Resumo: Objetivo: verificar associação entre as características sociodemográficas e obstétricas de adolescentes puérperas. Método: estudo transversal realizado entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021, por meio de entrevista com 52 adolescentes puérperas assistidas em maternidade pública. Resultados: predominância de adolescentes puérperas procedentes da zona urbana (61,5%), com cônjuge (82,7%), companheiro em atividade remunerada (71,2%), autodeclaradas não brancas (92,3%), ensino fundamental II ou médio (61,5%), trabalhando (65,4%) e com crença religiosa (78,8%). Não houve diferença no perfil sociodemográfico e obstétrico de adolescentes puérperas de áreas urbanas e rurais; o início tardio do pré-natal (> 8 semanas) foi associado à menor idade das participantes; a não realização de exame Papanicolaou foi associada à condição de ter alguma ocupação; a ocorrência de intercorrência na gestação foi associada ao estado de viver com cônjuge ou companheiro. Conclusão: houve semelhança com o perfil de puérperas adolescentes apresentado na literatura.
Palavras-chave: Demografia, Adolescente, Gravidez na adolescência, Período pós-parto.
Abstract: Objective: to verify an association between the sociodemographic and obstetric characteristics of postpartum adolescents. Method: cross-sectional study conducted between December 2020 and February 2021, through interviews with 52 postpartum adolescents assisted in public maternity. Results: predominance of postpartum adolescents from urban areas (61.5%), with spouse (82.7%), partner in paid activity (71.2%), self-declared non-white (92.3%), elementary school II or high school (61.5%), working (65.4%) and religious belief (78.8%). There was no difference in the sociodemographic and obstetric profile of postpartum adolescents from urban and rural areas; the late onset of prenatal care (> 8 weeks) was associated with the participants' lower age; the non-performance of papanicolaou examination was associated with the condition of having some occupation; the occurrence of complications during pregnancy was associated with the state of living with a spouse or partner. Conclusion: there was similarity with the profile of postpartum adolescents presented in the literature.
Keywords: Demography, Adolescent, Pregnancy in adolescence, Postpartum period.
Resumen: Objetivo: verificar la asociación entre características sociodemográficas y obstétricas de adolescentes posparto. Método: estudio transversal realizado entre diciembre de 2020 y febrero de 2021, mediante entrevistas a 52 adolescentes posparto atendidas en una maternidad pública. Resultados: predominio de adolescentes postparto de áreas urbanas (61,5%), con cónyuge (82,7%), compañero en actividad remunerada (71,2%), auto declaradas no blancas (92,3%), primaria II o media (61,5%), trabajando (65,4%) y con creencias religiosas (78,8%). No hubo diferencia en el perfil sociodemográfico y obstétrico de las adolescentes posparto de áreas urbanas y rurales; el inicio tardío de la atención prenatal (> 8 semanas) se asoció con una edad más joven de las participantes; no hacerse una prueba de Papanicolaou se asoció con la condición de tener alguna ocupación; la aparición de complicaciones durante el embarazo se asoció con el estado de vida con un cónyuge o pareja. Conclusión: hubo similitud con el perfil de madres adolescentes presentado en la literatura.
Palabras clave: Demografía, Adolescente, Embarazo en Adolescencia, Periodo Posparto.
Artigo Original
Associação entre fatores sociodemográficos e obstétricos de adolescentes puérperas assistidas em uma maternidade pública
ASSOCIATION BETWEEN SOCIODEMOGRAPHIC AND OBSTETRIC FACTORS OF POSTPARTUM ADOLESCENTS ASSISTED IN A PUBLIC MATERNITY
ASOCIACIÓN ENTRE FACTORES SOCIODEMOGRÁFICOS Y OBSTÉTRICOS DE ADOLESCENTES PUERPERALES ASISTIDOS EN UNA MATERNIDAD PÚBLICA

Recepción: 29 Agosto 2021
Aprobación: 14 Noviembre 2023
A adolescência caracteriza-se por um ciclo do desenvolvimento humano marcado por transformações mentais, sociais, física e biológica que antecedem a vida adulta, sendo que as duas últimas, destacam-se pelo fato das mudanças físicas provenientes da puberdade, converte um corpo de criança em um corpo adulto, capaz de se reproduzir.1 Acrescido a isso, o início da vida sexual precoce, a carência de informação, o não uso de métodos anticoncepcionais e valores culturais e sociais, favorecem a ocorrência de uma gravidez não programada.
