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Covid-19: Impactos Econômicos na Economia do Turismo de Joinville, Brasil

Covid-19: Economic Impacts on the Tourism Economy of Joinville, Brazil

YONÁ DA SILVA DALONSO
Universidade da Região de Joinville, Brasil
JANI FLORIANO
Universidade da Região de Joinville, Brasil
ELAINE BORGES SCALABRINI
Universidade da Região de Joinville, Brasil
ALENA RIZI MARMO
Universidade da Região de Joinville, Brasil
HARO RISTOW WIPPEL SCHULENBURG
Universidade da Região de Joinville, Brasil
ISADORA DICKIE
Universidade da Região de Joinville, Brasil

Covid-19: Impactos Econômicos na Economia do Turismo de Joinville, Brasil

Rosa dos Ventos, vol. 13, núm. 4, Esp., pp. 1-21, 2021

Universidade de Caxias do Sul

Recepción: 04 Mayo 2020

Aprobación: 16 Abril 2021

Resumo: Desde março de 2020, a pandemia Covid-19 provocou o fechamento de empreendimentos, mas alguns segmentos estão sendo mais impactados, caso da atividade turística. Neste sentido, este estudo tem como objetivo apresentar os impactos econômicos da pandemia, sobre o turismo na cidade de Joinville, Estado de Santa Catarina (Brasil). Trata-se de pesquisa de natureza empírica, de enfoque quantitativo, com o uso de questionários e pesquisa bibliográfica. Por meio de amostra probabilística, foram aplicados 104 questionários a empresas do setor turístico, associadas a três entidades representativas do município, utilizando-se a plataforma Google Forms. Os resultados apontam que os setores da cadeia produtiva do turismo foram impactados fortemente com perda no faturamento, redução de receita e do quadro de funcionários, especialmente no segmento de eventos, com uma retração média de 81% nos negócios. Conclui-se a necessidade de um aporte de medidas de apoio fiscal e financeiro, visto que as empresas do setor, em sua maioria micro e pequenas empresas, bem como a adoção de protocolos de biossegurança e estratégias de promoção e marketing com vistas à recuperação e retomada da atividade turística no destino.

Palavras-chave: Turismo, Covid-19, Impactos Econômicos, Joinville, Brasil.

Abstract: Since March 2020, the SARS-CoV-2 [Covid-19] pandemic has caused the closure of developments, but some segments are being more impacted, such as tourism. In this sense, this study aims to present the economic impacts of the pandemic on tourism in the city of Joinville, State of Santa Catarina (Brazil). It's empirical research, with a quantitative approach, using questionnaires and bibliographical research. Through a probabilistic sample, 104 questionnaires were applied to companies in the tourism sector, associated with three representative entities of the municipality, using the Google Forms platform. The results evidence that tourism activity was strongly impacted by the loss of revenue, reduction in revenue, and staff, especially in the event segment, with an average retraction of 81% in business. It concludes that there is a need for a contribution of fiscal and financial support measures, as companies in the sector, mostly micro and small companies, as well as the adoption of biosafety protocols and promotion and marketing strategies with a view to recovery and resumption of tourist activity in the destination.

Keywords: Tourism, Covid-19, Economic Impacts, Joinville, Brazil.

INTRODUÇÃO

A atividade do turismo vem crescendo progressivamente, impulsionada pelo fenômeno da globalização e pelo desejo de consumo do turista, propiciando seu desenvolvimento principalmente no aspecto econômico. Os aspectos sociais e culturais também são influenciados pela atividade turística, sendo possível citar como exemplo a valorização das manifestações artísticas e culturais, como também do patrimônio material e imaterial. Entretanto, a atividade turística é suscetível às crises, sejam elas econômicas, sociais ou sanitárias. Essa é a realidade do ano de 2020, quando o mundo sofreu com os impactos da pandemia decorrente da Covid-19 [Corona Vírus]. Neste cenário, apesar das boas perspectivas para o turismo no início daquele ano, com expectativa de crescimento em várias atividades, a pandemia ocasionou a paralisação praticamente total das operações turísticas já em meados de março, mudando completamente os cenários futuros deste importante setor econômico tanto em nível mundial, quanto nacional.

Outras crises já afetaram o setor do turismo, caso do 11 de setembro, de epidemias como H1N1 e Ebola, entre outros (Remoaldo, 2020). Entretanto, em nenhum destes momentos os números relacionados à atividade turística foram tão impactados. Em abril de 2020, 96% dos destinos mundiais haviam decretado algum tipo de restrição ao turismo (Omt, 2021) e dados posteriores [fevereiro de 2021] apontavam que, em um ano, houve um decréscimo de 87% nas chegadas internacionais (Omt, 2021). Sendo assim, desde o início da pandemia, o mercado de viagens é um dos setores mais afetados pela crise, pois a política de isolamento resultante das medidas de contenção ao contágio pela Covid-19 afeta frontalmente a dinâmica econômica do setor, restando pouca ou nenhuma possibilidade de receita. Em nível mundial, aproximadamente 75 milhões de pessoas que trabalham diretamente com o turismo tiveram risco de perder os seus empregos, nestes primeiros momentos. Além disso, estima-se uma perda de US $2,1 trilhões no PIB relacionado ao turismo (Wttc, 2020). Como se trata de uma atividade fortemente geradora de empregos em todas as faixas de renda no Brasil, principalmente, e em grande escala nas áreas de menor grau de especialização, o enxugamento traz consequências significativas para o País. Desde março os deslocamentos e as viagens com diferentes objetivos foram reduzidos, o que impacta os diferentes setores do turismo: o transporte [empresas aéreas, transporte rodoviários, táxis, aplicativos de transportes], a hospedagem [hotéis, Airbnb, albergues], a restauração, os eventos e toda a cadeia produtiva relacionada a estas atividades.

