Artigo Original
Covid-19: fatores associados ao uso e adesão de equipamentos de proteção individual entre residentes no Brasil
Covid-19: factors associated with the use and adherence of personal protective equipment in Brazil among residents
Covid-19: factores asociados al uso y adherencia de equipos de protección personal entre los Residentes en Brasil
Covid-19: fatores associados ao uso e adesão de equipamentos de proteção individual entre residentes no Brasil
Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, vol. 16, e-13058, 2024
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Recepción: 15 Enero 2024
Aprobación: 16 Enero 2024
Resumo: Objetivo: analisar os fatores associados ao uso e a adesão aos equipamentos de proteção individual pelos profissionais pós-graduandos vinculados a programas de residência em saúde. Método: transversal com 227 residentes.Avaliadas variáveis relaciondas à adesão e uso adequado de equipamentos de proteção individual por meio de instrumento validado “E.P.I. covid-19 Brasil-versão adaptada para residentes”. Realizou-se análise bivariada, teste qui-quadrado/exato de Fisher e cálculo da razão de prevalência. Pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. Resultados: realizaram atividades de capacitação sobre EPIs (59,9%).Associação entre uso de máscara cirúrgica(p≤0,01) e idade; área de concentração do programa e uso de gorro (p≤0,01) e máscara cirúrgica (p=0,04); realização de atividades de capacitação e uso de máscara cirúrgica (p=0,02) e N95 (p≤0,01). A adesão variou de 0% a 67%. Conclusão: fatores associados ao uso adequado, idade, área de concentração do programa e realização de atividades de capacitação.Houve fragilidades na adesão. Sugere-se o fortalecimento do tema biossegurança na residência.
Palavras-chave: COVID-19, Equipamento de proteção individual, Biossegurança, Profissionais de Saúde, Internato e residência, Residência não médica não odontológica.
Resumen: Objetivo: analizar los factores asociados al uso y la adherencia a los equipos de protección personal (EPP) por parte de profesionales graduados vinculados a programas de residencia en salud. Método: estudio transversal con 227 residentes. Se utilizó la versión adaptada para residentes del «Cuestionario sobre EPI en la atención primaria de salud (EPS-APS) en el contexto de la COVID-19 en Brasil. Se realizaron análisis bivariados, prueba chi-cuadrado de Fisher/prueba exacta y cálculo de la razón de prevalencia. La investigación fue aprobada por el Comité de Ética para la Investigación con Seres Humanos. Resultados: se realizaron actividades de capacitación sobre EPI (59,9%). Se observó asociación entre el uso de mascarilla quirúrgica (p≤0,01) y la edad; área de concentración del programa y uso de cofia (p≤0,01) y mascarilla quirúrgica (p=0,04); realización de actividades de capacitación y uso de mascarilla quirúrgica (p=0,02) y N95 (p≤0,01). La adherencia a los EPI osciló entre el 0% y el 67%. Conclusión: los factores asociados al uso correcto de los EPI fueron la edad, el área de concentración del programa y la realización de actividades de capacitación. Se observaron debilidades en la adherencia. Se sugiere fortalecer el tema de la bioseguridad en la residencia.
Palabras clave: COVID-19, Equipos de protección individual, Bioseguridad, Personal de Salud, Internado y residencia, Internado no Médico.
