Artigo Original

CICLO PDCA PARA ELABORAÇÃO DE CHECKLIST DE SEGURANÇA CIRÚRGICA*

CICLO PDCA PARA ELABORACIÓN DE CHECKLIST DE SEGURIDAD QUIRÚRGICA

Francine Taporosky Alpendre
Universidade Federal do Paraná, Brasil
Josemar Batista
Universidade Federal do Paraná, Brasil
Ana Paula Gaspari
Universidade Federal do Paraná, Brasil
Ana Maria Dyniewicz
Universidade Federal do Paraná, Brasil
Elaine Drehmer de Almeida Cruz
Universidade Federal do Paraná, Brasil

CICLO PDCA PARA ELABORAÇÃO DE CHECKLIST DE SEGURANÇA CIRÚRGICA*

Cogitare Enfermagem, vol. 22, núm. 3, e50964, 2017

Universidade Federal do Paraná

Recepção: 06 Março 2017

Aprovação: 19 Agosto 2017

RESUMO: O estudo objetivou utilizar metodologia de melhoria contínua da qualidade na elaboração de checklist de segurança cirúrgica para os períodos pré e pós-operatório em unidades de internação. Realizou-se pesquisa participante com 16 enfermeiras, em oito unidades cirúrgicas de um hospital universitário do sul do Brasil, entre março de 2013 e outubro de 2014. A elaboração conjunta do checklist foi norteada pelo ciclo de melhoria contínua e Programa Cirurgias Seguras Salvam Vidas. O checklist foi submetido a teste piloto com 450 instrumentos preenchidos e analisados por estatística descritiva. Após ajustes decorrentes da avaliação, foi aprovado com o título “Checklist de Segurança Cirúrgica Pré e Pós-operatório”, com 85 indicadores agrupados em seis categorias: I) Identificação, II) Pré-operatório, III) Pós-operatório Imediato, IV) Pós-Operatório Mediato, V) Complicações e VI) Alta Hospitalar/transferência. O instrumento pode contribuir para ações preventivas de erros, monitorar sinais e sintomas e produzir indicadores para assistência segura ao paciente cirúrgico.

DESCRITORES: Lista de checagem, Cuidados pré-operatórios, Cuidados pós-operatórios, Segurança do paciente.

RESUMEN: El estudio objetivó utilizar metodología de mejora continua de calidad para elaborar un checklist de seguridad quirúrgica para los períodos pre y posoperatorio en unidades de internación. Se realizó investigación participante con dieciséis enfermeras en ocho quirófanos de hospital universitario del sur de Brasil, de marzo 2013 a octubre 2014. La elaboración conjunta del checklist estuvo orientada por el ciclo de mejora continua y el Programa Cirurgias Seguras Salvam Vidas. El checklist fue sometido a prueba piloto con 450 instrumentos completados y analizados por estadística descriptiva. Luego de ajustes determinados por la evaluación, fue aprobado como “Checklist de Seguridad Quirúrgica Pre y Posoperatoria”, con 85 indicadores agrupados en seis categorías: I) Identificación, II) Preoperatorio, III) Posoperatorio Inmediato, IV) Posoperatorio Mediato, V) Complicaciones, y VI) Alta Hospitalaria/ Transferencia. El instrumento puede contribuir en acciones preventivas de errores, a monitorear signos y síntomas y a producir indicadores para atención segura del paciente quirúrgico.

DESCRIPTORES: Lista de Verificación, Cuidados Preoperatorios, Cuidados Posoperatorios, Seguridad del Paciente.

INTRODUÇÃO

A preocupação com a qualidade do cuidado e com a segurança do paciente tem sido foco de discussões nacionais e internacionais e, neste sentido, os serviços de saúde necessitam planejar e executar medidas eficazes para prevenção de incidentes e eventos adversos durante a assistência à saúde(1). Paralelamente à longevidade da população, avanços tecnológicos e científicos têm resultado em maior número de intervenções cirúrgicas, muitas vezes realizadas em condições inseguras(2), predispondo os pacientes a erros potencialmente evitáveis.

Entre os ciclos de melhoria utilizados, o PDCA (Plan, Do, Check, Act), que significa Planejar, Fazer, Checar e Corrigir corretivamente(3), é uma metodologia utilizada para identificar problemas, monitorar resultados dos processos de cuidar, planejar ações preventivas, testar mudanças para melhorar continuamente a qualidade e a segurança dos sistemas de saúde, bem como intervir na prevenção de erros e eventos adversos relacionados à segurança do paciente(4).