A partir do início da pandemia, diversos autores têm se dedicado a compreender os impactos deste fenômeno na atividade turística em diferentes destinos mundiais. Ruiz Estrada, Park e Lee, (2020) apresentam a realidade na cidade de Wuhan, China, tida como o local onde a pandemia teria iniciado. Os impactos da Covid-19 na Malásia são discutidos por Chin, Tan e Phuah (2020) e também por Karim, Haque, Anis e Ulfy (2020). Na Austrália, Pham, Dwyer, Su e Ngo (2021) tratam do tema. No Brasil, estudos como o de Siston e Albuquerque (2020) buscam compreender os impactos na cidade do Tocantins e Clemente, Andrade, Stoppa e Santos (2020) analisam as políticas públicas frente aos impactos econômicos da pandemia. Ainda no Brasil, a Rede de Observatórios de Turismo tem aplicado periodicamente uma Sondagem Empresarial dos Impactos da Covid-19 no setor de Turismo, sondagem esta que serviu como base para a elaboração dos questionários do estudo apresentado neste artigo.

Cabe observar que não foram identificados estudos específicos realizados para compreender a realidade da Covid-19 no município de Joinville, maior cidade do Estado de Santa Catarina em território ocupado, e a terceira maior economia da região Sul do Brasil. Esta cidade também sente os impactos relacionados com a crise decorrente da Covid-19. Relativamente ao turismo, o principal segmento do município é o de negócios e eventos. Antes da crise, eram realizados anualmente eventos culturais e empresariais de pequeno, grande e médio porte, atraindo para a cidade um grande público (Scalabrini & Da Silva Dalonso, 2018). Além disso, outros segmentos também apresentam relevância para Joinville como destino de viagens, caso do turismo rural e de lazer.

Tendo em conta que a problemática ocasionada pela pandemia pode ser compreendido em diferentes realidades, este estudo teve como objetivo identificar os seus impactos na economia do turismo de Joinville. A Universidade da Região de Joinville [Univille] e o Joinville e Região Convention & Visitors Bureau desenvolveram a pesquisa apresentada neste artigo. O presente estudo possibilitou a identificação de um cenário mais preciso em relação ao impacto econômico da pandemia na atividade do turismo da cidade em todos os seus segmentos, sejam eles negócios, eventos ou lazer, dentre outros, parametrizando os dados obtidos com estudos desenvolvidos em outros destinos. Em relação à sua estrutura, este o artigo parte da Introdução, quando são apresentados conceitos que permitem compreender o contexto pandêmico. O tópico seguinte se dedica aos aspectos metodológicos do estudo realizado, seguido da apresentação dos dados e discussão dos resultados. Por fim, apresentam-se as considerações finais.

COVID-19 E O TURISMO: EVOLUÇÃO E IMPACTOS

A doença ocasionada pelo Coronavírus SARS-Cov-2, que ficou conhecida como Covid-19, surgiu na cidade de Wuhan, na China. O primeiro caso foi detectado no mês de dezembro de 2019 e rapidamente se espalhou por outros países. Durante o período do Carnaval 2020, a Itália decretou toque de recolher na região da Lombardia, até então a mais afetada, impactando fortemente o turismo da região no período. Em março, com os casos já espalhados em diferentes partes do mundo, e com aumento crescente, foi decretada situação pandêmica e a doença caracterizada como uma crise mundial de saúde pública (Ruiz Estrada et al., 2020). Vários países na Europa fecharam suas fronteiras e destinos que antes discutiam alternativas para evitar o overtourism, passaram a um turismo zero (Gössling, Scott & Hall, 2020; Richards, 2020), com restaurantes e hotéis fechados, e empresas aéreas impedidas de operar. Até o advento da Covid-19, o segmento turístico poderia ser entendido como um dos maiores mercados do mundo (Ugur & Akbiyik, 2020).

Epidemias e pandemias são registradas na história mundial, sendo uma das mais importantes em tempos recentes, a ocasionada pela Síndrome Respiratória Aguda Severa [SARS], em 2002, na província de Guandong, na China. Estudos demonstraram que os impactos causados pela SARS foram negativos, substanciais e significativos (Soriano & Porada-Rochon, 2020). Estudos acerca dos padrões de recuperação da SARS em Taiwan (Mao et al. in Skare, Soriano, & Porada-Rochoń, 2020), apontaram como importantes dois fatores, a saber: o nível de histerese, e a eficiência institucional no enfrentamento de eventos críticos. Descobriram ainda que as crises ocasionadas por epidemias, afetam o setor do turismo de forma distinta. Seus estudos sobre a SARS [2021-2004], mas também sobre a Gripe Aviária [2002-2006], revelam que a primeira impactou significativamente a demanda de turismo na China, em Hong Kong, em Cingapura e em Taiwan, enquanto a segunda não teve impacto negativo significativo no setor de Turismo asiático, apesar da elevada taxa de mortalidade.

