Artículo de investigación

O ANSEIO POR DEUS E A CONFIANÇA EM SEU AUXÍLIO: SL 63(62) À LUZ DA ANÁLISE RETÓRICA BÍBLICA SEMÍTICAa

The longing for God and the trust in his help: Ps 63(62) in the light of Semitic Biblical Rhetoric Analysis

El anhelo de Dios y la confianza en su ayuda: Sal 63(62) a la luz del Análisis retórico bíblico semítico

Waldecir Gonzaga
Pontificia Universidad Católica de Río de Janeiro, Brazil
Fabio da Silveira Siquiera
Pontificia Universidad Católica de Río de Janeiro, Brazil

O ANSEIO POR DEUS E A CONFIANÇA EM SEU AUXÍLIO: SL 63(62) À LUZ DA ANÁLISE RETÓRICA BÍBLICA SEMÍTICAa

Perseitas, vol. 12, pp. 140-169, 2024

Universidad Católica Luis Amigó

Recepción: 03 Agosto 2023

Aprobación: 12 Marzo 2024

Publicación: 03 Mayo 2024

Resumo: O Sl 63(62) é de singular importância para a liturgia cristã. Evocando o desejo de Deus que faz com que o ser humano se levante antes da aurora para buscá- lo (v.2), este Salmo tornou-se a oração matutina por excelência, tanto para a liturgia bizantina, que o recita no órthros, quanto para a liturgia romana que, depois da reforma litúrgica do Vaticano II, o reservou para as Laudes do Domingo da I Semana do Saltério. O objetivo do presente artigo é analisar o Sl 63(62) pelo método da Análise Retórica Bíblica Semítica, com o intuito de estabelecer sua estrutura e de se perceber, assim, seus elementos teológicos mais relevantes. Para cumprir tal finalidade, o artigo divide-se em três partes: i) tradução do texto; ii) crítica da forma e iii) estabelecimento da estrutura segundo o método da Análise Retórica Bíblica Semítica. Por último, apresenta o comentário teológico. O artigo conduz o leitor à percepção de que o salmo possui uma estrutura tripartida. As duas primeiras partes se articulam no âmbito diurno (vv.2-6) e noturno (vv.7-9), onde o salmista manifesta seu desejo por Deus, recorda sua experiência passada e manifesta sua confiança no Senhor. A última parte do salmo é a imprecação, que evoca um misterioso “eles” (v.10a), conectando-se, assim, com o “tu” evocado no início da oração (v.2a). Ao “eles”, amorfo do inimigo, corresponde o manifesto “tu” divino, em quem o salmista confia, e cujo “amor” reconhece como sendo melhor que a própria existência (4a).

Palavras-chave: Análise Retórica Bíblica Semítica, Culto no Antigo Testamento, Desejo por Deus, Imprecação nos Salmos, Livro dos Salmos, Salmo 63, Templo.

Abstract: Ps 63(62) is of singular importance for the Christian liturgy. Evoking the desire for God that makes human beings rise before dawn to seek Him (v.2), this Psalm has become the morning prayer par excellence, both for the Byzantine liturgy, which recites it in the órthros, as for the Roman liturgy which, after the liturgical reform of Vatican II, reserved it for Laudes (Morning Prayer) on Sunday of the First Weekofthe Psalter. Thepurposeofthisarticleistoanalyze Ps 63(62) through the method of Semitic Biblical Rhetoric Analysis, with the aim of establishing its structure and thus realizing its most relevant theological elements. To fulfill this purpose, the article is divided into three parts: i) translation of the text; ii) criticism of the form and iii) establishment of the structure according to the method of the Semitic Biblical Rhetoric Analysis. Finally it ends with the theological commentary. The article leads the reader to the perception that the Psalm has a tripartite structure. The first two parts are articulated in the daytime (vv.2-6) and nighttime (vv.7-9) scope, where the psalmist expresses his desire for God, recalls his past experience and expresses his trust in the Lord. The last part of the Psalm is the imprecation, which evokes a mysterious “they” (v.10a), thus connecting with the “thou” evoked at the beginning of the sentence (v.2a). To the amorphous “they” of the enemy corresponds the manifest divine “thou”, in whom the psalmist trusts and whose “love” he recognizes as being better than existence itself (v.4a).

Keywords: Biblical Semitic, Book of Psalms, Curse in the Psalms, Psalm 63, Rhetoric Analysis Desire for God, Temple, Worship in the Old Testament.

Resumen: El Sal 63(62) es de singular importancia para la liturgia cristiana. Evocando el deseo de Dios que hace que el hombre se levante antes del alba para buscarlo (v.2), este salmo se ha convertido en la oración matutina por excelencia, tanto para la liturgia bizantina, que la recita en el órthros, como en cuanto a la liturgia romana que, tras la reforma litúrgica del Vaticano II, la reservó para las Laudes del domingo de la primera semana del salterio. El propósito de este artículo es analizar el Sal 63(62) a través del método de Análisis retórico bíblico semítico, con el objetivo de establecer su estructura y así dar cuenta de sus elementos teológicos más relevantes. Para cumplir con este propósito, el artículo se divide en tres partes: i) traducción del texto; ii) la crítica de la forma y iii) establecimiento de la estructura según el método del Análisis retórico bíblico semítico. Finalmente, cierra con el comentario teológico. El artículo lleva al lector a la percepción de que el salmo tiene una estructura tripartita. Las dos primeras partes se articulan en el ámbito diurno (vv.2-6) y nocturno (vv.7-9), donde el salmista expresa su deseo de Dios, recuerda su experiencia pasada y expresa su confianza en el Señor. La última parte del salmo es la imprecación, que evoca un misterioso “ellos” (v.10a), conectando así con el “tú” evocado al comienzo de la oración (v.2a). Al amorfo “ellos” del enemigo corresponde el manifiesto “tú” divino, en quien el salmista confía y cuyo “amor” reconoce como superior a la existencia misma (v.4a).

Palabras clave: Il libro de Salmos, Análisis retórico bíblico semítico, Deseo de Dios, Imprecación en los Salmos, Salmo 63, Templo.

Introdução

O Sl 63(62) ocupa um lugar importante na liturgia católica, conduzindo o louvor das manhãs festivas e solenes, em um ritmo de “louvor perene” (Pikaza, 2023, p. 319). Trata-se de um salmo festivo, sendo o primeiro a ser recitado na Liturgia das Horas nas Laudes1 do Domingo da primeira semana do Saltério2, segundo o Rito Romano, e sendo recitado, também, nas festas e solenidades. É um dosmuitos salmos que trazem ָדִוִד ְל no título. Neste caso específico, a situação de perseguição que Davi experimentou da parte de Saul, quando andou errante pelo deserto de Judá (1Sm 22-24), aparece como a situação paradigmática de perseguição e desalento, que deve servir para tipificar aquilo o que o orante experimenta.

Localizado na segunda parte do Saltério (Janowski, 2021, p. 153) e podendo ser dividido em três partes, o salmo apresenta o orante como aquele que procura a Deus, dia (vv.2-6) e noite (vv.7-9). A maior parte do salmo gira em torno de dois pólos: o ambiente diurno e o noturno. No primeiro, o salmista manifesta, sobretudo, seu desejo de Deus e a sua aridez. Ele recorda a visão de Deus no santuário e a experiência do seu “amor” que é melhor do que a “vida” (v.4a), proclamando, em seguida, o seu louvor (Oden & Edwards, 2017, p. 104). No segundo, já no âmbito noturno, o salmista recorda-se mais uma vez de Deus, porém, agora, sobre o leito, e sente-se protegido lembrando as ações de Deus na sua história pessoal e na história do seu povo enquanto “medita” sobre o leito. O salmo culmina na imprecação final (vv.10-11) criando um interessante paradoxo entre o “tu” divino evocado no v.2 e o “eles” dos perseguidores, colocado em evidência no v.10.

