Abstract: Objective: to map the scientific evidence on the safety and security culture of healthcare professionals when facing the COVID-19 pandemic in mobile emergency and emergency services and emergency care. Methods: Scoping Review, developed according to JBI guidelines. A search was carried out in seven databases and the findings were sent to a file folder on the Rayyan platform. Results: 7,357 publications from which 19 articles and 03 documents from gray literature were selected. Conclusions: there was an exponential increase in cases of infection among health professionals at critical moments of the pandemic, repercussions on the mental health of professionals and high physical and social burdens. The security culture was affected by the lack of infrastructure, lack of protection and abandonment by health institutions and governments. Protecting urgency/emergency professionals must be a priority when fighting pandemics.
Keywords: COVID-19, Pandemics, Safety, Emergency medical services, Health personnel.
Resumo: Objetivo: mapear as evidências científicas sobre a cultura de segurança e segurança do profissional de saúde no enfrentamento da pandemia de COVID-19 nos serviços de urgência e emergência móveis e de pronto atendimento. Métodos:Scoping Review, desenvolvida segundo diretrizes de JBI. Realizou-se a busca em sete bases de dados e os achados foram encaminhados para uma pasta de arquivos da plataforma Rayyan. Resultados: 7.357 publicações das quais foram selecionados 19 artigos e 03 documentos da literatura cinzenta. Conclusões: houve elevação exponencial dos casos de infecção entre os profissionais de saúde nos momentos críticos da pandemia, repercussões na saúde mental dos profissionais e elevadas cargas físicas e sociais. A cultura de segurança foi afetada pela escassez de infraestrutura, desproteção e abandono pelas instituições de saúde e governos. Proteger os profissionais da urgência/emergência deve ser prioridade no enfrentamento de pandemias.
Palavras-chave: COVID-19, Pandemias, Segurança, Serviços médicos de emergência, Pessoal de saúde.
Resumen: Objetivo: mapear la evidencia científica sobre la cultura de seguridad de los profesionales de la salud ante la pandemia de COVID-19 en los servicios móviles de emergencia y urgencias y atención de emergencia. Métodos: Scoping Review, desarrollado según lineamientos del JBI. Se realizó una búsqueda en siete bases de datos y los hallazgos se enviaron a una carpeta de archivos en la plataforma Rayyan. Resultados: 7.357 publicaciones de las cuales se seleccionaron 19 artículos y 03 documentos de literatura gris. Conclusiones: hubo un aumento exponencial de casos de infección entre profesionales de la salud en momentos críticos de la pandemia, repercusiones en la salud mental de los profesionales y altas cargas físicas y sociales. La cultura de seguridad se vio afectada por la falta de infraestructura, desprotección y abandono por parte de las instituciones de salud y los gobiernos. Proteger a los profesionales de urgencias/emergencias debe ser una prioridad en la lucha contra las pandemias.
Palabras clave: COVID-19, Pandemias, Seguridad, Servicios médicos de urgencia, Personal de salude.
Revisão de Escopo
Cultura e segurança do profissional de saúde nos serviços de urgência e emergência em pandemia
Cultura y seguridad de los profesionales sanitarios en los servicios de urgencia y emergencia durante la pandemia

Recepción: 04 Junio 2024
Aprobación: 11 Julio 2024
A COVID-19 mudou significativamente a dinâmica laboral de todos os setores da sociedade com a medida do isolamento social. Os profissionais de saúde conviveram com um trabalho extenuante e os dos serviços de urgência e emergência permaneceram em constante assistência à saúde da população nas unidades de pronto atendimento e serviços de atendimento móvel de urgência.¹ Esses serviços estão disponíveis de maneira ininterrupta, 24 horas por dia e sete dias na semana, e os profissionais atuam na atenção imediata aos eventos que assolam a sociedade e asseguram a sobrevivência dos pacientes críticos.2
Os profissionais de saúde dos serviços de urgência e emergência desempenham um papel fundamental na gestão de crises de saúde pública, incluindo o surto de doenças infecciosas e contagiosas.3 Constituídos como o primeiro elo da cadeia de serviços de saúde, esses profissionais estiveram na linha de frente da prestação de cuidados a pacientes infectados com o SARS-CoV-2, altamente infeccioso.4
