Resumo: Objetivo: identificar a violência no namoro vivenciada por jovens universitárias e discutir as formas de violência vivenciadas. Método: descritivo, exploratório e qualitativo, com 50 jovens de 19 a 24 anos de uma universidade pública do Rio de Janeiro, Brasil, que afirmaram estar ou já ter estado em um relacionamento por no mínimo seis meses. As entrevistas foram semiestruturadas, entre setembro de 2019 e fevereiro de 2020, e os dados tratados pela análise temática. Resultados: a maioria das participantes era parda ou preta, possuía religião e heterossexuais; 39 afirmaram vivenciar alguma forma de violência no namoro perpetrada por homens. A violência psicológica foi relatada pela maioria, seguida da moral, física, sexual e patrimonial. Considerações finais: a violência no namoro em universitárias é uma realidade sustentada por moldes patriarcais, favorecendo repercussões negativas na saúde e vida acadêmica. É necessário promover no meio universitário, ações de prevenção e enfrentamento à violência de gênero.
Palavras-chave: Violência de gênero, Violência por parceiro íntimo, Universidades, Estudantes, Adulto jovem.
Abstract: Objective: to identify dating violence experienced by young university students and discuss the forms of violence experienced. Method: descriptive, exploratory and qualitative, with 50 young people aged 19 to 24 from a public university in Rio de Janeiro, Brazil, who stated that they were or had already been in a relationship for at least six months. The interviews were semi-structured, between September 2019 and February 2020, and the data was treated using thematic analysis. Results: the majority of participants were brown or black, religious and heterosexual; 39 said they experienced some form of dating violence perpetrated by men. Psychological violence was reported by the majority, followed by moral, physical, sexual and property violence. Final considerations: dating violence among university students is a reality supported by patriarchal molds, favoring negative repercussions on health and academic life. It is necessary to promote actions to prevent and combat gender-based violence in universities.
Keywords: Gender violence, Intimate partner violence, Universities, Students, Young adult..
Resumen: Objetivo: identificar la violencia en el noviazgo vivida por jóvenes universitarios y discutir las formas de violencia vividas. Método: descriptivo, exploratorio y cualitativo, con 50 jóvenes de 19 a 24 años de una universidad pública de Río de Janeiro, Brasil, que manifestaron estar o haber estado en una relación de pareja durante al menos seis meses. Las entrevistas fueron semiestructuradas, entre septiembre de 2019 y febrero de 2020, y los datos fueron tratados mediante análisis temático. Resultados: la mayoría de los participantes eran morenos o negros, religiosos y heterosexuales; 39 dijeron que habían experimentado alguna forma de violencia en el noviazgo perpetrada por hombres. La violencia psicológica fue la mayoritaria, seguida de la violencia moral, física, sexual y patrimonial. Consideraciones finales: la violencia en el noviazgo entre estudiantes universitarios es una realidad sustentada en moldes patriarcales, favoreciendo repercusiones negativas en la salud y la vida académica. Es necesario promover acciones para prevenir y combatir la violencia de género en las universidades.
Palabras clave: Violencia de género, Violencia de pareja, Universidades, Estudiantes, Adulto joven..