O presente artigo oferece, em primeiro lugar, uma tradução do Sl 63(62), com notas explicativas, que analisam brevemente alguns aspectos semânticos e de crítica textual. Estes últimos a partir da Biblia Hebraica Stuttgartensia (Elliger; Rudolph, 1997). Em seguida, apresenta a estrutura comentada do salmo, à luz da Análise Retórica Bíblica Semítica (Meynet, R., 1992, pp. 159-249; Meynet, 1993, pp. 391-408; Meynet, 1996, pp. 403-436; Meynet, 2008, pp. 132- 209; Meynet, 2020, pp. 431-468). Por fim, apresenta seu comentário teológico. O objetivo principal deste estudo é demonstrar como a Análise Retórica Bíblica Semítica pode servir para pôr em evidência os dois elementos fundamentais do salmo (Gonzaga, 2018, pp. 155-170): o anseio por Deus, a quem o salmista procura dia e noite, e a confiança em seu auxílio.

Segmentação, tradução e notas à tradução do Salmo 63(62)

Segmentação e tradução


Notas à tradução

v.1: A preposicao לְְ pode ter varios sentidos em hebraico. Ela pode servir para introduzir o complemento indireto de um verbo (Gn 3,12), mas pode, também, ser equivalente ao genitivo, indicando autoria ou posse (Alonso Schökel, 1997, p. 330). Tal sentido costuma ser aceito para traduzir a expressão ָדִוִד ְל ִ֥מְזְ֥מֹור , bastante recorrente no Saltério. Prieto Silva recorda que esse é um modo bastante comum de se entender a preposição, sobretudo quando ela está colocada depois de um substantivo indefinido (Prieto Silva, 2016, p. 70), como ocorre no Saltério e em outros lugares na Bíblia Hebraica (Sl 3,1; 4,1; 1Sm 16,18).

v.2: No v.2b duas questões devem ser esclarecidas: a primeira diz respeito ao sentidodaraizַׁשֲ֫חר easegundaaousodo Yiqtol. Araizַׁשֲ֫חר, no piel, temosentido básico de “procurar” (Koehler & Baumgartner, 2001, v.1, p. 1465). Pode indicar o ato de levantar-se mais cedo para buscar algo de que se tem necessidade, umavez que o substantivo “aurora, alvorada” (ֲ֫חר ַׁש), em hebraico, deriva da mesma raiz (Alonso Schökel, 1997, p. 666; Prieto Silva, 2016, p. 106). Com relação ao uso do Yiqtol, nota-se que o valor temporal das formas verbais hebraicas tem sido uma questão bastante discutida. O Sl 63(62) faz uso prevalente das formas Qatal e Yiqtol. As cadeias de Yiqtol, como as encontradas nos vv.4b-6b e 10b-12c podem ter sentido futuro (Del Barco, 2003, pp. 168-169). Contudo, há quem classifique o Yiqtol como uma forma “omnitemporal”, quando utilizado na poesia bíblica (Niccacci, 2002, pp. 174-175). Nesse caso, os pares Qatal/Yiqtol podem ter o mesmo valor temporal - Os 5,5; Sl 38,12; Sl 93,3 - ou o Yiqtol pode ser utilizado para indicar uma ação habitual (Ml 1,1). Este último parece ser o caso do v.2b, onde o Yiqtol relaciona-se com a oração nominal do v.2a. No v.7, por sua vez, aparece o par Qatal/Yiqtol.

O termo ְפׁש�ַנ, presente no v.2c, conecta-se, em primeiro lugar, à esfera da respiração, podendo indicar a garganta, o fôlego ou o alento. Pode indicar, também, o “ser”, o “indivíduo”. A tradução por “alma” no v.2c justifica-se pelo paralelismo com o termo “carne” (ַָּ֥בָׂשר ) do v.2d que designa, normalmente, o aspecto exterior, físico e, portanto, sujeito à caducidade, do ser humano. Para manter uma justa equivalência no texto, o que parece útil ao método da Análise Retórica Semítica Bíblica, manteve-se a tradução por “alma” nas outras ocor- rências do termo ְפַׁש� �ַנ: (vv.6.9.10). Alguns autores preferem a tradução por “ser” ou por “vida”, indicando a totalidade da pessoa (Prieto Silva, 2016, p. 18; Monti, 2018, p. 681).

A raiz ְכ֥מּה do v.2d é um hápax legómenon. Os dicionários sugerem que seja traduzida por “desfalecer” ou “ansiar por” (Koehler & Baumgartner, 2001, v.1, p. 480). Este último sentido parece se encaixar bem no contexto do versículo que fala do desejo de Deus por meio da metáfora da sede (Prieto Silva, 2016, p. 22-23; Mays, 2010, p. 245).

O termo ָעְיֵף do v.2e, referido a uma pessoa, costuma significar “exausto, cansado, exaurido”: Gn 25,29.30; Dt 25,18; Jz 8,4.5; 2Sm 16,14. Este é o sentido predominante no AT. Contudo, referido à terra, o adjetivo aparece no Sl 143,6 e em Is 32,2, podendo ser traduzido como “árido, sedento, desolado”. O termo “sedento” foi escolhido para reforçar a ideia de sede presente no v.2c. Por fim, ainda no v.2e, ocorre o termo ֥מְיִם que, embora esteja no plural, pode ser traduzido pelo singular. O mesmo ocorre com alguns outros termos ao longo do salmo, como o termo ֲ֫חָּ֖יְִים, dos versículos vv.4a e 5a que, embora tenha uma forma plural, tem significado singular: “vida”, “existência”, “a duração da vida” (Alonso Schökel, 1997, pp. 215-216).

v.4: O v.4a inicia-se com a partícula ִָּכְי , que pode conferir ênfase, sendo traduzida por vezes como “sim!” ou, pode introduzir uma justificativa, como parece ser o caso do versículo em questão. Pode tratar-se de um casus penden3, onde o elemento que cria expectativa vem antes: Porque teu amor é melhor que a vida, meus lábios te louvarão. Seria a inversão da ordem direta: Meus lábios te louvarão porque teu amor é melhor que a vida. No v.8a, a mesma partícula foi traduzida com sentido enfático, uma vez que o uso da conjunção ִוְ no v.8b parece corroborar a ideia de que não se trataria de casus pendens. Ainda no v.4a, preferiu-se traduzir o termo ְסד� ֲ֫ח por “amor”, embora a LXX (Rahlfs & Hanhart, 2006) o traduza por ἔλεος e a Vulgata (Weber & Gryson, 2007) por misericordia. Considerou-se o que afirma Stoebe a respeito do termo ְסד� ֲ֫ח. Ele considera que se trata de um termo difícil de ser traduzido em toda a sua gama de significados por um termo único nas línguas modernas. Contudo, tendo em vista que o comportamento indicado por tal termo não costuma indicar o evidente e obrigatório, as ideias de “amabilidade” e “bondade” se aproximam bastante do seu sentido (Stoebe, 1978, pp. 846-847). No v.4b optou-se por traduzir a raiz ַׁשְבֲ֫ח como “exaltar” a fim de se evitar uma confusão com as raízes ְברך do v.5a, traduzida como “bendizer”, e הְלְל do v.6b e v.12b, traduzida como “louvar”.

