Revisão

ERROS DE MEDICAÇÃO EM PEDIATRIA E ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO: REVISÃO INTEGRATIVA

ERRORES DE MEDICACIÓN EN PEDIATRÍA Y ESTRATEGIAS DE PREVENCIÓN: REVISIÓN INTEGRATIVA

Bárbara Monteiro Volpatto
Hospital Mãe de Deus, Brasil
Wiliam Wegner
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Luiza Maria Gerhardt
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Eva Neri Rubim Pedro
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Silvana da Silva Cruz
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Larissa Edom Bandeira
Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Brasil

ERROS DE MEDICAÇÃO EM PEDIATRIA E ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO: REVISÃO INTEGRATIVA

Cogitare Enfermagem, vol. 22, núm. 1, e45132, 2017

Universidade Federal do Paraná

Recepção: 29 Fevereiro 2016

Aprovação: 05 Março 2017

RESUMO: Trata-se de revisão integrativa com o objetivo de analisar as estratégias, os incidentes de segurança e a etapa do processo medicamentoso para prevenção de eventos adversos na pediatria. Realizou-se a coleta entre novembro/2015 e fevereiro/2017, nas bases: Literatura Latino-Americana em Ciências de Saúde, Cumulative Index of Nursing and Allied Health Literature, U.S. National Library of Medicine e Web of Science. Utilizaram-se os descritores: erros de medicação, segurança do paciente e criança. Foram selecionados 27 artigos, publicados entre 2004 e 2016. A etapa do processo medicamentoso mais pesquisada foi a prescrição médica. As taxas de incidentes de segurança variaram entre 0,91% e 54%, não sendo identificada padronização metodológica nos estudos. As estratégias de prevenção relatadas foram: uso da prescrição médica eletrônica, simulação clínica, protocolo de doses, e notificações de incidentes. É importante que a identificação de riscos e o planejamento das estratégias de prevenção subsidiem a análise global do processo medicamentoso.

Palavras chave: Segurança do paciente, Erros de medicação, Criança, Enfermagem.

RESUMEN: Esta es un revisión integrativa cuya finalidad fue analizar las estrategias, los incidentes de seguridad y la etapa del proceso medicamentoso para prevención de eventos adversos en la pediatría. Los datos fueron obtenidos entre noviembre/2015 y febrero/2017, en las bases: Literatura Latinoamericana en Ciencias de Salud, Cumulative Index of Nursingand Allied Health Literature, U.S. National Library of Medicine y Web of Science. Fueron utilizados los descriptores: errores de medicación, seguridad del paciente y niño. Se eligieron 27 artículos publicados entre 2004 y 2016. La etapa del proceso medicamentoso más investigada fue la prescripción médica. Las tajas de incidentes de seguridad variaron entre 0,91% y 54%, no siendo identificada estandarización metodológica en los estudios. Las estrategias de prevención relatadas fueron: uso de la prescripción médica electrónica, simulación clínica, protocolo de dosis, y notificaciones de incidentes. Es importante que la identificación de riesgos y el planeamiento de las estrategias de prevención subsidien el análisis global del proceso medicamentoso.

Palabras clave: Seguridad del paciente, Errores de medicación, Niño, Enfermería.

INTRODUÇÃO

O uso de medicamentos, atualmente, consiste no principal tratamento utilizado na terapêutica médica, e, consequentemente, os erros de medicação tornam-se mais frequentes(1). Tais erros podem ocorrer em qualquer etapa do processo: prescrição, dispensação, armazenamento, preparo, entre outros. A prevenção desses envolve toda a equipe de saúde, destacando-se a de enfermagem, principal responsável pelas etapas de preparo e administração de medicamentos.

Considera-se erro de medicação qualquer evento evitável que, de fato ou potencialmente, possa interferir de forma inadequada no processo medicamentoso, podendo ou não provocar dano ao paciente(2). Nesse contexto, entende-se Segurança do Paciente como a redução do risco de dano desnecessário associado ao cuidado de saúde. Esse dano pode ser físico, psicológico ou social; implicando prejuízo na estrutura ou função do corpo e/ou doenças, lesões, sofrimento, incapacidade ou morte. Assim, um incidente é um evento que pode ou não causar dano desnecessário ao paciente. Quando ocorre incidente com dano, tem-se um evento adverso(3).

