CULTURA
Recepção: 21 Agosto 2017
Aprovação: 02 Outubro 2017
DOI: 10.15448/1980-3729.2018.2.28325
RESUMO: Na pesquisa Tecnologias de comunicação nas práticas cotidianas: o caso de famílias relacionadas à cadeia agroindustrial do tabaco, desenvolvida no município de Vale do Sol (RS), uma das estratégias de coleta de informações em campo foi focar na predileção dos entrevistados sobre um meio de comunicação. As perguntas “qual o seu meio de comunicação preferido?” e “onde você costuma usá-lo?” geraram a problematização da dinâmica do espaço, tomado aqui como categoria de análise (Harvey, 2006). A partir das tensões e complexidades espaciais, a exemplo das relações entre rural e urbano, ou casa e rua, propomos compreender os usos e apropriações de tecnologias de comunicação (Silverstone, Hirsch, Morley, 1996). Para tanto, consideramos o aspecto físico dos locais de moradia e trabalho das famílias, e o abstrato, a exemplo da implicação simbólica de outra dualidade: modernidade e tradição. Assim, observamos dinâmicas de objetivação no lar, por diferentes formas de diferenciação espacial, implicadas em processos de consumo privado ou compartilhado e, também, decorrentes de aspectos geracionais.
Palavras-chave: Estudos culturais, Tecnologias de comunicação, Espaço rural.
ABSTRACT: In the research Communication technologies in daily practices: the case of families related to the agroindustrial tobacco chain, developed in the city of Vale do Sol (RS), one of the strategies for collecting information in the field was to focus on the interviewees’ means of communication predilection. The questions "what is your favorite mean of communication?" and "where do you usually use it?" have spawned questions about space, taken here as a category of analysis (Harvey, 2006). From the tensions and spatial complexities, such as the relations between rural and urban, or house and street, a problematization is proposed to understand the uses and appropriations of communication technologies (Silverstone, Hirsch, Morley, 1996). For this purpose, we consider the physical aspect of families' dwelling and work places, and the abstract, as the symbolic implication of another duality: modernity and tradition. Thus, we observe dynamics of objectification in the home, through different forms of spatial differentiation, implicated in private or shared consumption processes and also in generational gap.
Keywords: Cultural studies, Communication technologies, Rural area.
Introdução
Já superado o engarrafamento das oito horas da manhã na saída de Porto Alegre (RS), estamos sobre o asfalto, em deslocamento até Santa Cruz do Sul2. Na paisagem vão esmaecendo-se características urbanas e predominando as rurais. Estamos hoje entre quatro pesquisadores da PUCRS. Chegamos à UNISC para buscar outros três colegas, nenhum com origens campesinas. Todos a bordo da van, percorremos mais 30 quilômetros pela BR 287 e pegamos estrada "de chão", rumo ao Vale do Sol3. Queremos confirmar com a família a localização exata de sua moradia, para podermos realizar as entrevistas que combinamos para o dia de hoje. Mas não há sinal de telefone. Então, após obtermos referência com um vizinho que passava puxando dois bois ("é lá pra cima"), encontramos a casa. Ao ouvir o motor de nossa condução, os sete membros da família P. perfilaram-se em frente à residência para receber os visitantes. Entramos e sentamos todos na cozinha, entre o fogão e um rack contendo televisão e aparelho de som. Não é preciso que ninguém silencie seu aparelho celular para começarmos as entrevistas, eles não tocarão. Mas excetuando a matriarca de 90 anos, os demais guardam-nos no bolso.
Entre idas e vindas como essa, foram seis saídas de campo no total. Preenchemos nove formulários de informações familiares e 35 individuais, entrevistamos 33 pessoas, fotografamos 23 retratos e escrevemos 13 relatos de campo. São instrumentos da pesquisa Tecnologias de comunicação nas práticas cotidianas: o caso de famílias relacionadas à cadeia agroindustrial do tabaco4, que vem sendo desenvolvida por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), desde 2014, no município de Vale do Sol, microrregião de Santa Cruz do Sul (RS). O presente artigo visa discutir uma parte dos dados coletados à luz da noção de espaço.
Sendo este o foco, é preciso observar que, quando a pesquisa já estava em andamento em 2015, incorporamos ao trabalho de campo novo instrumento metodológico, de caráter complementar, que adquire proeminência na questão espacial. A utilização da fotografia5 foi associada às respostas de uma das perguntas do formulário individual. Quando perguntávamos qual o meio de comunicação favorito de cada um, propúnhamos realizar um retrato no local em que a pessoa mais o utilizava. O objetivo era obter informações sobre suas predileções, tanto dos dispositivos quanto dos locais de acesso. Indagou-se sobre o tema nos formulários individuais, nas entrevistas e na proposta de se captar uma imagem. Nesta última, mais do que o resultado final, importam as circunstâncias de produção, registradas nos diários de campo. Foram 12 homens e 11 mulheres, de diferentes famílias, que se dispuseram a ser fotografados. Selecionamos os dados obtidos junto a sete homens e cinco mulheres que pertenciam a duas famílias - a partir daqui identificadas como P. e C., as quais escolhemos como corpus de análise deste artigo.
Acreditamos que deste conjunto emergem questões importantes para pensarmos as articulações entre práticas cotidianas, usos de novas tecnologias de comunicação e a questão do espaço. Um exemplo está nos jovens que frequentam os arredores de uma escola do Vale do Sol à noite para obter sinal wi-fi e navegar na internet por meio de seus smartphones. Esta informação foi obtida, em algumas entrevistas, quando se perguntava onde eles mais utilizavam seus aparelhos. Outro exemplo está na senhora que lê diariamente pensamentos de um calendário alemão, recolhida em seu quarto, pela manhã. Neste caso, no momento em que sugerimos fotografá-la na intimidade, negou. Ou ainda o pai que, diante da pergunta que poderia induzir a uma escolha individual, escolheu como meio de comunicação favorito a televisão, situada na cozinha/sala de jantar, em que todos assistem à novela reunidos. Nesses três exemplos, o espaço adquire sentidos diferenciados.
