pontes, para seus corações e afetos, para conseguir mobilizá-los a produzir algo que os deixem felizes consigo mesmos. Tenho convicção de que é um desafio potencializar autoria, fazer com que o sujeito se autorize a ser autor de si mesmo. Portanto, no encontro com os alunos, eu fui entendendo que a amorosidade é o melhor caminho, sempre! Amorosidade potencializa a autoprodução, a autopoiese. Às vezes, se a pessoa não quer, não há o que fazer. A única orientação possível é explicar as consequências e investir na relação, como potencializadora do agenciamento de micro movimentos. Quem sabe, dessa forma, em algum momento, esses entrelaços de amorosidade e confiança possam produzir alteração ‘dentro do sujeito’.

[JBE & JSB]: E sobre ser orientadora?

[MLCB]: Produzir pesquisa a partir de cada humano, do ecossistema em que esse sujeito está inserido, com seu jeito, trama, jeitos e trejeitos. Aprendi que é com esse humano que eu vou trabalhar. Cada orientando é único. Realmente é uma joia rara, é uma obra de arte, que produz liames com o Programa ou com a graduação que é muito singular. No entrelaçamento geral com o grupo Amorcomtur!, com o grupo de orientandos, há vínculo que se assemelha, em termos de intensidade, quer dizer, o amor é por todos, mas cada orientando teu seu jeito, vem de um ecossistema muito próprio. Por isso, eu considero a orientação um exercício de amorosidade profunda e de investimento na singularização e autonomia. O tempo todo busco entender os caminhos para chegar ao coração do outro, afetivá-lo, no sentido de tocar seus afetos. Fazer isso de forma terna, amorosa e respeitosa, no sentido de construir laços de respeito e confiança. E desse coração, desse universo cognitivo, dessas potencialidades, ajudar a produzir movimento. E ainda ir acompanhando, para que a pessoa faça o movimento que ela quer fazer, não o movimento que eu quero. É quase que uma dança, um abraço e entrelaçamento humano, que volta a acionar movimentos. Sinto que os orientandos também me acolhem, também me ensinam, são o que eu chamo de um dos meus sustentos existenciais. Eu os tenho, para sempre, nos registros das lembranças internas, nos momentos alegres e outros nem tanto, dos processos de pesquisa. São trajetórias também marcadas pelo jogo de medo e inseguranças, que, com amorosidade e confiança, vão se dissipando e tornando a travessia, a viagem investigativa, possível.

Eu sinto que minha tese de doutoramento foi uma declaração de amor aos meus alunos, aos estudantes que passaram pela minha vida até então e aos que viriam depois. Fiz uma tese estudando os processos de escrita dos jovens adultos. No texto, está o relato de entrevistas de profundidade e acompanhamento de processos de escrita com 10 casos selecionados de orientandos. Fiz entrevistas com 21 orientandos, depois de aproximação investigativa com 150 alunos, que produziram textos sobre a relação deles com a escrita, sua história de vida e sua relação com os meios de comunicação. Fiz o relato de apenas 10, porque, com o trabalho de profundidade, só essa parte do campo já rendeu 200 páginas. Não apenas pela quantidade de páginas, mas também pelos sinalizadores encontrados nesses processos de escrita, eu já tinha a tese. Além disso, valeu muito a máxima que uso para finalizar processos: “Trabalho bom é trabalho pronto!”. Há muitas pessoas com teses ideais na cabeça, mas que não têm títulos, porque não finalizaram. Chega um momento que é como a gestação: ‘a criança’ tem que sair e você precisa entregar ao mundo!

Os estudantes participantes demonstraram gostar de fazer suas pesquisas, mesmo se sentindo desafiados e ficaram felizes, em dar as entrevistas e contar seus processos, conversar sobre o que tínhamos vivido juntos, na orientação. A experiência na época, também, é geradora do que sou hoje. Quando assumi a coordenação do Curso de Comunicação da Ulbra, o curso estava passando por uma avaliação do MEC. Criei o grupo de pesquisa chamado Loucos de Paixão de Pesquisa, que é a origem remota do Amorcomtur!. Fomos com 16 alunos para Piracicaba, no Congresso da Intercom. Essa foi minha primeira viagem com os estudantes. No aeroporto, diante de pais e mães, me fazendo recomendação, eu, que não era mãe ainda, me dei conta da responsabilidade que tinha diante de mim. Consegui me sentir um pouco mãe de cada estudante que viajava comigo, ter consciência da maternagem. A consciência se abriu para o fato de que vivo com os estudantes uma relação de maternagem acadêmica, exercendo meus traços de cuidadora exigente, uma mamma italiana, como eu costumo dizer.

