Artigo original

CONHECIMENTO E PERCEPÇÃO DE RISCO EM RELAÇÃO ÀS INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS ENTRE JOVENS UNIVERSITÁRIOS*

CONOCIMIENTO Y PERCEPCIÓN DE RIESGO ACERCA DE INFECCIONES DE TRANSMISIÓN SEXUAL ENTRE JÓVENES UNIVERSITARIOS

Vinícius Rodrigues Fernandes da Fonte
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
Thelma Spindola
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
Adriana Lemos
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
Márcio Tadeu Ribeiro Francico
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
Universidade Veiga de Almeida, Brasil
Claudia Silvia Rocha Oliveira
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil

CONHECIMENTO E PERCEPÇÃO DE RISCO EM RELAÇÃO ÀS INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS ENTRE JOVENS UNIVERSITÁRIOS*

Cogitare Enfermagem, vol. 23, núm. 3, e55903, 2018

Universidade Federal do Paraná

Recepção: 19 Outubro 2017

Aprovação: 13 Abril 2018

Financiamento

Fonte: Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro

Fonte: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil

Número do contrato: 229392

Número do contrato: 001

Descrição completa: Esta pesquisa recebeu apoio financeiro da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) – Código de Financiamento 229392 e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

Objetivo: analisar o conhecimento acerca das Infecções Sexualmente Transmissíveis e sua influência na percepção de risco entre jovens universitários.

Método: estudo transversal, realizado em uma universidade privada no Rio de Janeiro, com 768 estudantes na faixa etária de 18 a 29 anos. O instrumento de coleta de dados utilizado foi um questionário. Os dados foram analisados com auxílio do Software Statistical Package for the Social Sciences, sendo aplicados os testes qui-quadrado de Pearson e a análise de variância.

Resultados: os jovens universitários possuíam conhecimento abaixo da média em relação às infecções sexualmente transmissíveis. No que diz respeito à percepção de risco, os jovens acreditam que é impossível ou pouco possível a chance de serem infectados.

Conclusão: o conhecimento dos estudantes universitários acerca das formas de transmissão das infecções sexualmente transmissíveis ficou abaixo do esperado, podendo, dessa forma, refletir na baixa percepção de risco acerca das infecções.

DESCRITORES: Doenças sexualmente transmissíveis+ Conhecimento+ Comportamento sexual+ Adulto jovem+ Enfermagem.

Objetivo: analizar el conocimiento acerca de las Infecciones de Transmisión Sexual y su influencia en la percepción de riesgo entre jóvenes universitarios.

Método: estudio transversal, realizado en una universidad particular en Rio de Janeiro, con 768 estudiantes de la franja etaria de 18 a 29 años. La herramienta utilizada para obtener los datos fue un cuestionario. Se analizaron los datos con la ayuda del Software Statistical Package for the Social Sciences, siendo aplicados los test chi cuadrado de Pearson y el análisis de variancia.

Resultados: los jóvenes universitarios poseen conocimiento por debajo de la media en relación a las infecciones de transmisión sexual. Respeto a la percepción de riesgo, los jóvenes creen que es imposible o poco probable que sean infectados.

Conclusión: el conocimiento de los estudiantes universitarios acerca de las formas de transmisión de las infecciones sexualmente transmisibles se quedó inferior al esperado, siendo posible, de eso modo, reflejarse en la baja percepción de riesgo acerca das infecciones.

DESCRIPTORES: Enfermedades de transmisión sexual, Conocimiento, Comportamiento sexual, Adulto joven, Enfermería.

