Relato de Experiência
Recepção de ingressantes universitários: experiência construtivista relacional de discentes de enfermagem para integração
The welcoming of new undergraduate students: a relational constructivism experience for the integration of nursing students
Recepción de ingresantes universitarios: experiencia constructivista relacional de estudiantes de enfermería para integración
Recepção de ingressantes universitários: experiência construtivista relacional de discentes de enfermagem para integração
Revista Família, Ciclos de Vida e Saúde no Contexto Social, vol. 7, núm. 1, pp. 91-96, 2019
Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Recepção: 02/03/2018
Aprovação: 29 Setembro 2018
Publicado: 29 Janeiro 2019
Resumo: Este artigo tem como objetivo relatar a experiência sobre a integração de discentes de Enfermagem para recepção e acolhimento de ingressantes no curso. Buscou-se descrever como os discentes de enfermagem participantes do Programa de Educação Tutorial (PET) desenvolvem suas atividades para a integração dos novos ingressantes, tendo como referencial teórico metodológico o construtivismo relacional. Essa compreensão teórica considera que a aprendizagem é um processo que procura instigar a curiosidade, onde o discente é levado a encontrar as respostas a partir de seus próprios conhecimentos e de sua interação com a realidade e com os colegas. O principal resultado relaciona-se ao Projeto “Amigos do PET”, que integra iniciativas como: recepção e seminários para integração; discussão de livros e filmes; orientações sobre como participar em projetos de extensão e pesquisas. De modo geral, essa atividade proporciona profunda interação dos discentes entre si, e aproximação dos discentes de Enfermagem com as ações desenvolvidas no Programa de Educação Tutorial.
Palavras-chave: Adaptação, Ajustamento social, Estudantes de enfermagem, Universidades.
Abstract: This article aims at reporting an experience about the integration of undergraduate Nursing students in the reception and welcoming of new students to the course. It aimed at describing how nursing students who are part of the Programa de Educação Tutorial (Program of Tutorial Education - PET), developed their activities for the integration of newcomers to the course, having the relational constructivism as their methodological and theoretical framework. This theoretical perspective understands learning to be a process that seeks to instigate curiosity, in which the students are led to find answers in their own knowledge, and in their interaction with reality and their colleagues. The main result is related to the "PET Friends" project, which integrates initiatives such as: integration reception and seminars; book and movie discussion; guidance on how to participate in extension projects and researches. In general, this activity allows the students to have a profound interaction among themselves, and to bring Nursing students closer to the activities developed in the Program of Tutorial Education.
Keywords: Adaptation, Social adjustment, Students nursing, Universities.
Resumen: Este artículo tiene como objetivo relatar la experiencia sobre la integración de estudiantes de Enfermería para recepción y bienvenida de ingresantes en la carrera. Se buscó describir cómo los alumnos de enfermería, participantes del Programa de Educación Tutorial (PET), desarrollan sus actividades para la integración de los nuevos ingresantes, teniendo como referencial teórico y metodológico el constructivismo relacional. Esta comprensión teórica considera que el aprendizaje es un proceso que busca instigar la curiosidad, donde el estudiante es llevado a encontrar las respuestas a partir de sus propios conocimientos y de su integración con la realidad y con los colegas. El principal resultado se relaciona al Proyecto “Amigos de PET”, que integra iniciativas como: recepción y seminarios para integración; discusión de libros y películas y orientaciones sobre cómo participar en proyectos de extensión e investigación. De modo general, esta actividad proporciona una profunda interacción de los estudiantes entre sí, y aproximación de los alumnos de Enfermería con las acciones desarrolladas en el Programa de Educación Tutorial.
Palabras clave: Adaptación, Ajuste social, Estudiantes de enfermería, Universidades.
INTRODUÇÃO
O ingresso dos discentes no ensino superior é marcado por inúmeros desafios, tanto pela adaptação ao curso, quanto pela transição entre a adolescência e a vida adulta. Para tanto, é preciso olhar o estudante de forma diferenciada e acolhedora, principalmente no momento do seu ingresso no curso superior.
O discente universitário necessita uma atenção especial para que os desafios encontrados na adaptação ao curso superior estimulem a sua transição da adolescência para a vida adulta e não gerem consequências negativas1.
Quando se fala em discentes, se faz referência imediata à juventude. Com frequência essa faixa etária é caracterizada como um período de conflitos, divergências e desordens, por meio de vários estereótipos e pela homogeneização da cultura juvenil2. A experiência universitária de fato não se resume à formação profissional.
Nos anos iniciais, em especial para os jovens que concluem o ensino médio e ingressam logo em seguida em um curso superior, a universidade tem um impacto que vai além da profissionalização. A entrada na universidade implica uma série de transformações nas redes de amizade e de apoio social dos jovens estudantes3.
Nesse novo contexto de experiências, aparecem a instituição, o trote e as novas amizades como elementos cujos papéis são considerados fundamentais pelos ingressantes. O estreitamento dos laços entre os estudantes permite o compartilhamento de expectativas, interesses e problemas, facilitando a adaptação3.