No Brasil, a partir do ano 2000, as taxas de gravidez na adolescência apresentaram diminuição vagarosa e progressiva, chegando a 62/1.000 adolescentes em 2015 e 54/1.000 jovens de 15- 19 anos em 2018. Apesar dessa redução, o país ainda apresenta índices altos quando comparado com outros países da América Latina, em 2019 contabilizou o número de 19.330 nascimentos de bebês, no qual a cada 30 minutos meninas de 10 a 14 anos se tornaram mãe.2
A maternidade na adolescência poderá ocasionar inúmeras transformações biopsicossociais, contudo neste período constitui um fato que ultrapassa os aspectos clínicos, tais como efeitos negativos nas esferas culturais, econômicas e sociais que afetarão diretamente a vida materno-fetal3 e o período puerperal.
O puerpério decorre após o parto e estende-se por até seis semanas, quando as alterações dos órgãos reprodutores e o estado geral da mulher já voltaram às condições anteriores à gestação. Entretanto, outros estudos, definem puerpério como pós-parto remoto, um tempo após o 45º dia até 12 meses posterior à concepção, mediante diferentes períodos de restauração do estado pré-gestacional da mulher.4
Diante do exposto, conhecer o perfil das adolescentes puérperas torna-se relevante para o diagnóstico de possíveis problemas no contexto da saúde pública, saúde da mulher e saúde materno-infantil, ao mesmo tempo proporciona a pesquisas futuras o direcionamento de mecanismos de ações eficientes para auxiliar os profissionais de saúde envolvidos na atenção básica com o controle das taxas de paridade em adolescentes,5 e consequentemente, melhorias na qualidade do atendimento à população-alvo, através de uma melhor identificação e caracterização da clientela assistida.
Deste modo, objetivou-se neste estudo verificar associação entre as características sociodemográficas e obstétricas de adolescentes puérperas assistidas em uma maternidade pública no município de Petrolina - PE.
Trata-se de um estudo transversal e analítico, sendo realizado em uma maternidade pública de referência para o atendimento às puérperas no município de Petrolina, PE, Brasil.
A população elegível era de 14.625 adolescentes de 10 a 19 anos e o quantitativo de adolescentes grávidas no mês de fevereiro de 2020 foi de 188 com base nas informações da Secretária de Saúde de Petrolina. A classificação para o conceito de adolescente utilizada neste estudo foi determinada a partir da Organização Mundial de Saúde (OMS).6
O cálculo do tamanho da amostra mínimo necessário para que se pudesse realizar a pesquisa foi baseado na estimativa de médias populacionais, levando em consideração a amostra para populações finitas, considerando a proporção de 2% como o percentual da característica de interesse, erro máximo de 5%, nível de confiança de 99%, a amostra calculada foi de 52 puérperas adolescentes.
As participantes foram selecionadas por amostragem simples ao acaso, a partir da abordagem das puérperas no alojamento conjunto, sendo elegíveis as adolescentes puérperas que estavam internadas com idade entre 10 e 19 anos, dispostas a responderem o questionário no momento da coleta dos dados e portando documento legal para comprovar a idade.
Foram excluídas adolescentes puérperas que se recusaram a assinar o Termo de Assentimento ou que não estavam acompanhadas por um responsável legal, ou ainda apresentassem comorbidades que pudessem dificultar a compreensão do instrumento utilizado no estudo ou não finalizar o questionário. Para as adolescentes de 18 anos ou mais foi exigido a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e puérperas menores de 18 anos, o Termo de Assentimento assinado pelo seu representante legal.