INTRODUÇÃO

As Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) são causadas por mais de 30 agentes etiológicos, bacterianos, virais e parasitários, transmitidas, principalmente, pelo contato sexual vaginal, anal e oral. Dentre os mais de 30 agentes patogênicos, oito são responsáveis pelas principais demandas ao setor de saúde. Quatro são ocasionadas por infecções incuráveis, mas controladas e tratáveis com o uso de medicamentos e acompanhamento de saúde: vírus da imunodeficiência humana (HIV), hepatite B, herpes e papiloma vírus humano (HPV); enquanto que as outras quatro são consideradas curáveis: sífilis, clamídia, tricomoníase e gonorreia.(1-2)

A dinâmica epidemiológica das IST na sociedade abarca uma multiplicidade de fatores que condicionam situações de vulnerabilidades aos indivíduos ou grupos populacionais que partilham características em comum. A população jovem, por inúmeras características, tais como início precoce da relação sexual, múltiplas parcerias, sexo sob a influência de álcool ou drogas e uso inconsistente do preservativo, é considerada como um grupo vulnerável. Atualmente, mais da metade de novas infecções pelo HIV ocorrem em jovens na faixa estaria de 15 a 24 anos.(3-4)

Os jovens, em geral, possuem conhecimento sobre a importância do uso do preservativo na prevenção das IST. Contudo, investigações têm demonstrado que existem falhas no conhecimento sobre as IST e as formas de prevenção das infecções não são tão evidentes.(5-6) O uso do preservativo não é uma constante na vida dos jovens. A informação sobre este recurso, muitas vezes, é transmitida de maneira incorreta e a sua utilização se torna mais uma atitude socialmente estimulada do que uma escolha consciente.

Estudos apontam a população de jovens universitários como de alto risco às IST, uma vez que estão iniciando a vida sexual e mudando frequentemente de parceiros. A vida universitária favorece o aparecimento e a consolidação de determinados comportamentos, especialmente relacionado ao consumo de álcool e outras drogas e práticas sexuais desprotegidas. Dados indicam que o consumo de substâncias psicoativas entre os universitários é mais frequente do que na população em geral, e o seu uso aumenta a probabilidade de viver uma situação associada a riscos, dentre eles o sexo sem proteção.(5,7-9)

Com o término da adolescência e o ingresso nas universidades, é comum que os jovens se afastem de suas famílias, indo morar em outros centros urbanos. As novas responsabilidades trazem cada vez mais autonomia e expectativas quanto às decisões da vida cotidiana. A rotina sobrecarregada de estudos e os compromissos incidem sobre a necessidade de buscar amizades, diversão e meios de aliviar a tensão. Inúmeros universitários buscam em festas e eventos a descontração necessária para enfrentar esse turbilhão de acontecimentos. Novas formas de comportamento e de viver a vida vão sendo adquiridas: se antes o uso do álcool causava mal-estar, hoje apenas desinibe para dançar. Essas novas construções reforçam apenas o conceito de invulnerabilidade na juventude.(3,10-11)

A necessidade de prevenção às IST entre os jovens, especialmente os universitários, é objeto de pesquisa em investigações que buscam melhor compreender o fenômeno que ocorre nos campos do conhecimento/comportamento. A literatura constata que a população de jovens universitários, mesmo sendo possuidora de conhecimento, ainda se expõe a situações de vulnerabilidade. Entende-se que o comportamento relacionado à saúde enfatiza a percepção de risco como condição necessária para mudança comportamental, pois o grau de risco percebido atua como propulsor para adoção de medidas preventivas no que tange ao controle real individual. Contudo, a percepção de risco, assim como o conhecimento, sofrem influências socioambientais e culturais. Destarte, são necessárias pesquisas que estimulem novas investigações para discutir estratégias de enfrentamento a esta realidade.(2,4-6,9-10,12)

Neste sentido, selecionou-se o seguinte problema a ser investigado: O conhecimento dos jovens universitários acerca das Infecções Sexualmente Transmissíveis exerce alguma influencia em suas percepções de risco? Dessa forma, delimitou-se como objetivo do estudo: analisar o conhecimento acerca das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e sua influência na percepção de risco entre os jovens universitários.

