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A influência da espiritualidade na assistência a pacientes em cuidados paliativos
The influence of spirituality in assisting patients in palliative care
La influencia de la espiritualidad en la asistencia a los pacientes en cuidados paliativos
Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, vol. 16, e-13243, 2024
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Artigo Original

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Recepción: 18 Abril 2024

Aprobación: 26 Abril 2024

DOI: https://doi.org/10.9789/2175-5361.rpcfo.v16.13243

Resumo: Objetivos: descrever a percepção dos profissionais que atuam na equipe de cuidados paliativos sobre a influência da espiritualidade em seu cotidiano e assistência prestada. Método: estudo qualitativo, descritivo, exploratório, que atendeu aos critérios do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research Checklist. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas. Para a interpretação dos dados optou-se pela análise temática. Resultados: Foram entrevistados 18 profissionais da equipe multidisciplinar e da análise de suas falas emergiram três categorias, Religiosidade e espiritualidade confundindo-se na compreensão dos profissionais; Sentido ao trabalho dos profissionais que atuam em cuidados paliativos; Ações e atitudes que favorecem o desenvolvimento do cuidado espiritual. Conclusão: a equipe multidisciplinar reconhece que a espiritualidade influencia seu cotidiano de trabalho. Embora tenham sido identificadas diferentes percepções acerca da compreensão do conceito de espiritualidade, identificaram ações que em sua concepção contribuem para a oferta de uma assistência que contemple a dimensão espiritual.

Palavras-chave: Cuidados paliativos, Espiritualidade, Equipe multiprofissional.

Abstract: Objectives: to describe the perception of professionals who work in the palliative care team about the influence of spirituality in their daily lives and the assistance provided. Method: qualitative, descriptive, and exploratory study, which met the criteria of the Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research Checklist. Data collection was carried out through semi-structured interviews. To interpret the data, we opted for thematic analysis. Results: 18 professionals from the multidisciplinary team were interviewed and three categories emerged from the analysis of their statements, “Religiosity and spirituality being confused in the understanding of professionals”; “Meaning for the work of professionals who work in palliative care”; “Actions and attitudes that favor the development of spiritual care”. Conclusion: the multidisciplinary team recognizes that spirituality influences their daily work. Although different perceptions were identified regarding the understanding of the concept of spirituality, they identified actions that, in their conception, contribute to the provision of assistance that encompasses the spiritual dimension.

Keywords: Palliative care, Spirituality, Multidisciplinary team.

Resumen: Objetivos: describir la percepción de los profesionales que actúan en el equipo de cuidados paliativos sobre la influencia de la espiritualidad en su vida diaria y la asistencia brindada. Método: estudio cualitativo, descriptivo y exploratorio, con 18 profesionales del equipo multidisciplinario que actúan en cuidados paliativos. La recolección de datos se realizó entre marzo y agosto de 2023 mediante entrevistas semiestructuradas. Para el análisis de los datos se optó por el análisis temático. Resultados: surgieron tres categorías, “Religiosidad y espiritualidad confundidas en la comprensión de los profesionales”; “Significado para el trabajo de los profesionales que actúan en cuidados paliativos”; “Acciones y actitudes que favorecen el desarrollo de la atención espiritual”. Conclusión: el equipo multidisciplinario reconoce que la espiritualidad influye en su trabajo diario. Si bien se identificaron diferentes percepciones respecto a la comprensión del concepto de espiritualidad, acciones identificadas que, en su concepción, contribuyen a la prestación de una asistencia que abarca la dimensión espiritual.

Palabras clave: Cuidados paliativos, Espiritualidad, Equipo multidisciplinario..

INTRODUÇÃO

Cuidado paliativo (CP) é o cuidado ativo e holístico oferecido a indivíduos de todas as idades que enfrentam intenso sofrimento relacionado à saúde, devido a doenças graves, especialmente aqueles próximos ao fim de vida. Tem por objetivo melhorar a qualidade de vida dos pacientes, familiares e cuidadores.1

Tal cuidado inclui a prevenção, identificação precoce, avaliação abrangente e o manejo de problemas físicos, incluindo dor e outros sintomas estressantes. O CP contemplam, também, as dimensões psicológicas, espirituais e sociais relacionadas à totalidade do ser.1

Estudo evidencia que a religião e a espiritualidade ajudam os indivíduos a compreender o que os espera próximo ao fim de vida2 e os ajudam a lidar com tal condição.3

