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A Cidade como Trama de Olhares na Construção de Destinos Turísticos: Permeando a Busca de Hospitalidade Urbana. São Luiz Gonzaga, RS, Brasil
The City as Plot of Lights in the Construction of Tourist Destinations: Permeating the Search for Urban Hospitality. São Luiz Gonzaga, Brazil
Rosa dos Ventos, vol. 13, núm. 04, pp. 1028-1049, 2021
Universidade de Caxias do Sul

Artigos



Recepción: 25 Mayo 2021

Aprobación: 07 Julio 2021

DOI: https://doi.org/10.18226/21789061.v13i4p1049

Resumo: O presente artigo apresenta um estudo sobre a relação que permeia o sujeito e a cidade. Traz como objetivo, analisar a cidade como trama de olhares, na construção de destinos turísticos, a partir do contraponto entre pontos turísticos e relatos de espelhamento, expressos por sujeitos vinculados ao município de São Luiz Gonzaga, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. A Cartografia de Saberes, proposta por Baptista (2014), é a orientação metodológica para a produção deste estudo, com realização das trilhas de saberes pessoais, saberes teóricos e a usina de produção. Foram realizadas aproximações investigativas, com levantamento bibliográfico. Nas ações práticas, observação direta, observação participante, rodas de conversa e relatos de espelhamento. Concluiu-se que a relação que permeia o sujeito e a cidade são relações de hospitalidade, acolhimento e amorosidade, todos imbricados na hospitalidade urbana. Essas relações podem, ainda, ser estreitadas e, com isso, provocar uma reflexão no que tange a novas expectativas e novas vivências, sob uma perspectiva hospitaleira, acolhedora e amorosa que envolva o cidadão local e o turista a partir da vida na cidade. Também, os pontos turísticos se mostraram atrativos, entretanto, diferentes espaços não citados na categoria de pontos turísticos são visitados com frequência e tem potencial de gerar construção de destinos turísticos.

Palavras-chave: Turismo, Hospitalidade, Cidade, Amorosidade, São Luiz Gonzaga, RS, Brasil.

Abstract: The present article presents a study about the relation that permeates the subject and the city. The objective of this study is to analyze the city as a plot of glimpses in the construction of tourist destinations, based on the tourist points and mirroring reports, expressed by subjects linked to the municipality of São Luiz Gonzaga, in the State of Rio Grande do Sul, Brazil. The Knowledge’s Cartography, proposed by Baptista (2014), is the methodological orientation for the production of this study, with the realization of personal knowledge, theoretical knowledge and the production plant. Investigative approaches were carried out, with a bibliographical survey. In practical actions, direct observation, participant observation, talk wheels and mirroring reports. It was concluded that the relationship that permeates the subject and the city are relations of hospitality and lovingness, all imbricated in urban hospitality. These relationships can also be narrowed and, with this, to provoke a reflection on new expectations and new experiences, from a hospitable, welcoming and loving perspective that involves the local citizen and the tourist from the life in the city. Also, the tourist attractions were attractive, however, different spaces not mentioned in the category of tourist spots, are frequently visited and have the potential to generate construction of tourist destinations.

Keywords: Tourism, Hospitality, City, Amorosity, São Luiz Gonzaga, RS, Brazil.

CONSTRUINDO A TRAMA DE OLHARES

O presente artigo apresenta um estudo sobre a relação que permeia o sujeito e a cidade, no que se refere ao turismo, na busca de hospitalidade urbana. Traz como objetivo, analisar a cidade como trama de olhares na construção de destinos turísticos, a partir do contraponto dos pontos turísticos e relatos de espelhamento, expressos por sujeitos [moradores e visitantes] vinculados à cidade de São Luiz Gonzaga, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Desta forma, para tornar possível tal averiguação, optei pelo uso da estratégia metodológica Cartografia de Saberes (Baptista, 2014), utilizando aproximações investigativas [levantamento bibliográfico] e ações investigativas [observação direta, observação participante[i], rodas de conversa[ii] e relatos de espelhamento]. É pertinente trazer que, esse estudo implica percorrer por estudiosos que conferem suporte teórico à pesquisa, cito Lucrécia D'Aléssio Ferrara (1990, 2004) para referir-se à cidade. Luiz Octávio de Lima Camargo (2004, 2015), Olga Perazzolo, Siloé Pereira, Marcia Maria Cappellano dos Santos (2013, 2014) para discorrer sobre a hospitalidade, o acolhimento e as relações. Maria Luiza Cardinale Baptista (2014) para a compreensão da amorosidade. E Lúcio Grinover (2006, 2007, 2013) para as questões específicas de hospitalidade urbana.

A cidade, como espaço de convivência, de encontros, partilha, relações, acontecimentos, tramas, história, cultura, negócios, turismo, faz tudo girar em torno às questões-problema e suas resoluções. Do mesmo modo, por suas relações é que se estabelece o passado, o presente e o futuro. Contribuindo com esse pensamento, Ferrara (2004) expõe que “a cidade se deixa observar para permitir a legibilidade das suas manifestações: enquanto representação, ela se faz visível através dos signos que concretizam sua imagem e identificam sua existência social” (p. 12). A cidade é uma descoberta que se dá a cada instante. Uma redescoberta a cada olhar. Nela, o transitar, percorrer sem pressa, curtir o cotidiano, igualmente passear, viajar para conhecer, descansar e até mesmo religar – o ‘eu’, a espiritualidade, a família, o espaço, fazem parte de uma parcela do cenário cultural urbano. E se completam com “o movimento, os adensamentos urbanos, os transportes, o barulho, o tráfego, a verticalização, a vida fervilhante; uma atmosfera que assinala um modo de vida e certo tipo de relações sociais” (Ferrara, 1990, p. 3).