[JBE & JSB]: Conta como foi tua chegada à UCS?

[MLCB]: Cheguei na UCS em 2011, motivada por algumas reflexões. Eu sou uma cientista holística, de profundos mergulhos teóricos. Uma pessoa ‘comum’ decide mudar de emprego e cidade. Eu faço isso também, mas sempre é algo associado a profundas reflexões. Primeiro, eu tinha vindo pra Caxias do Sul no Congresso da Intercom 2010. Lembro-me que, dentro do Teatro da UCS, olhei em volta, percorri o espaço com o olhar, observando detalhes do Teatro. Pensei, pensei e concluí: “Quero dar aula aqui!”. Havia ali uma confluência de fatores, o estabelecimento de um nó existencial. Penso hoje que a decisão se relaciona a muitos motivos. Eu sou uma pessoa do interior de São Paulo, já tinha decidido internamente que queria sair de Porto Alegre, para voltar a morar em uma cidade do interior. Gostava dos alunos na Unisinos, muito! Reconhecia que havia neles traços que me interessam nas pessoas e que relaciono com a vida em cidades menores: valores cristalizados, certo vínculo com a família, um ritmo não tão acelerado, enfim outro perfil subjetivo.

Outro motivo: eu sinto que, nas capitais, as relações são mais frágeis, há um distanciamento. Mesmo morando no bairro Bom Fim, onde a gente tem um vínculo entre a vizinhança, a turbulência da cidade, a mutação nos turnos do dia, a violência exasperada, o trânsito, o desassossego são fatores que me fazem questionar a existência em um lugar assim. Eu queria algo mais próximo da vida de onde eu vim, queria morar perto do trabalho. Queria voltar um pouco para minhas origens, para o que eu chamo de ‘plano de consistência subjetiva’, que é o que nos define. Queria um lugar mais quieto do que Porto Alegre, onde pudesse investir em densidade e calma. ‘C’alma’, como eu costumo dizer! Ao mesmo tempo, buscava um universo acadêmico aberto à criatividade, à ‘invencionice’.

Outro motivo de vir para a UCS era a italianidade da cidade. Na verdade, eu gostaria de mudar para a Itália, mas, pelo ecossistema familiar com cinco filhos, Caxias do Sul era a Itália mais próxima que eu podia ter, ao menos como lugar de moradia. Em Caxias, senti essa proximidade, com os nomes dos negócios das ruas, as lojas, os sobrenomes familiares, o jeito de falar da dona da padaria perto de casa, um tipo de laço e vínculo no olhar. As pessoas estranhavam minha alegria expressa, por exemplo, todas as vezes que a neblina baixava forte e encobria a cidade. Não entendiam por que eu ficava tão feliz. Eu sabia. Caxias me lembrava muito Bolonha, a vegetação, algumas regiões da cidade. O cenário evocava uma das cidades que amo no mundo. Bologna, majestosa! Talvez fosse o meu olhar, meu desejo, mas a neblina produzia isso em mim. Percebo que isso se conecta também com um dos Seminários, que leciono no PPGTURH, intitulado Narrativas Visuais e Midiatização do Turismo.

Fora isso, um amigo muito querido, um ex-aluno, me disse, durante anos: “A UCS é tua cara, tem tudo a ver com teu jeito”. De tanto ouvir a frase, eu acreditei. Meus laços de amoramizade com ele foram também um dos fios da trama que se formou forte, na decisão. Então, eu vim, fiz o concurso no final de 2010, de uma hora para a outra. Entrei em contato com um professor, muito meu amigo, Rafael dos Santos. Ele comentou que havia vaga na Comunicação, mas as inscrições finalizavam no dia seguinte. Separei os documentos, fiz o concurso. Para a prova didática, havia seis temas. Eu lecionava na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, era época de exames, tinha sobrecarga de tarefas na família, na minha empresa Pazza Comunicazone, de Porto Alegre. Era final de ano, tempo de sufoco gigante, para entregar as notas. Pensei, não vou ter tempo de preparação de aula de alguns dos temas, como teria que ser. Então, voltei e conversei como Moço da Parede, Jesus, dizendo: “Se é para eu passar, eu tenho que pegar o primeiro tema, sobre história do rádio e televisão, pois esse assunto eu sei de cor e salteado. Vivo dando aula sobre este assunto”. No sorteio, fui a primeira a pegar o papelzinho, onde estava escrito: ‘história do rádio e televisão’! Sorri agradecida, pensando: “Passei!”.