MÉTODO

Estudo de desenho transversal com abordagem quantitativa. O campo da pesquisa foi um campus universitário de uma instituição privada, no município do Rio de Janeiro, que oferta mais de vinte e cinco cursos de graduação, e possuía mais de quinze mil alunos de graduação com matrícula ativa até o primeiro semestre de 2016.

A população foi constituída por jovens universitários que estavam regularmente matriculados nos cursos de graduação. Segundo o Estatuto da Juventude, é considerada jovem a população entre 15 e 29 anos. Porém, nesse estudo não foram incluídos os indivíduos com idade inferior a 18 anos, devido a questões legais que exigem o consentimento dos responsáveis para a participação em pesquisas envolvendo seres humanos.(13)

Os critérios de inclusão no estudo foram condizer com a faixa etária pré-estabelecida (18 a 29 anos) e estar com matrícula ativa nos respectivos cursos ofertados pelo Campus. Como critério de exclusão adotou-se a não devolução do instrumento de coleta de dados ou não ter preenchido uma ou mais páginas do questionário.

Para a seleção dos participantes, foi utilizada a amostragem estratificada uniforme por sexo, pois não obtivemos informações da instituição quanto ao total de alunos por idade e sexo para que pudéssemos utilizar a amostragem estratificada proporcional. Nesse sentido, utilizamos para o cálculo da amostra o tamanho conservador para populações infinitas, tendo-se estabelecido o intervalo de confiança de 95% e erro amostral de 5% pontos percentuais (pp), obtendo-se uma amostra de 384 estudantes universitários do sexo masculino e 384 do sexo feminino.

O instrumento de coleta de dados (ICD) utilizado foi um questionário com 60 questões, elaborado e adaptado para o grupo populacional estudado, com base no estudo “Pesquisa de Comportamentos, Atitudes e Práticas da População Brasileira”.(14) Essa pesquisa foi um inquérito populacional envolvendo 8000 indivíduos entre 15 e 64 anos de idade, tendo como objetivo principal possibilitar a construção de indicadores para monitoramento da epidemia de IST/aids.

As variáveis dependentes utilizadas foram relacionadas à avaliação do conhecimento sobre as IST. O indicador de conhecimento foi construído a partir de quatro blocos de perguntas, com possibilidades de respostas, sim ou não, para as infecções causadas pelo HIV, sífilis, hepatite, gonorreia, herpes, HPV e clamídia. Os blocos eram: transmissão por contato não sexual, transmissão por sangue e compartilhamento de objetos perfuro cortantes, transmissão por via sexual e possibilidade de cura. Para isso, foi estabelecida uma pontuação de zero (nenhum conhecimento) a quatro (total conhecimento).

O conhecimento foi avaliado pelo ponto de corte da mediana. Nesse sentido, considerou-se como conhecimento adequado quem atingisse, no mínimo, a metade da pontuação máxima, ou seja, maior ou igual a dois, e conhecimento abaixo da média aqueles com pontuação menor que dois. Quanto maior a pontuação atingida, maior seria o conhecimento. As variáveis independentes utilizadas nessa investigação são relacionadas à autoavaliação quanto à possibilidade de adquirir uma IST e as condutas sexuais.

A coleta de dados ocorreu em junho e julho de 2016 nas dependências do Campus da universidade selecionada, com aplicação de um questionário aos alunos do turno da manhã, tarde e noite. As abordagens eram realizadas nas áreas comuns ou de convivência (áreas de lazer, praça de alimentação, quadra de esportes e corredores) e em salas após a aula e com autorização do professor responsável pela disciplina.

O tempo de preenchimento do questionário levou em média dez minutos. Os alunos que aceitaram participar tinham que responder e entregar o questionário no mesmo momento da abordagem do pesquisador.

Os questionários foram transcritos para uma planilha, utilizando recursos do Software Excel 2003, formando um banco de dados. Posteriormente, foram realizadas as análises estatísticas através do Software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), com apresentação dos dados em frequências absoluta e relativa. Para verificar a associação entre variáveis, foi aplicado o teste qui-quadrado de Pearson para as variáveis dicotômicas, com nível de significância de 95%, e o teste de análise de variância (ANOVA) para a comparação da média do conhecimento com as demais variáveis independentes.