Artigo Original
DATING VIOLENCE EXPERIENCED BY YOUNG PEOPLE FROM A PUBLIC UNIVERSITY IN BRAZIL
Violencia en el novio vivienda por jóvenes en una universidad pública en Brasil

Recepción: 21 Febrero 2024
Aprobación: 11 Abril 2024
A violência contra a mulher perpetrada por parceiro íntimo (VPI) engloba comportamentos nocivos de natureza física, sexual ou psicológica, e ocorre dentro de relações íntimas entre duas pessoas.1 É um fenômeno complexo e multifacetado, representando um grande desafio para a saúde pública e a sociedade em escala global.¹
Esse tipo de violência é comum entre pessoas adultas e com status marital, mas também se faz presente na vida de jovens adultos, uma vez que é alimentado pelos mesmos conceitos de gênero enraizados e pelas atitudes baseadas em desigualdades que se perpetuam no âmbito do casamento ou da coabitação.²
Violência no namoro refere-se à ação perpetrada por um parceiro íntimo, manifestando-se por meio de comportamentos destinados a exercer controle ou dominação sobre o(a) parceiro(a), evidenciando relações assimétricas.¹
Estudos nacionais e internacionais indicam alta prevalência de violência no namoro de jovens adultas universitárias, incluindo situações como lesões corporais, gravidez indesejada, infecções sexualmente transmissíveis, depressão, entre outras. Isso significa que as jovens enfrentam inúmeras repercussões negativas em sua saúde, pois seu contexto é permeado por sofrimento e medo.3-8
Existem vários fatores de risco que aumentam a probabilidade de vivenciar esse tipo de violência: testemunhar ou ser vítima de violência perpetrada pelos pais ou familiares, fazer uso de substâncias psicoativas, ser depender economicamente do parceiro.1,5 Acrescenta-se que a jovem, ao ingressar em uma universidade, tem chance aumentada de vivenciar a violência no namoro, visto que o homem pode sentir-se ameaçado pelo status acadêmico da parceira9 – tal situação pode comprometer a sua saúde física e mental, impactando negativamente no seu bem-estar.4 Estudo realizado com 1.823 universitários mostrou que 67% das jovens tinham vivenciado alguma forma de VPI no ambiente acadêmico.3
Destaca-se que, no Brasil, as mulheres ocupam a maioria das matrículas de graduação e pós-graduação (57,2%), sendo também maioria entre os ingressantes (55,2%) e concluintes (61,4%) das instituições de ensino superior.4 No entanto, nas universidades ainda prevalecem as assimetrias de gênero que legitimam as ações violentas entre os jovens, revelando a falta de visibilidade dessa problemática, bem como a necessidade de desenvolvimento de propostas de enfrentamento e transformação social desse fenômeno.2 Assim, este estudo justifica-se pela importância de se compreenderem os elementos relacionados à violência no namoro vivenciada por universitárias, considerando as repercussões negativas à saúde das jovens.
Diante do exposto, delimitaram-se como objetivos identificar a violência no namoro vivenciada por jovens universitárias e discutir as formas de violência vivenciadas.
Trata-se de uma pesquisa descritiva, exploratória, com abordagem qualitativa. O cenário foi uma universidade pública federal, localizada no município do Rio de Janeiro, Brasil.
A seleção das participantes ocorreu por conveniência, entre setembro de 2019 e fevereiro de 2020. Com o propósito de identificar a violência no namoro em jovens universitárias, foram convidadas 50 mulheres jovens, transeuntes do campus, que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: ter entre 19 a 24 anos; estar regularmente matriculadas em um dos cursos da universidade; afirmarem estar ou já ter estado em um relacionamento com homem ou mulher por no mínimo seis meses e ter condições físicas e psicológicas para participar voluntariamente da pesquisa. Foram excluídas as mulheres que não fossem brasileiras; casadas; ou que residissem com o(a) parceiro(a), pois a definição de namoro não inclui coabitação.2
Em caso de aceite, a entrevista era agendada, conforme a disponibilidade da participante em sala reservada, disponibilizada pela universidade, e realizada de forma que garantisse a privacidade e o conforto das participantes. Todas foram informadas acerca dos riscos e benefícios da pesquisa, bem como do direito à desistência a qualquer momento e da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido. Desse modo, a participação das mulheres foi voluntária, destacando-se que não houve recusa ao convite de participação no estudo.