Só que eu ingressei na UCS em um momento muito difícil da minha vida, uma situação dramática de um problema de saúde de um dos meus filhos. Eu não tinha uma preparação financeira e nem um companheiro que me ajudasse no deslocamento para cá. Então, vim pra Caxias sem conhecer ninguém, foi uma grande dificuldade para conseguir apartamento, o que se resolveu, também, com a ajuda do Moço da Parede: consegui alugar um lugar ótimo sem fiador, e a pessoa que alugou o apartamento para mim nem me conhecia. Eu tinha quase perdido as esperanças, quando em uma conversa com o Moço, disse: “Olha, eu não consegui, não tenho fiador, os valores são muito altos. Se você acha melhor que eu alugue um apartamento, então procure!”. Cheguei no apartamento, oferecido por um professor que conheci naqueles dias, não tinha nada, lâmpadas, pia da cozinha, tanque..., apenas, na porta, acima do batente, havia uma fotinho de Jesus Cristo. Olhei para ele e disse: “Tu é muito bom, mesmo!”.

Assim, morei no apartamento sem nunca ter visto a dona. Percebo que tive, também, na chegada, a experiência do encontro com a diferença de entrelaços com pessoas do interior. Alugar um apartamento sem fiador, sem ser de alguém conhecido, em cidades grandes, como Porto Alegre é algo impossível. Eu gosto de refletir sobre essa questão do ‘interior’ porque penso que é um aspecto importante pensar a potencialidade de reinvenção da vida, do mundo, dos mundos, do planeta, também é claro, da Ciência. Os grandes centros urbanos estão saturados. Existe uma potência de reinvenção em lugares do interior, especialmente nos mais conectatos com a natureza. Os entrelaços humanos em outra relação com o ecossistema, mais amorosa, mais respeitosa, parecem ser mais promissores em ‘lugares do interior’. Para o Turismo, para a Comunicação e as Relações Subjetivas, a mudança, no meu entendimento, tem que começar no interior e tem que se pautar pelo acolhimento e amorosidade.

Quando cheguei à Universidade, passei por uma ‘prova de fogo’. Comecei com cinco turmas na graduação. Um mês depois, uma colega teve que se ausentar por licença-maternidade. Eu assumi, então, mais quatro turmas de TV. Então, passei a ter, ao todo, no semestre, seis disciplinas novas, para construir com os alunos de nove turmas. Foi assim que comecei! Não satisfeita, eu disse: “Vou criar um grupo de pesquisa!”.

[JBE & JSB]: Então, surgiu o Amorcomtur!?

[MLCB]: Houve um momento, logo no primeiro semestre, que eu disse: “Vou criar um grupo de pesquisa”. Aí alguém me respondeu: “Olha, é difícil, porque o pessoal vem aqui, na verdade, para assistir aula e depois volta para casa. Há alunos de outras cidades, trabalham durante o dia, chegam cansados. Não é muito fácil. Não sei se vai vingar”. Eu não aceitei. Queria criar um grupo de pesquisa, por conta da história que eu tinha com pesquisa na graduação, meu desejo, meu sonho de entrelaçamentos na produção de conhecimentos. Busquei informações e fiquei sabendo que havia a possibilidade de ser professor pesquisador, fazer um projeto um projeto de pesquisa.

Meu primeiro projeto de pesquisa tinha como título: Imagem, Sujeito e Mídia, que era uma derivação da minha tese, para pensar o sujeito, na linha da Esquizoanálise. Imagem, Sujeito e Mídia envolvia discutir as relações especulares dos sujeitos: eles com eles mesmos, eles com as outras pessoas – com espelhos pessoais próximos – e deles com a trama de mídias, com trama de personagens, de personalidades, de profissionais... A problemática pensada partia de questionamento sobre ‘no que você se espelha, para ser quem você é e quem você quer ser’. Para esse projeto, convidei alguns alunos para conversar – em aproximações investigativas – em conversas informais, sobre eles mesmos. Então, os atendimentos eram conversas sobre a vida, sobre o que eles gostavam, para tentar entender o jeito deles e o que eles gostavam de fazer, a singularização subjetiva e a transversalização da trama de mídias. Eu também pensava que, desses encontros, poderia brotar uma iniciação científica. Foi o que aconteceu. Com os primeiros estudantes, fui dizendo: “Meu objetivo é chegar o momento em que, dessas reuniões individuais, vamos começar a fazer reuniões de grupo, para conversas em que a gente troque experiências”. Desse modo, surgiram os Encontros Caóticos Amorcomtur!.