A pesquisa foi apreciada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade, sede da pesquisa no ano de 2016 com o parecer número 1.577.311.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 768 estudantes, sendo 384 do sexo masculino e 384 do sexo feminino. A maioria dos respondentes era do curso de engenharia, 170 (22,1%); seguido pela enfermagem, 153 (19,9%); e direito, 75 (9,8%); respectivamente. Os demais participantes, 370 (48,2%), pertenciam a outros 20 cursos de graduação ofertados pela instituição. Segundo a área de conhecimento, disponibilizaram-se a participar da pesquisa 253 (32,9%), universitários que pertenciam aos cursos da área da saúde e 515 (67,1%) às demais áreas.

Em relação ao perfil social, a maioria dos participantes tinha idade entre 18 e 21 anos, 532 (69,26%); a média foi de 20,9 anos e o desvio padrão de 2,59. Em relação ao estado marital/conjugal, mais da metade era solteira, 451 (58,72%); não possuíam filhos, 740 (96,35%); e se declararam brancos em relação à cor da pele, 432 (56,25%). Quanto à percepção de risco sobre serem infectados por uma IST, os jovens avaliam como pouco possível ou impossível serem infectados, conforme evidenciado pela Figura 1.

Autoavaliação dos universitários quanto à possibilidade de adquirir uma Infecção Sexualmente Transmissível. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2016. Fonte: O autor, 2016.
Figura 1
Autoavaliação dos universitários quanto à possibilidade de adquirir uma Infecção Sexualmente Transmissível. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2016. Fonte: O autor, 2016.

No que tange ao nível de conhecimento dos estudantes universitários acerca das IST, a maioria possuía conhecimento abaixo da média e nenhum participante obteve pontuação máxima de conhecimento acerca das IST, conforme evidencia a Tabela 1.

Tabela 1
Nível de conhecimento dos universitários quanto às formas de transmissão das IST. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2016
Nível de conhecimentof%
Total768100
070,91
0,5131,69
114418,76
1,529137,89
221828,39
2,5658,46
3232,99
3,570,91
400
Legenda: IST – Infecções Sexualmente Transmissíveis. Fonte: O autor, 2016.

A Tabela 2 evidencia que a diferença observada sobre a autoavaliação quanto à possibilidade de adquirir uma IST, em relação ao nível de conhecimento que possuem sobre as formas de transmissão, não é significativa. Ou seja, o grau de conhecimento é igual entre os grupos que se autoavaliam em risco ou não de infecção por uma IST.

Tabela 2
Nível de conhecimento dos universitários acerca das formas de transmissão das IST e autoavaliação quanto à possibilidade de ser infectado. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2016
VariáveisfMédia do Nível de Conhecimentop
1. Possibilidade de ser infectado por uma IST
Impossível1991,6180,197
Pouco possível3471,718
Nem possível e nem impossível1111,689
Possível811,716
Muito possível111,455
2. Possuir todo o conhecimento acerca das formas de transmissão das IST
Não5791,6760,732
Sim1691,692
Legenda: IST – Infecções Sexualmente Transmissíveis. Os resultados não somam 768, pois alguns participantes não responderam todas as questões. Teste qui-quadrado de Pearson. Fonte: O autor, 2016.

A Tabela 2 também evidencia que não há diferença estatística entre as pessoas que afirmam ou não possuir todo o conhecimento acerca das IST, em relação ao nível de conhecimento sobre as formas de transmissão. Ou seja, o grau de conhecimento é igual entre os grupos. Nesse sentido, os jovens universitários que sinalizaram possuir todo o conhecimento em relação às IST, na verdade possuem uma percepção errônea, considerando que possuem o mesmo nível de conhecimento de pessoas que afirmam não possuir todo o conhecimento relativo às IST. Cabe salientar, que considerando o estudo em tela, trata-se de um conhecimento abaixo da média.