Como modelo compreensivo tomamos o proposto por Silverstone, Hirsch e Morley (1996), que sugere categorias de análise para contextos familiares em que ocorrem usos e apropriações de tecnologias de informação e comunicação (TICs). Neste modelo, a noção de economia moral da família serve de referência para entender o "sistema transacional, implicado dinamicamente no âmbito público da produção e intercâmbio de mercadorias e significados" (1996, p. 44, tradução nossa). Mas faz-se importante observar que essa implicação não é de caráter passivo. Está em jogo a capacidade da família e dos seus membros individualmente de criar e sustentar suas autonomias e identidades. Assim, entende-se que há um processo de criação de valores nas diversas práticas cotidianas que, por sua vez, irão compor o que se chama de lar. Relacionando à questão espacial, para os autores, este processo transforma o que era simples espaço (casa) em lugar (lar). É nessa direção que argumentaremos a seguir.
O espaço rural
Para prosseguirmos, cabe uma breve introdução sobre diferentes noções de espaço. O geógrafo britânico David Harvey (2006) escreveu sobre o espaço como palavra-chave, observando a complexidade de definir o termo, refutando definições taxativas e propondo um problemático ponto de partida. Primeiramente, é preciso considerar três maneiras gerais de compreendê-lo. A categoria do espaço absoluto (absolute) refere-se ao que é mensurável geometricamente, calculável. Já o espaço relativo (relative) abrange um duplo sentido: “que existem diversas geometrias para escolher e que a estrutura espacial depende fundamentalmente do que é que está sendo relativizado e por quem" (Harvey, 2006, p. 272, tradução nossa6). Por último, o conceito relacional de espaço (relational) implica a ideia de relações internas onde um evento para ser compreendido depende de tudo o que ocorre ao seu redor.
Alguns autores irão denominar como espaço apenas a primeira definição, ligada mais à materialidade e à natureza. Já as outras duas, estariam melhor compreendidas sob o conceito de território, constituído pela apropriação e dominação social (Haesbaert; Limonad, 2007, p. 43). Como vimos acima, com Silverstone, Hirsch e Morley (1996), outros irão utilizar o termo lugar para designar o espaço relacional - essa definição nos interessa especialmente, por considerar o processo aí implicado.
Conforme propõe Harvey, as três noções podem ser utilizadas de forma dialética, compondo a complexidade requerida pelos fenômenos. Mas apostaremos, como pesquisadores da comunicação, na terceira categoria para desenvolver nossa análise. Pois, no caso do objeto deste artigo, independentemente do entendimento relativo sobre o território determinado como Vale do Sol, e do espaço absoluto da condição de ruralidade das famílias pesquisadas, propomos compreender a forma como os indivíduos em questão configuram diversas espacialidades (relacionais) na apropriação e usos das tecnologias de comunicação e informação. Segundo Harvey (2006), este espaço é definido no processo que o gera. Assim, não pode ser desembaraçado da noção de tempo. O mesmo aplica-se à reflexão sobre identidade: ao invés de uma definição baseada em um espaço absoluto - ou uma que remete a uma representação fixa relativa -, temos outra que é criada em processo espacial relacional.
Seguindo essa linha de compreensão e considerando a cultura brasileira, o antropólogo Roberto DaMatta grifa que "sem entender a sociedade com suas redes de relações sociais e valores, não se pode interpretar como o espaço é concebido" (1991, p. 34). Como exemplos, traz orientações geográficas populares em cidades e no campo de diversas regiões do país. Neste caso, exemplificaremos com a nossa pesquisa: quando pedíamos orientação a transeuntes no Vale do Sol, muitos usavam as diretrizes "para baixo" e "para cima", o que para nós, forasteiros, não informava nada, pois tínhamos a sensação de estar sempre subindo e descendo colinas, impossibilitados de identificar um sítio "mais embaixo" ou "acima". Acontece que não conhecíamos os códigos locais, provavelmente formados mais a partir de concepções históricas e culturais, de organização da região (antiguidade, importância), do que topográficas, ou cartesianas, comuns em cidades tais como Santa Cruz do Sul e Porto Alegre, de onde vínhamos.
DaMatta também frisa que a categoria “espaço” é uma invenção, inseparável da de tempo, que somente possui medida única, coordenada em um sistema oficial, em sociedades totalmente integradas ao sistema ocidental anglo-saxão capitalista. Neste sistema, "o indivíduo é o foco da maioria das ações da vida cotidiana e todos os espaços são marcados individualizadamente" (DaMatta, 1991, p. 45). Por outro lado, é de se indagar o quanto características familiares e também de sociedades tradicionais, presentes em comunidades rurais relativamente isoladas como essas, interpõem-se nos usos e apropriações de tecnologias desta ordem. Ou seja, a predominância da coletividade poderá prevalecer culturalmente?
Vejamos o que afirma Roberto DaMatta:
Para nós, modernos, que vivemos em sociedade na qual a parte - o indivíduo - é mais importante que o todo - a sociedade -, o problema estaria sempre no coletivo e na multidão, esses "estados" que seriam o inverso do indivíduo que o sistema consagra como normal e ideal. Para os sistemas tradicionais, porém, esses sistemas em que o coletivo é mais importante que o individual, o problema estaria muito mais nos estados de individualização, que o sistema não consagra como normais ou rotineiros (1991, p. 48).
