Resumo: O objetivo deste estudo foi identificar na literatura as fontes de informação sobre saúde mental (FISM) utilizadas pelas pessoas, bem como discutir as vantagens e desvantagens associadas a fontes específicas a fim de compreender as preferências e suas justificativas. Foi realizada uma revisão sistemática de literatura em cinco bases de dados nacionais e internacionais (PubMed, Pepsic, IndexPsi, Scielo e Lilacs) com a combinação entre dois descritores “fontes de informação” e “saúde mental” em Português, Inglês e Espanhol. No total, foram encontrados 46 trabalhos completos, mas apenas 12 foram selecionados para análise. As informações foram organizadas em duas categorias definidas a priori, com base nos objetivos do estudo: FISM utilizadas por grupos específicos e implicações dos resultados dos estudos analisados na prática. Verificou-se que a Internet e os profissionais da saúde foram as FISM de maior preferência das diferentes amostras analisadas. Contudo, é necessário que os profissionais indiquem aos pacientes FISM confiáveis e expliquem as possíveis limitações sobre cada uma. Conclui-se que, embora a Internet tenha aumentado o acesso a informações sobre saúde mental, o papel dos profissionais continua sendo fundamental na produção de conteúdo confiável.
Palavras-chave:Fontes de informaçãoFontes de informação,saúde mentalsaúde mental,internetinternet,revisão de literaturarevisão de literatura.
Abstract: The aim of this study was to identify the sources of information on mental health (SIMH) used by people in the literature, as well as to discuss the advantages and disadvantages associated with specific sources in order to understand the preferences and their explanations. A systematic literature review was carried out in five national and international databases (PubMed, Pepsic, IndexPsi, Scielo, and Lilacs) with the combination of two descriptors "information sources" and "mental health" in Portuguese, English, and Spanish. In total, 46 complete papers were found, but only 12 were selected for analysis. The information was organized in two categories defined a priori, based on the objectives of the study: SIMH used by specific groups and implications of the results of the studies analyzed in practice. We verified that the Internet and the health professional(s) were the most favored SIMH of the different samples analyzed. However, it is necessary for practitioners to point out reliable SIMH for patients and to explain possible limitations of each of these. We concluded that, although the Internet has increased access to mental health information, the role of professionals remains crucial in the production of reliable content.
Keywords: Information resources, mental health, internet, literature review.
Resumen: El objetivo de este estudio fue identificar en la literatura las fuentes de información sobre salud mental (FISM) utilizadas por las personas, así como discutir las ventajas y desventajas asociadas a fuentes específicas a fin de comprender las preferencias y sus justificaciones. Se realizó una revisión sistemática de literatura en cinco bases de datos nacionales e internacionales (PubMed, Pepsic, IndexPsi, Scielo y Lilacs) con la combinación entre dos descriptores "fuentes de información" y "salud mental" en Portugués, Inglés y Español. En total, se encontraron 46 trabajos completos, pero sólo 12 fueron seleccionados para análisis. Las informaciones fueron organizadas en dos categorías definidas a priori, con base en los objetivos del estudio: FISM utilizados por grupos específicos e implicaciones de los resultados de los estudios analizados en la práctica. Se verificó que la Internet y el profesional de la salud fueron las FISM de mayor preferencia de las diferentes muestras analizadas. Sin embargo, es necesario que los profesionales indiquen a los pacientes FISM confiables y expliquen las posibles limitaciones sobre cada una. Se concluye que, aunque Internet ha aumentado el acceso a información sobre salud mental, la función de los profesionales sigue siendo fundamental en la producción de contenido confiable.
Palabras clave: Fuentes de información, salud mental, internet, revisión de literatura.