A COVID-19 acarretou expressivas mudanças no processo de trabalho e potencializou as vulnerabilidades e desafios já existentes nos serviços de urgência e emergência, resultando em repercussões devastadoras na segurança do profissional de saúde.5
Conceitualmente, a segurança do profissional de saúde é multidimensional, interdependente de dimensões: institucional e organizacional para a cultura de segurança em ambiente de trabalho, com disposição de infraestrutura adequada e de equipamentos de proteção;2 dimensões pessoal e profissional alicerçadas na integridade, na resiliência para adaptação a condições difíceis e imprevisíveis, em ações e práticas seguras e em equipe, na experiência profissional, no conhecimento para tomada de decisão eficiente e eficaz.3
A cultura de segurança, por sua vez, é compreendida como a “cultura organizacional em que os profissionais envolvidos no cuidado e gestores assumem responsabilidade pela sua própria segurança, de seus colegas, pacientes e familiares, isto é, individual e coletiva”.6 Abrange o fomento à resolução efetiva dos problemas de segurança, a disponibilização de recursos e infraestrutura para a manutenção desta e o incentivo ao aprendizado sobre os erros em detrimento da punição, com a promoção de uma cultura justa. Além de enfatizar a segurança acima de aspectos financeiros e organizacionais.7 Assim, a cultura atribui a “aplicação sistêmica e contínua de iniciativas, procedimentos, condutas e recursos na avaliação e controle de riscos e eventos adversos que afetam a segurança, a saúde humana, a integridade profissional, o meio ambiente e a imagem institucional”.6
Em vários países do mundo, os efeitos da pandemia na segurança dos profissionais de saúde foram substancialmente mais graves, devido a deficiência de materiais e recursos, carência de apoio institucional, infraestruturas precárias e recursos humanos insuficientes.8
A exposição frequente e prolongada a pacientes potencialmente contaminados, a intensificação da jornada e a maior complexidade das tarefas de trabalho, com redução das pausas e descanso, aumentaram indiretamente a probabilidade de infecção dos profissionais de saúde nos serviços de urgência e emergência, por comprometer os cuidados com a própria proteção. Destarte, os profissionais de saúde estiveram expostos a tensões psicológicas significativas e muitos desafios no manejo da COVID-19, favorecida pela proteção inadequada no início da epidemia, justificada pelo desconhecimento quanto ao patógeno, que afetou diretamente o desempenho do profissional.4,5
Contudo, em 05 de maio de 2023, após mais de três anos de início da pandemia de COVID-19, a Organização Mundial da Saúde declarou o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional referente à doença.9 Passado esse período crítico, hodiernamente, a incidência da COVID-19 diminuiu substancialmente e as taxas de vacinação progrediram, estabelecendo-se um cenário de controle da doença.10
Dado o exposto, indaga-se: qual o estado da arte sobre a cultura de segurança e segurança do profissional de saúde no enfrentamento da pandemia de COVID-19 nos serviços de urgência e emergência móveis e de pronto atendimento?
Este estudo teve por objetivo mapear as evidências científicas sobre a cultura de segurança e segurança do profissional de saúde no enfrentamento da pandemia de COVID-19 nos serviços de urgência e emergência móveis e de pronto atendimento.
Esta Scoping Review foi desenvolvida segundo diretrizes de JBI e PRISMA-ScR,11 com protocolo de pesquisa catalogado no Open Science Framework (https://osf.io/2pa86/), disponível no link (https://osf.io/2pa86/settings/#createVolsAnchor), com detalhes suficientes para possibilitar a replicação do estudo por outros pesquisadores, assegurando a fidedignidade e rigor metodológico.12
A questão de pesquisa desta revisão foi elaborada conforme a estratégia participants, concept e context (PCC),13 sendo P (Population): profissionais de Serviços de Urgência e Emergência; C (Concept): cultura de segurança e segurança do profissional no enfrentamento da pandemia de COVID-19; C (Context): o impacto do enfrentamento da pandemia de COVID-19 na cultura de segurança e segurança do profissional de saúde de unidades de pronto atendimento e serviços móveis de urgência.