Desta forma, na análise, procuraremos identificar configurações espaciais que indicam coletividade ou individualização. Tais noções ligam-se na sociedade brasileira a duas instâncias importantes que marcam comportamentos diferentes e até antagônicos, a casa e a rua. Na primeira, o conservadorismo pauta os discursos, enquanto na segunda, há certo liberalismo moral. Haveria, portanto, inclusive, uma diferença ética conforme os espaços. E esta concepção ajuda a interpretarmos as falas dos membros das famílias nas entrevistas que realizamos na casa deles. É importante considerar o contexto em que as respostas a nossos questionamentos foram emitidas, para não as tomar como única versão possível. Mas, para DaMatta, essa observação não é mera questão de mudança de contexto. Pois é trivial o fato de que as pessoas mudem de opinião de acordo com as circunstâncias. O antropólogo se refere a espaços, esferas de significação social, que contêm visões de mundo ou éticas particulares: "esferas de sentido que constituem a própria realidade e que permitem normalizar e moralizar o comportamento por meio de perspectivas próprias" (1991, p. 53). Assim, é importante, nesta pesquisa que inclui entrevistas com atores sociais, ter ciência de que as codificações entre espaços distintos são complementares, "o que faz com que a realidade seja sempre vista como parcial e incompleta".
Para interpretar a dinâmica do mundo rural nas sociedades contemporâneas, Maria José Carneiro destaca que o processo de urbanização das localidades rurais é entendido em certas correntes de pensamento como a generalização do padrão de vida urbano. No entanto, pondera que "ocorre a constituição de novas formas de sociabilidade e de relações sociais, sustentadas numa complexa rede de atores sociais" (2012, p. 9). Assim, não se pode mais compreender este processo de urbanização como homogeneização espacial e social entre campo e cidade. Pois emergem novas e diversas ruralidades. A proximidade com a natureza e a atividade agrícola seguem como referência para qualificar o "espaço rural". Mas, para algumas correntes teóricas, a dicotomia rural-urbano não se sustenta mais para qualificar realidades sociais distintas nas sociedades contemporâneas.
Indagamos até que ponto o esgotamento do modelo urbanizador nos possibilitou um olhar crítico no sentido de nos liberarmos da imagem hegemônica do rural como espaço da tradição e impermeável a mudanças, e, assim, passarmos a reconhecer, também no chamado mundo rural, uma diversidade de dinâmicas e atores sociais (Carneiro, 2012, p. 12).
Na história do Brasil, seguindo o pensamento da autora, a separação original e radical entre campo e cidade não teria acontecido conforme na Europa. Pois o modelo da grande propriedade e da escravidão no período colonial já promovia a intersecção entre rural e urbano. Não houve uma vida tradicional isolada, conforme os camponeses europeus durante o Feudalismo, que serve de modelo para caracterizar o rural arcaico e sem contato com a urbanização. No Brasil Colônia, era a cidade que dependia do campo, o que marcaria nossa cultura, com traços aventureiros avessos à ética do trabalho, assim como dependente da hierarquia patriarcal dos grandes proprietários de terras.
No entanto, observamos um contexto particular na sociedade que estamos estudando, em pequenas propriedades do Vale do Sol, no sul do Brasil. Trata-se de descendentes de imigrantes alemães, terceira e quarta gerações, plantadores de tabaco. O modo de vida e de trabalho foi passado de pai pra filho. Confirmamos esta realidade em campo, obtendo informações sobre a produção de fumo em cada propriedade e sobre como se perpetua ao longo do tempo na cultura familiar.
Desta forma, não será o elogio ao ócio, à meritocracia ou a falta de solidariedade o que representará a cultura dos agricultores aqui estudados. Talvez o contrário, considerando que a tradição familiar de produção é comparável ao modelo feudal e contíguo à tradição alemã. Consideremos para isso que cada família possui um pequeno lote de terra e que sua produção é vendida para grandes empresas fumageiras.
Em pesquisa realizada na rede de ensino da região de Santa Cruz do Sul, entre 2004 e 2010, Mozart Linhares da Silva percebeu um discurso fortemente germanista, geralmente relacionado à superioridade dos valores agregados como a ética do trabalho, o empreendedorismo, a higiene, a organização da cidade, a religiosidade, entre outros, associados à etnia alemã. Estes valores comumente são contrastados "com o 'desleixo' dos luso-brasileiros e afrodescendentes, como a falta de iniciativa para o trabalho, a falta de higiene, a desorganização, a falta de espírito empreendedor, entre outras" (Silva, 2012, p. 4). Posto isto, procuraremos observar o quanto as tradições rural e germânica constituem-se como fatores importantes, oferecendo possíveis resistências à modernidade, representada pelas tecnologias de comunicação. Mas não como um fator determinista, e sim como conjuntural.
Por exemplo, notou-se, em alguns casos, que os jovens não utilizam a internet para obter informações sobre plantio, colheita ou venda. O jovem Paulo, da família P., sabe muito bem os benefícios da rede de computadores para fazer um bom negócio, pois a utiliza para equipar sua motocicleta, com a qual passeia aos finais de semana ao lado dos amigos. Mas quando se trata do trabalho na propriedade familiar, segue o modo aprendido com o pai. Negocia com as mesmas empresas que a família sempre negociou, da mesma forma, através do contato direto com representantes. Na entrevista que fizemos com Paulo, notamos que o rapaz não credita importância para a internet no trabalho, apenas no lazer.
Através de práticas cotidianas em relação às TICs podem ser compreendidas outras dinâmicas entre fatores rurais e urbanos. Carneiro (2012) observa que podem ocorrer situações de disputa entre códigos competitivos dentro das famílias, como na recusa dos jovens de se submeter ao coletivo. Estes conflitos e outros, como os alavancados pelas apropriações de novas tecnologias de comunicação, transformam o rural.
