O dispositivo comunicacional nas mídias digitais: um estudo sobre páginas e grupos do Facebook

The communicational device in digital media: a study of Facebook pages and groups

Rosana Mauro
Universidade de São Paulo, Brasil
Roseli Figaro
Universidade de São Paulo, Brasil

O dispositivo comunicacional nas mídias digitais: um estudo sobre páginas e grupos do Facebook

Interin, vol. 23, núm. 2, pp. 90-115, 2018

Universidade Tuiuti do Paraná

Recepción: 20 Febrero 2018

Aprobación: 19 Marzo 2018

Resumo: Neste artigo, as autoras discutem a característica de dispositivo híbrido das páginas e dos grupos no Facebook, considerando o contexto de remediação midiática de Bolter e Grusin (2000). Foram escolhidas para análise duas páginas e dois grupos temáticos do Facebook. A definição de dispositivo retoma o conceito a partir da noção proposta por Dominique Maingueneau (2004), que compreende o dispositivo como o organizador dos elementos de produção, difusão e recepção dos enunciados. Essa definição dá ao conceito um caráter operacional que contribui para a análise dos processos comunicacionais. Verificou-se no corpus analisado marcas discursivas de um dispositivo híbrido com características de um meio dependente do lugar e do tempo da enunciação, mas, ao mesmo tempo, configurado pelas limitações de um meio independente de tais elementos.

Palavras-chave: Dispositivo, Processos comunicacionais, Facebook, Remediação.

Abstract: In this article, the authors discuss the hybrid device features of pages and groups on Facebook, considering the context of Bolter and Grusin's (2000) media remediation. Two pages and two thematic groups of Facebook were chosen for analysis. The definition of the device takes the concept from the notion proposed by Dominique Maingueneau (2004), which comprises the device of the elements of production, diffusion and reception of statements. This definition gives the concept an operational character that contributes to the analysis of communicational processes. In the corpus, were found the discursive marks of a hybrid device with characteristics of a medium depending on the place and time of the enunciation, but at the same time configured by the limitations of a medium independent of such elements.

Keywords: Device, Communicational processes, Facebook, Remediation.

1 Introdução

Com o advento da comunicação digital em rede, tivemos a ampliação dos âmbitos midiáticos na comunicação. Ao longo do tempo, vários autores discorreram sobre essas transformações midiáticas, desde Levy (1999) com o conceito de cibercultura, Castells (2003) e a galáxia da internet, até autores mais recentes como, por exemplo, Jenkins e o conceito de cultura da convergência e da conexão (2009; 2014). O ponto comum entre esses teóricos é o fato de que as transformações trazidas pelo âmbito digital são muito maiores que de infraestrutura. A ação humana e todo o contexto cultural e social devem ser levados em consideração.

Neste artigo, corroboramos essa visão e acreditamos que o conceito de dispositivo comunicacional na era digital se insere nesse contexto. Dispositivo comunicacional[1], de acordo com Maingueneau (2004), é um conjunto de elementos que organiza determinada situação de enunciação. Dentre os elementos considerados estão a mídia (suas características e materialidades), o público e o ambiente que circundam o momento da comunicação. Trata-se de um conceito que extrapola a visão de dispositivo como aparato técnico e abarca a visão midiática de Bolter e Grusin (2000), segundo a qual uma mídia só se estabelece de fato quando um dispositivo técnico se insere nas lógicas econômicas e sociais de dada cultura.

Mais especificamente, Maingueneau (2004) organiza a noção de dispositivo de maneira operacional, estabelecendo que os dispositivos comunicacionais de produção e difusão dos enunciados se materializam em três dimensões: suportes materiais de produção (oral, impresso, manuscrito, sonoro, etc.); situação de difusão (presencial, à distância, mediada, não mediada, interativa, etc.); e situação de recepção (auditório organizado, público disperso, face a face, à distância, etc.).

Nesse cenário, o referido pesquisador aborda a distinção entre o oral e o escrito “[...] a categoria ‘midiológica’ mais antiga e mais solidamente ancorada na cultura” (2004, p. 73) e traz a questão da diferença entre os enunciados estáveis e instáveis. Os primeiros são aqueles que podem ser preservados e os segundos os que se perdem facilmente. Embora relacionemos, comumente, o oral com o volátil e o escrito com o estável, o estudioso nos lembra da existência de gêneros discursivos orais que se perpetuam historicamente pelas culturas, como os lemas, os ditados, as canções e as rezas. Ademais, o desenvolvimento de técnicas e mídias tornou possível à oralidade produzir enunciados estáveis, com o apoio do gravador, do rádio, de técnicas televisuais e da televisão, por exemplo.

