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				<journal-title>Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Revista FAMECOS</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">1980-3729</issn>
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				<publisher-name>Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-3729.2018.1.27460</article-id>
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					<subject>RESENHA</subject>
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				<article-title>Resenha sobre Catfish</article-title>
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					<trans-title>Review about Catfish</trans-title>
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					<institution content-type="original">Universidade do Estado do Amazonas (UEA). eduhonorato@hotmail.com; denisedeschamps@globo.com</institution>
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					<p>Eduardo Jorge Sant’Ana Honorato | eduhonorato@hotmail.com. Doutor em Saúde da Mulher e da Criança, com ênfase em Sexualidade e Gênero, pela Fiocruz (IFF-RJ). Pós-graduado em Saúde da Família (UFSC) e Docência Superior (UGF). Concursado como professor adjunto na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESA) na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Professor e orientador no Programa de Mestrado Profissionalizante em Saúde da Família (Abrasco-Fiocruz).</p>
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					<p>Denise Deschamps Ivars | denisedeschamps@globo.com. Graduação em Psicologia pela Universidade Gama Filho (1984). Completou a formação em psicanálise e socioanálise pelo IBRASI. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicanálise. Desde 1984, é psicóloga e psicoterapeuta com treino em psicanálise clínica individual e psicanálise de grupos.</p>
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					<p>Endereço: Universidade do Estado do Amazonas. Avenida Djalma Batista, 3.578 - Flores 69050-010 - Manaus (AM) - Brasil </p>
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					<p>Endereço: Universidade do Estado do Amazonas. Avenida Djalma Batista, 3.578 - Flores 69050-010 - Manaus (AM) - Brasil </p>
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				<season>Jan-Apr</season>
				<year>2018</year>
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			<volume>25</volume>
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				<source>Catfish</source><italic>.</italic><ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.youtube.com/playlist?list=PLBPLVvU_jvGvM1NQkflmgtv5iKFqtG1mz">https://www.youtube.com/playlist?list=PLBPLVvU_jvGvM1NQkflmgtv5iKFqtG1mz</ext-link>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Resenha sobre o filme Catfish, documentário americano dirigido por Ariel Schulman e Henry Joost.</p>
			</abstract>
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				<title>ABSTRACT</title>
				<p>Review about Catfish, an American documentary directed by Ariel Schulman and Henry Joost.</p>
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				<title>Palavras-chave</title>
				<kwd>Cibercultura</kwd>
				<kwd>Comportamento</kwd>
				<kwd>Internet</kwd>
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				<title>Keywords</title>
				<kwd>Ciberculture</kwd>
				<kwd>Behaviour</kwd>
				<kwd>Internet</kwd>
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		<disp-quote>
			<p>“Muitas eram fragmentos de mim”- Angela / Megan / Abby Faccio</p>
		</disp-quote>
		<p>Em tempos de cibercultura, o acesso a vídeos e filmes de baixo custo é impulsionado pelos sites de hospedagem de arquivos, como o Youtube. Graças a isso podemos desfrutar de peças que talvez antes não chegariam sequer ao nosso país. Abordamos aqui um documentário americano, bastante comentado nas redes sociais e sites especializados. Se chama <italic>Catfish</italic> e pode facilmente ser acessado pelo Youtube e que veio a produzir um programa exibido no Brasil pela MTV. </p>
		<p>Prepare-se para uma montanha russa de sentimentos, especialmente quando somos informados pelos seus realizadores de que a história é real, iniciada por um motivo outro e que acabou gerando a polêmica. O documentário é filmado com poucas câmeras e de forma bem amadora.</p>
		<p>Nosso protagonista da vida real é Nev Schulman, um americano, fotógrafo, que reside em Nova Iorque, a chamada Capital do Mundo. A correria do dia a dia de seu trabalho e vida frenética são fatores essenciais para esse tipo de relação: a virtual. Um belo dia, Nev recebe uma pintura de uma de suas fotos mais famosas, publicada em jornal de circulação nacional. Ela fora feita por Abby, uma menina que mora no outro extremo do país. A partir daí uma relação de amizade se estabelece.</p>