A preocupação com a segurança do paciente e com a qualidade do cuidado nos serviços de saúde mobilizou a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2004, a lançar a Aliança Mundial para a Segurança do Paciente. Esta objetivou melhorar a segurança na assistência, propondo medidas para reduzir riscos, organizando conceitos e definições sobre segurança do paciente e recomendando aos países maior atenção ao tema(4).

Diante disso, pondera-se que as crianças são especialmente vulneráveis a danos, principalmente devido às peculiaridades do seu metabolismo como a idade, peso e estatura. Ademais, a deficiência de medicações padronizadas para pediatria torna o processo medicamentoso ainda mais suscetível a falhas(5).

Promover ações e estratégias que visam aperfeiçoamento dos profissionais, padronização do processo e educação permanente são de suma importância para prevenir eventos adversos causados por erros de medicação(2). Quando o profissional entende o que é um evento adverso, suas causas e consequências, torna-se mais fácil admitir que o erro é possível e pode estar presente no cuidado. Esse entendimento é o primeiro passo para a prevenção(6). Assim, saber o que se tem estudado e o que se está trabalhando nessa perspectiva mostra-se de extrema importância, justificando assim essa pesquisa.

Diante dessa problemática, essa revisão teve como questão de pesquisa: quais estratégias são propostas para prevenção de erros de medicação no cuidado à criança hospitalizada? Tendo como objetivo analisar as estratégias, os incidentes de segurança e a etapa do processo medicamentoso para prevenção de eventos adversos na pediatria.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão integrativa (RI) da literatura que seguiu as seguintes etapas: formulação do problema, coleta de dados, avaliação dos dados, análise dos estudos e apresentação dos resultados(7).

Na primeira etapa da RI, a seguinte questão norteadora foi proposta: quais estratégias são propostas para prevenção de erros de medicação no cuidado à criança hospitalizada?

Realizou-se a coleta entre novembro/2015 e fevereiro/2017, nas bases de dados: Literatura Latino-Americana em Ciências de Saúde (LILACS), Cumulative Index of Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), U.S. National Library of Medicine (PubMed) e Web of Science, selecionadas por serem importantes índices internacionais de literatura científica e técnica, com rigoroso padrão para indexação dos periódicos. Foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): erros de medicação, segurança do paciente e criança, nos idiomas inglês, espanhol e português de acordo com a base de dados, e utilizando o marcador booleano AND em cada cruzamento.

Os critérios de inclusão foram: ser artigo original – estudo primário; artigos científicos que tratassem da temática específica, erros de medicação, no título e resumo; textos escritos no idioma português, espanhol, inglês disponibilizados na íntegra e online e publicados no período entre 2004 e 2016.

Os critérios de exclusão foram: estudos de revisão, livros, teses e dissertações; estudos gerais sobre segurança do paciente; e estudos que não abordassem estratégias para prevenção de erros de medicação em pediatria.O fluxograma dos cruzamentos de descritores e resultados das buscas é apresentado na Figura 1 e seguiu as recomendações Prisma(8).

Fluxograma da seleção de artigos científicos sobre prevenção de erros de medicação no cuidado à criança hospitalizada, conforme as bases de dados selecionadas. Porto Alegre, RS, Brasil, 2004-2016
Figura 1
Fluxograma da seleção de artigos científicos sobre prevenção de erros de medicação no cuidado à criança hospitalizada, conforme as bases de dados selecionadas. Porto Alegre, RS, Brasil, 2004-2016

Para análise e interpretação dos dados, realizou-se a síntese das informações extraídas dos artigos selecionados, buscando identificar neles quais estratégias são propostas para a prevenção dos erros de medicação, qual o número de incidentes e qual a etapa do processo de medicação em que ocorrem os erros. Utilizou-se instrumento composto dos seguintes itens: título do artigo; autores; periódico no qual o artigo foi publicado; país e ano; metodologia; estratégias para prevenção dos erros de medicação em pediatria; número de incidentes com medicação; e etapa do processo em que ocorreu o erro. Os dados extraídos e sintetizados são apresentados em dois quadros, um para a caracterização dos estudos e outro contemplando os resultados relacionados à questão norteadora.

RESULTADOS

Foram selecionados 27 artigos que discutem as estratégias propostas para prevenção de erros de medicação em pediatria, taxas de incidentes de segurança e etapas do processo medicamentoso em que ocorreram os erros. A caracterização dos estudos incluídos nesta RI é apresentada no Quadro 1.