Revisiones
Fontes de informação sobre saúde mental: revisão sistemática da literatura
Sources of information on mental health: a systematic review of the literature
Fuentes de información sobre salud mental: revisión sistemática de la literatura
Recepción: 22 Abril 2019
Aprobación: 11 Junio 2020
A quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5) define transtorno mental como uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental (American Psychiatric Association [APA], 2013). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 14% da população global é afetada por distúrbios mentais, sendo os transtornos depressivos e de ansiedade os mais prevalentes na população (Organização Mundial da Saúde [OMS], 2017a). A maioria das doenças mentais é resultado de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, que podem afetar a todos (OMS, 2002). Em geral, os tratamentos envolvem psicoterapia (presencial ou online, individual ou em grupo), uso de medicações psicotrópicas ou a combinação de ambos (Andersson & Titov, 2014; Neufeld & Rangé, 2017; Sudak, 2009).
Muitos indivíduos que preenchem os critérios para um transtorno psiquiátrico não procuram ajuda profissional para sua condição (Leach, Christensen, Griffiths, Jorm, & Mackinnon, 2007; Jorm, Patten, Brugha, & Mojtabai, 2017). Os prejuízos decorrentes desses transtornos quando não tratados podem interferir em vários aspectos da vida, provocando sofrimento psíquico e/ou somático, baixo rendimento ocupacional e acadêmico, discriminação, isolamento social, interrupções de atividades acadêmicas e laborais, abuso de álcool e drogas, entre outras (Gonçalves & Kapczinski, 2008).
Um número cada vez maior de pessoas se interessa em saber mais sobre sua condição de saúde, e esta é uma das áreas que mais apresenta informações disponíveis (Silvestre, Rocha, Silvestre, Cabral, & Trevisol, 2012). Há evidências de que indivíduos com mais informações sobre transtornos mentais comuns estão mais dispostos a procurar ajuda profissional (Jorm et al., 2017). Na Austrália, por exemplo, foram utilizadas vinhetas clínicas para transmitir informações sobre saúde mental para a população. Como resultado, verificou-se um aumento no número de adultos que suspeitava possuir depressão, já que se identificavam com vinhetas clínicas de pessoas deprimidas. Também houve um aumento na porcentagem de casos em que se reconhecia que um membro da família ou um amigo apresentava um problema psicológico similar aos apresentados nas vinhetas. Com isso, adultos australianos mostraram melhora em suas capacidades para reconhecer quadros psiquiátricos e maior disposição para buscar ajuda profissional (Reavley & Jorm, 2011). O uso de vinhetas clínicas para informar a população ainda pode contribuir para a redução de estigmas, como a crença de que a depressão é causada por uma fraqueza do indivíduo (Pilkington, Reavley, & Jorm, 2013).
Além da falta de conhecimento sobre os transtornos mentais, outras barreiras impedem a busca por cuidados em saúde mental, tais como conhecimento inadequado e preconceito (Jorm et al., 2006). Pessoas que adiam ou não buscam ajuda profissional apresentam diferentes justificativas para estes comportamentos, como não gostar de falar sobre seus sentimentos, emoções ou pensamentos, dificuldades em reconhecer os próprios sintomas, constrangimento e vergonha associados à busca de ajuda na saúde mental (preocupações sobre confidencialidade e confiança) e indisponibilidade de atendimento (Salaheddin & Mason, 2016). Estes motivos podem decorrer do estigma relacionado aos transtornos mentais e aos serviços de saúde mental (Simmons, Jones, & Bradley, 2017) que, por sua vez, podem resultar na percepção de que os problemas não são sérios, de que se pode lidar com eles com base na autoconfiança e na preferência por fontes informais de ajuda (Salaheddin & Mason, 2016).
Embora os profissionais de saúde sejam importantes provedores de tais informações, a população nem sempre tem acesso aos conhecimentos transmitidos por eles. Quando tem, ainda pode haver indivíduos que desconfiam da neutralidade das prescrições e questionam se elas de fato preservam seu direito de receber tratamento apropriado, livre de incentivos comerciais (Rios & Moraes, 2013). Frente a isso, outras fontes passam a desempenhar um papel importante na educação da comunidade sobre problemas de saúde mental por serem mais acessíveis (Andersson & Titov, 2014; Reavley, Cvetkovski, & Jorm, 2011). A Internet, por exemplo, é uma ferramenta que permite o cidadão acessar uma grande quantidade de informações (Silveira, Costa, & Lima, 2012), sendo possível compartilhá-las com qualquer pessoa, a qualquer hora e lugar. Isso, somado ao fato de que o tema saúde é o segundo maior interesse dos internautas brasileiros (Barbosa, 2014), torna a Internet uma ferramenta para instruir pacientes em potencial bem como disponibilizar informações de apoio ao tratamento. De fato, seu uso para auxiliar o processo de educação ao paciente vem sendo discutido no Brasil e no exterior por profissionais de diferentes áreas da saúde, sobretudo nos campos da enfermagem, medicina, psicologia, nutrição e farmácia (Bastos & Ferrari, 2011).
