Artigo Original
Interação por aplicativo móvel em tempos de pandemia: experiência de gestantes e puérperas
Mobile app interaction in pandemic times: experience of pregnant and postpartum woman
Interacción vía aplicación móvil en tiempos de pandemia: experiencia de gestantes y puérperas
Interação por aplicativo móvel em tempos de pandemia: experiência de gestantes e puérperas
Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, vol. 16, e-12224, 2024
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Recepción: 02 Diciembre 2022
Aprobación: 14 Noviembre 2023
Resumo: Objetivo: conhecer a experiência de mulheres que compartilharam a vivência do ciclo gravídico-puerperal durante a Pandemia Covid-19 em um grupo de aplicativo de mensagem criado para complementar as atividades educativas de um grupo de gestantes. Método: estudo qualitativo, descritivo e exploratório. Os dados são provenientes das mensagens de 94 mulheres participantes de Grupos de Gestantes e Casais Grávidos realizados em 2020, vinculado a um projeto de extensão de uma Universidade do Sul do país. Resultados: apresentam sentimentos relacionados à ausência do contato físico com família e amigos, dúvidas e desafios encontrados durante a gestação e puerpério, medos e incertezas em relação ao processo de parto e nascimento. Conclusão: o grupo de gestantes mediado por aplicativo de mensagens mostrou ser um aliado na interação entre as mulheres, possibilitando a educação em saúde e a criação de uma rede de apoio respeitando o distanciamento social.
Palavras-chave: Gravidez, Período pós-parto, Isolamento social, Pandemias.
Abstract: Objective: to know the experience of women who shared the livingness of the pregnancy-puerperal cycle during the Covid-19 Pandemic in a message app group created to complement the educational activities of a group of pregnant women. Methods: qualitative, descriptive and exploratory study. The data comes from the messages of 94 women participating in Groups of Pregnant Women and Pregnant Couples held in 2020, linked to an extension project of a University in the south of the country.Results: feelings related to the absence of physical contact with family and friends, doubts and challenges encountered during pregnancy and puerperium, fears and uncertainties regarding the labor and birth process were highlighted. Conclusion: the group of pregnant women mediated by a messaging application proved to be an ally in the interaction between women, enabling health education and the creation of a support network respecting social distance.
Keywords: Pregnancy, Postpartum period, Social isolation, Pandemics.
Resumen: Objetivo: conocer la vivencia de mujeres que compartieron la vivencia del ciclo embarazo-puerperio durante la Pandemia del Covid-19 en un grupo de aplicación de mensajes creado para complementar las actividades educativas de un grupo de gestantes. Método: estudio cualitativo, descriptivo y exploratorio. Los datos provienen de los mensajes de 94 mujeres participantes de Grupos de Embarazadas y Parejas Embarazadas realizados en 2020, vinculados a un proyecto de extensión de una Universidad del Sur del país. Resultados: presentan sentimientos relacionados con la ausencia de contacto físico con familiares y amigos, dudas y desafíos encontrados durante el embarazo y el puerperio, miedos e incertidumbres en relación al proceso de trabajo de parto y nacimiento. Conclusión: el grupo de gestantes mediado por una aplicación de mensajería demostró ser un aliado en la interacción entre mujeres, posibilitando la educación en salud y la creación de una red de apoyo respetando el distanciamiento social.
Palabras clave: Embarazo, Periodo posparto, Aislamiento social, Pandemias.