Também não faz muito tempo a oralidade em determinadas circunstâncias, como um discurso político, dependia do ambiente à volta do enunciador – o local e o público, como uma praça e uma plateia – hoje, não necessariamente. Os políticos, por exemplo, se comprometem mais com o que dizem e como dizem hoje, pois suas falas se tornaram estáveis e podem ser reproduzidas em qualquer lugar por inúmeras vezes.

Temos, assim, os enunciados dependentes e os independentes do ambiente. No primeiro caso, os comunicadores localizam-se no mesmo ambiente e o coenunciador interfere na fala de forma mais direta, assim como outros elementos. No segundo, o enunciador e o coenunciador não partilham do mesmo ambiente, como ocorre nas transmissões radiofônicas e televisuais.

No caso dos enunciados dependentes, Maingueneau (2004) destaca a utilização de indicadores não verbais, como os gestos, elipses que remetem a algum objeto presente, embreantes que acentuam a situação temporal e espacial da comunicação como “aqui”, “amanhã”, “eu” e “ele”. Também os enunciadores recorrem às modalizações “por assim dizer”, “como é que se diz?” e recursos enfáticos “escute”, “como vocês podem ver”, entre outros. Por outro lado, os enunciados independentes não fazem referências situacionais, e sim intratextuais, por exemplo, com a utilização de datas e localizações precisas no lugar de “hoje”, “amanhã”, “ali” e “aqui”. Embora seja preciso pontuar que essas utilizações não são estanques, uma vez que um enunciado independente possa empregar elementos semelhantes aos dos enunciados dependentes para criar proximidade com o enunciatário. Os textos para rádio são um bom exemplo desse uso.

É pertinente atentar para o modo como o dispositivo comunicacional, seus aspectos materiais, influencia a produção de sentido do enunciado em questão. É esse dispositivo, esse conjunto de fatores, que determina se a fala será em voz alta ou baixa, se é possível criar proximidade com o interlocutor ou não, se a aparência física é importante ou não, se a expressão facial do público influencia o tom do enunciador ou não, e assim por diante. Desse modo, no âmbito do escrito é preciso atentar também para a diferença entre o manuscrito e o escrito impresso, pois: “O escrito não é uma mera representação do oral, nem o impresso uma simples multiplicação do escrito. Oral, escrito e impresso são regimes de enunciação distintos [...]” (MAINGUENEAU, 2004, p. 79) que revelam culturas diferentes.

O autor ressalta que na contemporaneidade as oposições entre impresso e oral, e entre escrito manuscrito e escrito impresso, não permanecem as mesmas.

As técnicas cada vez mais sofisticadas de gravação e de transporte de informação têm modificado os dispositivos de comunicação e, portanto, o estatuto dos enunciados verbais. O mundo contemporâneo caracteriza-se pelo surgimento de novas formas de oralidade que diferem totalmente da oralidade tradicional. (MAINGUENEAU, 2004, p. 81).

Especificamente sobre as redes sociais digitais (embora o pesquisador não se referisse a elas), podemos ressaltar a afirmação do autor de que as novas tecnologias estão questionando a estabilidade material do texto. Segundo ele, o monitor conectado à internet oferece “[...] um texto heterogêneo e em perpétua reconfiguração, em função das decisões de seu ‘leitor’[...]” (2004, p. 82). Assistimos, então, “[...] a uma desmaterialização dos suportes físicos dos enunciados” (2004, p. 83). Nossa tese neste artigo é de que as mídias digitais jogam um papel no dispositivo comunicacional cujo desempenho altera a relação de dependência ou independência do ambiente (espaço/tempo) na comunicação. Essas mídias tornam o dispositivo híbrido, relativizando o valor do espaço/tempo no processo comunicacional. O ambiente adquire um valor relacional e intermediário. A situação de comunicação ganha em proximidade relacional e em presentificação relacional. Ou seja, as mídias digitais acionam no dispositivo uma situação de comunicação em que a linguagem verbal e não-verbal, os temas e o ambiente criam condições de espontaneidade, informalidade, proximidade, fragilidade e esvanecimento das relações. Por outro lado, configura-se um dispositivo de registro e de memória que pode ser acionado e controlado. Por exemplo, embora haja mediadores que distanciam os envolvidos na comunicação espacialmente e temporalmente, a conversa, muitas vezes, se assemelha a uma comunicação face a face; e, diferentemente da situação presencial oral concreta, o dispositivo comunicacional no ambiente das mídias digitais permite a estabilidade e o registro, trazendo alguma independência do ambiente. Para Maingueneau, o dispositivo comunicacional é um operador e potencial organizador das possibilidades de comunicação. Essa potencialidade permite operacionalizar a análise desvendando o valor de cada componente no processo comunicacional. O autor afirma:

Quando tratamos do mídium de um gênero de discurso, não basta levar em conta seu suporte material no sentido estrito (oral, escrito, manuscrito, televisivo, etc.). É necessário também considerar o conjunto do circuito que organiza a fala”(MAINGUENEAU, 2004, p. 72).

