Revisão

Resumo: Trata-se de um estudo de revisão narrativa, que objetivou identificar as contribuições do terapeuta ocupacional junto às crianças com câncer no contexto hospitalar. Utilizou-se como base de dados os anais do I Congresso de Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares e Cuidados Paliativos, publicados pela Revista de Medicina de Ribeirão Preto/USP. Os resultados foram apresentados em três categorias: Contribuições do terapeuta ocupacional na hospitalização de crianças com câncer: a construção de ações humanizadas e integrais; As estratégias e recursos terapêuticos ocupacionais desenvolvidos para o contexto hospitalar e, a Formação profissional para atuação no contexto hospitalar junto às crianças. Conclui-se que o terapeuta ocupacional apresenta conhecimento, competências e estratégias para intervir no contexto hospitalar, diminuindo o impacto da hospitalização na vida de crianças, favorecendo a inserção deste profissional junto à equipe e a construção de um trabalho interdisciplinar e humanizado.
Palavras-chave: Terapia ocupacional, Neoplasias, Criança.
Abstract: It is an narrative review study to identify the contributions of occupational therapy interventions to children with cancer in the hospital context. The Ribeirão Preto (USP) Journal of Medicine, which published the Annals of the First Congress of Occupational Therapy in Hospital Settings and Palliative Care was used as a database for the research. The analysis of the papers that composed this study was organized into three categories: The contributions of Occupational Therapists in hospitalization of children with cancer: The construction of humanized and integral actions; the Ocupational Therapy strategies and resources developed for the hospital context and the Professional training to act with children. The Occupational Therapist presents knowledge, skills and strategies to intervene in the hospital environment, working together with other professionals to build an interdisciplinary and humanized work, reducing the impact of hospitalization on children's lives.
Keywords: Occupational therapy, Neoplasms, Child.
Resumen: Se trata de un estudio de revisión narrativa, que tiene por objetivo identificar las contribuciones del terapeuta ocupacional con niños con cáncer en el contexto hospitalario. La base de datos usada se como el Periódico de Medicina de Ribeirão Preto/USP, que publicó las Actas del I Congreso de Terapia Ocupacional en el Hospital y el análisis de los contextos de atención Paliativos. A de las obras que componen este estudio se organizó en tres categorías: Contribuciones Terapeuta hospitalización en el trabajo de los niños con cáncer: la construcción de acciones humanizadas y completos; Estrategias y recursos terapéuticos ocupacionales desarrollados para el entorno hospitalario y la formación profesional para las operaciones en los hospitales con niños. O terapeuta ocupacional tiene conocimiento, las habilidades y estrategias para intervenir en el contexto hospitalario, lo que reduce el impacto de la hospitalización en la vida de los niños, favoreciendo la inclusión de este profesional con el equipo y la construcción de un trabajo interdisciplinario y humanizada.
Palabras clave: Terapia ocupacional, Neoplasias, Niño.
INTRODUÇÃO
No Brasil, o câncer é um problema de saúde pública devendo o seu controle e prevenção ser priorizados no país1.O câncer compreende um grupo de várias doenças, que apresentam em comum à proliferação descontrolada de células anormais, que pode ocorrer em qualquer local do organismo2.
Os tipos mais frequentes na infância são as leucemias (que afetam os glóbulos brancos); os do sistema nervoso central e linfomas (sistema linfático); neuroblastoma (tumor de células do sistema nervoso periférico); tumor de Wilms (tipo de tumor renal); retinoblastoma (afeta a retina, fundo do olho); tumor germinativo (das células que vão dar origem aos ovários ou aos testículos); osteossarcoma (tumor ósseo) e sarcomas (tumores de partes moles)2.
O grau de morbidade e taxa de mortalidade dependerá do tipo de câncer e do desenvolvimento da doença, da idade da criança e da resposta inicial ao tratamento1,2.