Conjuntamente, não tem como pensar em relações [com o ‘sujeito’ e com a ‘cidade’], sem atribuir esse pensamento à hospitalidade, ao acolhimento e à amorosidade, todos imbricados à hospitalidade urbana. A hospitalidade, imprescindivelmente, passa pela intimidade do calor humano e pode ser compreendida como uma relação em que se estabelece uma troca [entre receber e ser recebido] (Camargo, 2015). Perazzolo, Pereira e Santos (2013) pontuam que, para que uma relação se estabeleça, é necessário que “pelo menos, dois sujeitos [ou grupos] estabeleçam uma interlocução da qual se origine um espaço ‘entre’ um e outro: o espaço do acolhimento, um espaço externo ao ‘eu’ e compartilhado por ambos [...]” (p. 03) Acrescentam as autoras, que a competência para o acolhimento pressupõe disposição para sair de si, criar e transitar por uma área que também é do ‘outro’, pressupõe acolher e ser acolhido. E amorosidade, é capaz de garantir amor[iii] e acolhimento, para tornar as relações mais agradáveis. A ação da amorosidade, também permite que se aproximem as pessoas do conjunto de virtudes, pois, nela, estão incluídos o cuidado[iv], o respeito[v], a confiança.

A hospitalidade urbana, por sua vez, o espaço da cidade - espaço público, é vista por Camargo (2004) por meio de um recorte no diálogo com o urbanismo, em que a forma de inserção espacial é a da cidade, constituindo-se os processos de relações sociais. Ainda nessa mesma linha de considerações, Grinover (2007) pontua que a hospitalidade urbana está relacionada ao turismo, à sustentabilidade e à globalização, assim, ao pensar e organizar o espaço urbano fica implícito o jeito e a forma de receber os visitantes. Posto isso, pode-se dizer que a hospitalidade urbana emerge das relações de ‘troca’ entre os sujeitos e a relação com a cidade.

Corroborando com essas afirmações, Grinover (2006, 2013) traz seis categorias que compõem a hospitalidade urbana: Acessibilidade; Legibilidade; Identidade; Qualidade de vida; Cidadania; Urbanidade. No que se refere à acessibilidade, Grinover (2006) pontua que pode ser considerada como “a disponibilidade de instalações (...), ou de meios físicos, que permitem esse acesso [considerados, ao mesmo tempo, os meios de transportes e o uso do solo], ou ainda, de acessibilidade socioeconômica [levando em conta a distribuição de renda]” (p. 37).

Por legibilidade “entende-se a qualidade visual de uma cidade, de um território, examinada por meio de estudos da imagem mental que dela fazem, antes de qualquer outro, os seus habitantes” (Idem, p. 42). A respeito da identidade, “de uma região, de uma cidade, é, ao mesmo tempo, o passado vivido por seus atores e um futuro desejado por eles “ (p. 48). Ao falar de qualidade de vida, Grinover (2013) afirma que “o bairro, a praça, a rua, o pequeno comércio, aproximam os moradores. Tais lugares podem ser mais do que pontos de troca de mercadorias. Eles possibilitam o encontro, reformam a sociabilidade” (p. 18). Considera o autor que, as paisagens urbanas constituem então, elementos representativos da qualidade de vida urbana.

Também se faz importante entender que, “afirmar a cidadania, respeitar o meio ambiente, reduzir a desigualdade, são pontos fundamentais de uma política de hospitalidade” (Grinover, 2013, p. 20). E, por fim, “a urbanidade é composta, portanto, por algo que vem da cidade, da rua, do edifício e que está sendo apropriado, em maior ou menor grau, pelo corpo individual ou coletivo” (p. 21). Admite o autor que, neste contexto, o corpo do sujeito molda o comportamento espacial. “A medida da delicadeza, da civilidade, é demonstrada pela conduta do corpo, individual e coletivo, em sua presença ou em sua ausência, em sua postura. Ou seja, a urbanidade está no modo como sua relação espaço/corpo se materializa” (p. 21).

Isto posto, quando se busca a hospitalidade urbana pelo viés do turismo, tem-se como pressuposto o estudo das relações do sujeito com a cidade e da cidade com o sujeito. Essas relações estabelecem trocas, tendo a reciprocidade como elemento primordial de sociabilidade. Configuram espaços. Reforçam laços e assumem papéis distintos em diferentes contextos. Também, “remete-nos à ideia de amarras cuja tessitura se faz em relações genuínas de acolhimento em que os sujeitos se reconhecem, interagem e se ‘hospedam’ mutuamente, se transformam alternadamente no outro, direcionam o olhar para o olhar do outro (Santos, 2014, p. 13).

ESTRATÉGIA METODOLÓGICA

A estratégia metodológica da Cartografia de Saberes, proposta por Baptista (2014), apresenta-se como um dispositivo científico de investigação, buscando dar conta da complexidade do processo e tornar possível a construção do conhecimento, com suas amplitudes e intensidades. Propõe a interpretação e a reinterpretação dos significados, considerando novas formas de compreensão, capazes de dar conta de ambientes sociais de grande complexidade. E, neste estudo, aplica-se ao turismo, à hospitalidade urbana e às relações. Nesse sentido, a proposição se alinha ao pensamento de Morin (2004) ao trazer que o conhecimento é sempre uma tradução, seguida de uma reconstrução. O autor expõe que, mesmo no fenômeno da percepção em que os olhos recebem estímulos luminosos que são transformados, decodificados, transportados a um outro código, e esse código binário transita pelo nervo ótico, atravessa várias partes do cérebro e isto é transformado em percepção, logo a percepção é uma reconstrução. Morin (2012) pontua, também, que “podemos dizer até que o conhecimento progride não tanto por sofisticação, formalização e abstração, mas, principalmente, pela capacidade de contextualizar e englobar [...]” (p. 14).

Cartografar é construir mapas a partir da capacidade de percepção do pesquisador, segundo Baptista (2014) com base em Rolnik (1989). Trata-se de uma espécie de mapeamento que, neste caso, acompanha e é feito enquanto certos mundos desintegram-se, perdem seu significado, e outros se formam. Mundos que são criados para expressar afetos contemporâneos, em relação ao qual universos existentes se tornam obsoletos. O cartógrafo tem a tarefa de dar voz aos sentimentos que pedem passagens (Rolnik, 1989). Baptista (2014) explica que se cria uma composição, que “implica em mergulho no objeto/fenômeno escolhido para estudar e no conhecimento já produzido a respeito, por outros investigadores, bem como no reconhecimento e a efetivação, possíveis com a vivência da pesquisa [...]” (p. 344).

