Artigo Original
Tecnologias de cuidado obstétrico baseadas no conceito de Merhy aplicadas à parturiente de alto risco
Obstetric care technologies based on the Merhy concept applied to high-risk parturient women
Tecnologías de atención obstétrica basadas en el concepto Merhy aplicadas a parturientas de alto riesgo
Tecnologias de cuidado obstétrico baseadas no conceito de Merhy aplicadas à parturiente de alto risco
Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, vol. 16, e-13203, 2024
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Recepción: 27 Marzo 2024
Aprobación: 15 Abril 2024
Resumo: Objetivo: descrever as tecnologias aplicadas à parturiente de alto risco durante o trabalho de parto e parto em uma maternidade escola de alto risco. Método: estudo do tipo transversal, exploratório, observacional, com abordagem quantitativa, realizado em uma maternidade de alto risco, em Maceió-AL, com 145 participantes. Resultados: a partir dos resultados desse estudo, podemos identificar que no cenário de alto risco estudado, as tecnologias leves e duras foram as mais utilizadas, de forma que, entre as tecnologias duras, a cirurgia cesariana foi a que apresentou maior prevalência Conclusão: ficou evidente a necessidade do melhor aproveitamento das tecnologias leve-duras, a fim de proporcionar uma melhor experiência parturitiva para as mulheres.
Palavras-chave: Gravidez de alto risco, Trabalho de parto, Obstetrícia, Cuidados de Enfermagem, Enfermagem.
Abstract: Objective: to describe the technologies applied to high-risk parturient women during labour and childbirth in a high-risk high risk school maternity. Method: cross-sectional, exploratory, observational study, with a quantitative approach, carried out in a high-risk maternity hospital, in Maceió-AL, with 145 participants. Results: based on the results of this study, we can identify that in the high-risk scenario studied, soft and hard technologies were the most used, in order that, among the hard technologies, cesarean surgery was the one with the highest prevalence. Conclusion: the need for better use of soft-hard technologies became evident, in order to provide a better birth experience for women.
Keywords: High-risk pregnancy, Labour, Obstetrics, Nursing care, Nursing.
Resumen: Objetivo: describir las tecnologías aplicadas a parturientas de alto riesgo durante el parto y el parto en una maternidad escolar de alto riesgo. Método: estudio observacional, exploratorio, transversal, con enfoque cuantitativo, realizado en una maternidad de alto riesgo, en Maceió-AL, con 145 participantes. Resultados: con base en los resultados de este estudio, podemos identificar que en el escenario de alto riesgo estudiado las tecnologías blandas y duras fueron las más utilizadas, de modo que, entre las tecnologías duras, la cirugía de cesárea fue la de mayor prevalencia. Conclusión: fue evidente la necesidad de hacer un mejor uso de las tecnologías blandas y duras, para brindar una mejor experiencia de parto a las mujeres.
INTRODUÇÃO
A gestação e o parto são eventos fisiológicos tão antigos quanto a existência humana, sendo a gestante a condutora e protagonista desse processo.1
Atualmente no Brasil, o processo de parturição acontece majoritariamente em hospitais, de forma medicalizada e marcada pelo uso de tecnologias de cuidado em saúde que objetivam tornar a assistência mais segura para o binômio materno-fetal.2
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as tecnologias em saúde devem proporcionar um atendimento com segurança, eficácia e custo-efetividade comprovadas, e sua utilização deve estar ancorada em evidências científicas sólidas.3
No cuidado obstétrico, essas tecnologias visam assegurar a prestação da assistência pautada em um saber técnico, sendo aplicadas em momentos oportunos, a fim de garantir que o cuidado traga benefícios sem anular ou diminuir o protagonismo da mulher.4
Nesse sentido, é importante que essas tecnologias sejam aplicadas de forma parcimoniosa, atendendo as reais necessidades das pacientes. O excesso de intervenções deixa de considerar aspectos humanos, como as emoções que permeiam o momento do parto e nascimento e os aspectos culturais que envolvem esse processo, que revestem esse momento de um caráter singular.5,6
A ideia de tecnologia, engloba o instrumental envolvido na produção do trabalho, bem como os saberes tecnológicos e a forma como se aplicam esses saberes. Já o processo de trabalho em saúde é, segundo Merhy, mediado por tecnologias de cuidado que definem a qualidade da assistência prestada.7
As tecnologias podem ser classificadas em três tipos: leve, que dizem respeito ao caráter relacional entre os sujeitos podendo se concretizar através da comunicação, acolhimento e vínculo; leve-duras, que se trata do conhecimento técnico bem estruturado no processo de trabalho em saúde; e duras, que são os instrumentais, máquinas, normas, rotinas e estruturas organizacionais.8
Um exemplo de tecnologia dura são as cirurgias cesarianas que contribuem para a diminuição da morbimortalidade materno-fetal, no entanto, essa via de parto quando realizada sem justificativa, traz complicações para o binômio materno-fetal. No Brasil, segundo dados da OMS, a taxa de cirurgias cesarianas ficou em torno de 56%, sendo a segunda maior taxa do planeta.9,10
Isto posto, percebe-se uma exposição mais acentuada das mulheres às intervenções das tecnologias duras.5
Durante a presente pesquisa, ficou evidente a importância de se avaliar as motivações que levam à utilização dessas tecnologias. Para tal, o seguinte objetivo foi disposto: descrever as tecnologias aplicadas à parturiente de alto risco durante o trabalho de parto e parto em uma maternidade escola.