Também é importante frisar que nessa concepção de dispositivo comunicacional, o conceito de remediação de Bolter e Grusin (2000) se faz presente. De acordo com os autores, “[...] uma mídia é o que remedia. É o que se apropria das técnicas, formas e significado social de outras mídias e tenta rivalizar ou atualizá-las em nome do real” (2000, p. 65, tradução nossa).

Ou seja, a remediação abarca o significado da mídia que remedia uma anterior, quando a supera, e também no sentido de uma mídia abranger em sua linguagem outras mídias anteriores a ela. Podemos perceber esse aspecto com as possibilidades que as novas mídias conferem ao dispositivo comunicacional, incorporando e ampliando as linguagens midiáticas e formas culturais anteriores.

2 Metodologia

Este trabalho visa a analisar brevemente esse dispositivo comunicacional nas mídias digitais, mediante alguns exemplos, para averiguar como essas características relacionadas à comunicação oral ocorrem e como se dão as mediações midiáticas (LOPES, 2014), relativas à dependência ou independência do enunciado de acordo com o ambiente e o tempo da comunicação. Para tanto, escolhemos páginas do Facebook, nas quais acredita-se ser possível encontrar o caráter intermediário levantado.

Escolhemos quatro páginas do Facebook, duas páginas e dois grupos abertos: Pragmatismo Político (mais de 1 milhão e 100 mil curtidas e seguidores), Não me Kahlo (mais de 1 milhão e 200 mil curtidas e seguidores ), Hortelões Urbanos (mais de 72 mil membros) e Mochileiros (mais de 410 mil membros).[2]

Para a escolha das páginas foram considerados, além da relevância em termos de número de seguidores, o fato das temáticas tratadas (bastante em voga no momento observado) gerarem grande discussão e polêmica entre os participantes, de modo a possibilitar a observação da interação entre pessoas que concordam e discordam entre si e, assim, enriquecer a análise proposta. Já para seleção dos grupos, a temática não se mostrou um dado importante para o objetivo pretendido, visto que nos grupos as pessoas se reunem em torno de um assunto de interesse comum, sendo a discordância de opiniões algo muito raro. Assim, os grupos foram selecionados em virtude da conveniência, já que uma das autoras deste artigo participava dos dois escolhidos, além de contarem com um número razóavel de membros. Cabe ainda ressaltar que este artigo tem caráter experimental e não faz parte de um projeto maior de pesquisa.

3 Análises

3.1 Páginas do Facebook

3.1.1 Pragmatismo Político

A página Pragmatismo Político do Facebook publica temas relacionados à política. As postagens são chamadas com hiperlinks para as matérias produzidas pelo site de mesmo nome. Mais de uma chamada costuma ser postada por dia, as quais rendem as “conversas” por meio de comentários e respostas aos comentários.

Segue o exemplo, na imagem 1, de uma postagem do dia 24 de maio de 2016 com o título “Michel não mexe com os ricos e promove arrocho no andar de baixo”.

Imagem 1: Postagem Pragmatismo Político
Imagem 1: Postagem Pragmatismo Político
Fonte: Retirada do Facebook[3].

Imagem 2: Comentários da página Pragmatismo Político
Imagem 2: Comentários da página Pragmatismo Político
Fonte: Retirada do Facebook[4].

A ferramenta permite aos moderadores da página a publicação de complementos, como vemos na imagem 2, com o título “Análise do programa de Michel Temer provoca arrepios”. É pertinente destacar que a página se coloca como um interlocutor jornalístico impessoal, enquanto o debate se dá por conta dos internautas, por meio de comentários e respostas entre eles. As respostas a determinado comentário se configuram como um diálogo entre os internautas, não somente o post é comentado, mas há a produção de novos enunciados. A partir de um enunciado inicial, totalmente independente do ambiente de recepção, semelhante a uma mídia escrita, tem-se a possibilidade de um enunciado híbrido quanto à dependência do ambiente, porque a conversa que se estabelece entre os internautas provocados pelo post cria uma situação de fala que altera o dispositivo comunicacional. Essa alteração via a situação híbrida do dispositivo permite a remediação (Bolter e Grusin, 2000) do impresso para o digital.