Nesta mesma linha de considerações, Rodrigues (2006) contribui e pontua que a Cartografia de Saberes é uma abordagem metodológica marcada pelo hibridismo cultural, que implica uma nova ética do fazer ciência, convergente e consciente. Representa uma abordagem que se materializou entre fronteiras de saberes pluri-inter-transdisciplinares, e se revelou como uma práxis de pesquisa intercultural, um caminho investigativo para dar conta da inter-multiculturalidade. Morin (2005) contribui, dizendo que o próprio progresso do conhecimento cientifico exige que o observador se inclua em sua observação, o que concebe em sua concepção, que o sujeito se reintroduza de forma autocrítica e autorreflexiva em seu conhecimento dos objetos.

A Cartografia de Saberes é um outro modo de conhecer, uma outra leitura da realidade. Procura romper com a separação de sujeito e objeto na pesquisa, trazendo instrumentos de proximidade diferenciados para se fazer ciência, traduzindo o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade. Vale ressaltar que a proposição da Cartografia de Saberes tem fundamentação no que Baptista (2014) denomina como ‘trama das trilhas teóricas’, essencialmente transdisciplinar, envolvendo autores contemporâneos.

Em termos teóricos, o texto resulta de estudos transdisciplinares, envolvendo desde referenciais ligados à Epistemologia da Ciência, com pressupostos inerentes à mutação da Ciência Contemporânea e proposições sinalizadoras de devires científicos em tempos de caosmose na produção dos saberes (Capra, 1991, 1997; Crema, 1989; Morin, 1991, 2003, 2013; Santos, 1990,1997). Nesse sentido, entrelaça referenciais como os da Esquizoanálise (Guattari, 1992; Guattari, Deleuze, 1995; Guattari, Rolnik, 1986), da Biologia Amorosa e do Conhecimento (Maturana, 1998; Maturana; Varela,1997), em associação a textos basilares da Metodologia, visando à desconstrução do caráter estruturalista, paradigmático e impositivo da metodologia tradicional (Demo, 1989; Thiollent,1998; Goldemberg,2001; Flick, 2004; Severino, 1990; Lopes,1990) (Baptista, 2017, p. 1).

Baptista (2014) ainda complementa que o cenário da ciência transdisciplinar caosmótica exige outro tipo de pesquisa, em termos de operacionalização. Deixa de apresentar em sua metodologia uma engrenagem dura e rígida, passando a ser construída neste processo, a partir de sinalizadores. E propõe que o trabalho da pesquisa deve ser iniciado em várias frentes, em várias trilhas investigativas [saberes pessoais, saberes teóricos, laboratório de pesquisa ou usina de produção].

Na sinalização da trama, há a conjectura da primeira trilha, de saberes e inquietações pessoais que darão significados às construções. Nela, é importante o investigador refletir o que sabe sobre determinado assunto. No entanto, deve-se ir além desse nível de análise, para explorar outros aspectos das formas simbólicas, que partem da constituição do campo-objeto de estudo. Assim, a pesquisa é o meio de procurar conhecer os processos de sentido que se configuram nos cenários atuais. A segunda trilha a ser cartografada são os saberes teóricos. Com as temáticas escolhidas, o pesquisador deverá percorrer as trilhas desses conhecimentos. A terceira trilha, chamada pela autora de laboratório de pesquisa ou usina de produção, propõe o envolvimento do investigador para criar situações que deem vida à pesquisa. Enfim, expõe que o processo de investigação é “o de investimento desejante, na busca de conhecimento. Trata-se de uma viagem investigativa em que o pesquisador se reinventa, se renova, se re-faz [...]” (Baptista, 2014, p. 350). E fundamenta que se faz necessário ir a campo, já nas aproximações, para sentir e saber das reais escolhas, decisões, que afloram do próprio campo de pesquisa, tendo, por este fim, a segurança do caminho com o foco alinhado aos objetivos.

Assim, utilizando-se da estratégia metodológica Cartografia de Saberes buscou-se a realização de aproximações investigativas [levantamento bibliográfico] e ações investigativas [observação direta, observação participante, rodas de conversa, relatos de espelhamento]. Segundo Gil (1999), a observação constitui elemento fundamental para a pesquisa, é, também, a utilização dos sentidos humanos, para obter determinada informação sobre aspectos da realidade. Corroborando com esta afirmação, Rudio (2002) acentua que o termo observação não se trata apenas de ver, mas, de averiguar, sendo por este meio, mais fácil de conhecer as pessoas, os acontecimentos e os fenômenos. Assim, a observação direta e a observação participante, convergem com a possibilidade de tonificar as relações.

A respeito das rodas de conversa, é um meio para uma comunicação dinâmica e produtiva, com estímulo ao diálogo, assim como um dispositivo para ser utilizado como prática metodológica de aproximação entre os sujeitos. É também, um espaço de partilha e confronto de ideias, proporcionando a liberdade da fala e da expressão, em que se propõe a construção do conhecimento coletivo, possibilitando a transformação (Freire, 1991). Para elucidar, trago um exemplo do Amorcomtur! Grupo de Estudos em Comunicação, Turismo, Amorosidade e Autopoiese, que vem desempenhando práticas experienciadas pelas rodas de conversa, e do qual faço parte, constatando que se trata de um dispositivo libertador e extremamente desafiante para a vinculação das pessoas.

E em relação à vivência, etimologicamente deriva do grego viventia, que significa ‘o fato de ter vida’. A vivência como elemento constitutivo de vida, de experiência, segundo Merleau-Ponty (1994), mostra a expressividade como extensão do entendimento do corpo, em que se permite, através dela, experienciar, perceber e refletir, e contido em toda a dimensão humana, constitui como um ‘veículo do ser no mundo’ para explorar novas possibilidades. As vivências podem trazer ao sujeito uma significativa estruturação nas relações, baseando sua conjectura no sentir, relacionar-se e tocar.

Ao referir-se em vivências e experiências, imbricados nesse entremeio aos laços sociais, e nela buscar suas tonalizações de positividade, é pertinente trazer o que diz Santos (2014) que, “remete à ideia de amarras cuja tessitura se faz em relações genuínas de acolhimento [...]” (p. 13). É, também, compreensível dizer que fortalecem vínculos, e qualificam as vivências dos sujeitos na cotidianidade. Assim, nas palavras de Santos, ao se reconhecer, interagir e se hospedar mutuamente, os sujeitos se transformam alternadamente no outro, e, consequentemente, direcionam o olhar para o olhar do ‘outro’. Pode-se pensar a partir disso que, para que as relações tenham maior intensidade causando a proximidade e estendendo os laços sociais, é preciso que haja a reciprocidade e aceitação mútua por parte de cada pessoa. Neste contexto, torna-se importante ainda, que deve haver um fundamental alinhamento entre o estar disposto a aceitar o “outro como legítimo outro na convivência [...]” (Maturana, 1998, p. 25) e introduzir o conviver nas relações. Pois só assim, as mudanças acontecerão, ocorrendo uma modificação na expressividade das emoções, gerando novo comportamento, a conservação da nova rede de conversações para assegurar e constituir a nova cultura (Maturana & Varela, 2011).

