Abstract: Objective: to investigate the effects of resistance training on the cognitive function of older adults. Method: this study is an integrative review conducted across the following databases: Embase, PubMed, Scopus, Lilacs, Web of Science, and Google Scholar. Results: the initial search yielded 2525 records, which were screened using the Rayyan platform by two independent reviewers. After excluding duplicates and other results that did not meet the established eligibility criteria, seven studies were included in this review. Conclusion: it is concluded that resistance training has been effective in improving cognitive function. The relationship between physical and cognitive functions is noteworthy, and further studies are needed to clarify this matter, exploring additional modalities such as cardiorespiratory training, resistance training on unstable surfaces, and varying intervention periods.
Keywords: Elderly, Resistance training, Strength training, Cognition, Cognitive function. .
Resumo: Objetivo: investigar os efeitos do treinamento resistido sobre a função cognitiva de idosos. Método: o presente estudo se trata de uma revisão integrativa conduzida nas seguintes bases de dados: Embase, Pubmed, Scopus, Lilacs, Web of Science e Google acadêmico. Resultados: a busca inicial resultou em 2525 registros e foram encaminhados à plataforma Rayyan, onde foram avaliados por dois revisores independentes. Após exclusão de duplicatas e outros resultados que não condiziam com os critérios de elegibilidade estabelecidos, sete estudos foram incluídos nessa revisão. Conclusão: conclui-se que, o treinamento de força tem sido eficiente em melhorar a função cognitiva. A relação entre as funções física e cognitiva é notória e mais estudos devem ser realizados para esclarecer o assunto, acrescentando outras modalidades como treinamento cardiorrespiratório, treinamento de força em superfícies instáveis, além de diferentes períodos de intervenção.
Palavras-chave: Idosos, Treinamento resistido, Treinamento de força, Cognição, Função cognitiva..
Resumen: Objetivo: investigar los efectos del entrenamiento de resistencia sobre la función cognitiva en adultos mayores. Método: el presente estudio es una revisión integrativa realizada en las siguientes bases de datos: Embase, PubMed, Scopus, Lilacs, Web of Science y Google Académico. Resultados: la búsqueda inicial arrojó 2525 registros, los cuales fueron evaluados por dos revisores independientes utilizando la plataforma Rayyan. Tras excluir duplicados y otros resultados que no cumplían con los criterios de elegibilidad establecidos, se incluyeron siete estudios en esta revisión. Conclusión: se concluye que el entrenamiento de fuerza ha demostrado ser eficaz para mejorar la función cognitiva en adultos mayores. La relación entre las funciones física y cognitiva es notable y se requieren más estudios para esclarecer este tema, incorporando otras modalidades como el entrenamiento cardiorrespiratorio, el entrenamiento de fuerza en superficies inestables, y explorando diferentes períodos de intervención.
Palabras clave: Adultos mayores, Entrenamiento de resistencia, Entrenamiento de fuerza, Cognición, Función cognitiva..
Revisão Integrativa de Literatura
Resistance training, cognitive function and the elderly: an integrative review
Treinamento resistido, função cognitiva e idosos: revisão integrativa
Entrenamiento de resistência, función cognitiva y ancianos: revisión integrativa

Recepción: 11 Julio 2024
Aprobación: 23 Julio 2024
O envelhecimento é responsável por muitas alterações fisiológicas relevantes, sendo a função cognitiva uma dessas variáveis fisiológicas que declinam com o avanço da idade. Essa alteração, aliada à perda da função física, ocasiona a dependência funcional em idosos, além de aumentar a probabilidade de morbidade e mortalidade. A perda da função cognitiva pode acarretar a demência, que têm se tornado frequente em idosos, sendo descoberto um caso incurável a cada 4 segundos.1
A função cognitiva pode ser definida como uma forma de expressão do cérebro onde há a interação da mente com o mundo. Os autores ainda afirmam que a cognição se expande desde a gestação até a fase adulta e, a partir dos 60 anos de idade, o indivíduo experimenta o declínio dessa função.2
Em alguns estudos é possível verificar a associação entre as funções física e cognitiva, nas quais, quando uma declina, a outra também tem algum impacto negativo. É possível verificar que a perda da função cognitiva proporciona efeitos negativos sobre a função física, pois, há uma predição de declínio na velocidade de marcha quando há declínio na cognição1. Em uma revisão sistemática foi afirmado que os altos níveis de condicionamento físico podem ser associados à prevenção dos declínios cognitivos e neurais.3
Esses efeitos negativos do envelhecimento são explicados pelas mudanças relevantes que ocorrem na estrutura e função do cérebro, o que afeta a função cognitiva. O encolhimento do hipocampo e da substância branca e cinzenta são as alterações estruturais que explicam o declínio da memória e da velocidade de processamento, ocasionando dificuldades na realização de tarefas básicas como dirigir e lembrar de algo.3,4
Visando retardar os efeitos deletérios do envelhecimento, especialmente, no que diz respeito às funções cognitivas, o exercício físico tem sido altamente recomendado. O treinamento resistido surge como uma das opções de treinamento viáveis para minimizar os efeitos do envelhecimento, embora os estudos com intervenção de treinamento resistido têm sido realizados com menor freqüência.5
Mediante a tais argumentos e devido à importância do assunto para a saúde pública, é relevante a pesquisa sobre abordagens de intervenção eficientes em diminuir os efeitos negativos ocasionados pelo declínio da função cognitiva durante o processo de envelhecimento.