INTRODUÇÃO
O ciclo gravídico-puerperal é um fenômeno singular, marcado por modificações físicas, psicológicas,sociais e por sentimentos que se tornam mais evidentes à medida que o parto se aproxima. No parto a mulher exerce sua autonomia, decidindo ativamente sobre seu próprio cuidado.2 No puerpério há um processo marcado por aprendizados, expectativas, anseios e inseguranças diante de tudo que será vivenciado e delimita a aquisição de novos papéis e responsabilidades.1-2
O cuidado compartilhado e aconselhamento adequado no pré-natal por meio de atividades de educação em saúde pode minimizar as dúvidas e medos, estimular sentimentos positivos e empoderar a mulher para o exercício da autonomia durante o processo de parto e puerpério.1-4 Da mesma forma, o apoio da equipe de saúde é fundamental para que a mulher conheça a fisiologia do trabalho de parto e esteja orientada e preparada para lidar com os desafios e os desconfortos.5
A assistência de pré-natal desde o início da pandemia de Covid-19 passou por vários processos de mudanças com as medidas adotadas para preservar a vida e diminuir o risco de transmissão para os profissionais de saúde e para as gestantes e puérperas até o 14º dia de pós-parto incluídas no grupo de risco para a Covid-19.6-8
Nesse cenário, as equipes de saúde buscaram estratégias para manter o acompanhamento pré-natal, como as teleconsultas e as atividades educativas online, propiciando a troca de informações, interações e atendimento interdisciplinar.9 Os aplicativos de mensagens criados para smartphones favorecem o aprendizado por meio da interação dos participantes, a fluidez do diálogo e a troca de informações em tempo real.10 Dentre os aplicativos se destaca o WhatsApp® por ser acessível, dinâmico e de baixo custo, alcançando diversos públicos, sendo uma ferramenta que pode suprir as demandas de comunicação existentes entre profissionais de saúde e determinado público. Contudo, destaca-se uma escassez de publicações sobre o uso de aplicativos móveis, principalmente o WhatsApp® no cuidado em saúde.11
O uso de aplicativos para a criação de grupos de mensagens vem crescendo e foi um importante instrumento de interação para as mulheres que vivenciaram o ciclo gravídico-puerperal durante a pandemia. Assim, este estudo se justifica frente a relevância de se obter informações concretas sobre a contribuição da tecnologias para as trocas de informações, dúvidas e sentimentos vivenciados pelas gestantes.
O estudo objetiva conhecer a experiência de mulheres que compartilharam a vivência do ciclo gravídico-puerperal durante a Pandemia Covid-19em um grupo de aplicativo de mensagem criado para complementar as atividades educativas de um grupo de gestantes.
MÉTODO
Pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória realizada com gestantes inscritas em um projeto de extensão de uma Universidade Pública do Sul do Brasil, que objetiva desenvolver atividades educativas e interdisciplinares a gestantes, puérperas e seus acompanhantes atendidos na atenção primária em saúde e na saúde suplementar. As atividades são desenvolvidas em parceria com docentes do curso de enfermagem, estudantes e profissionais da maternidade do Hospital Universitário.
Diante das medidas sanitárias impostas pela pandemia, as atividades presenciais foram suspensas e o grupo se readequou passando a realizar encontros semanais via plataformas de reuniões online. Cada grupo realizou sete encontros online que versaram sobre temas do ciclo gravídico-puerperal. As gestantes e famílias preencheram uma ficha de inscrição ao ingressar no projeto.
A criação do grupo de WhatsApp® ocorreu no momento da confirmação da inscrição das participantes com o intuito de complementar as atividades de educação em saúde. No grupo de interação as gestantes e seus acompanhantes podem esclarecer dúvidas, compartilhar sentimentos e experiências entre si. A equipe acompanha diariamente as mensagens e realiza orientações a partir das demandas. Periodicamente as conversas de WhatsApp® são salvas no banco de dados do grupo para futuras pesquisas.
Participaram do estudo mulheres inscritas em três grupos de gestantes realizados em 2020 (G96, G97 e G98).Esses grupos escolhidos foram realizados entre março a setembro de 2020, no primeiro semestre da pandemia. Como critérios de inclusão foram estabelecidos: ser maior de 18 anos, ter participado dos encontros online do grupo e ter interagido nos grupos de aplicativo de mensagem. O critério de exclusão foi o não preenchimento completo da ficha de inscrição.
A coleta de dados ocorreu de outubro a novembro de 2020, a partir das fichas de inscrição das participantes e dos arquivos de conversas de aplicativo de mensagem pela pesquisadora principal. A coordenadora do projeto acessou os grupos do WhatsApp® e salvou todas as mensagens de cada grupo em arquivos de texto em uma pasta destinada a este estudo. Foram excluídas oito participantes com ficha de inscrição com preenchimento incompleto.
A análise dos dados foi realizada por pares e baseada na ordenação dos dados, classificação dos dados e análise final dos resultados.12 As informações provenientes de 1.499 páginas de conversas entre as participantes foram acessadas e lidas na íntegra. Foi realizada a leitura horizontal das conversas e destacado os trechos com questões relacionadas aos sentimentos, dúvidas e informações sobre a pandemia. A leitura transversal permitiu identificar semelhanças e conexões com as ideias centrais, as quais foram classificadas por cores e distribuídas em grandes temas, que originaram as categorias do estudo.
Respeitou-se os aspectos éticos e o parecer n.4.079.102 foi aprovado no Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos. O termo de consentimento livre e esclarecido foi aplicado no primeiro encontro do grupo de gestantes. Para identificar as participantes foram utilizadas a letra P (participante), seguida pela letra G(grupo) e número do grupo dado sequencialmente a partir do primeiro grupo vinculado ao projeto. Para orientação e rigor metodológico seguiu-se o guia Consolidated Criteria For Reporting Qualitative Research (COREQ).