O câncer na infância, quando comparado a indivíduos adultos, tem um menor período de latência, apresenta rápido crescimento e é mais invasivo. Porém, apresenta um bom prognóstico, pois a criança apresenta boa resposta ao tratamento adequado, fazendo com que a maioria das crianças tenha sobrevida de qualidade. O câncer infantil, dependendo das repercussões, pode configurar-se como uma situação de doença crônica, pois o seu percurso e repercussões apresentam tratamento e características de longo curso, o que pode ocasionar limitações às funções do indivíduo, mesmo que temporariamente1-3.
No tratamento do câncer, as crianças são submetidas a procedimentos invasivos e dolorosos como punções venosas, lombares e ósseas, coletas de sangue, que podem ocorrer com frequência, interferindo no processo de recuperação. O tratamento pode se estender ao longo de anos, com internações frequentes para aplicação de quimioterapia, radioterapia e cirurgia, e ou acarretar efeitos adversos como a baixa imunidade, inapetência, susceptibilidade às infecções, entre outras1,2.
A hospitalização da criança para a realização do tratamento pode ser um evento recorrente em suas vidas. Como consequência da hospitalização pode ocorrer alterações e atrasos no desenvolvimento da criança devido à ruptura de seu cotidiano, que envolve a imposição de uma nova rotina, caracterizada pelo afastamento da escola, separação dos pais, amigos e familiares, privação do brincar e lazer e, limitação de estímulos adequados e saudáveis4,5.
No intuito de amenizar o impacto da hospitalização no cotidiano das crianças é preciso considerá-las como indivíduos com demandas, não apenas de ordem médica, mas também sociais e emocionais. Para tanto, torna-se importante compreender a hospitalização pautada pela humanização da atenção à saúde e pela integralidade do cuidado4,5.
O terapeuta ocupacional é um profissional que pode contribuir com menor impacto da hospitalização junto a crianças com câncer.
De acordo com o Manual HOPE6, este profissional pode contribuir em três áreas de intervenção:
1) na organização do cotidiano, que envolve alcançar equilíbrio no dia-a-dia, elencar prioridades, encontrar atividades significativas, considerar aspectos culturais e auxiliar na relação entre hospital e assistência no domicílio;
2) no tratamento da fadiga e de outros sintomas, reconhecendo que tais aspectos afetam a funcionalidade da pessoa, que inclui prover informações e orientações sobre como tratar esse sintoma, ajudar no entendimento da necessidade de mudanças e adaptações, estabelecer metas e expectativas realistas, reduzir o nível de energia utilizada nas atividades desenvolvidas pelo paciente, adaptar seu estilo de vida a partir de equipamentos e adaptações ambientais; e,
3) na autoestima reconhecendo que seu envolvimento em atividades significativas traz melhora, ajuda a explorar sentimentos, a manter seus papéis familiares e sociais e a adaptar estes papéis quando necessário.
Estudos apontam que os terapeutas ocupacionais objetivam oferecer reabilitação funcional às crianças frente às limitações decorrentes do câncer e de seu tratamento, bem como, um atendimento que visa o acolhimento humanizado destas crianças e dos familiares envolvidos no adoecimento. Os profissionais enfrentam algumas dificuldades em suas práticas, como as incertezas em relação ao prognóstico a ao futuro do cliente atendido. Além disto, identificam dificuldades na caracterização do papel profissional junto a essa clientela neste contexto5-7.
A prática do terapeuta ocupacional junto à criança com câncer no contexto hospitalar ainda é pouco discutida6-8, porém este profissional é de suma importância na melhora e/ou adaptação das questões do cotidiano de crianças hospitalizados, como de seus familiares, intervindo na retomada de atividades ocupacionais que são essenciais nessa fase da vida como o brincar e a educação.
A realização de estudo de revisão sobre a atuação do terapeuta ocupacional junto às crianças com câncer hospitalizadas pode revelar o conjunto de conhecimento sobre a temática, identificando práticas e procedimentos que norteiam a atenção a esta população, bem como possibilitam identificar lacunas no conhecimento que devem receber maiores investimentos.
Diante desse contexto, o objetivo desta pesquisa foi identificar as contribuições do terapeuta ocupacional junto a crianças com câncer no contexto hospitalar.