Estudo realizado em três hospitais da região sudeste brasileira identificou incidência de 3,5% de eventos adversos cirúrgicos(5), enquanto em alguns países da África e Oriente Médio esse índice pode chegar a 18,4%(6). Outro estudo conduzido na Suécia, com análise de 271 eventos adversos, identificou que 26% desses eventos estavam relacionados à assistência cirúrgica(7). Tais dados demonstram a magnitude do problema e suscitam a adoção de medidas promotoras da qualidade assistencial e da segurança cirúrgica. Sabe-se que incidentes em processos rotineiros, executados pela equipe multidisciplinar, podem ser prevenidos com a aplicação de protocolos ou processos com checagens duplicadas, na forma de listas de verificação(8).

Nesse contexto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou em 2004 a Aliança Mundial para a Segurança do Paciente e a recomendação para o uso de checklist nas salas cirúrgicas, em acordo com o Programa Cirurgias Seguras Salvam Vidas. Neste ambiente, o checklist deve ser aplicado em três momentos cirúrgicos: antes da indução anestésica, antes da incisão cirúrgica e antes de o paciente sair da sala de operação(9).

Estudos brasileiros realizados em hospitais da região Nordeste, Sul e Sudeste avaliaram a adesão ao checklist, obtendo como resultados 91,5%, 60,8% e 89,85%, respectivamente(10-12). A relação entre o uso do checklist e a redução de complicações e mortalidade cirúrgica(13) retrata a importância do uso desta ferramenta no ambiente cirúrgico, bem como a estruturação de políticas e de estratégias para mudanças comportamentais de profissionais de saúde.

Há, contudo, lacunas para o uso de checklist nos períodos pré e pós-operatório, nas unidades de internação cirúrgica, onde a verificação de itens de segurança e aplicação de ações preventivas também são fundamentais(14).

Nesta perspectiva, a pergunta norteadora deste estudo foi: É possível utilizar o ciclo PDCA para nortear a elaboração de checklist para os períodos pré e pós-operatório visando a segurança do paciente cirúrgico? O objetivo deste estudo foi utilizar metodologia de melhoria contínua da qualidade na elaboração de checklist de segurança cirúrgica para os períodos pré e pós-operatórios em unidades de internação.

METODOLOGIA

Pesquisa participante realizada entre março de 2013 e outubro de 2014, em hospital universitário do sul do Brasil, em oito unidades de internação: Ortopedia e Traumatología; Cirurgia Geral; Cirurgia do Aparelho Digestivo;Urologia; Cirurgia Plástica; Transplante Hepático;Cirurgia Pediátrica;e Neurocirurgia. O grupo de participantes foi de 16 enfermeiras, a totalidade nestas unidades, entre gerente, supervisora e enfermeiras assistenciais.

Os critérios de inclusão foram atuação mínima de um mês na unidade e carga horária mínima de 20 horas semanais. Foram excluídos os participantes que não compareceram às atividades planejadas (reuniões e oficinas).

A trajetória participativa das enfermeiras para construção, utilização e aplicabilidade prática de checklist teve como norteador o ciclo PDCA. Esclarecemos que para esta pesquisa estão descritas as etapas: P, D e C (Quadro 1). A etapa A (Avaliação) correspondeu à validação do checklist, por comitê de especialistas, e não faz parte deste manuscrito.

Quadro 1
Síntese das etapas do ciclo PDCA. Curitiba, PR, Brasil, 2014
ETAPAS DO CICLOOBJETIVOSATIVIDADESPRODUTO
PLANEJAMENTO (P)Divulgar entre as enfermeiras o projeto de pesquisa, solicitar autorização da chefia para sua elaboração, convite à participação e definição de atividades.Três reuniões, nos meses de março a maio de 2013 com as enfermeiras participantes, em sala própria do hospital. A primeira destinada à sensibilização sobre Cirurgia Segura e apresentação do projeto de pesquisa. As outras duas reuniões para elaboração de Planos de Ação.Elaboração de Planos de Ação.
DESENVOLVIMENTO (D)Elaborar o checklist, para os períodos pré e pós-operatórios, com aplicabilidade na prática assistencial de enfermagem.Reunião para discutir as responsabilidades sobre cirurgia segura, coletar e organizar sugestões de itens para compor o checklist, em maio de 2013. Oficina para elaboração conjunta do checklist, a partir das propostas advindas da reunião anterior. Definir a aplicação checklist na prática profissional. Estas atividades ocorreram entre junho de 2013 a março de 2014 em um dos auditórios do hospital.Desenho preliminar do checklist. Versão do checklist para aplicação na prática profissional.
CHECAGEM (C)Aplicar o checklist para verificar conteúdo e aplicabilidade na prática assistencial. Executar melhorias no checklist após o teste.Teste do checklist em oito serviços cirúrgicos, entre os meses de março e maio de 2014. Oficina em junho de 2014 para discussão dos resultados do teste do checklist e aprovação de nova versão pelas enfermeiras participantes da pesquisa.Preenchimento de checklists para segurança cirúrgica pelas enfermeiras participantes. Versão final do instrumento, para ser submetido à validação por comitê de especialistas.
AÇÃO (A)Esta etapa correspondeu à validação do checklist por Comitê de Especialistas e foi objeto de outra pesquisa.