Na imagem 3, temos exemplos de um comentário feito à chamada e quatro respostas a ele. É possível observar que o Facebook[5] permite a “marcação”, ou seja, marcar o nome do perfil de uma pessoa, ou da própria página no caso, para que esta seja notificada e possa se dirigir diretamente ao comentário. No exemplo, temos o uso da “marcação” como um vocativo, recurso utilizado para conversas, de forma a chamar o interlocutor. As respostas se assemelham a uma conversa face a face, pois é clara a referência ao que foi dito acima. Por exemplo, a penúltima resposta, “Você não sabe o que quer dizer a desvinculação de receitas pra gastos com saúde e educação?”, se contrapõe ao comentário de que não estaria sendo feito nenhum “arrocho” no programa de Michel Temer.

Imagem 3: Comentários da página Pragmatismo Político
Imagem 3: Comentários da página Pragmatismo Político
Fonte: Retirada do Facebook[6].

As pessoas se tratam por você, como em um bate-papo informal, também utilizam linguagem coloquial e, às vezes, de baixo calão. É perceptível que não há grande preocupação com o uso do português padrão, há muitos erros ortográficos, o importante é o fluxo da conversa e a informalidade. Alguns casos são visivelmente erros de digitação, pela pressa na qual essas mensagens são digitadas, o que nos remete ao imediatismo de uma conversa face a face. Outras marcas se referem à forma falada, como a supressão do “r” na palavra “cortar”, muito comum entre os falantes do português do Brasil. O uso de caixa alta também serve para enfatizar o que está sendo dito e sugere irritação ou fala em tom mais alto.

É importante ressaltar o clima de debate e discussão nessa página, às vezes até em tom agressivo e grosseiro. Trata-se de um espaço que agrupa pessoas com diferentes opiniões. Vejam o exemplo, na imagem 4, da seguinte postagem do dia 27 de maio de 2016, sobre a reunião do ministro da educação do governo Temer, Mendonça Filho (DEM-PE), com o ator pornô Alexandre Frota, que confessou ter cometido um estupro, quando participava, em rede nacional, no programa de televisão “Agora é Tarde”, apresentado por Rafinha Bastos. Confissão que, espantosamente, provocou aplausos da plateia que achou graça do relato.

Imagem 4: Postagem Pragmatismo Político
Imagem 4: Postagem Pragmatismo Político
Fonte: Retirada do Facebook[7].

Imagem 5: Comentários na página Pragmatismo Político
Imagem 5: Comentários na página Pragmatismo Político
Fonte: Retirada do Facebook[8].

Imagem 6: Comentários na página Pragmatismo Político
Imagem 6: Comentários na página Pragmatismo Político
Fonte: Retirada do Facebook[9].

O post destaca a fala do escritor e jornalista Lira Neto, "Imaginei que, numa altura dessas da vida, nada mais me chocasse em política. Me enganei", seguida da chamada “Audiência de Mendonça Filho (DEM-PE) com Alexandre Frota e Revoltados Online para receber dicas e propostas continua sendo alvo de críticas. Ministro da Educação divulgou uma nota para justificar o encontro: Revoltados Online é um grupo extremista de direita”.

Abaixo de duas fotografias do ministro com o ator pornô (parecem duas selfies tiradas por Frota. Em uma delas o ministro trabalha ao fundo e, na segunda, os dois estão lado a lado, enquanto o ministro sorri) há o título com o link “Reunião de ministro com Alexandre Frota foi afronta a educadores do Brasil”.

Após o enunciado de protesto de um internauta, na imagem 5, “Cara que bizarro Educação e Alexandre Frota no mesmo texto”, houve respostas de apoio, postagens de notícias e também oposições ao enunciado com maneiras de desmoralizar o movimento de esquerda e menção ao Partido dos Trabalhadores, sem conexão com o post principal e os comentários anteriores, como vemos também na imagem 6.

A entrada de novos enunciadores comentando o post principal e inserindo comentários e argumentos que ampliam o debate cria um novo dispositivo comunicacional. Aquele inicial, do post sobre a reunião do Ministro da Educação com o ator que confessa ter estuprado alguém, foi alterado à medida que os enunciadores comentam, discutem entre si e acrescentam outros temas. De uma comunicação marcada pelo registro do escrito, tem-se a remediação (Bolter e Grusin, 2000) pelo debate simulando uma conversa presencial face a face. Nessa simulação de conversa, a conexão de mídia, o tema e a forma da expressão do enunciado ganham relevância, dando ao tempo/espaço valor relacional. Ao mesmo tempo há um valor intermediário entre dependência e independência do ambiente.

3.1.2 Não me Kahlo

A página Não me Kahlo (nome que brinca com o verbo calar e o sobrenome da pintora mexicana Frida Kahlo) é parte do coletivo feminista de mesmo nome, cuja proposta é debater o feminismo e suas vertentes. Diferente do Pragmatismo Político, as postagens não são originadas de produções próprias e sim matérias e notícias de outros veículos, como a postagem abaixo do dia 24 de maio, com o título “Um encontro para discutir feminismo e representatividade LGBT na escola”, replicada do site Quero na Escola.