MÉTODO
Trata-se de um estudo de revisão narrativa, a qual não necessita esgotar as fontes de informações e nem aplicar estratégias de busca sofisticadas e exaustivas, porém permite identificar temáticas recorrentes, que reúnem informações sobre uma determinada área de conhecimento9.
Utilizou-se como base de dados a edição suplementar da Revista de Medicina, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP, que reúne a publicação do Anais do I Congresso de Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares e Cuidados Paliativos. Tal opção se deu pela importância do evento que retrata a franca expansão da área de Terapia Ocupacional em contexto hospitalar e, por se constituir no primeiro evento que abordou uma especialidade da profissão e que reuniu profissionais e pesquisadores específicos deste campo.
A Terapia Ocupacional em contexto hospitalar é uma especialidade reconhecida e aprovada recentemente em âmbito nacional pela resolução n° 429 em 08 de julho de 201310 a qual definiu contextos hospitalares como área de atuação e competência do terapeuta ocupacional.
A formação profissional dessa especialidade apresenta três áreas de atuação: “Atenção intra-hospitalar”, “Atenção extra-hospitalar oferecida pelo hospital” e “Atenção em Cuidados Paliativos”. Cabe destacar que o I Congresso de Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares e Cuidados Paliativos ocorreu no ano de 2014 e, logo em seguida houve a regulamentação da especialidade que o mesmo congregou.
A busca dos trabalhos que compuseram este estudo foi realizada a partir da ferramenta localizar, que permitia a pesquisa por palavras. Para a busca utilizou-se como descritores as palavras criança, oncologia, câncer e oncológicos(as).
Para a seleção dos trabalhos adotou-se como critérios de inclusão estar relacionada à população-alvo criança(s), relatarem a intervenção terapêutico-ocupacional no contexto hospitalar e serem publicados na modalidade comunicação oral. Como critérios de exclusão adotou-se trabalhos que não se referiam à atuação clínica junto à pessoa com câncer, adultas ou idosas.
Após a seleção dos trabalhos, prosseguiu-se com a avaliação dos estudos identificando: título, autores, objetivos, abordagem metodológica e conclusão. Os dados coletados foram sistematizados em categorias de análise temática11 que consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação.
A análise temática envolveu três etapas, sendo a primeira a leitura flutuante, na qual foi realizada a constituição do corpus e formulação e reformulação de hipóteses ou objetivos; a segunda etapa caracteriza-se pela exploração do material, que consiste no processo de redução do texto às palavras e expressões significativas, iniciando o processo de categorização; e, a terceira etapa que consiste na interpretação dos resultados obtidos.
RESULTADOS
Foram encontrados um total de 99 comunicações orais, das quais 37 respondiam os critérios de inclusão. Com a exclusão dos trabalhos que se repetiam, contabilizando-os uma única vez, resultou num total de 21 trabalhos, conforme apresentado na figura 1.
Este estudo então, foi composto por 21 trabalhos. Houve um predomínio de relato de experiência, com um total de 14 resumos, seguido por resumos de pesquisa de abordagem qualitativa, de cunho descritivo-exploratório, totalizando seis resumos, e apenas um relato de caso. Em relação à caracterização da faixa etária da população-alvo, a maioria referia-se apenas por “crianças”. Somente dois resumos trouxeram a faixa etária identificada entre zero a 12 anos.

Quanto aos estados de origem dos trabalhos publicados identificou-se São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas e Pará.Ligados a universidades se teve 13 trabalhos e 10 vinculados a serviços afins. Em relação à autoria nove estudos foram escritos e apresentados por graduandos, dois por residentes, cinco por profissionais de Terapia Ocupacional e sete não especificaram a autoria. Do total de oito mesas redondas realizadas no evento, apenas duas abordaram a atenção à criança hospitalizada, conforme apresentado na tabela abaixo. Os resultados da síntese dos artigos selecionados são apresentados na Quadro1.