RESULTADOS
Participaram do estudo 94 mulheres com idade entre 21 a 42 anos; a maioria era casada (45) ou vivia em união estável (32) e 17 mulheres se declararam solteiras. Quanto ao grau de instrução, duas possuíam ensino fundamental, 16 ensino médio e 76 ensino superior. Todas as participantes realizaram pré-natal, sendo acompanhadas na rede pública (33), na rede privada (52) e em ambas (9); 77 mulheres eram primigestas, 12 secundigestas e cinco multigestas.
Os resultados foram estruturados em três categorias descritas a seguir:
Compartilhando sentimentos gerados pelo isolamento social
As participantes compartilharam sentimentos decorrentes do isolamento social, destacando a ausência do contato físico com família e amigos durante a gestação, dúvidas em relação às visitas ao recém-nascido e desafios encontrados no puerpério.
Uma participante relatou como foi gestar durante a pandemia.
No começo da gestação tinha muitos sonhos e planos [...] Sonhei em desfilar o meu barrigão nas ruas, só que ele cresceu e nem os meus amigos puderam contemplá-lo presencialmente. [...] Eram tantos planos e sonhos, dos mais profundos aos mais bobos [...] E a gente entende que nem tudo é como planejamos e que na verdade muitas coisas não são realmente importantes nem necessárias. Na verdade, tudo que precisamos é de AMOR. (P30G97)
Uma preocupação manifestada foi às visitas ao recém-nascido e a troca de informações a respeito de como estavam se organizando quanto às visitas e convivência dos familiares.
[...] Queria saber de vocês, como estão lidando com as visitas e convivência com a família diante da pandemia? [...] Apenas os quatro avós conheceram a bebê. Confesso que é muito difícil manter assim. [...] queria saber se somos os únicos nesse isolamento todo ou se tem mais gente assim. To sofrendo com a distância e pressão das pessoas querendo vir aqui. (P19G96)
Aqui estamos isolados, recebemos somente uma visita [...] ficaram de máscara o tempo todo. Tá difícil mesmo, mas eu morro de medo de arriscar. (P4G96)
A interação no grupo de mensagem favoreceu a expressão de sentimentos e experiências sobre o puerpério em meio a pandemia, abarcando aspectos emocionais, sentimentos e a importância das trocas no grupo.
[...] como vocês se sentem emocionalmente? Eu no geral dentro de tudo bem mas tem dias que fico angustiada, choro, sinto culpa, cansaço, me sinto só, nossa como é difícil. [...]Tô achando importante compartilhar nossas emoções, nosso estado muito peculiar. Ainda no meio do isolamento. (P18G96)
[...]Acho válido essa troca, esses desabafos [...]. É difícil desabafar com outras pessoas que não estão vivenciando isso [...] Essa tal da pandemia que até evito ficar pensando muito nisso pra não pirar. (P6G96)
Assistência pré-natal durante a pandemia
Uma das principais dúvidas encontrada nas mensagens foi a respeito da assistência pré-natal. O cancelamento de consultas no serviço público de saúde e no suplementar foi uma realidade vivenciada pelas gestantes no primeiro semestre da pandemia.
[...] Eu teria consulta hoje, estou de 29 semanas [...]. Me ligaram do posto falando que devido ao coronavírus estão desmarcando todas as consultas das gestantes que não são de alto risco [...] Será que está certo isso, ficar sem acompanhamento? (P6G96)
Faço particular e as consultas foram canceladas até segunda ordem. (P13G96)
As participantes que tiveram suas consultas mantidas, sentiam medo de comparecer ao serviço de saúde em virtude da pandemia e do risco de contaminação. Ao mesmo tempo, destacaram que foram tomadas todas as medidas de proteção para evitar o contágio e assim, se sentiram mais tranquilas durante o atendimento presencial.
Estava com medo de como iria estar o postinho, mas fiquei admirada com as precauções deles. Acabei de voltar da consulta do pré-natal e estava bem tranquilo, eles estão só atendendo com hora marcada e fica alguém na porta fazendo uma triagem de quem pode ou não entrar, só tinha eu e uma gestante que estava saindo da sala e o pessoal que trabalha no posto tudo de máscara e o ambiente bem higienizado. (P15G96)
Faço no posto e não foi cancelado porque estou muito perto do parto. Mas tô morrendo de medo de ir lá. (P4G96)
As participantes compartilharam os sentimentos em relação às consultas intercaladas de forma online ou presencial. Relataram que no primeiro e no segundo trimestre de gestação as consultas foram via aplicativo de mensagem e no terceiro trimestre iniciaram as consultas presenciais. Uma participante destaca que devido a gestação de alto risco por hipertensão, foi atendida em algumas consultas emergenciais.