Foram consideradas as seguintes etapas para o desenvolvimento desta revisão de escopo, segundo JBI: identificação da questão de pesquisa e dos critérios de inclusão e exclusão; identificação e a seleção dos estudos relevantes; avaliação da qualidade dos estudos; extração dos dados; agrupamento, síntese e apresentação dos dados; apresentação e interpretação dos resultados. Adota-se ao corpo de evidência o Sistema Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation e as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses - PRISMA-ScR.11
Realizou-se a busca em sete bases de dados: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Web of Science, Scopus, Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Cochrane Library, Embase e Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Foram incluídos estudos publicados na íntegra, disponíveis de maneira livre, nos idiomas inglês, espanhol e português, no período de 2020 a 2022, que versam sobre a temática estudada. Foram excluídas as publicações delineadas como editoriais, resenhas, cartas, relatos de experiências, ensaios teóricos, artigos de opiniões, revisões narrativas e integrativas.
A estratégia de busca, utilizada igualmente nas bases de dados consultadas, combinou os descritores, selecionados a partir do Medical Subject Headings Section (MeSH), Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e os operadores booleanos de forma conjugada ou articulada: “COVID-19” OR “2019 Novel Coronavirus Disease” OR “COVID-19 Pandemic” OR “Pandemics” AND “Safety” OR “Working Conditions” OR “Safety management” OR “Medidas de Seguridad” AND “Health Personnel” AND “Emergency Medical Services”.
A busca, seleção e a revisão dos artigos foram etapas realizadas de forma individual por dois pesquisadores e, quando necessário, um terceiro foi consultado em juízo. Inicialmente, realizou-se a busca nas sete bases de dados, utilizando os descritores booleanos, os critérios de inclusão e exclusão. Os achados foram encaminhados para uma pasta de arquivos da plataforma Rayyan e, posteriormente, efetuou-se a leitura do título e resumo para selecionar os artigos compatíveis com a temática estudada. Os artigos previamente selecionados foram lidos na íntegra, definindo os que contemplaram os critérios de inclusão e a temática da pesquisa, extraindo os principais dados para análise.
Processou-se a sumarização dos dados, categorizando os artigos eleitos quanto ao nível de evidência, concordante com a classificação da Prática Baseada em Evidência. Considerou-se cinco níveis na caracterização da força da evidência: nível 1, evidência forte de, pelo menos, uma revisão sistemática de múltiplos estudos randomizados, controlados, bem delineados; nível 2, evidência forte de, pelo menos, um estudo randomizado, controlado, de delineamento apropriado e tamanho adequado; nível 3, evidência de estudos bem delineados sem randomização, grupo único pré e pós-coorte, séries temporais ou caso-controle pareado; nível 4, evidência de estudos bem delineados não experimentais, realizados em mais de um centro ou grupo de pesquisas; nível 5, opiniões de autoridades respeitadas, baseadas em evidências clínicas, estudos descritivos ou relatórios de comitês de especialistas.14
Após apresentação dos dados sumarizados (Quadro 1), iniciou-se o processo de escrita do presente artigo. A Figura 1 sintetiza o processo de busca inicial, exclusão e seleção da amostragem de estudos apresentando as etapas: identificação, seleção, elegibilidade e inclusão.

A busca em sete bases de dados gerou um quantitativo de 7.357 estudos. Com a leitura de título e resumo foram selecionados 93 artigos para leitura na íntegra. Após essa etapa, 74 artigos foram excluídos, com o resultado de 19 estudos que versavam sobre a temática proposta e 03 documentos da literatura cinzenta.
Haja vista os desdobramentos da pandemia após a realização deste estudo, foi necessário buscar referência sobre o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional referente à COVID-19.
O quadro 1 apresenta descritivamente os resultados da pesquisa, contemplando as características principais dos estudos, como autores, ano de publicação, país, tipo de estudo, quantitativo de participante, base de dados, nível de evidência, objetivo(s), conclusão.
Quadro 1 - Descrição dos estudos incluídos: autores, ano de publicação, país, tipo de estudo, quantitativo de participante, base de dados e nível de evidência, objetivo(s), conclusão. 2022.

Fonte: bases de dados.
Em relação ao ano de publicação, 58% dos estudos foram publicados em 2021, 21% em 2020 e 21% em 2022. O desenho de estudo predominante foi o tipo transversal com 11 artigos, seguidos de qualitativo (3), descritivo (2), revisões sistemáticas (1), observacional (1) e coorte (1). Sendo oriundos de vários países: Estados Unidos (3), China (2), Espanha (2), Turquia (2), Brasil (1), Polônia (1), Irã (1), Austrália (1), Coreia do Sul (1), Holanda (1), País de Gales (1), Egito (1), Japão (1) e Alemanha (1).