A Tabela 3 apresenta a associação entre as condutas sexuais dos 654 (85,2%) jovens universitários sexualmente ativos e sua autoavaliação quanto a possuir todo o conhecimento acerca das IST. Os resultados demonstram que a única variável que se mostrou estatisticamente significativa foi negociar o uso do preservativo com o parceiro(a). Ou seja, os estudantes que informaram possuir todo o conhecimento acerca das IST são os que tendem a negociar o uso do preservativo com o parceiro(a).

Tabela 3
Condutas sexuais de universitários sexualmente ativos e autoavaliação quanto a possuir todo o conhecimento acerca das IST. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2016 (n=654)
Condutas sexuaisPossuir todo o conhecimento acerca das ISTp
NãoSim
1. Uso do preservativo na primeira relação sexual
Não13427,243724,340,480
Sim35872,7611575,66
2. Uso do preservativo em todas as relações sexuais
Não31664,238958,940,239
Sim17635,776241,06
3. Uso do preservativo com parceiro(a) estável/fixo(a) nos últimos 12 meses
Não21255,946252,990,575
Sim16744,065547,01
4. Uso do preservativo com parceiros(as) casuais nos últimos 12 meses
Não8135,062535,710,921
Sim15064,944564,29
5. Mais do que 5 parceiros(as) casuais nos últimos 12 meses
Não15667,535168,920,824
Sim7532,472331,08
6. Relação sexual com pessoa do mesmo sexo que o seu.
Não41484,3211779,050,134
Sim7715,683120,95
7. Uso do preservativo no sexo pago
Não0018,330,255
Sim111001591,67
8. Negociou o uso do preservativo com parceiro(a)
Não22145,855436,730,001
Sim10722,25537,41
Em parte15431,953825,85
9. Uso de álcool e/ou outras drogas na última relação sexual
Não34570,2610267,110,460
Sim14629,745032,89
Legenda: IST - Infecções Sexualmente Transmissíveis. Os resultados não somam 654, pois alguns participantes não responderam todas as questões. Teste qui-quadrado de Pearson. Fonte: O autor, 2016.

DISCUSSÃO

No que tange aos jovens que estão inseridos no contexto universitário, outras pesquisas têm corroborado com a presente investigação, ao concluir que ainda carecem de conhecimento sobre as IST, que não adotam condutas sexuais seguras e que possuem baixa percepção de risco em suas práticas sexuais.(5-6,10,12,15)

Os estudantes universitários possuem baixa percepção de risco quanto à possibilidade de ser infectado por uma IST, conforme encontrado nessa investigação e ratificado por outras pesquisas. Pesquisadores brasileiros avaliaram a autopercepção dos jovens universitários quanto à possibilidade de serem infectados. Para isso, utilizaram uma escala entre um e cinco, onde um indicava possibilidade muito grande de infecção e cinco indicava nenhuma possibilidade. A média encontrada nessa investigação foi de 4.01. Ou seja, os estudantes possuíam baixa percepção de risco para si próprio. No entanto, quando foi solicitada a avaliação em relação a outras pessoas da mesma faixa etária a média foi de 1.95. Ou seja, os jovens universitários percebem o “outro” como mais suscetível a uma IST, enquanto possuem baixa percepção de risco quando se autoavaliam.(6)