O objetivo deste estudo é identificar na literatura as fontes de informação sobre saúde mental (FISM) utilizadas pelas pessoas. Ademais, busca-se discutir as vantagens e desvantagens associadas a fontes específicas a fim de compreender o motivo de suas preferências.
Trata-se de um estudo de revisão sistemática de literatura sobre as FISM. Utilizou-se a combinação dos descritores “fontes de informação” e “saúde mental”, determinados pelas Terminologias em Psicologia, nos idiomas Português, Inglês (“information sources” and “mental health”) e Espanhol (“fuentes de información” y “salud mental”), com base no objetivo do estudo - identificar as FISM utilizadas pelas pessoas. As buscas foram realizadas no período de maio de 2017 a agosto de 2018 em cinco bases de dados (PubMed, Pepsic, IndexPsi, Scielo Brasil e Lilacs), pelas primeiras duas autoras deste estudo, que fizeram o papel de juízas. Optou-se por essas bases por oferecerem acesso ao texto completo de publicações nacionais (Pepsic, IndexPsi, Scielo Brasil) e internacionais (PubMed e Lilacs).
No total, foram encontrados 46 trabalhos completos. As bases de dados brasileiras identificaram nenhum artigo, de forma que todos os trabalhos analisados são internacionais. Os títulos e resumos das 46 publicações foram lidos de forma independente pelas duas juízas a fim de delimitar a amostra de trabalhos a serem analisados na íntegra. O processo de seleção dos juízes ocorreu por conveniência. Ambos são estudantes de Psicologia e estavam a par dos objetivos do estudo. Os critérios de inclusão dos artigos para participação na amostra final deste estudo foram: a) apresentar informações sobre as FISM utilizadas pela população, b) ser redigido em Português, Inglês ou Espanhol, c) publicação derivada de revisão cega por partes (não ser livros, dissertações e teses). Nesta etapa, foram excluídos 34 artigos. Estes foram excluídos por estarem indisponíveis ou por não tratarem do tema FISM. A Figura 1 apresenta as fases de análise e o número de artigos excluídos. O índice de concordância entre os juízes foi de 93,02%. As discordâncias foram resolvidas pelo acesso às informações em sua totalidade e reavaliação das mesmas por um terceiro juiz.

Restaram 12 estudos para serem analisados na íntegra. As informações foram organizadas em duas categorias definidas a priori com base no objetivo do estudo - investigar as FISM utilizadas pelas pessoas, bem como discutir as vantagens e desvantagens associadas a fontes específicas a fim de compreender os motivos de preferências por uma ou outra fonte. Assim, a primeira categoria identifica as FISM utilizadas por grupos específicos de pessoas, enquanto a segunda indica as implicações do uso de determinada fonte, por meio da descrição das vantagens e desvantagens de cada uma.
O delineamento metodológico utilizado em todos os artigos analisados foi levantamento, método que apresenta uma descrição quantitativa de tendências da população (Creswell, 2010). As publicações estão concentradas nos anos de 2011 (16,67%), 2012 (25,00%) e 2016 (16,67%), de forma que os anos de 1998, 2002, 2003, 2006 e 2007 representam os 41,66% restantes, com um artigo em cada ano. Essa informação sinaliza o interesse recente sobre o tema por parte dos pesquisadores. De maneira geral, os estudos descrevem as principais FISM utilizadas por uma população específica, exploraram a qualidade dessas fontes utilizadas e examinaram a percepção das amostras investigadas sobre a necessidade de maiores informações sobre saúde mental. A qualidade das FISM utilizadas foi discutida pelos autores dos trabalhos a partir da literatura sobre o tema no que se refere a acessibilidade, popularidade, eficácia e demais fatores ao que tangem cada amostra. Já a percepção das amostras sobre a necessidade de obter informações sobre saúde mental foi identificada por meio de questionários utilizados nesses estudos. Os objetivos das publicações, demais características metodológicas (amostra e instrumentos), principais resultados e suas implicações foram sistematizados na Tabela 1.