Keywords: COVID-19, Personal protective equipment, Biosecurity, Health Personnel, Internship and residence, Internship, nonmedical
Introdução
A pandemia da covid-19 modificou o ambiente laboral dos profissionais de saúde e reiterou a importância das medidas de biossegurança para prevenção das infecções relacionadas à assistência à saúde (Iras).1-2 Evidencia-se a necessidade de proteção e segurança dos profissionais de saúde 3-4 inclusive daqueles vinculados aos programas de residência. 5 Os residentes que atuam no Sistema Único de Saúde(SUS) desenvolveram um papel crucial no enfrentamento da covid-19. 3
Assim como os demais profissionais de saúde 6-8, os residentes têm elevado risco para infecção por covid-199 por estarem expostos a vários fatores, como: contato direto com paciente contaminados, realização de procedimentos geradores de aerossóis e/ou que predisponham ao contato com fluidos corporais10. Em pesquisa realizada com residentes nos Estados Unidos, 80% dos programas de residência do estudo tiveram pelo menos um residente em quarentena e 101 casos confirmados de covid-19, o que confirma o risco de contaminação entre esses profissionais.9
Embora as precauções padrão sejam conhecidas por todos os profissionais de saúde 2,11, o não cumprimento das normas de biossegurança e a realização incorreta da paramentação e desparamentação ainda são uma realidade na assistência em saúde.7-14 Além disso, a não adesão aos equipamentos de proteção individual (EPI) e o uso inadequado destes, acontece nos serviços 12-15, seja pelo déficit no fornecimento 9 levando à reutilização de alguns dispositivos e ao uso por tempo prolongado9,12, seja pela falta de capacitação sobre uso adequado de EPIs.7,16 Tais situações geram insegurança nos profissionas não só durante o enfrentamento da pandemia de covid-19 3-4, mas também na assistência a pacientes com outras condições infectocontagiosas. A literatura indica outras variáveis que influenciam a adesão ao uso de EPIs como a idade, tempo de experência e área de atuação das atividades laborais.6
Os EPI são o principal recurso para reduzir o mecanismo de transmissão e adoecimento entres os trabalhadores da saúde, o que os torna indispensáveis para a prevenção das Iras.10,17-19 A adesão às normas de biossegurança é fundamental na redução dos riscos ocupacionais.2,7,12-14
Como os estudos que abordam os fatores associados à adesão aos EPIs e ao uso adequado destes foram realizados com profissionais de saúde no geral6-7,14, aponta-se uma lacuna no conhecimento referente aos profissionais vinculados aos programas de residência.
Diante do exposto, esta investigação tem como objetivo analisar os fatores associados ao uso e a adesão aos EPIs pelos profissionais pós-graduandos vinculados a programas de residência em saúde.
Métodos
Tipo de estudo, local e período
Trata-se de um estudo transversal, descritivo e analítico, realizado nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal entre agosto de 2020 e março de 2021. Este estudo está vinculado à pesquisa “Uso de equipamentos de proteção individual pelos profissionais de saúde no combate a covid19”- "E.P.I. covid-19 Brasil” e seguiu as recomendações Strengthening the Reporting of Observational studies in Epidemiology (STROBE) e Checklist for Reporting Results of Internet E-Surveys (CHERRIES).
População, critérios de seleção e amostra
A população do estudo foram os profissionais pós-graduandos vinculados a programas de residência nas áreas de Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Medicina Veterinária, Nutrição, Odontologia, Psicologia, Serviço Social e Terapia Ocupacional credenciados pelo Ministério da Educação (MEC). O critério de inclusão foi ter aceitado participar voluntariamente da pesquisa durante o período de coleta de dados. O critério de exclusão foi ser preceptor dos programas de residência. Dessa forma, adotou-se a amostra por conveniência.
Coleta de dados
Para divulgação da pesquisa, foi realizado contato via e-mail e telefone com hospitais e secretarias municipais de saúde que oferecem programas de residência em saúde credenciados pelo MEC, sociedades médicas, conselhos profissionais regionais e comissões de residência. Utilizaram-se mídias sociais, como Instagram (@xxxxx2), Facebook (xxxBrasil) e WhatsApp, as quais também foram recursos para o recrutamento de participantes que ajudaram na divulgação do fôlder da pesquisa em suas redes sociais.20 É importante destacar que todas as informações da pesquisa foram disponibilizadas em um site próprio (https://www.xxxxx/) e as estratégias de recrutamento, detalhadas em artigo científico.20
Instrumento de coleta de dados
Para a coleta de dados, foi utilizado o instrumento elaborado e validado para a pesquisa “E.P.I. covid-19 Brasil”, que contém 86 questões acerca de dados pessoais e profissionais, formação profissional, participação em cursos de capacitação e uso de EPIs no cotidiano de trabalho. Para avaliar a adesão e o uso adequado de EPIs foram considerados 31 itens divididos em oito domínios: gorro ou touca descartável, luvas, comportamento de segurança, uso de máscara N95, higienização das mãos, uso de avental ou capote,uso de máscara cirúrgica e uso de óculos de proteção.21
O instrumento foi disponibilizado em ambiente virtual na plataforma gratuita KoBoToolbox. O acesso às questões relacionadas ao uso de cada EPI foi vinculado à resposta prévia do participante a respeito de qual EPI utilizava no cotidiano de trabalho no serviço em que atua. As respostas a essas questões foram obtidas por meio de escala tipo Likert de quatro pontos, cujas opções de resposta foram “nunca’’, “raramente”, “quase sempre” e “sempre”.