O modo como os discentes se integram ao contexto do ensino superior faz com que eles possam aproveitar melhor as oportunidades oferecidas pela universidade, tanto para sua formação profissional quanto para seu desenvolvimento psicossocial. Estudantes que se integram socialmente desde o início de seus cursos têm mais chances de crescerem intelectual e pessoalmente do que aqueles que enfrentam mais dificuldades na transição à universidade3.
O ambiente universitário provoca uma mudança mais radical no contexto de vida do jovem, exigindo o desenvolvimento de respostas adaptativas frente a um conjunto de situações desafiadoras relacionadas ao gerenciamento da própria vida, algo já detectado em outros estudos4,5. No primeiro semestre, os relacionamentos interpessoais são mais importantes para a adaptação do que a gestão de responsabilidades, cuja importância aumenta apenas no segundo semestre5.
Um dos principais desafios que se apresenta é o de propor ao ambiente universitário ações que possam superar situações de desorientação e desamparo dos ingressantes em sua chegada aos cursos. Em muito tal situação ocorre por falta de informações, pelo despreparo do ingressante em lidar com diferenças entre o ensino médio e a universidade, pela dificuldade que os ingressantes encontram em acessarem docentes ou apoio pedagógico logo no início de sua vida acadêmica, e ainda não terem constituído uma rede de apoio fortalecida, considerando vínculos ainda superficiais com as demais estruturas da universidade e com os próprios colegas6.
O PET Enfermagem da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) foi um programa implantado em 2006, e usualmente integram essas atividades discentes a partir do segundo período do curso, perfazendo a participação de 13 integrantes. Uma das principais atividades desenvolvidas é o projeto “Amigos do PET”, que visa o acolhimento dos novos discentes do curso e promove a integração com o grupo.
Nesta perspectiva o presente estudo tem como objetivo relatar a experiência sobre a integração de discentes de Enfermagem para recepção e acolhimento de ingressantes no curso.
MÉTODO
Trata-se de um relato de experiência que apresentará as experiências proporcionadas pela participação de alunos de graduação integrantes do PET Enfermagem acerca de um projeto de extensão realizado pelo grupo na UFTM.
As atividades do projeto Amigos do PET caracterizam-se por: a cada semestre é realizada a “recepção dos ingressantes”, que é um momento onde os participantes apresentam aos novos discentes uma abordagem sobre a universidade e a graduação de enfermagem, tiram dúvidas e promovem o acolhimento desses novos discentes. Durante o evento é realizado um convite aos ingressantes para participarem do Amigos do PET e também os integrantes do PET enfermagem convidam amigos para participarem do projeto, segundo critério de comprometimento a atividade, de modo que cada discente do PET é responsável por uma indicação.
Os discentes convidados participarão de atividades desenvolvidas pelo grupo PET- enfermagem. As reuniões do grupo ocorrem todas as terças-feiras das 17h30min às 19h, e quintas-feiras das 17h às 19h no Centro Educacional da UFTM.
Vale destacar que o referencial teórico metodológico adotado tanto para o empreendimento da experiência quanto para o seu relato é o construtivismo relacional. Essa compreensão teórica considera que a aprendizagem é um processo que procura instigar a curiosidade, onde o discente é levado a encontrar as respostas a partir de seus próprios conhecimentos e de sua interação com a realidade e com os colegas. Essa abordagem também pode ser considerada potente para o trabalho com grupos, na medida em que busca o empoderamento de seus membros.
Com isso o presente relato busca descrever como discentes de enfermagem participantes do Programa de Educação Tutorial (PET) desenvolvem suas atividades para a integração dos ingressantes. Observa-se que o PET, criado em 1979, consolidou a busca de um ensino superior de qualidade por meio da indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão10,11.
Para o relato desta experiência foi empreendida uma análise descritiva das iniciativas realizadas por discentes de enfermagem na integração dos novos alunos.
RESULTADOS
Há uma participação média de quatro Amigos do PET por semestre, estes participam de atividades como: observação da apresentação de seminários dos integrantes do PET; discussão de livros, filmes e artigos realizados no grupo PET; participação em projetos de extensão coordenados pelos integrantes do grupo PET; colaboração em pesquisas realizadas pelos integrantes do grupo.
Cada integrante deverá, ao final do semestre apresentar um seminário de 25 minutos sobre tema livre, empregando todos os conhecimentos adquiridos durante as atividades.
Entre os meses de fevereiro e julho de 2017 foram apresentados seminários e atualidades de temas diversos, alguns voltados à saúde como: “O uso de anticoncepcionais”, “Dietas low carb”, “Infecção Relacionada à Assistência em Saúde”, “Prática de atividade física”, “Oncologia Infanto-juvenil”; temas relacionados a cultura popular como: “O folclore Brasileiro”, “Lendas Urbanas”, “As princesas da Disney” “DC vs Marvel”; temas Geopolíticos como: “A guerra na Síria”; entre outros temas como: “Família”, “Amor”, “Há razões para acreditar: Os bons são maioria”, “O melhor amigo do homem”. Também houve apresentações de artigos, a maioria relacionados à saúde e mais especificamente à enfermagem.