As amostras dos estudos analisados foram compostas por grupos de pessoas com características distintas no que diz respeito à faixa etária (Reavley et al., 2011), etnia (Bussing et al., 2012), uso de medicação (Sleath et al., 2003), diagnóstico de AIDS (Lai & Bakken, 2006), Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH; Bussing et al., 1998) ou Transtorno do Humor Bipolar (THB; Conell et al., 2016), e parentesco de pacientes psiquiátricos (Turner et al., 2011). Logo, os resultados apresentados são válidos para pessoas que compartilham das mesmas características da amostra estudada. Estas também podem justificar a preferência por FISM diferentes. Por exemplo, é possível que a faixa etária maior ou menor explique a preferência de adultos por profissionais da saúde como FISM e a de adolescentes pela Internet. A seguir, são apresentadas as fontes identificadas nos artigos analisados e, depois, os resultados específicos das amostras estudadas.
De maneira geral, a FISM citada como preferida é a Internet (Bussing et al., 2012; Turner et al., 2011), sendo esta e o(s) profissional(is) de saúde igualmente privilegiado em outros estudos (Bauer et al., 2016; Bussing et al., 1998; Conell et al., 2016; Kisely, 2002; Leach et al., 2007). Outras FISM que foram citadas mas pouco utilizadas foram: televisão, (Bauer et al., 2016; Bussing et al., 2012; Reavley et al., 2011), livros (Bauer et al., 2016; Bussing et al., 2012; Reavley et al., 2011), jornais ou revistas (Bauer et al., 2016, Bussing et al., 2012; Reavley et al., 2011), rádio (Bauer et al., 2016; Reavley et al., 2011), amigos ou familiares (Bauer et al., 2016; Sleath et al., 2003), panfletos ou folhetos (Bauer et al., 2016; Reavley et al., 2011), outras pessoas com o mesmo diagnóstico (Bauer et al., 2016), redes sociais (Bussing et al., 2012), comunicação interpessoal (Lai & Bakken, 2006), farmacêuticos (Sleath et al., 2003), linhas telefônicas de atendimento (Bauer et al., 2016), trabalho desenvolvido pelo National Institute of Mental Health (Harvey et al., 2012) e Wikipédia (Reavley et al., 2012).
A pesquisa de Reavley et al. (2011) buscou identificar as variáveis associadas à busca de informações sobre saúde mental. Os autores verificaram que o sexo feminino, maiores níveis de escolaridade, transtornos do humor e de ansiedade, e membro da família com algum problema de saúde mental estão relacionados à busca de informações na Internet, livros de não ficção e folhetos/panfletos.
As mulheres parecem ser mais propensas a buscar informações e assistência relacionadas às dificuldades de saúde mental do que os homens (Reavley et al., 2011), especialmente na Internet. Aliás, elas dependem cada vez mais desta para complementar as informações de saúde recebidas de outras fontes a fim de se prevenir, evitar ou até reduzir os custos de um tratamento de um dos membros da família, ajudando no orçamento familiar (Pandey, Hart, & Tiwary, 2003).
O nível educacional também influencia na procura de informações de saúde mental e na busca por ajuda profissional. Observa-se que quanto maior o nível de escolaridade, maior a variedade das fontes utilizadas para a busca de informações sobre saúde mental (Reavley et al., 2011). Isto ocorre porque a proporção de usuários na Internet é superior se o grau de escolaridade for alto (Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2009). Além disso, as informações relacionadas à saúde e doença são melhores interpretadas por indivíduos com maior nível de escolaridade (Alexiou & Falagas, 2008). Com isso, surge o “paciente expert”, ou seja, aquele paciente que busca informações sobre doenças, diagnósticos, sintomas e tratamento, não só para si mesmo, mas para pessoas ao seu redor (Garbin, Neto, & Guilam, 2008).