A coleta de dados ocorreu no período entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021, através da aplicação de um questionário estruturado que abordou as características sociodemográficas, obstétricas e ginecológicas, aplicado de forma individual. A puérpera recebeu inicialmente as informações sobre a pesquisa e após o completo entendimento e concordância sobre a sua participação, assinou o termo. A aplicação do questionário teve duração máxima de 20 minutos e ocorreu em uma sala reservada para garantir sua privacidade.
Utilizou-se o programa IBM® SPSS 21.0. para procedimentos da estatística descritiva e expressar resultados como frequências absolutas e relativas, médias e desvios padrão (DP) e valores mínimos e máximos. As frequências foram comparadas por meio dos testes qui- quadrado ou exato de Fisher (para os casos em que a frequência esperada foi menor que cinco). No caso do teste qui-quadrado, foi aplicada a correção de continuidade para as tabelas de contingência 2x2. O nível de significância adotado no estudo foi de 5%.
O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano - IF Sertão-PE (CAAE 31396920.8.0000.8052).
Participaram do estudo 52 puérperas adolescentes, 32 procedentes da zona urbana e 20 da zona rural, com idade variando de 13 a 19 anos (média = 17,2 anos; DP = 1,7 anos), 34 (65,4%) entre 13 e 18 anos, 43 (82,7%) viviam com cônjuge ou companheiro, 37 (71,2%) o pai da criança apresentava atividade remunerada, 48 (92,3%) autodeclararam cor/raça não branca, 32 (61,5%) possuíam ensino fundamental II ou médio, 34 (65,4%) tinham alguma ocupação (i.e., estudo ou trabalho) e 41 (78,8%) referiram alguma religião. Não foram encontradas diferenças significativas nas características sociodemográficas entre as adolescentes procedentes das áreas urbanas e rurais.
O perfil obstétrico das adolescentes puérperas apontou que a maior parte da amostra, 40 adolescentes (76,9%) estavam na primeira gestação, 34 (65,4%) iniciaram o pré-natal após 8 semanas de gestação, 44 (84,6%) não realizou exame Papanicolaou, 47 (90,4%) não participavam de grupo de planejamento familiar e 41 (78,8%) tiveram alguma intercorrência na gestação. Não houve diferença estatística no perfil obstétrico entre as adolescentes procedentes das áreas urbanas e rurais.
Na tabela 1 observa-se que mesmo havendo diferenças proporcionais entre as variáveis grupo etário, companheiro com atividade remunerada, escolaridade, ocupação e religião, não foram observadas associações estatisticamente significantes destas características com o número de gestações anteriores.
Tabela 1 - Associação entre as características sociodemográficas e o número de gestações anteriores de puérperas adolescentes assistidas em uma maternidade pública. Petrolina, PE, Brasil, 2021 (n=52)

*Teste exato de Fisher.
A tabela 2 evidencia a associação entre o início do pré-natal e a idade das participantes, com os dados indicando que o início do pré-natal (> 8 semanas) foi mais frequente entre as adolescentes mais novas (13 -18 anos).
Tabela 2 - Associação entre as características sociodemográficas e o início do pré-natal de puérperas adolescentes assistidas em uma maternidade pública. Petrolina, PE, Brasil, 2021 (n=52)

* Testes qui-quadrado (grupo etário, pai exerce atividade remunerada, escolaridade e ocupação) exato de Fisher (vive com cônjuge/companheiro, cor/raça e religião).
A tabela 3 apresenta a associação entre a realização de exame Papanicolaou e a ocupação das participantes, com os dados indicando que a não realização de exame Papanicolaou foi mais frequente entre as adolescentes com alguma ocupação.
Tabela 3 - Associação entre as características sociodemográficas e a realização de exame Papanicolaou por puérperas adolescentes assistidas em uma maternidade pública. Petrolina, PE, Brasil, 2021 (n=52)

*Teste exato de Fisher.