Para a Fase C, verificar conteúdo e aplicabilidade na prática assistencial de Checklist de Segurança Cirúrgica Pré e Pós-operatório, os dados dos instrumentos preenchidos foram inseridos em planilha semelhante ao formato do checklist e analisados de forma descritiva, apresentados em frequências absolutas e relativas, utilizando-se como ferramenta o software Microsoft Office Excel 2013®.

Após a execução desta etapa, o aprimoramento do checklist se deu a partir da análise dos dados, identificação de fragilidades e suas potencialidades. Foram realizadas exclusões, inclusões e modificações de alguns indicadores para que o checklist pudesse contemplar o maior número de dados de segurança e maior adesão à realidade institucional.

Esta pesquisa obedeceu aos princípios da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde(15) e foi aprovada em Comissão de Ética em Pesquisa sob parecer n°. 507.713. Todos os participantes foram informados dos objetivos e metodologia da pesquisa, e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa uma enfermeira gerente, uma enfermeira supervisora das unidades cirúrgicas e 14 enfermeiras assistenciais, todas do sexo feminino, entre 30 e 55 anos de idade, e média de atuação profissional de 15 anos.

Sobre as etapas do ciclo PDCA, a primeira de Planejamento (P) consistiu-se na realização de reuniões com as enfermeiras participantes, para identificação de problemas locais, definição de metas e elaboração de dois planos de ação: um para elaboração do checklist de segurança para os períodos pré e pós-operatório, e outro para avaliação de sua aplicabilidade. A etapa do Desenvolvimento (D) contemplou a execução dos planos, com elaboração da versão do instrumento para aplicação na prática assistencial. Já a etapa de Checagem (C) configurou-se no preenchimento de 450 checklists, nas oito unidades de internação cirúrgicas.

Sobre o perfil dos pacientes deste checklists, 227 (50,44%) eram do sexo masculino e 223 (49,56%) do sexo feminino, com predomínio nas especialidades de Cirurgia Pediátrica e Cirúrgica, com 253 dos registros (56,22%). O número de instrumentos preenchidos e as unidades que participaram da pesquisa estão apresentados na Tabela 1.

Tabela 1
Checklists preenchidos por especialidade cirúrgica. Curitiba, PR, Brasil, 2014
Especialidaden (450)%
Cirurgia Pediátrica13530
Cirúrgica11826,22
Urologia8819,55
Plástica5512,22
Ortopedia439,56
Neurocirurgia112,45

Observa-se na Tabela 2 que houve preenchimento superior a 90% dos indicadores relacionados à identificação do paciente (nominada Categoria I) e dos indicadores pré-operatório (Categoria II). Nas Categorias III, IV e V, correspondente ao POI - Pós-operatório Imediato, POM - Pós-operatório mediato, e Alta hospitalar/transferência, respectivamente, houve diminuição da checagem dos indicadores quando comparadas às outras categorias.

Tabela 2
Preenchimento do checklist de segurança cirúrgica pré e pós-operatória por categorias e especialidade cirúrgica. Curitiba, PR, Brasil, 2014
VariáveisCategorias
I IdentificaçãoII Pré-operatórioIII POI*IV POM*V Alta Hospitalar/Transferências
n%n%n%n%n%
Especialidades
Pediátrica (n=135)13499,2613499,268865,191410,3711685,93
Cirúrgica (n=118)11597,4611597,4610084,7559508975,42
Urologia(n=88)8596,598596,598394,32881004854,55
Plástica (n=55)55100551005090,91610,914276,36
Ortopedia (n=43)4093,024093,022865,122865,122865,12
Neurocirurgia (n=11)1110011100654,5519,09327,27
* POI - Pós-operatório Imediato,* POM - Pós-operatório mediato