Tratamento, análise dos dados e variáveis do estudo
Os dados armazenados no servidor KoboToolbox foram exportados para o programa Microsoft Office Excel para organização e tratamento. As respostas obtidas em escala Likert foram recodificadas em “não’’ (zero ponto) para “nunca’’, “raramente”, “quase sempre”; e “sim” (um ponto) para “sempre”. As questões referentes à reutilização de EPI tiveram pontuação invertida.
As análises estatísticas foram realizadas no Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 29.0. O teste utilizado para avaliar a normalidade da amostra foi o Kolmogorov-Smirnov. A análise descritiva foi realizada por meio de frequências absolutas e relativas, medidas de tendência central (média) e de dispersão (desvio-padrão).
As variáveis independentes foram a área de concentração da residência (APS e outras áreas de concentração – Hospital e Medicina Veterinária); idade (21 a 26 anos e 27 anos ou mais); realizaçãoounãodecursos de capacitação sobre uso de EPI;tempodeatuaçãono programa deresidência (zero a 12 meses e 13 meses ou mais).
As variáveis dependentes foram a adesão aos EPIs e o uso adequado deles.Considerou-se como o uso adequado de EPI quando o participante alcançou a totalidade de pontos em cada domínio de acordo com a escala Likert, ou seja, se o mesmo pontuasse em todos os dominios. Para avaliar a adesão, foi utilizado o seguinte cálculo individual: número de domínios que apresentou uso adequado dividido pelo número total de domínios respondidos multiplicado por 100. Considerou-se que o participantepossui adesão ao uso de EPI ao alcançar o percentual ≥ 75% conforme estudo.16
A análise de associação deu-se por meio dos testes Qui-Quadrado ou exato de Fischer, adotando-se o valor de p ≤ 0,05. As prevalências relacionadas ao uso adequado dos EPIs e a idade, área de concentração da residência, tempo de atuação no programa e a realização de atividades de capacitação sobre EPI foram estimadas com intervalo de confiança de 95% (IC 95%).
Aspectos éticos
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal xxxxxxxx, sob o parecer xxxxxxxx. Esta pesquisa recebeu financiamento do CNPq (Processo n. 401457/2020-6) chamada MCTIC/CNPq/FNDCT/MS/SCTIE/Decit no 07/2020 – Pesquisa para enfrentamento da covid- 19, suas consequências e outras síndromes respiratórias agudas graves.
Resultados
Participaram do estudo 227 residentes, com predominância de enfermeiros (37,0%), do gênero mulher cis (82,9%), com companheiro (78,4%), atuando na região Sudeste (58,1%). A média de idade foi de 27,9 (±5,9) anos e a média de tempo de atuação na residência foi de 14,5 (±9,2) meses (dados não mostrados em tabela). Entre os participantes, 56 (24,7%) haviam sido diagnosticados com covid-19. A maioria (59,9%) dos participantes informaram ter realizado capacitação sobre uso de EPI em algum momento durante a pandemia (cf. Tabela 1).