v.9: A “direita de Deus” é o sujeito da oração. A tradução “Sustenta-me a tua direita” também se encaixa bem, mas não dá destaque para expressão ִַּ֥בְי do v.9b. Deve-se observar que o autor preferiu fazer diferente do v.9a, não colocando a pessoa que recebe a ação na forma de um sufixo anexado ao verbo, mas sim, com uma preposição e o sufixo. Tal forma de proceder parece ter a finalidade de dar ênfase. Como a exegese pretendida neste artigo utiliza como método a Análise Retórica Bíblica Semítica, procurou-se deixar tais ênfases mais evidentes na tradução. Contudo, para adequar a tradução à sintaxe da língua de destino, foi necessário repetir o objeto na tradução: “a mim, sustenta[-me] a tua direita”.

v.10: Manteve-se a traducao do pronome pessoal הֵֵמָָּה (eles) com o intuito de se deixar explicita a contraposicao o pronome אַתַָָּה (tu) do v.2a: de um lado esta Elohîm, a quem o salmista recorre pedindo auxilio; de outro, estao os seus algozes, sobre quem lanca a imprecacao. A LXX parece ter confundido, no v.10a, a expressao לְְשׁוֹאָה (ruina) com a expressao שַלַָּׁוְּאְ (vazio), por isso a traducao “Quanto àqueles que ‘sem razão’ (μάτην) procuram a minha vida”. Como o Texto Massorético é compreensível, não há motivos para discordar dele em favor da LXX. Com relação às formas verbais empregadas nos vv.10-12, pode-se destacar que, no v.10a, o Yiqtol parece indicar uma ação contínua: existe uma ameaça constante para o orante. Por isso a tradução pelo presente. Todavia, dos vv.10b-11b ele “descreve” o que irá acontecer aos seus perseguidores, o que fica melhor explicitado com uma formulação futura. A súplica pelo rei do v.12 se encaixa na forma final do salmo que é apresentado como uma oração de Davi em tempo de perseguição. O “perseguido” e “caluniado” é o rei, por isso a continuação em Yiqtol, servindo como contraponto ao que acontece aos inimigos: enquanto esses descerão às profundezas da terra, o rei se alegrará em Deus (Pikaza, 2023, p. 321).

v.12: A raiz הלל aparece no v.12b e no v.6b. No v.6b o sentido e de “louvar” e esta em estreito paralelismo com as formas verbais presentes no v.4b e v.5a. O hitpael do v.12b tem, normalmente, o sentido de “gloriar-se, orgulhar-se, jactar-se” (1Cr 16,10; Sl 34,3; 52,3; 105,3; 106,5), normalmente com a preposicao בְְּ introduzindo aquilo que leva o sujeito a orgulhar-se. Neste versiculo, a preposicao בְּ nao se conecta com raiz הלל , mas, sim, com o participio da raíz עבש, “os que juram por Ele”, por Deus. Note-se o paralelismo com o v.12a, onde a mesma preposicao conecta-se com o termo אֱֱלֹהִִים , ligado a raiz do verbo שָָׂ חַמ . O sentido passivo de “ser louvado” ocorre, por sua vez, em Pr 31,30, no elogio da mulher forte. A decisao pela traducao por “ser louvado” deu-se para manter o paralelismo com o v.6b, e parece ser possivel em virtude da ausencia da preposicao בְּ conectada ao verbo, introduzindo aquilo que leva o sujeito a orgulhar-se.

Estrutura segundo a ARBS

O v.1 é o título do salmo, que tem por finalidade encaixá-lo numa situação paradigmáticaideal. Emboranãohajaumacordoacercadoseugêneroliterário, tendo em vista que nele confluem muitos elementos, como a lamentação, a imprecação, a ação de graças, hino ou cântico de confiança (Aparicio, 2006, p. 194), a súplica e outros, há quem o considere como uma lamentação individual tendo como Sitz im Leben uma situação de perseguição (Ravasi, 1985, p. 269; Prieto Silva, 2016, p. 52). O título dosalmoidentificaessasituaçãoparadigmática com uma situação concreta: a perseguição que Davi sofreu da parte de Saul e o período em que teve de andar errante pela região desértica de Judá (1Sm 22-24) (Mays, 2010, p. 246). Tal identificação torna-se ainda mais clara à luz do v.12, que conclui o salmo com uma súplica pelo rei. Além disso, a estrutura do Sl 63(62) é demarcada fundamentalmente por duas figuras de linguagem muito fortes na literatura bíblica, formando um binarismo: o paralelismo e o quiasmo, como se verá a seguir, ao longo deste tópico.

O corpo do salmo pode ser dividido em três partes:

A primeira parte do salmo começa com uma invocação a Deus e com a manifestação do desejo do orante de estar na sua presença. O âmbito diurno é indicado pelo uso da raiz ַׁשֲ֫חר, cujo sentido já foi apresentado acima nas “notas à tradução”. Nesta primeira parte do corpo do texto, três momentos podem ser individuados: i) v.2 - invocação e desejo de Deus; ii) v.3 - visão de Deus no Santuário e iii) vv.4-6 - louvor a Deus por seu amor (Aparicio, 2006, p. 195). O v.2 é o maior desta seção, contando com cinco segmentos. Depois de invocar a Deus no v.2a e de manifestar a intensidade do seu desejo com o “madrugar por Deus” no v.2b, o salmista segue dando maior expressão à sua sede num paralelismo que coloca em cena dois aspectos do ser humano: ְפַׁש� �ַנ e ַָּ֥בָׂשר :


O paralelismo é concluído pelo v.2e, onde três adjetivos reforçam a ideia de “sede”, de “desejo”: terra “seca”, “sedenta” e “sem água”. O v.3 traz duas raízes relacionadas ao âmbito da visão: ֲ֫חְזה e רַאה. O único verbo finito da oração é o verbo ְָזה ֲ֫ח, que é utilizado no Qatal, fazendo referência a uma situação que pode ser entendida como uma ação continuada no passado: te “contemplava”. “Glória” e “poder” são os adjetivos com os quais o salmista classifica a presença de Deus no santuário, os mesmos que ocorrem em 1Cr 16,28 referindo-se, tam- bém, à presença de Deus em seu Templo. Os vv.4-6 concluem a primeira parte do corpo do salmo trazendo o louvor a Deus por seu amor. Quatro verbos/expressoes indicam a tematica desses versiculos: “exaltar” - v.4b ( שָָׁחַבַ )); “bendizer” - v.5a ( בָָּ ךַרְַ ); “erguer as maos” e v.5b ( נָָשָָׂא + ףַכַּ ); “louvar” - v.6b ( .(הָָ לַלַ O v.4 pode ser compreendido como um casus pendens, onde 4a traz o motivo pelo qual os labios do salmista irao exaltar a Deus (v.4b). Tanto o v.3 quanto o conjunto dos vv.5-6 sao introduzidos pela particula כֵֵּן , traduzida como “assim”. Ela parece servir, no contexto do salmo, para retomar o que foi afirmado antes: o salmista contemplava a Deus no santuario (v.3), tomado de intenso desejo (v.2); ele vai bendizer a Deus e elevar suas maos (v.5), porque reconheceu que o amor de Deus e melhor que a propria vida (v.4).