O presente estudo tem como objetivo investigar o impacto do treinamento resistido sobre a função cognitiva em idosos, a fim de verificar se essa intervenção tem sido eficiente nessa população.
Este estudo consiste em uma revisão integrativa conduzida em quatro etapas metodológicas principais: formulação da questão de pesquisa, busca na literatura, seleção dos estudos e extração/síntese de dados. Na primeira etapa, o tema e a pergunta de pesquisa foram definidos: "O treinamento resistido promove a melhoria da função cognitiva em idosos saudáveis?”. Durante a segunda etapa, realizada entre junho e julho de 2024, foram consultadas as bases de dados Embase, Pubmed, Scopus, Lilacs, Web of Science e Google Acadêmico.
Para orientar a estratégia de busca, foi utilizado o acrônimo PICO, com os seguintes componentes: P (População: Idosos saudáveis), I (Intervenção: Treinamento resistido ou Treinamento de força), C (Comparação: Não se aplica) e O (Outcomes ou desfecho: Melhoria na função cognitiva). Os critérios de inclusão abrangeram estudos com idosos saudáveis, ensaios clínicos randomizados (ECR’s), intervenções com treinamento resistido publicados entre 2019 e 2024, sem restrição de idioma. Os critérios de exclusão compreenderam estudos com idosos com qualquer comprometimento à saúde, revisões bibliográficas, estudos piloto, de prevalência, coorte, intervenções combinadas, estudos com desfechos não relacionados à melhoria da função cognitiva e artigos restritos.
Na terceira etapa, os estudos foram selecionados por meio da plataforma Rayyan – Intelligent Systematic Review.6 Para isso, houve a participação de dois revisores independentes, responsáveis pela triagem dos artigos por títulos e resumos. Os conflitos foram resolvidos por consenso ou, quando necessário, com a avaliação de um terceiro revisor.
A última etapa envolveu a extração e síntese dos dados, conduzida utilizando o software de planilhas Calc do LibreOffice, versão 24.2.1.2. Os dados extraídos incluíram informações como referência bibliográfica, características da amostra, local e protocolo da intervenção, objetivos e resultados dos estudos selecionados. Este estudo aderiu às diretrizes PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses).7 Devido à natureza metodológica da pesquisa, a mesma não foi submetida à avaliação de um Comitê de Ética em Pesquisa.
Tabela 1 – Estratégia de busca realizada nas bases de dados. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024

Fonte: Elaboração dos autores.
A amostra desse estudo foi composta por sete ensaios clínicos randomizados (ECR’s), após identificação de 2525 registros por meio da estratégia de busca em cada base de dados. Os estudos tiveram um recorte temporal de 2019 a 2024, com o objetivo de selecionar registros mais atuais e verificar os efeitos da intervenção do treinamento de força sobre a função cognitiva de idosos. A figura 1 expõe o processo de identificação, triagem e inclusão desses estudos nessa revisão integrativa.

Tabela 2 – Características dos estudos. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024

Fonte: Elaboração dos autores.
TF: treinamento de força; TFI: treinamento de força com instabilidade; TFBV: treinamento de força de baixa velocidade; TFAV: treinamento de força de alta velocidade; TA: treinamento aeróbico; TFABAD: treinamento de força de abdução e adução de quadril; CO: grupo controle; N/I: não informado.