Entretanto, é importante enfatizar que religiosidade e espiritualidade não são conceitos sinônimos. A religiosidade caracteriza-se pela manifestação de crenças e cultos, ou seja, a execução de práticas e atividades que visam desenvolver os preceitos da religião, bem como a busca pela espiritualidade.4

Já a espiritualidade, é algo que transcende a religião e a religiosidade, caracteriza-se em algo que dá sentido à vida.5 A espiritualidade pode ser definida como um aspecto dinâmico e intrínseco da condição humana por meio da qual os indivíduos buscam significado, propósito e transcendência e experimentam as relações consigo mesmo, família, comunidade, sociedade, natureza e com o sagrado.6

Para os pacientes sob cuidados paliativos, a espiritualidade é considerada uma força motriz capaz de oferecer respostas à sua condição, em relação à sua própria existência,7 influenciando no processo de vivenciar o adoecimento, sendo uma forma de consolo para muitos pacientes e familiares, que temem o desconhecido.8

A literatura retrata vários estudos relacionados aos benefícios da espiritualidade para o paciente e família.8-12 Entretanto, quando se busca compreender a influência da espiritualidade na atuação da equipe responsável pelo cuidado dos pacientes, a literatura é escassa.

Para os profissionais que atuam em cuidados paliativos, a espiritualidade é importante e pode contribuir para a realização cotidiana de seu trabalho, assim como, para a qualidade do cuidado prestado.13, 14

Embora a espiritualidade seja um componente que contribui para o cuidado integral do paciente, muitos profissionais de saúde possuem dificuldades em inserir esse tipo de abordagem em seu cotidiano de trabalho, devido à insegurança que possuem por não conhecerem a sua própria espiritualidade. Ainda, a falta de tempo para refletirem a esse respeito, acaba por dificultar sua relação com as crenças do paciente, levando-os a priorizar os aspectos biológicos na condução da assistência prestada.15 Ainda, tais dificuldades podem estar relacionadas com questões pessoais, institucionais e culturais, além da necessidade de formação e treinamento profissional nessa área.15, 16

Sabe-se que a maioria dos profissionais de saúde não recebe qualquer treinamento para lidar com a dimensão espiritual que envolve o processo de saúde-doença, sendo essa uma das dificuldades na incorporação das crenças sobre religião e espiritualidade ao cuidado dos pacientes.17

Ao lidar com a finitude do paciente em cuidados paliativos, o profissional de saúde se depara com a própria terminalidade, de modo que a espiritualidade pode proporcionar sentido ao trabalho em cuidados paliativos.13

Frente ao exposto, o objetivo desta pesquisa foi descrever a percepção dos profissionais que atuam na equipe de cuidados paliativos sobre a influência da espiritualidade em seu cotidiano e assistência prestada.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter descritivo e exploratório. A apresentação do manuscrito seguiu os critérios do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research Checklist (COREQ).

A coleta de dados foi realizada entre os meses de março e agosto de 2023, em um hospital de nível secundário do interior do estado de São Paulo. O referido serviço conta com 50 leitos, sendo 10 deles exclusivos para assistência a pacientes em cuidados paliativos.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, sob parecer n° 5.882.944 e CAAE 63540222.6.0000.5393. Após aprovação, o participante foi convidado a participar do estudo e nesse momento foi explicado o objetivo do estudo e em que consistia sua participação. Foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em duas vias e, após realizada a leitura pelo participante, foram esclarecidas eventuais dúvidas e solicitada sua assinatura nas duas vias. O pesquisador também assinou as duas vias do TCLE, arquivando uma via e entregando a outra via para o participante do estudo.

Os sujeitos do estudo foram os profissionais de saúde da equipe multidisciplinar que atuam na enfermaria de Cuidados Paliativos. Os critérios de inclusão dos participantes da pesquisa foram: atuar na equipe multiprofissional do referido serviço há pelo menos um ano. O critério para exclusão dos participantes da pesquisa foi: estar afastado do serviço (por motivos de férias ou licenças) no período em que ocorreu a coleta de dados.

Para a coleta de dados foram realizadas entrevistas individuais com os participantes, em local privativo, na mesma instituição onde o estudo foi realizado. A coleta de dados foi realizada em horário definido pelo participante, de modo a não interferir com seu turno de trabalho.

Os profissionais da equipe multidisciplinar foram convidados a participar da pesquisa, por meio de abordagem direta pelo pesquisador em seu local e horário de trabalho, de modo a compor uma amostra por conveniência.