No meu caso faço as consultas online intercaladas com presenciais. Hoje me informaram que na próxima vão pedir os exames do terceiro trimestre. A partir de agora as consultas serão quinzenais. (P39G98)
Eu tô fazendo pré natal todo pelo SUS e fiquei desde o início da pandemia só fazendo consulta por whatsappⓇ. Como tive pressão alta, eles me atenderam como se fosse consulta de emergência algumas vezes nas 32 semanas e agora com 36 semanas que começaram as consultas mesmo. [...] Mas foi bem complicado, porque só ouvi o coraçãozinho nos exames de ultrassom. (P31G98)
As mulheres ressaltaram que apesar de ser um momento atípico, o pré-natal é direito da mulher e do bebê. Compartilharam que recorreram ao atendimento particular devido às incertezas e em alguns casos ao desamparado do Sistema Único de Saúde (SUS). Em contrapartida, outras mulheres relataram que o acompanhamento gestacional no SUS foi mantido.
Eu entendo que o momento tá complicado, e que estão priorizando emergência. Mas o pré natal é direito de toda mulher. (P45G98)
Nas consultas de pré-natal no posto sou atendida sempre por uma equipe (médico, enfermeiro e residentes). Além disso, também tenho acompanhamento semanal com psicólogo e dentista, nutricionista (quando necessário). (P39G98)
Eu descobri a gravidez bem no início da pandemia e já me falaram que não tinha previsão para voltar os atendimentos à gestante, fui direto para o particular e nem tentei mais. (P13)
Presença do acompanhante e da doula no parto e nascimento
Antes do estabelecimento de protocolos, algumas maternidades proibiram a presença do acompanhante e da doula durante todo o trabalho de parto, parto e puerpério imediato. A possibilidade de vivenciar o parto sem a presença do acompanhante e/ou doula gerou sentimentos de apreensão, incerteza e medo e buscaram amparo na legislação para garantir a presença de um acompanhante.
[...]Desculpem trazer esse assunto, mas desde que conversamos sobre a possibilidade do pai do bebê não poder entrar na hora do parto com a mãe eu busquei informações jurídicas e meus direitos e o direito do bebê. E encontrei a seguinte ementa: “Lei Federal N° 11.108, o SUS é obrigado a permitir a presença de um acompanhante” eu particularmente terei um colapso nervoso se entrar sozinha. (P4G97)
Posso estar errada mas achei desnecessário isso, a Doula é de extrema importância e fico triste só de pensar que vou ficar sem o atendimento no parto. (P22G96)
Nas interações dos grupos, foram abordadas quais as possibilidades existentes para o enfrentamento das proibições sobre o direito do acompanhante ou da doula no momento do parto, como por exemplo, uma requisição judicial para garantir o direito ao acompanhante no momento do parto.
Medos e incertezas a respeito de um parto hospitalar surgem no grupo, principalmente quanto à permanência do acompanhante num período em que os protocolos não estavam estabelecidos e passavam por mudanças constantes. A ideia de um parto domiciliar é manifestada por uma das mulheres. Uma participante trouxe a possibilidade da alta hospitalar precoce, pela angústia de ficar sozinha durante a internação.
[...] o estado de calamidade pública faz alguns direitos ficarem “disponíveis”, coisa que numa situação normal não seria possível. [...] Eu e meu marido estamos pensando em algumas medidas judiciais. É direito dele me acompanhar, mas tudo é incerto [...] Confesso que fiquei bem apreensiva e já começo a reconsiderar a possibilidade do parto domiciliar. (P19G96)
Tomara que possamos pelo menos ser liberadas mais cedo [..]. (P22G97)
DISCUSSÃO
O distanciamento social imposto pela pandemia privou as gestantes do convívio social, acarretando sentimentos de solidão, angústia, incerteza, e frustração.9 A visita de familiares após o nascimento foi repensada na estrutura das famílias.