Indivíduos com transtornos do humor e de ansiedade são mais propensos a procurar ativamente informações sobre problemas de saúde mental do que pessoas sem esses diagnósticos (Reavley et al., 2011). No caso de pacientes com THB, nota-se maior preferência pela Internet como FISM (Bauer et al., 2016; Conell et al., 2016). No ambiente virtual, essas pessoas podem participar de grupos de apoio para lidar melhor com o transtorno (Bauer et al., 2016). Ademais, a Internet permite que estes pacientes obtenham informações de forma anônima sobre os medicamentos prescritos e seus efeitos colaterais (Conell et al., 2016). Pacientes que procuram informações online sobre THB também consultam profissionais da saúde, além de outras fontes, como livros, apostilas médicas e outras pessoas com o mesmo transtorno (Bauer et al., 2016). Portanto, recomenda-se que os médicos forneçam aos pacientes uma lista de fontes de informação sobre THB confiáveis, dada a variedade de mídias/ veículos de informação frequentemente utilizadas por estes (Bussing et al., 1998).
Diferente de pacientes com transtornos afetivos e de ansiedade, aqueles com transtornos por uso de substâncias não parecem buscar informações sobre seu diagnóstico (Reavley et al., 2011). Uma explicação para este comportamento pode ser a dificuldade de o público leigo diferenciar o uso de substâncias do transtorno propriamente dito, já que há substâncias lícitas, como álcool e tabaco, cujo consumo é socialmente aceito e, inclusive, iniciado na adolescência em âmbito familiar em muitos casos (Almeida & Luis, 2017). Assim, é possível que a normalização do uso de substâncias impeça a população de identificar comportamentos de risco, comprometendo significativamente a implementação de intervenções de tratamento de qualidade nessa área (OMS, 2017b).
Já pacientes que fazem uso de antidepressivos listam farmacêuticos, médicos de cuidados primários e especialistas em saúde mental como fontes de informação sobre essas medicações. Estes indivíduos parecem ser mais instruídos do que aqueles que recorrem a amigos ou familiares. Além disso, neste caso, o número de fontes de informação está significativamente relacionado à maior aderência ao uso destas medicações (Sleath et al., 2003).
Pais de crianças em tratamento psiquiátrico relatam preferir a Internet como FISM. A familiaridade deles com a tecnologia permite seu uso, facilitando o acesso à informação desejada. Esta fonte também possibilita a interação e a troca de conhecimentos com outras pessoas e com provedores confiáveis (Turner et al., 2011). De forma similar, pais de filhos com TDAH, além de utilizarem a Internet, recorrem a profissionais de saúde mental ou à clínica do hospital ou unidade de saúde pública em que recebem cuidados (Bussing et al., 1998; Bussing et al., 2012). Apesar do tempo limitado das consultas, os adultos valorizam mais os médicos como fonte de informação sobre o TDAH porque julgam ser uma fonte mais confiável que a Internet (Bussing et al., 1998). Porém, na pesquisa de Bussing et al. (2012), apesar dos pais usarem uma ampla variedade de fontes de informação sobre TDAH, tanto eles quanto os adolescentes expressam fortes preferências pela Internet e pelo médico como fontes de informação sobre este transtorno. Além disso, de acordo com o estudo, os adolescentes possuem menos preferência por fontes escritas, como revistas ou folhetos. Verifica-se que eles valorizam mais a Internet do que médicos quando comparados aos adultos no que se refere à busca de informações sobre o TDAH. Uma possível explicação para isso pode ser o fato de a Internet ter se tornado a principal ferramenta de informação, entretenimento e trabalho para a juventude atual (Cabral, Vilela, Lima, Ribeiro, & Freire, 2009).