Tabela 1- Caracterização dos residentes participantes da pesquisa "E.P.I. covid-19Brasil” (n = 227). Brasil, 2021
| Variáveis | N | % |
| Categoria profissional | ||
| Enfermeiro | 85 | 37,0 |
| Fisioterapeuta | 25 | 11,0 |
| Farmacêutico | 20 | 8,8 |
| Assistente Social | 20 | 8,8 |
| Psicólogo | 18 | 7,9 |
| Médico | 17 | 7,5 |
| Cirurgião-Dentista | 12 | 5,3 |
| Nutricionista | 10 | 4,4 |
| Educador Físico | 7 | 3,1 |
| Terapeuta Ocupacional | 5 | 2,2 |
| Fonoaudiólogo Outra | 2 6 | 0,9 2,6 |
| Idade | ||
| 21 a 26 anos | 121 | 53,3 |
| 27 anos ou mais | 106 | 46,7 |
| Gênero | ||
| Mulher Cis | 188 | 82,9 |
| Homem Cis | 36 | 15,9 |
| Mulher Trans | 1 | 0,4 |
| Outros Deseja não declarar | 1 1 | 0,4 0,4 |
| Estado Conjugal | ||
| Com companheiro (a) Sem companheiro (a) | 178 49 | 78,4 21,6 |
| Região do Brasil | ||
| Sudeste | 132 | 58,1 |
| Nordeste | 33 | 14,5 |
| Sul | 29 | 12,8 |
| Centro-Oeste Norte | 23 10 | 10,0 4,4 |
| Diagnosticado com covid-19 | ||
| Não Sim | 171 56 | 75,3 24,7 |
| Possui especialização | ||
| Sim Não | 65 162 | 28.6 71,4 |
| Tipo de especialização | ||
| Lato Sensu | 61 | 26,9 |
| Stricto Sensu | 2 | 0,9 |
| Não informado | 164 | 72,2 |
Fonte: elaborada pela autora (2022). †Nota: outras;(Medicina Veterinária)
Ao avaliar o uso adequado de EPI pelos profissionais residentes (Tabela 2), destaca-se que o gorro e o avental/capote foram os EPIs com melhor percentual de uso adequado e que a maioria dos participantes teve comportamento de segurança (90,6%) e higienização das mãos (98,7%) inadequado.
Tabela 2 – Uso adequado de EPI, comportamento de segurança, e higiene das mãos por profissionais vinculados a Programas de Residência em Saúde (n = 227). Brasil, 2021
| Uso adequado | Não (n %) | Sim (n %) |
| Comportamento de segurança n=227 | 224 (98,7) | 3 (1,3) |
| Hi Higienização das mãos n=227 | 142 (62,6) | 85 (37,2) |
| Lv Luvasn=149 | 135 (90,6)) | 14 (9,4) |
| G Gorro n=137 | 119 (86.9) | 18 (13,1) |
| MMáscara cirúrgica n=197 | 87 (44,2) | 110 (55,8,) |
| A Avental/ Capote n= 115 | 71 (61,7) | 44 (38,3) |
| M Máscara N95 n= 132 | 64 (48,5) | 68 (51,5) |
| Pr Protetor facial/Óculos n=110 | 54 (49,1) | 56 (50,1) |
]Fonte elaborada pela autora (2022).
‡Nota: os dados faltantes se devem a referida não utilização do EPI pelo participante.
Ao avaliar os fatores associados ao uso adequado de EPI pelos profissionais residentes (Tabela 3), foi observado associação entre a idade e o domínio máscara cirúrgica (p=≤0,001). A prevalência do uso adequado de máscara cirúrgica entre os profissionais com idade de 21 a 26 anos foi 1,47 vezes maior do que entre os de 27 anos ou mais.
Quando avaliado o uso adequado por área de concentração do programa de residência (Tabela 3), observou-se associação ao uso do gorro (p=0,01). A prevalência de uso adequado do gorro foi 3,2 vezes maior na APS do que nas outras áreas do programa. O uso adequado de máscara cirúrgica (p=0,02) teve a prevalência de 1,3 vez maior na APS quando comparado a outras áreas do programa. O tempo de atuação no programa não teve significância para nenhum domínio.
A realização de atividades de capacitação sobre autilização de EPI pelos profissionais residentes foi estatisticamente associada ao uso adequado de máscara N95(p=≤0,01)e de máscara cirúrgica(p=0,02).Os profissionais da residência que fizeram curso sobre EPI têm 1,3 vez maior prevalência de uso adequado de N95 e 1,7 vez maior prevalência de uso adequado de máscara cirúrgica do que aqueles que não fizeram curso. Tais dados se encontram descritos na Tabela 3.