[...] a novidade do rural contemporâneo estaria na combinação, nos mesmos espaços, de atividades tidas até então como "típicas" do meio urbano, tais como as do setor de serviço, com as ocupações "características" do meio rural, ou seja, as agrícolas. Aqui, duas noções surgem como complementares à caracterização desse rural que se inova: a de continuum rural-urbano e a de pluriatividade (Carneiro, 2012, p. 23).
Assim, o mundo rural não representaria mais uma ruptura com o urbano. As transformações que ocorrem na atualidade "não resultariam na sua necessária descaracterização, mas em uma possível reemergência de sociabilidades e de identidades tidas como rurais" (Carneiro, 2012, p. 24) que constituem uma nova ruralidade.
Essas relações entre urbano e rural, também, podem ser expressivas do par moderno/tradicional. Vamos acompanhar o pensamento de Renato Ortiz, quando ressalta que no século XIX instaurou-se essa polaridade: "Nela o tempo é um fator decisivo: o moderno é posterior e superior ao momento que o antecede" (2015, p. 73). Assim, um implica na anulação do outro. A existência de jornais e rádios, enfim, o início de uma era de massas, seria a prova inconteste da modernização em curso. Ela debilitaria a coesão dos grupos primários como a família, promoveria a heterogeneidade das opiniões diante da homogeneidade dos costumes [...] O indivíduo moderno seria, nesse sentido, móvel, capaz de escolhas conscientes em relação ao mundo e às coisas, o contrário de seus congêneres, que viveriam ainda de acordo com a tradição e a perenidade das regras rurais (Ortiz, 2015, p. 74-75). Mas no tempo em que vivemos, categorizado pelo antropólogo como modernidade-mundo, observamos a fricção entre instâncias que no passado pareciam imóveis e incompatíveis. Agora tornam-se claramente fluidas. Neste ínterim, Ortiz constata a predominância da figura do espaço sobre o tempo. É sintomático que ao nos referirmos ao nosso tempo, usamos a categoria espacial do global: globalização. Assim, torna-se insustentável a antinomia moderno/tradicional. Entre as razões, Ortiz inclui a quebra da linha do tempo, que acaba fragmentando os significados destes termos. Há modernidades múltiplas e diferentes formas de articulação com as tradições. O caso das famílias produtoras de tabaco deixa claro esta diversidade e ambivalência, já que não se isolam na cultura imigrante perpetuada através das gerações, nem se adequam estritamente ao modelo cultural brasileiro descrito acima. Com certeza, as TICs estão envolvidas neste processo.
Além disso, a apropriação de TICs transforma os limites do lar e da família, na medida em que produzem problemas de controle e regulação, que afetam a constituição de identidades dos diferentes membros, levando em conta diferenças entre gêneros e gerações (Silverstone, Hirsch, Morley, 1996, p. 45). No modelo compreensivo das apropriações de novas tecnologias, proposto pelos autores ingleses, são distinguidos quatro elementos (ou fases) na dinâmica da economia moral das famílias, no que diz respeito ao sistema transacional de relações midiáticas e mercantis. São eles: apropriação, objetivação, incorporação e conversão.
O primeiro processo, da apropriação, se dá em relação à posse de tecnologias (objetos materiais) e mensagens (conteúdos), que se tornam autênticos e alcançam diversas significações que promovem alianças e divergências entre os membros das famílias. Importante notar que os significados imputados particularmente a meios e mensagens dentro da economia moral do lar podem não ser os mesmos atribuídos a eles na esfera pública (Silverstone, Hirsch, Morley, 1996, p. 48). O processo seguinte é o mais importante para a análise aqui proposta, o de objetivação, pois trata especificamente da questão do espaço. Se expressa no uso e na forma como os objetos são dispostos no entorno espacial da casa, ou em prolongamentos desta. Refere-se à organização e à exposição, dos valores, dos universos estético e cognitivo. Com esta dinâmica de objetivação no lar mostram-se nitidamente modelos de diferenciação espacial, tais como privado, compartilhado; feminino, masculino; etc. Estes modelos compõem a geografia da casa. A objetivação "oferece uma base para abordar as formas com que a disposição física e a estrutura do lar definem e contém o funcionamento interno da economia moral" (Silverstone, Hirsch, Morley, 1996, p. 50, tradução nossa7). Os autores irão expor ainda mais dois elementos, o de incorporação, que se refere à forma como as famílias incorporam as TICs em suas rotinas (tempo), e o de conversão, que define a relação da família com o mundo exterior.
Nosso foco se dará sobre o elemento da objetivação, para compreender os modelos de diferenciação espacial neste tipo de processo. A seguir, apresentamos duas das famílias pesquisadas à luz das ideias aqui propostas.
Família C.
Nos últimos anos, a produção de leite foi predominando sobre a plantação de tabaco, dando mais retorno financeiro à família C., que vive na zona rural, no Vale do Sol. Entretanto, a propriedade de 16 hectares está próxima à rodovia. Eles possuem dois automóveis (dos anos 1990) e trator. A estufa para secagem do fumo é convencional. A novidade tecnológica fica por conta dos smartphones dos filhos, adquiridos recentemente. Na casa construída na propriedade que é deles há 44 anos, há hoje quatro aparelhos televisores (sinal via parabólica), cinco de rádio e seis celulares, incluindo os dois novos de uso individual dos filhos adolescentes, com os quais eles acessam à internet. Eles também são os únicos membros da família que utilizam computador de mesa e notebook. A casa ainda contém dois DVDs, um videogame, um telefone fixo e assinatura dos três jornais locais.