A Tabela 3 mostra que, do total de 450 aplicações do checklist, somente 224 (49,78%) foram preenchidos entre os pacientes que permaneceram internados após 24 horas da cirurgia (Categoria IV - pós-operatório mediato) com indicadores de sinais e sintomas preditivos de alerta para possíveis complicações anestésicas cirúrgicas. No preenchimento das avaliações relativas aos sistemas respiratório, digestório, urinário, cardiovascular e tegumentar, bem como do sítio cirúrgico, houve indicadores não assinalados. Ainda nesta categoria, destacou-se a prevalência de pacientes sem alterações decorrentes da cirurgia.

Tabela 3
Dados sobre o preenchimento dos indicadores dos checklists verificados no Pós-operatório Mediato. Curitiba, PR, Brasil, 2014
Indicador de SegurançaN%
Dor
Não12354,91
Sim2410,71
Cateter Peridural41,79
Bomba de PCA31,34
Itens não assinalados7031,25
Sistema Respiratório
Taquipneia62,68
Bradipneia52,23
Hipóxia31,34
Sem alterações14564,73
Itens não assinalados6529,02
Sistema Digestório e Urinário
Náusea/Vômito208,93
Constipação198,48
Hematúria73,13
Diarreia41,79
Sem alterações12857,14
Dispositivos104,46
Itens não assinalados3616,07
Sistema Cardiovascular
Hipotensão135,8
Taquicardia62,68
Hipertensão52,23
Hipertermia52,23
Bradicardia41,79
Hipotermia31,34
Sem alterações13560,27
Itens não assinalados5323,66
Sistema Tegumentar
Úlcera por Pressão41,79
Lesões31,34
Sem alterações13761,16
Itens não assinalados8035,71
Sítio Cirúrgico
Drenagem2812,5
Sangramento177,59
Deiscência41,79
Sinais flogísticos31,34
Sem alterações13359,38
Itens não assinalados3917,41

Complementando a etapa de Checagem (C) do ciclo PDCA, relacionada à discussão de resultados da aplicação do checklist e sua versão final, as oficinas com as enfermeiras resultaram na avaliação de conteúdo e aplicabilidade, bem como a aprovação da nova versão. Destaca-se que houve necessidade de acrescentar nova categoria denominada “Complicações”, a fim de possibilitar a checagem de problemas provenientes do procedimento anestésico-cirúrgico.

Dessa forma, após as adequações no instrumento e comprovação de sua aplicabilidade, este foi aprovado com o título “Checklist de Segurança Cirúrgica Pré e Pós Operatório” (CSCPP) com 85 indicadores agrupados em seis categorias:

Categoria I - Identificação do paciente: registro de nove indicadores pessoais do paciente.

Categoria II - Pré-operatório: com 13 indicadores de segurança, verificados antes de o paciente ser encaminhado ao centro cirúrgico.

Categoria III - Pós-operatório Imediato: 13 indicadores de segurança, verificados no período de 24 horas após a cirurgia.

Categoria IV - Pós-operatório Mediato: conta com 29 indicadores de segurança relacionados à dor, à ferida operatória e aos sistemas fisiológicos.

Categoria V - Complicações: 17 indicadores para o registro de complicações pós-operatórias, após diagnóstico médico.

Categoria VI - Alta hospitalar / transferência: quatro indicadores de segurança relativos ao estado geral, condições da ferida operatória, presença de dispositivos e orientações para cuidados domiciliares e retorno ambulatorial.

DISCUSSÃO

Esta investigação possibilitou a elaboração e avaliação do conteúdo e aplicabilidade do “Checklist de Segurança Cirúrgica Pré e Pós Operatório” (CSCPP), norteado pelos preceitos da OMS para segurança do paciente. Os resultados apontam para o estímulo à criação de listas de segurança para outros contextos de saúde, após avaliação positiva à segurança cirúrgica(13).

Inclusive, a OMS propõe modificações e adaptações de checklists em decorrência das variabilidades institucionais(9), contribuindo para elencar estratégias e abordagens específicas de segurança perioperatória.