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Tabela 3 - Associação entre idade, área de concentração, realização de atividades de capacitação e uso adequado de EPIs, comportamento de segurança durante o uso de EPI e higiene das mãos por profissionais vinculados a Programas de Residência em Saúde (n=227). Brasil, 2021
| Uso Adequado | ||||||||||||||
| Idade | Gorro | Luvas | Avental ou capote | Óculos de proteção ou protetor facial | Máscara cirúrgica | Máscara N95 | ||||||||
| Idade | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | |
| 21 a 26 anos | 8 | 72 | 5 | 76 | 19 | 38 | 32 | 21 | 72 | 39 | 35 | 30 | 3 | |
| (10,0) | (90,0) | (6,2) | (93,8) | (33,3) | (66,7) | (60,4) | (39,6) | (64,9) | (35,1) | (53,8) | (46,2) | (2,5) | ||
| 27 anos ou mais | 10 | 47 | 9 | 59 | 25 | 33 | 24 | 33 | 38 | 48 | 33 | 34 | 0 | |
| (17,5) | (82,5) | (13,2) | (86,8) | (43,1) | (56,9) | (42,1) | (57,9) | (44,2) | (55,8) | (49,3) | (50,7) | (0,00) | ||
| p valor | 0,20 | 0,14 | 0,28 | 0,05 | ≤0,01 | 0,59 | ||||||||
| RP | 0,57 | 0,47 | 0,77 | 1,43 | 1,47 | 1,09 | ||||||||
| (IC 95%) | (0,240-1,354) | (0,164-1,326) | (0,483-1,239) | (0,986-2,085) | (1,116-1,931) | (0,785-1,523) | ||||||||
| Área de concentração do programa | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | |
| APS | 13 | 48 | 3 | 67 | 17 | 37 | 28 | 24 | 57 | 31 | 27 | 27 | 1 | |
| (21,3) | (78,7) | (4,3) | (95,7) | (31,5) | (68,5) | (53,8) | (46,2) | (64,8) | (35,2) | (50,0) | (50,0) | (1,0) | ||
| Outras áreas* | 5 | 71 | 11 | 68 | 27 | 34 | 28 | 30 | 53 | 56 | 41 | 37 | 2 | |
| (6,6) | (93,4) | (13,9) | (86,1) | (44,3) | (55,7) | (48,3) | (51,7) | (48,6) | (51,4) | (52,6) | (47,4) | (1,6) | ||
| p valor | 0,01 | 0,04 | 0,16 | 0,56 | 0,02 | 0,77 | ||||||||
| RP | 3,24 | 0,31 | 0,71 | 1,11 | 1,33 | 0,95 | ||||||||
| (IC 95%) | (1,222-8,586) | (0,089-1,059) | (0,438-1,154) | (0,773-1,609) | (1,041-1,705) | (0,677-1,336) | ||||||||
| Atividades deCapacitação | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | Não n(%) | Sim n(%) | |
| Sim | 14 | 70 | 7 | 7 | 27 | 17 | 45 | 11 | 72 | 38 | 52 | 16 | 3 | |
| (77,8) | (58,8) | (50,0) | (50,0) | (61,4) | (38,6) | (80,4) | (19,6) | (65,5) | (34,5) | (76,5) | (23,5) | (100,0) | ||
| Não | 4 | 49 | 45 | 90 | 24 | 47 | 35 | 19 | 43 | 44 | 35 | 29 | 0 | |
| (22,2) | (41,2) | (33,3) | (66,7) | (33,8) | (66,2) | (64,8) | (35,2) | (49,4) | (50,6) | (54,7) | (45,3) | (0,00) | ||
| p valor | 0,12 | 0,21 | 0,59 | 0,06 | 0,02 | ≤0,01 | 0,15 | |||||||
| RP | 2,20 | 0,53 | 0,88 | 1,53 | 1,35 | 1,68 | ‡ | |||||||
| (IC 95%) | (0,768-6,353) | (0,199-1,446) | (0,549-1,411) | (0,923-2,551) | (1,029-1,774) | (1,094-2,583) | ||||||||
Fonte:elaborada pela autora (2021).
§Nota: outras áreas*; Área Hospitalar e Medicina Veterinária. Fonte: Elaborado pelos autores (2021). (Teste qui-quadrado, †Teste exato de Fisher)
Na avaliação da adesão ao EPI, o resultado variou entre 0% a 67% (média 29,1%; desvio-padrão 20,0%), sendo que 48 (21,1%) participantes não relataram adesão e oito(3,5%) participantes atingirama maior adesão identificada no estudo, que foi de 67%. A distribuição dos participantes em relação à adesão foi 1º quartil 14,0% ;mediana 29,0% e 3º quartil 43,0%.Na análise da relação da adesão e os fatores associados, a realização de atividades de capacitação sobre o uso de EPIs teve relação com a adesão de EPI (p=0,03), os demais fatores não tiveram relação sobre a adesão.