A casa dos C. abriga sete pessoas8, de três gerações. O responsável pela introdução da tecnologia de informática no lar foi o filho mais velho, Maurício (19 anos), o único que cursou escola técnica agrícola. Além de um computador e um notebook, utiliza um aparelho smartphone, adquirido quatro meses antes da entrevista, realizada em 2015. O celular é seu meio de comunicação favorito, com o qual se deixou fotografar fora da casa. Maurício afirma acessá-lo todos os dias, configurando um uso individualizado, para fins de trabalho e lazer, conforme pudemos observar. Explica que usa "pra tudo": redes sociais, e-mail, telefone, incluindo para tirar dúvidas sobre atividades na roça. O rapaz também relata assistir sozinho à televisão, à noite, na sala, enquanto pesquisa ou trabalha, embora tenha TV no quarto, também. Já o rádio, admite que ouve somente junto aos adultos, quando estão reunidos.
Seu irmão mais novo, Moisés (15 anos), fez curso de informática e também utiliza o computador, assim como navega na internet através de seu smartphone novo. Na hora de escolher qual o meio de comunicação favorito, cita a televisão, na qual assiste a novelas, esportes, filmes e programas educativos, geralmente acompanhado da avó, na cozinha. O jovem descreve sobre o hábito familiar de assistirem televisão juntos, tomando chimarrão, enquanto a avó faz comida. Indagado sobre pontos positivos e negativos do meio, Moisés afirma que "[...] primeiro era tudo os pais que mandavam, agora os filhos já tão querendo mandar nos pais, isso é tudo fruto da novela". Sobre a internet, revela que acessa diariamente, antes de dormir. Mas também comentou, diversas vezes, que é um lugar onde só tem "bobeira". No entanto, quando convidado para posar para o retrato, escolheu mostrar o celular, enfatizando que não o usa durante o trabalho na roça. Ao contrário de sua mãe, que leva seu aparelho simples para ver o horário e para casos de emergência.
A mãe dos rapazes e da pequena Mariana (4 anos) também assiste televisão, mas não utiliza a internet. Prefere os jornais, onde lê horóscopo, receitas e notícias. Solange (40 anos) vive no meio rural desde que nasceu. Aprendeu a lidar na roça desde criança, com os pais. Quando perguntada sobre a chegada da televisão em sua casa, passou a lembrar da infância e a comparar com a atualidade: "[...] meu pai assistia o Jornal Nacional, né. E, daí, tem aqueles programas que vinham assim, né: proibido menor de doze anos. Daí o pai só olhava pra nós e tinha que ir pra cama, né. Não podia mais olhar. Não é que nem agora: a gente fala, às vezes não obedecem". Nesta narrativa, observa-se que o espaço da sala, com a televisão, após o horário do jornal, passava a ser de adultos. Crianças tinham que ir pra cama, sem acesso a meios de comunicação. "Agora eles têm aquele celular grandão".
A mãe atribui à sogra a viabilização de compra dos computadores da casa e a contratação da internet, além de ter sido a primeira pessoa da família a adquirir um celular. Solange não usa internet, mas acha que é "uma coisa boa" e gostaria de aprender. Sobre os hábitos dos filhos com estas TICs, considera que mudaram: "[...] onde que tá fulano? Tá no computador. Onde que tá ciclano? Tá no note". É interessante observar a forma como a mãe se refere ao uso, com o verbo "estar", o que remete a uma ideia de espaço. Quando indagada se ela se preocupa com os filhos usarem bastante os computadores, diz que sim. E relaciona com o fato do filho de 19 anos sair à noite para festas. Entendemos que a mãe considera "navegar" na internet como um ato, também, de estar fora. E o fora, para ela, seria o lugar da rua, do urbano, do perigo: "a gente se lembra de antigamente, né, não tinha tanta doença, não tinha tanto roubo, tanto esse banditismo, nada. E, hoje em dia, não dá mais pra sair na rua, na cidade... se é cidade grande, é tudo perigoso". Chama atenção na fotografia que fizemos de Solange que o rádio está colocado ao lado de diversos porta-retratos com integrantes da família.
Lembrando uma história marcante, após ser provocada, falou de um sequestro na vizinhança, noticiado pelo rádio. Deu a entender que ficou grudada no aparelho para saber notícias. Esta história contrasta com suas opiniões negativas sobre os meios de comunicação, da violência, "bandidagem". Qual será a diferença que Solange projeta em crimes noticiados na vizinhança e outros mais longe de sua realidade, ou até fictícios? Trata-se de uma questão de diferença espacial? Entre o que está perto e é inevitável, daquilo que está e pode continuar longe, ou seja, não precisa entrar na casa pelo celular dos filhos?
Seu marido, Valdomiro (50 anos), declara ser entusiasta do celular. Carrega o seu aparelho sempre, mesmo não o utilizando muito, nem acessando a internet. O jornal, afirmou que lê até caminhando, quando vai buscar na frente da propriedade de manhã. Quanto à aquisição de computadores e internet na família, atribui à necessidade de estudo e trabalho do filho mais velho. O pai acredita que a internet tem dois lados: "tem um lado que é ruim, que eles viciam de uma maneira sem fim, e tem um lado bom que tem muitas coisas úteis, aproveitáveis, né". Sobre os smartphones dos filhos, comenta que "não largam aquilo da mão, grudado naquela internet, é Face, é tudo, é um grude, né".
Valdomiro narra que os filhos aproveitam “qualquer folguinha” pra “estar” na internet: “em vez de tu ter assim, vamos dizer, um diálogo a mais com eles, sentar assim e conversar e ter uma conversa franca, a conversa deles é com a internet. Então ela tirou, vamos dizer, aqueles minutos que a gente podia tá sentado aqui tomando um chimarrão, alguma coisa". Neste depoimento, fica evidente o entendimento do pai sobre uma fragmentação espacial dentro da família proporcionada pelas TICs, principalmente a internet. Apesar de reafirmar, como os outros membros, o hábito coletivo familiar de assistir à televisão durante as refeições.