A recomendação do uso da Cartografia de Saberes para construir a ‘trilha’ se sobressai para a pesquisa qualitativa, mesmo que se utilizem métodos e técnicas quantitativas. “Está presente, na proposição, a associação entre a investigação e a metáfora de viagem intelectual, o que justifica a palavra ‘trilha’, na expressão ‘trama de trilhas’ [...]” (Baptista, 2014, p. 344). Assim, começa a se delinear, desde essa palavra, a ideia de esboçar um ‘desenho’ de uma estratégia. Quando alguém investiga, esse sujeito investe-se em direção ao objeto paixão-pesquisa e isso significa que o sujeito todo pesquisa e vibra com a investig[ação]” (Baptista, 2014, p. 352). E, por fim, ainda atenta aos processos “caosmóticos também internos, o pesquisador deve estar sempre pronto a registrar essas brotações autônomas, para, com elas, em grande parte das vezes, puxar fios que ajudam a desenvolver as trilhas de saberes [...]” (Baptista, 2014, p. 352), numa formulação necessária para a proposição do estudo.

Tem-se, com isso, que o papel do pesquisador é central, sendo que é a partir das percepções, das sensações e das afetividades vivenciadas que se constroem conhecimentos. Neste sentido, o método cartográfico “desencadeia um processo de desterritorialização no campo da ciência, para inaugurar uma nova forma de produzir o conhecimento, um modo que envolve a criação, a arte, a implicação do autor, artista, pesquisador, cartógrafo [...]” (Mairesse, 2003, p. 259 apud Romagnoli, 2009, p. 170). Isso possibilita a criação na constante relação do pesquisador com o seu objeto, construindo um outro olhar para o conhecimento com a experimentação, os relatos e o diálogo. Assim sendo, o cartógrafo, na possibilidade de abarcar a complexidade, coloca os problemas e investiga o global, concebendo no campo de pesquisa um outro olhar. Ele absorve matérias de expressão de qualquer procedência, para compor suas cartografias, já que: "Todas as entradas são boas, desde que as saídas sejam múltiplas [...]" (Rolnik, 1989, p.66).

SÃO LUIZ GONZAGA-RS – UMA BREVE HISTÓRIA

“São Luiz Gonzaga teve seu primeiro núcleo estabelecido pela instalação da Redução Jesuítica Guarani, no contexto dos Sete Povos da banda oriental do Rio Uruguai, em 1678” (Magnus, 2017, p. 87). Está situada na região das Missões, localizada na Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul [Brasil]. Teve em sua história a participação de pessoas ilustres como o Senador José Gomes Pinheiro Machado, Luiz Carlos Prestes, os artistas Jayme Caetano Braun, Noel Guarani e Cenair Maicá, possuindo muitos atrativos turísticos. Na Figura 1, o mapa da cidade de São Luiz Gonzaga numa visão geral, para situar o leitor, abrangendo sua localização no Rio Grande do Sul e no Brasil.


Figura 1
Mapa da cidade de São Luiz Gonzaga/RS/Brasil
Researchgate.net

Foi fundada pelo Padre Miguel Fernandes em 1687, com cerca de três mil índios cristianizados (Rosa, 2015), em que se deu início a nova povoação. Os relatos apontam que São Luiz Gonzaga permaneceu ocupada pelos jesuítas e índios até 1750, quando os exércitos da Espanha e Portugal os expulsaram. A região sofreu um período de abandono e decadência de 1768 a 1880. “Segundo o inventário da missão de São Luiz, em 1768, momento da expulsão dos jesuítas, a redução estava intacta. Não houve reação por parte dos indígenas que ali permaneciam” (Magnus, 2017, p. 94). Foi possível notar, então, que sem a presença dos jesuítas, houve crescente decadência, sendo tomada pelos espanhóis e, mais tarde, pelos portugueses. Bem como, devido ao abandono do exército português aquartelado em Santo Ângelo, a região voltou ao domínio da Espanha, tendo a conquista definitiva do território, em 1801, para a coroa portuguesa.

Faz-se importante salientar que a predominância portuguesa nessa região deveu-se à necessidade de segurança que as colônias sentiam. A fundação dos Sete Povos das Missões pelos espanhóis acirrou mais ainda a animosidade dos lusitanos o que deu origem a várias lutas no território (Rosa, 2005). Em concreta decadência em 1828 e 1829, o povoado de São Luiz Gonzaga foi invadido e saqueado pelo caudilho uruguaio Frutuoso Rivera. E, segundo Rosa (2005), ao findar a Guerra dos Farrapos, em 1835, muitas famílias, para fugir das escaramuças bélicas, ocuparam o casario abandonado de São Luiz Gonzaga. Anos mais tarde, “o povoado de São Luiz Gonzaga recebeu, em 1859, elevação à categoria de Paróquia. O crescimento da cidade seria retomado com a compra e distribuição de terras para formação de fazendas da região” (Magnus, 2017, p. 96). Em 1876, São Luiz Gonzaga passou a ser o 5º Distrito de Santo Ângelo, e em 3 de junho de 1880, pela lei nº 1238, foi elevado à categoria de vila (Rosa, 2005). Recebendo a emancipação de Santo Ângelo e, proporcionando, então, o crescimento, que ocorreu de 1880 a 1930. À época de 1880, São Luiz Gonzaga erguia estruturas necessárias para que a vila prosperasse. José Gomes Pinheiro Machado despontava como promissor político. Dessa forma, São Luiz passou a fazer parte de todos os movimentos ocorridos nessa região por ocasião da proclamação da República (Rosa, 2005). Logo, no ano de 1902, pelo Decreto nº 477, São Luiz Gonzaga foi elevada à condição de cidade.