As quatro ações descritas nos vv.5-6 apresentam um paralelismo entre os termos “vida” (v.5a) e “alma/ser” (v.6a) de um lado, e os termos “mãos” (v.5b) e “boca” (v.6b), de outro:


O início da segunda parte do salmo é indicado, em primeiro lugar, pela mudança temporal: com a menção do “leito” (v.7a) e das “vigílias noturnas” (v.7b), o salmista se transporta para o âmbito noturno. Além disso, a temática dos vv.7-9 apresenta uma nova perspectiva: enquanto os vv.2-6 tinham seu foco no louvor a Deus, os vv.7-9, ainda que não excluam essa temática, tendo em vista o uso da raiz “gritar de júbilo” (רַנן), no v.8b parecem girar em torno do reconhecimento das acoes de Deus e da confianca nele, que protege aquele que esta em grande angustia. Notam-se os vocabularios especificos desses versiculos: “socorro” - 8a ( זֶעְֶרְָָה ); “sombra das tuas asas” - v.8b ( ;(צֵֵל כְּנְָ ךָָיֶפֶ“sustentar” - 9b ( .(תָָּ ךַמְַ

Também nesta segunda parte do corpo do salmo três momentos podem ser individuados: i) v.7 - a recordação de Deus durante a noite; ii) v.8 - o reco- nhecimento de suas ações e iii) v.9 - manifestação de confiança. O v.7 faz a tran- sição para o âmbito noturno e traz dois verbos que remetem à interioridade do salmista: “recordar” ( זָָ רַכַ ) e “meditar”.(הָָגָָה)4 O objeto, expresso por sufixos, e sempre Deus.

No centro desta segunda parte do corpo do salmo está o reconhecimento das ações de Deus (v.8). A frase é introduzida pela partícula ִָּכְי , tomada aquí em sentido enfático. O verbo הְיָה, no Qatal, introduz a sentença logo depois da partícula inicial, marcando-a como uma Oração Verbal. No centro da sentença, está o termo “socorro/auxílio” unido a um sufixo direcional. Tal forma do termo é pouco frequente no Saltério, ocorrendo também nos Sl 44,27 e 94,17, onde o complemento vem, como aqui, introduzido pela preposição ְל com sufixo. A experiência de Deus como “socorro/auxílio”, corroborada pela proteção encontrada “na sombra” das suas asas, tem, como fruto, o louvor, unindo essa segunda parte do salmo à primeira, mas utilizando outro verbo que ainda tinha ocorrido na primeira parte do texto: “gritar de júbilo” (רַנן). Aqui ocorre um quiasmo no salmo: as expressões “socorro” e “sombra de tuas asas” corres- pondem-se mutuamente, bem como os verbos “ser” e “exultar”:


A manifestação da confiança em Deus vem expressa no v.9, também sob a forma de um quiasmo:


A terceira e última parte do corpo do salmo é a imprecação, contida nos vv.10-11. Sua conexão com a primeira parte é expressa pelo uso enfático do pronome pessoal na terceira pessoa plural, ָָּמה ה, no v.10a. Nota-se que, no v.2a, no início do corpo do salmo, é utilizado, também, de forma enfática, o pronome אַתַָָּה em relacao a Deus, a quem o salmista invoca e louva (vv.2-6) e cuja protecao recorda (vv.7-9). No decorrer de todo o salmo, o estilo é marcado pelo uso de sufixos para indicar a pessoa a quem ou de quem se fala. Somente no início e na última parte é que aparecem os pronomes pessoais que demonstram a coesão do salmo e, ao mesmo tempo, marcam uma contraposição: de um lado Elohîm, o “tu” invocado pelo salmista; e, de outro, um “eles” genérico-os que procuram destruir a vida do salmista. Depois da introdução no v.10a, a impre- cação segue enumerando três ações que manifestarão o juízo divino sobre aqueles que perseguem o orante (Aparicio, 2006, p. 199). Nota-se o esquema “Verbo + Complemento” dos vv.10b e 11a que é invertido no v.11b:


O v.12 é a conclusão, que segue o mesmo esquema ternário que perpassou as duas primeiras partes do salmo, apresentando uma síntese de tudo o que veio antes: v.12a - intercessão pelo rei, que se conecta com o título do salmo; v.12b - o destino dos justos (retoma os vv.2-9); v.12c - o destino dos perseguido perseguidores (retoma os vv.10-11). A colocacao, no v.12a, da expressao בֵֵּאלֹהִִים no final da frase, em conjunto com a colocacao, no v.12c, da expressao דֽֽוֹבְְרֵֵי־שָָׁ רֶקֶ , tambem no final da frase, retoma o esquema macroestrutural do salmo, que gira em torno do “tu”, do v.2a, referido a Deus, e do “eles”, do v.10a, referido aos que buscam destruir a vida do orante que esta por detras do salmo.

A estrutura poderia ser esquematizada da seguinte forma:


O sentido teológico do Salmo 63(62)

O Sl 63(62), fortemente estruturado pelo paralelismo e pelo quiasmo, como visto no topico anterior, ajudando e muito em sua compreensao teológica a luz da ARBS, e emoldurado pela referencia real: inicia-se com um titulo que faz referencia a Davi (v.1) e conclui-se com uma suplica pelo rei (v.12). Particularmente esta ultima, faz com que alguns autores pensem numa datacao pre-exilica para sua composicao (Kraus, 1993, p. 35). A evocacao da perseguicao de Davi por Saul no deserto de Juda (1Sm 22-24), no titulo do salmo, da o sentido da oracao que vem a seguir: na perseguicao e na angustia deve-se confiar em Deus, pois ele mesmo ha de fazer justica para o oprimido. Em 1Sm 24,18, Saul reconhece que Davi e “mais justo do que ele” por ter lhe poupado a vida. Assim tambem quem reza esse salmo encontra em suas tres partes uma descricao orante de como deve proceder: ainda que esteja numa terra seca (v.2e), deve confiar naquele cujo amor e melhor que a vida (v.4a), pois Ele e socorro para quem o invoca (v.8a). Ele mesmo fara voltar sobre os perseguidores do justo o mal que lhe fazem (v.10-11).

O âmbito diurno: o anseio por Deus (vv.2-6)

A primeira parte do salmo comeca com uma suplica, acompanhada de uma confissao de fe (v.2a). Somente sete salmos comecam diretamente com a suplica “O Deus” 44,2; 54,3; 60,3; 63,2; 70,2; 79,1; 83,2. Enquanto a suplica, com o uso do termo אֱֱלֹהִִים , parece sublinhar o carater transcendente de Deus, a expressao “meu Deus”, por sua vez, designa a proximidade entre Deus e o orante (Ringgren, 1974, pp. 279-284). A suplica inicial demonstra-se bem conectada com o desenvolvimento do salmo, uma vez que a transcendencia divina tambem e evocada pelo termo “gloria” (3b), enquanto a proximidade com Deus e afirmada no decorrer de todo o salmo, mais particularmente em 8a, com a imagem de Deus como “socorro”.

Dois dos tres personagens da oracao sao postos em cena: Deus e o orante. O “tu” do v.2a, assim como a sucessao dos sufixos de 2ms e 1cs na primeira (vv.2-6) e segunda partes do salmo (vv.7-9) recordam o duplo movimento que se da nas duas primeiras partes do texto: o salmista se lanca para Deus (v.2b), porque reconhece que Deus se lanca em direcao a ele, uma vez que ele e o depositario de seus beneficios (v.8a). Esse e o movimento proprio da oracao: subida (anabase) do homem em direcao a Deus pela suplica; descida (catabase) de Deus em direcao ao homem por meio da sua bencao e acao salvifica (Ex 3,8).