O costume coletivo remete à infância da avó. Senhorinha (75 anos) lembra de quando era criança e os pais tinham um rádio grande no meio da sala. Lembra inclusive que dançavam com a música da programação. Depois, o hábito seguiu com a TV em preto e branco. Hoje, na sala onde moram as três gerações, a TV não funciona. Reúnem-se na cozinha. Então, pode-se perceber uma mudança, do hábito de ficar em volta das TICs reunidos em certo horário, como uma atração do dia, para o encaixe da TV na hora do almoço ou da janta, cedendo espaço, após, para que cada um procure usos individualizados.
Senhorinha lê bastante jornal, onde também consulta o horóscopo e completa palavras-cruzadas. Em sua opinião, a TV e o rádio não atrapalham em nada. Nota-se que ela era bem ativa socialmente, participando de atividades, jogos e festas em clubes e grupos da região. Agora "está mais caseira" [sugere que é pelo estado de saúde do marido de 78 anos]. A avó não acessa a internet, mas gosta quando os netos mostram vídeos e fotos para ela. Respondendo à questão sobre seu meio de comunicação favorito, menciona o telefone. Senhorinha admite não ser muito "ligada nessas coisas" de tecnologia, mas segundo ela o telefone permite que "se valha" sozinha. Sua declaração demonstra uma valorização da individualidade.
Sabe-se que a família C. separou-se em dois núcleos durante alguns anos, vivendo em duas casas. O casal de segunda geração mudou-se, após o casamento. Mas retornaram para a casa que a primeira geração sempre habitou. O filho mais velho ficou com os avós durante esse período. Este aspecto na história de vida da família talvez represente também uma separação de pontos de vista sobre a apropriação das TICs. Enquanto a mãe dos jovens apresenta-se mais conservadora e tentando manter a união no lar, defendendo-o dos "perigos lá de fora", a avó demonstra simpatia pelas novidades e pela autonomia, tanto dela quanto dos netos.
Família P.
Na propriedade de 18 hectares onde habitam há 46 anos, os P. cultivam, além do tabaco, milho, feijão, batatas doce e inglesa e hortaliças. Assim como na família C., a casa abriga três gerações: o casal Sigfrid (47 anos, herdou a propriedade) e Adéria (45 anos); Paulo (25 anos) e Jonatan (18 anos), filhos do casal; Amália (90 anos), mãe de Sigfrid; e Angélica (23 anos), esposa de Paulo, que se mudou para lá após o casamento9. A família não possui acesso à internet em casa, mas assina um jornal local, possui antena parabólica, telefone fixo, um aparelho celular por morador, com exceção da avó, além de duas televisões, um DVD, um notebook, um computador de mesa, um tablet, um videogame e dois rádios. Interessante notar que o sinal de celular não chega até o local, porém a posse dos aparelhos independe disto. Em casa, os aparelhos são utilizados para jogos, fotografias e música. São utilizados para ligações quando os membros da família se deslocam até o centro do município ou até Santa Cruz do Sul, ou quando vão até as proximidades da escola do povoado com o intuito de se conectarem à rede wi-fi do local - sendo esta última prática exclusiva dos jovens da família.
A entrada do computador na família P., assim como na família C., se deu a partir dos filhos. Ambos com o Ensino Fundamental completo, hoje Paulo e Jonatan trabalham na propriedade familiar. O primeiro, que trabalha com agricultura e mecânica, fez um curso de informática no centro do Vale do Sol. Já Jonatan, que se intitulou agricultor especialista no cultivo de tabaco, realizou um curso de manipulação de abelhas. Quando questionados sobre suas preferências de lazer, nenhum dos dois citou qualquer atividade envolvendo meios de comunicação - todas elas diziam respeito a atividades fora de casa, ao ar livre, e na companhia de outros.
Jonatan, o irmão mais novo, tem como meios favoritos a televisão e a internet, que costuma acessar através do celular e do tablet, conectando-se à noite, após o trabalho. A falta de sinal em casa faz com que o jovem se desloque até a escola do povoado onde, nos arredores do prédio, têm acesso à rede wi-fi da instituição - uma prática partilhada pelo irmão e pela cunhada. O site que mais acessa é o da rede social Facebook. Já a TV, assiste diariamente, à noite, na sala de estar.
Paulo, o filho mais velho da família, relata que tem como meio predileto o telefone, deixando claro que a preferência inclui o aparelho conectado à internet. Para o rapaz, as funcionalidades mais importantes do telefone são as mensagens SMS e o acesso ao Facebook e ao WhatsApp. Em função da falta de sinal, o entrevistado, assim como seu irmão, tem acesso à rede apenas nos arredores da escola do povoado, através do celular - local em que também consegue sinal de 3G. Vale ressaltar que, diferente da família C., na qual se tem acesso à internet em casa, não ouvimos na família P. relatos sobre uso excessivo das tecnologias digitais.
Com relação ao consumo de televisão, Paulo afirma que assiste novela com a avó por respeito a ela. Segundo ele, Amália gosta de reunir todos os integrantes da família para assistirem novela com ela na televisão da cozinha, à noite - relato muito semelhante ao de Senhorinha C., que também faz questão de reunir os familiares em torno da TV. Em contraponto a este consumo coletivo de conteúdo televisivo, que acontece diariamente, Paulo assiste sozinho, no aparelho do quarto, ao programa Pânico na TV - prática que sua esposa Angélica desaprova, afirmando que aproveita este tempo para fazer croché.