Durante o período pandêmico, os serviços de urgência e emergência constituíram a principal porta de entrada no sistema de saúde para os pacientes em estado crítico, com suspeita ou infecção confirmada pelo SARS-CoV-2. Por conseguinte, caracterizou-se como o serviço da rede de atenção à saúde com maior risco para os profissionais em atuação. Estes profissionais, lidaram com pacientes sintomáticos, possivelmente transmitindo o vírus, mas sem a confirmação diagnóstica da doença.1,15
Nos momentos críticos da pandemia de COVID-19, os serviços de urgência e emergência vivenciaram uma elevação exponencial dos casos de infecção entre os profissionais de saúde, riscos ocupacionais ocasionados pelo vírus, além de modificações substanciais no processo laboral.16-17 As profissões da saúde são heterogêneas, algumas categorias profissionais ficam mais vulneráveis, expostas, sem suporte e proteção.17-18 Neste espectro, três estudos demonstram a prevalência de infecção nos profissionais de enfermagem,1,17,18 podendo ser explicada pela maior exposição a pacientes infectados, sobrecarga de trabalho em condições precárias e desvalorização profissional.1
A ambiência dos serviços de urgência e emergência impacta diretamente na segurança do profissional de saúde. A infraestrutura dos estabelecimentos de saúde não era adequada para o isolamento dos pacientes com diagnóstico confirmado ou suspeito de infecção pelo SARS-CoV-2, expondo ainda mais um déficit já existente na estrutura de trabalho.16,19
É evidente que os profissionais que atuam em um ambiente com escassez de recursos e ausência de suporte organizacional, estão mais suscetíveis aos riscos ocupacionais e danos mentais, sendo potencializado quando a cultura de segurança é inadequada.Ao desconsiderar o fator da organização do trabalho e dos serviços, pode-se atribuir culpa aos profissionais por questões que são estruturais e de responsabilidade das instituições.19 No contexto da pandemia de COVID-19, a autopercepção de segurança pelos profissionais obteve melhoria por meio de políticas organizacionais, que incluíram estratégias para reduzir o risco de infecção entre os servidores, treinamentos regulares e acesso adequado aos EPI.20
A oferta e uso adequado dos EPI compõem a cultura de segurança, uma vez que o acesso insuficiente ao EPI está associado a níveis elevados de ansiedade, medo, e maior risco laboral.2,5,17,20,21 Impasses relacionados aos EPI, sobretudo durante a execução de procedimentos invasivos, como a intubação orotraqueal e higiene brônquica, pode elevar sintomas de ansiedade nos profissionais dos serviços de urgência e emergência, pelo risco acrescido de infecção pelo SARS-CoV-2 por aerossóis.2,20 Ademais, existe uma relação estabelecida entre o acesso e uso adequado de EPI, e risco de desenvolvimento de sintomas característicos de COVID-19.17 Contudo, destaca-se que ao passo que o uso de EPI resulta em um estado mental favorável para atuação profissional, a utilização por períodos prolongados está associada a desconforto e exaustão.22
Com vistas às circunstâncias adversas do atendimento de emergência pré-hospitalar, foi evidente a exposição dos profissionais ao maior risco de contaminação pelo SARS-CoV-2, sendo os EPI um elo significativo de proteção, além de subsidiar uma atuação profissional segura e efetiva.23,24 Entretanto, o uso de EPI no ambiente extra-hospitalar, dificulta a movimentação, visão e agilidade, fatores imprescindíveis para o atendimento de emergências.5 Ao oposto dos estabelecimentos de saúde, os profissionais de emergência pré-hospitalares desempenham suas funções em um ambiente restrito, hermético, com movimentação limitada e maior proximidade com paciente, sendo ainda mais desafiador para a segurança pessoal.22,25
Diante de um agente etiológico até então desconhecido e a assistência a pacientes com uma doença sem tratamento definido, os profissionais de saúde vivenciaram um cenário de incertezas extremas. A evolução exponencial da doença não acompanhou o desenvolvimento de conhecimento científico para prevenção e tratamento. Diante disso, a ausência de treinamento organizacional específico foi uma realidade nos serviços de saúde, o que exigiu resiliência dos profissionais no desenvolvimento de competências assistenciais frente à necessidade imposta.5