Os temas recorrentes abordam os direitos das mulheres, como o direito ao aborto, questões referentes ao feminismo negro, divulgação de eventos sobre feminismo, divulgação de entrevistas concedidas pelo coletivo à mídia, representatividade LGBT, casos de machismo, assédio e violência contra a mulher, questões étnicas, entre outros assuntos pertinentes que tangenciam a questão de gênero, como consta na imagem 7.

Imagem 7: Postagem página Não Me Kahlo
Imagem 7: Postagem página Não Me Kahlo
Fonte: Retirada do Facebook[10].

Imagem 8: Comentários da página Não Me Kahlo
Imagem 8: Comentários da página Não Me Kahlo
Fonte: Retirada do Facebook[11].

Na postagem destacada, na imagem 8, os comentários são de afirmação e elogio da iniciativa do encontro para discutir feminismo e representatividade LGBT na escola. Observa-se o uso de emojis de corações, o que pode ser interpretado como uma forma de demonstrar sentimento, em substituição aos gestos e expressões possíveis em uma conversa face a face. Nos comentários, é possível averiguar que algumas pessoas “marcam” os perfis de outras que não estão “na conversa” naquele momento. Isso torna o diálogo mais pessoal, pois quando o indivíduo marcado toma conhecimento costuma dirigir-se ao amigo em resposta ao comentário com a marcação.

Na página, também há discussões e posicionamentos contrários sobre assuntos, como no caso da matéria postada no dia 01 de junho de 2016, reproduzida do site do jornal Estadão, com o título “Nova secretária de Mulheres é evangélica e contra o aborto até em caso de estupro”, na imagem 9. Na própria postagem há reprodução dos comentários da atriz Leandra Leal, realizada no Twitter, manifestando-se contra o posicionamento da secretária.

Imagem 9: Postagem da página Não Me Kahlo
Imagem 9: Postagem da página Não Me Kahlo
Fonte: Retirada do Facebook[12].

O comentário de uma internauta, na imagem 10, se opõe ao posicionamento da secretária e faz referência a passagens da Bíblia de forma irônica. “Cara, não pensam na mulher, pelo trauma de ser estuprada, não pensa em como vai ser a vida da criança que é fruto de um estupro... Enfim, “vão se amontoar em seus saleiros! Afinal, são o sal da Terra...””. Em meio a respostas de apoio ao comentário, há uma internauta que se manifesta dizendo que a deputada é contra o aborto não pela religião, mas por ter sido fruto de um aborto.

Outra enunciadora contesta dizendo que a lei permite o aborto em caso de estupro, com um discurso que visa contrariar o comentário inicial, inclusive com a provocação “... examine as leis”, mas sem entender que a matéria diz justamente que a secretária é contra até mesmo para esses casos. Como resposta a esse enunciado específico, há uso de expressões que podem conotar ironia no contexto de discordância, como “linda” e “coleguinha Gaby”. Percebe-se também a dominância de interlocutoras mulheres, em decorrência da temática da página e da postagem especificamente.

Imagem 10 e 11: Comentários da página Não Me Kahlo
Imagem 10 e 11: Comentários da página Não Me Kahlo
Fonte: Retirada do Facebook[13].

Imagem 10 e 11: Comentários da página Não Me Kahlo
Imagem 10 e 11: Comentários da página Não Me Kahlo
Fonte: Retirada do Facebook

Algumas respostas, na imagem 11, contestam a enunciadora que comentou sobre o posicionamento da secretaria ser em decorrência da sua origem por um aborto. Outras revelam um posicionamento bastante tradicional, ignorando a violência contra a mulher no caso do estupro. “Povo ignorante e medíocre!! Retrocesso é a animalização pela qual essa sociedade está passando. Querem viver a mercê apenas de seus instintos como animais. A criança não tem culpa de ter sido gerada por meio de um estupro...”. “Ok, agora só falta educar as mulheres para ter responsabilidade na hora de manter relações, afinal qualquer mulher hoje em dia sabe como evitar gravidez. No caso de estupro o nascimento de uma criança é o menos dos males que um estupro pode causar a um...”. “Bom, se você não quiser a criança, pois eu quero!”.[14]

Percebe-se que o dispositivo comunicacional permite um acalorado debate, muito embora seja regrado por restrições próprias do site. O tema do debate convoca diferentes opiniões e níveis de fala – alguns mais adequados à norma padrão da língua, outros menos adequados – cujos coenunciadores criam uma situação de comunicação em que o espaço/tempo tem outra natureza.