Nov.2b o salmista expressa seu desejo por Deus por meio da imagem do “madrugar”. A raiz חשׁר significa propriamente “buscar”, sendo utilizada, algumas vezes, em paralelo com a raiz שׁקבּ (Os.5,15). Tal raiz pode significar uma busca intensa, com solicitude, indicando, inclusive, alguem que madruga para buscar algo de que tem necessidade, como parece ser o caso do versiculo em questao (Meynet, 2018, p. 259; Monti, 2018, p. 685). A intensidade da busca por Deus e corroborada pelo uso dos verbos “ter sede” (v.2c) e “ansiar” (v.2d), postos em relacao com os termos aqui traduzidos como “alma” ( שֶׁפֶֶנֶ ) e “carne”בָָּשָָׂר) )), que indicam o homem na sua totalidade: seu aspecto fisico e sua dimensao interior. E interessante notar que o elemento mais interno do homem, suaשֶׁפֶֶנֶ , e indicado em primeiro lugar. Embora o termo possa tambem aludir ao ser humano em si, sem separar nele dois aspectos (Gn 2,7 - “ser vivente”), a colocacao junto com בָָּשָָׂר reforca a ideia, tambem representada por esse termo, de uma dimensao interior do ser humano, onde o desejo por Deus tem seu inicio (Westermann, 1985, pp. 110-111; Alonso Schokel & Carniti, 1996, p. 809). E a partir de dentro do ser humano que tal desejo se manifesta, na forma de “sede”, metafora do “anseio”.

A “sede” do v.2c vem intensificada pelas expressoes de 2e, que se conectan ao titulo: quem esta no deserto (v.1b), tem sede porque esta numa terra “seca”, “sedenta”, “arida” (Corbajosa, 2018, p. 454). A colocacao de tres termos evoca a ideia de totalidade, indicando que o orante se reconhece extremamente necessitado e, por isso, totalmente desejoso de Deus. Tambem a expressao בְּ ץְֶרֶֶאֶ reforca a conexao com o titulo do salmo. Somente alguns poucos manuscritos hebraicos e a versao de Simaco, substituem a preposicao בְּ pela preposicao כְּ, transformando a metafora em comparacao. O salmista aplica a metafora do deserto a sua situacao, por isso ele afirma “ter sede” e “ansiar” por Deus “numa terra seca e sedenta, sem agua”. Do ponto de vista do estilo, e interessante notar como os binomios sao utilizados no v.2: “alma” e “carne”; “seca” e “sedenta”. No v.2e, um terceiro termo classifica o substantivo “terra”, mas esse e colocado fora do binomio, e introduzido por um adverbio.

No v.3, o salmista recorda-se da experiencia de encontrar a Deus no Templo (Flecha Andres, 2021, p. 145). O uso da raiz זחה no Qatal parece indicar uma acao continua vivida pelo salmista no passado: a contemplacao de Deus no lugar santo, seu santuario ( שֶׁדֶֹקֹ ). No v.3b, a presenca de Deus e designada pelo binomio “poder” e “gloria”. O uso do termo “gloria” recorda algumas imagens importantes da tradicao veterotestamentaria, como a experiencia do Éxodo (Ex 40,35) e a consagracao do primeiro Templo (1Rs 8,11). Tal modo de descrever a experiencia da presenca de Deus no Santuario evoca, tambem, a vocacao de Isaias (Is 6) uma vez que o profeta ve a fumaca que enche o lugar santo, assim como a Gloria de YHWH se manifestava na nuvem (Weiser, 1984, p. 503; Harman, 2011, p. 244). A recordacao do encontro com Deus traz alento e faz o louvor brotar dos labios do salmista (vv.4-6).

Nos vv.4-6 o salmista louva a Deus por seu “amor” ( דֶסֶֶחֶ ) e reconhece que isso e melhor que a “vida” ( יִַּחַיִם ). A conjuncao כִִּי , que abre o v.4, pode ter valor enfatico, explicativo ou causativo, dentre outros. Prieto e outros autores recen tes afirmam que, no Sl 63,4, tal conjuncao tem tanto valor tanto enfatico, quanto causal, dando destaque para o דֶסֶֶחֶ divino, e conectando-se com o tema da presenca de Deus no Templo (v.3), fruto do Seu amor e do Seu desejo de comunhao com os homens, e abrindo para os versiculos seguintes, justificando, por assim dizer, o louvor que e fruto da experiencia do amor de Deus (Prieto Silva, 2016, p. 156; Clifford, 2021, p. 89; Gerstenberger, 2001, p. 14). O adjetivo “bom/melhor”e colocado logo depois da conjuncao כִִּי , e seu uso recorda o primeiro relato da criacao (Gn 1,1-2,3), onde o termo e utilizado com bastante frequencia. No fimdo relato, Deus viu toda a obra da criacao que fizera e constatou que tudo era“muito bom” ( טוֹב מְְ דֹאֹ :: Gn 1,31). O salmista, ainda que esteja em grande angustia, se recorda da presenca de Deus no Templo e isso desperta nele a aclamacao:“teu amor” e melhor que a vida. De que adiantaria toda a obra da criacao e a propria vida humana, ainda que reconhecida pelo proprio Deus como “muito boa”, se nao fosse o amor de Deus? Na fonte da propria criacao esta o amor sublime de Deus por sua criatura. E a vida nao vale a pena sem uma verdadeira comunhao com Ele, no amor (Kraus, 1993, p. 36).

Nos vv.4b-6b, o louvor a Deus e descrito por quatro verbos no Yiqtol, que apresentam tres acoes - “exaltar” (v.4b); “bendizer” (5a); “louvar” (v.6b) e um gesto de acao de gracas - “erguer as maos” (v.5b) (Corbajosa, 2018, p. 455). A plenitude da aridez, descrita por tres vocabulos no v.2e, corresponde a plenitude do louvor, evocada pelas tres acoes descritas acima. O gesto de “erguer” as maos, descrito no v.5b e um gesto conhecido no Antigo Oriente e no proprio Antigo Testamento como um gesto de oracao e de suplica. Algumas vezes, indica-se o lugar para onde o orante vai estender ou levantar suas maos (Sl 88,10; Sl 134,2). A eficacia do gesto e garantida pela mencao do “nome” de Deus, que evoca sua propria presenca (Kraus, 1993, p. 37).

Os vv.5-6, seguindo o esquema ritmico do salmo, coloca em evidencia tres binomios. Dois indicam o ser do orante: “vida” (v.5a) e “alma” (6a); “maos” (v.5b) e “boca” (v.6b). No v.6a, um terceiro indica a saciedade que o orante experimentara como fruto do louvor: “gordura” e “banha”. Tal binomio so e utilizado neste salmo. Os dois termos sao sinonimos, sendo חֵֵ בֶלֶ o termo mais recorrente na Biblia Hebraica. חֵֵ בֶלֶ e um termo significativo para o ambiente cultual, significando a “gordura” que pertencia a Deus, como a parte mais nobre do sacrificio (Lv 3,9). Dt 32,14 recorda que Deus alimentou seu povo, no deserto, com a gordura. O binomio parece significar uma refeicao abundante, como metafora da situacao de bem-estar que o salmista espera gozar diante de Deus (Oden & Edwards, 2017, p. 105).