O trabalho de campo foi conduzido por duas moderadoras, mestrandas (segunda e terceira autoras), treinadas pela orientadora (primeira autora). As entrevistas foram gravadas em aparelho digital, com autorização prévia das participantes e, posteriormente, transcritas na íntegra. Tiveram duração aproximada de 60 minutos. A fim de garantir o anonimato, foram utilizados códigos de identificação, denominados pela letra E seguida de numeração ordinal em ordem crescente (E1 … E50), conforme a realização das entrevistas. O total de participantes seguiu o princípio da saturação por escasseamento.10
A coleta de dados se deu por meio de entrevista semiestruturada e individual, cujo roteiro foi elaborado pelas pesquisadoras, com perguntas fechadas e abertas que versavam sobre os relacionamentos de namoro das jovens universitárias. Findada a pesquisa, as transcrições impressas e os áudios se manterão guardados por cinco anos; após esse período, os textos serão incinerados e os áudios apagados.
Todas as participantes foram orientadas quanto à existência da Lei Maria da Penha11 e à possibilidade de realizarem a denúncia contra o(a) parceiro(a), caso desejassem e se sentissem seguras. Também foi disponibilizado o telefone da Central de Atendimento à Mulher (180) e dos Centros de Atendimentos à Mulher em Situação de Violência existentes no município do Rio de Janeiro.
Para análise dos dados, foi utilizada a análise de conteúdo temática de acordo com as seguintes etapas: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados, inferência e interpretação.10 Primeiramente, foi realizada a transcrição e organização das entrevistas, o que permitiu a exploração do material e o processo de codificação, dando origem a um total de 77 unidades temáticas relacionadas aos três primeiros eixos temáticos, os quais se referiam às vivências. Dessa forma, foi elaborada a seguinte categoria de análise: “Vivências de jovens universitárias no relacionamento de namoro”.
Salienta-se que as etapas de pesquisa e elaboração deste artigo obedeceram aos critérios do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ), tendo sido aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro em junho de 2018, com parecer favorável, tendo sido observados os padrões éticos exigidos.
Participaram da pesquisa 50 (100%) jovens universitárias. Desse total, 39 (78%) mulheres afirmaram ter vivenciado alguma forma de VPI perpetrada por homens. Em relação ao número de namoros que tiveram no decorrer da vida, as respostas variaram de um a cinco.
No que tange à caracterização das participantes, a maioria enquadrou-se no seguinte perfil: 28 (56%) das universitárias possuíam de 19 a 21 anos, 21 se autodeclararam pardas e/ou pretas (42 %), 37 residiam com familiares (74%) e 15 possuíam religião (30%). Quanto à orientação sexual, 42 (84%) declararam ser heterossexuais e oito (16 %) bissexuais.
Vivências de violência de gênero no namoro
Das 39 participantes que afirmaram ter vivenciado a violência de gênero, no que se refere às formas de VPI, a maioria, ou seja, 33 (66%), afirmaram que a violência psicológica foi a mais comum nos relacionamentos, de acordo com os seguintes relatos:
Ele tava sempre tentando me botar pra baixo e dizia que os amigos dele não gostavam de mim, porque eu era muito antissocial. Isso porque eu não queria falar com os amigos dele [...]. (E10)
Ele fazia muitas ameaças, dizendo que ia terminar, se eu não fizesse o que ele queria, [...].(E40)
Ele dizia que eu só passei no Enem porque eu tinha direito à cota [...]. (E7)
A violência moral foi a segunda forma mais perpetrada pelos parceiros durante os relacionamentos, relatada por 29 mulheres (58%), podendo ainda se estender após o término.
Ele me chamou de puta pra baixo e eu ouvi tudo quieta [...]. (E10)
O pai dele uma vez inventou um boato de que eu tava uma vez na rua pagando boquete pra um menino [...].(E16)
No que concerne à agressão física, alguns relatos demonstraram que 14 participantes (28%) a vivenciaram mais de uma vez:
Uma vez ele colocou a colher no fogão e depois jogou nas minhas costas. Outra vez, ele beliscou o meu peito [...]. (E18)
Um dia ele teve uma crise de ciúmes e bateu a minha cabeça na parede [...]. (E21)
Pode-se observar que a violência sexual também se fez presente nos relacionamentos de 13 jovens (26%).