Segundo Skare et al. (2020) estudos anteriores sobre situações pandêmicas auxiliam na compreensão dos impactos da Covid-19 na atividade turística. Ponto de destaque é que nas epidemias anteriores, as viagens se recuperaram rapidamente, o que não é esperável no cenário do SARS-CoV, uma vez que a atual pandemia parece exigir medidas mais rígidas do que aquelas tomadas na ocasião das epidemias e pandemias anteriores, e que as tecnologias da informação e da comunicação tem desenvolvido um papel importante em seu combate. As pandemias anteriores operaram, principalmente, por meio de canais de choque idiossincráticos de forma que o setor do turismo doméstico sofreu impactos negativos. Contudo, assim que tais choques deixaram de existir, ou seja, assim que os casos de contágio não mais apareceram, o setor conseguiu se recuperar. Em relação a Covid-19, os efeitos de choque, a nível global, se multiplicam de maneira muito rápida e aumentam a crise. Um país em situação de risco baixo, ou seja, sem estado de alerta da doença e, consequentemente, sem choque idiossincrático, não poderá ter tal retorno imediato na medida em que outros países ainda estão em estado de alerta para a doença.

Segundo relatório produzido pelo Conselho Mundial de Viagens e Turismo (Wttc, 2019), cerca de 75 milhões de trabalhadores correm risco de perder seus empregos como impacto direto da crise provocada pela Covid-19. A mesma pesquisa aponta ainda que o PIB do Turismo, em 2020, perderia até US$2,1 trilhões, e que cerca de 1 milhão de trabalhadores do turismo de viagens estariam perdendo emprego diariamente. Já a pesquisa de Skare et al. (2020) revela que o impacto da Covid-19 no turismo não pode ser comparado com aqueles já exercidos em pandemias anteriores. Segundo afirma, o melhor cenário, previsto a partir de abril de 2020, apontava uma perda que parte de 2.93 para 7,82 pontos percentuais na contribuição para o PIB por parte da indústria do turismo mundial, e que os gastos de turistas perdidos, variam de 25,0 a 35,0 pontos percentuais. O total de investimentos de capital entra em uma queda que varia de 25,0 a 31,0 pontos percentuais.

A pandemia provocada pela Covid-2019 acarretará um impacto negativo incomparável no turismo mundial, não somente a curto prazo, mas também a longo prazo, de forma que demandará anos até a recuperação do setor. Estudos demonstram que a contribuição advinda da economia do turismo para o PIB cairá de 4,1 US $ trilhões, para 12,8 US % trilhões, e que a contribuição total do setor de turismo para o emprego terá uma queda de 514, 080 milhões para 164,506 milhões de empregos. Sem contar a perda de despesas turísticas que cairá de 9,9 US$ trilhões para 604,8 bilhões, o que acarreta uma queda nos investimentos de capitais de 1,1 US $ trilhões para 362,9 US$ bilhões (Skare et. al. 2020; Ugur & Akbiyik; 2020).

Atualmente, a Organização Mundial do Turismo aponta que antes do surto global, o crescimento do turismo esperado para 2020 era de 3-4%, o que implica uma mobilização de quase dois milhões de turistas internacionais a mais em comparação com o ano anterior. Os efeitos resultaram em uma estagnação severa atividade econômica em vários países, devido, entre outros, à interrupção ou diminuição nas cadeias de abastecimento de produtos, diminuição na produção das principais economias, a deterioração dos preços das matérias-primas, resultado em primeira instância das medidas de confinamento e restrições de deslocamento estabelecido pelos governos como forma de achatar as curvas de contágio deste vírus (Wttc, 2020).

No universo de pesquisas geradas a partir do impacto da pandemia na economia global, especialmente na atividade turística, há um consenso entre os autores de que a pandemia refletirá em resultados negativos no médio e longo prazo que passará por um processo de recuperação significativa para a retomada econômica dos destinos, considerando que a atividade turística representa para a economia global 129 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos, com uma receita de US$ 8,7 trilhões. (Baum & Hai, 2020; Beni, 2020; Couto, Castanho, Pimentel, Carvalho, Sousa & Santos,2020; Gössling et al., 2020; Gullo, 2020; Mecca et al, 2020; Qiu, Park & Song, 2020; Škare et. al. 2020; To, 2020; Uğur & Akbıyık, 2020; Yeh, 2020).

A paralisação da atividade turística como consequência desta situação causou, em poucos meses, de uma situação de crescimento para uma situação de colapso, não apenas no segmento turístico. A sua transversalidade faz com que a queda do setor tenha um efeito dominó que não só afeta o sistema de turismo, mas todos aqueles elementos direta ou indiretamente dependentes, incluindo territórios e economias locais e nacionais. No contexto brasileiro, segundo os estudos de Beni (2020), o cenário é mais preocupante. Após três anos de leve recuperação da economia do País, com um esforço para uma redução da retração de 7% no PIB acumulados nos anos de 2015 e 2016, a crise gerada pela Covid-19 poderá comprometer todo e qualquer avanço feito ao longo da última década.