Figura 2
Vista aérea de São Luiz Gonzaga RS Brasil
Governo do Estado do Rio Grande do Sul

Na década de 1920, o município divide com Santo Ângelo o berço da Coluna Prestes, que saiu da região e percorreu o Brasil. Ainda em 1920, as revoltas fazem decair novamente a cidade, que retoma crescimento após 1930 e concebe, com isso, um crescimento industrial nos anos de 1940 a 1970. Já na década de 1970, “a administração municipal iniciou um grande período de demarcação de novas áreas para habitação na cidade [...]. E a partir de 1992, a cidade sofre uma leve queda populacional” (Magnus, 2017, p. 103). Atualmente, São Luiz Gonzaga tem 34.556 habitantes (2010), sua área territorial é de 1.295,683 Km², tendo a agricultura e a pecuária como posição importante na economia do município. Os pontos turísticos resgatam a história da cidade: Estatuária Missioneira. Igreja Matriz. Praça da Matriz. Monumento a Sepé Tiaraju. Museu Municipal Senador Pinheiro Machado. Museu Arqueológico. Sítio Arqueológico de São Lourenço. Instituto Histórico e Geográfico de São Luiz Gonzaga. Gruta Nossa Senhora de Lourdes. Parque Centenário. A Praça Jayme Caetano Braun. E o Rio Piratini.


Imagem 3
Pontos turísticos destacados pela Prefeitura de São Luiz Gonzaga
Prefeitura de São Luiz Gonzaga

É significativo também evidenciar que, no turismo, o Projeto de Lei nº 172 /2012 declara o Município ‘Capital Estadual da Música Missioneira’. Cidade que desde tempos longínquos desponta como celeiro de artistas locais de reconhecimento regional, estadual, nacional e alguns de âmbito internacional.

TRAJETÓRIA DE CAMPO

São Luiz Gonzaga, me trouxe algumas recordações na presente visitação. A cidade hospitaleira, em que o bem receber é cartão de visita, foi um lugar que construí um pouco de minha trajetória de vida. Por lá passei alguns anos da infância. Fui muito feliz, brinquei, caí de bicicleta, subi nos muros das casas indo para a escola e até joguei pedra na janela de uma casa. Espoleta. Esta era uma palavra que me definia. Na adolescência, fiz novos amigos, aprendi um pouco mais sobre a cidade, sua história, visitei o museu, a igreja, a praça e outros pontos turísticos. Fui embora. Mais tarde, já com 23 anos, retornei, morando por uns dois anos, apenas. E novamente parti, para conhecer outros lugares, outras culturas. Saí, mas levo São Luiz Gonzaga no coração. E esse, foi um dos motivos que me instigou em analisar a cidade como trama de olhares, na construção de destinos turísticos, permeando a busca de hospitalidade urbana.

Com o passeio, suscitaram inquietações sobre as relações que permeiam o sujeito e a cidade e a hospitalidade urbana. Desta forma, buscando responder a tais inquietações, utilizando-se da estratégia metodológica Cartografia de Saberes (Baptista, 2014), fundamentaram-se as ações investigativas [observação direta, observação participante, rodas de conversa e relatos de espelhamento], expressos por sujeitos [moradores e visitantes] vinculados à cidade de São Luiz Gonzaga, que aconteceram de 12 a 20 de janeiro de 2019. Em meio a visita na cidade, coloquei em prática as ações investigativas. E colhi depoimentos [que foram filtrados e que serão transpostos em seguida]. É importante ressaltar que, em alguns momentos das rodas de conversa, foi pedido a permissão para gravar as falas, utilizadas apenas neste estudo. Pessoas com diferentes idades fizeram parte desta pesquisa. Foram classificados em três grupos: Adolescência, 12 a 20 anos; Adultos, 21 a 59 anos; Terceira idade, acima de 60 anos. Uma pergunta aberta, em formato de roda de conversa, possibilitando explorar expressões e revelações, esteve à frente das indagações: Como você vê a hospitalidade urbana, pensando nos pontos turísticos da cidade? Esta questão, foi brevemente explicada, para ampliar a capacidade de entendimento sobre as categorias que abrangem a hospitalidade urbana [acessibilidade, legibilidade, identidade, qualidade de vida, cidadania, urbanidade], facilitando compreensão e consequentemente, as respostas.

Os mais variados retornos foram obtidos, numa conversa prazerosa e espontânea, pelos diversos públicos abordados que, prontamente se dispuseram em participar. Desta forma, para uma melhor compreensão do leitor e, visando delinear as respostas, as estruturarei por faixa etária. Respostas à pergunta:

Adolescência, 12 a 20 anos: “Eu vejo que tem muita poluição nos nomes das lojas, às vezes, mais complica a leitura do que favorece”; “Percebo que falta sinalização de trânsito. Até tem, mas tem sinaleiras queimadas e outras que não estão funcionando”;“Vou falar de urbanidade. É a quarta vez que venho a São Luiz para fazer estudos acadêmicos. Faço veterinária na Unijuí e quem me acolhe aqui é a família de uma colega minha. É muito gratificante estar lá. Parece que eu estou na minha casa. E também tem a cidade que oferece pontos turísticos bem apresentados e prédios com uma estrutura arquitetônica bem construída, como diz meu pai, que convida à visualidade”; “Já tive que desviar ruas porque estava uma parte da calçada ou mesmo da rua sem acesso. Mas fora isso, tem a praça Cícero que foi revitalizada e é ótimo passear por lá?”; “Falta informações maiores com melhores fotos no site da prefeitura, ajudando a valorizar assim a Praça da Matriz, a Igreja da Matriz, o complexo turístico Jaime Caetano Braun, que são pontos turísticos da cidade”; “Falta de importância que dão para a sinalização, para as placas dos lugares e placas explicativas que, na maioria delas não tem”; “Necessito falar que a estrutura da rodoviária é um pouco crítica. O atendimento dos funcionários nem sempre é cordial”; “A educação dos motoristas ao atravessar ruas que não tem sinaleira, as pessoas param o carro e permitem a travessia com segurança”; “Precisaria de mais espaços para o lazer. Uma pista maior de skate. A revitalização da praça Cícero trouxe mais frequentadores. Mas tem poucas opções de lazer ao ar livre aqui em São Luiz com atrativos culturais”; “Seria bom se tivessem placas em braile juntamente com as placas informativas nos pontos turísticos da cidade”.