Nós começamos a nos beijar. Eu era virgem e acabou que ele chegou à penetração antes que eu permitisse [...]. (E8)
No início eu sentia muita dor e ele forçava a barra. Às vezes, ficava insistindo, quando claramente estava desconfortável para mim [...]. (E10)
Ainda no contexto da violência sexual, cinco (38%) delas mencionaram que o parceiro interferiu diretamente no uso do preservativo.
Eu confiava nele como pessoa , mas ele não gostava de usar preservativo e forçava uma barra para não usar [...]. (E8)
Sempre usávamos preservativo, porque eu queria. Mas a última vez eu esqueci e pensei que ele tinha colocado e não tinha. Ele me forçou a fazer sexo sem a camisinha [...]. (E14)
Segue-se o relato de uma participante que demonstra a sobreposição da violência física seguida de violência sexual:
Naquele dia a gente a gente já tinha transado e eu não queria mais. Ele continuou insistindo, ele me empurrou no chão, puxou a minha calcinha pro lado, sem camisinha e ele ainda gozou dentro [...]. (E21)
A violência patrimonial é identificada na fala das participantes (n=2; 4%):
Ele quebrou meu celular em uma briga. Quando ele quebrou o dele, eu dei o iPod e nunca mais me devolveu [...]. (E46)
Quando o celular dele parou, eu emprestei o meu e ele não me devolveu. (E41)
Em outro depoimento, uma participante afirmou ter agredido o parceiro, configurando um caso de bidirecionalidade, isto é, quando os parceiros se agridem mutuamente:
Ele já me empurrou e me puxou. Eu também já puxei e empurrei ele também. (E7)
A violência intrafamiliar também se fez presente no relato de 16 participantes (36%):
Eu tenho uma prima e uma tia que sofreram e ainda sofrem violência do parceiro e elas não percebem. A minha tia se separou, porque ela pegou HIV do marido [...]. (E14)
Já vi meu pai enforcar a minha mãe, e outras cenas bem pesadas [...]. (E22)
O aumento de episódios de violência também foi identificado por quatro participantes (8%), quando seus parceiros faziam uso de álcool e/ou drogas psicoativas:
As agressões eram maiores quando ele fumava maconha e bebia. (E35)
Ele bebia muito e quando acontecia, era muito xingamento e empurrões [...].(E37)
Os resultados da pesquisa apontam que as características sociodemográficas das participantes são semelhantes às de outras mulheres jovens não universitárias.1,4,5 A partir dos relatos, observou-se que a cor da pele não interferiu na vivência de violência de gênero. Entretanto, ao analisar a VPI fora do meio universitário, considera-se que mulheres jovens pretas na faixa etária de 18 a 24 anos estão mais expostas à VPI.12 Os resultados reforçam que o nível de escolaridade não isenta as universitárias do risco de vivenciar esse tipo de violência,4,5,7 uma vez que mulheres de todas as classes educacionais, econômicas, sociais e culturais podem vivenciá-la.¹
Quanto à religião das jovens, embora a maioria tenha declarado possuir uma, foi notório que não representou um fator de proteção contra a VPI. As religiões, especialmente católicas e protestantes, pregam submissão feminina frente ao gênero masculino, de maneira a fortalecer o machismo, favorecendo a aceitação e a naturalização da VPI por parte das mulheres. Esse dado é ratificado por estudo realizado no Brasil que revelou que as mulheres em situação de VPI são desencorajadas a romper o ciclo de violência com o parceiro, legitimando, assim, o patriarcado e a reafirmando a dominação masculina.13
Sobre a orientação sexual, a maioria das jovens eram heterossexuais. Contudo, apesar de os resultados não terem evidenciado a violência entre pessoas do mesmo sexo por não serem o público-alvo específico deste estudo, a VPI pode ocorrer para esses casais, visto que esse fenômeno está pautado em relações assimétricas em relacionamentos de namoro, independentemente de gênero.14,15
Dentre as participantes deste estudo, duas eram bissexuais e não vivenciaram violência no namoro com suas parceiras. No entanto, destaca-se que mulheres lésbicas são mais vulneráveis a sofrerem VPI no namoro devido ao estresse gerado em função dos estigmas relacionados a essa população,15 acrescido da baixa autoestima ocasionada pela opressão da sociedade patriarcal ou da própria família.16 Nesse sentido, todas as formas de violência de gênero são prejudiciais à saúde.1