OBJETO DE ESTUDO

A cidade de Joinville, localizada na região norte do Estado de Santa Catarina, conta com uma população de 597.658 habitantes, caracterizando-se como a mais populosa do Estado catarinense (Ibge, 2020). Em relação ao desenvolvimento econômico da cidade, o setor de serviços tem ampliado a vantagem sobre a indústria no mercado de trabalho. No momento desta escrita são 86 mil trabalhadores no segmento, enquanto as empresas industriais empregam 72 mil pessoas. O setor já responde por uma fatia de 54% do PIB. Em relação ao Ranking dos Municípios com maior Produto Interno Bruto do Brasil, Joinville posiciona-se entre as 100 maiores economias do Brasil, ocupando a 28ª posição no País e a 3ª na região Sul, sendo superada somente pelas cidades de Curitiba, no Paraná, e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul (Ibge, 2017). Neste cenário, o desenvolvimento crescente da atividade turística na cidade vem contribuindo para o crescimento do setor de serviços de Joinville.

Localizada em uma região estratégica com uma diversidade de acessibilidades, e contando com a preservação de valores culturais, Joinville configura-se em um importante destino turístico do Sul do Brasil, especialmente no segmento do turismo de negócios e eventos. Para uma maior percepção e desenvolvimento de estratégias de mercados dirigidas, o estudo e aplicação de pesquisas em destinos receptores de eventos tornam-se ferramentas fundamentais para o real dimensionamento dos impactos socioeconômicos da atividade turística nas comunidades locais. O desenvolvimento deste segmento na cidade possibilita a criação de mais espaços para a execução de eventos, além de ofertas de qualidade referente à infraestrutura e superestrutura, bem como, implica no deslocamento de turistas para sua participação, apresentando vantagens competitivas para a localidade, tais como a geração de emprego e de renda. Como em outros destinos mundiais, a pandemia impactou de maneira acentuada este segmento turístico no município, por isso a necessidade da realização de pesquisas para mensurar esses impactos e propor estratégias para a retomada sustentável do turismo no local.

METODOLOGIA

A pesquisa, de natureza empírica e de enfoque quantitativo, foi aplicada às 136 empresas prestadoras de serviços e fornecedoras do setor de turismo e de eventos no município de Joinville, associadas das entidades de classe: Joinville e Região Convention & Visitors Bureau, Câmara Setorial de Gastronomia e Entretenimento da CDL Joinville e Núcleo de Turismo da Associação da Ajorpeme. A sondagem foi aplicada no período de 1 a 28 de setembro de 2020, quando os respondentes receberam um link registrado na plataforma Google Forms. Após este período, retornaram 104 questionários preenchidos e válidos, o que representou uma amostra com margem de erro de 3,5% e nível de confiabilidade de 95%. A pesquisa foi realizada por pesquisadores da Universidade da Região de Joinville, com o apoio do Joinville e Região Convention & Visitors Bureau, e dos diversos segmentos turísticos do setor privado que atuam no turismo de Joinville.

O questionário, composto por 23 perguntas de abordagem quantitativa [Quadro 1], estava dividido em dois blocos, que permitiram aferir as características específicas sobre o negócio [Bloco 1], e os impactos da Covid-19 nos negócios, nomeadamente sobre cancelamentos, preços, faturamento e funcionários [Bloco 2]. Importante ressaltar que, as empresas do segmento de eventos, responderam também questões específicas aos eventos previstos e cancelados no ano de 2020. O instrumento aplicado foi elaborado com base na Sondagem Empresarial sobre os Impactos da Covid-19 no Setor de Turismo no Brasil, aplicado pela Rede Brasileira de Observatórios de Turismo (2020).

Quadro 1
Estrutura do questionário
Bloco 1:Características do negócioQ1: Setor de atuação do negócio
Q2: Negócio relacionado a área de eventos
Q3: Porte do negócio
Q4: Tempo de existência do negócio
Bloco 2: Impactos da COVID-19 nos negóciosQ5: Atuação em relação aos preços
Q5.1: Percentual de redução de preços
Q5.2: Percentual de aumento de preços
Q6: Previsão de faturamento para 2020
Q6.1: Estimativa de perda de faturamento 2020
Q7: Situação dos funcionários
Q7.1: Número de demissões
Q7.2: Número de contratações
Q8: Percentual de funcionários que estão em home office
Q9: Previsão de retorno de faturamento para o período pré-Covid 19
Q10: Conhecimento em relação a medidas governamentais de apoio ao setor
Q11: Necessidade de crédito
Q12: Valores necessários de crédito
Q13: Tempo possível de subsistência com capital de giro existente
Bloco específico para empresas de eventosQ2.1: Eventos estavam contratados ou programados para realização em 2020
Q2.2: Eventos contratados para 2020, que foram realizados antes do Decreto Estadual 515 de 17 de março de 2020 (que proibiu a realização de eventos)
Q2.3: Eventos cancelados em 2020
Q2.4: Eventos que foram reagendados para 2021
Q2.5: Expectativa de público que deixou de circular em 2020.
elaboração própria, com base no questionário aplicado às empresas de Joinville.

Com base nos resultados mensurados a partir das respostas dadas na plataforma Google Forms, os dados foram lançados no Excel, onde foram analisados os possíveis outliers. Após esta fase, os dados foram analisados no programa estatístico IBM SPSS® v. 26, por meio de técnicas estatísticas descritivas e análises comparativas com estudos similares já realizados sobre o tema.