A relevância deste estudo está no levantamento das tecnologias empregadas às parturientes nesse cenário, contribuindo para geração de evidências científicas sobre a temática, e servindo de base para que os profissionais que atuam nesses serviços norteiem sua assistência.
MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo, exploratório, observacional com abordagem quantitativa, utilizando-se de dados primários que foram obtidos a partir de formulário aplicado às puérperas que pariram em uma maternidade escola de alto risco.
O tamanho da amostra foi calculado através de calculadora amostral eletrônica, adotando margem de erro de 5%, nível de confiança de 95%, totalizando uma amostra de 145 participantes.
Foram incluídas puérperas em situação de alojamento conjunto e de qualquer faixa etária e excluídas àquelas que chegaram durante o período expulsivo ou tiveram parto em trânsito, pois não foram submetidas às tecnologias de cuidado, ou aquelas que apresentaram natimorto. Foram excluídas as puérperas que apresentarem qualquer alteração fisiológica ou psicológica que inviabilizasse sua participação na pesquisa.
A pesquisa seguiu as diretrizes das Resoluções nº 466/2012, 510/2016 e 580/2018 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e recebeu a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), parecer nº 5.025.223. A coleta de dados foi realizada no período de maio a outubro de 2022.
RESULTADOS
Em relação aos dados sociodemográficos das mulheres participantes, 76 (52,41%) delas compõem a faixa etária de 20 a 29 anos, 63 (43,44%) possuem o ensino médio completo como grau de formação, 80 mulheres (55,17%) são solteiras, 99 (68,27%) se autodeclaram pardas e 49 (33,79%) tem como renda familiar até um salário-mínimo.
O perfil clínico-obstétrico das participantes apresentou uma prevalência do número de multíparas (n= 87, 60%) em relação as primíparas (n= 58, 40%), 27 (18,62%) das mulheres que tiveram mais de uma gestação já sofreram aborto, 141 mulheres (97,24%) tiveram gestações de feto único e a ida para o alojamento conjunto foi o desfecho neonatal mais prevalente (n= 85, 58,62%).
A maior parte das participantes (n= 108, 74,48%) apresentava ao menos uma comorbidade, sendo as Síndromes Hipertensivas o principal diagnóstico (n=86, 79,62%), seguida por 13 mulheres (12,03%) com diagnóstico de diabetes mellitus/gestacional. Já a média de dias de internação foi de 5,64 dias, e a maioria (n= 92, 63,44%) apresentou idade gestacional entre 37 e 42 semanas.
Em relação ao número de consultas de pré-natal, 102 participantes (70,34%) realizaram 6 ou mais consultas de pré-natal, enquanto 16 delas (11,04%) não realizaram nenhuma consulta.
Ao analisar as tecnologias leves individualmente na tabela 1, observou-se um bom aproveitamento delas, com percentuais variando de 84,14% a 93,11% das parturientes utilizando essas tecnologias.