Adultos, 21 a 59 anos -“A cidade ainda apresenta algumas deficiências, faltam placas em alguns lugares e sinalizações. Mas, já melhorou bastante. A Praça da Matriz mesmo, teve um tempo de vandalismo e escuridão, mas foi melhorada”; “Se tivesse mais acesso aos deficientes seria muito melhor. A Praça da Matriz por exemplo, não tem”; “O Natal Encantado na Praça da Matriz que oferece atrações com Papai Noel, música e sempre tem gente circulando para ver a decoração, participar e tirar fotos”; “Sinto falta de ter algo que identifique São Luiz. Por mais que sejamos a Capital da Música Missioneira, mesmo assim, há alguma coisa faltando para a representação. Talvez um objeto que simbolize a cidade, alguma planta usada pelos índios no passado ou algo assim”; “A cidadania é algo que existe aqui. Trabalho numa escola e posso sentir isso. Já aconteceu de ter mais de uma criança especial ou com cadeira de rodas, e seja por parte dos professores ou das próprias crianças, na hora do recreio elas são inseridas. Não ficam à parte excluídas num canto, elas brincam, cantam, se divertem. Tem uma cena que eu lembro de uma menina com síndrome de down que estava numa cadeira de rodas e algumas crianças chamaram ela e a professora que estava com ela para brincar na roda. Quando terminou, ela estava tão feliz que batia palmas e ria alto. Isso não tem preço para gente que é professora”; “Tem muitas placas com o nome das ruas que estão estragadas e tem outras que nem existem mais e não foram repostas. Inclusive placas que indicam os pontos turísticos. Já me aconteceu de ter que ir em uma rua que não conhecida e andei quadras para tentar saber que rua era. E foi só perguntando para um morador que encontrei no portão para me dar essa informação”; “Eu vejo que faltam algumas coisas: as calçadas estão com vários buracos, às vezes faltam as lajotas, em outros lugares, tem, mas está quebrada, dificultando a passagem. Tem também esquinas de ruas que está faltando as estruturas de cimento que fazem o contorno. Além de não ter em boa parte da cidade a calçada especial para pessoas cegas. Meu primo mesmo com o uso da bengala já caiu várias vezes por não ter esse recurso como diferencial. E faz muita falta. Nas escolas ensinam as crianças a terem respeito pelos outros, mas na rua, aqui a gente não vê muita gente sendo respeitada quando o assunto é limitações visuais”; “Ir à Praça da Matriz em tempo de Natal é muito bom. Há muitos atrativos. A decoração ultimamente está com garrafas peti, pensando no meio ambiente. Isso é um ponto muito bom. As pessoas também estão vendo o que está sendo feito e estão cuidando mais. Tem a casinha do Papai Noel que é um grande atrativo para as crianças. A praça vira um sonho na época que antecede o Natal, shows, apresentações, diversão, tudo sem custo”; “Uma coisa que seria importante é a revitalização da estação férrea para ser atrativo turístico”; “Noto que faltam elementos gráficos visuais que realmente informem as pessoas e que esses elementos conversem com os públicos trazendo informações, elevando assim a cidade”; “O espaço Jayme Caetano Braun, espaço turístico, que é onde tem a Secretaria de Cultura tem um bom acervo registrando um pouco da história de São Luiz Gonzaga. Além de ser um espaço amplo e bem localizado para um passeio e para um bom chimarrão. Acho que esse item se encaixa na identidade de São Luiz, né?”; “O que é mais gritante é a falta de acesso aos portadores de necessidades especiais. Poucas ruas com calçadas especiais. Quando tem, não vai até o fim. Ou tem empecilhos. Que me lembro o Museu Municipal ainda não tem acesso a portadores, mas está em reforma, e é um espaço turístico. Se for pensar nas ruas onde tem lojas, acho que cada lojista pensa somente no seu espaço e não no todo. Uns colocam numa parte da rua. Outros não. Seria então possível as pessoas que precisam se locomover, andar só em algumas ruas? E as lojas, não querem ter esse público como cliente? Isso sem dizer no jeito como os funcionários das lojas atendem. Em várias lojas é péssimo. Ainda mais se for atender alguém com necessidades. Assim, como a gente vai pensar em turismo sem oferecer qualidade?”; “Um item a ser levantado são os poucos taxistas que tem na cidade. Também, os carros destes, em muitos momentos, sem limpeza. Taxistas despreparados. Tem uns que cantam a gente na maior cara de pau. Camisa aberta e até fumando. Se necessito pegar um táxi na rodoviária, parece pior ainda. Acho que cada um deve ser dono do seu próprio táxi para atenderem as pessoas do jeito que atendem. Seria interessante para a cidade ter um registro dos taxistas e de tempos em tempos, fazer uma reciclagem de atendimento e normas de funcionamento de uma prestação de serviço”; “A qualidade de vida aqui é muito boa. Não tem aquela correria da cidade grande que deixa a gente maluca de tanto barulho. Eu já morei na capital gaúcha e me sentia presa, amarrada. Por mais que tivesse inúmeras coisas para se fazer, é sempre um assombro, pois, parece que a gente está sempre correndo perigo. Aqui não, dá para deixar a casa aberta até tarde. Tem boa iluminação nas ruas. Se precisar da polícia ou dos bombeiros eles vem bem rápido. Tem opções de lazer com praças e parquinhos. Mas poderia ter mais. Sei que envolve dinheiro para fazer reformas e revitalizações, mas seria muito bom poder ter mais espaços que contam a história da cidade em bom estado para visitar”.