Naquele semestre mesmo, antes de acabar, a gente começou a se reunir sexta-feira à noite, como uma roda de conversa, um bate papo, que eu já comecei a chamar de Encontro Caótico Amorcom! Roda de conversa sobre o que estávamos pensando, sobre a pesquisa, sobre a vida. O nome foi pensado como estratégia de encantamento... Encontro caótico me parecia um nome simpático, para estudantes de Comunicação, mas também alinhado com uma consistência teórica: caos pensado como campo de possibilidades de criação e não como desordem. Então, o título tem inspiração em autores que discutem a temática do caos, como Friftjof Capra, Edgar Morin, Roberto Crema, Amit Goswani, entre tantos outros.

No percurso todo, o grupo passou por muitos desafios, mas que foram sendo superados. Avançou para situações como viagens, numa atitude muito de bravura do grupo mesmo, de dar um jeito, de juntar condições... A gente viajou, todas às vezes, ‘no peito e na raça’, com a nossa alegria, como motor principal. Fomos para o Encontro Nacional de Professores de Jornalismo em Ponta Grossa (2012), depois para o Encontro Nacional da Rede de Pesquisa em Comunicação em São Paulo (2012) e Natal (2013), para a Semana da Comunicação da UNESP, em Bauru (2013).

No ano em que o Amorcomtur! surgiu, o professor Ciro Marcondes Filho, da USP, me disse: “Malu, teu grupo tem que fazer parte da Rede Nacional de Grupos de Pesquisa em Comunicação, porque você tem uma metodologia diferenciada, a gente está discutindo Filosofia...”. No início, havia um estranhamento muito grande, porque era um grupo pequeno, de graduação. Dos sete grupos da Rede, nós éramos o grupo de graduação. Penso, no entanto, que marcamos presença da nossa produção, mostramos a seriedade do nosso trabalho, tanto que do trabalho na rede resultaram também publicações e parcerias acadêmicas que permanecem até hoje.

Destaco, também, as viagens do grupo, com foco especial para a viagem à Europa, um momento realmente muito potente, muito forte e sinalizador. Tivemos dois estudantes de Jornalismo, participando de eventos internacionais, com pós-graduandos. E o Amorcomtur!, depois, teve um momento bastante significativo, o edital UCS Santander para projetos internacionais. Foi um projeto aberto a toda a Universidade, com a proposta de selecionar pesquisadores ibero-americanos. Eu inscrevi o projeto “Amorcomtur! Usina de Saberes Luso-Brasileiros – ‘Com-versar’ viagens investigativas interculturais, a partir do acionamento de amorosidade e autopoiese nas rodas de conversa, como dispositivo de afetivação para a pesquisa – Ucs-Ufam-Ufrn/Uc”, que foi contemplado em primeiro lugar. Com o prêmio, fomos para Portugal, eu e a pesquisadora do grupo Natália Biazus, que, na época, era mestranda aqui no PPGTURH, oportunidade em que nos encontramos com o renomado pesquisador Boaventura de Sousa Santos, na Universidade de Coimbra, e também estabelecemos o início de uma parceria com professores de Turismo, dessa instituição. Entre eles, o professor João Luis Jesus Fernandes. Esse foi um outro momento de entrelaçamento do Amorcomtur! no cenário internacional. Fora isso, houve sempre minha preocupação de ampliar esses contatos. Então, além de Portugal, fui a Granada em eventos de Sociologia e Turismo e, a partir daí, se formou uma rede muito grande em Portugal e Espanha. Com a Itália, eu já tinha vínculos, mas, principalmente Portugal e Espanha, que permanecem fortalecidos até hoje, mais até que a América Latina. Atualmente, um sinalizador da potência da internacionalização construída, nesses anos de trabalho, é o projeto de pesquisa ‘Com-versar’ Amorcomtur - Lugares e Sujeitos! Narrativas transversais sensíveis, envolvendo sujeitos em processos de desterritorialização – Brasil, Espanha, Portugal, Itália, México, Colômbia, Egito, Omã e Índia, sob minha coordenação, com a participação de orientados do PPGTURH e pesquisadores de todos esses países.