Discussão
Este é o primeiro estudo brasileiro que analisou os fatores associados à adesão e uso adequado de EPIs pelos profissionais pós-graduandos vinculados a programas de residência em saúde no contexto da pandemia da covid-19. A variação da idade do residente de 21 a 26 anos esteve associada ao uso adequado de máscara cirúrgica; os serviços de APS como área de concentração do programa de residência tiveram associação com o uso adequado de máscara cirúrgica e gorro; o tempo de atuação do residente não teve associação com o uso adequado de EPI; a realização de atividades de capacitação sobre EPI esteve associada ao uso adequado de máscara cirúrgica e máscara N95. A pesquisa evidenciou que nenhum residente apresentou adesão ao uso de EPI ≥75%, sendo que o percentual médio de adesão foi de 29,1%.
Diante das evidências encontradas no presente estudo sugere-se que todos os profissionais, inclusive aqueles que se encontram em formação no serviço, conheçam as medidas e estratégias deprevenção das Iras.15 O uso de EPI possui relevância no enfrentamento da pandemia e na prevenção de outras doenças infectocontagiosas, cuja finalidade é a segurança do profissional e do paciente e a diminuição da propagação de doenças.12
Alguns estudos realizados no período da pandemia da Covid-19 mostraram diferentes percentuais de adesão ao uso de EPIs: 41,3%22; 53%6 e 90,6%.7 Estudos epidemiológicos realizado no Brasil e nos Estados Unidos, antes do período pandêmico, evidenciaram que o uso incorreto de EPI pode favorecer a infecção por patogénos23-24, destacando que a falta de capacitação também contribui para a não adesão ao uso de EPIs.23 Além disso, a contaminação pode ocorrer tanto devido a falta do EPI quanto a desparamentação incorreta.24
A presente pesquisa evidenciou que os residentes não utilizam de forma adequada todos os EPIs. Entre os EPIs com maior frequência de uso adequado, destacam-se máscaras N95, máscaras cirúrgicas e óculos de proteção ou protetor facial. Na pandemia de Covid-19 – no que tange à utilização de medidas de precaução, destacaram-se as medidas de precaução por aerossóis, sendo a máscara N95 fator de proteção entre os profissionais de saúde que realizam procedimentos geradores de aerossóis.6,14,25 O uso adequado de óculos e protetores faciais também auxiliam na proteção profissional 6,25-26, pois estes equipamentos impedem o contato de microrganismos com a cavidade oral e vias aéreas.27
Em relação aos fatores associados ao uso adequado de EPI, pesquisa realizada com profissionais da APS do Catar indicou que idade, tempo de experência e área de atuação das atividades laborais influenciaram a adesão ao uso de EPIs.6
No presente estudo, os profissionais mais jovens tiveram maior prevalência de uso adequado do EPI máscara cirúrgica. Em estudo realizado em Gana, a variável idade não foi associada à adesão aos EPIs e ao uso destes7, mas, em estudo realizadono Catar, o fator idade teveassociação com adesão e uso dos EPIs. Os profissionais de 50 anos ou mais foram maispropensosa adesão emcomparação aos profissionais mais jovens, de 18 a 29 anos.6
No que diz respeito à área de concentração do programa, as ações preventivas devem levar em consideração o grau de risco de contaminação por Covid-19, nas distintas áreas de concentração do trabalho.22 Pesquisa realizada com profissionais da APS evidenciou que os profissinais de saúde que estão em contato com casos suspeitos ou confirmados de Covid-19, em alguns turnos de trabalho ou na maioria deles, eram menos propensos ao cumprimento total de adesão e uso dos EPIs comparado àqueles que lidam com pacientes infectados em todos os períodos das atividades laborais.6
Acredita-se que o profissional que atua diretamente com pacientes com Covid-19 é mais consciente quanto ao risco de infecção, a ponto de isso interferir sobre a sua percepção e comportamento de uso de EPIs.6 Na pesquisa em Gana com profissionais de saúde atuantes no ambiente hospitalar que prestavam assistência aos pacientes com covid-19 mostrou que o tempo de atuação não foi associado à adesão aos EPIs e ao uso destes.7 Tais resultados vêm ao encontro dos dados deste estudo que mostra que o tempo de atuação não afeta a adesão aos EPIs e o uso dos mesmos.