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

No que tange a característica das empresas, a pesquisa identificou que, dentre os segmentos de atuação dos participantes, a maioria dos respondentes (47,2%) é ligada a negócios que envolvem diretamente à prestação de serviços ou o fornecimento de produtos para o setor de eventos. Este segmento teve a maior participação em relação ao público pesquisado, especialmente por se tratar de um dos setores mais afetados de imediato pela pandemia. A seguir, 22,1% dos respondentes correspondem a empresas da área de restauração [alimentos e bebidas], 13% de empresas da área de hospedagem [hotéis, albergues, pousadas], 7,7% agências de viagens, 2,9% de empresas no ramo de cultura e lazer, 1,9% guias de turismo, 1% de empresas de transportes e 3,7% de outros ramos relacionados ao turismo. Já no que diz respeito ao porte do negócio, a maioria dos inquiridos (82,69%) se enquadram na categoria de microempreendedor, empresa de pequeno porte e microempresas. Este resultado segue o mesmo parâmetro da realidade do Estado de Santa Catarina, onde 90% das empresas turísticas ativas são de microempreendedor individual e microempresas (Jucesc, 2020). Numa análise sobre o tempo de atuação das empresas no mercado turístico, a pesquisa demonstra que 70% das empresas têm o tempo de existência do negócio em 7 anos. Considerando que a média brasileira de sobrevivência das empresas é de 4 anos, e que a taxa de sobrevivência das empresas com até dois anos de atividade é de 76,6% (Bedê, 2016), pode-se afirmar que as empresas participantes estão consolidadas no mercado.

Especificamente sobre os impactos da Covid-19 nos negócios, o primeiro questionamento foi em relação aos preços. Durante o período de 1 a 28 de setembro de 2020, os estabelecimentos entrevistados não tomaram nenhuma decisão com relação a variação dos preços praticados [Quadro 2]. Como esse momento da pandemia criou expectativas de retorno, que não se confirmaram, pode-se entender os motivos pelos quais 48% das empresas participantes desta pesquisa afirmaram a manutenção dos preços como estratégia. Ainda, ao analisar o comportamento relativo aos preços, se comparado ao tempo de existência do negócio, é evidente que as empresas que têm de 1 a 3 anos no mercado tiveram comportamento diferenciado das empresas já consolidadas [mais de 3 anos no mercado]. Enquanto as primeiras apresentaram maior percentual de redução dos preços (42,9%), as empresas já consolidadas optaram por manter os preços (56,5%). O fato de que a maioria das empresas respondentes são consolidadas, conduz ao entendimento de que o conhecimento do mercado às permite que adotem estratégias mais apropriadas, visando garantir o seu público.

Quadro 2
Impactos econômicos: preços e faturamento
Atuação do negócio em relação aos preçosFaturamento previsto para 2020
Variável%Variável%
Os preços mantiveram-se os mesmos48,1Redução em mais de 75%58,7
Os preços foram reduzidos29,8Redução entre 51% e 74,99%13,5
Os preços foram aumentados10,6Redução entre 26% e 50,99%15,4
Nenhuma decisão foi tomada11,5Redução em até 25,99%6,7
Continuará estável1,9
Aumento entre 51% e 74,99%1,0
Aumento entre 26% e 50,99%1,0
Aumento em até 25,99%1,9
Elaboração própria, com base nos resultados do questionário.

No aspecto faturamento [Quadro 1], a expressiva maioria (87,6%) contabilizou uma significativa queda no faturamento, justificado principalmente pela impossibilidade de realização de eventos desde o mês de março 2020. A não realização de eventos, e a restrição de circulação de pessoas, impacta tanto na rede de fornecedores para o evento, quanto na rede de apoio aos turistas e visitantes. No caso do Destino de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, o mês de abril de 2020 foi altamente impactado, com uma queda de visitação na ordem 97% (Mecca & Do Amaral Gedoz, 2020).

Ao analisar, especificamente, o perfil das empresas, a maioria entre aquelas com 1 a 3 anos de existência, afirmam que terão 75% redução no faturamento (71,4%). Em relação ao tipo de empresa, são as empresas autônomas (90,9%) e os microempreendedores (65,5%) que mais sentirão os impactos da crise no que diz respeito ao faturamento, ou seja, redução de mais de 75% no ano de 2020. Na pesquisa desenvolvida por Paixão, Cordeiro & Körössy (2020) no destino de Fernando de Noronha, a suspensão das atividades turísticas por conta da pandemia gerou uma perda estimada na arrecadação das taxas de R$ 8,94 milhões, correspondendo a cerca de 93% da queda na arrecadação do Arquipélago. Sobre a previsão inicial de recuperação diante da crise causada pela pandemia, 43,3% das empresas pesquisadas acredita que somente em 2021 terá a recuperação do seu negócio. Entretanto, 36,5% acreditam que ocorrerá somente após 2021.

A pesquisa também se dedicou a compreender a situação dos funcionários das empresas [Quadro 3].

Quadro 3
Situação dos empregos durante a pandemia
Situação dos empregosFuncionários em home office
Variável%Variável%
Houve ou haverá contratações1,9Não há como trabalhar em home office21,2
Houve ou haverá demissões52,9Não há funcionários em home office44,2
Não houve demissões/ contratações45,2De 75% a 99% em home office3,8
De 51% a 75% em home office1,9
De 31% a 50% em home office1,9
De 11% a 30% em home office2,9
Até 10% em home office5,8
Todos os funcionários em home office1,9
Não sei responder5,8
Elaboração própria, com base nos resultados do questionário.