DISCUSSÃO
A análise dos trabalhos que compuseram a amostra deste estudo permitiu identificar as evidências científicas a respeito das contribuições da intervenção do terapeuta ocupacional junto às crianças com câncer no contexto hospitalar, as quais foram apresentadas em três categorias:
1) Contribuições do terapeuta ocupacional na hospitalização de crianças com câncer: a construção de ações humanizadas e integrais; 2) As estratégias e recursos terapêuticos ocupacionais desenvolvidos para o contexto hospitalar; e,3) A formação profissional para atuação no contexto hospitalar junto às crianças.
Contribuições do terapeuta ocupacional na hospitalização de crianças com câncer: a construção de ações humanizadas e integrais
A atuação do terapeuta ocupacional em contextos hospitalares10 visa à proteção, promoção, prevenção, recuperação, reabilitação e cuidados paliativos, do indivíduo e da coletividade, pautado na concepção de integralidade e humanização da atenção à saúde. Realiza-se por meio do diagnóstico terapêutico ocupacional, bem como com a eleição, execução e utilização de métodos, técnicas e recursos pertinentes e adequados aos contextos hospitalares.
Diante das contribuições advindas dos resumos que compuseram esta revisão, observou-se que o atendimento humanizado e ações integrais na atenção a criança com câncer foram discutidos. A tabela a seguir apresenta os temas que compuseram esta categoria e os trabalhos que contribuíram para a construção dos núcleos de sentido desta categoria (Tabela 1).

Frente a esses aspectos, os resumos apontaram que o terapeuta ocupacional pode intervir minimizando os efeitos adversos da hospitalização por meio da humanização do ambiente hospitalar, da criação de um espaço menos isolador e angustiante por meio de recursos lúdicos e atividades, e do resgate nas crianças de seus valores, sua história, características, singularidades.
É importante que a humanização do atendimento junto da humanização do ambiente seja abordada na intervenção do terapeuta ocupacional. Cabe a esse profissional proporcionar mudanças no ambiente hospitalar que favoreçam a continuidade do desenvolvimento infantil, como também criar um espaço mais agradável e acolhedor para a criança7.
Os estudos trouxeram também a importância da equipe multidisciplinar e da inserção da Terapia Ocupacional junto a essa equipe no atendimento a crianças hospitalizadas. Para os profissionais que atuam na área de oncologia pediátrica é fundamental a realização de reuniões em equipe multiprofissional, visando à discussão de casos, no intuito de direcionar o foco das intervenções no sujeito e na família, aspectos que respondem aos preceitos da política de saúde brasileira12.
É de suma importância que haja nesse contexto o trabalho em equipe, porém ainda observa-se uma prática profissional individualizada. Existem dificuldades significativas na prática dos serviços de atenção à saúde que se traduzem pela manutenção da rígida divisão disciplinar ou da aparente integração, sendo que os entraves aparecem nas queixas dos pacientes e na impossibilidade de lidar com questões mais complexas como, por exemplo, a não adesão ao tratamento13.
O trabalho em equipe na perspectiva interdisciplinar contribui para o processo de humanização, evidenciando a essência do ser humano, o respeito à individualidade e às diferenças profissionais, desta forma, os profissionais buscam compreender os sujeitos para além de suas queixas, desvelando suas necessidades também subjetivas, buscando a construção de uma prática humanizada14.
Os resumos a partir do apontamento das áreas de competência do terapeuta ocupacional no âmbito hospitalar justificam a importância de tal profissional diante dessa especialidade e apontam que através da instalação dos serviços de Terapia Ocupacional junto da apropriação profissional em cada setor do hospital, foi possível atingir outros profissionais, que passaram a solicitar a presença do Terapeuta Ocupacional em atendimentos, o que surge como um dos caminhos para providenciar uma atuação mais integrada.
As estratégias e recursos terapêuticos ocupacionais desenvolvidos para o contexto hospitalar
O uso de recursos terapêuticos e estratégias de intervenção constituíram-se em uma importante temática abordada. Os estudos trouxeram uma diversidade de recursos utilizados na prática do terapeuta ocupacional no contexto hospitalar, os quais são utilizados a partir de diferentes propostas, como estratégia para informar a criança sobre os procedimentos, estratégia para expressão de sentimentos e criação de vinculo com a equipe e recurso para estimular o desenvolvimento infantil no período da hospitalização. A Tabela 2 apresenta os temas que compuseram esta categoria e os trabalhos que contribuíram para a construção dos núcleos de sentido.