		<p>Por si só essa relação já parece estranha. Nev se corresponde então com essa menina, que além de e-mails manda correspondência para ele, contendo mais e mais pinturas feitas por ela. Uma mistura de amizade e irmandade com pontos de idolatria de ambos. Como ele divide seu escritório com outros dois produtores de filmes, Ariel e Henry, sendo um deles seu irmão, eles decidem fazer um documentário sobre essa nova relação. Não há nada de sexual nela e a cada novo pacote recebido pelo correio, uma nova surpresa. Nev se torna um membro dessa família, tendo contato sobre toda a vida dela. Fica sabendo dos irmãos, da banda de um deles, das irmãs e chega a falar ao telefone com Angela, mãe de Abby.</p>
		<p>Uma rede intensa de afetos se cria e Nev passa a fazer parte dessa família distante. Laços reais de afeto serão construídos a partir do virtual, com intensidade e força capazes de cegar, chegando a fazer com que Nev não perceba algumas pistas importantes sobre a trama de cinema hollywoodiana em que se mete. Uma teia de aranha, digna dos grandes folhetins de suspense.</p>
		<p>É claro que com a chegada com força das redes sociais, Nev encontra Abby no <italic>Facebook</italic> e em seguida, toda a sua família. Conversa com todos e acompanha todos os passos e cria novos laços com irmãos de Abby e, especialmente, com sua irmã mais velha, Megan, de 19 anos, uma artista, bailarina, simples, dócil e muito sexy. Tornam-se amigos bem íntimos, e uma nova e intensa relação é criada.</p>
		<p>Depois de mais de oito meses se relacionando com essa família, Nev resolve quebrar a barreira do distanciamento físico e pula do virtual para o real. É possível perceber toda tensão existente nas cenas do documentário, onde somos transportados para algo tão absurdo e, ao mesmo tempo, tão próximo do nosso dia a dia. </p>
		<p>Em todos esses anos de cibercultura, o fenômeno chamado de “<italic>fakes</italic>” tem estado sempre presente. Muda-se o cenário virtual, mas o psiquismo patológico continua o mesmo. Quem acessa redes sociais com frequência, compartilha fatos e fotos, discute ideias em comunidades e grupos virtuais, com certeza já experimentou a construção de um vínculo que se inicia totalmente virtualizado, ou melhor, totalmente construído via internet, uma vez que todo vínculo carrega em si uma enorme carga virtual, mesmo quando começa no modelo mais convencional, presencialmente.</p>
		<p>Dentro desse mundo, agora chamado de <italic>Facebook</italic>, o sujeito psíquico encontrará formas absolutamente diversas de se inserir nele. Vale sublinhar que ele possui uma característica de tela, levando a um mecanismo que se resumiria dessa maneira: Identificação -&gt; Projeção -&gt; Reação. </p>
		<p>Não estamos aqui falando necessariamente de Angela, Megan, Abby ou qualquer outro participante do documentário, mas sim, de comportamentos que elas apresentam e que têm se tornado tão comum no mundo virtual. Esse ambiente tem sido favorável ao movimento tão comum na atualidade, denominado de “<italic>acting</italic>”. Esse virtual, somado às tecnologias móveis do real, proporciona a esses sujeitos limítrofes uma possibilidade de atuação constante, visto que sua necessidade de vínculo é permanente. Em suas relações interpessoais: não suportam a solidão e o abandono, necessitam do outro em tempo integral, a todo o momento, são francamente dependentes, masoquistas e manipuladores. É interessante ressaltar como eles constroem diferentes aspectos do seu ser, fragmentando-os em parte, criando uma nova classificação do que poderíamos chamar, diante da ausência de estudos e classificação sobre o tema, de múltiplas personalidades virtuais. Vale ressaltar que o novo DSM-V (Diagnostic and Statistical Manual) tirou a mistificação da existência desse quadro no real, presente apenas nas grandes telas de cinema.</p>
		<p>Esse sujeito lança então sua própria história fragmentada, projetando em seus inúmeros personagens de uma forma infantilmente maniqueísta, seus lados bondosos, maldosos e dando existência ao seu insano diálogo interno, sem dar-se conta, quase em nenhum momento, que ao ocultar-se, na verdade, mais se fará revelar.</p>
		<p>O documentário é tão bem dirigido e editado que em determinado momento, podemos sentir pena de Angela e as tentativas de confronto sutis de Nev nos mostram uma mulher indefesa e com problemas mentais, quando na verdade, foi uma grande arquiteta de uma teia perversa de personagens de um mundo virtual cada vez mais patológico.</p>
		<p>Recentemente, várias manifestações online têm sido feitas para mostrar às crianças e aos adolescentes sobre os perigos que a Internet pode criar. Esse documentário tem grande utilidade para trabalhos com adolescentes e adultos. Uma maneira diferente de mostrar as armadilhas que esse virtual tem criado e como mesmo as pessoas mais experientes e “descoladas” podem ser facilmente enganadas. Acompanhamos a exposição corajosa de Nev que permite que o espectador veja como ele foi, aos poucos, passo a passo, enredado, e o quanto foi abalado emocionalmente pela experiência totalmente virtual. Importante observar tudo que se ergue porque uma parcela significativa dos “ingênuos” (aqui referindo-se ao fato de ainda não terem experimentado esse tipo de vínculo) não percebe tudo isso como algo que pode acontecer a si. Nev nos demonstra, com uma exposição muito generosa de sua parte, como não é tão simples assim fugir das malhas perversas atuando na total virtualidade, o quanto as informações truncadas caem na grande armadilha da (unilateral) relação de confiança que se estabelece.</p>