Quando questionados, o resultado mostra que, dentre as medidas tomadas em relação ao quadro de funcionários, 52,9% afirmam que demitiram ou que ainda demitirão, o que reflete a ausência de negócios sendo gerados neste período. Ao mesmo tempo, os 45,2% pressupõe que se utilizaram da MP 936/2020 [Medida Provisória que suspende ou reduz contratos de trabalho no Estado de Santa Catarina] ou de outras medidas para preservação do emprego. Em pesquisa similar, desenvolvida no Estado Paraná (Corbari & Grimm, 2020), 41% dos empreendimentos que participaram tiveram demissão de funcionários. Por se tratar de prestação de serviços, 65,4% responderam não possuir ou não haver meios de trabalhar home office. Este resultado retrata o perfil de rotina de trabalho dos profissionais do setor de turismo, ao qual a prestação está diretamente relacionada com a necessidade de uso do equipamento, e da interface com o consumidor.

Quando questionados sobre o conhecimento das medidas governamentais de apoio ao setor que foram adotadas a partir da pandemia, observa-se que 50% afirmaram que tem conhecimentos de todas as medidas e, em seguida 38,5% afirmaram ter pouco conhecimento. Evidencia-se que a maioria dos respondentes procuram manter-se informados acerca das ações que o governo vem adotando para o setor. Também foi questionado aos inquiridos sobre a necessidade de crédito durante o período pandêmico. Neste cenário, a pesquisa evidenciou que 21% das empresas pesquisadas viram a necessidade de acesso ao crédito, porém não entraram com pedido. Um mesmo número, 21,2% das empresas entrevistadas afirmaram que não tem necessidade de crédito e 19,2% afirmaram que têm necessidade de crédito, ao qual entraram com pedido e estão aguardando o resultado [Quadro 4].

Quadro 4
Sobre a necessidade de crédito durante o período pandêmico
Necessidade de créditoValores de crédito necessários
Variável%Variável%
Não sei avaliar ainda20,2Não sei responder16,3
Tenho necessidade, mas não consegui18,3Até R$ 10 mil6,7
Tenho necessidade, estou aguardando19,2De R$ 11 mil a R$ 35 mil12,5
Tenho necessidade, não fiz pedido21,2De R$ 36 mil a R$ 50 mil9,6
Não tenho necessidade21,2De R$ 51 mil a R$ 100 mil9,6
De R$ 101 mil a R$ 300 mil15,4
De R$ 301 mil a R$ 1 milhão4,8
Acima de R$ 1 milhão3,8
Não se aplica21,2
Elaboração própria, com base nos resultados do questionário.

Das empresas entrevistadas que afirmaram a necessidade de crédito, 15,4% declaram a necessidade uma linha de crédito entre R$ 101 mil a R$ 300 mil, e 12,5% entre R$ 11 mil a R$ 35 mil. No estudo realizado no Estado de Santa Catarina (Emmendoerfer & Biz, 2020), o acesso ao crédito foi uma das necessidades iniciais detectadas para a sobrevivência das empresas do setor, com a necessidade de crédito na média de 50 a 100 mil reais para os dois primeiros meses da crise.

Sob o ponto de vista do impacto direto no setor de eventos, um dos questionamentos buscou levantar o número de eventos que estavam contratados para serem realizados ao longo deste ano. Dentro da cadeia de prestadores de serviços para o segmento respondente da pesquisa, foi informado que 2.770 diferentes serviços estavam contratados para serem realizados ao longo dos eventos programados para 2020 no município de Joinville. A exemplo, o Carnaval de 2020 foi o último do calendário de grandes eventos turísticos realizados no Brasil, tendo como principais destinos as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Olinda, com o registro de recorde de público. Neste ano, o país registrou um crescimento de 30% em comparação ao ano anterior, gerando R$ 8 bilhões em receitas e 25,4 mil empregos temporários, especialmente no setor de A&B, bem como beneficiando os setores de transporte, agências de viagem, lazer e meios de hospedagem (Brasil, 2020).

Outro questionamento respondido pelos entrevistados, afirma que entre o dia 1º de janeiro e 17 de março de 2020 [anteriormente a publicação do Decreto Estadual 515 de 17 de março de 2020, que proibiu a realização de eventos], foram realizados 504 contratos de prestação de serviços para os eventos programados neste período. Até o período da realização da pesquisa, é possível evidenciar um elevado impacto na economia do segmento de eventos, com uma retração média de 81% nos negócios do segmento. Segundo dados dos anos de 2018 e 2019, no Estado de Santa Catarina cada evento de grande porte gera uma movimentação econômica média de R $15,3 milhões, e os eventos de pequeno porte representam uma movimentação média de R $200 mil. De modo geral, o setor turístico representa 12% do PIB do Estado, o que acarretou em 2019, uma arrecadação de ICMS vinculada às atividades turísticas de R $630 milhões (Simon, 2020).

Considerando as incertezas ocasionadas pela Covid-19, para realização de eventos em 2020, os entrevistados afirmam que cerca de 1040 serviços contratados foram reagendados para acontecer em 2021. Estima-se que os eventos impactem 52 setores econômicos, que, neste cenário, foram afetados pelas medidas adotadas de isolamento social e restrição de públicos. A estimativa, considerando apenas os entrevistados, é de uma perda de R$ 11,5 milhões no faturamento das empresas no ano de 2020. Isso não representa apenas uma perda de receita, mas também de arrecadação de tributos ao município e redução do PIB. Outro impacto relevante é em relação ao perfil das empresas, sendo que a maioria (82,69%) se enquadra na categoria de microempreendedor, empresa de pequeno porte e microempresas, essa queda de faturamento impacta diretamente na renda familiar dos proprietários. Além da precarização da renda familiar, indiretamente a economia do município perde com a queda do consumo de bens e serviços.