A tabela 4 demonstra a inexistência de associação entre a participação em grupo de planejamento familiar e as variáveis sociodemográficas avaliadas.
Tabela 4 - Associação entre as características sociodemográficas e participação de grupo de planejamento familiar entre puérperas adolescentes assistidas em uma maternidade pública. Petrolina, PE, Brasil, 2021 (n=52)

Teste exato de Fisher.
*
A tabela 5 aponta que houve associação entre intercorrência na gestação e estado conjugal, com os dados indicando que intercorrência na gestação foi mais frequente entre as adolescentes que vivem com cônjuge ou companheiro.
Tabela 5 - Associação entre as características sociodemográficas e intercorrência na gestação por puérperas adolescentes assistidas em uma maternidade pública. Petrolina, PE, Brasil, 2021 (n=52)

Teste exato de Fisher.
*
DISCUSSÃO
Neste estudo, mesmo os testes estatísticos não apontando diferenças significativas sobre a caracterização descritiva das variáveis sociodemográficas e reprodutivas da amostra deste estudo de acordo com a procedência (área rural e área urbana), faz-se necessário apresentar comentários sobre algumas variáveis que chamaram atenção, a começar, o perfil sociodemográfico que foi caracterizada por predominância de puérperas de 13 a 18 anos, com cônjuge ou companheiro, pai do bebê com atividade remunerada, cor/raça não branca, ensino fundamental II ou médio, ocupação e alguma religião.
Sobre a idade entre estas adolescentes puérperas, subentende-se que ocorreu o início de experiências sexuais e exposição ao risco de gravidez de forma precoce. Esta situação representa alto risco para eventos adversos que afetam a saúde do binômio mãe-bebê, tais como, aumento da mortalidade materna e do recém-nascido, baixo peso ao nascer, pré-eclâmpsia, eclampsia, aborto, crescimento intrauterino restrito, diabetes gestacional, parto precoce, complicação na lactação, óbito neonatal, entre outros.7 Com relação à idade e procedência, nas puérperas provenientes da área urbana quando comparada a área rural, observa-se uma proporção importante na faixa etária de 13-18 anos (68,8%). Este resultado corrobora com estudo realizado em uma maternidade de referência em João Pessoa-PB, pois 85% das puérperas são de precedência urbana8.
Apesar da população urbana ter mais acesso à educação e acesso mais fácil às informações,9 no presente estudo tem-se uma maior proporção de puérperas nesta localização. Com isso, infere-se que essa situação pode se dá pela inexistência ou baixa oferta de programas voltados para temas sobre sexualidade, gravidez na adolescência, contudo, ainda que tenham acesso à informação, por algum motivo, não fazem uso e se apoderam de conceitos errados, cheio de tabus, além disso, os jovens criam uma ilusão de imunidade relacionada à gravidez precoce e praticam o sexo sem proteção.10
No tocante à variável “vive com cônjuge/companheiro”, 28 (87,5%) adolescentes provenientes da área urbana apresentaram maior proporção de afirmação. Ter um companheiro participativo no momento da gestação, é um fator positivo na vida da adolescente, pois possibilita compartilhamento de funções e suporte, inclusive emocional,11 também, viver com o companheiro é um dos fatores que pode facilitar a adesão ao pré-natal.12
Adicionalmente, a análise de variáveis sociodemográficas, raça/cor, torna-se importante neste estudo, considerando que no Brasil a questão racial é considerada um elemento estruturante da desigualdade social e está diretamente relacionada aos indicadores de acesso à saúde.13 O racismo institucional que proporciona um menor número de consultas, exames e orientações, pode gerar altos níveis de estresse físico e/ou psicossocial e contribuir para a adoção de comportamentos inadequados, a exemplo, baixa adesão ao tratamento proposto.14