Foram realizadas entrevistas semiestruturadas norteadas pelas seguintes perguntas: “Para você, qual é o significado de espiritualidade?”; “Qual a sua percepção sobre a influência da espiritualidade em seu cotidiano e assistência prestada aos pacientes em cuidados paliativos?” e “Quais ações você realiza que considera favorecer o desenvolvimento do cuidado espiritual?”.

Ainda, para a caracterização dos participantes, foram coletadas as seguintes informações: formação, tempo de formação, tempo de atuação no referido serviço, tempo de atuação em cuidados paliativos.

Com a permissão dos participantes, que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE),18 as entrevistas foram gravadas em aparelho digital e posteriormente, o material foi transcrito na íntegra.

O número total de participantes foi definido conforme as convergências e divergências observadas nos elementos utilizados para a compreensão do fenômeno. A saturação foi obtida ao se evidenciar a repetição de algumas falas e descrições do fenômeno.19 Para garantir o anonimato dos participantes, as entrevistas foram organizadas em ordem de coleta de dados com algarismos arábicos, identificando os entrevistados com a inicial de sua formação, exemplificando, Enfermeiro 1 (E1).

As transcrições foram submetidas à análise temática. Essa se divide em etapas cronológicas: a pré-análise; a exploração do material; o tratamento dos resultados e a interpretação dos dados.20 As gravações foram analisadas por inúmeras vezes para a extração da essência das respostas, e a partir daí, foram criadas as categorias temáticas.

RESULTADOS

Participaram do estudo 18 profissionais, sendo três fisioterapeutas; um nutricionista; oito técnicos de enfermagem; três enfermeiros; três médicos. Dos dezoito participantes da pesquisa, seis eram homens e doze, mulheres. A média de idade foi 35 anos, o tempo médio de formação dos profissionais entrevistados foi 12 anos e o tempo médio de atuação em cuidados paliativos foi cinco anos.

As entrevistas foram realizadas em horários diversos, nos períodos da manhã e tarde, em momentos que os profissionais estivessem disponíveis, não prejudicando as necessidades de assistência aos pacientes e demandas da instituição. As entrevistas tiveram duração aproximada de 30 minutos e todos os participantes autorizaram a gravação, possibilitando sua transcrição na íntegra para a análise.

A partir dos dados obtidos na pesquisa, com base nas falas dos participantes, emergiram três categorias temáticas: Religiosidade e espiritualidade confundindo-se na compreensão dos profissionais; Sentido ao trabalho dos profissionais que atuam em cuidados paliativos; Ações e atitudes que favorecem o desenvolvimento do cuidado espiritual.

Religiosidade e espiritualidade confundindo-se na compreensão dos profissionais:

As falas de alguns entrevistados permitiram compreender que muitas vezes religiosidade e espiritualidade confundem-se, em sua percepção. Aqueles que manifestaram ter uma religião acreditam que, por isso, são espiritualizados e, assim, capazes de incorporar aspectos dessa espiritualidade na assistência ao paciente em cuidados paliativos.

[...] Espiritualidade? Tem que ter muita fé em Deus, eu acredito muito em Deus e… o importante é …confiar muito em Deus [...] (TE4)

[...] chega um ponto que a ciência não tem as respostas, aí entra a espiritualidade. Pra mim é isso assim… é Deus... a religião [...] (TE6)

Para outros, espiritualidade e religiosidade são conceitos distintos, mas que podem estar relacionados.

[...] a espiritualidade é tudo que me liga a um ser maior que a gente, então… se eu... como eu posso te falar… se eu sou espiritualizado é porque eu acredito que exista algo ou um ser maior que eu, e eu estou ligado a esse ser [...] (F1)

[...] o significado é realmente entender e … buscar um significado, assim, da existência, um sentido na vida, acho assim, mas por esse… caminho, essa direção [...] (F2)

Sentido ao trabalho dos profissionais que atuam em cuidados paliativos:

Os participantes do estudo reconhecem que sua própria espiritualidade, crenças e práticas dão sentido ao relacionamento e aos cuidados com os pacientes, ou seja, à sua prática assistencial diária.