Este indicador se aproxima do cenário observado em pesquisa similar desenvolvida no Estado de Santa Catarina (Emmendoerfer & Biz, 2020), evidenciando que 95% das empresas que atuam com o turismo no estado são compostas por micro e pequenos empreendedores. Neste contexto, o impacto da Covid-19 torna-se ainda mais significativo, devido à fragilidade do pouco capital de giro dessas empresas neste momento de crise econômica. Por fim, 94,2% das empresas entrevistadas, a maioria absoluta (94,2%), declarou que a pesquisa aplicada é relevante para dimensionar o impacto da pandemia na economia do turismo. Estudos desta natureza contribuem para a elaboração de estratégias e políticas de atendimento às demandas identificadas na pesquisa.

Assim como Joinville, muitos outros estudos demonstraram o efeito da pandemia nos destinos brasileiros, afetando não só na atividade turística, mas o impacto no presente e no futuro próximo em todas dimensões da vida humana, desde sociais, políticas, educacionais, emocionais e econômicos (Corbari & Grimm, 2020; Siqueira Gil, Hirschfeld & Marcelo, 2020; Emmendoerfer & Biz, 2020; Guimarães, Catramby, de Almeida Moraes & Soares, 2020; Paixão, Cordeiro & Körössy, 2020; Siston & Albuquerque, 2020). No caso do Destino de Bento Gonçalves (RS), considerada a Capital Brasileira do Vinho, o mês de abril de 2020 foi altamente impactado, com uma que da visitação na ordem 97% (Mecca & do Amaral Gedoz, 2020).

Em estudo desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas, a partir das Atividades Características do Turismo [Cat], as perdas econômicas calculadas do setor foram de R$ 165,5 bilhões, o que representa 38,9% em relação a 2019. A perda total do setor turístico brasileiro será de R$ 116,7 bilhões no biênio 2020-2021. Para que se tenha uma recuperação dessa perda, será necessário um crescimento de 16,95% ao ano em 2022 e 2023 das atividades para que se recupere a perda econômica causada pela crise da pandemia do Covid-19 (Barbosa, 2020). Apesar das medidas de controle sanitário implementadas pelos governos, destinadas a controlar o contágio, resultarem em impactos positivos na saúde, tais medidas afetam a atividade econômica, uma vez que o distanciamento social geralmente implica uma desaceleração da produção ou mesmo sua interrupção total e atividades como o turismo e os eventos são diretamente afetados por estas medidas, como se verificou nos resultados da pesquisa realizada em Joinville.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É um fato que a pandemia Covid-19 gerou impactos sem precedentes na história mundial recente, e isso também se refere ao turismo. Destinos mundiais foram impactados com o fato de o turismo ter praticamente parado, e os principais reflexos estão focados nos aspectos econômicos, sendo um dos mais perceptíveis o despedimento de milhares de colaboradores da área turística e o fechamento de muitas empresas do setor, sendo a hotelaria, restauração e agenciamento os negócios mais afetados. Diante disso, o turismo precisará ser reinventado, e já há algumas perspectivas para a sua retomada. O overtourism, uma realidade até início do ano de 2020, deixa de ser uma preocupação para os destinos. Ao contrário disso, surge uma tendência ao turismo doméstico, as viagens de curtas distâncias e de menor duração, e também aos destinos de natureza e atividades ao ar livre. Essa já foi uma realidade durante o último verão europeu, quando os destinos domésticos foram a preferência dos turistas (Remoaldo, 2020).

Outra preocupação evidenciada é a busca por destinos seguros, ou seja, que demonstrem eficácia nas medidas de segurança sanitária e também segurança nas políticas de cancelamento de reservas. Exemplos a serem citados são o Selo Clean & Safe adotado pelo órgão de Turismo de Portugal, onde as empresas, que preenchem os requisitos de segurança de saúde, recebem um selo que demonstra aos consumidores a sua preocupação com a biossegurança e o Turismo Responsável, lançado pelo Ministério do Turismo do Brasil, com características similares ao citado anteriormente. Estas curtas viagens passam a ter melhor qualidade e interação com a cultura local e uma responsabilidade com a sustentabilidade, autenticidade e comunidade local. Com foco nestas perspectivas, Joinville um destino essencialmente de negócios e eventos, precisa planejar e estar atento às novas tendências para com a retoma do turismo, minimizar os impactos ocasionados pelo período pandêmico. Embora o momento seja crítico, sendo o equilíbrio entre os impactos econômicos e a preocupação com a saúde extremamente desafiador para os governos, isso pode representar uma oportunidade para que o turismo, em suas diferentes instâncias [nacional, estadual e municipal] se reinvente.