Tabela 1: Análise descritiva da utilização de tecnologias leves de cuidado obstétrico em maternidade de alto risco, Maceió-AL, Brasil, 2024.
| TECNOLOGIAS LEVES | n | % |
| Tratamento gentil | ||
| Sim | 134 | 92,41 |
| Não | 11 | 7,59 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Acolhimento | ||
| Sim | 135 | 93,11 |
| Não | 10 | 6,89 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Informações sobre acompanhante | ||
| Sim | 122 | 84,14 |
| Não | 23 | 15,86 |
| Não desejo responder | 0 | |
| Orientações sobre quadro clínico | ||
| Sim | 127 | 87,59 |
| Não | 18 | 12,41 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Liberdade para esclarecer dúvidas | ||
| Sim | 129 | 88,97 |
| Não | 16 | 11,03 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Explicações e autorizações de procedimentos | ||
| Sim | 127 | 87,59 |
| Não | 18 | 12,41 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
Fonte: Dados da pesquisa (2023).
Quanto às tecnologias leve-duras, o partograma foi utilizado em 84 (57,6%) dos trabalhos de parto, seguido pela massagem (n=9, 6,2%) e, em seguida, pela compressa para proteção do períneo (n=8, 5,51%).
Tabela 2: Análise descritiva da utilização de tecnologias leve-duras de cuidado obstétrico em maternidade de alto risco, Maceió-AL, Brasil, 2024.
| TECNOLOGIAS LEVE-DURAS | n | % |
| Bola suíça | ||
| Sim | 3 | 2,32 |
| Não | 81 | 56,19 |
| Não se aplica | 60 | 41,49 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Musicoterapia | ||
| Sim | 6 | 4,8 |
| Não | 78 | 53,71 |
| Não se aplica | 60 | 41,4 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Massagem | ||
| Sim | 9 | 6,2 |
| Não | 76 | 52,4 |
| Não se aplica | 60 | 41,4 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Banho morno | ||
| Sim | 8 | 5,51 |
| Não | 76 | 52,41 |
| Não se aplica | 60 | 41,4 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Partograma | ||
| Sim | 84 | 58,9 |
| Não | 13 | 8,9 |
| Não se aplica | 47 | 32,2 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Local de parto | ||
| Enfermaria | 2 | 1,37 |
| Sala de parto | 20 | 13,8 |
| Centro cirúrgico | 123 | 84,83 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Escada de Ling | ||
| Sim | 2 | 1,37 |
| Não | 81 | 55,88 |
| Não se aplica | 62 | 42,75 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Massagem perineal | ||
| Sim | 1 | 0,68 |
| Não | 81 | 55,88 |
| Não se aplica | 63 | 43,44 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Compressa proteção períneo | ||
| Sim | 8 | 5,51 |
| Não | 74 | 51,05 |
| Não se aplica | 63 | 43,44 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
Fonte: Dados da pesquisa (2023).
Legenda: Não se aplica: parto por via cirúrgica
Referente ao uso de tecnologias duras, os instrumentos mais utilizados foram a ausculta intermitente (86,2%, n=125) e a cesárea (84,13%, n=122).
Tabela 3: Análise descritiva da utilização de tecnologias duras de cuidado obstétrico em maternidade de alto risco, Maceió-AL, Brasil, 2024.
| TECNOLOGIAS DURAS | n | % |
| Ausculta intermitente | ||
| Sim | 125 | 86,2 |
| Não | 6 | 4,1 |
| Não se aplica | 11 | 7,58 |
| Não desejo responder | 3 | 2,12 |
| Monitorização eletrônica fetal contínua | ||
| Sim | 53 | 36,55 |
| Não | 77 | 53,1 |
| Não se aplica | 11 | 7,6 |
| Não desejo responder | 4 | 2,75 |
| Fórceps | ||
| Sim | 0 | 0 |
| Não | 95 | 65,52 |
| Não se aplica | 48 | 33,2 |
| Não desejo responder | 2 | 1,37 |
| Episiotomia | ||
| Sim | 2 | 1,37 |
| Não | 94 | 64,74 |
| Não se aplica | 48 | 33,2 |
| Não desejo responder | 1 | 0,69 |
| Cesárea | ||
| Sim | 122 | 84,14 |
| Não | 0 | 0 |
| Não se aplica* | 23 | 15,86 |
| Não desejo responder | 0 | 0 |
| Ocitocina | ||
| Sim | 19 | 13,1 |
| Não | 102 | 70,34 |
| Não se aplica | 23 | 15,87 |
| Não desejo responder | 1 | 0,69 |
Fonte: Dados da pesquisa (2023).
Legenda: Não se aplica*: parto por via vaginal.