De maneira geral, adultos preferem obter informações sobre saúde mental com um educador da saúde do que por meio da Internet, embora considerem úteis ambas as fontes (Leach et al., 2007). No estudo de Leach et al. (2007), as pessoas mais velhas possuem maior preferência pelos profissionais da saúde como fonte de informação. Isso pode demonstrar uma preferência pelo contato face a face ao receber informações sobre saúde mental, por fontes tradicionais de informação e/ou uma preocupação com a qualidade das informações disponibilizadas na Internet. Já os adultos mais jovens têm maior probabilidade de classificar sites como uma fonte útil de informações sobre saúde mental do que os mais velhos. Avaliar um site e um livro como úteis foi associado à crença de que é melhor lidar sozinho com problemas de saúde mental. Portanto, o resultado da pesquisa aponta que algumas pessoas têm maior probabilidade de acessar informações sobre saúde mental se puderem fazê-lo sozinhas e manter seu anonimato. Todavia, do ponto de vista da saúde pública, a redução do estigma e das crenças sobre como lidar sozinho com problemas de saúde mental são alvos importantes para encorajar os indivíduos a buscarem ajuda cara-a-cara para os transtornos mentais (Leach et al., 2007).
Com o amplo desenvolvimento no campo tecnológico, a Internet se tornou um instrumento de grande divulgação e de inúmeras buscas na área da saúde, pois ela possui a facilidade de inserção de diversas fontes informativas e sobre variados assuntos (Moretti, Oliveira, & Silva, 2012). De fato, a principal FISM utilizada pelas amostras dos estudos revisados é a Internet. Seu uso foi associado a grupos de apoio, aulas de educação e escolaridade (Bauer et al., 2016); materiais de fácil acesso (Bussing et al., 2012); medicamentos prescritos, anonimato e ajuda a lidar com a doença (Conell et al., 2016); dificuldade para encontrar os critérios de diagnóstico e complexidade da informação repassada (Kisely, 2002); a preferência por resolver os problemas sozinhos (Leach et al., 2007) e familiaridade com a tecnologia e desejo dos pais em interagir e trocar informações entre si e com provedores confiáveis (Turner et al., 2011). Ademais, a curiosidade e as experiências vividas pelos próprios pacientes podem influenciar a frequência com que se pesquisam informações em saúde na Internet (Silvestre et al., 2012). Schrank, Sibitz, Unger, & Amering (2010) conduziram um estudo com pessoas que possuíam transtorno mental grave e verificaram que elas buscavam na Internet informações gerais associadas à sua doença, especialmente medicamentos, embora frequentemente tivessem dificuldades para definir os problemas com mais precisão.
A Internet é uma fonte útil de informação e apoio para uma ampla gama de condições de saúde dado a sua acessibilidade. Além disso, o conhecimento que pacientes encontram na Internet pode sanar suas necessidades e expectativas por informações, cuja ausência tende a ser uma limitação do sistema de saúde (Bastos & Ferrari, 2011), possibilitando a tomada de decisões mais criteriosas por parte dos usuários ou consumidores, além de maior autonomia e liberdade de escolha (Moretti et al., 2012). No entanto, qualquer pessoa pode disponibilizar informações capazes de causar prejuízos por serem incorretas, incompletas, contraditórias ou fraudulentas (Neto, Santos, Cruz, & Torres, 2013). A pesquisa de Bussing et al. (2012) mostra que a preferência por obter informações sobre o TDAH pela Internet ocasiona problemas, pois não há avaliações adequadas e os usuários desta FISM são vulneráveis a informações erradas. Uma análise em 50 sites financiados pela indústria farmacêutica sobre informações de medicamentos mostrou uma tendência a distorcer o que estes informavam em favor de seus interesses econômicos, uma vez que explicavam a gênese do distúrbio através de fatores biogenéticos, omitindo, na maioria das vezes, fatores psicossociais (Read, 2008). Dessa forma, deve-se atentar para a qualidade dos conteúdos disponibilizados: há benefícios quando as informações relevantes são precisas, enquanto as imprecisas são prejudiciais (Murray et al., 2003). Como o uso da Internet é uma realidade e a utilização dela aumenta cada vez mais na busca de informações sobre saúde mental, os profissionais devem considerá-la como fonte de informação, porém, é necessário oferecer mais explicações sobre o distúrbio (Mateu & Gómez, 2015).