É um momento em que novos segmentos do turismo podem ser fortalecidos, como o turismo criativo e o turismo cultural. Os resultados da pesquisa apontam para um cenário de imensos impactos negativos, mostrou que a maioria expressiva de empresas da cidade ligadas ao setor de turismo e eventos, contabilizaram queda significativa no faturamento, equivalente à 87,6%. A pesquisa também revelou que 52,9% demitiram ou devem demitir por conta da perda de receita e 45,2% recorreram a medidas para preservação do emprego, como a Medida Provisória 936, de 1º de abril de 2020, que permite a redução de jornada e de salário. Outro ponto relevante é que não somente a atividade econômica do turismo foi e é afetada pela pandemia, mas todas as pessoas ligadas às empresas do segmento. Como observado, a maioria das empresas entrevistadas são micro e pequenas empresas e que, comumente, fazem parte também do quadro de funcionários familiares, o que significa que a queda salarial tem efeito multiplicador na perda da renda familiar.

A redução do faturamento é atribuída principalmente à impossibilidade da realização de eventos desde março de 2020 e a restrição de circulação de pessoas, que afetaram tanto a rede de fornecedores quanto a de apoio aos turistas e visitantes. Considerando que a maioria das empresas afetadas é composta por micro e pequenas empresas, será necessário o desenvolvimento de medidas e políticas de suporte à manutenção e retomada das atividades, especialmente ao segmento de eventos. A partir dos indicadores gerados pela pesquisa, foi sugerido, como forma de mitigar as repercussões desta pandemia no setor turístico, que, em primeira instância, os riscos aos quais o destino está exposto devem ser avaliados e gerenciados. Consequentemente, devem ser elaborados planos de gestão para potenciais situações de desastre. E ainda, os gerentes de turismo teriam que auditar esses planos, projetar ações para responder à crise, e adquirir habilidades para lidar com isso.

A exemplo do estudo realizado no Estado de Santa Catarina (Emmendoerfer & Biz, 2020), entre as ações de mitigação, apontadas pelo público pesquisado foram a redução de tributos (63%), articulação para linhas de crédito específicas para o turismo (62%), campanha de marketing para refortalecer o destino Santa Catarina (50%), além de um Programa de incentivo para o turismo interno com roteiros curtos de base comunitária local (50%). A partir deste estudo, a Agência de Desenvolvimento do Turismo de Santa Catarina, em parceria com o Banco de Desenvolvimento Econômico de Santa Catarina e o Ministério do Turismo, estudam uma política de flexibilização de crédito para o setor. Outra iniciativa adotada no Estado de Santa Catarina foi a estruturação de programa de incentivo para o turismo catarinense denominado “Viaja+SC”, que estimula as boas práticas para o turismo responsável no estado, por meio de uma certificação de empreendimentos turísticos comprometidos com as medidas de prevenção à Covid-19. Os participantes do programa estão identificados com os selos “Viaje+Seguro SC” e “Safe Travels”, certificando os estabelecimentos turísticos com as boas práticas de higiene e segurança sanitária para receber os turistas com os cuidados relativos aos protocolos de biossegurança (Governo de Santa Catarina, s/d).

Na compreensão de Yeh (2020), os governos desempenham um papel importante na luta contra a COVID-19 em vários níveis, como a recuperação da economia que inclui a indústria do turismo. Especialmente na instância dos governos locais, é importante ter uma comunicação aberta para construir um relacionamento e um bom relacionamento de trabalho entre o poder público e privado. Para além dos impactos diretos gerados pela pandemia na economia dos destinos, a de se considerar os custos sociais do turismo gerados pela pandemia nas comunidades impactadas. As medidas de ajuda devem ser projetadas para beneficiar a sociedade em geral em destinos turísticos que sofrem impactos socioeconômicos negativos significativos devido à pandemia, considerando a mudança de percepção das pessoas sobre os riscos para a saúde pública associados ao turismo (Qiu, Park & Song, 2020).

Parte altamente impactada, e de extrema importância para a economia do turismo, o segmento de eventos deve ser explorado gradualmente como forma de recuperação e desenvolvimento econômico, especialmente nos destinos, como Joinville, onde este segmento se caracteriza como a principal atividade turística, por meio de mecanismos de incentivo e descontos em taxas para fomentar mais empresas e visitantes para esses eventos. Na compreensão de Brito Rêgo, Barros & Lanzarini (2021), a adaptação local às legislações vigentes e ao cumprimento da capacidade de carga a demanda estabelecida nos decretos e portarias para o cumprimento de protocolos sanitários, é primordial na construção de um planejamento estratégico de produção de eventos. Outro importante recurso que deve ser adotado pelo setor, a exemplo do Programa adotado no Estado de Santa Catarina “Viaja+SC”, é a certificação de qualidade selo “Turismo Responsável, Limpo e Seguro”, desenvolvido pelo Ministério do Turismo (MTUR, 2020), que atesta aos estabelecimentos do trade turístico, bem como às empresas organizadoras de eventos, os requisitos de biossegurança contra a Covid-19.

Concluindo, a pesquisa realizada nos empreendimentos de Joinville – SC, aponta para um relevante impacto econômico, e consequentemente social, ocasionado pela pandemia COVID-19. Diante disto, é necessária a implantação de medidas públicas e privadas que garantam, de maneira segura, a retomada da atividade turística. É extremamente importante ter em consideração os protocolos de biossegurança, demonstrando aos visitantes e consumidores o compromisso para com o bem-estar de todos. Da mesma forma, considera-se relevante, a partir do resultado da pesquisa, a necessidade de identificação de políticas locais, regionais e federais que promovam a retomada do aquecimento da atividade turística de Joinville, especialmente dos segmentos de eventos e alimentação, bem como o acompanhamento contínuo do desempenho da atividade no destino.

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