Acerca do nível de escolaridade, o menor nível foi observado entre puérperas adolescentes provenientes da área urbana (40,6%) quando comparada à área rural (35%). Mulheres com maior nível de escolaridade tendem a engravidar mais tardiamente, pois têm maior conhecimento sobre métodos de contracepção, provavelmente postergando a maternidade para um momento posterior. Além disso, é importante observar que estas tendem a ter um menor nível de escolaridade, pois há uma tendência para o abandono escolar.8 Em um estudo na América Latina, sobre razões do abandono escolar entre adolescentes, observou-se que 2/3 que interromperam os estudos apontam a ocorrência de uma gravidez na adolescência como um dos principais fatores.15
No tocante aos aspectos sociodemográficos, as maiores proporções foram para as puérperas que tinham alguma religião. Porém, a variável religião é complexa, considerando que crenças religiosas têm concepções diferentes e podem estar sujeitas aos costumes de cada área geográfica, sendo ela, rural ou urbana, assim, mesmo as mulheres pertencentes a um determinado grupo religioso podem ter uma interpretação pessoal sobre a sua saúde reprodutiva.16
Além das características supracitadas até o momento, é igualmente importante analisar as características obstétricas. No que diz respeito à predominância da primeira gestação entre essas adolescentes ocorreu com pequena diferença entre a área rural e urbana, porém a demanda foi maior para a primeira área geográfica. Situação semelhante ocorreu em um estudo realizado em uma maternidade pública na Paraíba.8 Provavelmente este resultado ocorre devido à persistência do padrão cultural tradicional de maternidade precoce ainda vigente nessa área e à falta de perspectiva de muitas dessas adolescentes.8
Neste estudo, o resultado do início do pré-natal foi favorável, pois as adolescentes puérperas, independente da área de abrangência, apresentaram maior proporção para o início do pré-natal a partir de oito semanas. A realização da primeira consulta do pré-natal até o 4º mês de gestação é preconizado pelo Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento (PHPN).17 Todavia, é importante os profissionais de saúde estarem atentos, pois ser gestante na adolescência é um fator de risco para não aderir ao pré-natal.18
Para a realização do exame Papanicolau, os resultados deste estudo apontaram que a não realização deste exame foi consideravelmente alta. Salienta-se que, fatores sociodemográficos como o baixo nível de escolaridade e a cor não branca são apontados como os principais determinantes sociais para o acometimento de lesões cervicais de alto grau.19 E, estas causas proporcionam mais dificuldades ao acesso a serviços de saúde, inclusive para o rastreamento do câncer uterino, já que estas mulheres são menos rastreadas.20 Por isso, é importante os profissionais de saúde estarem atentos ao fato de que o período gestacional é um momento oportuno para captar mulheres durante o pré-natal para a realização do exame de colo de útero, o que poderia contribuir para a redução da morbimortalidade por esta causa.21
Quanto ao planejamento familiar, um número expressivo de participantes não participava dos grupos e a proporção foi semelhante entre as adolescentes puérperas da área rural e urbana. Em conformidade, estudo realizado com adolescentes do estado do Ceará, verificou-se que 80% das entrevistadas nunca compareceram em consulta de planejamento familiar. A baixa adesão ao planejamento, bem como, ao acompanhamento pré-natal e puerperal são reconhecidos indicadores da qualidade da atenção em saúde, com repercussões no controle de eventos desfavoráveis,22 a exemplo das intercorrências na gestação.
Em relação à existência de intercorrências entre as puérperas adolescentes na área rural e urbana, a mais preocupante é a mortalidade materna. Do mesmo modo, em pesquisa realizada em Recife (2006-2017), dos 171 óbitos maternos, 8,2% corresponderam à adolescentes,23 enquanto outro estudo realizado no Piauí (2008-2013), das 290 mortes maternas, 50 (17,2%) aconteceram entre jovens com faixa etária de 14 a 19 anos.24 Em 2020, das 240.113 gestantes adolescentes no Brasil, 1.024 morreram por causas obstétricas no Sudeste e 327 no Sul,25 evidenciando que apesar das diferenças, a mortalidade materna em adolescentes é significativa em toda a área geográfica.