DISCUSSÃO
Apesar da maioria das participantes serem jovens adultas, houve um percentual significativo de gestações acima de 30 e dos 40 anos, o que indica uma tendência de adiamento da maternidade.11
A respeito da composição étnico-racial das participantes, verificou-se que a maioria era parda, seguida por mulheres pretas e brancas. Estudos têm evidenciado que, apesar de todas as mulheres terem risco de sofrer complicações relacionadas à gravidez, existe uma clara relação entre a situação socioeconômica e o aumento do risco de morbimortalidade materna. Tais complicações continuam sendo a expressão das desigualdades de gênero, etnia e escolaridade, sendo as mulheres negras e as que vivem nas zonas rurais as mais propensas a desfechos desagradáveis.12
Assim, identificar essas condições e seus possíveis impactos no curso e desfecho da gestação garante a proposição de protocolos adequados e intervenções oportunas objetivando o bem-estar do binômio materno-fetal.11,12
Em relação ao estado civil das participantes, a maioria são solteiras, o que pode indicar a falta de uma rede de apoio familiar e/ou social durante a gestação e pós-parto. Estudos demonstram que a presença de um parceiro pode contribuir significativamente na gestação, exercendo influência na adesão ao pré-natal, e influenciando positivamente na duração do aleitamento.13
A respeito do perfil clínico, a maioria das mulheres realizou mais de seis consultas de pré-natal, corroborando com a recomendação do Ministério da Saúde quanto à realização de, no mínimo, seis consultas de pré-natal intercaladas entre médico e enfermeira.14
Entretanto, um número considerável de mulheres da amostra não realizou nenhuma consulta de pré-natal, ou realizou menos de seis consultas. Sabe-se que os fatores de morbimortalidade da mãe, do feto e do recém-nascido podem ser reduzidos através do pré-natal, identificando precocemente as complicações ou evitando que estas evoluam para situações graves, com risco de vida ou morte.15
Desse modo, pode-se considerar a relação entre o quantitativo de gestantes que realizou seis ou mais consultas de pré-natal com o perfil das participantes, levando em consideração o cenário de realização do estudo, em que o cuidado pré-natal é compartilhado entre a Atenção Primária em Saúde (APS) e os serviços hospitalares de referência para o alto risco.11
Quanto à idade gestacional (IG), a maioria das participantes teve seus partos entre 37 e 42 semanas, consideradas gestações a termo, que reduz fatores de risco neonatais decorrentes da prematuridade. Assim, o desfecho neonatal majoritário, de ida para o alojamento conjunto, pode ter relação com a IG ao nascer.16
No que concerne aos dias de internação hospitalar, a média de dias de internação foi de 5,64, que pode ser consequência das comorbidades maternas apresentadas pelas puérperas.
As síndromes hipertensivas e hemorrágicas da gravidez, são as principais causas de mortalidade materna no Brasil e no mundo. Nesse sentido, a estratificação de risco realizada no pré-natal é a responsável por identificar as mulheres que possuem mais riscos de apresentar algum efeito adverso à saúde que culmine no aumento de internações hospitalares.11,17
Acerca das tecnologias, é possível identificar que houve uma prevalência do uso das tecnologias leves em detrimento dos outros tipos de tecnologia de cuidado obstétrico. Nessa perspectiva, a utilização de tecnologias leves reforça uma preocupação no que tange à humanização e o acolhimento das pacientes. Além disso, está associada ao resgate da dignidade da pessoa humana, com enfoque nos direitos reprodutivos.18-19
A utilização de tecnologias não-invasivas, relacionadas às tecnologias leve-duras, ressignificam a necessidade de intervenções e de seu adequado uso, aumentando o grau de satisfação das mulheres através da adoção de métodos não farmacológicos para alívio da dor (MNFAD). Nesse sentido, os MNFAD devem ser incentivados, pois apresentam-se como uma opção à analgesia, auxiliando as mulheres quanto às queixas álgicas e favorecendo a capacidade da parturiente de fazer força no período expulsivo.20-21
Técnicas como banho morno, que auxiliam na redução da dor no trabalho de parto, promovendo relaxamento do corpo; e massagem, que promove o aumento da liberação de endorfinas e ocitocina, apesar de possuírem alto grau de recomendação, obtiveram um baixo índice de utilização.22