Terceira idade, acima de 60 anos: “Tem poucas placas de sinalização de espaços turísticos e culturais. Tanto a sinalização no próprio ambiente que, em determinados momentos, a placa já está com certa precariedade e não é trocada, dificultando a compreensão de quem é de fora e não conhece ou não sabe onde é o local, tanto na sinalização de como chegar, que falta colocar na cidade”; “Se for citar a cultura na nossa cidade, posso dizer que falta acessibilidade. A cidade apresenta alguns eventos, porém, muitos atrativos culturais ficam com as ideias somente no papel e outros, quando acontecem tem um valor mais alto em que nós, da população com menos recurso financeiro não podemos ir. Não posso dizer que é todos, porque tem eventos que são gratuitos e dá pra ir. Mas tem alguns que só quem tem dinheiro pode prestigiar”; “Gosto bastante do cuidado que há com a preservação e limpeza da Praça da Matriz. Talvez falte mais placas com nomes das espécies das plantas, situando os passantes. Mas, no mais, é uma coisa que deve ser enaltecida. Um lugar que pode ser visitado e transitado sem dificuldade. Em anos atrás, foi palco de alguns indivíduos que ofuscavam essa visão do local, mas foi feito um trabalho em cima disso e hoje podemos contar com um espaço glorioso”; “O asfalto na cidade está em condições precárias. Em vários locais remendados. Em outros, já está somente as pedras. E isso é pelo centro também. É muito fácil deteriorar o carro nesse asfalto daqui”; “Suponho que São Luiz Gonzaga esteja caminhando para contemplar ainda mais a hospitalidade urbana. Ainda os passos são pequenos, mas já estão sendo dados. Temos uma pessoa imponente e batalhadora secretária que está à frente do Turismo e Cultura, que está fazendo de tudo para tornar a cidade mais hospitaleira e também adentrar pelo universo dos três primeiros itens comentados, legibilidade, identidade e acessibilidade. Temos carências ainda de uma boa estrutura pavimentada e asfáltica, assim como em outros setores que envolvem o todo da cidade, porém, a atenção que está sendo dada, até mesmo incluindo a própria Gestão Administrativa, tem provocado diferenciações positivas na cidade, sanando, sempre que possível, as ranhuras que assolam o crescimento”; “Senti a falta de ter na cidade um hotel que abrigue os turistas tendo atenção às suas idades. Faltam informações. Há um despreparo na recepção dos hóspedes. Falta treinamento e manejo no trato com pessoas. Fiz uma viagem em outro estado com pessoas da terceira idade e nossa, foi muito diferente e muito bom. Nem se compara à viagem que fizemos em poucas pessoas aqui para São Luiz. Como sou de fora e gosto de conhecer lugares e culturas, vim com uma ideia da Região das Missões. E a região é realmente linda. Encantadora. Vimos o espetáculo Som e Luz em São Miguel das Missões e quisemos esticar até aqui para recordar o passado e nos hospedamos aqui. Mas, foi um pouco frustrante, desde a chegada no hotel. Se tivéssemos que vir de novo, ficaríamos hospedados em outra cidade”; “Tem poucos ônibus que vai para os bairros. Eles demoram. E quando chegam, o motorista e a cobradora nem sempre são gentis. Também, as ruas, tem bastante buracos, o que dificulta ter um transporte de qualidade”; “Se faz necessário dizer que a educação em São Luiz tem melhorado bastante. Estamos com professores mais capacitados e preparados para enfrentar diversas situações atípicas. As escolas estão mais equiparadas com rampas de acesso, professores instruídos e até a alimentação dos alunos nas escolas tem melhorado bastante, estando mais saudável”; “Antigamente tínhamos mais eventos culturais na cidade em espaço aberto. Até mesmo a Praça da Matriz já foi palco de inúmeras apresentações, teatrais, musicais, de dança. Mas ultimamente está tudo mais parado. Faltariam mais espetáculos, cenas cotidianas, declamações, usar mesmo o espaço público para manifestações artísticas. Aqui tem um celeiro de talentos, mas não é tão valorizado os espaços abertos”; “Andar a pé aqui em São Luiz é um tanto arriscado, quando não são as raízes das árvores tomando conta da calçada é a própria calçada que não está em condições de receberas pessoas que por ali pisam. Penso que seja de bom tom pensar nas pessoas que tem mais dificuldades de se locomover para que estas, possam usufruir de ir e vir pela cidade, sozinhas, com suas muletas”; “Como representação de nossa marca identitária, poderia ter em São Luiz um documentário registrando a história dos músicos locais como fonte de conhecimento e divulgação da cidade. Acho que isso ainda falta para potencializar nosso turismo”.

Os sujeitos entendem o seu espaço segundo relatos trazidos – mesmo tendo melhorias a serem feitas, como em qualquer cidade de pequeno, médio e grande porte –, como sendo ‘um lugar de sossego’, de ‘qualidade de vida’, uma ‘cidade para criar os filhos’, ‘boa de se morar’, que ‘oferece tranquilidade entre os moradores’, ‘não é uma cidade rica’, mas é um ‘território hospitaleiro e que acolhe’. Nas falas dos sujeitos moradores e visitantes, ficou perceptível que ao manifestarem-se sobre São Luiz Gonzaga, a palavra ‘orgulho daqui, da terra vermelha’ era presente ao iniciar a pergunta que orienta esse trabalho.

COMPONDO RESULTADOS

O “turismo, como atividade humana e hedonística, é capaz de proporcionar inúmeras sensações [...]”, segundo Fontenele e Matos (2015, p. 66). Cheiros, sons, símbolos, memórias, afinidade, estranhamento, identificação, pertencimento, encantamento, desejo, são algumas das sensações prováveis de emergir no sujeito, na sua relação com a cidade. Neste contexto, os espaços públicos, são os lugares privilegiados para a vida cotidiana, para a sociabilidade, a civilidade, a ordem pública, a cidadania e a hospitalidade urbana. “São os espaços públicos que dão a qualquer conglomerado urbano a possibilidade de várias experiências espaciais, em terras de vivências humanas e de prazer estético; onde se possibilitam e se exercitam a escolha, a liberdade e a hospitalidade” (Grinover, 2007, p. 160). Complementam as afirmações citadas por Grinover, os estudos de Junqueira e Rejowski (2010) sobre hospitalidade urbana quando pontuam que podem “instigar uma reflexão sobre o planejamento e gestão de cidades, desde as pequenas até as metrópoles, nas quais a qualidade de vida de seus residentes e, em extensão, de seus visitantes, deve ser respeitada e valorizada em todos os aspectos” (p. 15).