O acesso à informação na Internet foi associado ao aumento do uso de quaisquer serviços de saúde mental, como clínicos gerais e profissionais de saúde mental (Reavley et al., 2011). A maior preocupação com a saúde mental gerou uma grande demanda por informações e esclarecimento de dúvidas referentes ao assunto. Logo, a FISM mais acessível, a Internet, faz com que a população perceba a necessidade da busca por profissionais da saúde para além da informação, muitas vezes, contando com diagnóstico e tratamento (Jorm et al., 2017).
Os profissionais da saúde se sentem, na maioria dos casos, confortáveis e resignados a posição de transmitir informações aos pacientes (Murray et al., 2003). No entanto, eles ocupam a segunda posição de preferência pelas amostras por FISM. No estudo realizado por McNutt (2004), foi evidenciado que os pacientes relatam cada vez mais que não lhes é dada informação suficientemente detalhada sobre a sua condição de saúde. Isto resultou no abandono de uma posição passiva dos pacientes, passando a ter um papel mais ativo e interventivo, não limitando o seu conhecimento apenas à informação obtida durante a consulta médica. O movimento de busca dessas informações fora do consultório ou do hospital, com vizinhos, parentes ou amigos, sempre existiu. A comunidade, quando se torna paciente, procura conhecer, fora do circuito médico, a experiência de outras pessoas sobre uma determinada doença, instituição ou profissional. Portanto, é possível afirmar que essa atitude fez e continuará fazendo parte da trajetória terapêutica de cada indivíduo que, atualmente, pode contar com o auxílio desta importante ferramenta que é a Internet (Garbin et al., 2008).
De acordo com os estudos analisados, a fonte de informação que possui mais vantagens pode ser os próprios profissionais da área da saúde, livros e televisão, partindo da premissa que esse conteúdo tenha sido gerado por profissionais da área da saúde e, portanto, tem respaldo científico. Por outro lado, a fonte de informação que apresenta desvantagens é a Internet devido a qualidade variável dos dados publicados bem como a falta de credibilidade dos websites no assunto (Griffiths, & Christensen, 2002; Reavley et al., 2011). Há ainda preocupações de que o uso de intervenções de autoajuda na Internet possa reduzir a procura de ajuda profissionais (Cuijpers & Schuurmans, 2007; Reavley et al., 2011).
A maioria dos pacientes não discute informações aprendidas online com seu médico (Conell et al., 2016). Isto acarreta na preocupação com a qualidade das informações que estes pacientes estão pesquisando, especialmente, sobre os medicamentos prescritos. No entanto, os estudos enfatizam a importância dos pacientes conversarem com os profissionais de saúde mental sobre as informações obtidas por eles por meio de outras fontes. Quando isto ocorre, os médicos parecem aceitar as informações clinicamente adequadas da Internet por medo de prejudicar a relação médico-paciente (Murray et al., 2003). Ademais, os pacientes podem não apresentar boas habilidades de pesquisa online para identificar informações precisas (Bauer et al., 2016; Conell et al., 2016). Diante disso, faz-se necessário instruir as pessoas para que sobre as limitações de cada FISM (como a possibilidade da obtenção de informações incorretas, desatualizadas) ou mesmo sobre a realização de interpretações equivocadas de termos técnicos. De fato, uma série de estudos mostram a importância de profissionais da saúde compartilharem com os pacientes as melhores maneiras de pesquisar sobre saúde mental (Bauer et al., 2016; Conell et al., 2016; Kisely, 2002; Leach et al., 2007). É fundamental determinar a maneira mais eficaz de utilizar essas ferramentas emergentes para que os provedores de saúde mental possam ativar e aprimorar essa interação e troca (Turner et al., 2011).