Um exemplo dessa prática foi o estudo realizado em hospital universitário da região sudeste do Brasil, que padronizou o checklist pediátrico para cirurgia segura no período pré-operatório, por meio de linguagem infantil e formato lúdico, ancorado na literatura nacional e internacional. Contou também com contribuição e experiência de profissionais de saúde, pesquisadores e especialistas na temática(14). Essa metodologia torna-se estratégica ao oportunizar o envolvimento da equipe multidisciplinar para o sucesso da implementação da lista de verificação cirúrgica(16).

Nesta pesquisa, as ações para construção e avaliação do CSCPP permitiram compartilhar conhecimentos e experiências entre as enfermeiras de unidades cirúrgicas, além de possibilitar momentos de reflexão sobre a realidade profissional, da instituição com suas potencialidades e limitações, bem como das exigências do Programa Nacional de Segurança do Paciente, lançado pelo Ministério da Saúde em nosso país(17).

Os resultados demonstraram que o uso da metodologia científica do Ciclo PDCA(4), para construção coletiva do checklist, sob os auspícios da gestão de qualidade, pode contribuir em processos que envolvem o cuidado ao paciente cirúrgico e a difusão de boas práticas na realização de cirurgias seguras. Tal fato é reforçado, a partir de estudo que verificou redução de infecções relacionadas à assistência à saúde(18), da mesma forma que outra investigação no Oriente Médio identificou redução de 25% na ocorrência de erros na fase pré-analítica de exames laboratoriais(19).

Na metodologia da gestão da qualidade, tal como o PDCA, a dimensão segurança segue os mesmos princípios que regem a Melhoria da Qualidade, com objetivos de aprimorar a prestação de cuidados no local de trabalho, integrar-se com as atividades de monitoramento para detecção de problemas, planejar medidas preventivas, bem como executar ações para solução dos problemas de qualidade/ segurança(4).

Sobre a versão do checklist, destaca-se que a Association of Perioperative Registered Nurses (AORN) propôs um modelo denominado check-in no qual são checados itens referentes à identificação do paciente e documentação cirúrgica antes da admissão do paciente na sala operatória(16), semelhante ao proposto nessa investigação nas Categoria I: identificação do paciente e Categoria II: pré-operatório.

O Programa Cirurgias Seguras Salvam Vidas da OMS preconiza, na fase pré-operatória, que a intervenção seja realizada com obtenção do termo de consentimento informado, confirmação da identificação do paciente, do sítio cirúrgico e do procedimento a ser realizado(9). Estes indicadores foram contemplados no instrumento deste estudo.

Quanto ao perfil dos pacientes, identificado por meio da aplicação dos checklist nas unidades cirúrgicas estudadas, observou-se prevalência de cirurgias eletivas em pacientes do sexo masculino, conforme verificado também em estudo brasileiro realizado no Estado de Minas Gerais(12). Constatou-se que a clínica cirúrgica e pediátrica foram as mais representativas, no que se refere ao preenchimento dos instrumentos por especialidades, podendo ser justificado pela demanda de pacientes, número de leitos para internamento e dias reservados de salas operatórias superiores às demais clínicas cirúrgicas deste estudo.

Além disso, no contexto organizacional da instituição desta pesquisa, esses serviços implementaram seus processos de trabalho, organizando, executando e avaliando as ações de enfermagem de modo mais estruturado, desde as consultas ambulatoriais para indicação cirúrgica, seguindo para encaminhamento de exames pré-operatórios e consultas para liberação anestésica.

Verificou-se que os dados relacionados à Categoria I e Categoria II obtiveram maiores percentuais de preenchimento. Em relação aos indicadores das Categorias III (Pós operatório Imediato), Categoria IV (Pós-operatório Mediato) e Categoria V (Alta hospitalar/transferência), houve menor percentual de preenchimento, semelhante aos resultados de pesquisa acerca de itens de verificação em sala operatória, a qual apresentou melhores resultados na etapa pré-operatória(20).

Os resultados mostraram que, provavelmente, as enfermeiras estavam mais preocupadas e atentas com a checagem dos itens antes do encaminhamento do paciente à unidade do centro cirúrgico. Investigação conduzida em hospital de grande porte do estado de Minas Gerais, que analisou o preenchimento de 3.872 itens de instrumento perioperatório, identificou que 55% dos indicadores na fase pré-operatória não foram preenchidos(12).

Tal fato talvez se explique pela rotina dos serviços de saúde, de encaminhar o paciente para cirurgia checando dados necessários para o ato cirúrgico. Contudo, quando se incluem informações para o pós-operatório, observa-se a necessidade de sensibilizar as enfermeiras e instituições sobre sua importância.