A reflexão sobre hospitalidade, acolhimento e amorosidade – relações que permeiam o sujeito e a cidade, imbricados na hospitalidade urbana –, são de grande importância no que tange ao relacionar-se com o ‘outro’, indo além da interação, trazendo o envolvimento e reconhecimento no território em que se habita ou se visita. A hospitalidade, expõe a fruição que habita na relação com o lugar e na relação com o ‘outro’, implicando a relação humana. Por lugar de hospitalidade, pode-se entender aquele que é aberto ao outro, que possibilita o sentir-se à vontade e o bem-estar ao estar no ambiente (Baptista, 2008). O acolhimento, traz consigo o reconhecimento do ‘outro’ na convivência, mudando a forma de se relacionar. Acolher é então, se envolver, trocar e entrelaçar. E a amorosidade, é deixar despertar em seu interior a plenitude do amor. Um amor sem rótulos, que não tenha pré-conceitos e não apresente distinções.

Nesta conjuntura, o sujeito é representado por um corpo. Esse corpo se transforma e é transformado por meio das relações estabelecidas [com o ‘outro’ e com a cidade]. A cidade ‘organismo vivo’ oferece a conexão – com pessoas, histórias, cultura. E risca traços ou linhas (linhas de intensidade) que permitem os sujeitos a conhecer, (re)conhecer, (re)viver perspectivas e percepções do lugar habitado, visitado. Similarmente a estas afirmações, Morin (2005) expõe que na construção intelectual, o ser humano constitui-se sempre a partir do ‘outro’, constrói e se reinventa nunca sozinho, mas, em grupo, em sociedade. Sendo preciso conhecer-se e reconhecer-se, a fim de conseguir entender o ‘outro’. Assim, a hospitalidade urbana engloba todos os que consomem ou vivem a experiência da cidade, sujeitos – moradores ou visitantes. Enquanto espaço favorável às relações, o espaço urbano é um território que se mobiliza para ‘hospedar’ mutuamente, acolher e implica amar, abrindo um espaço de interações recorrentes com o ‘outro’. Por fim, tais afirmações, convergem com o ‘sujeito’ e com a ‘cidade’ que, quando abertos para a relação, abarcam uma fluidez necessária para rever e modificar olhares. Também, para a desconstrução[vi], construção e reconstrução efetiva da imagem da cidade e das impressões já feitas para registrar outros olhares, exercidos com a relação do sujeito para com a cidade e vice-versa, e, por meio da utilização das categorias da hospitalidade urbana.

CONSIDERAÇÕES TEMPORÁRIAS

Este estudo conduziu uma análise da cidade como trama de olhares, na construção de destinos turísticos, a partir do contraponto dos pontos turísticos e relatos de espelhamento. Investigou-se com os sujeitos, vinculados à cidade de São Luiz Gonzaga [moradores ou visitantes], como o sujeito vê a hospitalidade urbana, pensando nos pontos turísticos da cidade. As respostas, em formatos de roda de conversa, trouxeram inúmeras manifestações, elencando itens que, são capazes de influenciar na melhoria da busca de hospitalidade urbana. Os sujeitos foram além da pergunta citada, buscando colocar em evidência anseios sobre os lugares turísticos na cidade. Pontuaram que, embora alguns deles, foram revitalizados ou ampliados, ou ainda, permanecem esquecidos, seja por falta de condições financeiras do município, ou pelos olhares dos moradores, há outros espaços potenciais para ocuparem a lista de pontos turísticos na cidade de São Luiz Gonzaga. Trouxeram também, dando uma forte ênfase nos comentários que, diferentes espaços não citados na categoria de pontos turísticos, são visitados com frequência, embora muitos deles necessitem de um outro olhar, seja pelo poder público ou pelos próprios moradores, e, tem potencial de gerar construção de destinos turísticos, ampliando a visitação na cidade e resgatando sua história.

Desta forma, os relatos e as sensações despertadas no processo de desenvolvimento desse artigo, mostraram que, a cidade congrega alguns aspectos de hospitalidade urbana, porém, como referido pelos sujeitos, o espaço público ainda detém necessidades de melhorias em todas as categorias [acessibilidade, legibilidade, identidade, qualidade de vida, cidadania, urbanidade]. Também que, a relação que permeia o ‘sujeito’ e a ‘cidade’, estão alicerçadas na construção de hospitalidade, acolhimento e amorosidade, todos, imbricados à hospitalidade urbana, e, podem ser ainda, estreitadas e solidificadas. Provocando, dessa maneira, uma reflexão no que tange a novas expectativas e novas vivências, sob uma perspectiva hospitaleira, acolhedora e amorosa, que envolve o cidadão local e o turista a partir da vida na cidade. Arrisco expor, dessa forma, que ‘sentir’ a cidade, se deixando envolver, vivenciando e experimentando seus espaços, criam portas de entrada para novas percepções. Com isso, confluem na tentativa de romper com formas e formatos já estabelecidos, alterando olhares que terão impacto no cotidiano dos sujeitos, no estreitamento de laços, na percepção sobre a cidade, na comunicação e na convivência.

REFERÊNCIAS

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Notas

[i] Rudio (2002) acentua que, por este meio, é mais fácil de conhecer as pessoas, os acontecimentos e os fenômenos. Assim, a observação direta e a observação participante, convergem com a possibilidade de tonificar as relações.
[ii] É um meio para uma comunicação dinâmica e produtiva, com estímulo ao diálogo e aproximação entre os sujeitos.
[iii] Baptista (2014, p. 104) sobre o amor em sua plenitude: “Isso ocorre com o acionamento desejante e especular, e se qualifica com amorosidade plena, que é geradora de confiança. Afirmo, nesse sentido, que o amor, a condição amorosa, aumenta a potência do acontecimento comunicacional. Nas condições de reconhecimento do outro como legítimo outro na convivência, tende-se a construir cumplicidades nos processos de significação que, na sua lógica de acolhimento mútuo – não necessariamente aceitação ou concordância –, possibilitam maior entendimento e realmente afetivação mútua e transformação dos sujeitos envolvidos”.
[iv] “O cuidado que aquele que acolhe dá à preparação e ao embelezamento do espaço do acolhimento é tão significativo quanto a qualidade da relação que se estabelece no momento do acolhimento” (Avena, 2008, pp. 421-422).
[v] “Respeito do homem consigo mesmo, do homem com o próximo e deste com a Sociedade que o cerca e, fundamentalmente, do homem com o meio ambiente, ou seja, com tudo ao seu redor” (Bocchetti, 2007 apud Avena, 2008, p. 67).
[vi] A desconstrução é uma decomposição, uma reorganização de uma estrutura (Derrida, 2002).


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