A baixa percepção de risco também foi encontrada em investigação realizada com estudantes colombianos, que identificou que apenas 29,3% se consideravam em risco quanto à infecção por alguma IST.(9) Em Fortaleza (Brasil), 60,9% dos estudantes da área da saúde classificavam-se como de baixo risco quanto à sua possibilidade de infecção pelo HIV e 25,5% acreditavam que não possuíam nenhum risco.(5) Na Etiópia, pesquisa com estudantes do ensino médio constatou que a percepção de risco para a aquisição da infecção pelo HIV e a utilização de serviços de testagem e aconselhamento eram baixas, apesar de alguns estudantes apresentarem comportamentos sexuais de risco, como: multiplicidade de parcerias, sexo sob efeitos de álcool ou outras drogas e uso inconsistente do preservativo.(4) Em estudo com 641 jovens universitários tailandeses, foi identificado que 118 participantes tinham risco moderado ou alto de infecção pelo HIV; no entanto, 111 (94%), dos 118 participantes com risco moderado ou alto, consideravam-se como de baixo ou nenhum risco.(16)

Não obstante aos resultados semelhantes encontrados sobre a baixa percepção de risco entre estudantes universitários, demais estudos convergem com os resultados encontrados no que tange ao ínfimo conhecimento em relação às IST. Pesquisa realizada no Rio de Janeiro identificou que 58,5% dos estudantes universitários da área da saúde não conhecem todas as formas de transmissão das IST, apesar de 48,5% terem afirmado que possuíam todo o conhecimento acerca das IST.(17) Estudo com estudantes universitários de uma instituição paulista constatou que 81% tinham dúvidas sobre a sintomatologia das IST.(17) Em investigação com mulheres estudantes de um curso de graduação em enfermagem de Ribeirão Preto, Brasil, observou-se que, apesar de 69% conhecerem as formas de transmissão do HPV, apenas 20,7% informaram saber alguns sinais e sintomas.(18) O mesmo fenômeno foi verificado em outro estudo que apontou conhecimento limitado sobre o HPV em um grupo de universitários paulistanos, sendo observado conhecimento maior em relação às formas de transmissão do que de prevenção.(19) Entre os universitários do Gana foi observado um nível inconsistente de conhecimento sobre HIV/aids. Embora os alunos pudessem identificar os modos de transmissão e a medida preventiva, eles possuíam pouco conhecimento sobre o agente causador da aids.(20)

Em divergência aos baixos níveis de conhecimento apresentado nessa investigação e em outras já citadas, estudo envolvendo 1250 estudantes de graduação de uma universidade privada na Nigéria constatou um conhecimento muito alto em relação ao HIV e aos locais onde o teste pode ser feito, além de uma vontade elevada de realização do teste de HIV. Contudo, a realização de testagem era baixa. Os universitários com idade igual ou superior a 21 anos e que possuíam bom nível de conhecimentos sobre o HIV eram mais propensos a realização do teste de HIV.(21) Pesquisa realizada com tailandeses também constatou um nível de conhecimento elevado sobre os riscos de transmissão do HIV. Não obstante, as taxas de uso consistente do preservativo no sexo oral, vaginal e anal foram todas baixas, sendo o principal fator associado à falsa percepção de baixo risco. Os principais fatores associados à percepção de baixo risco, descrito pelos autores, foram ser do sexo masculino (p<0.001); viver com parceiro fixo (p=0.004); homossexuais/bissexuais (p=0.02); e estudantes que não são da área da saúde (p=0.04).(16)

Resultados de uma investigação, que objetivou analisar o conhecimento, as atitudes e práticas de prevenção sobre o HIV/aids entre estudantes universitários de uma instituição colombiana, apontam que os estudantes de maior idade e períodos avançados tiveram pontos mais elevados em boas atitudes e práticas de prevenção.(22) Conforme observado em outro estudo com universitários colombianos, os estudantes da área da saúde são os que mais utilizam o preservativo, possivelmente devido ao conhecimento que adquirem na formação acadêmica sobre as formas de transmissão e prevenção das IST.(23)

Investigação realizada em São Paulo, Brasil, com objetivo de comparar o conhecimento de jovens do ensino médio sobre HIV/aids, constatou que o conhecimento diminuiu e as dúvidas aumentaram ao longo de dez anos. Foi também observado que o número de atividades educativas e a percepção de conhecimento dos estudantes reduziram ao longo dos anos. Ou seja, os jovens adentram a vida universitária com pouco conhecimento em relação às IST.(24)