Tecnologias leve-duras como massagem perineal e compressa para proteção do períneo são utilizadas com a finalidade de relaxar os músculos e aumentar a vasodilatação no local, tornando a musculatura mais flexível, prevenindo traumas e a realização de episiotomias. Entretanto, a OMS classifica tais práticas com grau de recomendação B, como procedimentos que devem ser desestimulados por serem práticas prejudiciais ou ineficazes.10,23
No tocante às tecnologias leve-duras como monitorização fetal com ausculta intermitente e uso de partograma, entre outras, possuem grau A de recomendação pela OMS, devendo ser seu uso encorajado durante a assistência ao trabalho de parto e parto.24
O uso do partograma é uma estratégia efetiva para melhorar a qualidade da assistência obstétrica, sendo a representação gráfica do trabalho de parto. Sua utilização permite que as condutas adequadas sejam tomadas para que os desvios ocorridos durante o trabalho de parto sejam corrigidos, evitando a adoção de medidas desnecessárias, além de possibilitar a troca efetiva de informações entre os profissionais e garantindo uma assistência mais coordenada.10,24-25
Apesar dos benefícios, o uso do partograma ainda é bastante limitado nas maternidades e, quando utilizado, acaba não sendo preenchido em sua totalidade, sendo um indicativo da necessidade de medidas para capacitação dos profissionais envolvidos na prestação da assistência ao trabalho de parto e parto acerca da importância desse instrumento.26-27
Este estudo obteve um percentual de utilização do partograma de 58,9%, porém, destes poucos estavam preenchidos em sua totalidade. Desse modo, a utilização do partograma como uma prática obstétrica positiva, conforme recomendado pela OMS, deveria ser estimulada no contexto estudado.26
Entre as tecnologias duras, pode-se destacar a técnica de monitorização fetal contínua que foi amplamente utilizada. Essa técnica é o método de escolha para o monitoramento fetal durante o trabalho de parto normal no risco habitual10 e, embora a população da pesquisa não se enquadre nessa classificação, observou-se um alto uso dessa tecnologia.
Um resultado satisfatório relacionado à tecnologia dura, diz respeito ao baixo percentual de episiotomias (1,37%), o que demonstra uma diminuição dessa prática antes tão comum18 e que evidencia uma relação de poder desigual entre profissional e paciente, estando essa mais a serviço de quem assiste o parto, do que da mulher e de seu bebê.28
Quanto ao uso de ocitocina, os resultados do estudo demonstram uma prevalência de utilização de 13,1%, considerado um percentual baixo, não obstante não seja possível saber, pelo estudo, se essa utilização ocorreu de maneira adequada, com colo uterino favorável à indução11. Nesse sentido, é válido enfatizar que a administração de ocitocina exógena possui grau de recomendação B, considerada uma prática que deve ser desestimulada.10
Por fim, ressalta-se que embora a gestação de alto risco possa predispor diagnósticos negativos relacionados à assistência materno-fetal, não significa que a cirurgia cesariana seja o desfecho recomendado para todos os casos, pois altas taxas de cesáreas predispõem altas taxas de mortalidade materna e neonatal.11
A prevalência de cirurgias cesarianas no contexto estudado foi de 84,14%, ultrapassando a taxa de 30% preconizada pela OMS, que destaca que, mesmo no alto risco, o parto cirúrgico deve ser adotado somente se indicado para o caso, pois pode acarretar complicações significativas e até permanentes para mãe e bebê.29
CONCLUSÃO
A partir dos resultados obtidos nesse estudo, pode-se identificar que as tecnologias leves foram amplamente utilizadas na maioria das parturientes, o que denota uma preocupação no que diz respeito ao acolhimento e humanização da assistência em saúde. Do mesmo modo, as tecnologias duras também tiveram grande prevalência de utilização, principalmente no que se refere à cirurgia cesariana. Já as tecnologias leve-duras, essas não foram bem aproveitadas no local do estudo, uma vez que a maioria das mulheres relatam não terem passado pelas experiências descritas
Sendo assim, é importante que os gestores desse cenário habilitem seus profissionais para lidar com as tecnologias de cuidado em obstetrícia, principalmente nas bases leve-duras, respeitando sempre a fisiologia do parto e a singularidade de cada mulher e buscando-se sempre manter o olhar crítico do profissional acerca das alterações que podem se fazer presentes nesse cenário de assistência.
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Notas de autor
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Información adicional
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