[JBE & JSB]: Como foi a sua vinda para o PPGTURH?

[MLCB]: Eu fiz a seleção interna, em 2013. Eu estava na graduação, mas queria trabalhar em um dos programas de pós. Não tínhamos e ainda não temos Mestrado em Comunicação. Então, precisava uma oportunidade em um Programa, cuja pesquisa pudesse ser em interface com a Comunicação. Eu sempre quis fazer Ciência. Gosto de fazer pesquisa, mas eu gosto de fazer ‘pesquisa-ciência’, no encontro com as profundas dimensões do conhecimento. Então, eu queria esse tipo de profundidade, queria vir para o PPG para fazer pesquisa com essa intensidade, para poder ter mais tempo de pesquisa, discutir a dimensão epistemológica da Ciência, em relação a objetos empíricos complexos. E aí, houve uma chamada interna para credenciamento no PPGTURH. Me inscrevi, com o projeto intitulado “Desterritorialização Desejante em Turismo e Comunicação: Narrativas Especulares e de Autopoiese Inscriacional”. Este projeto é muito marcante para mim. Quando fiz o projeto e o memorial, para a seleção, entendi que sempre fui também interessada pelo Turismo, embora isso não estivesse explícito na trajetória acadêmica, nem era algo consciente. Hoje posso dizer que integrar o corpo docente permanente do Programa de Turismo e Hospitalidade da UCS é algo muito natural, diante da minha trajetória.

A desterritorialização, no sentido esquizoanalítico, o que é para mim a essência do Turismo, transversaliza toda a minha prática de pesquisa e representa a confluência de saberes e experiências. Tenho desenvolvido meu trabalho no PPGTURH, na confluência das trilhas Turismo, Comunicação e Subjetividade. Assim, essas são as principais linhas, quase como rios que vão me constituindo, é o que vai me entrelaçando mesmo. São três linhas de investigação transversalizadas pela dimensão ‘trama’, proposição minha no ano 2000, quando defendi a tese. São trilhas da trama de investimentos investigativos, de saberes. São rios de saberes que se cruzam; ora um tem mais destaque, ora outro. Em meio a essas reflexões, quando ingressei no PPGTURH, consolidei a ideia de que Amorosidade e Autopoiese, que eram as orientações do Amorcom! para pensar a Comunicação, não são somente pressupostos para pensar a Comunicação. São orientações para pensar a vida toda.

Então, gosto de ter delineado essas três linhas, de conseguir enxergá-las, porque elas me constituem e expressam. São rios em que navego mais à vontade, onde penso que posso oferecer alguma contribuição. Essas três trilhas são, por sua vez, transversalizadas por princípios orientadores: Amorosidade e Autopoiese. Esses princípios são transdisciplinares, por excelência. Devem ser considerados em todos os campos de saber, a Matemática, a Astrofísica, a Biologia, Arquitetura, com a perspectiva do rural... Com todas as áreas, com todo o conhecimento. Então, consigo perceber esses princípios, nas práticas de fazer flor na Fábrica de Flores Santa Rita, que foi o espaço de produção familiar, onde eu aprendi a produzir junto, a pensar aspectos de sustentabilidade, de parceria, de convivência, organização do tempo de trabalho. O que estava em jogo ali era Amorosidade e Autopoiese. Tenho bem claro que o que fazia com que nós produzíssemos mais, era o fato de estarmos juntos. Assim, pensamos no Amorcomtur, quando fazemos referência ao princípio filosófico africano: Ubuntu! – Somos quem somos porque somos nós, juntos.

[JBE & JSB]: Teu projeto de pesquisa atual é o Ecossistemas Turístico-Comunicacionais-Subjetivos?