Ao contrário dos demais entrevistados, Paulo não foi fotografado ao lado de seu meio de comunicação preferido. Teve seu registro feito ao lado do aparelho de rádio na estufa mais antiga da propriedade, cheia de folhas de fumo, onde uma prática muito importante da família acontece: nos três meses em que o fumo deve ser curtido, para, posteriormente, ser vendido, a família toda trabalha em conjunto nos galpões e estufas. Nesse período, o rádio é o principal companheiro, ou seja, o trabalho com o fumo define uma prática de consumo de mídia de toda a família, graças ao ciclo de produção e à organização do dia de acordo ao trabalho agrícola. A natureza do rádio permite que este seja ouvido sem causar danos ao trabalho - que nessa etapa é extremamente manual e repetitivo.
Vale ressaltar que na maior parte das famílias pesquisadas no Vale do Sol, inclusive na família P., o consumo de rádio AM aparece, geralmente, quando o rádio é escutado em grupo, com toda a família reunida, em contraponto ao FM, que aparece com um uso mais individualizado. Outro ponto a destacar é que quando o celular é apontado como meio para ouvir música - relato exclusivo dos jovens - esta prática não diz respeito ao rádio, e sim, a músicas em formato.mp3, baixadas da internet.
Para Amália10, a matriarca, a resposta do meio de comunicação favorito está em seu livro-calendário alemão (Die Gute Saat), com mensagens e passagens da Bíblia. Todos os dias pela manhã, na intimidade de seu quarto, lê seu livro - tradição que herdou dos pais. Após a entrevista, convidamo-la para tirar uma fotografia com o livro. Indecisa com relação ao pedido, Amália acabou aceitando após insistência dos netos. Indagamos, então, se a fotografia poderia ser feita em seu quarto, onde costuma realizar a leitura. Ela, porém, desaprovou o pedido. O retrato acabou sendo tirado na cozinha.
Durante nossas idas a campo, percebemos que o livro, diferentemente dos demais meios pesquisados, em quase sua totalidade é consumido de maneira mais privada, geralmente nos quartos das casas. Além de seu uso apresentar particularidades em relação às faixas etárias11. Uma idosa menciona, inclusive, a leitura conjunta da Bíblia com o marido antes de dormir. Em contrapartida ao consumo individualizado e bastante privado dos livros, a leitura do jornal acontece em locais variados da casa, porém nunca em ambientes privados. Aparecem, inclusive, relatos de leitura ao ar livre, embaixo das árvores, e, geralmente, com a companhia do chimarrão.
Já Adéria, que vem de família de agricultores e que sempre viveu no campo, tem como meio de comunicação preferido o telefone, pois alega que, através dele, pode falar com os irmãos - todos moram em zonas urbanas e possuem acesso à internet, menos ela. Segundo a entrevistada, os filhos garantiram a ela que a rede proporciona, do mesmo modo que o telefone, comunicação com outras pessoas. Porém, como a internet não está acessível para ela em casa (e afirma não saber "mexer") o telefone convencional segue sendo seu meio favorito. E é isso que faz dele especial: a possibilidade de manter os laços com os familiares que moram longe. Importante notar que para as mulheres adultas de nossa pesquisa o telefone e a internet se mostraram meios fundamentais para o contato com familiares que moram distantes. São elas que garantem a continuidade das relações familiares à distância. Após a entrevista, Adéria se deixou fotografar com o telefone sem fio no sofá da sala de estar, onde costuma realizar ligações mais longas. Na mesma sala encontra-se o computador de mesa, no qual seu filho mostrou-nos, na primeira visita à família, as fotos da propriedade - o antigo álbum de fotografias, agora digital, porém o mesmo local da casa para mostrá-lo às visitas: a sala de estar.
Para Angélica, casada com Paulo, o telefone também é importante, pois permite contato com os pais. Tendo se mudado para a casa da família do marido, a jovem tem no celular a possibilidade de alimentar os laços com a própria família, o que faz dele seu meio preferido. Também considera importante a possibilidade que o aparelho oferece de ouvir músicas, tirar fotos e acessar à internet. Sobre este último ponto, vale ressaltar que a prática do acesso nos arredores da escola ganha, com Angélica e seu marido, um aspecto diferente: apesar do uso do celular na família ser individualizado, no momento de acesso às redes sociais e chats, o fazem lado a lado, geralmente dentro do carro. Conforme afirma, chegam a passar de três a quatro horas conversando com amigos on-line e acessando o Facebook, porém ambos sabem o que o outro está acessando e com quem estão se relacionando no mundo virtual. Para a entrevistada, isso reduz a possibilidade de a rede social causar desavenças entre o casal: "o Facebook gosta de cavar muitas brigas, né? Principalmente separação entre o casal, né"?
Por fim, o pai da família P., Sigfrid12, tem como meio de comunicação favorito a televisão. A cozinha, local em que a família mais se reúne, é onde o agricultor costuma assistir TV - diariamente à noite e, às vezes, também ao meio dia e pela manhã. Além da televisão, Sigfrid ainda costuma ouvir rádio no galpão, pois afirma que na cozinha o aparelho "não pega" por interferência das lâmpadas; ler jornal à noite, já que, segundo ele, o jornal é muito disputado no horário do almoço; e jogar no computador, talvez sua prática mais individualizada com os meios.
Considerações finais
As dinâmicas de objetivação no lar puderam ser percebidas através de diferentes formas de diferenciação espacial nas famílias observadas. Seja através de processos de consumo privado - e masculino -, por exemplo, como é o caso de um dos jovens da Família P. que assiste, sozinho em seu quarto, a um programa de TV desaprovado pela esposa; seja sob aspectos geracionais, como é o caso de um dos jovens da Família C. que afirma apenas ouvir rádio junto aos adultos, quando estão reunidos; ou mesmo através de consumos compartilhados, como é o caso da assistência à televisão no espaço reservado à convivência familiar em ambas as casas: a cozinha.