Tabela 3 – Aplicações dos instrumentos de avaliação da função cognitiva. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024

Fonte: Elaboração dos autores.
Tabela 4 – Objetivo e resultados dos estudos. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024

Fonte: Elaboração dos autores.
TF: Treinamento de força; TFI: Treinamento de força com instabilidade; TFBV: Treinamento de força de baixa velocidade; TFAV: Treinamento de força de alta velocidade; TA: Treinamento aeróbico; TFABAD: Treinamento de força de abdução e adução de quadril; CO: Grupo controle; IMC: Índice de Massa Corporal; CI: Capacidade intrínseca; MEEM: Mini-exame do estado mental; IC: Intervalo de confiança; N/I: Não informado; CDT: Teste do desenho do relógio; STROOP: Tarefa de cores; RAVLT: Teste de aprendizagem verbal auditiva de Rey.
Dos estudos analisados, 820 idosos contribuíram como voluntários das intervenções ou ao fazer parte dos grupos controle. As intervenções ocorreram no Brasil (n=3), Chile (n=1), Alemanha (n=1), Japão (n=1) e em um caso, o local de intervenção não foi mencionado. Após a análise dos estudos, verificamos que cinco estudos (71,4%) apresentaram melhorias na função cognitiva dos idosos.
Em dois estudos, foram realizadas intervenções de TF diferentes da forma tradicional que é praticada em academias e outros centros de condicionamento. O TF tradicional teve seus resultados comparados ao treinamento de força em superfícies instáveis (TFI). Em um desses estudos houve melhoria da função cognitiva dos idosos.
Em outro cenário, o TF foi comparado ao treinamento de potência muscular em um dos estudos dessa revisão e apresentou similaridade nos resultados, uma vez que não houve diferenças significativas entre os dois métodos.
A função cognitiva foi comparada entre diferentes métodos nos estudos revisados. Em um estudo os resultados do treinamento de força (TF) foram comparados a exercícios realizados em ambiente aquático. Os autores observaram que o treinamento aquático proporcionou melhorias significativas na força muscular, aptidão cardiorrespiratória e mobilidade funcional em idosos saudáveis, sugerindo que essa modalidade é mais eficaz para promover esses benefícios. Eles também destacaram a relação entre a cognição e a força muscular do quadríceps femoral, enfatizando a importância dos exercícios de fortalecimento muscular para a melhoria da função cognitiva. Os melhores resultados observados no tempo de reação durante o treinamento aquático foram atribuídos às adaptações neuromusculares periféricas promovidas pelo TF. No entanto, a capacidade cardiorrespiratória aprimorada tem sido associada a um melhor desempenho cognitivo, conferindo uma vantagem adicional aos exercícios aquáticos.8
As diferenças encontradas no tempo de reação não foram observadas na atenção visual sustentada, capacidade de aprendizagem e funções de memória visual, o que os autores relatam como uma consequência do processo de envelhecimento, que causa degradação da matéria branca no cérebro e afeta a velocidade de processamento.8
Conforme relatado anteriormente, há uma associação entre função cognitiva e boa aptidão cardiorrespiratória, porém, ambos os treinamentos (treinamento de força e aeróbico) devem ser realizados para criar proteção contra o declínio cognitivo e doenças como a demência.13 A eficiência desses dois tipos de exercícios físicos também é confirmada em uma revisão sistemática, na qual os autores também citam a dança e outras modalidades que desenvolvam a relação “mente-corpo”.15
O TF também foi realizado em diferentes superfícies, a fim de verificar se haveria diferenças significativas entre elas. Foram realizadas duas intervenções com o TF, em superfície estável (TF) e instável (TFI). Os autores atribuíram os resultados das intervenções ao curto tempo de intervenção, que foi de 12 semanas. Porém, informam que essa relação entre tempo de intervenção e resultados ainda não está clara, uma vez que outros estudos apresentaram melhorias significativas da função cognitiva com intervenções curtas. Embora o TFI tenha apresentado resultados superiores ao TF tradicional sobre a função cognitiva global e memória, os autores analisam esse resultado com cautela.9
Em outro estudo, esses dois métodos de TF também foram comparados e houve diferenças significativas entre os grupos, com vantagem para o TFI nos testes de memória de trabalho, velocidade de processamento e inibição de resposta, e similaridade entre os grupos no teste Trail Making, embora considerem inconclusivos os resultados desse teste devido ao uso de uma versão adaptada mais fácil. A intervenção curta foi um fator relatado pelos autores como motivo para a falta de efeitos significativos nos grupos de TF em superfície estável. Além disso, o maior esforço e tempo de tensão proporcionados pelo TFI parecem justificar seus resultados.10