O uso do termo חֵֵ בֶלֶ tanto em Dt 32,14, para referir-se as tradicoes exodais, quanto no vocabulario cultual, pode ajudar a compreender, de modo mais profundo, o alcance teologico da afirmacao do v.6a. A preposicao כְּמְוֹ , que introduz o versiculo, indica que se trata de uma comparacao, ou seja, na sua situacao de deserto, o salmista espera que se possa repetir nele a experiencia do povo de Israel: ele espera ser, tambem, alimentado por Deus com a “gordura”, com o que ha de melhor, como o povo foi outrora assim nutrido no deserto. Deve-se recordar que, no deserto, o povo foi alimentado nao so com mana, mas tambem com a Lei (Dt 8,3). Esse foi, sem duvida, o “alimento melhor”: a palavra saida da boca de Deus. A presenca do termo חֵֵ בֶלֶ no vocabulario cultual, por sua vez, indicando a parte do sacrificio que pertence exclusivamente a Deus, poderia indicar que o salmista espera receber um alimento que esta intimamente ligado a esfera divina e que, por isso, o saciara plenamente. Tal “alimento” parece ser, sobretudo, a fruicao da presenca do proprio Deus, que ocupa a maior parte do texto do salmo, sendo a libertacao dos seus inimigos um ganho secundario (Weiser, 1984, p. 503). Nota-se que o acento esta no termo שֶׁפֶֶנֶ que, como ja dito antes, pode indicar tanto o “ser” quando o aspecto mais interno do homem, onde nascem os “desejos” e, sobretudo, o “desejo por Deus” (Is 26,8-9).

O âmbito noturno: a confiança no auxílio divino (vv.7-9)

A segunda parte do salmo, com a mencao do termo “leito” (v.7a) e a recordacao das “vigilias noturnas” (v.7b), apresenta o orante no ambito noturno. E vital para o orante a comunhao com Deus. So atraves dessa comunhao, dessa experiencia singular do “amor” que e melhor que a “vida” (v.4a) e que o orante pode sentirse saciado. Tal desejo o acompanha pela noite, de tal modo que, mesmo sobre o leito, nao pode jamais “esquecer-se” de Deus. Alias, e justamente ai que ele o “recorda” ( כזר - v.7a) e desperta para as vigilias. O “recordar-se de Deus”, segundo Prieto, e mais do que meramente trazer a memoria algo sobre Ele; trata-se de uma “confissao de fe”. “Esta recordacao constitui um trazer constantemente a memoria as obras salvificas do Senhor, que, por sua vez, e um Deus que se recorda do seu povo e lhe doa a salvacao” (Prieto Silva, 2016, pp. 199-200).

O termo אַשְְַׁמוּרָָה deriva da raiz משׁר (guardar), indicando a “guardanoturna” e podendo ser utilizado em contexto militar (Garcia Lopez, 2006, pp. 286-287). A vigilia da noite estava dividida em tres partes: i) a primeira vigilia (Lm 2,19 לְ שְׁאֹרֹ אַשְְַׁ רֻמֻוֹת - ); ii) a vigilia intermediaria (Jz 7,19 - הָאַָשְַׁ תְֶרֶֹמֹ תִַּהִַכיוֹנָהָ ) e iii) a vigilia que antecipava a manha (Ex 14,24 - בְּאְַשְַׁ תְֶרֶֹמֹ ֹבַֹּהַ רֶקֶ ) e que ocorre apenas tres vezes no salterio (Sl 63,7; 90,4; 119,148), indicando o ámbito noturno como o espaco privilegiado da oracao.

A raiz הגה utilizada no v.7b e traduzida aqui como “meditar” pode signifiicar, tambem, “sussurrar”, “recitar em voz baixa”, “gemer”, dentre outros significados (Alonso Schokel, 1997, p. 166). A conexao com a raiz “recordar” ( כזר ) do v.7a bem como o uso da preposicao בְּ para introduzir o objeto do verbo, parecem indicar “meditar” como uma boa traducao. Nesse sentido, o versiculo em questao conecta-se ao Sl 143,5, onde as raizes כזר e הגה tambem sao utilizadas em conjunto (Negoită & Ringgren, 1978, p. 322). Ha quem sugira que o uso da raiz הגה no v.7b queira indicar nao somente a meditacao do orante nas acoes de Deus na sua vida, mas tambem a meditacao na Tora, e nas acoes de Deus na historia do seu povo (Prieto Silva, 2016, p. 208). O objeto da recordacao, tanto quanto da meditacao, e sempre Deus, a quem o orante se dirige de forma direta, o que vem indicado pelo sufixo de 2ms colocado junto as formas verbais.

Introduzido pela conjuncao כִִּי com valor enfatico, o v.8a apresenta o reconhecimento, da parte do salmista, das acoes de Deus em sua vida. O verbo הָָיָָה e colocado tambem em posicao enfatica, deixando, no centro da oracao, os termos“socorro”, “auxilio” ( זֶעְֶרְָָה ) que sintetiza o agir de Deus na vida do orante. O termo deriva da raiz זער , sendo sinonimo de עֵֵ רֶזֶ . Tal raiz transmite a ideia de protecao, tendo geralmente Deus como sujeito. O termo זֶעְֶרְָָה ocorre com mais frequencia nos salmos onde seu uso indica a acao de Deus em favor do orante, livrando-o de alguma situacao de perigo (Lipinski, 2001, p. 13). Algumas vezes e utilizado em paralelo com outros verbos que tambem indicam a acao salvífica de Deus em favor de alguem ( לצנ - Sl 70,2) ou com imagens de protecao ( מָָגֵֵן - Sl 35,2) (Gonzaga & Telles, 2022, p. 150). Tal imagem de protecao aparece no v.8b:“sombra das tuas asas”. A expressao צֵּבְּלֵ כְּנְָ ךָָיֶפֶ ocorre quatro vezes no Salterio: 17,8; 36,8; 57,2; 61,5; 63,8. O uso em paralelo com a expressao אּבְָּהָָלְְךָ no Sl 61,5 permite que se compreenda que e uma possivel referencia-ainda que nao explicita-ao Templo. E possivel, tambem, que a experiencia de protecao sentida quando estava no Templo (v.3a) continue presente na vida do orante por detrás do salmo, particularmente quando ele se recorda de Deus (v.7a). Tal recordacao das acoes de Deus no passado e a sensacao de estar protegido por ele faz com que o orante prorrompa em jubilo ( רנן ). Sua oracao nao e mera projecao do seu inconsciente e o seu louvor nao se baseia em fabulas ouvidas a respeito de Deus. Sua oracao confiante e fruto da experiencia pessoal e comunitaria da acao salvifica de Deus: ela se enraiza na historia, sua historia pessoal e a historia do seu povo.