		<p>Quando pequenas pontas de desconfiança começam a surgir, muito a partir do fato evidente da evitação que há em relação a um encontro real, Nev e sua equipe decidem surpreender Angela, Megan, Abby e família. Iniciam então sua jornada que deixará o espectador boquiaberto e em total estado de tensão. Um suspense totalmente real e acompanhado no tempo próprio dos eventos. Seguem os rapazes atravessando o enorme Estados Unidos para o suspeito encontro. Note-se que não é incomum que esse tipo de manejo na Internet privilegie contatos com enorme distanciamento geográfico, isso dá uma sobrevida a toda a fantasia criada, evita assim a aproximação com o “teste de realidade”. Em muitos momentos o espectador chegará a temer o que em verdade estariam aqueles rapazes enfrentando, e a utilização desse sentimento é excelente para que se possa abrir um debate exatamente sobre o comportamento muito confiante diante dos fatos novos que as relações em rede trouxeram, e que estão longe de estarem compreendidas em seu mapeamento. Esse documentário se torna tão mais útil pela sua banalidade, não se transforma em nenhum caso grave de agressão, toda a violência é sutil e emocional.</p>
		<disp-quote>
			<p>“Algumas pessoas são bagres na vida, elas te mantêm em forma. Elas te mantêm perguntando, pensando, te deixam renovado.”</p>
		</disp-quote>
		<p>Esta fala é produzida pelo marido de Angela e sintetiza todo o eixo por onde o roteiro deste documentário foi construído. Ele conclui isso falando de Angela e contando paralelamente como os chineses resolveram transportar o bacalhau em tanques imensos e com bagres dentro para que a carne do peixe não perdesse suas características. Diz que os bagres (catfish) manteriam em movimento o bacalhau. Veremos que a partir disso, um sujeito contemporâneo cada vez mais assustado e inábil para lidar com suas “experiências”, pode buscar no virtual uma forma artificial de criar vida em uma esterilidade, tornando “alegre” suas limitações, no caso de Angela, limitações que até comovem ao desavisado espectador, mas que seu marido resume ao mostrar que era uma escolha dela, aprisionada em estabilidade e segurança, espalhava sua frustração via online, pegando Nev que também, talvez de outra maneira, era limitado por suas questões que não são muito abordadas, apenas entrevistas pelas frestas do seu espanto. </p>
		<p>Fato é que as vítimas de vivências dessa natureza e que cada vez são em maior número sentem algo que Nev descreve, em determinado momento, falando de seu espanto e vergonha por ter sido tão ingênuo, porque de fato ele emocionalmente se envolveu com a Megan, a personagem criada por Angela para seduzir o curioso jovem.</p>
		<p>Aqui no Brasil a MTV apresentou o <italic>reality show</italic> homônimo, nele passaram a atuar Nev e seus amigos, e que visava levar ao encontro, casais que se conheciam apenas pela Internet. O programa de cara causou queda de audiência e comoção porque na maioria dos encontros o que se verificava é que no real o que havia sido “vendido” como imagem não se sustentava de forma alguma, trazia angústia e decepção.</p>
		<p>Nas conversas finais, onde Nev resolve de vez confrontar Angela e onde ela diz aquilo com o que iniciamos este texto, ele se coloca sedutoramente para estimular a que Angela fale como Megan, e ela faz uma outra observação que nos leva à conclusão, a mesma que chegamos e sustentamos em texto em 2006, de que a fragmentação em perfis <italic>fakes</italic> nas redes sociais tem por detrás dela um sujeito infeliz que visa atuar sua dor fora de si, em um impensável “<italic>acting</italic>”. Angela diz a Nev: “quase posso tocar a dor que vejo agora em seus olhos”, enquanto tentava falar como Megan em frente a Nev, dando traços do real para a fantasia amorosa que nosso corajoso documentarista havia vivido. Vemos ali a dor de Nev, mas também vemos o grande prazer que há em Angela em fazer com que toda sua dor alcançasse aquele jovem, inalcançável para ela sem a construção da Megan, em um sadismo exercido de forma elaborada e que conta com as brechas nascidas nas novas tecnologias. </p>
		<p>Temos notícias de muitas relações saudáveis e construtivas que nasceram na Internet, laços amorosos ou de amizade, e não devemos pelo que é do humano e que está por aí de outras maneiras, “demonizar” o ciberespaço, mas assim como na vida, nas ruas e nos becos, cabe cautela e bom senso, mesmo que se esteja ali sentado na segurança do lar. Não só os grandes perversos como os pedófilos, utilizam a rede com obscuras intenções, há os menos tóxicos, mas que promovem vivências que se transformam em sofrimento e luto, nem sempre tão elaboráveis como foi para Nev. Será necessário ao sujeito conectado carregar dentro de si os limites de segurança com os quais se movimenta em seu mundo <italic>off-line</italic>.</p>
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