A página Pragmatismo Político permite que qualquer pessoa faça uma postagem, porém na configuração da linha do tempo essas postagens são dispostas separadamente, do lado esquerdo da página, com pouco destaque. Já, em Não me Kahlo os visitantes não podem postar, eles apenas comentam e respondem as postagens realizadas. Os comentários acima expostos foram selecionados a partir da escolha “principais comentários (sem filtro)”.[15] Não foi possível encontrar em Pragmatismo Político e Não me Kahlo as regras das páginas. Perguntamos por e-mail. Não me Kahlo respondeu que a página não possui regras específicas, e não obtivemos resposta a respeito de Pragmatismo Político. De qualquer forma, havendo a possibilidade de moderação por parte dos administradores das páginas, percebe-se certa liberdade de opiniões. Porém, as postagens já indicam o tema a ser discutido, como uma espécie de provocação. Há uma centralidade a esse respeito, tanto é que as postagens dos internautas são disponibilizadas em um espaço separado no caso de Pragmatismo Político, e em Não me Kahlo, os internautas nem conseguem postar.

É possível inferir que as páginas da internet aqui expostas compõem um dispositivo comunicacional híbrido, que possibilita a realização de um debate e revela as lutas ideológicas na sociedade brasileira, muitas vezes, veladas em dispositivos comunicacionais dependentes do ambiente. Nesses últimos, as pessoas se deparam com interferências situacionais que não permitem a sensação de liberdade conferida no ambiente digital, onde, apesar da simulação de uma conversa face a face, as pessoas se escondem por detrás de seus perfis virtuais. Além disso, há a criação de um espaço propício a essa discussão o que não ocorre com os dispositivos independentes do ambiente, que apresentam um caráter unilateral.

Ao mesmo tempo, esses mesmos dispositivos híbridos podem promover o encontro de pessoas, em torno de temas bastante específicos, em grupos de interesse que, embora se assemelhem muito a uma conversa face a face - com maior liberdade de postagem e produção de conteúdo - apresentam regras formais e também não explicitadas (convencionais) de interação, que inibem um espaço de debate, conforme veremos nos exemplos a seguir.

3. 2 Grupos Abertos do Facebook

3.2.1 Hortelões Urbanos e Mochileiros

Nesses grupos do Facebook o tom pessoal da conversa é bastante evidente, sem necessariamente as pessoas dos perfis se conhecerem pessoalmente. São grupos com foco específico, nos quais todos os participantes podem realizar postagens, não há uma centralização como ocorre no caso das páginas. Hortelões Urbanos é um grupo de pessoas que cultivam hortas no ambiente urbano. Já Mochileiros é um grupo para pessoas que gostam de viajar e têm interesse em viagens, de forma geral.

As postagens de ambos são, muitas vezes, pedidos de ajuda, conselhos, sugestões e divulgação de experiências pessoais, além de matérias de outros veículos e curiosidades sobre o tema, como mostram os exemplos nas imagens 12 e 13, do dia 02 de junho de 2016.

Imagem 12: Grupo Hortelões Urbanos
Imagem 12: Grupo Hortelões Urbanos
Fonte: Retirada do Facebook [16].

Imagem 13: Comentários do grupo Hortelões Urbanos
Imagem 13: Comentários do grupo Hortelões Urbanos
Fonte: Retirada do Facebook[17].

Na imagem 12, um professor de geografia pede ajuda aos colegas do grupo, devido a uma proposta de realizar um projeto de horta, com os alunos na escola onde trabalha. As pessoas respondem tentando ajudá-lo. Na postagem da imagem 13, um internauta mostra as suas mudas de sálvia com uma fotografia e descrição, as respostas são para parabenizar e compartilhar outras experiências.

Imagem 14: Postagem do grupo Mochileiros
Imagem 14: Postagem do grupo Mochileiros
Fonte: Retirada do Facebook[18]

Imagem 15: Grupo Mochileiros
Imagem 15: Grupo Mochileiros
Fonte: Retirada do Facebook[19].

Desse modo, vemos nesses grupos conversas mais pessoais, guiadas pela afinidade em torno do tema principal, como vemos na imagem 14. O aspecto visual é bastante importante, com fotografias das viagens (presentes nas imagens 15 e 16) e das plantas, por exemplo. A ferramenta de compartilhamento instantâneo permite essa interação via fotografias. Muitas vezes, os internautas se comunicam por smartphones, o que facilita o compartilhamento de imagens.

Imagem 16: Grupo Mochileiros
Imagem 16: Grupo Mochileiros
Fonte:Retirada do Facebook [20].