Salienta-se que todos os profissionais que prestam assistência direta aos pacientes devem ser adequadamente informados e capacitados.4 A troca de conhecimentoe saberes é capaz de fortalecer o processo ensino-aprendizagem no que diz respeito àsmedidas de prevenção à covid-19.25 As simulações clínicas8 e as atividades de capacitação direcionadas aos residentes sobre ouso adequado de paramentação e desparamentação podem contribuir parao uso apropriado de EPIs e diminuição do risco de adoecimento8,28, como também a educação permanente no serviço é um fator decisivo para adesão aos EPIs e o uso adequado dos mesmos pelos profissionais de saúde11,neste estudo as atividades de capacitação tem relação com a adesão ao uso de EPI.
No que se refere à adesão ao uso de EPIs neste estudo, esta variou de 0% a 67%. Estudos realizados com profissionais de saúde durante a pandemia, na Etiópia e no Catar mostraram uma baixa adesão ao uso de EPIs, 41,3%22 e 53%6, respectivamente. A baixa adesão pode estar atrelada à insegurança profissional devido a falta e reutilização de EPIs28, como também a não percepção do risco de adoecimento por parte do profissional.6,22 Já um estudo feito em Gana relatou uma taxa de adesão de 90,6%.7 A taxa elevada de adesão pode estar relacionada à realização de atividade de capacitação sobre EPIs.8
As limitações desta investigação estão atreladas a maioria dos participantes serem da região sudeste do pais, ao estudo do tipo transversal e à condução da coleta de dados em ambiente virtual,questionário autoaplicavél, motivo pelo qual houve baixa participação dos residentes apesar de terem sido utilizadas diversas estratégias de recrutamento.
Apesar disso, o estudo apresenta valiosas contribuições para o conhecimento científico em saúde e enfermagem, entre elas se pode citar: conhecer os fatores associados à adesão aos EPIs e ao uso destes por residentes em saúde durante a pandemia e evidenciar a importância do fortalecimento da temática biossegurança nos programas de residência.
Assim, recomenda-se a elaboração e implementação de capacitações sobre EPIs para os residentes e o incentivo à educação permanente, com utilização de simulações clínicas como recursos pedagógicos para a aprendizagem a fim de permitir o exercício profissional pleno e seguro de acordo com o processo de trabalho e a realidade da assistencial. Tais ações visam não somente ao alcance das competências técnicas, habilidades e expertise esperadas para o residente, mas também buscam qualidade e segurança para profissional, paciente, família e comunidade.
Conclusão
Conclui-se que os fatores associados ao uso adequado de equipamentos de proteção individual por profissionais pós-graduandos vinculados a programasde residência em saúde foram idade, área de concentração do programa e realização de atividades de capacitação. Apesar da adesão aos equipamentos de proteção individual ter sido baixa, as atividades de capacitação tiveram relação sobre adesão ao EPI. Diante desses resultados, sugere-se a realização de estudos futuros, inclusive com a utilização de abordagens qualitativas, para conhecer, em profundidade, os fatores que impedem a adesão aos EPIs e seu uso adequadono cotidiano de trabalho de residentes em saúde.
AGRADECIMENTOS
Dra. Kelli Borges dos Santos e Dr. Thiago César Nascimento; e ao Núcleo de Estudo em Infecções e Complicações Relacionadas à Assistência à
Saúde (NEICAS).
Agradecimento ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações - MCTI, ao Ministério da Saúde – MS e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq pelo financiamento da pesquisa, Processo N. XXXX/2020-6 – Chamada MCTIC/CNPq/FNDCT/MS/SCTIE/Decit Nº 07/2020 - Pesquisas para enfrentamento da COVID-19, suas consequências e outras síndromes respiratórias agudas graves.
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