Depois de recordar e reconhecer as acoes de Deus, o salmista manifesta a sua confianca nele no v.9. Dois verbos de acao sao utilizados, um tendo o orante e outro tendo Deus como sujeitos. Os vv.8a e 9b podem ser vistos em conjunto, tendo em vista que explicitam, de modo generico, as acoes de Deus em favor do orante, seja pelo verbo “ser” ( הָָיָָה ) em conjunto com o substantivo “socorro”no v.8a; seja pelo verbo “sustentar” ( תָָּ ךַמְַ )no v.9b, acompanhado da expressao“tua direita” ( יְמְִִ ךֶָנֶי )). Somente no Sl 63,9a, considerando todo o conjunto do Salterio, e que a raiz דקב e utilizada referindo-se diretamente a Deus. No Sl 119,31 ela tambem ocorre, mas o objeto sao os “testemunhos” ( בְְעֵֵדְְוֹ ךָיֶתֶ ) de YHWH. Sua primeira aparicao na Biblia Hebraica e em sentido esponsal: em Gn 2,24, indicando a uniao do homem e da mulher. No livro do Deuteronomio e comum que Deus apareca como seu objeto (Dt 11,22), sendo explicitado esse “apegar-se” como a “observancia dos Seus mandamentos” e o “ouvir atento a sua voz” (Dt 13,5). Embora a traducao do termo שֶׁפֶֶנֶ por “alma”, no v.9a, tenha sido ja justificada acima, e valido recordar que tal termo pode indicar a totalidade da pessoa. Sendo assim, o salmista quer indicar que adere a Deus totalmente, com todo o seu ser. Interiormente ele deseja Deus e a Ele adere, contudo, tal adesao tambem se manifesta externamente na observancia dos Seus mandamentos, conforme indica o uso da raiz דקב no livro do Deuteronomio.

Prieto destaca que, ao finalizar as duas partes do v.9 com sufixo de 2ms, o salmista quer fixar a atencao do orante em Deus, o grande “tu” do salmo (v.2a), tal como fizera no v.3 (Prieto Silva, 2016, pp. 229-230). Esse versículo sintetiza a relacao amorosa entre Deus e o orante, desenvolvida no salmo. O salmista que busca a Deus intensamente (v.2cd); o recorda dia e noite (vv.2b.7b); o encontra no templo (vv.3a.8b); se sente protegido por Ele (v.8a) e o louva (vv.4b.5a.5b.6b.8b). Por fim, resume tudo na experiencia de lancar-se para Deus e sentir-se seguro em suas maos: tua direita me sustenta. Sendo a“direita de Deus” a sua “mao forte” (Sl 89,14), nela o salmista confia, sabendo que Deus a elevara para salva-lo (Sl 138,7). A mencao da “direita de Deus”, a mao que Ele levanta para libertar o homem dos seus inimigos (Sl 45,5), faz com que a segunda parte do salmo se conecte a terceira e ultima, que traz a imprecacao contra os perseguidores que desejam destruir o orante por detras desta poesia.

A imprecação e a intercessão pelo rei (vv.10-12)

Na oracao da Liturgia das Horas, foram deixados de lado alguns salmos onde predomina o carater imprecatorio (Sl 57[58]; 82[83] e 108[109]). De otros salmos, foram tirados apenas os versiculos imprecatorios, como no caso do Sl 63(62), objeto de nosso estudo, dos quais foram deixados de fora da Liturgia das Horas segundo o Rito Romano, os vv.10-12: a imprecacao e a conclusao, uma vez que esta ultima esta ligada a imprecacao. O motivo e a “dificuldade psicologica” de compreende-los, segundo a IGLH5 131. De fato, as imagens fortes trazidas pelas imprecacoes salmicas causam certo desconforto ao orante (Zenger, 1196, p. 2). Contudo, deve-se levar em conta tanto o contexto em que os diversos salmos surgiram, bem como considerar que, no Antigo Testamento, a revelacao esta em progresso. Somente a luz do Novo Testamento certos textos tornamse mais claros. No caso dos assim chamados salmos imprecatorios, sua chave de leitura neotestamentaria poderia ser Ef 6,12, onde o autor sagrado entende que o verdadeiro “inimigo” do homem nao e o outro ser humano, mas o que ele chama de τὰ πνευματικὰ τῆς πονηρίας, os “espiritos do mal”.

A imprecacao contida nos vv.10-11 comeca com uma conjuncao com valor adversativo (ְ וְ)), marcando uma contraposicao e, ao mesmo tempo, uma conexao com o que vem antes. Ate entao, a oracao girava em torno de duas figuras: o “tu” divino, evocado no v.2a e retomado na abundante sucessao dos sufixos de 2ms, e o “eu” do orante, algumas vezes indicado tambem por meio dos sufixos, ou por meio do termo שֶׁפֶֶנֶ ;ou ainda, por meio do binomio שֶׁפֶֶנֶ e בָָּשָָׂר dos v.2cd. Agora e colocado em evidencia o pronome de 3mpl הֵֵמָָּה (eles). O salmo agora vai falar dos inimigos e isso clarifica a metafora da “terra seca, sedenta e sem agua” do v.2e: o salmista esta sofrendo uma dura perseguicao, onde sente sua vida ameacada.

E digno de nota o modo como cada uma das personagens dessa “oracao” e apresentado. Deus e referido pelo “tu”, mas tambem e invocado pelos termos אֱֱלֹהִִים e אֵֵל ; o inimigo, por sua vez, e indicado simplesmente pelo “eles”, nao tem nome. Embora tal anonimato de margem para que o orante de qualquer época possa identificar tal inimigo com qualquer pessoa ou entidade que promova contra ele uma perseguicao, segundo Prieto, tal anonimato tambem figura, no salmo, como uma forma de menosprezo (Prieto Silva, 2016, p. 241). E certo que o salmista tambem nao e identificado pelo nome, contudo, no decorrer do salmo, ele e identificado por substantivos variados, sua relacao com Deus e posta em evidencia e, no titulo, ele se identifica com Davi. Parece possivel, pois, considerar como verossimil a afirmacao de Prieto.

O mesmo esquema tripartido contido nas duas primeiras partes do salmo (vv.2-6.7-9) tambem aparece na imprecacao dos vv.10-11. Depois de introduzir a figura dos inimigos do orante e apresentar seus planos de morte com o termo שׁוֹאָה ,, no v.10a, o salmo apresenta a derrocada dos inimigos em tres momentos: i) v.10b: irao as profundezas da terra; ii) v.11a: serao entregues a espada e iii) v.11d: serao presa dos chacais. crescente. A primeira referencia indica a morte propriamente dita dos inimigos, sua descida ao Sheol. A expressao בְְּ חְַתְַתִִּיּוֹת הָָאָ ץֶרֶ oocorre somente aqui e no Sl 139,15, contudo, neste ultimo o salmista da a expressao um sentido positivo, utilizando-a para indicar o ámbito oculto onde Deus o tecia de modo oculto e admiravel. A expressao aparece invertida ( בְּ ץְֶרֶֶאֶ חְַתְַּתִִּיּוֹת ) e com sentido negativo em Ezequiel (26,20; 31,14.16.18; 32,18.24), designando o atuar-se do juizo divino sobre os inimigos de Israel. Tal parece ser o sentido que o salmista quer expressar, embora nao apresente diretamente Deus como o agente por detras da punicao que espera seus inimigos (Prieto Silva, 2016, p. 249).

A morte dos inimigos e apresentada como uma morte violenta, por meio da espada (v.11a) e, ainda mais contundente, e o modo como a imprecacao e encerrada: os inimigos nao terao sepultura, porque se tornarao “presas dos chacais”. De um lado, os chacais relembram o ambiente do deserto, evocado na primeira parte do salmo; de outro, o “nao ter sepultura” e, para o homem biblico, uma terrivel punicao (Weiser, 1984, p. 504). Tal se constitui num modo de apagar sua memoria, de evitar que haja uma minima recordacao de sua anterior existencia (Is 14,19-20; Jr 7,33). Talvez o salmista tenha invertido a ordem habitual das sentencas nesse ultimo segmento (v.11b) colocando o objeto em primeira posicao justamente para enfatizar tal “apagamento” da memoria dos impios.