As discussões e os projetos realizados durante o programa PET trazem ensinamentos que podem ser aplicados durante toda a formação do discente e também na sua atuação profissional. O trabalho desenvolvido com os Amigos do PET busca despertar sua própria criticidade acerca de sua formação, dos eventos sociais, políticos e do próprio cotidiano, empoderando-os para serem ativos no seu aprendizado, não de forma tradicional, mas de forma colaborativa.
A realização dessa atividade contribuiu para aproximar o grupo PET Enfermagem dos discentes do curso, promovendo conhecimentos colaborativos e participação em atividades de ensino, pesquisa e extensão. Isto coaduna-se às proposições pretendidas por este programa na reestruturação universitária frente a crise do modelo tradicional que era fortemente elitista.
Vale ressaltar as contribuições que o arcabouço teórico metodológico orientado pelo construcionismo relacional empreendeu nos resultados inclusivos propostos pelo projeto Amigos do PET. (Figura 1)

DISCUSSÃO
A orientação construtivismo relacional é definida em três aspectos11:
a) Formas pelas quais as investigações implicam em relacionamentos, situações de vida e conversações históricas e culturalmente localizadas, nas quais normas e valores são construídos e justificam futuros modos de ser e agir da vida cotidiana;
b) A possibilidade de o projeto do pesquisador emergir no fluxo das situações diárias;
c) Qualquer prática relacional pode vir a ser objeto de uma investigação ou transformação.
O construcionismo relacional não oferece um método específico de conduzir pesquisas. O pesquisador necessita posicionar-se reflexivamente sobre os métodos escolhidos, de forma comprometida com a multiplicidade e a mudança de realidades e relações nesse processo, incluindo mudanças no próprio pesquisador e na comunidade participante da pesquisa, marcando a indissociabilidade entre pesquisa e prática.
O saber do pesquisador pode ser utilizado de forma impositiva, impedindo a co-construção da pesquisa colaborativa, não contribuindo, assim, para a ampliação dos engajamentos relacionais. Pode ser ainda centrado na apreciação dos participantes, entendendo os questionamentos e a escuta como potencialmente (trans)formadores, além de modos de ser (eco)lógicos.
De forma geral, a maior parte das atividades desenvolvidas pelos grupos de alunos integrantes do PET são iniciativas dos próprios petianos e possuem um caráter diverso. As dinâmicas de atuação do programa PET são flexíveis — seja do petiano, como integrante do Grupo, seja dos discentes.
De modo geral, a abrangência das ações, vincula-se sobremaneira à participação nas atividades desenvolvidas pelo PET, seja da universidade ou da sociedade como palco para o desenvolvimento de tais atividades12.
Em muito, os próprios petianos, ao ingressarem no PET, não sabem exatamente o que se espera deles, no nível discente de formação. Iniciativas como a aqui relatada tendem a apoiar a melhor compreensão, ao permitir uma troca de saberes horizontalizada entre os petianos já habituados às rotinas acadêmicas e os ingressantes.
Em outro aspecto, a experiência relatada apresenta-se como uma alternativa na superação de desafios à formação de enfermeiros. Investir nas interações entre ingressantes e petianos permite organizar interlocuções viabilizando o empreendimento e difusão do projeto político pedagógico e auxilia no reconhecimento de demandas de formação dos enfermeiros, que estejam mais centradas na realidade social dos ingressantes13.
Haja vista que ensinar, na contemporaneidade, tem se demonstrado um ato complexo, e as demandas em saúde exigem cada vez mais criatividade com julgamento crítico e perícia técnico-científica para apresentar alternativas de enfrentamento dessas demandas. Com isso, as instituições responsáveis pela docência, como as universidades, devem apresentar estratégias que facilitem a adaptação do ingressante a essa nova realidade14.
Nesta perspectiva, o relato descrito, é uma alternativa na construção de espaços diferenciados no âmbito discente para o exercício dessa realidade. Em muito, torna-se importante atentar-se ao período de ingresso ao ensino superior, para a adaptação dos ingressantes, no investimento de estratégias que possam precipuamente contribuir para a adaptação dos ingressantes à Instituição de Ensino Superior (IES), ao curso e à vida acadêmica, pois este é um período importante e decisivo para o futuro profissional.
Frente a dados nacionais preocupantes de evasão escolar no ensino superior, a iniciativa relatada tem potencial de alcançar maior envolvimento dos discentes e funcionar como fator motivador para permanência do aluno no curso15.
CONCLUSÃO
Muitos acadêmicos enfrentam problemas na adaptação à universidade, e a realização do projeto Amigos do PET proporciona profunda interação entre os discentes do grupo PET Enfermagem e os demais discentes do curso, interação que oportuniza a esses discentes uma aproximação às ações do Programa de Educação Tutorial, e ao tripé que o sustenta: ensino, pesquisa e extensão.
Esta proximidade propicia ao aluno construir uma rede de apoio e aproveitar melhor as oportunidades oferecidas durante a graduação. Favorece, também, o aprendizado em grupo, somado a uma atuação mais efetiva na universidade e na comunidade, atuando diretamente na qualidade da formação profissional destes discentes.
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Autor notes