Quadro 1
Caracterização dos estudos segundo base de dados, ano, país, periódico, tipo de estudo e setor da pesquisa. Porto Alegre, RS, Brasil, 2004-2016. (continua)
Caracterização dos estudos segundo base de dados, ano, país, periódico, tipo de estudo e setor da pesquisa. Porto Alegre, RS, Brasil, 2004-2016. (continua)

Dois estudos foram realizados no Brasil(9-10). A maioria das pesquisas sobre o tema proposto foi realizada no exterior, com destaque para Estados Unidos da América(11-15,17,22-23,25,27-31,33). Com relação ao ano de publicação, há predomínio a partir do ano de 2011(9,13-24,31-35). Unidades pediátricas gerais aparecem como maior foco dos estudos (66,6%), entre elas, unidades de internação clínica e unidades cirúrgicas(9,11-13,17-23,25,27-29,31-32,35). A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) foi o setor isolado mais estudado (18,5%)(2,10,24,26,30).

Dos estudos que propuseram intervenções, observou-se que poucos seguiram uma proposta metodológica clássica com análise estatística. Estudos quantitativos, prospectivos e com intervenção(13-14,16,18,20-22,24,28-30,32) foram (48,1%). O periódico Pediatrics destacou-se por ter quatro publicações abordando a temática prevenção de erros de medicação em pediatria(20,22,26-29). No Quadro 2 são apresentados os resultados que respondem ao objetivo desse estudo.

Quadro 2
– Caracterização dos estudos segundo, título do artigo, autores e resultados (estratégias de prevenção, número de incidentes e etapas do processo) nas publicações analisadas. Porto Alegre, RS, Brasil, 2004-2016 (continua)
– Caracterização dos estudos segundo, título do artigo, autores e resultados (estratégias de prevenção, número de incidentes e etapas do processo) nas publicações analisadas. Porto Alegre, RS, Brasil, 2004-2016 (continua)
Legenda: aPharmacy intervention medication errors (PIMEs): intervenção da farmácia nos erros de medicação; bValidated pediatric trigger method (TADEs): método validado de detecção de potenciais eventos adversos pediátricos em prontuários; cVoluntary incident reports (VADEs): notificações voluntárias de incidentes; dAdverse drug events (EAM): eventos adversos medicamentosos.

DISCUSSÃO

Estratégias para prevenção de erros de medicação

A identificação das estratégias de prevenção foi o objetivo principal desse estudo. A implantação ou melhoria no sistema eletrônico de prescrição médica foi o tipo de estratégia mais investigada (25,9%) nos estudos avaliados, mostrando redução nas taxas de erros de medicação após as intervenções(16-17,23-24,26-27,33). O uso dessa ferramenta reduz erros de legibilidade e facilita a comunicação entre as equipes. Em estudo realizado com acadêmicos de enfermagem para identificar o conhecimento deles sobre segurança do paciente, a prescrição eletrônica foi uma das estratégias mais referidas como uma das maneiras de prevenção e redução de erros de medicação(36).

Os estudos usaram como aliados à prescrição eletrônica, um sistema de apoio à decisão clínica de dosagem, alertas eletrônicos automáticos para nomes semelhantes e a implementação do protocolos para doses pediátricas. É um sistema informatizado, semelhante a uma calculadora, onde se inserem peso e idade da criança e o sistema calcula a dose da medicação, alertando quando há overdose ou subdose, por exemplo(16,23-24,26,33-34). Em outro estudo, foi implantada uma padronização de cálculos de dose, tempo e programação da bomba de infusão para medicamentos de infusão contínua em uma Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP), como estratégia de prevenção de eventos adversos(30).

A padronização e protocolização para manejo de doses pediátricas foi foco de estudo realizado em Madri/Espanha e mostrou que um terço dos profissionais de enfermagem não confere a dose usual prescrita(34).

Em uma pesquisa realizada em hospital universitário nos EUA, foi desenvolvida uma ferramenta eletrônica para aperfeiçoar a reconciliação de medicamentos na admissão do paciente. A ferramenta mostra, lado a lado, a lista de medicamentos em uso pelo paciente antes da admissão e a lista de medicamentos prescritos no momento da internação. Essa estratégia possibilitou identificar e quantificar a redução dos incidentes após a intervenção, através da análise de relatórios de erros de medicação(13).