O salmo e concluido pelo v.12, que segue o estilo tripartido de todo o corpo do texto. A referencia ao rei o une ao titulo, servindo como moldura para a oracao. O וְ adversativo que abre o v.12 contrapoe a imagem do rei a imagem dos inimigos. Assim como a situacao de Davi perseguido no deserto de Juda funciona como uma especie de situacao paradigmatica para o orante, tambem a alegría do rei, em Deus, e uma imagem da alegria que o orante experimentara depois de sua libertacao. No centro do versiculo esta o verbo “alegrar-se” ( ,(שָָׂ חַמַ muito frequente nos salmos, indicando, sobretudo, a alegria que o orante sente diante de Deus, particularmente por saber que Ele julga “com justica” (Sl 67,5). O triunfo do justo sobre os inimigos produzira alegria, uma alegria “em Deus” בֵֵּאלֹהִִים) ). A enfase no epiteto divino esta colocada no inicio e no fim do salmo.

Os segmentos finais do v.12 fazem uma síntese de todo o salmo, apresentando o destino final dos justos e dos ímpios, “como que em um grande voo mís- tico” (Aparicio, 2006, p. 200). Para os justos, o louvor. Os que “juram por Deus” serão louvados. Embora a preposição com sufixo no final do v.12b seja ambígua, podendo referir-se a Deus ou ao rei, parece mais provável pensar que se refira a Deus, em virtude do paralelismo com o v.12a. A ideia do “jurar por Deus” é presente no Antigo Testamento, particularmente para designar uma especial adesão a Ele, como em Dt 6,13, onde o verbo “jurar” (ְבָע ַׁש) vem colocado em paralelo com os verbos “temer” (ֵרַא ְיָ) e “servir” (ְבד ָָע ). Os inimigos, caracterizados aqui como os que “falam mentira” terão sua boca tapada. Assim é concluída a oração sálmica, deixando em evidência o que cabe e o que se deve esperar de cada uma das personagens que compõem o quadro da poesia: Deus atua como juiz; o orante terá sua confiança recompensada e seu desejo por Deus satisfeito; os inimigos, que fazem o justo sentir-se como num deserto, verão atuar, sobre si, o juízo divino.

Considerações finais

O estudo do Sl 63(62) à luz da Análise Retórica Bíblica Semítica permitiu evidenciar seus dois pólos fundamentais: os âmbitos diurno (vv.2-6) e noturno (vv.7-9). Na primeira parte (vv.2-6) o salmista enfatiza seu desejo por Deus e proclama, em tom futuro, o louvor que lhe renderá. No centro, contudo, está a memória da experiência de Deus no Santuário, que faz com que o salmista proclame que o “amor” de Deus é melhor do que a “vida”. A segunda parte do salmo concentra-se mais no reconhecimento das ações de Deus no passado (v.8), que despertam no salmista a confiança em Deus (v.9). Contudo, ela é iniciada pela explícita recordação de Deus em âmbito noturno (v.7). É um “recordar meditando”, como se o salmista trouxesse à mente, as maravilhas outrora operadas por Deus: na sua história e, quiçá, na história do povo de Israel.

Seu louvorse fundamenta, pois, na história. Deus não somente promete agir em favor do seu povo e de cada justo que é perseguido, mas, de fato, age. A memória, tão central no culto israelita (Ex 12,14-ָָּכרֹון ְִז ), é o âmbito no qual se conserva esse “agir” de Deus. Em virtude da menção do Templo na primeira parte do salmo (v.3), tal “memória” parece estar relacionada com a experiência cúltica, uma vez que o culto se fundamenta, em Israel, no agir de Deus no passado, sustentando a esperança em seu agir também no presente e no futuro. Sobre seu leito, o salmista medita não somente nas ações de Deus na sua vida, mas também naquelas que ouviu quando o contemplava no Santuário, especialmente durante o culto, onde via e ouvia o que se proclamava, nas Escri- turas, a respeito da “glória” e do “poder” de Deus (v.3b) (Flecha Andrés, 2021, pp. 145-146).

O salmo culmina na imprecação que ocupa os versículos finais (vv.10-11). Embora tais versículos tenham sido retirados do Ofício Divino segundo o Rito Romano, eles têm um elevado valor teológico tanto no contexto do Antigo, quanto do Novo Testamento. No contexto do Antigo Testamento, a imprecação é a manifestação de confiança na justiça divina. Não será o salmista a agir contra seu adversário. Ele nem mesmo chega a citar diretamente Deus como sendo o algoz dos seus inimigos. O sujeito das ações descritas nos vv.10-11 permanece indeterminado e, à luz do título, que provavelmente remete a 1Sm 22 - 24, fica claro que o próprio homem injusto busca seu fim pois, maquinando o mal contra o piedoso, acabará nas mãos de maldosos inimigos, como acontecera com Saul (1Sm 31, 2-13). Lidos à luz do Novo Testamento, por sua vez, os versículos imprecatórios desse salmo fazem pensar em Ef 6,12, onde Paulo afirma quem os verdadeiros inimigos do homem são os “espíritos do mal” espalhados nos ares.

A sede do salmista é, de certo modo, saciada, quando ele se apresenta diante de Deus. Contudo, ela permanece. E ele espera uma saciedade plena no futuro (6a). Em virtude disso, e relendo este salmo à luz do Novo Testamento e do Mistério Pascal de Cristo, Agostinho vai afirmar que o “deserto” é a nossa vida nesse mundo, onde “não devemos amar a saciedade”. Somente na vida futura é que experimentaremos o que o salmista anela no v.6a: ser completamente saciado por Deus: Aqui é preciso ter sede; lá seremos desalterados. Agora, porém, a fim de não desfalecermos neste deserto, Deus destila sobre nós o orvalho de sua palavra, e não nos deixa inteiramente áridos, de tal sorte que não voltemos ao estado inicial, mas tenhamos sede para beber (Agostinho, ca. 422/1997, p. 270).

Referências

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Notas

a Este estudo é fruto do Grupo de Pesquisa “Análise Retórica Bíblica Semítica”, credenciado junto ao CNPq, que se reúne periodicamente na PUC-Rio, sob a liderança do Prof. Dr. Waldecir Gonzaga.
1 Oração da manhã
2 1º Domingo da Quaresma
3 Caso pendente
4 O sentido desses pares de verbos em Qatal/Yiqtol está explicado no item 1.2 - notas à tradução.
5 Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas.

Notas de autor

Declaração de contribuição de autoria Waldecir Gonzaga é o criador e líder do Grupo de Pesquisa Análise Retórica Bíblica Semítica, credenciado junto ao CNPq, do qual participa o segundo autor, Fabio da Silveira Siqueira. Ambos autores trabalharam no levantamento bibliográfico e contribuíram com a tradução do salmo e com a redação do manuscrito final desse artigo. A revisão final e geral ficou ao encargo do primeiro autor, Waldecir Gonzaga.

Declaración de intereses

Conflito de interesse Os autores declaram não haver conflito de interesses com instituição ou associação comercial de qualquer espécie. De igual modo, a Universidad Católica Luis Amigó não se responsabiliza pelo tratamento dos direitos de autor que os autores efectuem nos seus artigos, pelo que a veracidade e exaustividade das citações e referências são da responsabilidade dos autores.
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