As gestantes relataram muitas dúvidas em relação a gravidez e ao parto em tempos de pandemia, destacando o medo de contrair a doença e a preocupação em relação a presença do acompanhante no momento do parto.9,13 Por conta disso, a gestante pode vivenciar impactos psicológicos que alterem seu comportamento habitual durante a pandemia. Tais aspectos podem estar associados à ansiedade, à apreensão, à raiva, à redução da concentração, ao desânimo e à falta de disposição.14 Essas construções negativas repercutem na experiência da maternidade desde a gravidez ao puerpério.15
Para minimizar os impactos gerados pela pandemia, novas perspectivas e experiências ampliam o uso de ferramentas de educação em saúde.16 As tecnologias digitais vêm se destacando no cenário brasileiro como ferramentas facilitadoras do cuidado em saúde, principalmente na reorganização dos serviços, melhoria de acesso à qualidade dos atendimentos frente às demandas gerada com a pandemia de Covid-19.17-18 A utilização de aplicativo móvel tem sido eficaz na adesão ao pré-natal, contribuindo para qualificar a assistência e se tornando um forte aliado na promoção da saúde para melhorar os indicadores de saúde materna.19
A pandemia colocou à prova a capacidade humana de dar sentido ao sofrimento, desafiando a sociedade a encontrar maneiras de diminuir os impactos na saúde mental.20 Nesta perspectiva, os profissionais de saúde necessitam refletir sobre sua prática profissional de modo a amenizar ou prevenir os impactos da Covid-19 para o binômio mãe-bebê. Ademais, requer que sejam criadas estratégias de cuidado que envolvam acolhimento, vínculo e proporcionem bem-estar às mulheres durante a gravidez e puerpério, tendo em vista que este é um período marcado por sentimentos de medos e incertezas.21-22
Dentre as estratégias de cuidado o Grupo de Gestantes torna-se um agregador de conhecimentos e favorece que aspectos psicológicos e socioculturais da mulher e do acompanhante sejam trabalhados, contribuindo para que sejam tomadas decisões com embasamento científico,23 principalmente diante de tantas mudanças impostas pela pandemia. Assim, a criação de grupos educativos via WhatsApp® torna-se uma ferramenta de cuidado que estimula o compartilhamento de dúvidas e anseios relacionados às vivências do ciclo gravídico-puerperal entre as participantes. Essa ferramenta tecnológica não substitui as ações de educação em saúde, mas, pode complementá-la e tornar-se um espaço profícuo de interação entre profissionais, gestantes e famílias.
As recomendações do Ministério da Saúde asseguram que mesmo em pandemia o pré-natal deve ser garantido, sendo um momento oportuno para os profissionais de saúde realizarem orientações, acerca dos direitos das gestantes. O acompanhamento pré-natal, quando viável, pode ser feito por teleatendimento, na tentativa de propiciar um espaçamento entre as consultas presenciais.8
No primeiro semestre da pandemia, alguns hospitais adotaram medidas restritivas em relação aos acompanhantes no momento do parto no início da pandemia, descumprindo a Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005, que garante às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato. A possibilidade da ausência do acompanhante gerou nas gestantes muitos sentimentos e busca por seus direitos. A atuação do acompanhante no trabalho de parto perpassa pela dimensão emocional, física, informacional e intermediação, transmitindo à mulher confiança, aconchego e melhor bem-estar emocional e psicológico.24
As redes sociais têm sido utilizadas por muitas gestantes para expressarem seus medos do parto, suas angústias e suas necessidades diante de um estado de vulnerabilidade acarretado pela pandemia. Assim, contribuindo para experiências de parto mais positivas, satisfação, saúde mental, empoderamento, apoio, qualidade de vida tendo em vista que essas vozes chegam a sociedade, profissionais de saúde, gestores e políticos e mobilizam a criação de protocolos seguros para o binômio mãe-bebê.15
As limitações do estudo relacionam-se à coleta de dados realizada por meio do arquivo de conversas do aplicativo de mensagens, o que não possibilitou o aprofundamento das temáticas levantadas. Sugere-se pesquisas com esta temática articuladas com outras técnicas de coleta de dados que permitam o aprofundamento das discussões ocorridas nas interações via aplicativo de mensagem.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pandemia foi e tem sido desafiadora para toda a sociedade, em especial para gestantes e puérperas que são do grupo de risco para Covid-19. O grupo de mensagens por aplicativo como ferramenta complementar das atividades educativas online se tornou um espaço onde as mulheres puderam compartilhar as vivências do ciclo gravídico-puerperal em meio a pandemia, amparadas por profissionais da saúde capacitados para sanar as dúvidas levantadas. Ao mesmo tempo, favoreceu a construção de uma rede de apoio no qual as mulheres puderam compartilhar suas vivências diárias e minimizar os efeitos do isolamento social de forma segura no primeiro semestre da pandemia.
APOIO FINANCEIRO
FAPESC - Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina, Edital FAPESC n.26/2020.
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Notas de autor
margarete.lima@ufsc.br
Información adicional
redalyc-journal-id: 5057