Em circunstâncias de incertezas, era essencial a credibilidade das informações acessadas e a confiabilidade nas fontes de informação.16 Diariamente um grande fluxo de informações sobre a doença era produzido e compartilhado, o que gerou uma divergência entre governos, mídias sociais e literatura científica, impactando na confiança e segurança de atuação dos profissionais de saúde da linha de frente.16,24
O bem-estar emocional e psíquico de profissionais foi perturbado pela pandemia de COVID-19, sendo apontado por 11 dos 19 estudos inclusos nesta revisão. As alterações das rotinas laborais habituais em um cenário crítico, elevou a vulnerabilidade dos profissionais à ansiedade, estresse e depressão, descrita em 11 estudos,1,5,23,15,16,17,25,21,18,26,27 transtorno de estresse pós-traumático,15,26,28 insôniae burnout. 5,17,19 Ademais, a prevalência desses sintomas psicoemocionais nos profissionais de saúde foi mais elevada do que na população geral.26 Além disso, a atuação profissional na pandemia relacionou-se com uma maior incidência de abuso de álcool e automedicação.5,29 Consistentemente, 4 estudos apontaram que as mulheres foram expressas como vulneráveis aos problemas mentais decorrentes da atuação na pandemia de COVID-19, isso se deve à predominância feminina na área da saúde, discriminação de gênero, síndrome do desgaste por empatia e imposição de conciliação entre a vida familiar e a profissional.1,25,29,27
Sob análise organizacional, essas psicopatologias são mais prevalentes em profissionais de saúde que atuam em instituições públicas, se comparadas com as privadas. O número maior de pacientes e disposição menor de recursos humanos, explicam essa ocorrência.2 Ademais, existe uma relação de maior acometimento mental em profissionais com menos tempo de experiência profissional,2,25 uma vez que tempo maior de prática clínica resulta em melhor capacidade de autogerenciamento de emoções adversas.28
Os principais preditores físicos, psicológicos e sociais para as alterações mentais em profissionais da linha de frente impactaram diretamente na sua segurança e relacionam-se com a exposição ao risco de infecção,18 ambiente de trabalho,2,18 enfrentamento do processo de morte e morrer,18 imposição do isolamento social,17 falta de recursos físicos e humanos,5,20 medo de infectar familiares e amigos,15,16,24 e incerteza sobre a duração da pandemia.21 Nesse cenário de calamidade pública, os profissionais da linha de frente viveram uma dissonância entre a vida pessoal e profissional. A vida familiar foi cerceada, enquanto a carga de trabalho aumentou em descompasso, e por consequência o tempo dedicado ao círculo social foi diminuído.21,24,29
Como limitação desta Scoping Review aponta-se o recorte para a síntese das evidências, por ter sido realizada no decorrer da pandemia de COVID-19.
Contribuições para a prática: este estudo apresenta a síntese de evidências que contribuem para a segurança dos profissionais de saúde em pandemias e para mitigar os fatores que comprometem a cultura de segurança nos serviços de urgência e emergência.
A segurança dos profissionais de saúde e a cultura de segurança dos serviços de urgência e emergência foram abaladas na pandemia de COVID-19. As principais repercussões se relacionam à saúde mental dos profissionais, elevadas cargas físicas e sociais, a escassez de infraestrutura, desproteção e abandono pelas instituições de saúde e governos. Proteger os profissionais da urgência/emergência deve ser prioridade no enfrentamento de pandemias.
A pandemia de COVID-19 ratifica o compromisso dos serviços em consolidar as medidas de segurança de profissionais da saúde na linha de frente em pandemias, considerando a indicação dos estudos referenciados nesta revisão, sobre a prioridade da cultura de segurança das instituições, a organizacional. A intervenção sobre as vulnerabilidades expostas por uma doença de alta transmissibilidade torna-se precisa, perante os efeitos de uma atuação profissional crítica. Cabe às instituições a promoção de uma cultura de segurança adequada, por meio da gestão da força de trabalho, suporte profissional e controle do desgaste ocupacional, sobretudo na saúde mental.
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