Quanto às formas de violência perpetrada pelos namorados, a violência psicológica foi a mais citada entre as participantes. Essa forma de violência abrange ameaças, humilhações, isolamento, perseguição, entre outros,11 que causam agravos à saúde mental e repercutem em baixa autoestima, depressão, insegurança, afastamento social e estresse pós-traumático, influenciando significativamente a qualidade de vida das mulheres.1,8 No caso de jovens universitárias, não é nulo o risco de a VPI comprometer o desempenho acadêmico, causar frustrações com a própria formação ou levar ao abandono do curso.4
A violência moral foi a segunda forma de violência mais referida pelas participantes. As jovens foram xingadas e caluniadas.11 Situação que as humilha, denigre a sua imagem e certamente impacta negativamente a sua autoestima e qualidade de vida. Estudo realizado em Portugal com 3.547 mulheres revelou que 13% das jovens entrevistadas foram difamadas pelo namorado.17 Vale salientar que a internet é um campo vasto para a ocorrência da violência psicológica e moral, uma vez que o perpetrador emprega a tecnologia para atingir a mulher, expondo-a por vídeos, fotos ou relatos pessoais, com o objetivo de prejudicar a sua reputação.18 Outro estudo que ocorreu na Espanha evidenciou que a população feminina jovem está mais exposta a esse tipo de crime se comparada à masculina, considerada, por sua vez, mais agressora e perpetradora da violência.19
Outro estudo, realizado pelo Instituto Patrícia Galvão com jovens universitários, revelou que os homens não reconhecem as diversas formas de violência praticadas contra as mulheres, especialmente a psicológica e a moral. Eles alegam ser consequência natural do comportamento da mulher ou brincadeiras sem intenção de ofender ou intimidar.3
A violência física, que compreende qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal das mulheres,11 foi citada como terceira forma de violência de gênero mais vivenciada pelas jovens. As participantes mencionaram tapas, beliscões, empurrões, puxões de cabelo, entre outras expressões de violência. Alerta-se que esse tipo de agressão pode provocar repercussões à saúde física e mental, podendo, ainda, progredir para o feminicídio.1,12 Estudo conduzido em Goiás reforçou que a violência física perpetrada contra as jovens ocorreu com menos frequência do que outras formas de violência, por ser mais facilmente reconhecida pelos universitários como comportamento impróprio e agressivo.20
Algumas jovens afirmaram que a violência sexual fez parte dos seus relacionamentos, uma vez que se configura por relações sexuais não desejadas, práticas sexuais não consentidas, pelo impedimento do uso de contraceptivo, o não uso de preservativo pelo parceiro, entre outras condutas que podem levar à gravidez indesejada, ao aborto inseguro, a infecções sexualmente transmissíveis ou à depressão, diferentemente do senso comum, quando muitos pensam que é caracterizada somente pela penetração.8, 11,18,20
Estudos apontam que esse tipo de violência pode também ser precedida da violência psicológica e/ou física, ou simultânea a elas, verificando-se uma sobreposição de formas violentas.1,12 Acrescido a isso, pesquisa realizada com universitários da Coreia do Sul evidencia que a violência psicológica e/ou física antecede a violência sexual.2
A violência patrimonial, vivenciada por algumas participantes em seus relacionamentos, se concretiza por roubo, retenção ou danos a bens materiais, recursos ou documentos.11 Essa forma de violência, assim como a psicológica e a moral, por vezes não é percebida pelas mulheres, tendendo a transformar-se em dor silenciosa.12
A violência nos relacionamentos de namoro deve ser compreendida no contexto dos aspectos históricos e sociais, sobretudo os referentes às relações de gênero, pois ela se fundamenta no senso comum acerca do amor romântico, em que o homem controla o relacionamento; e à mulher cabe ter confiança no parceiro – atitudes culturalmente aceitas como naturais, mas que acarretam a isenção de responsabilidade masculina, levando, por exemplo, a relações sexuais sem consentimento e desejo da mulher.2,20