Específicamente sobre o preenchimento da Categoria I do CSCPP, a identificação correta do paciente torna-se necessária e válida para que a equipe cirúrgica não execute procedimentos errôneos. O mesmo vale para a Categoria II quanto à marcação do sítio cirúrgico. Estudo realizado na região nordeste brasileira apontou baixa adesão à demarcação do local a ser operado(11).

Em virtude da possibilidade da ocorrência de cirurgias envolvendo local e paciente errado(9), as enfermeiras necessitarão de mais atenção ao preenchimento. Destaca-se a possibilidade da ocorrência de eventos adversos, principalmente, se ausência de exames de imagem no prontuário, conforme verificado nos achados desta investigação.

Em relação à Categoria III e IV, referente ao pós-operatório imediato e mediato, respectivamente, para riscos e a ocorrência de sinais e sintomas para possíveis complicações, destacaram-se os itens sangramento e drenagem em sítio cirúrgico, dor, náuseas/vômitos, constipação e hipotensão. Estas alterações decorrem do fato de o paciente ficar mais vulnerável, especialmente aos eventos adversos de origem respiratória, circulatória e gastrointestinal(21).

Nota-se nesse estudo que houve prevalência de complicações relacionadas ao sítio cirúrgico, podendo ser agravadas pelo risco de infecção quando na utilização de dispositivos, presente nesse estudo em 7,59% dos casos. Estudo conduzido em três hospitais públicos do Brasil também identificou a prevalência de complicações relacionadas à ferida operatória, destacando-se a infecção de sítio cirúrgico e a deiscência, dentre os eventos adversos(22). As infecções, em especial a de sítio cirúrgico, permanecem como causa mais comuns de complicações pós-operatórias(9).

Considerando os indicadores referentes à alta hospitalar (Categoria V), observa-se que 95% dos pacientes receberam orientações para cuidados em relação à ferida cirúrgica e cuidados na manipulação de dispositivos, como uso de bolsa de colostomia e vesical, drenos, dentre outros. No momento da alta hospitalar, deve ser realizada avaliação criteriosa do estado clínico do paciente, no intuito de elencar os cuidados necessários no âmbito domiciliar e assim evitar possíveis reinternações. Dessa forma, ressalta-se que a utilização do checklist direciona as orientações prestadas pelos enfermeiros no planejamento do autocuidado dos pacientes cirúrgicos, além de permitir aos cuidadores e familiares a continuidade do cuidado domiciliar(23).

O checklist elaborado por meio do ciclo PDCA de forma conjunta com as enfermeiras participantes deste estudo mostrou-se aplicável, haja vista que as listas de segurança possuem essa característica e finalidade, sendo capaz de mensurar indicadores relacionados à intervenção cirúrgica e sua evolução, para a tomada de decisões pela equipe multidisciplinar.

CONCLUSÃO

O método PDCA é recomendado pela OMS para melhoria contínua da qualidade dos serviços de saúde e atendimentos prestados em prol da segurança do paciente, e sua utilização nesta pesquisa oportunizou, de maneira sistematizada e participativa, o desenvolvimento e avaliação de instrumento intitulado Checklist de Segurança Cirúrgico Pré e Pós-Operatório - CSCPP, representando mais uma possibilidade de garantir assistência de enfermagem com qualidade nas unidades de internação e promoção da segurança do paciente desde o momento da indicação cirúrgica até a alta hospitalar.

Deste modo, espera-se que este checklist seja passível de aplicação na prática assistencial, adaptado à instituição de pesquisa e sirva de incentivo à construção de instrumentos em diversos contextos assistenciais de saúde. Além disso, o instrumento possibilita a monitorização de sinais e sintomas de alerta e produção de indicadores gerenciais de qualidade, com benefícios para o paciente, seus familiares, para a instituição e sociedade, como instrumento para a prevenção de incidentes e eventos adversos oriundos da assistência cirúrgica. Como limitador da pesquisa, aponta-se o emprego do ciclo PDCA com a finalidade de nortear a elaboração de checklist em apenas uma instituição hospitalar de ensino público.

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Notas

* Artigo extraído da dissertação intitulada: “Cirurgia Segura: validação de checklist pré e pós-operatório”. Universidade Federal do Paraná, 2014.

Autor notes

Autor Correspondente: Francine Taporosky Alpendre, Universidade Federal do Paraná, Av. Prefeito Lothario Meissner, 632 – 80210-170 - Curitiba, PR, Brasil. E-mail: franalpendre@gmail.com

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