Por outro lado, os dois grupos possuem regras quanto às postagens. Há certo controle de acordo com o conteúdo do que é publicado. Ambos dispõem seus regulamentos. Hortelões Urbanos explica suas regras na página inicial no canto direito da tela. O seguinte trecho recortado demonstra um pouco a política do grupo e a presença da linguagem verbal escrita na norma padrão dá o tom da normatização do veículo.

Hoje em dia somos muitos, então é preciso cuidar para que todos tenham oportunidade de encontrar seu lugar ao sol. Ou seja, recomendamos não fugir muito do tema central do grupo e evitar postagens repetitivas. Não existem mediadores, apenas um grupo de voluntários que denominamos administradores, cuja principal função é evitar a entrada de perfis fake ou trolls, a divulgação de posts e comentários fora do contexto ou ofensivos. Convidamos todos os hortelões a participar e também ajudar a mediar as conversas, sabendo que somos igualmente membros e corresponsáveis pela convivência aqui. Como o grupo não tem coordenadores ou representantes, não adere a abaixo-assinados e não tem participação oficial em eventos ou movimentos. Se o assunto em pauta está relacionado ao tema do grupo, a divulgação é bem-vinda e cada membro decide se e como aderir. Evita-se ao máximo a censura, mas alguns tipos de post não são aceitos e serão excluídos imediatamente. São eles: ofensas, anúncios de produtos ou serviços, comentários político-partidários[21].

Mochileiros dispõe um link sobre o assunto[22]. Nas informações está claro que existe um controle do que é publicado, por exemplo, eles não aceitam posts de propaganda ou que peçam curtida a outra página, entre outros. Também há a informação de que os administradores do grupo não respondem mensagem inbox e “consideram que as possíveis dúvidas relativas à dinâmica do espaço foram esclarecidas aqui”.

Chama a atenção o seguinte item: “Caso você não concorde com o formato do grupo, por gentileza saia do mesmo. No Facebook há diversos outros grupos para mochileiros”. Ou seja, a página não parece ser aberta a diferentes temas e posições. Porém, eles permitem nessa página de informações que sejam publicados comentários. Há dois comentários, realizados pelo Facebook, de pessoas que foram excluídas do grupo. “Eu estava com um post bombando em dicas bem legais, e de repente fui banido: (Não sei se foi por algum engano ou se eu realmente infringi alguma regra do grupo. Não consigo acessar o grupo e nem responder as perguntas que a galera está me fazendo no post. O que posso fazer pra voltar ao grupo?” e “Fui banido por um erro que não sabia... Como voltar a fazer parte do grupo?”, não há respostas a esses dois comentários.

Tais observações parecem dar sentido aos comentários, expostos anteriormente, de que esses grupos abertos enquanto dispositivos híbridos promovem uma conversa semelhante àquela face a face; mas, ao mesmo tempo, apresentam maiores restrições ao conteúdo, ou por regras explícitas, ou de forma convencionada, pois não faz parte do gênero comunicacional desses grupos a exposição de comentários de contestação ou que fujam da temática sugerida. A exclusão de comentários e bloqueios de membros faz parte de um recurso possibilitado pelos grupos que se assemelha ao dispositivo independente, devido a atitudes unilaterais que não são influenciadas pela situação comunicacional. De outro modo, o tom de conversa e a convenção implícita assemelham-se aos dispositivos dependentes do ambiente.

4 Considerações finais

O fato de cada pessoa estar atrás de sua tela no ambiente comunicacional virtual usando as ferramentas tecnológicas disponíveis, que remetem a diversas mídias, torna possível o uso simultâneo de recursos e o compartilhamento de conteúdos produzidos de forma relativamente mais autônoma, diferente dos dispositivos comunicacionais dependentes e independentes do meio. Por exemplo, nos meios de comunicação de massa, o dispositivo independente do meio evidencia que a comunicação produzida está centrada no veículo.

Já nos dispositivos dependentes do meio, com o espaço e o tempo compartilhados presencialmente, o compartilhamento possibilitado de informações e produtos é limitado sem o uso de ferramentas tecnológicas. E mesmo quando se faz uso delas, não existem as lógicas e regras do espaço interacional de um dispositivo híbrido como a internet, que nos possibilita a “proteção” quanto às interferências temporais e espaciais de um dispositivo dependente.

A total dependência do meio em situações presenciais - nas quais as pessoas podem se interromper sem que haja a conclusão de uma frase e podem expressar qualquer opinião - não ocorre nas mídias de interação. Não só pelas limitações puramente tecnológicas - por exemplo, não é possível que dois posts ocupem um mesmo espaço, como as falas interpostas em uma mesma conversa, ou ver os gestos e expressões das pessoas (embora os emojis tentem reproduzir alguns sentimentos) - como também por regras e moderações controladas pelas pessoas que administram as páginas e os grupos do Facebook. Não se trata de um espaço totalmente livre de regras e das normas dos moderadores.