[...] eu percebo que quando eu, como fisioterapeuta, não estou tão ligado a Deus eu sinto que… parece que falta alguma coisa, tem uma diferença no próprio tratamento, no próprio atendimento na realidade, de como chega o meu cuidado até o paciente [...] (F1)

[...] Eu acho que de certa forma traz um ar de compreensão, a gente passa isso para os pacientes, então é muito importante, ajuda bastante [...] (M7)

Os profissionais que atendem os pacientes em CP, demonstram que a espiritualidade proporciona uma visão sobre o seu próprio papel como profissional para o paciente e sua família no enfrentamento e na busca pela melhor qualidade de vida nesse momento.

[...] Eu acho que ela ajuda muito no enfrentamento das dificuldades mesmo, é… de lidar com o sofrimento humano né, e do nosso papel aqui não só como profissional, mas enquanto ser humano, de auxiliar o paciente e a família a passar por esse momento difícil, então eu acho que ela ajuda nesse sentido, de a gente… é... conseguir enfrentar isso, é ter um significado que ajude a gente a realmente é… fazer o nosso papel, o nosso trabalho [...] (F2)

[...] Então, a minha concepção é assim, muitas das vezes é… pra mim é um complemento dos cuidados da enfermagem também, por isso eu achava até interessante a gente aprofundar mais nessa questão [...] (TE8)

Ações e atitudes que favorecem o desenvolvimento do cuidado espiritual:

Pela análise das falas dos participantes foi possível identificar sua percepção acerca de algumas ações e atitudes que os mesmos realizam na assistência prestada, como meio de contemplar a dimensão espiritual do cuidado.

[...] Acho que geralmente é levantar como que a espiritualidade é importante pro paciente, a gente acaba perguntando se tem alguma prática religiosa, o quanto que isso influencia no tratamento né… a gente tem muitos pacientes aqui que solicitam alguma visita religiosa ou de capelania então, nesse sentido, investigar e ver como que pode ajudar a viabilizar isso aí junto com o restante da equipe [...] (M12)

[...] Eu aconselho né, eu aconselho a não desistir, ter fé, é… pedir a Deus, agradecer a Deus todos os dias, eu aconselho muito a isso [...] (TE8)

Entretanto, foi observado que tais “ações”, realizadas pelos profissionais como meio de contemplar a dimensão espiritual, estão associadas a delegar essa demanda a outros profissionais que, em sua concepção, estariam mais aptos a prestar tal cuidado.

[...] Então, quando eu identifico que tem alguma pessoa que tá precisando mais desse apoio espiritual, seja porque a pessoa verbaliza, seja porque ela demonstra de outras formas que ela está precisando disso, eu tento direcionar ela, ou pro atendimento de apoio espiritual que tem aqui, ou eu chamo algum outro profissional que seja mais capacitado pra abordar algumas questões [...] (N3)

[...] a gente vai muito pela demanda dele, então tem alguns pacientes que solicitam a presença de capelão, padres, a gente tem isso aqui né, acaba que no fim, o médico aqui tem um contato, muitas vezes pontual com o paciente, acho que com o psicólogo, assistente social tem um contato mais próximo, então acho que os pacientes se sentem mais a vontade de conversarem com esses profissionais, sabe? [...] (M7)

DISCUSSÃO

A atenção voltada para a dimensão espiritual torna-se cada vez mais necessária à prática assistencial à saúde.21 A espiritualidade é uma das vertentes que rege o cuidado diferenciado, sendo relevante nas ações paliativas por ser capaz, entre outras coisas, de promover maior reflexão e aceitação do sofrimento e da morte.13

O cuidado paliativo é um cuidado holístico, que inclui a espiritualidade para proporcionar a integralidade do cuidado ao paciente. Entretanto, muitos profissionais em suas colocações trataram como sinônimos os termos religião e espiritualidade ao abordarem o conceito e a prática desse cuidado.

Apesar de serem tratados como sinônimos na maioria dos estudos, autores apontam dificuldade na realização de trabalhos com a temática da religiosidade e espiritualidade pela diversidade e complexidade das suas definições.22

Entretanto, há também autores que consideram exclusivamente a subjetividade no que se refere à espiritualidade, e que essa distinção de conceitos se dá apenas por fins didáticos e de pesquisa e, que na abordagem clínica do paciente não podem ser pré-definidas pelo profissional, cabendo considerar unicamente o sentido dado pelo ponto de vista do paciente.23

O presente estudo possibilitou identificar que a espiritualidade, na percepção dos profissionais de saúde que atuam em cuidados paliativos, pode influenciar positivamente a assistência prestada.