Esta realidade sinaliza a necessidade de os profissionais compartilharem informações com os pacientes de maneira acessível e eficaz, para que esse conhecimento não se restrinja apenas ao consultório. Profissionais podem fazer seus próprios sites e disponibilizarem informações em linguagem apropriada para a população leiga. Além disso, pode-se investir em materiais psicoeducativos como cartilhas, panfletos, vídeos, disponibilizar o próprio contato, promover grupos de discussão online e palestras, a fim de tornar o conhecimento acadêmico acessível a comunidade em geral e melhorar os cuidados em saúde mental.
Este estudo apresenta as FISM utilizadas por diferentes públicos conforme os resultados de publicações internacionais. A preocupação com a saúde mental é algo que tem aumentado e a busca por informações parte não só dos diagnosticados com transtorno, mas também de seus familiares. As fontes mais utilizadas foram Internet e profissionais da saúde, em função da primeira apresentar como vantagens o fácil acesso e os mais variados tipos de informações, mas sua qualidade é variável, o que dificulta a identificar que informações/ sites são confiáveis nesse ambiente. Já a segunda apresenta como vantagens a veracidade das informações, embora também apresente desvantagens, como: limitações do tempo e falta de informação suficientemente detalhada pelo profissional de saúde.
Este estudo possui limitações que devem ser consideradas na interpretação de seus resultados. Uma delas refere-se ao acesso de apenas cinco bases de dados para realização da revisão sistemática, sendo que as três bases nacionais sinalizaram não haver publicações brasileiras sobre o assunto. Isto pode ser decorrente da escolha dos descritores e das próprias bases de dados, ou realmente indicar pouco interesse por parte dos pesquisadores sobre este tópico. Outra limitação deve-se à revisão de apenas artigos científicos revisados por pares, de forma que outras publicações que pudessem ser relevantes ficassem de fora da análise. Logo, os resultados apresentados são condizentes somente à amostra de artigos selecionados para análise neste estudo. Por fim, outra limitação do estudo refere-se à discussão apenas das FISM citadas nos estudos analisados, de forma que outras, igualmente úteis, não tenham sido mencionadas.
A maior contribuição desta revisão sistemática de literatura foi oferecer um panorama da produção internacional sobre as FISM utilizadas. O conhecimento das fontes preferidas pelas pessoas de diferentes contextos permite que os profissionais da saúde possam disseminar informações com maior efetividade e eficiência. Além disso, os profissionais podem utilizar esses resultados para instruir e disponibilizar informações de apoio ao tratamento dos pacientes.
A busca ativa por parte da população de informações relacionadas à saúde mental sinaliza a necessidade de realizar mais pesquisas a fim de compreender este comportamento para melhor atender a comunidade. Sugere-se a condução de estudos para avaliar a qualidade dos conteúdos utilizados pelos pacientes que procuram informação na Internet e o impacto que essas possuem sobre a sua saúde. Em especial, investigações sobre como o acesso a diversas FISM podem interferir na adesão ao tratamento quando as informações disponibilizadas são contraditórias. Também se recomenda verificar em que situações um paciente ou sua família busca uma FISM. Por exemplo: utiliza a Internet quando preocupado com sintomas iniciais e, depois, profissionais da saúde para conhecer as opções de tratamento? É possível que uma FISM substitua a outra ou elas se complementam? Já no cenário nacional em especial, além de mais pesquisas sobre a temática investigada nesse artigo, recomenda-se a realização de pesquisas que identifiquem quais são as FISM preferidas pela população brasileira, investigar se se distinguem das de outras culturas, bem como verificar se estão associadas a maior conhecimento sobre sintomas de transtornos mentais comuns (como os de humor e ansiedade), a menor estigma sobre os mesmos, a maior busca e a manutenção do tratamento.
CL y AN contribuyeron en el diseño e implementación de la investigación, HE y BR en el análisis de los resultados y en la redacción del manuscrito, junto con el apoyo del resto de autores. Todos los autores discutieron los resultados y contribuyeron a la versión final del manuscrito.
La editora de sección de este artículo fue Pilar Bacci. ORCID ID: 0000-0002-6611-1905