A dupla checagem é uma ação essencial para prevenção de erros durante as etapas mais críticas do processo medicamentoso. No entanto, destacou-se em apenas um estudo, que avaliou o entendimento dos enfermeiros acerca desse procedimento(25). Além disso, alguns estudos buscaram implementar estratégias de prevenção como uso de checklist, protocolo clínico, fluxograma na administração de medicamentos e protocolos para manejo de doses(10,14,34). Tais ações propunham reestruturar e organizar o processo medicamentoso com o objetivo de reduzir os erros de medicação.

O sistema de notificação espontânea de eventos adversos de medicação revela-se como uma estratégia de prevenção nos estudos analisados(9,11-12,15,28). Pesquisa realizada nos EUA, durante cinco anos, concluiu que analisar relatórios de erros de medicação é uma forma de encorajar que outros possam aprender com os erros, evitando a repetição desses no futuro(12). Outros estudos buscaram ações para implementar estratégias de rastreamento de erros através de ferramentas (trigger tool) ou de questionários específicos(11,18). Identificaram-se recomendações importantes, como: aumento do nível de preparação profissional para enfermeiros pediátricos; melhora da qualidade da comunicação acerca da administração segura de medicamentos entre a equipe interdisciplinar e da equipe com as famílias; e reconhecimento dos desafios para administração segura de medicamentos(18). A reestruturação de processos a partir das falhas, com ações educativas e melhoria da comunicação entre a equipe, a inclusão da notificação na formação do enfermeiro, com o uso da simulação em laboratórios, o desenvolvimento da cultura da confidencialidade e do feedback, a importância da conscientização sobre os erros em jogos virtuais online, favorecem, também, o desenvolvimento de estratégias educativas para prevenção de erros de medicação no cuidado à saúde da criança(31-32,35).

Quanto à participação dos profissionais de saúde, destacam-se os farmacêuticos como profissionais fundamentais no processo medicamentoso e na prevenção dos eventos adversos. Um estudo desenvolvido na Espanha demonstrou o impacto significativo das intervenções do farmacêutico clínico na prevenção da ocorrência de erros de prescrição(19).

A educação continuada sobre administração de medicamentos foi implementada em um estudo recente no Brasil. Verificou-se redução da omissão de doses e aumento da taxa de identificação de erros na UTIP após a intervenção(10). Ademais, estratégias educacionais, mediadas por grupos focais ou websites educacionais e jogos de simulação online, demonstraram ser intervenções importantes para melhoria da comunicação multidisciplinar, para desenvolvimento da cultura de segurança e para redução das taxas de incidentes envolvendo medicações(20,25,29,34).

A análise dos estudos mostrou uma deficiência de estratégias de prevenção que visam reduzir os erros na etapa da administração de medicamentos. Reforça-se a importância de instituírem-se barreiras em todas as etapas do processo, mas a administração, como última barreira, necessita de maiores investigações, de modo que se compreendam as principais fragilidades nesse processo e se busquem estratégias de prevenção.

Número de incidentes de segurança do paciente com medicação

Os estudos analisados não apresentam uma padronização metodológica, o que dificulta comparações e replicações. O estabelecimento de um protocolo de pesquisa padronizado na área de incidentes de segurança do paciente pediátrico proporcionaria maior consistência nos dados e conclusões.

As taxas de incidentes com erros de medicação variaram, nesse estudo de RI, entre 0,91% e 54%, relatadas em pesquisas que tiveram de três meses a 10 anos de duração(9,16,33). Apenas um estudo, realizado nos EUA, não demonstrou redução significativa nas taxas de erros de medicação após implementação de sistema de prescrição eletrônica(27).

Observou-se que, dos 27 estudos analisados, 10 apresentaram taxas de incidentes com medicação pré e pós intervenção. A maioria apresentou redução dos incidentes após a intervenção proposta(10,13-14,16-17,20,22,24,26,29). Estudo recente, realizado no Japão, mostrou redução na taxa de incidentes de erros de medicação de 2,23% para 0,66% pós intervenção em um período de 14 meses. A taxa de correção de quase-falhas aumentou 10 vezes após a implementação do sistema de prescrição médica eletrônica com suporte para decisões clínicas(16). O uso da simulação clínica e jogos virtuais online para detectar erros foi mensurado em pesquisa realizada no Canadá, demonstrando que 78,4% dos farmacêuticos obtiveram taxa de resposta correta para erros de medicação, enfermeiros e médicos atingiram índice semelhante (67%). Concluiu-se que a conscientização sobre os riscos é uma ação educativa fundamental para fortalecer o uso seguro de medicamentos(35).