Os dados indicam que qualquer forma de violência tem impactos adversos na saúde física, mental, sexual e reprodutiva das mulheres, além de afetar negativamente seu desempenho acadêmico.1,5,7,15,20
As jovens, além de terem vivenciado as várias formas de violência de gênero de seus parceiros, constataram que o consumo de álcool ou drogas psicoativas aumentavam as chances de episódios agressivos. O uso dessas substâncias é reconhecido como um fator potencializador de conflitos, uma vez que o indivíduo pode adotar comportamentos hostis, o que cria um ambiente propício para discussões, ofensas e, em casos mais graves, agressões físicas e sexuais.1,4-6
Em resposta ao comportamento controlador dos parceiros, algumas participantes relataram que agrediram o namorado, caracterizando a bidirecionalidade da violência.21 É preciso ponderar que nem todas as mulheres são submissas, assim como certamente nem todos os homens são dominadores, pois os relacionamentos devem ser pensados sob uma perspectiva relacional, em que cada um detém parcelas de poder, mesmo que sejam desiguais.2
Algumas participantes conviveram com violência no seio da família durante a infância e adolescência. Essas agressões cotidianas no âmbito doméstico, que evidenciam a desigualdade entre os gêneros, contribuem para a repetição de modelos de submissão ou perpetração da violência, tornando as jovens vulneráveis à vivência desse fenômeno em relacionamentos futuros, como no namoro e no casamento.1,2,4
Com base nesses dados, percebeu-se que as jovens universitárias não estão imunes à vivência da violência de gênero nas relações de namoro. Esse fato destaca a necessidade de desmistificar mitos e estereótipos, especialmente aqueles que sugerem que o período de namoro é a fase mais positiva na vida de um casal. É crucial promover campanhas informativas no ambiente universitário para aumentar a conscientização sobre esse fenômeno, buscando, assim, fomentar a igualdade de gênero.
Destaca-se a importância de incluir a temática nos currículos dos cursos universitários com o propósito de promover a reflexão acerca dos diferentes tipos e formas de violência de gênero e sensibilizar os futuros profissionais para um olhar acolhedor, igualitário e humano, despertando-os para os diversos modos de vida e cuidado.22,23
A limitação desta pesquisa foi a amostra reduzida de participantes, de modo que são necessárias outras investigações para complementar o estudo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados desta pesquisa corroboraram outros estudos ao constatar que a VPI contra a jovem universitária nos relacionamentos de namoro é uma realidade, que se sustenta em moldes patriarcais. Sob o ponto de vista da saúde pública, tal situação representa um problema social preocupante, uma vez que pode se perpetuar ao longo do relacionamento entre os jovens, tornando-se crônico nas relações conjugais.
É essencial integrar iniciativas de prevenção e combate à violência de gênero desde o ensino fundamental até a universidade, visando desmistificar mitos e estereótipos e fomentar uma cultura de paz. Essas estratégias podem ser efetivadas por meio da implementação de políticas e da realização de diálogos que abordem comportamentos saudáveis e emancipatórios.
Destaca-se que o papel da universidade extrapola o ato de formar jovens para o mercado de trabalho, devendo prepará-los com senso crítico para uma sociedade em contínua transformação. Ressalta-se a contribuição deste estudo pelo reconhecimento da existência da VPI no espaço universitário, haja vista a necessidade imperiosa de promover ações de prevenção e enfrentamento à violência de gênero. Ademais, recomenda-se a inclusão do tema violência de gênero contra a mulher na grade curricular dos cursos de graduação e pós-graduação da área da saúde e humanas, sob a ótica da interdisciplinaridade, para que se obtenha uma mudança no cuidado integral e sensível às jovens.
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