Ainda no que diz respeito à comparação entre métodos, foi observado que tanto o TF quanto o treinamento de potência muscular proporcionaram melhorias na memória verbal, divergindo de outros estudos em relação aos resultados de cognição global, memória de médio prazo, capacidade inibitória e atenção. Esses resultados são explicados pelos autores como possíveis discrepâncias na amostra, estado da função cognitiva, diferentes tipos de mobilidade dos participantes, aplicação de diversas ferramentas de avaliação cognitiva e programas de TF não padronizados.2
Ao realizar um protocolo de treinamento combinado (treinamento aeróbico e treinamento de força) foi visto que não houve melhoria do IC (Índice Composto) nos idosos por meio de treinamento combinado de treinamento aeróbico e TF. Para os autores, a explicação se dá devido ao fato de que a amostra do seu estudo ter sido constituída por idosos com queixas subjetivas de memória, o que pode ter comprometido os resultados. Além disso, os exercícios realizados em casa e sem a supervisão de profissionais podem ter afetado a qualidade da realização desses movimentos. Outros fatores analisados pelos autores foram o intervalo de descanso e o tempo de transição entre os métodos (TA e TF), o que pode também ter contribuído para diminuir o tempo real do treinamento. Os autores afirmam ainda que a inclusão de outras estratégias como envolvimento de lideranças comunitárias, atividades em grupo, bem como, o aumento da motivação de forma personalizada, inclusão de intervenções multidisciplinares, abrangendo treinamento físico, estimulação cognitiva, orientações nutricionais, poderiam maximizar os efeitos positivos. Ainda nesse sentido, outras limitações foram informadas, como: a avaliação insuficiente das preocupações subjetivas de memória (baseada em déficits autorrelatados e com apenas três itens sobre a função cognitiva) e falta de informações sobre início e progressão de sintomas parecem comprometer os resultados.11
Esses achados contrastam com o que foi encontrado em uma revisão sistemática, na qual os autores verificaram melhoria da função cognitiva após intervenções com TA e TF, uma vez que houve melhoria da capacidade cardiovascular e circulatória, o que proporciona aumento do fluxo sanguíneo no tecido cerebral e, consequentemente, melhor nutrição na região.16
Em contraste a esses resultados, uma meta-análise apresentou ligeira diferença dos exercícios aeróbicos sobre os resistidos ao compará-los com os obtidos pelos grupos controle. Entretanto, as diferenças encontradas não se apresentaram como estatisticamente significativas (p = 0,10).17
A duração da intervenção realizada de TF também foi alvo de pesquisa, pois, o conhecimento sobre o período ideal de duração da intervenção para promover melhorias significativas na função cognitiva ainda carece de respostas. Alguns autores entendem que é possível realizar intervenções mais curtas de TF (como por exemplo, 12 semanas) e obter desfechos cognitivos positivos. Além disso, as limitações do estudo foram expostas e retrataram cautela na generalização dos resultados para demais grupos, pois, a população foi composta por idosos saudáveis. Além disso, de acordo com os autores, a ausência de cegamento dos avaliadores pode ter representado viés nos resultados.12
Por fim, em uma revisão sistemática foi visto que outro fator relevante a ser explanado é a importância do TF sobre a concentração do fator de crescimento IGF-1, uma vez que essa intervenção promove o aumento na concentração desse, o que se torna essencial para o processo de regeneração cerebral na área do hipocampo. Essa associação entre concentração de IGF-1 e cérebro também foi observada por outros autores que verificaram resultados positivos desse fator de crescimento sobre a função cognitiva nos praticantes de TF.13,18
Conclui-se que o treinamento de força é eficaz para melhorar a função cognitiva em idosos saudáveis, evidenciando a clara relação entre função cognitiva e física, uma vez que declínios cognitivos impactam a capacidade motora. Além do treinamento de força, métodos como treinamento cardiorrespiratório e de força em superfícies instáveis também demonstraram benefícios na função cognitiva, possivelmente devido aos desafios adicionais que oferecem. Cabe salientar ainda que a investigação sobre a duração ideal das intervenções que promovem esses efeitos positivos continua necessária, com estudos futuros explorando diferentes períodos de intervenção em diversas populações para um entendimento mais completo desse aspecto.
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