Quanto à associação entre variáveis sociodemográficas e obstétricas, este estudo sugere que o início do pré-natal (> 8 semanas) foi associado a menor idade das adolescentes puérperas. A gravidez durante a adolescência vem ocorrendo de forma inesperada e sem um planejamento reprodutivo adequado, apontando como um entrave social e um grave problema de saúde pública, além de favorecer diversos riscos que podem ocorrer nessa faixa etária. Em uma estimativa anual, no mundo, aproximadamente 16 milhões de adolescentes entre 15 a 19 anos de idade tornam-se mães. A cada dez partos um é de mãe adolescente, correspondendo a 11% de todos os nascimentos.26
Em face de números tão elevados, é perceptível a necessidade de um olhar específico para adolescentes grávidas, evidenciando que elas devem ser assistidas com maior atenção, principalmente, quando estas trabalham, pois neste estudo a não realização de exame Papanicolaou foi mais frequente entre as adolescentes com alguma ocupação. Nesta perspectiva, o papel exclusivo da mulher na vida privada com os cuidados destinados à casa e aos filhos, relacionados ao dia-a-dia, repleto de afazeres que socialmente se veem como necessários, somam-se à condição da vida pública. A mulher nos últimos anos vem ocupando mais espaço no mercado de trabalho, assim como se tornando a mantedora dos seus lares, isso faz com que negligenciem sua própria saúde, priorizando o financeiro e o bem-estar familiar, além disso, soma-se o atendimento nas unidades de saúde terem horários fixos e dias específicos para realização dos exames, não sendo adequados à rotina da mulher atuante no mercado de trabalho que se torna dependente da liberação do trabalho.27
Contudo, faz-se necessário a busca por grupos populacionais com menor cobertura de realização do exame Papanicolaou e maior vulnerabilidade social.20 Além disso, deve-se considerar que a adolescência envolve não só mudanças nos aspectos fisiológicos, como também emocionais e psicológicos, nos quais poderão contribuir com o surgimento de problemas como os obstétricos.
Neste estudo, a ocorrência de intercorrência na gestação foi associada ao estado de viver com cônjuge ou companheiro, situação esta que difere do que é encontrada na literatura. A gestação na adolescência pode estar associada a situações de carência afetiva familiar e quando esta gestante não tem um companheiro poderá potencializar as crises e os conflitos familiares.28Desta forma, é importante a adolescente puérpera ter o apoio e a presença do seu companheiro para que problemas emocionais não possam comprometer a sua saúde em um momento tão importante na vida da mulher.
Quanto à limitação do estudo, pode ser citado o viés da amostra pequena, porém não descaracteriza a gravidez na adolescência como um fenômeno complexo e de extrema necessidade de discussão, pois precipita problemas decorrentes da maternidade precoce. Por fim, sugere-se, a realização de estudos mistos, pois proporcionam discussões mais ricas, aprimorando as buscas para o planejamento de ações públicas.
Concluí-se que a gravidez na adolescência é um episódio que continua ocorrendo com frequência no Brasil. Pode-se inferir que o perfil sociodemográfico da amostra avaliada de adolescentes puérperas do estudo, são mulheres com idade menor ou igual a 18 anos, cor/raça não branca, baixa escolaridade e com ocupação.
Vale destacar, o perfil obstétrico foi caracterizado por predominância de primeira gestação, início tardio do pré-natal associado a menor idade das adolescentes puérperas, a não realização de exame preventivo associado à condição de ter alguma ocupação, a não participação em grupo de planejamento familiar e à intercorrência na gestação.
Diante do exposto, demonstra-se a necessidade de orientações direcionadas para a população jovem, em linguagem clara e acessível, acerca do processo e planejamento reprodutivo, inclusive entre grupos populacionais que possuem maiores dificuldades de acesso à saúde e vulnerabilidade social.
redalyc-journal-id: 5057
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