O processo de hospitalização acarreta uma perda significativa da autonomia da criança internada, pois esta é submetida às regras e normas pré-estabelecidas pelo ambiente hospitalar que inclui respeitar os horários e a rotina local, aceitar a dieta alimentar, as medicações e os procedimentos que devem ser realizados.
A independência nas atividades cotidianas também poderá estar diminuída em função do estado clínico, das limitações físicas momentâneas e/ou da restrição ao leito, tendo assim impacto direto nas principais áreas de ocupação das crianças. Neste sentido, cabe ao terapeuta ocupacional criar condições para promover a autonomia e participação da criança através de recursos terapêuticos15.
Os recursos utilizados como estratégia para informar a criança sobre os procedimentos foram recursos lúdicos, como jogos e livros de histórias que recriam de forma lúdica a experiência de situações hospitalares, no intuito de desconstruir ideias, pensamentos, percepções da criança com relação aos procedimentos aos quais serão submetidos.
Os trabalhos apontam que estes recursos auxiliam na mudança de comportamento da criança, como diminuição da ansiedade frente aos procedimentos e consequentemente na diminuição da dor. Alguns destes recursos são criados e/ou adaptados, quando já existentes, pelo terapeuta ocupacional especificamente para abordar as questões pertinentes ao contexto hospitalar e suas repercussões.
A criança é capaz de experimentar por meio da brincadeira o prazer, a descoberta, o domínio, a criatividade e a expressão, que levam a um determinado efeito no seu desenvolvimento. O brincar também é uma forma de descobrir o mundo, é através dele que a criança tem a experiência de solucionar problemas, que eventualmente podem surgir, enfrentar o risco de fracassar e ainda promover iniciativa por meio da criação16.
Embora a importância do brincar no processo de hospitalização da criança seja referendada por um amplo referencial teórico, os terapeutas ocupacionais encontram na prática algumas dificuldades para viabilizar o brincar no âmbito hospitalar, como a necessidade de desinfecção dos brinquedos e a seleção e adaptação de brincadeiras que se adequem ao contexto hospitalar, principalmente quando se busca a interação entre as crianças hospitalizadas17.
Os recursos utilizados como estratégia para expressão de sentimentos e criação de vínculo com a equipe foram atividades manuais, artísticas, de relaxamento, lúdicas recreativas e expressivas que tem por finalidade facilitar a adaptação psicossocial da criança ao processo de hospitalização e adoecimento, possibilitar a expressão de pensamentos e sentimentos sobre o momento vivenciado, oferecer escuta e suporte terapêutico e estimular o resgate de habilidades.
Por meio do brincar, a criança pode expressar seus sentimentos, angústias, medos e desejos relacionados ao processo de hospitalização e a sua própria vida, o que favorece o desenvolvimento infantil no período em que a criança encontra-se no contexto hospitalar.
Diante do processo de hospitalização da criança com câncer, nas atividades lúdicas, a criança pode comunicar medo e ansiedade, adquirir um senso de controle da situação, testar e desenvolver habilidades de desempenho, além de estimular a criatividade, iniciativa e autoconfiança, assim o brincar passa a ser estimulado como um recurso terapêutico, capaz de contribuir para a elaboração e o enfrentamento do momento específico em que a criança vive18.
Dentre os recursos utilizados para estimular o desenvolvimento infantil no período da hospitalização, destacou-se nos estudos o uso do brinquedo permanente e a Terapia de Integração Sensorial (IS).
A IS possibilita à criança a vivência de experiências sensoriais e lúdicas que, muitas vezes, não são comuns no ambiente hospitalar. Este recurso proporciona a estimulação sensorial, que se dá através do fornecimento de abundantes “inputs” de estimulação para um ou mais sentidos, promovendo assim o desenvolvimento percepto-sensório-motor da criança7. Os estudos trouxeram ainda o uso do recurso lúdico, como favorecedor do brincar, o qual estimula o desenvolvimento da criança.