Se observarmos que a objetivação reflete o funcionamento da economia moral da família (Silverstone, Hirsch, Morley, 1996), veremos que o ato de assistir em conjunto à TV, "em respeito" à avó, não somente organiza um ritual e um calendário familiares, como evidencia o sentido de tradição. Se, um dia, a atual garagem da casa já foi a sala de estar que congregava a família em torno do rádio quando a avó era jovem, hoje é na cozinha que os membros se reúnem com ela para a assistência da TV - prática que diverge do atual consumo individualizado que se torna cada vez mais corriqueiro, sobretudo, no ambiente urbano.
Retomando também a noção espacial relacional (Harvey, 2006), observamos que as TICs influenciam na configuração das casas, enquanto lugares de convívio familiar e, ao mesmo tempo, em certas situações que relatamos, de divisão em nome das individualidades. Talvez este processo não seja exclusivo da inserção de novas tecnologias, visto que os livros representam para as gerações mais velhas o momento de consumo individualizado e privado em seu dia a dia. Desse modo, acreditamos que a diferença estaria na regulação dos usos individuais, já que os produtos impressos são mais passíveis de controle dos pais, cônjuges e familiares, enquanto o acesso à internet representa para o jovem "entrar em um mundo de infinitas possibilidades".
Dentro da casa (DaMatta, 1991) há uma rigorosa gramática do espaço. Na cozinha de ambas famílias, C. e P., os integrantes respeitam a vontade das avós, o membro mais velho do grupo, o que influencia nos hábitos alimentares e de assistir televisão. Em entrevista, os netos revelaram acompanhar a audiência de novelas naquele espaço. Aquele também é o local de receber visitas. A casa é o espaço da harmonia, da intimidade, da hospitalidade perpétua. Enquanto a rua é local de individualização, de luta, de malandragem, e de contradição. A contradição na casa causa mal-estar, deve ser evitada. Daí a insistência dos adultos da família C. - exceção da avó - sobre à dedicação dos dois jovens ao estar on-line e os riscos que isso implica para com o coletivo familiar e o estar em família. O hábito dos jovens de utilizar a internet portando seus celulares próximos à escola, na rua, longe de casa, indicaria coerência com a gramática da rua, conforme DaMatta (1991).
Observando os jovens, os da família C vivem entre as orientações e preocupações da mãe, que teme "os perigos lá de fora" (incluindo o conteúdo dos meios de comunicação), e o encorajamento da avó, que se entusiasma com o potencial das novas tecnologias. Importante notar que eles têm amplo acesso às TICs, pois moram mais próximo à sede do município. Já na família P., que residem mais isolados no meio rural, há uma separação mais clara entre o convívio coletivo na rotina familiar, mesmo quando se trata de assistir à televisão, e os momentos de individualidade fora da casa, quando buscam acessar à internet.
Outro aspecto que vale ser ressaltado tem relação com a preferência das entrevistadas Angélica e Adéria P. pelo celular e pelo telefone convencional, respectivamente - meios que garantem a comunicação com suas famílias de origem. Tomando a ideia de Winocur (2009), que nos diz que o celular nos permite estender virtualmente os laços protetores do lar e que este recria um lar desterritorializado para familiares fisicamente distantes, observamos que Angélica tem a comunicação com os pais relacionada à mais importante função do telefone. Mesmo alegando não gostar de atender chamadas, considera este meio seu preferido, sendo a comunicação com seu local de origem a razão dessa preferência. O mesmo ocorre com Adéria e os laços que mantém com os irmãos, através do uso do telefone sem fio.
Com este artigo buscamos compreender alguns dos usos e apropriações de tecnologias de comunicação pelas famílias agricultoras pesquisadas a partir de tensões e complexidades associadas ao espaço. Sabemos que não podemos esgotar as reflexões em tão poucas páginas. Contudo, almejamos ter esboçado um horizonte para futuros trabalhos que aprofundem ainda mais essa temática no contexto rural estudado.
REFERÊNCIAS
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DAMATTA, Roberto. A casa & a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991.
HAESBAERT, Rogério; LIMONAD, Ester. O território em tempos de globalização. Etc, espaço, tempo e crítica: Revista Eletrônica de Ciências Sociais Aplicadas e outras coisas, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2 (4), p. 39-52, 15 ago. 2007. Disponível em: Disponível em: http://www.uff.br/etc/UPLOADs/etc%202007_2_4.pdf. Acesso em: 27 set. 2016.
HARVEY, David. Space as a keyword. In: CASTREE, Noel; GREGORY, Derek (org.). David Harvey: a critical reader. Cambridge: Blackwell Publishing, 2006.
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ORTIZ, Renato. Universalismo e diversidade: contradições da modernidade-mundo. São Paulo: Boitempo, 2015.
SILVA, Mozart Linhares da. Educação e etnicidade na região de Santa Cruz do Sul - RS. Revista Eletrônica de Educação, São Carlos, SP: UFSCar, v. 6, n. 2, p. 340-354, nov. 2012. Disponível em: Disponível em: http://www.reveduc.ufscar.br. Acesso em: 27 set. 2016.
SILVERSTONE, Roger; HIRSCH, Eric; MORLEY, David. Tecnologías de la información y de la comunicación y la economía moral de la família. In: SILVERSTONE, Roger; HIRSCH, Eric (org.). Los efectos de la nueva comunicación: El consumo de la moderna tecnología en el hogar y em la família. Barcelona: Bosch, 1996. p. 39-57.
WINOCUR, Rosalía. Robinson Crusoe ya tiene celular: la conexión como espacio de control de la incertidumbre. México: Siglo XXI, 2009.
Notas
Autor notes