Prevalece, neste grupo populacional, o conhecimento insuficiente sobre as IST, baixa percepção de risco, o uso não regular do preservativo, relações com múltiplos parceiros e uso de álcool e/ou outras drogas. Em suma, os resultados e as investigações aqui apresentadas sugerem esforços na garantia de atividades de educação em saúde, acesso ao preservativo, a testagem para o HIV e demais IST e a profilaxia pós-exposição (PEP) para este grupo populacional.(3-6,9-10,16,20-23)

CONCLUSÃO

Os achados do estudo evidenciam que os jovens universitários possuem conhecimento insuficiente em relação à transmissão das IST e apresentam uma baixa percepção de risco.

Considerando que o conhecimento demonstrado pelos estudantes é abaixo do esperado, é difícil precisar se a insuficiência de informação exerce alguma influência nas condutas sexuais dos jovens, o que pode ser uma limitação da presente investigação. Seria oportuno, então, que este estudo fosse replicado para que pudesse avaliar o conhecimento prévio e o adquirido através da informação formal (implementado através de medidas educativas com a população estudada).

O estudo retrata a realidade de apenas um campus universitário, o que pode representar outra limitação. Dessa forma, os dados não podem ser generalizados para a população universitária como um todo, apesar de os resultados condizerem com as demais investigações nacionais e internacionais.

É sabido que as primeiras experiências sexuais, em geral, ocorrem na adolescência, ou seja, antes dos jovens adentrarem nas universidades. Porém, os dados dessa investigação demonstram o quanto os jovens possuem baixo conhecimento e baixa percepção de risco acerca das IST. Nesse sentido, o estudo reforça que a temática da sexualidade e dos direitos sexuais e reprodutivos perpassa as várias etapas desde o ensino básico ao superior.

Cabe salientar, que a princípio acreditava-se que os jovens universitários poderiam ter conhecimentos em relação às IST, tendo em vista que as informações referentes a esta temática teriam sido abordadas nas escolas durante a adolescência. No entanto, nos deparamos com um conhecimento sobre IST abaixo da média e um ambiente universitário altamente vulnerável, considerando que o cenário promove autonomia e liberdade aos jovens para socializações com futuras parcerias sexuais, além de ser rodeado por comemorações com ingesta de bebidas alcoólicas ou uso de outras drogas.

As universidades devem ser campo de ações de saúde direcionadas à população jovem, com especial oferta de cuidados relacionados aos temas de maior relevância a esta faixa etária, como as IST. Portanto, reforçam-se a necessidade de atividades educativas com a população jovem, a inclusão de disciplinas na formação curricular relacionadas à sexualidade, e a prevenção das IST; que a universidade, através do seu papel no ensino, na pesquisa e extensão, contribua com a melhoria do conhecimento dos seus alunos e, consequentemente, na produção e disseminação de informações que promovam a conscientização acerca dos direitos sexuais e reprodutivos; e que os serviços de saúde se apropriem dos espaços universitários no que tange à oferta de cuidados de saúde para um público específico e vulnerável.

AGRADECIMENTOS

Esta pesquisa recebeu apoio financeiro da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) – Código de Financiamento 229392 e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

ACKNOWLEDGMENT

The present study was funded by Carlos Chagas Filho Foundation for Research Support of the State of Rio de Janeiro (FAPERJ) – finance code 229392 and Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – finance code 001.

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Notas

* Extraído da dissertação de mestrado de título: Condutas sexuais de jovens universitários e o conhecimento em relação às Infecções Sexualmente Transmissíveis. Apresentada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro em dezembro de 2016.

Autor notes

Autor Correspondente: Vinícius Rodrigues Fernandes da Fonte. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rua Boulevard 28 de setembro, 157 – 20551-030. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: vinicius-fonte@hotmail.com.

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