[MLCB]: Na verdade, são dois projetos atuais. Ecossistemas Turísticos-Comunicacionais-Subjetivos, que está sendo desenvolvido desde 2018. O projeto mais recente é ‘Com-versar’ Amorcomtur - Lugares e Sujeitos! Narrativas transversais sensíveis, envolvendo sujeitos em processos de desterritorialização – Brasil, Espanha, Portugal, Itália, México, Colômbia, Egito, Omã e Índia. Todos os projetos que desenvolvi no PPGTURH têm a marca de uma dimensão epistemológica, uma dimensão teórica, uma dimensão metódica e uma dimensão técnica. Essas dimensões, a que me refiro, foram apresentadas pela Maria Imacolata Vassalo Lopes, na pós-graduação na USP e estão apresentadas no livro Metodologia do Trabalho Científico. Formulação de um Modelo Metodológico, que era a sua tese de doutoramento sobre a metodologia da pesquisa em comunicação.

Então, eu trabalho com uma dimensão epistemológica, que direciona meus estudos, para a lógica de uma ciência contemporânea, com alinhamento ao pensamento complexo, ecossistêmico e holístico. Isso implica pensar: é o pensamento complexo que pressupõe que os fenômenos estudados são fenômenos que precisam ser considerados na sua complexidade, nos múltiplos feixes de atravessamentos, nas múltiplas tramas que os compõem. Esses feixes são visíveis e invisíveis, materiais e imateriais, corporais e incorporais. Constituem... a trama!

Então, eu compreendo a ciência como o conhecimento que se produz de ‘fenômenos-trama’, de fenômenos complexos, que têm que ser abordados na sua complexidade e processualidade. Essa compreensão é que me fez trazer para o Turismo a pressuposição de trama, a dimensão trama, propondo daí o conceito, Turismo-Trama, lembrando que trabalho a dimensão trama associada à dimensão ecossistêmica. Daí, Trama Ecossistêmica ou Ecossistemas Turístico-Comunicacionais-Subjetivos. Isso implica dizer que não é possível fragmentar esse fenômeno estudado, assim como que não é possível parar esse fenômeno estudado, para analisá-lo. Eu tenho que compreender esse objeto em movimento e compreender que também estou em movimento. Nesse sentido, devo compreender que também sou sujeito e objeto da pesquisa. Sou quem pesquisa e quem se pesquisa e quem é pesquisado pela temática que se propõe. Ao mesmo tempo, o objeto do estudo parece também ter uma força, uma alma, na relação. Tantas vezes, me parece que o objeto de estudo é genioso, parece ter vida própria.

Então, na dimensão epistemológica, tenho o alinhamento com essa visão de ciência complexa, de ciência subjetivada, em que o sujeito que produz está absolutamente misturado. Ele compõe essa teia-trama de elementos, sujeitos, processos e matérias, que produzem o conhecimento. Essa teia-trama também é ecossistêmica, no sentido de complexidade em sistemas abertos, transpassados o tempo todo, interligados, interconectados. São marcados por vieses, como, por exemplo, são trabalhados por Ilya Prigogine, na ideia das estruturas dissipativas, o que vai se combinar com a visão rizomática da Esquizoanálise. Então, esses fenômenos são mutantes, interligados, complexos e tendem para uma derivação aparentemente sem rumo, mas que tem direcionalidades que podem ser apreendidas. É o que me possibilitou propor as Matrizes Rizomáticas, como sinalizadores da inflexão da pesquisa.

Os pressupostos teóricos estão, evidentemente, em coerência com os pressupostos epistemológicos, no sentido de serem absolutamente transdisciplinares. A ideia de disciplina para o Amorcomtur!, para a Malu pesquisadora, não faz nenhum sentido, porque não é possível disciplinar o que é o universo, o que é todo movimento. Então, quando eu falo que as pesquisas Amorcomtur! têm uma relação com a Astrofísica, com o pensamento do Marcelo Gleiser, por exemplo, é porque estamos entrelaçados na mesma teia. Como diz o teórico indígena Kaká Werá, o humano precisa compreender que o pulsar das estrelas é a mesma batida do coração. Então, tudo que a gente estuda tem uma similaridade, similitude, uma conexão com os grandes processos cósmicos, cosmológicos, astrofísicos, mas também matemáticos, especialmente da Geometria, menos com a Álgebra, mas também há conexões. Eu trabalho com fundamentações teóricas da Física, da Química, Psicologia, Filosofia, Comunicação, Administração, Turismo, Economia, Geografia, Esquizoanálise... Enfim, uma trama-teia teórica transdisciplinar. Diretamente no Turismo, meu pensamento se alinha com reflexões epistemológicas de Marutschka Moesch, especialmente pelo pressuposto de ecossistema do turismo, assim como Susana Gastal, e seus vislumbres de possibilidades do Turismo.