Estudo que teve por objetivo verificar se a religiosidade/espiritualidade dos profissionais de saúde influencia no cuidado prestado ao paciente crítico, identificou que quando questionados se a sua religiosidade/espiritualidade mudava a maneira de cuidar do paciente crítico, a maioria dos profissionais relataram que sim, que esta dimensão modifica sua forma de cuidar.24

A valorização da religiosidade/espiritualidade, na prestação da assistência aos pacientes tem se tornado um claro paradigma na prática diária dos profissionais de saúde permitindo uma melhor compreensão sobre o tema, melhorando o modo de ver e abordar o paciente de forma integral, considerando suas crenças pessoais e não somente os aspectos biológicos do processo de saúde e doença.25

As falas de alguns participantes do presente estudo permitiram compreender que os mesmos adotam algumas ações na tentativa de contemplar a dimensão espiritual no cuidado ao paciente, tais como, utilizar palavras de apoio e o estímulo a fé em Deus, para promover conforto diante das dificuldades impostas pela doença e enfrentamento da mesma. Tais ações vão de encontro aos resultados obtidos em outro estudo que teve por objetivo apreender como ocorre o cuidado espiritual prestado pela equipe de enfermagem à pessoa em paliação na Unidade de Terapia Intensiva.26 Essas atitudes evidenciam uma sensibilidade dos profissionais para lidarem com a dor do próximo, sinalizando, assim, para uma assistência integral pautada na valorização da dimensão humana, que transcende o físico.26

Entretanto, no presente estudo, foi possível perceber que as ações relatadas pelos participantes relacionadas à incorporação da espiritualidade na promoção da assistência ao paciente em cuidados paliativos estavam restritas apenas ao oferecimento de apoio, palavras de conforto e encorajamento. Para a oferta efetiva do cuidado espiritual, os profissionais geralmente reportavam ao serviço de capelania e apoio espiritual presentes no serviço.

Nesse sentido, tal conduta é compreensível uma vez que pessoas com doenças sem possibilidades terapêuticas manifestam necessidades de vivenciar suas crenças religiosas e a permissão e apoio por parte da equipe de saúde dentro das possibilidades e das práticas religiosas rotineiras no ambiente hospitalar.27

O serviço de capelania oferecido em alguns serviços de saúde desempenha um papel imprescindível na assistência aos pacientes que sentem necessidade de recorrer à sua fé para explorar o significado da vida, da morte e o que os esperam após a morte.28

Ainda, tal conduta de “delegar” o cuidado espiritual a profissionais que consideram estar mais aptos para essa ação, pode denotar que os profissionais da equipe de cuidados paliativos entrevistados não se sentem adequadamente preparados para realizar ações que contemplem a dimensão espiritual na assistência prestada.

Neste sentido, autores enfatizam a importância da abordagem dos aspectos espirituais dos pacientes ainda na formação de profissionais de saúde, a fim de melhor prepará-los para gerir e promover este cuidado.29 Uma pesquisa que teve por objetivo verificar como a espiritualidade é abordada nos ambientes de atendimento à saúde concluiu que é necessário desenvolver nos estudantes da área de saúde, não só a competência do cuidado ao corpo físico, mas também a competência para cuidar do espírito. Dessa forma, considera que é imprescindível a incorporação da espiritualidade nos currículos da graduação em saúde.30

Diante do exposto, observou-se que a temática espiritualidade e as suas práticas no cotidiano de trabalho dos profissionais de saúde que assistem pacientes em cuidados paliativos ainda é um desafio que precisa ser melhor compreendido de modo a oportunizar habilidade e segurança para o acolhimento dessa demanda.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A equipe multidisciplinar reconhece que a espiritualidade influencia seu cotidiano de trabalho assistindo os pacientes em cuidados paliativos. Foi possível identificar diferentes percepções acerca da compreensão do conceito de espiritualidade e identificar ações que na concepção dos profissionais contribuem para a oferta de uma assistência que contemple a dimensão espiritual.

As limitações deste estudo perpassam pela restrição a um contexto específico e pelo número reduzido de participantes, o que não permite extrapolar os achados para outros contextos e populações. Assim, encoraja-se o desenvolvimento de mais estudos na área, que contribuam para a compreensão de aspectos relevantes que contemplem a dimensão espiritual na assistência ao paciente em cuidado paliativo.

O presente estudo tem potencial para contribuir com a evolução do conhecimento sobre o tema uma, vez que, permite a reflexão dos profissionais acerca da influência da espiritualidade em seu cotidiano profissional e não somente enquanto um conceito inerente somente os pacientes e familiares.

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Notas de autor

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