Também é possível inferir que haja um mesmo espaço virtual compartilhado pelos usuários, no qual as pessoas se organizam em torno de temas de interesse e discussões. Um espaço com o seu tempo próprio, no qual as pessoas podem entrar e sair quando bem entenderem, sem as interferências da comunicação presencial, totalmente dependente do meio, ainda que não se trate da independência dos meios de comunicação de massa. Assemelha-se a uma conversa face a face, em determinados casos, mas existem regras, muitas vezes ocultas no momento da visualização da página, como a moderação de comentários, em alguns casos. É possível refletir que as mídias digitais de interação proporcionam um meio no qual as pessoas se sintam à vontade como em uma conversa presencial, mas sem os incômodos e interferências que essa possa causar, como em um universo paralelo idealizado, mas que nem sempre torna visível as suas limitações. Essas marcas são materializadas pela forma do discurso. Os enunciados criados por cada participante no dispositivo comunicacional analisado revelam o hibridismo de situações nem totalmente independente do lugar e do tempo, nem totalmente dependentes desses componentes, como é o caso da comunicação presencial. Estamos diante de um fenômeno que se apropria de elementos das situações de oralidade e de elementos dos veículos de comunicação.

O hibridismo do dispositivo comunicacional analisado nos remete ao conceito de remediação (BOLTER; GRUSIN, 2000). É possível perceber a presença de outras mídias nas redes sociais digitais, porém mediante novos usos. É como se as mídias, com a remediação, quebrassem cada vez mais, com sua constante atualização, os limites materiais dos suportes e permitissem novas configurações comunicacionais.

Por fim, a noção de dispositivos comunicacionais de Maingueneau nos ajuda a compreender as relações de comunicação e o processo comunicacional. Não tem pretensões de explicar as estruturas sociais. Colabora para que possamos estudar os elementos que compõem o comunicacional. O conceito de dispositivo dá peso e importância equivalentes a todos os elementos que compõem esse processo. Alterar um deles é alterar o dispositivo comunicacional. Conquanto os elementos tecnológicos, tempo, lugar, coenunciadores tenham sido problematizados nesse artigo, é relevante ressaltar o tema como componente do dispositivo e fator igualmente relevante para se estudar as situações de comunicação e suas especificidades.

REFERÊNCIAS

BOLTER, Jay; GRUSIN, Richard. Remediation: understanding new media. MIT Press, 2000.

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet – reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. Tradução: Susana Alexandria. São Paulo: Aleph, 2009.

JENKINS, Henry. Cultura da Conexão: criando valor e significado por meio da mídia propagável. São Paulo: Aleph, 2014.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução: Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Ed. 34, 1999.

LOPES, Maria Immacolata V. Mediação e recepção. Algumas conexões teóricas e metodológicas nos estudos latino-americanos de comunicação. Matrizes, V.8 - Nº 1, jan./jun. 2014.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de Textos de Comunicação. Tradução: Cecília P. de Souza e Décio Rocha. São Paulo: Cortez, 2004.

Notas

[1] Há inúmeras apropriações do termo dispositivo. Michel Foucault e depois Agamben elevam o conceito a um nível explicativo geral das relações sociais em termos micro e macroestruturais. Nós tratamos aqui da abordagem mais operacional proposta por Maingueneau, cujo objetivo é explicar as situações de comunicação e a circulação do discurso. Em artigo, para a Alaic/2016, Figaro e Grohmann discutem o conceito de dispositivo para entender as relações de comunicação no mundo do trabalho.
[2] Dados verificados em setembro de 2017.
[3] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[4] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[5] É possível comentar e também compartilhar o post com o botão “compartilhar”. Além disso, há a opção de curtir o que foi postado, clicando no botão “curtir” com o símbolo de um polegar levantado. A partir de fevereiro de 2016, também é possível interagir com os emojis de coração, cara de alegria, cara de tristeza, espanto e raiva. As novas ferramentas foram colocadas de acordo com os comentários mais comuns no facebook. Ver matéria sobre o assunto disponível em: . Acesso em: 01 jun. 2016.
[6] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[7] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[8] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[9] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[10] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[11] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[12] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[13] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[14] Essas respostas ao comentário aqui mencionadas também geraram outras respostas que não foram analisadas neste artigo.
[15] Texto inteiro dessa opção: “Principais comentários (sem filtro). Todos os comentários, incluindo comentários de spam e em outros idiomas, sendo que os comentários de spam mais relevantes aparecem na parte superior”.
[16] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[17] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[18] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[19] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[20] Disponível em: . Acesso em: 05/09/2017.
[21] Hortelões. Disponível em: .
[22] Mochileiros: Disponível em: .
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