No plano empírico, os platôs – planos de intensidade contínua, na Esquizoanálise – permitem que a gente estude a teia-trama de subjetividade em um grupo de moradores de um determinado lugar, mas compreendendo que essa trama está conectada com uma grande teia cósmica, que tem a ver com os moradores dos Andes, da Galícia, do sul da Itália, e que tem a ver com Farroupilha, com Torres, com Caxias do Sul. Claro que aí, do ponto de vista teórico, em coerência com os pressupostos epistemológicos, as teorias que eu trabalho são teorias da Física, da Química, da Biologia, da Educação, dos estudos de subjetividade, da Esquizoanálise, alguns da Psicanálise, várias teorias da Comunicação, propriamente dita, há muita coisa de Economia, de Política, da área da Música, da História da Arte. Então, eu trabalho, efetivamente, com uma confluência teórica muito grande.

E aqui eu preciso dizer que essa trama transdisciplinar, teórica, que me sustenta, também foi construída ao longo de quase trinta anos, que é o mesmo tempo que eu dou aula de Metodologia da Pesquisa. Corresponde, também, ao tempo da Pazza Comunicazione, que é a minha empresa de supervisão de textos, consultoria e projetos de Comunicação. Com o trabalho nessa empresa, eu tive o privilégio de dar supervisão de textos de graduação, de especialização, de mestrado, de doutorado de pesquisadores de praticamente todas as áreas. Dei supervisão a teses do Agronegócio, da Engenharia, Marketing, muitas teses da Medicina, muitas teses da Arquitetura, Urbanismo, teses de Filosofia, Educação, da Comunicação, Serviço Social, Economia, muitos trabalhos da Matemática. Então, claro, que uma pessoa que faz o trabalho de supervisão que eu faço, de revisão profunda do texto e acolhimento do sujeito da escrita, como eu chamo, vai ter um conhecimento ampliado e desenvolver uma visão transdisciplinar. Eu não só revisei aspectos relativos à Gramática. Discuti os textos de todas essas áreas com os seus autores, no que eu chamo de ‘narrativa da pesquisa’, o que me possibilitou propor o que eu chamo hoje de Matrizes Rizomáticas, uma estratégia de checagem do alinhamento fluente da pesquisa.

A experiência da Pazza Comunicazione reforçou essa fundamentação, porque além do trabalho com as minhas pesquisas e de meus orientandos diretos, fui supervisionando pesquisas quantitativas e qualitativas, verificando e buscando métodos novos, das outras áreas. Assim, acabei montando um grande arcabouço de fundamentos, para propor a Cartografia de Saberes, proposição inspirada em produção da Suely Rolnik, apresentada no livro Cartografia Sentimental. O Manual do Cartógrafo que a Rolnik apresenta no livro ajudou a pensar a transposição do conceito da Geografia, para territórios subjetivos, psicossociais. Então, é uma pista, mas não define a estratégia, como eu propus. A Cartografia dos Saberes tem tanta inspiração na Suely Rolnik, quanto na minha relação com a Amazônia, que eu não posso deixar de mencionar.

No período de aproximação com a Universidade Federal do Amazonas, depois de 2010, pude confirmar algo que intuitivamente eu já propunha, ou seja, que a pesquisa é uma viagem na floresta! A metáfora se fez muito mais clara, assim como essa aproximação me orientou na consolidação das proposições Cartografia de Saberes, como estratégia metodológica de investigação, Matrizes Rizomáticas, como estratégia metodológica de construção e verificação do equilíbrio fluente da pesquisa, nos diferentes momentos do percurso. Não é por acaso que a visualidade das matrizes são os rios amazônicos. Com a imagem aérea dos rios, eu tenho a lógica rizomática inscrita em traços que, mais que isso, representam fluxos constantes, que se produzem numa lógica derivativa e dissipativa, para lembrar Prigogine e Humberto Maturana, teórico da Biologia Amorosa, do Conhecimento e Cultural. Como estratégia metodológica, A Cartografia dos Saberes representa a proposição de viagem investigativa, a partir de quatro grandes trilhas: Saberes Pessoais, Saberes Teóricos, Usina de Produção e Dimensão Intuitiva da Pesquisa.