Tanto a Terapia de Integração Sensorial como as experiências lúdicas possibilitam que a criança continue desenvolvendo suas habilidades motoras, cognitivas e psicossociais de uma forma prazerosa e agradável7.
A elaboração de recursos e estratégias é uma contribuição importante do terapeuta ocupacional no contexto hospitalar, amenizando os processos de hospitalização.
A formação profissional para atuação no contexto hospitalar junto às crianças
Dentre os resumos que compuseram esta revisão, a maior parte, totalizando em nove resumos, foi composta por trabalhos de graduandos em Terapia Ocupacional e vinculados a uma instituição de ensino. Estes estudos trouxeram reflexões sobre o papel do profissional na atenção a criança hospitalizada acerca da busca de superar a dicotomia saúde e doença a partir da visão integral das crianças.
Ao abandonar a contraposição linear saúde-doença privilegiam-se os processos sócio-históricos, culturais e psicossomáticos e a concepção do papel de cada profissional na atenção à saúde, que ganha assim, novo colorido, surgindo, desde o início da formação a percepção da necessidade de articulação dos saberes13. A Tabela 3 apresenta os temas que compuseram esta categoria e os trabalhos que contribuíram para a construção dos núcleos de sentido.

Os resumos apontaram como estratégia na busca da atenção integral à saúde da criança utilizar o acolhimento, a escuta e criação de vínculo; a valorização da prática interdisciplinar e o reconhecimento das repercussões no cotidiano tanto da criança como de seus familiares.
A dimensão do ensino e da formação de terapeutas ocupacionais para o trabalho no hospital traz em seu bojo um conjunto de desafios. Na graduação, um dos desafios mais importantes é o de formar profissionais que estejam capacitados para identificar, de forma compreensiva, as necessidades e demandas dos usuários e de sua rede social.
Espera-se que através da posse dessas informações no conjunto de tecnologias de cuidado adquiridas durante sua formação, que o estudante possa elaborar e implementar estratégias de ação sensíveis, pertinentes e contextualizadas.
Outro grande desafio do ensino é desconstruir a centralidade do “hospital das especialidades” no imaginário do estudante e recolocar a atenção da terapia ocupacional no hospital contemporâneo, dando lugar à produção do cuidado em saúde, através da humanização e integralidade do cuidado, conforme é proposto pelo Sistema Único de Saúde19.
Houve predomínio de trabalhos relatando experiência de graduandos em atuação hospitalar e apesar do número grande de trabalhos somente um se reportou as contribuições de tal experiência para a formação profissional, todos os outros relataram as contribuições de sua atuação para com as crianças e seus familiares.
É relevante salientar a importância de estudos baseados em evidências científicas diante do crescente avanço tecnológico no processo do cuidar relacionado à pratica profissional na atenção a saúde e as exigências diante desse crescimento que demandam mudanças na conduta e na forma de pensar e ser do profissional20,21.
É necessário validar o conhecimento e produzir evidências que subsidiem tais mudanças diante da atuação profissional para isso surge à necessidade de pesquisas que comprovem a efetividade das intervenções atuais, tornando-as mais confiáveis.
CONCLUSÃO
Os resumos evidenciaram que o terapeuta ocupacional apresenta conhecimento, competências e estratégias para intervir no contexto hospitalar, diminuindo o impacto da hospitalização na vida das crianças, favorecendo a inserção deste profissional junto à equipe e a construção de um trabalho interdisciplinar e humanizado.
Embora os eventos científicos sejam um importante meio de divulgação de conhecimento da profissão, considera-se que há uma limitação no conhecimento produzido, necessitando de maiores esforços da categoria profissional em produzir estudos com maior rigor metodológico e aprofundamento das discussões, no intuito de conferir maior embasamento teórico à área e reunir evidências científicas da intervenção do terapeuta ocupacional no contexto hospitalar.
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