Pesquisa realizada nos Estados Unidos da América, que avaliou 608 pares de medicamentos com nomes semelhantes, trouxe dados preocupantes quanto à taxa de incidentes, estimando que em somente 34% dos pares não houve administração de medicamento trocado. Em 49% (298 pares) dos fármacos com grafia ou som semelhante, o medicamento foi trocado em 3610 ocasiões, apresentando uma taxa cumulativa de 01/dia ao longo de 10 anos. Em 17%, a taxa estimada foi de 27 erros/dia, representando 97163 pacientes que receberam fármacos trocados(33).

Em 40,7% dos estudos, somente as taxas de incidentes foram mensuradas após a implantação das ações educativas(9,11-12,15,18-19,23,28,31-32,35). Um sistema de notificações espontâneas de um hospital universitário pediátrico de São Paulo demonstrou 120 ocorrências de erros de medicação, sendo 45,8% em 2007 e 54,2% em 2008(9). O aumento das notificações é considerado um bom resultado em termos de desenvolvimento da cultura de segurança.

O conhecimento e acompanhamento das taxas de incidentes com erros de medicação devem subsidiar a implantação de estratégias de prevenção, demonstrando sua eficácia e oportunizando ajustes. As estatísticas envolvendo o processo medicamentoso contribuem para dimensionar o problema e dar visibilidade à importância de desenvolver estratégias educativas para prevenção dos erros de medicação.

Etapas do processo medicamentoso com maior registro de erros

A prescrição é a etapa do processo medicamentoso que apresentou mais eventos adversos (40,7%)(11,19-21,23-24,26-27,31,33,35). Os erros de medicação em pacientes pediátricos têm relação direta com a necessidade de dosagem baseada no peso exato. Um sistema de prescrição médica eletrônica, combinado a um sistema de apoio à decisão clínica e alertas eletrônicos automáticos, são ferramentas importantes para a prevenção de erros(23,33).

Erros que envolvem dose errada de medicação também foram observados em quatro estudos(12,15,17,34). Um estudo com analgésicos opioides e antidiabéticos mostrou elevado número de erros de dosagem(12).

Em dois estudos realizados no Brasil, a omissão de dose teve destaque. As causas podem estar relacionadas à falta de atenção, sobrecarga de trabalho, cansaço, estresse e falta de funcionários, entretanto, devem ser consideradas as falhas nos sistemas de prevenção(9-10).

Um estudo apresentou as três etapas do processo medicamentoso (prescrição, dispensação e administração), enfatizando que o problema dos erros estava relacionado ao sistema. Os participantes da simulação detectaram corretamente 67,5% dos erros relacionados ao sistema de medicação(35).

Em 37% das pesquisas analisadas, não foi o objetivo identificar a etapa do processo medicamentoso em que os erros acontecem(13-14,16,18,22,25,28-30,32). Os erros de prescrição foram o objeto de estudo na maioria das pesquisas analisadas. Reforça-se que todas as etapas do processo medicamentoso estão inter-relacionadas e todos os profissionais de saúde, em especial a equipe de enfermagem, têm responsabilidades durante esse processo.

CONCLUSÕES

No presente estudo, identificou-se como principais estratégias de prevenção de erros de medicação à criança hospitalizada, a implantação de sistema de prescrição médica eletrônica, uso da simulação clínica, a implantação do protocolos para manejo de doses e sistemas de notificações de eventos adversos.

A taxa de incidentes envolvendo o processo de medicação mostrou-se elevada, e a etapa da prescrição médica foi objeto de estudo na maioria das pesquisas. Tais resultados apontam para a necessidade de se desenvolverem estudos sobre estratégias para prevenção de eventos adversos em todas as etapas do processo medicamentoso voltado à criança hospitalizada.

A análise dos estudos selecionados fortalece a importância de envolvimento de toda a equipe multiprofissional na conscientização e desenvolvimento da cultura de notificação e de reconhecimento dos riscos/fatores contribuintes para falhas no processo/sistema de medicamentos.

Considera-se que este estudo teve algumas limitações referentes às pesquisas bibliográficas, uma delas quanto à escolha do descritor “criança”, o qual se mostrou muito abrangente, apresentando um número alto de estudos. Assim como a grande diversidade metodológica dos artigos selecionados, o que dificultou comparações aprofundadas entre os estudos.

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Autor notes

Autor Correspondente: Wiliam Wegner. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rua São Manoel, 963 - 90620-110 - Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail:wiliam.wegner@ufrgs.br

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