Quanto às minhas pesquisas, é importante também fazer alguns destaques sobre a dimensão técnica também, à Usina de Produção, propriamente dita. Quero dizer que o fato de eu ter essa produção marcada pela autopoiese, que também beira à poética e é inscriacional, – em que eu me inscrevo, crio e aciono devires – não me faz menos técnica, menos rigorosa na pesquisa. Quem é meu orientando sabe o quanto eu exijo de coerência na pesquisa, de checagem, de alinhamento de procedimentos e busca de esclarecer a justificativa dos porquês, dos critérios de escolha e dos pontos de convergência e confluência, que nos permitem identificar sinalizadores. Nesse sentido, minha criatividade como pesquisadora, não me faz abandonar nenhum conhecimento técnico de nível de eficiência em pesquisa. Não me constrange, por exemplo, se um pesquisador do Amorcomtur! quiser fazer um trabalho quantitativo, como uma das técnicas utilizadas para a pesquisa. Já houve pesquisadores que trabalharam com técnicas quantitativas. Percebo que, às vezes, a gente pode fazer aproximações, a partir de uma quantificação, até para poder entrar em contato com elementos de materialidade e, desses elementos de materialidade, ‘sair do chão’.

Eu faço sempre questão de esclarecer que essa poética, que essa amorosidade, essa alegria, no sentido do Spinoza - alegria como potência de agir - não se distancia de uma eficiência técnica de investigação; ao contrário, quem me acompanha sabe o quando a gente – grupo Amorcomtur! – vai às raias da loucura, para buscar rigor, critério na produção e na narrativa, com a mesma intensidade. Então, além disso, além de trabalhar, buscando, às ganas, essa eficiência técnica, eu procuro combinar isso com a dimensão intuitiva da pesquisa, que me parece ser um ganho muito grande. Nessa dimensão, a pesquisa do Amorcomtur! Também vai se alinhar com pesquisas de ‘outros mundos’ mesmo, como a sabedoria oriental, com referências como Deepak Chopra e Amit Goswami, por exemplo, o que faz com que hoje o Amorcomtur! esteja sendo procurado por pesquisadores da Índia, do Azerbaijão, do Egito, da Arábia Saudita.

Pelo relato de pesquisadores que nos contatam, eles localizam as pesquisas pelas nossas produções e se interessam pelas temáticas, com abordagens diferenciadas e estratégias de pesquisa qualitativa que não conheciam, pelas quais se interessam também. Um dos professores da Índia me chamou e me convidou para participar de um evento e de uma publicação, também para estar entre os editores da revista que ele coordena. Então eu perguntei para ele: “Professor, como vocês me escolheram?”, e ele respondeu: “Nós queremos boas pessoas, nós queremos aproximação com boas pessoas. E nós sentimos que você é uma boa pessoa, pelos seus textos publicados!”. Eu penso que estamos produzindo Ciência com amorosidade, buscando ser e estabelecer conexões com pessoas responsáveis ecossistemicamente, em relação ao planeta.

Percebo também, como sinalizador, o fato de o grupo ter sido convidado, no ano passado, para apresentar a conferência de abertura de um evento ibero-americano sobre ensino, ética e responsabilidade social, em Portugal. Depois da Conferência, a interação com os pesquisadores da iberoamérica demonstrou claramente que o grupo está semeando amorosidade, bem-querer-bem, em produções de conhecimento, de qualidade internacional. Percebo ainda que essa orientação de amorosidade e autopoiese está sintonizada com amplas demandas afetivas de conhecimento, também no Turismo, o que fica ainda mais evidente nesses tempos de emergência do fim do mundo, temática que já discutimos há anos no grupo. Especialmente nessa perspectiva, falamos em Turismo-Trama, Comunicação-Trama, Subjetividade-Trama, Ciência-Trama e no seu avesso, no sentido de entender esse trançado, essa costura, esse tecido, essa trama, mas no seu avesso, que não o viés capitalístico costumeiro. Discutimos o Turismo e sua potência de processos de desterritorialização, amorosidade e autopoiese, com responsabilidade ecossistêmica e em sintonia com grandes preocupações mundiais dos nossos tempos, como a Agenda 2030, as rajadas de reflexões do mundo pós-Pandemia, buscando, para tanto, profundo e intenso alinhamento com Gaia, a Grande Deusa Mãe-Terra, o Planeta.

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